2.10.18

Santo Tomás sobre o Anticristo (acerca de 2 Tes 2,1-4)



Excertos de TOMÁS DE AQUINO, Sto. Comentário a Tessalonicenses. Trad. Tiago Gadotti. Porto Alegre: Concreta, 2015, pp. 129-139.

Ora nós vos rogamos, irmãos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e pela nossa reunião com ele, que não vos movais facilmente dos vossos sentimentos nem vos perturbeis por qualquer espírito, ou por certos discursos, ou por qualquer carta como enviada de nós, como se o dia do Senhor estivesse perto. Ninguém de modo algum vos engane, porque isto não será sem que antes venha a apostasia e sem que tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se oporá a Deus e se elevará sobre tudo o que se chama Deus ou que é adorado, de sorte que se sentará no templo de Deus, apresentando-se como se fosse Deus. (2 Tes 2,1-4)

“27. Mais acima o Apóstolo mostrou as coisas futuras quanto à pena dos maus e ao prêmio dos bons; aqui anuncia as coisas futuras quanto aos perigos para a Igreja, que existirão no tempo do Anticristo. [...]

31. Mas alguém é seduzido por uma falsa revelação; por isso diz: por qualquer espírito, isto é, se alguém disser que lhe foi revelado por meio do Espírito Santo, ou pelo Espírito Santo, algo que é contrário à minha [de Paulo] doutrina, não vos aterrorizeis. [...]

33. Ao dizer em seguida: Sem que antes venha a apostasia, etc., afirma a verdade; e primeiro mostra as coisa que hão de vier no advento do Anticristo. E são duas: uma delas precede o advento do Anticristo; a outra é o seu próprio advento.

34. A primeira é a apostasia, que é multiplamente exposta na Glosa. Primeiro, da fé, porque a fé havia de ser recebida em todo o mundo. Mat. 24,14: Será pregado este Evangelho do reino por todo o mundo. Isto portanto precede [a apostasia] [...]; e depois disso muitos apostatarão da fé, etc. I Tim. 4,1: Nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, etc. Mat. 24,12: A caridade de muitos se esfriará. Ou apostasia do Império Romano, ao qual o mundo todo estava sujeito. [...] e após a apostasia, o advento de Cristo. [e diz] que isto era um signo conveniente, porque o Império Romano foi firmado para que sob seu poder a fé fosse pregada por todo o mundo.

35. Mas como pode ser isto, uma vez que as nações já se apartaram do Império Romano e contudo o Anticristo ainda não veio? Deve dizer-se que [o Império Romano] não cessou, mas comutou-se de temporal em espiritual, como diz o Papa Leão no sermão sobre os apóstolos. E por isso se deve dizer que a apostasia do Império Romano é entendida não só do temporal, mas do espiritual, ou seja, da fé católica da Igreja Romana. Mas este sinal é conveniente, pois, assim como Cristo veio quando o Império romano dominava sobre todos, assim, pelo contrário, um sinal do Anticristo é a apostasia dele.

36. Em segundo lugar, prediz o segundo que virá, a saber, o Anticristo. E, primeiro, quanto à sua culpa e pena; segundo, quanto ao seu poder: a vinda dele. [...]

37. Portanto, diz: virá primeiro a apostasia, e então ele será revelado. Ele é chamado, porém, de homem de pecado, o filho da perdição, porque, segundo a Glosa, assim como em Cristo abundou a plenitude da virtude, assim no Anticristo [abundará] a multidão de todos os pecados. E, assim como Cristo é melhor que todos os santos, assim ele [será] pior que todos os maus. E por isso é chamado homem do pecado, pois se entregará totalmente aos pecados. Mas não diz homem do pecado de tal modo que não possa ser pior, porque o mal nunca corrompe todo o bem, embora quanto ao agir não pudesse ser pior. Mas nenhum homem poderia ser melhor que Cristo. Diz, porém, filho da perdição, isto é, ele será destinado à extrema perdição. Jó 21,30: O ímpio é reservado para o dia da vingança, e será conduzido ao dia do furor. Ou da perdição, isto é, do Diabo, nã por natureza, mas pelo complemento da sua malícia, que se completará nele. E diz será revelado, porque, assim como todos os bens e todas as virtudes dos santos que precederam o Cristo foram figuras de Cristo, assim em todas as perseguições da Igreja os tiranos foram como figuras do Anticristo, que estava latente neles: e assim toda a malícia, que estava latente neles, será revelada naquele tempo.

[...]

39. Mas sua culpa é dupla, ou seja, a contrariedade a Deus; por isso diz: se oporá a todos os bons espíritos. Jó 15,26-27: Correu contra Deus com o pescoço levantado, e com a cerviz gorda armou-se, a si e a seus membros. Is. 3,8: As suas palavras e as suas obras são contra o Senhor, para provocarem os olhos da sua majestade. A segunda [culpa] é porque ele se prefere a Cristo. Por isso diz: se elevará, et. Diz-se Deus de três modos: primeiro, naturalmente. Deut. 6,4: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Segundo, opinativamente. Sal. 95,5: Todos os deuses das gentes são demônios. Terceiro, participativamente. Sal. 81,6: Eu disse: sois deuses. Mas o Anticristo prefere-se a todos estes. Dan. 11,36: Elevar-se-á e engrandecerá contra todo o deus; falará insolentemente contra o Deus dos deuses.

40. Mas o sinal da culpa dá-se quando diz: De sorte que se sentará no templo, etc. Com efeito, a soberba do Anticristo é maior do que a de todos os precedentes. Por isso, como se lê sobre Caio César, que quando ainda vivo quis ser adorado, pondo uma estátua sua em certo templo, e [como] se diz em Ezequiel (28,2) sobre o rei de Tiro: disseste: Eu sou Deus, assim é crível que o Anticristo faça o mesmo, dizendo ser Deus e homem. E como sinal disto se sentará no templo. Mas em que templo? Não foi ele destruído pelos romanos? E por isso dizem alguns que o Anticristo é da tribo de Dan, que não está nomeada entre as outras doze tribos em Apocalipse 7,5-8. E por isso os judeus serão os primeiros a recebe-lo e reedificarão o templo em Jerusalém, e assim Mat. 24,15: Quando, pois, virdes a ‘abominação da desolação’, que foi predita pelo profeta Daniel, posta no lugar santo – o que lê entenda. Mas outros dizem que nem Jerusalém nem o templo jamais serão reedificados, mas a desolação permanecerá até a consumação e o fim. E crêem nisto até alguns judeus. E por isso se expõe no templo de Deus, isto é, na Igreja, porque muitos da Igreja o receberão. Ou segundo Agostinho sentar-se-á no templo de Deus, isto é, reinará e dominará, como se ele com seus núncios fossem o templo de Deus, assim como Cristo é com os seus".


Detalhe de "Triunfo de Santo Tomás sobre os hereges"
(1489-91), de Filippino Lippi

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