Excertos de TOMÁS DE AQUINO, Sto. Comentário a Tessalonicenses. Trad. Tiago Gadotti. Porto Alegre:
Concreta, 2015, pp. 129-139.
Ora nós vos rogamos, irmãos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e pela nossa reunião com ele, que não vos movais facilmente dos vossos sentimentos nem vos perturbeis por qualquer espírito, ou por certos discursos, ou por qualquer carta como enviada de nós, como se o dia do Senhor estivesse perto. Ninguém de modo algum vos engane, porque isto não será sem que antes venha a apostasia e sem que tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se oporá a Deus e se elevará sobre tudo o que se chama Deus ou que é adorado, de sorte que se sentará no templo de Deus, apresentando-se como se fosse Deus. (2 Tes 2,1-4)
“27. Mais acima o Apóstolo mostrou as coisas
futuras quanto à pena dos maus e ao prêmio dos bons; aqui anuncia as coisas
futuras quanto aos perigos para a Igreja, que existirão no tempo do Anticristo.
[...]
31. Mas alguém
é seduzido por uma falsa revelação; por isso diz: por qualquer espírito, isto é, se alguém disser que lhe foi
revelado por meio do Espírito Santo, ou pelo Espírito Santo, algo que é
contrário à minha [de Paulo] doutrina, não
vos aterrorizeis. [...]
33. Ao dizer
em seguida: Sem que antes venha a
apostasia, etc., afirma a verdade; e primeiro mostra as coisa que hão de
vier no advento do Anticristo. E são duas: uma delas precede o advento do
Anticristo; a outra é o seu próprio advento.
34. A
primeira é a apostasia, que é multiplamente exposta na Glosa. Primeiro, da fé,
porque a fé havia de ser recebida em todo o mundo. Mat. 24,14: Será pregado este Evangelho do reino por
todo o mundo. Isto portanto precede [a apostasia] [...]; e depois disso muitos
apostatarão da fé, etc. I Tim. 4,1: Nos
últimos tempos alguns apostatarão da fé, etc. Mat. 24,12: A caridade de muitos se esfriará. Ou
apostasia do Império Romano, ao qual o mundo todo estava sujeito. [...] e após
a apostasia, o advento de Cristo. [e diz] que isto era um signo conveniente,
porque o Império Romano foi firmado para que sob seu poder a fé fosse pregada
por todo o mundo.
35. Mas
como pode ser isto, uma vez que as nações já se apartaram do Império Romano e
contudo o Anticristo ainda não veio? Deve dizer-se que [o Império Romano] não
cessou, mas comutou-se de temporal em espiritual, como diz o Papa Leão no
sermão sobre os apóstolos. E por isso se deve dizer que a apostasia do Império
Romano é entendida não só do temporal, mas do espiritual, ou seja, da fé católica
da Igreja Romana. Mas este sinal é conveniente, pois, assim como Cristo veio
quando o Império romano dominava sobre todos, assim, pelo contrário, um sinal
do Anticristo é a apostasia dele.
36. Em
segundo lugar, prediz o segundo que virá, a saber, o Anticristo. E, primeiro,
quanto à sua culpa e pena; segundo, quanto ao seu poder: a vinda dele. [...]
37.
Portanto, diz: virá primeiro a apostasia, e então ele será revelado. Ele é chamado,
porém, de homem de pecado, o filho da
perdição, porque, segundo a Glosa, assim como em Cristo abundou a plenitude
da virtude, assim no Anticristo [abundará] a multidão de todos os pecados. E,
assim como Cristo é melhor que todos os santos, assim ele [será] pior que todos
os maus. E por isso é chamado homem do
pecado, pois se entregará totalmente aos pecados. Mas não diz homem do pecado de tal modo que não
possa ser pior, porque o mal nunca corrompe todo o bem, embora quanto ao agir
não pudesse ser pior. Mas nenhum homem poderia ser melhor que Cristo. Diz,
porém, filho da perdição, isto é, ele
será destinado à extrema perdição. Jó 21,30: O ímpio é reservado para o dia da vingança, e será conduzido ao dia do
furor. Ou da perdição, isto é, do
Diabo, nã por natureza, mas pelo complemento da sua malícia, que se completará
nele. E diz será revelado, porque,
assim como todos os bens e todas as virtudes dos santos que precederam o Cristo
foram figuras de Cristo, assim em todas as perseguições da Igreja os tiranos
foram como figuras do Anticristo, que estava latente neles: e assim toda a
malícia, que estava latente neles, será revelada naquele tempo.
[...]
39. Mas sua
culpa é dupla, ou seja, a contrariedade a Deus; por isso diz: se oporá a todos os bons espíritos. Jó
15,26-27: Correu contra Deus com o
pescoço levantado, e com a cerviz gorda armou-se, a si e a seus membros.
Is. 3,8: As suas palavras e as suas obras
são contra o Senhor, para provocarem os olhos da sua majestade. A segunda [culpa]
é porque ele se prefere a Cristo. Por isso diz: se elevará, et. Diz-se Deus de três modos: primeiro, naturalmente.
Deut. 6,4: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso
Deus é o único Senhor. Segundo, opinativamente. Sal. 95,5: Todos os deuses das gentes são demônios.
Terceiro, participativamente. Sal. 81,6: Eu
disse: sois deuses. Mas o Anticristo prefere-se a todos estes. Dan. 11,36: Elevar-se-á e engrandecerá contra todo o
deus; falará insolentemente contra o Deus dos deuses.
40. Mas o
sinal da culpa dá-se quando diz: De sorte
que se sentará no templo, etc. Com efeito, a soberba do Anticristo é maior
do que a de todos os precedentes. Por isso, como se lê sobre Caio César, que
quando ainda vivo quis ser adorado, pondo uma estátua sua em certo templo, e [como]
se diz em Ezequiel (28,2) sobre o rei de Tiro: disseste: Eu sou Deus, assim é crível que o Anticristo faça o
mesmo, dizendo ser Deus e homem. E como sinal disto se sentará no templo. Mas
em que templo? Não foi ele destruído pelos romanos? E por isso dizem alguns que
o Anticristo é da tribo de Dan, que não está nomeada entre as outras doze
tribos em Apocalipse 7,5-8. E por isso os judeus serão os primeiros a recebe-lo
e reedificarão o templo em Jerusalém, e assim Mat. 24,15: Quando, pois, virdes a ‘abominação da desolação’, que foi predita pelo
profeta Daniel, posta no lugar santo – o que lê entenda. Mas outros dizem
que nem Jerusalém nem o templo jamais serão reedificados, mas a desolação
permanecerá até a consumação e o fim. E crêem nisto até alguns judeus. E por
isso se expõe no templo de Deus, isto
é, na Igreja, porque muitos da Igreja o receberão. Ou segundo Agostinho sentar-se-á no templo de Deus, isto é,
reinará e dominará, como se ele com seus núncios fossem o templo de Deus, assim
como Cristo é com os seus".
Detalhe de "Triunfo de Santo Tomás sobre os hereges"
(1489-91), de Filippino Lippi

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