2.10.18

Direita e esquerda (2)


Continuação dos comentários aos trechos de: RANQUETAT JR., César. Da Direita Moderna à Direita Tradicional: Análise de uma categoria metapolítica. Curitiba: Prismas, 2017.

Abrangendo os capítulos 3 a 7, que tratam: do “simbolismo universal da direita e da esquerda”; da “direita liberal”; da “direita conservadora”; dos limites do “conservadorismo” e da “direita tradicional”; finalmente, da “nova direita brasileira”.

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Direita e esquerda é uma dicotomia que excede o universo da política. São, especialmente, categorias ideológicas, cosmológicas e antropológicas, com uma incontornável dimensão simbólica. [...] Como será visto neste capítulo, apresenta um vínculo com outras duas dicotomias mais básicas: a oposição entre o sagrado e o profano e o antagonismo entre espírito e matéria. Segundo o cientista social Dalmacio Pavón, a relação direita e esquerda evoca o eterno conflito entre o cosmos – a ordem – e o caos (p. 89).


Sobre a etimologia e os significados metafísicos da dicotomia direita-esquerda, recolho alguns exemplos significativos, dos vários presentes no capítulo 3 do livro, suficientes para as reflexões que seguirão:


A etimologia destas noções [direita e esquerda] é altamente sugestiva. [...] O adjetivo daksina, presente na língua hindu, tem o sentido de “direito”, [...] significando também moral, honesto, amável, cortês. [...] (p. 90).

 [..] Em latim, direita é dexter, termo que tem relação com decet, que é conveniente, decente e decoro e decus, que remete às noções de moralidade, virtude e dever. [...] A esquerda, em latim, é sinistre, sinistra, laeva e seaevus, que significa adversidade, infelicidade e incorreto. [...] (p. 91).

 Em espanhol, direita é derecha e direito é derecho. Derecho com a significação de justo, fundado, legítimo. [...] Esquerda é izquierda, sendo que izquierda quer dizer torto, não reto. [...] (pp. 91-92).

 No inglês, direita e também direito são denominados right, que sugerem as ideias de reto, justo, verdadeiro e conveniente. Esquerda é left, que, primordialmente, tinha o sentido de débil e sem valor. [...] (p. 92).

 O português sege esta tradição semântica. Direito é sinônimo de justiça, razoabilidade e correção. [...] Endireitar é corrigir, emendar, retificar alguma coisa ou alguém. [...] existe também a palavra destro com a significação de ágil e rápido e sinistro que indica algo funesto (pp. 93-94).

 A tradição cristã é rica em imagens e metáforas que remetem a essa polaridade. [...] Em Mt V,29-30, Cristo afirma: “Se o teu olho direito te leva a pecar....” [...] os autores cristãos que realizaram a exegese desta passagem explicaram que o olho direito é o conselheiro do homem nas coisas divinas, já o olho esquerdo é o conselheiro do homem nos assuntos humanos. Ademais, a mão direita é considerada como a indicada para a realização das boas obras e a mão esquerda é a recomendada para a execução das atividades necessárias à manutenção do corpo. [...] Em Mt VI,3, Cristo diz: “Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda, não deixes tua mão esquerda saber o que faz a direita”. Em Mt XXV,31-46, descreve-se o juízo final em que os bem-aventurados são colocados à direita de Deus e os condenados à sua esquerda. Orígenes, teólogo da Patrística grega, assim interpreta esta imagem: “[...] os que fizeram obras direitas, receberam como prêmio de suas obras direitas a direita do Rei, na qual está o descanso e a glória; [...] os maus por suas obras péssimas e sinistras, caíram na sinistra, isto é, na tristeza dos tormentos” (pp. 100-101).

 Em Mt XVI, 5, é narrado que as santas mulheres, ao entrar no sepulcro, encontraram o túmulo vazio, contudo viram sentado, ao lado direito, um jovem, e este anunciou a ressureição. São Gregório Magno, ao comentar esse trecho dos evangelhos, esclarece: “Que significa a esquerda se não a vida presente e a direita se não a vida eterna?” (p. 101).

A alteração dessa hierarquia, com a primazia da esquerda e, portanto, da matéria, da natureza física, do informe e indeterminado, explica boa parte das perversões do mundo contemporâneo. O elemento material e informe do real liberto de qualquer princípio superior ordenador torna-se uma força corrosiva e desintegradora (p. 111).


Comentário: Estes trechos revelam dois modos de classificação da dicotomia direita e esquerda: uma primeira (das etimologias) que se refere, respectivamente, ao “justo” e ao “injusto”, e uma outra (presente em alguns dos trechos e exegeses bíblicos) que se refere ao “eterno” e ao “temporal”.

Tendo em vista o último trecho do autor, que indica a opção pela primazia da esquerda no mundo moderno como primazia da “matéria”, a dicotomia eterno-temporal parece ter uma prioridade, e seria possível compreender uma relação originária não necessariamente de contrariedade, mas de subordinação da esquerda à direita, ou do século ao sobrenatural, pela qual a primeira estaria “justificada”. Pensar na possibilidade de harmonização do temporal e do eterno, do temporal sob o eterno, parece uma visão justa, à luz da Fé cristã, da doutrina da Encarnação e da Ressurreição da carne.

Por outro lado, a “esquerda” moderna ou a esquerda “sinistra” é precisamente a opção pela ruptura. E quando temos a contrariedade entre direita e esquerda (refletida nas etimologias e em certas passagens bíblicas), trata-se da contrariedade entre o justo e o injusto decorrente da inversão da realidade, ou da subordinação do eterno ao temporal, com o consequente esquecimento do primeiro.

A realidade é que, sem a mencionada harmonia, a “direita” também poderá representar uma perspectiva e uma reação desequilibradas, na medida em que confundir o âmbito do “espírito” com o do “individual”, no sentido liberal derivado do nominalismo, ou que desdenhar das legítimas preocupações sociais. E que a “esquerda” revolucionária e imanentista é a deturpação de uma legítima dimensão humana, que é a histórica, muito bem vista na cosmovisão cristã; ou o anseio da chamada justiça social dos esquerdistas reverbera de algum modo o profetismo bíblico que denunciava as injustiças, mas esquecendo a filiação divina e o destino eterno da pessoa humana, e imanentizando a escatologia.

Entre o individualismo da direita moderna e o coletivismo da esquerda há a mediania superior de um, por assim dizer, personalismo comunitário, visão que deriva da Fé católica e se expressa na Doutrina Social da Igreja.

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A respeito da direita liberal, da conservadora e da tradicional, bem como da nova direita brasileira, reproduzirei alguns significativos trechos do autor, com os quais preciso dizer que me encontro de acordo, e farei, ao final, um comentário a respeito do “tradicionalismo” e do "reacionarismo":

A direita liberal é a faceta moderna e contemporânea da direita. É a direita predominante na atualidade, a mais aceita e influente. Parece ser a única direita permitida pelo establishment. É, além disso, a tendência doutrinária, à direita do espectro político, mais próxima do espírito da modernidade. Não há como negar que a direita liberal e a esquerda progressista são herdeiras das Luzes; representando o liberalismo, a vertente moderada do Iluminismo; e o socialismo revolucionário encarnando a linhagem radical (p. 119).

O modo de pensar liberal [...] é caracterizado pela ideia axial da autossuficiência do homem e do mundo, pela absoluta autônima da ordem temporal e, portanto, pela separação da razão individual da ordem revelada. O liberalismo é, em linhas gerais, uma ideologia política naturalista, racionalista e de matiz individualista, que conduz ao secularismo e à posição singularmente moderna de que é possível construir uma ordem social que não esteja subordinada e, desse modo, orientada à ordem sobrenatural (p. 151).

Nas sociedades liberais, o economicismo reinante estimula o pragmatismo e o utilitarismo, seus irmãos siameses. Valorizam-se, sobremaneira, as atividades que são úteis, que têm um impacto imediato e possibilitam uma aplicação prática. Produtividade, rendimento, prosperidade, sucesso, eficiência e eficácia transmutam-se em palavras mágicas e sagradas, os novos mantras de uma civilização quantitativa que glorifica de maneira hipertrófica o progresso material, tecnológico e industrial (p. 156).

Não há como negar que existe uma relação direta entre o avanço do capitalismo e a liberalização dos costumes. [...] (p. 158).

Mais do que um sistema econômico, o capitalismo é um modo de vida, uma mentalidade, uma forma de civilização que impulsiona a destruição do senso de medida, os limites e as fronteiras, em sua obsessiva procura de crescimento econômico, da expansão dos mercados e da produção incessante de novos objetos e bens de consumo [...] (p. 159).

Ademais, o liberalismo econômico é a doutrina que tende a fazer do modelo de mercado autorregulado o paradigma de todos os fatos sociais (Benoist). Inclina-se à mercantilização de todas as atividades humanas e campos da vida social, não se limitando a apregoar apenas uma economia de mercado, mas também, uma sociedade de mercado (p. 159).

O liberalismo é um ideário político que se situa à direita da esquerda revolucionária. [...] Encontra-se circunstancialmente à direita do espectro político, sem ser originária e fundamentalmente de direita. Por conta do movimento inexoravelmente sinistrógiro, esquerdizante, da sociedade capitalista liberal, na maior parte das vezes, a direita moderna não é mais do que uma antiga esquerda (Michéa) (p. 179). 

[...] O ideal de liberdade e autonomia individual, defendido pelo liberalismo clássico, pode perverter-se na utopia da libertação de toda ordem moral objetiva, em um modo de individualismo atomístico e narcisista que conduz à anomia e à desordem social, avassalando todos os laços e vínculos comunitários indispensáveis à formação e ao amadurecimento da personalidade humana [...] (p. 183). 

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Para o sociólogo Kark Mannheim, a forma de pensar conservadora é originalmente de índole prática, consistindo em orientações habituais fundadas em crenças, tradições religiosas e mitos. O pensamento conservador inclina-se a aceitar o mundo circundante com toda a acidentalidade de sua concreção, como se fosse a própria ordem do mundo, com a qual o homem deve conformar-se e reconhecê-la (p. 187; grifos meus).

Em linhas gerais, o conservadorismo representa uma força de contenção às ideologias revolucionárias modernas de orientação jacobina e bolchevique. Historicamente, surge como uma resposta crítica à Ilustração, à Revolução Francesa, assim como à sociedade surgida da Revolução Industrial (p. 192).

A política, segundo os conservadores, é a arte do possível (p. 207).

O conservador é simpático à economia de mercado [...] Porém não acredita que o mercado seja capaz de resolver todos os problemas humanos. Nem tudo é negociável, nem tudo pode ser mercantilizado. O mercado precisa estar subordinado a uma ordem legal e moral. Sem essas restrições jurídicas e éticas, torna-se uma força dissolvente (p. 212). 

Os conservadores insistem na importância dos elementos sagrados, religiosos e não utilitários da existência humana. Argumentam que os homens não vivem apenas movidos pela razão e por relações puramente contratuais e mercantis. [...] (p. 219) 

O religioso é um elemento de controle social e moral, e, desse modo, uma instituição e prática de inestimável relevância para conter os impulsos, os instintos animais e as cobiças (p. 220). 

Conforme Nisbet, é apenas o aspecto institucional da religião que está ligado ao conservadorismo, dessa maneira, seria absurdo imaginar que os conservadores terima mais devoção religiosa que os liberais e socialistas (p. 222).

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O conservadorismo é uma força de contenção, um sistema de freio e controle dos processos desagregadores da modernidade, porém não é, de forma alguma, uma vertente de pensamento e uma orientação existencial de contestação global ao establishment, que, portanto, busque uma renovação e reconstrução da ordem social. Procura, tão somente atenuar e suavizar os efeitos deletérios do liberalismo. Concretamente, é uma forma moderada de liberalismo que, grosso modo, contenta-se com uma ação de retaguarda no tocante ao radicalismo revolucionário progressista. [...] Os conservadores sempre intencionaram conciliar a liberdade com a ordem; a liberdade do liberalismo e a ordem nascida com a revolução. Desse modo, o ‘partido conservador’ é, por via de regra, o conservador da revolução, consolidando ou amainando os avanços progressistas. Os conservadores, com o temor de ser tachados de ‘reacionários’, adotaram atitudes de contemporização e mesmo de aceitação dos dogmas e princípios liberais (p. 229).

Em face da crise moral, espiritual e cultural do nosso tempo, os conservadores buscam, de algum modo, espiritualizar e moralizar o mundo moderno, mas não superá-lo. Essa atitude pode ser notada principalmente nos Estados Unidos e na Inglaterra, países em que, historicamente, o conservadorismo teve mais força política e alguma importância intelectual. Parece que a preocupação central do conservadorismo é dar um tom mais religioso à dominação anglo-americana [...] (p. 237)

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Em que pese o autêntico espírito conservador ser um dos traços da direita tradicional, ela não se esgota em um conservadorismo defensivo, muito menos em formas por demais modernizadas e liberais de conservadorismo [...] É um contrassenso tentar preservar a ordem social e política atual intrinsecamente subversiva, por ser proveniente da Revolução Francesa e, por essa razão, uma expressão da ideologia individualista liberal. Mais do que conservar o que existe, é fundamental iniciar um esforço de regeneração e restauração de uma verdadeira ordem civilizacional ancorada nos princípios da tradição. O que de fato importa não é a conservação de determinadas instituições sociais e costumes já decadentes e estéreis, mas a fidelidade a certos princípios universais, imutáveis e eternos. Não se trata, desse modo, de retornar a um passado histórico longínquo, remoto ou próximo mas de retornar “ás origens”, de fazer ressurgir no tempo presente o espírito tradicional (p. 239). 

A tradição é uma categoria universal que expressa o vínculo com o que ultrapassa o universo humano. É a conexão com a fonte divina do real. É esse nexo, profundo e misterioso, com a sabedoria das origens, que possibilita o contato com a dimensão vertical da ordem do ser [...] (p. 246).

Marcello Veneziani ressalta que, ao contrário do apregoado por progressistas e liberais, não existe incompatibilidade absoluta entre tradição e progresso. A ideia de progresso é correlata à ideia de uma raiz imutável, de uma pseristência dentro do fluir temporal. A tradição é um princípio de continuidade, é o ser no progredir, e a presença e a persistência do imutável na mudança. Não é a tradição o passado, mas aquilo do passado que não passa; o que resta de vivo para além da degradação que o tempo provoca. [...] (p. 247)

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A tendência desta corrente política [nova direita brasileira] consiste em emular o conservadorismo anglo-saxão e norte-americano [...] (p. 287).
A colonização espanhola e portuguesa, verdadeira obra ecumênica de elevação cultural e humana, não apresentou os traços de exploração econômica, dominação imperialista, etnocentrismo e exclusivismo racial que marcou outros empreendimentos coloniais. Para o antropólogo Gilberto Freyre, isso de deve, dentre outros fatores, à centralidade da religião para os povos ibéricos (p. 305).

O Brasil necessita recuperar seus laços espirituais e históricos com a cristandade hispânica, assim, reatualizando a visão católica do homem e mundo. Ao regressas às suas origens e ao resgatar a sua tradição formadora, reencontrar-se-á consigo mesmo (p. 310).


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Comentário: Talvez as minhas duas únicas discordâncias um pouco mais acentuadas com a exposição do autor sejam:



a) Entendo que certo “tradicionalismo”, que não corresponde a uma visão estritamente cristã ou católica, não constitui um bom referencial para a compreensão da “tradição”; e aqui me refiro àqueles autores de índole “perenialista” ou “gnóstica” que são citados no livro, como, por exemplo, Julius Evola (p. 233, pp. 239-241) ou René Guénon (p. 235). Já expliquei alhures a respeito dos problemas religiosos e metafísicos desta corrente, e não me deterei nisto agora. 


b) A necessidade de compreender a perspectiva da “tradição” menos como a de uma “reação” de índole político-cultural [o caráter “reacionário” da direita tradicional está exposto às pp. 266-281], a qual só despertaria nos momentos mais dramáticos, do que como uma constante práxis (ação moral e política) enraizada nos atos espirituais da contemplação e da caridade social. Mesmo que a alguns isto possa parecer uma questiúncula movida pelo “desejo de não parecer ‘ultrapassado’”, julgo que ela é importante na compreensão da necessidade de uma constante atualização da traditio, da entrega das possibilidades perenes do ser humano, a serem apropriadas de acordo com as circunstâncias históricas.


Enfim, a “tradição” não pode prevalecer sem a Tradição (apostólica), a ação política não pode vencer o processo revolucionário niilista sem a Graça.

Viva Cristo Rei!

PS: A imagem, de um Miniaturista Francês do 14o século, representa a "Política de Aristóteles", e traz as três ordens sociais. Talvez, neste momento, já se pense a nobreza acima do clero, ou, quem sabe, o clero está representado como o centro espiritual superior irradiador da Tradição, como é o correto. 

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