O que ocorreu após o Concílio é
algo completamente distinto:
em lugar de uma liturgia fruto de um
desenvolvimento contínuo, se introduziu uma liturgia fabricada.
Se saiu de um
processo de crescimento e de devir para entrar em outro de fabricação. [...]
Gamber,
com a vigilância de um autêntico vidente e com a intrepidez de uma verdadeira
testemunha,
se opôs a esta falsificação e nos ensinou incansavelmente a
plenitude viva de uma verdadeira liturgia,
graças a seu conhecimento
incrivelmente rico das fontes...
(Joseph Ratzinger, Prefácio a La reforma de la
Liturgia Romana, de Klaus Gamber)
A nova liturgia, pode-se dizer, não
saiu das mãos de santos, homens religiosos, nem mesmo de artistas ou poetas.
Foi feito por assim chamados especialistas que não tinham consciência de sua
inaptidão
por tal mancha em nosso tempo e de sua total falta de talento
(Dietrich von Hildebrand,
Devastated Vineyard).
Tradução de excertos de: GAMBER, Klaus. La reforma de la Liturgia Romana. Madrid:
Renovación, 1996, pp. 5-46.
* * *
“I.
As raízes da atual desolação litúrgica
A reforma litúrgica, saudada por muitos
sacerdotes e leigos com muito idealismo e grandes esperanças, mostrou-se, cada
ano que transcorre, uma desolação litúrgica de proporções inconcebíveis. Em
lugar da esperada renovação da Igreja e da vida eclesiásticas, estamos
assistindo a um desmantelamento dos valores da fé e da devoção, que nos haviam
sido transmitidos e em lugar de uma renovação fecunda da liturgia, contemplamos
uma destruição da mesma, que havia se desenvolvido organicamente no transcurso
dos séculos.
[...]
A reforma de São Pio V não criou nada
novo. Contentou-se em estabelecer uma versão uniforme do missal, eliminando as
inovações, que nele se haviam introduzido ao longo dos séculos. Ao mesmo tempo,
foi bastante tolerante, deixando intactos os ritos antigos, de ao menos
duzentos anos atrás.
[...]
II.
Ritus Romanus et Ritus Modernus
[...] Até Paulo VI os papas não
introduziram modificação alguma no ordinário da missa propriamente dito;
enquanto que depois do Concílio de Trento introduziram novos ‘próprios’ para
novas festas. Isto não suprimiu a ‘missa tridentina’, como por exemplo os
acréscimos ao código civil não o fazem caduco.
Falemos melhor de ‘ritus romanus’ em oposição ao novo rito, o ‘ritus modernus’. O rito romano, em suas partes mais importantes,
remonta, como o demonstramos anteriormente, ao século IV. O cânon da missa, com
algumas modificações efetuadas sob São Gregório I (590-604), haviam obtido,
desde Gelásio I (492-496), a forma que guardou até hoje. A única coisa na que
os papas não se cansaram de insistir desde o século V foi que era preciso
adotar este cânon romano; seu argumento era que se remontava ao apóstolo São
Pedro. Mas em tudo o relativo a outras partes do ‘ordo’, assim como a eleição
dos próprios das missas, respeitaram os costumes das igrejas locais.
[...] Que é o que fez São Pio V? Como já
dissemos, tomou o missal da Cúria, já em uso em Roma e em muitos outros
lugares, e o melhorou, especialmente reduzindo o número das festas dos santos.
Mas não fez obrigatório este missal para toda a Igreja já que respeitou as
tradições locais, que tivessem pelo menos duzentos anos de antiguidade. Tal
tradição era suficiente para que uma diocese fosse liberada da obrigação de
usar o ‘Missale romanum’. [...]
O primeiro papa que procedeu a uma
intervenção significativa no missal tradicional foi Pio XII, já que introduziu
a nova liturgia da semana santa. [...] João XXIII lhe seguiu com seu novo
arranjo das rubricas. É certo que ainda então o ordinário da missa se conservou
intacto, mas se abriu a porta a uma reorganização radical da liturgia romana.
Vivemos e contemplamos a nossos pés as
ruínas, não da ‘missa tridentina’, senão do antigo rito romano, que havia se
desenvolvido no transcurso deste longo período até chegar a seu amadurecimento.
Pode-se concecer que não era perfeito. Haveria sido suficiente acrescentar-lhe
umas pequenas melhores para adaptá-lo às exigências atuais...
III.
Tem o Papa atribuições para mudar o Rito?
[...] Até Paulo VI, nenhum papa empreendeu
uma modificação tão ampla das formas litúrgicas como a que assistimos [...]
Certamente não é missão da Sé apostólica
introduzir novidades dentro da Igreja. O primeiro dever dos papas é vigiar, enquanto
bispos supremos (episcopi = vigilantes) no dogmático, moral e litúrgico.
Desde o Concílio de Trento, a revisão dos
livros litúrgicos forma parte dos plenos poderes da Sé apostólica; consiste em
examinar as edições impressas assim como em proceder a mudanças mínima como,
por exemplo, a introdução de festas novas, como o fez São Pio V, quando a
petição do Concílio de Trento assumiu a revisão do missal da Cúria romana,
utilizado até então em Roma e em muitas regiões da Igreja do Ocidente; e que
publicou em 1570 como ‘Missale romamun’.
Como demonstramos mais acima, não se pode falar aqui de um novo missal deste
papa.
É necessário também assinalar o seguinte:
nem na Igreja Romana nem na do Oriente nenhum patriarca, nem bispo algum, por
sua própria autoridade, impôs uma reforma litúrgica. Mas tanto no Oriente como
no Ocidente, ao longo dos anos existiu um desenvolvimento orgânico e
progressivo das formas litúrgicas...
Houve mudança de rito não somente por
causa do novo ‘Ordo misae’ de 1969, mas
também por causa da ampla reorganização do ano litúrgico e do santoral. Somar
ou tirar uma ou outra festa, como se fazia até agora, certamente não muda o
rito. Mas de fato se realizaram inumeráveis mudanças e se introduziram muitas
inovações como consequência da reforma litúrgica, que não deixou subsistir
quase nada do anteriormente existente.
Em atenção a que não existe nenhum
documento que mencione expressamente o direito da Sé apostólica a modificar ou
a abolir o rito tradicional e que não se pode provar que tenha existido algum
predecessor de Paulo VI que interviesse de maneira significativa na liturgia
romana, deveria sem mais que duvidoso que uma mudança de rito posa estar dentro
das competências da Sé apostólica. Pelo contrário e sem nenhuma dúvida, esta
tem o direito de sancionar e controlar os livros litúrgicos, assim como os
costumes litúrgicos.
IV.
A propósito da reforma do ‘Ordo Missae’
Teria
sido possível levar a cabo as decisões do Concílio, sem modificar o rito da
missa?
O primeiro que empreendeu uma reforma da
liturgia, e isto em razão a considerações teológicas, foi sem dúvida alguma
Martinho Lutero. Negava o caráter sacrificial da missa e por isso estava
escandalizado por certas partes da missa, em particular pelas orações sacrificiais
do cânon.
[...]
Lutero foi o suficientemente esperto para
não deixar que suas inovações litúrgicas pudessem ser claramente percebidas.
Sabia a importância das formas e dos costumes tradicionais enraizados no povo.
Era necessário que seus partidários não se dessem conta demasiadamente das
diferenças com a missa que havia existido até então. Ademais, Lutero era adicto
aos antigos ritos e cantos. Só modificou o que, segundo seu critério, era um
abuso ou estava em contradição com sua concepção teológica.
[...]
Mas voltemos a nossa questão propriamente
dita: As reformas empreendidas como resultado do Concílio eram necessárias em
sua totalidade? Que é o que a pastoral ganhou em tudo isso? Sobretudo: era isto
o que desejavam os padres conciliares?
[...] Depois do Concílio, as missas são
mais atraentes para os fiéis? Contribuiu a nova liturgia ao aumento da fé e da
piedade? Apenas parece que foi assim. Pouco depois da introdução em 1969 do
novo ‘ordo missae’, nossas igrejas se
esvaziavam mais e mais e diminuía o número de nossos sacerdotes e religiosos em
proporções preocupantes. São muitas as possíveis causas. Não obstante, a
reforma litúrgica não foi capaz de parar esta evolução negativa e provavelmente
contribuiu não pouco para fomentá-la.
[...]
O ‘ordo
missae’ publicado em 1965, pouco depois do Concílio [...] e ao que se fez
referência anteriormente, mostrava claramente que num princípio não se havia
pensado numa reforma fundamental do ‘ordo
missae’. [...] Um teólogo sem prevenções, que conhecesse os costumes
romanos, pensaria em uma revisão mensurada, particularmente num enriquecimento
dos textos litúrgicos existentes, mas nunca numa nova modificação do rito da
missa...
[...] Examinemos agora as novidades
trazidas pelo ‘ordo missae’ de 1969,
por conseguinte quatro anos depois da revisão de 1965, assim como as
contribuições da versão alemã de 1976.
Desde o início da celebração, os ritos de
introdução, em grande parte, constituem uma criação nova. Compõem-se de uma ‘saudação
do sacerdote à assembleia do povo’ – que pode ser ampliada com uma introdução à
missa do dia –, e de uma ‘preparação penitencial’, à que se somam o ‘Kyrie’ e o
‘Glória’ ou os textos ou cânticos correspondentes.
Os ritos de introdução, dotados – sobretudo
na versão alemã do missal – de numerosas ‘prescrições de possíveis opções’
abrem uma porta enorme ao arbítrio do sacerdote celebrante. Que quantidade de
palavreado devem suportar os fiéis desde o começo da missa! Tal como sucede
mais de uma vez nas comunidades protestantes.
[...]
No relativo à liturgia da palavra (‘liturgia verbi’) do novo ‘ordo’ da
missa, pode-se observar simplesmente que não há nenhuma objeção à possibilidade
de uma leitura suplementar (tirada do Antigo Testamento) e menos ainda a
proclamação de perícopes na língua do país, como o prevê o artigo 36,2 da
Constituição litúrgica.
[...]
Desgraçadamente, o texto da oração
universal [preces] depois do evangelho não se fixou no novo missal, como o
havia sido nas diferentes liturgias da Igreja do Oriente e nos ritos galicano e
ambrosiano. Os textos destes ritos teriam podido servir de modelo para sua
formulação. Em nossos dias assistimos aos piores desvios na livre elaboração
dessa oração. [...] Sim, é novo e ao mesmo tempo contrário à tradição litúrgica
pronunciar a oração universal não no altar senão na sede. Para recitar uma
oração longa, como por exemplo as grandes orações da Sexta-Feira Santa, o
celebrante subia ao altar a fim de encontrar-se, como os fiéis, voltado para o
Oriente para rezar.
[...]
A seguinte parte da missa no novo missal
se chama ‘liturgia eucarística’ (‘liturgia
eucharistica’). [...] a esta denominação lhe falta toda alusão ao fato de
que a missa é um sacrifício.
A primeira parte da ‘liturgia eucharistica’ denomina-se ‘preparação das oferendas’,
enquanto que na versão latina desta oração se encontra a palavra ‘offerimus’, na versão alemã encontramos
uma fórmula que debilita o ‘offerimus’:
‘Te apresentamos este pão (ou este vinho) ante tua face
Desde o ponto de vista da história da
liturgia, não haveria nada que objetar a novas preces de ofertório. O rito
romano não conheceu até a idade média, fora a oração “super oblata” (a secreta), nenhuma dessas fórmulas. Os textos, que
a continuação, apareceram pouco a pouco e que se chamaram ‘canon minor’, não estavam escritos em todas as partes da mesma
maneira, nem dispostos na mesma ordem. O celebrante os pronunciava em voz
baixa. Não obstante os novos textos são pouco satisfatórios.
A segunda parte se intitula ‘oração
eucarística’ (prex eucarística). A
antiga denominação romana era ‘prex
oblationis’ (oblação do sacrifício), às vezes simplesmente ‘prex’ ou ‘oblatio’. Nesta parte se encontram as modificações mais importantes
a respeito do rito anterior. A menos significativa é a possibilidade de
diversos prefácios; os sacramentos da idade média, assim como atualmente no
missal milanês, também têm efetivamente um prefácio especial quase para cada
missa.
Em contrapartida, os três novos cânones
constituem por si mesmos uma ruptura completa com a tradição. Foram compostos
de novo seguindo modelos orientais e galicanos e representam, ao menos por seu
estilo, um corpo estranho no rito romano. Ademais há teólogos que fazem
objeções relativas a certas partes de sua formulação.
[...]
A modificação que ordenou Paulo VI das
palavras da consagração e da frase que lhe segue, empregadas na liturgia romana
durante mais de 1500 anos, não estava prevista pelo Concílio e carece de
utilidade para a pastoral. A tradução de ‘pro
multis’ por ‘por todos’, que se refere a modernas concepções teológicas,
não se encontra em nenhum texto litúrgico antigo, é duvidosa e por isso mesmo
escandalizou.
Desde o ponto de vista do rito, estranha
que se tenha podido retirar sem móvito as palavras ‘Mysterium fidei’ (cf. I Tim. III,9) inseridas nas palavras da
consagração, aproximadamente desde o século VI, para dar-lhes uma nova
utilização: convertem-se numa chamada do sacerdote depois da consagração. Uma
chamada desta classe ‘Mysterium fidei!’
jamais se usou. A aclamação da assembleia de ‘Proclamamos tua morte...’ só se
encontra em algumas ‘anáforas’ egípcias. É alheia a outros ritos orientais e a
todas as orações eucarísticas ocidentais e não encaixa tampouco em absoluto com
o estilo do rito romano. Isto representa uma absurda ruptura no discurso, pois
enquanto nos estamos dirigindo a Deus Pai, pronta e bruscamente o fazemos ao
Filho.
[...]
Em definitivo, a pergunta é a seguinte: o
que se quis obter com estas modificações, das que algumas são mínimas? Talvez
se tenha querido simplesmente realizar as ideias favoritas de alguns
especialistas em liturgia, mas a custa de um rito de 1.500 anos de
antiguidade!, ou antes estas inovações representam a desejada destruição do
‘ordo’ existente até hoje, posto que os novos ‘acentos’ que se quiseram
introduzir estão em contradição com o universo da fé, a partir do qual se
desenvolveu o antigo rito?
Em todo caso, desde o ponto de vista
pastoral – que é o que importava ao Concílio – a maior parte destas reformas
eram inúteis...
[...]
V.
Outras observações críticas
[...]
O uso da palavra ‘sacrifício’ é absoluta e
voluntariamente evitado no texto da ‘Institutio
generalis Missalis romani’. Só aparece de forma verdadeiramente acessória,
por exemplo, no número 2 (‘sacrificium
eucharisticum’). Pelo contrário a Constituição sobre a Sagrada Liturgia
fala claramente sempre de ‘sacrificium
missae’ (tanto nos números 49 como no 55) enquanto que a ‘Institutio generalis’ só fala de ‘eucharistia’ (números 282 e 285) ou ‘celebratio eucharistica’ (números 5 e
285), o que corresponde exatamente ao termo ‘celebração eucarística’.
Visivelmente a definição da missa que se
havia dado na primeira versão do novo ‘ordo
missae’ estava tirada da teologia da ceia protestante: ‘A ceia do Senhor ou missa é a sinais sagrada ou assembleia do povo de
Deus, reunido sob a presidência do sacerdote, para celebrar o memorial do
Senhor’ (grifos meus). Que esta definição se encontre em um documento que
leva a assinatura de Paulo VI e que a continuação tivesse que corrigir esta
definição, mostra de forma brutal quanta confusão existe hoje na Igreja.
VI.
A celebração ‘de frente para o povo’
Desde
o ponto de vista litúrgico e sociológico
[...]
Foi Martinho Lutero o primeiro que pediu que
o sacerdote no altar se voltasse ao povo. Mas pelo que se sabe, nem ele mesmo
obedeceu a esta exigência, e só algumas das igrejas protestantes o adotaram,
sobretudo entre os reformados. Só recentemente a celebração ‘versus populum’ se converteu em um costume
quase geral na Igreja Romana, enquanto que as Igrejas Orientais e com
frequência também as comunidades protestantes continuam com a prática existente
até agora.
Na Igreja do Oriente o costume de celebrar
‘versus populum’ não existiu jamais,
nem existe uma palavra para designá-la. [...]
[...]
O costume de celebrar de frente para o
povo apareceu entre nós nos ‘Jugendbewegung’ nos anos vinte, quando começou a
celebrar a eucaristia no seio de grupos pequenos. O movimento litúrgico, e
antes dele Pius Parsch, propagaram este costume. Creiam reviver assim uma
tradição da Igreja primitiva, pois haviam observado que, em algumas basílicas
romanas, o altar também estava voltado ‘versus
populum’. Mas não se haviam dado conta que nestas basílicas, contrariamente
a outras igrejas, o abside não estava voltado para Oriente, senão para a
entrada.
Na Igreja primitiva e na idade média, o
que determinava a posição com relação ao altar era poder voltar-se para o
Oriente durante a oração. Por isso Santo Agostinho declara: ‘Quando nos levantamos
para orar, voltamo-nos para o Oriente, ali onde o sol se levanta. Não como se
Deus estivesse ali e houvesse abandonado as outras regiões do universo, ...
senão com o objeto de que o espírito seja exortado a voltar-se para uma
natureza superior, a saber Deus’.
[...]
Colocando-se detrás do altar, o olhar
volta para o povo, o sacerdote, desde o ponto de vista sociológico, converte-se
em um ator que depende totalmente de seu público ou um vendedor que tem algo a
oferecer. E se carece de habilidade pode chegar a parecer um charlatão. [...]
Precisamente estas mudanças na posição do
sacerdote no altar durante a missa têm um sentido simbólico e sociológico
verdadeiro. Quando o sacerdote ora e sacrifica tem, como os fiéis, os olhos
postos em Deus; e quando proclama a palavra de Deus ou distribui a Eucaristia
se volta par ao povo. Este princípio até agora se havia observado constantemente;
mas, sobretudo por razões teológicas, sobreveio uma mudança na Igreja romana. O
futuro mostrará as graves consequências desta mudança”.

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