6.10.18

Miguel Reale sobre Marcuse


Excertos de REALE, Miguel. O Homem e seus Horizontes. 2ª ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, pp. 75-89.

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“Marcuse, ou a ideologia contra a cultura

O ‘Prefácio político’ de 1966

Nicolai Hartmann, um dos maiores pensadores do século, observou, com sutileza, que o drama de todo escritor consiste em não saber qual é deveras a parte substancial e duradoura de sua obra. Na mesma linha de pensamento, diria que esse drama se completa com a ignorância das consequências que podem advir das ideias comunicadas.

Ainda agora, com a morte de Herbert Marcuse, houve quem procurasse desvincular a sua doutrina dos movimentos ultra-esquerdistas, caracterizados pela radicalização das teses marxistas, até o pondo de se conferir aos seguidores da linha soviética imagem de aparente moderação, no que se refere à contestação das instituições vigentes nas democracias ocidentais.

Não me parece, todavia, seja procedente a interpretação benévola que se quer fazer do pensamento de Marcuse quanto às suas repercussões de ordem política ou pragmática. É claro que ninguém de bom-senso poderá ver no penetrante autor de O homem unidimensional o inspirador do terrorismo, por ele mais de uma vez veementemente condenado, mas o terror é o fruto podre e não querido de uma política de negativismo exacerbado.

Que a obra de Marcuse esteja vinculada à chamada ‘Primavera de Maio’, aos surtos contestadores dos estudantes de Nanterre e de Berkeley, em 1968, é fato que se pode considerar plausível, assistindo razão aos líderes juvenis que apelaram para seus ensinamentos. Não se trata, porém, de teses implícitas em seus escritos, mas, ao contrário, de declarações expressamente formuladas dois anos daquelas ocorrências no ‘Prefácio político’ (sic) escrito para uma nova edição de seu mais belo livro Eros e civilização. Essas páginas tiveram a mais ampla divulgação, em revistas da época, de tal modo que julgo especiosa a escusa de que os estudantes parisienses revoltados não podiam conhecer Marcuse, cujas obras essenciais ainda eram desconhecidas em França. Bastava o conhecimento, ainda que indireto, da mensagem política redigida pelo filósofo, e não há razão para silenciar sobre esse ponto.

Logo no início do Prefácio, escrito em 1966, esclarece Marcuse que a mencionada obra nascera de sua ‘convicção de que os resultados, atingidos pelas sociedades industriais avançadas, abriam ao homem a possiblidade de inverter o sentido da evolução histórica, de despedaçar o nexo entre produtividade e distribuição, liberdade e repressão; em condições, em suma, de aprender a ‘gaya ciêncai’, isto é, a arte de utilizar-se da riqueza social para modelar o mundo do homem segundo os seus instintos vitais, através de uma luta travada contra os agentes da morte’.

Adverte Marcuse que, com essa reviravolta no emprego do instrumental técnico das sociedades superindustrializadas, seria viável destruir os motivos que até então haviam tornado aceitável a opressão do homem sobre o homem, pondo-se termo à penúria e à necessidade do trabalho como fadiga, ainda mantidas ‘artificialmente’ com a finalidade de preservar ‘o sistema de domínio’.

O seu desencanto, acrescentava ele, era verificar quanto crescera, desde a primeira publicação de sua obra, a ‘manipulação social’ das almas, de3 tal modo que, na ‘sociedade opulenta’, as autoridades já não precisam mais justificar o domínio que exercem: há, ao contrário, uma submissão ‘espontânea’ à repressão das forças instintivas libertadoras, sacrificando-se Eros no altar dos gozos materiais, não raro inúteis e supérfluos. O contínuo fluxo de bens ofertados pelo sistema neocapitalista suprime a carga sexual e a agressividade que se ocultam no inconsciente dos súditos. Daí a sua crítica direta á que denomina ‘democracia de massa’, na qual ‘a gente, eficazmente manipulada e organizada, é livre, mas a ignorância, a impotência e a heteronomia absorvidas constituem o preço de sua liberdade’.

No entender de Marcuse, essa ‘liberdade’ consentida pelas estruturas dominantes, e que redunda em ‘servidão voluntária’ está transformando a Terra em um inferno, permitindo os maiores crimes. Liberdade e servidão acham-se fundidas, diz ele, como veículos do progresso, de tal sorte que a liberdade autêntica só terá sentido se coincidir com a inversão radical do que se deva entender por progresso.

Referindo-se às suas duas obras capitais, já citadas, o filósofo alemão solta as asas da fantasia para pregar o advento de uma nova sociedade que, valendo-se das conquistas tecnológicas, possa assegurar a todos livre e criadora expansão à ‘sexualidade polimorfa’, transformando o ‘corpo humano, de instrumento de fadiga, em instrumento de prazer’, no reino de Eros, o instinto vital, triunfante sobre Thanatos, o instinto de morte. O que ele reclama é o advento do reino de Orfeu e de Narciso, pois é indispensável ‘um novo conceito de utopia’ para acordar os homens submissos e acomodados na ilusória liberdade democrática que maliciosamente encoberta os conflitos entre senhores e servos.

É sabido que as teorias de Marcuse representam um amálgama de ideias de Hegel, Marx, Freud e Heidegger, num quadro sugestivo e aliciante, mas, se ele crê, com o fundador da psicanálise, que a civilização nasceu e se sustenta graças à ‘repressão dos instintos’, paradoxalmente também acredita, segundo a concepção marxista, que ‘somente aqueles, cuja existência é a negação mesma da propriedade capitalista, podem tornar-se os protagonistas históricos da libertação’.

Não se creia que Marcuse se limite a anunciar a boa nova de Orfeu, porque aponta as revoluções dos países subdesenvolvidos como exemplo e modelo para a revolta interna da sociedade industrial reprimida, ‘revolta contra os falsos pais, os falsos mestres, os falsos heróis – solidariedade com os miseráveis da Terra’, e, mais ainda, ‘contra a máquina política, a máquina das grandes empresas, a máquina cultural e educativa, que soldaram o bem e o mal num todo racional’. Corpos de homens, mulheres e crianças contra a máquina, em combates primitivos que afrontam os mais sofisticados instrumentos, o que lhe sugere uma pergunta: ‘Será que a guerrilha constitui a fórmula da revolução de nossos tempos?’ Ele mesmo não vacila em asseverar, duas páginas após, que ‘a difusão da guerrilha, no ápice do século da tecnologia, é acontecimento que possui valor de símbolo’.

E para que não houvesse dúvida sobre o seu engajamento na luta política, Marcuse acrescenta: ‘A sociedade opulenta já demonstrou ser uma sociedade em guerra; se os seus componentes não o perceberam, as suas vítimas, sim’. Donde a necessidade, a seu ver, de uma ‘rejeição radical’, cujo escopo é a supressão do subdesenvolvimento e de sua ‘racionalidade repressiva’.

O reino de Orfeu numa radicalização de Marx

Não se creia que o pregador do reino de Orfeu sonhe com o retorno ao primitivo ‘estado de natureza’. Sua aspiração é, ao contrário, que os progressos da automação (fruto, observa-se de passagem, da civilização que só existe à custa da repressão dos instintos criadores...) possam permitir ao homem libertar-se da expiação do trabalho, a fim de que ressurja ‘a livre manifestação de instintos de vida’. Cura da mordida da cobra com o veneno da própria cobra...

Estamos, pois, em pleno domínio da utopia, que tanto pode ser estímulo para novos modos de convivência, como o triunfo do pior dos domínios, pela ausência de diretrizes capazes de fornecer aos homens referências indispensáveis à mútua compreensão e comunicabilidade. Se Marcuse, com efeito, é o primeiro a reconhecer, no capítulo XI de Eros e civilização, que as ‘utopias podem ser projetadas sem realismo; mas não as condições necessárias à criação de uma sociedade livre’, o fato é que ele se esquece facilmente dessa ponderação, e abre o leque da fantasia ao anunciar, liricamente, o reino ‘contemplativo’ de Orfeu e Narciso, em substituição à sanha ‘produtivista’ de Prometeu.

A fantasia, a imaginação criadora, eis a bandeira arvorada pelos universitários rebeldes de 1968 e seus epígonos. O que importa é a ‘rejeição radical’, ‘a proibição da proibição’, porque o resto virá depois, espontaneamente, graças à benfazeja libertação dos instintos, com base na ‘sexualidade’ que, na asserção de Marcuse, com apoio em Freud, excluída qualquer forma de perversão, deve ser também libertada dos tabus que a confinam a um único órgão, privando-nos do prazer de todas as partes do corpo, e, sobretudo, a conceber como ‘heterossexualidade’ [nota: eis aí boa parte da tese que sustenta as demandas das chamadas ‘minorias sexuais’, associada à ideia de ‘gênero’ que nasceu no âmbito das ideias feministas].

Já está completo o quadro dos objetivos visados, ainda que vagamente enunciados (e nessa imprecisão aliciadora está a sua força), mas Marcuse vai além, sustentando a legitimidade da agressão destinada a romper estruturas opressivas, ‘devendo-se supor, são palavras dele, que a agressividade em defesa da vida seja menos prejudicial aos instintos de vida do que a agressividade na agressão’.

Em nome de que valor se arvora essa bandeira que enaltece os valores da agressão e da guerrilha? Em nome da ‘dimensão exótica ligada à dimensão política’, à possibilidade técnica de ‘ocupações sem trabalho’, de ‘interesses incompatíveis com a economia de mercado’, sendo indispensável – já que o proletariado se ajustou, em grande parte, aos objetivos da ‘sociedade opulenta’ –, que a ‘rejeição radical’ seja capitaneada pelo protesto sistemático dos intelectuais, responsáveis pela ‘inversão da rota e a preparação do terreno para a ação política’. Os intelectuais, advertia Marcuse, podem ter o apoio de um outro catalizador: a rejeição instintiva dos jovens em protesto’.

Na realidade, foram os estudantes que, em 1968, tomaram a dianteira, atendendo, talvez sem o saber, ou por instinto do tempo, ao apelo de Marcuse, porque a juventude é a morada natural da fantasia. Sartre e seus companheiros da ‘inteligência’ francesa só apareceram depois, perplexos, ao lado de não menos hesitantes líderes políticos, sôfregos todos de tirar proveito das circunstâncias, como se não existisse, para afrontá-los, o realismo de De Gaulle...

Vale a pena, analisar os fundamentos do anunciado reino de Orfeu. Uma das características aliciantes do pensamento de Herbert Marcuse é, pelo visto, o seu tom profético, anunciando a catástrofe da cultura contemporânea, o que sempre logra fácil repercussão nas épocas de crises estruturais.

De certo modo, pode-se dizer que Marcuse, apesar de ser acusado de ‘revisionista’, palavra depreciativa na vulgata marxista [...], vem em auxílio de Marx, dando versão nova às suas previsões apocalípticas sobre o destino do capitalismo.

Se Marx teve o mérito de antever o advento das gigantescas empresas contemporâneas, com seus monopólios e oligopólios, já não se pode dizer o mesmo quanto às consequências que atribuía às consequências que atribuía à crescente concentração do capital. Em primeiro lugar, esta ocorreu em graus escalonados, isto é, sem o desparecimento, mas antes com o multiplicar-se de estruturas capitalistas intermédias de pequeno e grande porte, ao mesmo tempo que o Estado passou a desempenhar funções empresárias capazes de controlar ou reduzir o poderio das mais influentes entidades privadas.

O mais importante, porém, é o total desmentido histórico ao anúncio catastrófico feito pelo autor de O capital, sobre o destino da economia capitalista, com uma tese mais de político do que de economista. Refiro-me à conhecida teoria marxista da proletarização crescente da sociedade industrial, contrapartida inexorável da concentração dos instrumentos de produção nas mãos de exígua minoria. Por força dessa pseudo ‘lei’, o capitalismo estaria destinado a ser o coveiro de si mesmo, conduzindo, inevitavelmente, as massas oprimidas à revolução universal.

Ao contrário desse quadro aterrorizante, o que se verifica é que, quanto mais uma nação se desenvolve, tirando proveito do progresso tecnológico, mais o seu proletariado adquire melhores condições e qualidade de vida, convertendo-se, progressivamente, em ‘nova classe média’. Essa é verdade tão flagrante que os partidos comunistas, que atuavam aquém da ‘cortina de ferro’, compreenderam o anacronismo e a ineficácia de pregar a ‘ditadura do proletariado’.

Não há dúvida, porém, que o problema da ‘proletarização’ de certa forma subsiste, na medida em que os povos do ‘Terceiro Mundo’ não possam encontrar condições para constituir ou assimilar a tecnologia das nações superdesenvolvidas, a fim de realizar aquilo que, desde meu livro Pluralismo e liberdade, denomino ‘socialização do progresso’. O contraste Norte/Sul, no plano universal dos povos, e, em particular, no âmbito de nossa própria pátria, constitui o mais tremendo e angustioso desafio posto para o homem e sua cultura, nas incertezas deste fim de século.

Todavia, a tese marxiana da catástrofe capitalista assume dimensões e aspectos bem diversos, inclusive no que se refere aos protagonistas chamados à cena histórica, que não são mais os proletários, reduzidos à miséria, mas o intelectuais e a nova classe média, crescida à sombra das benesses tecnológicas. Arturo Labriola, em obra injustamente esquecida sobre a Ditadura da burguesia, já se dera conta da mutação operada na produção capitalista, cada vez mais obrigada a converter o supérfluo, em necessário, para assegurar o seu crescente ritmo produtivo, essencial ao desenvolvimento do mercado
Com análoga percepção, Gramsci, sob a direta influência da filosofia de Benedetto Croce, concluiu – e talvez seja essa a sua contribuição mais relevante –, que, em virtude dos novos modelos de produção e fruição das riquezas, ‘o destino do socialismo’ deixava de depender menos da conquista do Estado pela classe proletária do que de alterações culturais operadas no seio da própria sociedade civil, com a transferência da ‘responsabilidade revolucionária’ para os representantes da ‘inteligência’ de cada país [nota: é o chamado ‘marxismo cultural’].

Marcuse chega, nesse ponto, à mesma conclusão, mas sem abandono da tese sobre a catástrofe inexorável da civilização ocidental, pois, curiosamente, omite qualquer referência ao sistema repressivo soviético... Em última análise, ele radicaliza a teoria de Marx que, bem ou mal, situava o problema em termos históricos, diagnosticando a crise do capitalismo como fase final das contradições que permeia a história, visando ao advento do ‘socialismo’ numa comunidade redimida e desalienada, graças ao definitivo superamento [sic] das lutas de classes [nota: todo falso profeta acerta, mesmo sem querer, e se Marx erra no varejo, acerta no atacado: a questão de fundo do capitalismo não se refere à concentração de riqueza, mas ao ‘espírito de cobiça’, que não descansará mesmo com a obtenção do bem-estar material numa sociedade opulenta (o marxismo erra em seu prognóstico na medida em que seu materialismo filosófico o impede de captar o vício espiritual que é o cerne da questão do capitalismo); as potências do sexo são mais profundas que a dos bens materiais, dizem mais respeito ao ser humano, e Marcuse simplesmente antecipa o caos dos prazeres que se segue a um bem-estar sem vida espiritual, o qual (caos) é mais apto que o ideal revolucionário para  destruir o resto de sanidade moral que subsiste nas sociedades consumistas; mais ainda se a Igreja católica não cumpre bem sua missão de evangelizar as pessoas para sanar a cultura].

A cultura segundo Freud e Marcuse

Para Marcuse, ao contrário, não se trata de crise de natureza histórica, e como tal, episódica, mas sim de algo de mais profundo inerente ao ser mesmo do homem. Fiel ao negativismo sistemático que caracteriza a ‘Escola de Frankfurt’, a que pertenceu, marcada pela dialética da negatividade de Adorno, bem como pelo pessimismo de seus demais companheiros quanto aos malefícios dos meios de comunicação de massa, Marcuse encontra em Freud o seu aliado natural.

O fundador da psicanálise não lhe interessa, propriamente, como psicólogo ou como terapeuta, mas apenas como autor, a seu ver, de uma das contribuições mais profundas ‘na ciência do homem’, oferecendo-nos ‘um novo conceito de pessoa’.

A tese freudiana, que serve de embasamento a toda a teoria marcusiana da cultura, consiste na asserção de que ela somente surge e se desenvolve à custa do recalque de nossos instintos fundamentais. Logo na primeira Introdução de Eros e civilização, considera merecedora de mais profundo exame ‘a afirmação de Freud de que a civilização se baseia na repressão permanente dos instintos humanos’, parecendo-lhe fora de dúvida que ‘o sacrifício metódico da libido e seus desvios, impostos inexoravelmente para atender a atividades e expressões socialmente úteis, são a cultura’. Acrescenta, logo a seguir, que ‘o incremento da cultura parece, todavia, ligado a uma crescente redução de liberdade’, o que determina o permanente refluxo dos instintos para a sua libertação plena. Teríamos, assim, uma nova dialética governando o mundo da cultura, a dialética do ‘recalque dos instintos’ em perene contraste com o ‘refluxo dos instintos’, até a vitória fina assinalada pela libertação dos valores instintivos na tela de uma nova racionalidade apolínea [nota: Freud conhece bem a estrutura de uma psique que não tem um senhorio autêntico, a partir da Graça sobrenatural (que justifica as potências naturais), sobre as concupiscências desordenadas pelo pecado (fato que ele ignora em sua ‘ciência natural’), e o que ele diz faz todo sentido a respeito desta condição, mas não é a ‘verdade última’ sobre a questão; seu trabalho, no fim das contas, serviu para ‘desenterrar’ potências de um caos que, em última instância, o ‘poder’ da ‘civilização’ não tem mesmo como conter; como bem definiram os bispos latino-americanos reunidos na Conferência de Puebla em 1979, a ‘cultura é o fruto da relação dos homens e da sociedade com Deus’].

Parece-me que essa colocação do problema foi inspirada a Marcuse especialmente por um substancioso ensaio de Freud, intitulado O porvir de uma ilusão, publicado em 1927.

Nesse estudo, após já ter observado que ‘a cultura descansa totalmente sobre a coerção dos instintos’, de tal modo que ‘todos e cada um renunciamos a uma parte de nosso poderio, a uma parte das tendências agressivas e vindicativas de nossa personalidade, resultando dessas contribuições o patrimônio cultural comum de bens materiais e ideais’ [nota: perceba-se uma certa modulação das ideias de Hobbes sobre o contrato social...], o mestre vienense distingue dois aspectos da cultura. ‘De um lado, escreve ele, compreende todo o saber e o poder conquistados pelos homens para chegar a dominar as forças da natureza e extrair os bens naturais com que satisfazer às necessidades humanas, e, do outro, todas as organizações necessárias para regular as relações dos homens entre si, e, especialmente, a distribuição dos bens naturais atingíveis’.

Dada a sua compreensão da cultura como fenômeno de ‘repressão dos instintos’, Freud adverte que ‘cada indivíduo é virtualmente um inimigo da civilização, apesar de ter de reconhecer seu geral interesse humano’. Foi ele acusado de ‘conformista’ perante o fato da ‘cultura’, mas, na realidade, a sua posição é a de um crítico sereno, para quem, se a civilização ‘constitui peso intolerável, pelos sacrifícios que impõe’, essa coerção torna-se ainda maior por parecer-lhe que ‘a civilização é algo imposto a uma maioria, contrária a ela, por uma minoria que soube apoderar-se dos meios de poder e de coação’ [nota: bem enviesada essa consideração; na realidade, hoje se vê bem que a aplicação marcusiana é que a realiza, quando a esquerda pós-moderna se apodera desses meios para impor a ideologia de gênero com todas as insensatezes dela derivadas].

[...]

Qual será o instrumento que permitirá a sonhada redenção do homem graças à sublimação de Eros em logos? Para compreendermos esse ponto da utopia marcusiana é preciso ter presente que, se na teoria de Freud, a cultura nasce do ostracismo dos instintos e prazeres naturais, suscitando o aparecimento de instituições e crenças opressivas, há, no entanto, uma atividade espiritual que se salva do repressivo poder civilizador: a fantasia, a imaginação criadora, que Marcuse converte no fulcro da rejeição global da ‘sociedade capitalista’, abrindo caminho para uma nova compreensão da libido em termos de ‘nova racionalidade’.

Em meu livro Problemas de nosso tempo, lembro a atualidade do mito de Pandora que, vencida pela curiosidade, decerra o vaso que lhe fora confiado, dele fazendo escapar todas as virtudes, menos a esperança. Na concepção antropológica de Freud, reinterpretada por Marcuse na imanência do processo histórico, dá-se uma inversão: no trágico recipiente humano recalcam-se todas as ‘virtudes’ instintivas, ficando livre apenas a fantasia, mas ameaçada a todo instante, pelos impulsos recalcados no inconsciente.

Sucedâneo ao apocalipse marxista

A bem ver, Marcuse oferece um sucedâneo à tese marxista sobre o fim da civilização burguesa, anunciando, não a ‘proletarização das massas’, mas antes a sua ‘uniformização alienante’, como resultado da submissão gostosamente aceita pelos indivíduos, ajustados todos inconscientemente aos quadros e às estruturas da chamada ‘sociedade opulenta’. O aparecimento de um homem de uma só dimensão, a dimensão manipulada ao sabor dos interesses das categorias dominantes, é o tema central de um se seus livros fundamentais, o homem unidimensional, ao qual se não pode recusar o mérito de uma crítica percuciente do que há de uniformizante e deformante na ‘sociedade de massa’, consequência do impacto dos meios eletrônicos de informação e programação sobre a vida individual e coletiva.

A grande perplexidade que nos assalta, ante um quadro tão desesperador, é a pretensão utópica de Marcuse de conquistar uma ‘civilização apolínea’, sob o signo de Orfeu e de Narciso, mediante a ‘sublimação racional’ da libido. Em virtude de misteriosa alteração na trama e no sentido dos instintos, seria possível, a seu ver, atingir um mundo dotado de ‘nova racionalidade’, livre das cadeias do tempo quantitativo e mensurável, para uma ‘duração’ atemporal, segundo o ‘princípio de Nirvana’, não como signo de morte, mas como expressão de vida, consoante a invocada imagem de Baudelaire:

Lá, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme, et volupté.

Estamos, pois, no domínio absoluto da fantasia e da cultura reduzida a pura ‘dimensão estética’, o que, diga-se de passagem, se está bem longe dos vícios e deformações que ficaram ligadas ao nome de Marcuse, deixa um vácuo de realidade, suscetível de ser preenchido, como o foi, pelas mais imprevistas interpretações, inclusive pelo recurso à violência tendente a antecipar a ‘rejeição universal’ da cultura industrial permeada pelo ‘instinto de morte’. É o destino de todas as utopias que, sem indicarem meios adequados e idôneos, anunciam a salvação do homem, mediante um ‘novo relacionamento entre instinto e razão’ pela harmonia dos instintos sublimados numa ‘nova ordem’, de natureza estética: um ‘novo homem’, livre dos conflitos das suas três dimensões biopsíquicas (Es, Ego e Super-Ego), no seio aconchegante de uma ‘nova cultura’, expressão de ‘nova humanidade’, fruto de inexplicado resgate racional.

Vinculado às raízes racionalistas da filosofia alemã, de Hegel e Marx, a meta doutrinária de Marcuse, convertida em programa ideológico incerto, perde-se numa fluida combinação da ‘angústia existencial’ de Heidegger, por quem teve sempre imensa devoção, com as teses antropológicas mais pessimistas de Freud, apresentado como um pensador eminentemente crítico e materialista.

[...]

A cultura, como os seus atuais ingredientes mais refinados – a automação cibernética e os meios de comunicação de massa –, não é angelical, nem diabólica: é, apenas, e tão somente, material e espiritualmente produto do pensamento e da ação do homem. É por isso que a devemos compreender como dimensão histórica o drama inerente à sua finitude e refutabilidade, subordinando-a ao valor da pessoa humana que é a medida de todos os valores. Essa fonte de inspiração crítica e racional nada vale quando, ao criticarmos ‘o homem de uma só dimensão’, olvidamos a pluralidade das perspectivas espirituais, e nos trancamos, como o fez Marcuse, na unidimensionalidade de uma ideologia.

É claro que a queda do Muro de Berlim tornou risível a profecia de Marcuse sobre a catástrofe da sociedade de cunho liberal, mas a sua palavra permanece como uma grave advertência”.

Nota final: Miguel Reale escreve em 1996. Marcuse riu por último? Parece que o liberalismo obteve uma vitória de pirro, ao se tornar a ideologia dominante após 1989: sem o inimigo exterior do comunismo revolucionário, a inconsistência moral dos seus valores veio à tona, mostrando-se o acerto “involuntário” das “profecias” de Marx e Marcuse, com o surgimento de uma esquerda pós-moderna niilista, que faz das desordens sexuais (o aborto também é parte delas) sua maior, quase única, bandeira. Veja-se que o liberalismo, para voltar à cena em nosso país, precisa tanto assumir ares “conservadores” (e até “cristãos”), quanto “anticomunistas”. Há, contudo, uma “Graça” superior, há um verdadeiro “Sal” que conserva a Verdade sem conveniências, cuja vitória final, contra o comunismo e contra o conservadorismo-liberal (contra a Modernidade ambidestra) está garantida.


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