No livro Da Direita Moderna à Direita Tradicional, o Prof. Dr. Cesar
Ranquetat Jr. (Universidade Federal do Pampa) analisa, de maneira muito bem documentada e com rigor, a noção de “Direita”, o que, obviamente, leva-o à
conceituação do fenômeno oposto da “Esquerda”.
A partir de trechos de suas obras, eu
farei alguns comentários, onde aparecerão esboçadas algumas interpretações
minhas sobre o assunto, que se devem, também, à reflexão provocada pela leitura
do livro. A ideia inicial era apenas fazer uma resenha, mas o livro ofereceu bastante
ao pensamento, de modo que me parece um esforço de maior gratidão retribuir com estas
considerações em diálogo com o autor.
A referência é: RANQUETAT JR., César. Da Direita Moderna à Direita Tradicional: Análise
de uma categoria metapolítica. Curitiba: Prismas, 2017.
Os extratos e comentários não substituem a
leitura do livro, mas são um convite a isto.
* * *
A obra tem 7 capítulos, assim organizados:
a) o primeiro aborda a “caricatura da direita pela sinistra”, isto é, a identificação
da direita com o “mal”; b) o segundo estuda as “origens históricas e definições
da direita”; c) o terceiro analisa o “simbolismo universal da direita e da
esquerda”; d) o quarto analisa a “direita liberal”; e) o quinto, a “direita
conservadora”; f) o sexto, a “direita tradicional” em sua diferença com o
conservadorismo (ou liberal-conservadorismo); g) finalmente, o sétimo se refere
à “nova direita brasileira”.
Em todos estes capítulos está presente a
polêmica com a “esquerda”, o que nos permite entender o trabalho como um
excelente (e em certo sentido, completo, ainda que não exaustivo) estudo da
dicotomia política moderna, e de sua distinção para uma direita que se
compreende como “tradicional”.
Esta é a primeira parte, e trata apenas de
“a” e “b” acima.
* * *
Na visão caricatural e deformada da esquerda, [a direita] simbolizaria o autoritarismo, a misoginia, o preconceito, o racismo, a xenofobia, o irracionalismo e o fanatismo político. Ser de direita, nesse sentido, seria a expressão máxima da estupidez humana e um sinal inequívoco de alienação e obtusidade mental. Os direitistas são percebidos, por via de regra, como pessoas ultrapassadas, anacrônicas e moralistas, aferradas a valores e instituições arcaicas, opressoras e elitistas. [...] Por sua vez, a esquerda encarnaria a sensatez, a racionalidade e a consciência social. [...] A esquerda teria, assim, o monopólio da inteligência, da cultura e da moralidade (p. 21).
Comentário:
Esta
é a imagem que a esquerda mais fanatizada (que parece ser a maioria atualmente)
projeta nos “direitistas”, englobando-os num mesmo saco. Infelizmente, a
verdade é que muitos direitistas “neoconservadores” atuais fazem o mesmo jogo,
agora que o conservadorismo está na crista da onda, atribuindo todo a maldade
aos oponentes ideológicos, como a repetir a tática que Marx ensina em sua Introdução à Crítica da Filosofia do Direito
de Hegel. Contudo, é preciso constatar que a esquerda pós-moderna, ademais
dos erros econômicos ou da imoralidade do viés filosófico ateu e da política
totalitária, enveredou por um caminho de incentivo aos mais falsos e egoístas
“direitos individuais” (derivados do liberalismo moral), como o “direito ao
aborto” ou “ao próprio corpo” (sic), ao “casamento (sic) gay” ou à difusão da
ideologia de “gênero”.
* * *
“O egoísmo não é uma característica
essencial da direita, mas tão somente de determinada direita: a direita liberal
e libertária” (p. 33).
Comentário:
é
muito importante ter em conta a “relatividade” do termo “direita”, porque não é
um bloco monolítico (como não é a “esquerda”); e que ela não se identifica com
uma adesão incondicional às ideias liberais em economia ou ao “capitalismo” sem
mais. Isto ficará mais claro adiante, na exposição do autor.
* * *
“Na verdade, a esquerda parece não
conhecer a tradição conservadora” (p. 33).
Comentário:
Na
sequência, o autor menciona que o ex-presidente FHC é uma exceção, e que o
próprio cita, como elementos constitutivos da direita conservadora a defesa da
“família”, da “propriedade”, dos “costumes”, além de afirmar que os que são
considerados “direitistas” são apenas “aproveitadores” que querem “estar perto
do Estado, tirar vantagem dele” (apoiadores dos militares, de Sarney, de
Collor, do próprio FHC ou de Lula).
* * *
O voluntarismo e o racionalismo, bem como o utopismo são traços típicos desta mentalidade [esquerdista] (p. 46) A exaltação da razão, da vontade e do ideal utópico – a causa sagrada da revolução – tem como contrapartida o esquecimento ou mesmo a recusa e fuga da realidade... funda-se numa ‘recusa do ser’, num divórcio com o real. (p. 46). A filosofia de teor idealista e gnóstica que está presente na mentalidade esquerdista (p. 47). A mentalidade jacobina da intelligentsia é definida, também, pela sua hostilidade aos valores e instituições tradicionais e, dessa maneira, pela ruptura radical com o passado (p. 48). Segundo Roger Scruton, a face jacobina do intelectual socialista manifesta-se em sua crença de que o mundo é carente de sabedoria e justiça. Essa deficiência não se encontra na natureza humana, mas nas estruturas opressoras de poder [...] O zelo inquisitorial e o maniqueísmo redutor ficam patentes na famosa frase marxista: ‘Quem não está conosco está contra nós’” (p. 49). O caráter gnóstico do pensamento revolucionário e progressista revela-se na ânsia de transformação radical da realidade, na angustiosa e frenética busca de uma transfiguração do mundo [...] Conforme demonstrou [...] Eric Voegelin, o aspecto essencial do gnosticismo moderno torna-se patente na vivência do mundo como um lugar estranho (p. 50). O saber salvífico, a ‘gnosis’, acerca do método para a modificação total da realidade é o que cabe ao pensador revolucionário alcançar (p. 51).
Comentário:
De
fato, a “esquerda” moderna está relacionada à vertente da filosofia idealista
continental, que é racionalista e voluntarista, como seu autor paradigmático,
que é Descartes. Mesmo que este ainda propusesse, no período de transição, uma
“moral provisória” que se ativesse aos costumes do lugar e da religião (no Discurso do Método), para poder agir
enquanto não encontrasse os fundamentos para a vida ética, o abandono da
tradição metafísica e teológica é já o signo de uma postura que busca forjar a
verdade sem os olhos postos nas possibilidades reais recebidas da tradição, e
que apenas está à espera de uma maior segurança que será fornecida pela nuova scienza – e um esperado
enfraquecimento da Igreja – para estabelecer a utopia política. Lembrando que,
na “árvore do conhecimento” de Descartes, a “mecânica” (poderíamos dizer a
tecnologia) e a “moral” (poderíamos dizer a ciência e prática políticas) eram
os frutos do desenvolvimento da “nova” metafísica racionalista cartesiana e da
“nova” física matemática (inaugurada por Copérnico, Kepler e Galileu).
Este “conhecimento” faz as vezes de uma
“gnose” de índole dualista (maniqueísta), o que já se manifesta nas ideias dos
sentidos “enganosos”, ou de uma realidade sensível à qual não podemos nos fiar,
e que é mister controlar com nossa ciência matemática. Eis o “mundo como lugar
estranho” de Voegelin, já prenunciado.
Assim como é preciso se livrar das
“estruturas opressoras de poder” (sic) da teologia católica para poder pensar a
imanência sem referência à Transcendência, logo será possível livrar-se das estruturas
políticas ainda ligadas a tradições pré-modernas, ainda que já encarnem em
certa medida o novo “espírito” da época, como o absolutismo e o nacionalismo.
São passos teóricos que prepararam
remotamente o advento do voluntarismo político de Rousseau. E quando surgir a
vertente socialista marxista, após Feuerbach teorizar o ateísmo, o niilismo revolucionário
do socialismo “científico” será a consumação deste processo.
* * *
Como qualquer ideia e corrente política, a direita também tem sua história. Nasce no contexto tumultuoso da França revolucionária (p. 59) A direita política surge na modernidade ocidental. É [...] uma categoria política que se afirma e desenvolve-se no mundo moderno [...] Essa díade [direita-esquerda] origina-se quando a legitimidade da ordem social deixa de ser tradicional e passa a ser objeto de disputa pública (pp. 60-61).
Comentário:
o
motivo da nomenclatura originada da Revolução Francesa é arquissabido. A
segunda passagem é importante porque deixa claro que o conceito e o fenômeno de
“direita” são “modernos”: a “direita” surge quando a tradição “normal” é
colocada em questão, isto é, quando a entrega (traditio) das possibilidades culturais ou históricas é arbitrária e
artificialmente interrompida; “direita” será o movimento político que tematizará
a “tradição”, que irá “objetivá-la”. De certo modo, não é casual que a noção da
“Tradição apostólica”, na religião católica, tenha sido formalizada apenas no
Concílio de Trento, quando esta (Tradição com “T” maiúsculo) foi negada pela
primeira vez, por Lutero. A relação “normal” com a tradição é de
“conaturalidade”: receber dos antepassados e entregar aos pósteros as
possibilidades de realização é algo intrínseco à realidade humana. De certo
modo, a ruptura com a visão tradicional inaugura uma “nova tradição”, cada vez
mais volátil, mas, de fato, é impossível viver de uma maneira absolutamente
humeniana, por assim dizer, como se não houvesse um "elo" entre o “antes” e o
“depois”, ou “algo” que “permanece” na mudança. A tendência é o niilismo, mas o
caos total é o limite, porque representaria o fim da história, o fim das
possibilidades humanas.
Pode-se dizer, de algum modo, que a
tentativa de Lutero é “tradicionalista” (sic), no sentido de querer “voltar” à
“verdadeira tradição/entrega dos apóstolos”, que seria exclusivamente aquela
consignada na Bíblia; como se a “tradição” tivesse um caráter “coisístico”,
perfeitamente objetivável (no caso da Fé, através das proposições da Escritura)
e que, deste modo, permanecesse inalterável em todos os seus caracteres
acidentais, e não só em sua essência, sem possibilidade de desenvolvimento. Da
mesma forma, em âmbito “profano”, o “Renascimento” também é um tipo de
“tradicionalismo” (sic), ao pretender voltar à suposta “raiz da tradição
filosófica e cultural do Ocidente”, a qual teria sido “distorcida” (sic) na
cultura medieval. O “Romantismo” será, por outra vez, mais uma reação
“tradicionalista”, que busca regressar à “cultura do medievo”, etc.
A questão é que estes “regressos” não têm
qualquer possibilidade de serem felizes, na medida em que o suposto como
“tradição” verdadeira é algo imaginado: Lutero imagina que a relação dos
cristãos com as Escrituras ou o Ensino dos Apóstolos é a dele, os platônicos do
renascimento creem que o sentido da filosofia do mestre grego é a que eles
defendem, os românticos consideram que a Idade Média é a que eles imaginam... Isto
contra o fato de que há uma história da recepção viva das obras (dos Apóstolos,
de Platão, dos medievais), na qual elas deram de si precisamente aquilo que foi
fecundando a vida dos cristãos medievais, não sem os devidos embates, e o
discernimento dos santos e dos doutos, à luz do Espírito Santo.
Estes cortes, portanto, não são uma “volta
à verdadeira tradição”, mas a supressão de sua vitalidade, com sua
transformação em uma espécie de “organismo congelado”, que voltaria de sua “animação
suspensa”, tal qual o Capitão América dos quadrinhos... Nestas concepções, o
“passado” não é visto na perspectiva antropológica (agostiniana) de sua
“presença” atual (na “memória” viva do “presente”, configurando-o a partir das
possibilidades propiciadas e apropriadas), mas como mero tempo cronológico ou
físico que “ficou para trás”. E por isto, por exemplo, por esta falta de compreensão
metafísica da realidade do tempo e da tradição, antes do que por motivos teológicos,
os protestantes negam a atualização do Sacrifício da Missa, recordando-o apenas
como “evento passado”. De certo maneira, o "arqueologismo" ou a "busca de fontes" num sentido academicista, de certa teologia, reflete esta mentalidade sobre o passado, e se manifestou em algum grau, por exemplo, na reforma litúrgica do Novo Ordinário da Missa.
* * *
Referindo-se ao caso europeu, Eugen Weber apresenta três tipos de direita, a saber: a direita contrarrevolucionária ou reacionária, que se caracteriza pela reação contundente contra as forças sociais e culturais da modernidade, assim como pela busca do retorno e da restauração da civilização cristão. Essa direita é nostálgica, pois acredita na existência, em tempos pretéritos, de uma Idade de Ouro civilizacional. No mundo anglo-saxão, há uma direita da resistência e conservadora, que é fortemente cética em relação às mudanças sociais e culturais radicais e abruptas, defendendo reformas graduais e parciais na vida social. É uma direita moderada, realista e pragmática. Há, ainda, uma direita radical e revolucionária, vulgarmente designada como extrema direita. É uma direita ativista, autoritária e nacionalista, com traços beligerantes, como, por exemplo os fascistas italianos (pp. 63-64).
Comentário:
Depois,
o autor explana outras configurações da direita, mas esta nos basta para o
essencial (os extratos aqui não substituem a leitura do livro): uma direita
tradicionalista, uma direita conservadora e uma direita autoritária ou
“extrema”, o que nos coloca o problema da relação entre direita e “fascismo”:
Em contrapartida ao contrário do que se apregoa, o fascismo não significou um rechaço à cultura moderna [...]. A divergência essencial das ideias fascistas com respeito a determinadas dimensões da cultura moderna encontra-se mais precisamente em seu antimaterialismo e na importância atribuída ao vitalismo, ao idealismo filosófico e à metafísica da vontade. O objetivo central do idealismo e do vitalismo fascista era a criação de um homem novo, de um novo estilo de cultura que alcançasse a excelência tanto física como artística. Exaltavam a superação de todos os limites e a liberdade natural do homem bem como a força física e a vontade enérgica. É verdade que essas ideias eram contrárias ao materialismo do século XIX, porém pouco tinham que ver com a postura defendida pela direita conservadora, reacionária e contrarrevolucionária de retorno aos valores morais e espirituais tradicionais do mundo ocidental antes do século XVIII. Não podemos esquecer que o leitimov, sempre repetido por diversos chefes fascistas, era de que: ‘não somos nem de direita, nem de esquerda’. Essa afirmação é uma pista importante porque sinaliza para o fato de que o fascismo é uma ideologia e é um movimento político que, a rigor, não pode ser categorizado como de direita. Trata-se, na realidade, de uma nova forma política que ultrapassa as antigas distinções e clivagens. É um fenômeno novo próprio do século XX, representativo da era das massas. O nazifascismo, assim como o bolchevismo, foi uma das manifestações históricas do totalitarismo. [...] O mais importante é a noção de que o poder ‘vem de baixo’, do povo, das massas, e não do ‘alto’, como nos regimes políticos tradicionais de matizes monárquicos e aristocráticos. Não apenas o poder origina-se das massas, mas os seus líderes são provenientes do povo [...] é conferido e legitimado pelas massas, e não por uma autoridade espiritual como acontece nos sistemas políticos tradicionais, revestindo-se, em muitas oportunidades e momentos, de um teor antirreligioso e anticristão (pp. 68-70).
Comentário:
O
(nazi)fascismo é uma “via” distinta da direita e da esquerda. As reflexões do
autor propõem uma maior parecença com a esquerda, pelo aspecto totalitário e
populista ou demagógico. O fascismo rejeita o liberalismo e o socialismo – e
por isso pôde encontrar respaldo em lugares cristãos –, mas não o aspecto
“revolucionário” da modernidade. Porém, não sendo uma “reação” que pretende o
regresso a uma tradição cultural católica, seu “messianismo” tem menos a ver
com a utópica promessa progressista de um “reino de Deus na terra”, do que com
a mítica nostalgia do “paraíso perdido”, uma volta a um passado pré-cristão,
uma espécie de neopaganismo. Ao final, o fruto será o mesmo niilismo que aquele
do progressismo, porque a negação da Fé cristã em nome de uma “novidade”
desconhecida (e irrealizável, como a do comunismo) ou de uma “novidade” velha
(a das antigas concepções pagãs mitológicas do “Povo” ou da “Raça”), digo, esta
negação, seja em nome do “pós-cristão” ou do “pré-cristão”, conduz
inexoravelmente ao abismo, como o mostra a experiência, sem necessidade de
muita metafísica ou teologia para provar...
* * *
A direita, conforme explica Del Noce, define-se pela fidelidade ao espírito da tradição. [...] afirma a existência de uma ordem eterna de valores. [...]. Já a esquerda [...] concebe os valores morais e espirituais como uma máscara que oculta interesses materiais e de dominação. Para Erik von Kuehnelt-Leddihn, a direita tem um compromisso com a preservação da liberdade, dos valores da personalidade e da tradição. [...] A esquerda [...] é inimiga da diversidade e da hierarquia e fanática promotora da uniformidade e do coletivismo. Patrocina a centralização política e o estatismo. Além do mais, rejeita invariavelmente a ideia de uma realidade sobrenatural e de uma ordem espiritual, ou seja, é essencialmente materialista. O filósofo belga Marcel de Corte define a direita como a cosmovisão que aceita sem concessões e idealismos a condição humana. O homem de direita admite e reconhece as contradições e limitações da natureza humana (p. 71).
Para o pesquisador Jacques du Perron [...] assim como há uma lei e uma moral naturais, existe uma política natural seguida por todas as culturas, povos, em todos os tempos. [...]. Por consequência, o homem de direita é naturalmente conservador, mas deve ser também um reacionário [...] A direita defende a religião, a família, a propriedade, a pátria [...] Uma tarefa importantíssima que o contrarrevolucionário deve levar a cabo é fazer com que seus concidadãos compreendem que o combate da direita contra a esquerda, ou, mais precisamente, tradição contra a revolução, que reflete uma luta mais ampla: a guerra das duas cidades – a cidade de Deus e a cidade dos homens – descrita por Santo Agostinho (pp. 72-73).
O historiador e filósofo tomista Rubén Calderón Bouchet discorre sobre uma direita cabal e absoluta que afirma a existência de certas realidades essenciais e metafísicas [...] a existência de Deus, da natureza humana como obra de Deus e da tradição divina [...]. O homem de esquerda vê nessa aceitação uma forma de escravidão [...] O homem de esquerda espera, portanto, a libertação definitiva que virá através de uma ‘ação social’ puramente exterior que modifique as condições socioeconômicas e, assim, por meio dessa transformação estrutural, provoque a passagem do homem individualista para o homem coletivo. O historiador católico ressalta, ainda, que, tanto na tradição pagã como na tradição cristão, os termos direita e esquerda foram empregados para indicar sendas, caminhos e posturas espirituais de aceitação ou rechaço dos mandamentos e das leis de Deus... (pp. 73-74).
Giuseppe Prezzolini considera que [...] a liberdade e a desigualdade são valores que estão vinculados à concepção clássica de que a vida é uma luta sem tréguas, um combate constante pela conservação, afirmação e aprimoramento da individualidade e da civilização. A luta, a concorrência material, o enfrentamento e a competição moral estimulam a inteligência e fortalecem o caráter. O homem e a civilização formaram-se em séculos e séculos de lutas e conflitos, e não num ambiente de bem-estar, conforto e ócio. Outro princípio inalienável da direita, conforme Prezzolini, é o da propriedade privada. O sendo da propriedade é inato ao homem [...], não é este de forma alguma um produto da sociedade ou da estrutura econômica de acordo com certas teorias socialistas e anarquistas (pp. 74-75).
Consoante lição de Alain de Benoist (1982), a direita é, acima de tudo, uma atitude que consiste em considerar a diversidade do mundo e as desigualdades relativas como um bem... (p. 75).A filiação da esquerda com a ideologia igualitária é admitida por uma série de autores, como é o caso de Norberto Bobbio (p. 76).Para a direita, o mal está primordialmente no coração do homem, e não nas estruturas e nos mecanismos sociais e políticos. Resulta, dessa maneira, de uma deformação da consciência, de uma desordem interior. Por sua vez, para a esquerda, o homem é plenamente moldado pelas instituições, é um produto do ambiente social [...] É visível, neste posicionamento, a influência de Rousseau... (p. 79).
O conceito de ordem é absolutamente central para o pensamento de direita [...]
Uma sociedade ordenada é necessariamente uma sociedade orgânica, onde cada parte, unidade e esfera da vida social desfruta de certo grau de autonomia e liberdade. A diversidade humana e o pluralismo social são respeitados e tutelados nesse tipo de ordem comunitária. O contrário de uma sociedade orgânica é uma sociedade mecanizada, na qual se reage contra a desagregação e a desordem social procurando fixa-la e moldá-la de acordo com um ideal e modelo único” (p. 85).
A existência de uma ordem natural não exclui a ação do homem, pois é este um elemento da natureza, uma parte essencial da realidade total [...] Exclui unicamente determinados tipos de conduta e atividade que contraíram a natureza, originando desordem ou criando artificialidades que acabaram por gera efeitos e consequências danosos (Vallet de Goytisolo) (p. 87).
Comentário:
Várias
características da “direita” foram elencadas, algumas mais próprias da direita tradicional e outras da direita liberal; a conservadora é uma mescla de ambas. Veremos suas
distinções na próxima parte, mas quando se associa, por exemplo, como faz
Prezzolini, a vida e a liberdade a “uma luta sem tréguas”, vê-se o quanto a
direita moderna nem sempre está distante de pressupostos assumidos pela
esquerda... Nem a luta da direita contra a esquerda se configura necessariamente, como imagina Perron, como a luta da Cidade de
Deus contra a cidade dos homens; esta luta se refere primordial e formalmente ao
combate espiritual, o de cada qual e o da Igreja contra os males espirituais
encarnados na sociedade. Mas isto veremos depois...

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