Islã/3
“A partir da metade do ano 600
(continuamos com o tema anterior) os árabes muçulmanos saem das bases egípcias
e penetram no norte da África “latina”, superando o que havia sido a fronteira
entre o Império romano do Oriente e do Ocidente.
Como ocorrera no Egito, as escassas
tropas do Império bizantino quase não opuseram resistência, entre outras razões
por estar completamente isoladas de suas bases no remoto Bósforo. Em
contrapartida, as comunidades cristãs locais tentam organizar a defesa,
provavelmente mais preocupadas com a fama de saqueadores e estupradores dos
árabes que pelos aspectos religiosos. Com efeito, como já assinalamos e convém
não esquecer, o islamismo era uma novidade absoluta, não muito compreensível,
pois o profeta havia morrido há apenas dez anos e muitas partes do Alcorão
ainda não haviam sido postas por escrito, estando confiadas à memória dos
discípulos. Portanto, ainda não se havia forjado o conjunto de escritura e
tradições muçulmanas que nós, com a consciência atual, conhecemos
perfeitamente.
De todos os modos, as numerosas e
poderosas comunidades judias se constituem em uma força secreta de apoio, de
certa forma por ódio para com os cristãos e especialmente para com a
Constantinopla que lhes humilhava, mas também por solidariedade semítica, ao
ser os árabes do mesmo ramo linguístico e étnico. Os judeus atuaram
habitualmente como quinta-colunistas para minar a resistência cristã. Também
eram de origem semita os orgulhosos e belicosos berberes que nem sequer os
romanos haviam conseguido domesticar. Apesar da comunidade “racial” com os
árabes, os berberes se lhes opuseram, defendendo sua independência e tradições
politeístas, havendo conhecido uma escassa ou nula evangelização. Estes
berberes, que a tradição ocidental considerará como os muçulmanos mais fiéis,
na realidade lutaram longo tempo contra a islamização e uma vez submetidos organizaram
numerosas revoltas. Por fim, depois da conversão, deram uma mostra mais de sua
independência ao criar um cisma inimigo fanático do islamismo oficial dos
árabes.
"Santo Agostinho" (1480), de Botticelli
Quanto aos cristãos, suas condições no momento da ofensiva islâmica eram muito difíceis. Pouco mais de um século antes havia acabado a terrível dominação dos vândalos, que tinham irrompido na África romana a partir da Espanha, devastando a Hipona de Agostinho, morto durante o assédio da cidade. Como muitos dos povos bárbaros, também os vândalos haviam aceitado o Evangelho, se bem –em conformidade com seu direito– a conversão não era pessoal senão que era o chefe o que decidia por toda a tribo. Mas, como muitos dos outros povos germânicos, seu cristianismo era o ariano (o contrário do monofisismo dominante no Egito; no credo ariano, o Filho está submetido ao Pai e Jesus não é de natureza divina). O arianismo era ferozmente contrário ao catolicismo de obediência romana que se professava nessas províncias africanas, o que explica a devastação causada pelos vândalos ao longo de mais de cem anos nas comunidades cristãs pré-existentes.
E isso não era tudo. A partir do ano
300, essas mesmas regiões haviam conhecido outra heresia fanática, a de Donato,
o bispo que se havia rebelado contra o metropolitano de Cartago mantendo a tese
de que a Igreja estava reservada só aos justos, excluindo portanto os
pecadores, para os quais não havia perdão.
Quando os árabes apareceram de repente
no litoral, chegando desde o Egito, a Igreja ainda não havia sido curada de
todas as feridas infligidas pelos vândalos e ainda abrigava em seu seio a
guerrilha do donatismo. Além disso, os católicos representavam o pouco
abundante substrato da população urbana de origem latina, que costumava estar
composta pelos descendentes dos veteranos de guerra instalados por Roma em suas
colônias. A população nativa, apenas salpicada pelo cristianismo (ou nem sequer
tocada pelo Evangelho, como quase todo o território do que depois se chamou
Marrocos, com exclusão de algum porto), mostrou-se disposta a acolher o convite
desses outros semitas que chegavam a partir da Arábia e que faziam vislumbrar a
possibilidade de um sonho longamente acariciado: devolver o mar aos estrangeiros
que haviam vencido em Cartago. Muitos dos católicos latinos, dada a
impossibilidade de deter as hordas muçulmanas, embarcaram rumo à Itália. Muitos
outros caíram sob os muros das cidades assediadas, aprisionados algumas vezes
pela traição dos judeus, mas também dos púnicos e dos berberes latinizados.
Aconteceu então o inevitável. Primeiro a
Cirenaica, depois a Tripolitânia, depois as províncias da África, Numídia e
Mauritânia caíram como castelos de cartas em poder do islã. Dado que, ao
contrário do ocorrido no Egito, aqui não se chegou a acordos com as comunidades
de cristãos, muitos deles foram massacrados, reduzindo-se ainda mais seu
número, ou dizimados pelo êxodo e as batalhas. Os que permaneceram no país
ficaram reduzidos a homens de segunda categoria e, sobretudo, foram esmagados
com impostos impiedosos. Estes pareciam (e eram) muito mais iníquos que os
também duros impostos do fisco bizantino, porque eram para benefício total e
único dos muçulmanos.
Converter-se à nova fé significava ser
cidadãos de pleno direito, ter abertas todas as carreiras, não pagar mais
impostos; mais ainda, desfrutar do usuprado aos que seguiam sendo cristãos (ou
judeus). Nestas condições não é de estranhar que a massa de renegados fosse tal
como para por em dificuldades os próprios muçulmanos, já que cada cristão (ou
judeu) de menos era um contribuinte a menos para espremer. Ademais, também aqui
se trasladaram massas de imigrantes e se introduziu esse direito matrimonial já
citado, segundo o qual os matrimônios mistos significavam novas gerações
muçulmanas. A própria resistência dos berberes, que havia durado tanto tempo,
acabou por ser destruída, ainda que os historiadores falem de tribos cristãs
que resistiram heroicamente no deserto durante várias gerações.
Afinal caiu a cortina sobre a
cristandade, entre outras causas porque não há que esquecer que o islamismo não
é simplesmente uma fé, mas um modo de vida que abarca todas as atividades não
só do culto, mas da vida cotidiana. Além disso, já que o Alcorão não podia ser
traduzido, todos tinham que aprender a língua árabe. Essa língua se impôs tanto
aos crentes em Alá quanto a todos aqueles –qualquer que fosse sua religião– que
viviam nesses territórios. E a arabização significava, tarde ou cedo, a
islamização.
Estas são, pois, as causas históricas da
total desaparição (os últimos bispos nativos, como vimos, eram do ano mil) do
cristianismo na África latina.
Esta foi a única ‘solução final’ dos
crentes no Evangelho. No Egito ficou um ‘resto’ não desprezível de vida cristã
entre os coptas. Tampouco na Ásia foi completa a desaparição: os monofisitas da
Síria, os maronitas do Líbano, os nestorianos (depois caldeus) da Mesopotâmia e
Pérsia, os armênios do Cáucaso seguiram sendo cristãos até nossos dias. Assim
como permanecer heroicamente fiel ao Evangelho (se bem também aqui na versão
monofisita) Etiópia, que soube resistir aos muitos intentos de islamização
violenta que chegavam desde o norte, ao longo do Nilo, ou desde o oeste,
através do mar Vermelho. Entre os historiadores se fala muito do fim do
cristianismo na África ocidental mediterrânea, mas se costuma silenciar de todo
a resistência indomável do mesmo cristianismo entre os miseráveis e desprezados
etíopes (seu nome significa ‘cara queimada’) que, quando aceitaram o Evangelho,
já não quiseram abandoná-lo.
Mas, se isto forma um quadro histórico
que cada um pode reconstruir a seu gosto, o crente está chamado a ir além dos
simples dados para se interrogar sobre seu significado, sobre o mistério da
Providência. Sob este prisma, por que Maomé? Por que tanto êxito, normalmente a
expensas da cruz, de sua meia lua? É um intento de compreender ao qual o
cristão não pode se subtrair".
[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del
católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a ed.
Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 54-59]

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