Ainda não se louvou, exaltou, honrou, amou e
serviu suficientemente a Maria, pois muito mais louvor, respeito, amor e
serviço ela merece.
(S. Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira
Devoção à Santíssima Virgem)
Mas de Sião será dito: "Todo
homem ali nasceu". (Sl 87,5)
Sempre
que eu lia, no Antigo Testamento, acerca da "Sabedoria", eu pensava
que esta realidade não deveria ser confundida com o Verbo de Deus ou a
"Sabedoria Incriada" (apesar desta apropriação constar da Liturgia da
Santíssima Trindade do ciclo A do Lecionário reformado, e de que esta
identificação é comum na teologia). E o pensava sobretudo por duas razões:
apesar da tradução que S. Jerônimo fez de Pr 8,22 ("O Senhor
'possuiu-me'..."), para opor-se aos erros de Ário, o verbo hebraico qânânî significa
"criou-me" (cf. Bíblia de Jerusalém), e isto é mais consonante com
outras passagens paralelas (cf. Eclo 1,4.9; 24,8-9); e Salomão toma a Sabedoria
como "esposa" (cf. Sb 8,2) e ela é a "mãe de tudo" (cf. Sb
7,12), ou seja, ela é figura feminina, e não masculina, como é o Filho de Deus,
sendo esta designação incompatível com o simbolismo místico, em que o Verbo é o
Esposo e a alma, a esposa. O
Verbo é, antes, o "Sábio", que criou a Sabedoria (cf. Eclo 1,8-9).
Tampouco,
por outro lado, parecia-me certa a identificação, sem mais, entre o
"ser" da filosofia e o Ser Divino (cf. Ex 3,14) -como disse Platão, o
Bem (Deus) é o "além do ser"-, havendo nesta, e em certa
interpretação da ideia de "participação", uma visão equivocada e
filo-panteísta.
Então, na Festa da Natividade de Nossa Senhora (08 de setembro) do ano de 2013, ao contemplar uma imagem da Virgem, veio-me a presente Ideia, que, depois de bastante tempo de oração, meditação e estudo, consegui formalizar teologicamente (o presente texto tem muitas referências filosóficas, porque o
tema se encontra numa interface entre filosofia e teologia, e a razão e a
Revelação se iluminam reciprocamente).
Se a "Sabedoria" é a primeira criatura
de Deus, isto nos remete à famosa definição filosófica do Liber de
causis sobre o "ser": prima rerum creaturarum est
esse, isto é, "a primeira das coisas criadas é o ser". Embora
Santo Tomás interprete esta definição afirmando o (ato de) "ser" como
"o primeiro em cada ente" (o "ato da essência"), as
considerações zubirianas sobre a "formalidade de realidade" ou o
"poder do real" nos ajudam a compreender melhor a questão: cada coisa
real "é real" pela (formalidade de) "realidade" que envolve
o conteúdo reificando-a (cf. Sobre
la esencia, El hombre y Dios), ou, projetando esta visão em
Tomás, cada ente "é" pelo (ato de) "ser" que atualiza a
essência entificando-a. Como explica Zubiri, a realidade ou o "poder do
real" excede cada coisa real, comunicando-se de uma coisa real às demais;
assim, paralelamente, o "ser" se difunde de um ente a outro. Isto
ajuda a entender tanto o adágio do Pseudo-Dionísio, de que "o ser é
difusivo de si", quanto, por exemplo, a "primeira via" tomasiana
sobre a existência de Deus, em que a "atualização" que um
"motor" efetua num "movido" é menos uma ação empírica (na interpretação
errada que Escoto faz das vias tomasianas como vias "físicas", que só
poderiam chegar a um "Motor Primeiro" imanente), que a comunicação
metafísica de ser ou realidade. Por isso se diz que a Sabedoria está
"difundida em todas as criaturas" (cf. Eclo 1,9), "tudo
abrangendo" (Sb 7,23).
Nem
mesmo é impossível que a Sabedoria tenha sido criada desde sempre (cf. Pv 8,23; Eclo 1,1b.4b; Eclo
24,9), pois, como Santo Tomás explica, a criação não depende de um princípio
cronológico, mas de um Princípio ontológico (cf. Acerca da eternidade do mundo):
a Sabedoria criada poderia existir desde a eternidade, e as coisas reais que
participam de sua realidade -e, por meio desta, da Realidade Divina- poderiam
ter sido criadas no tempo. Aliás, depois da explicação de Tomás -que Jerônimo
desconhecia- é mais razoável esta interpretação de uma criação eterna da Sabedoria do que a tradução não
literal do verbo "criar".
Por
outra parte, a Sabedoria dos livros sapienciais (e proféticos) também é a
"Lei": cf. Sb 6,17-19; Eclo 24,1-23; Br 3,12--4,1. Ela "governa
o universo retamente" (Sb 8,1), "domina sobre as criaturas e governa
com justiça e santidade" (Sb 9,2-3). Esta Sabedoria, criada, é "um
reflexo da luz eterna", "um espelho nítido da atividade de Deus"
e uma "imagem de sua bondade" (cf. Sb 7,26). Tais atributos remetem
precisamente à definição tomasiana da Lei Natural, que é “a impressão da
luz divina em nós” e "a participação da lei
eterna na criatura racional” (S.Th. I-II, q91 a2). A Lei Eterna nada mais é do que a Sabedoria
Divina ou o próprio Deus (Cf. S.Th. I-II, q91 a1; q93 a1); ela é participada à criatura racional através da Lei
Natural, que assim pode ser vista como a Sabedoria (criada) dos livros
sapienciais.
Aquilo que o Esse é
no âmbito metafísico, ou seja o Princípio (ontológico, e não apenas lógico), a
Lei Natural é no campo ético ou moral (assim como nosso intelecto especulativo
apreende os princípios da realidade, nossso intelecto prático apreende os
princípios da Lei Natural). "Ser" e "Lei Natural" são duas
faces da mesma realidade: a Sabedoria criada, objeto da philosophia, que
é tanto a Sapiência quanto a Prudência/Sagacidade (cf. Pr 8,12). Vê-se,
assim, que o "ser" dos filósofos não é o Ser Divino, mas que a
filosofia, bem exercitada, é meio para aceder às verdades da teologia, que tem
por objeto o Ipsum
Esse. A correlação entre o Esse e a
Lei Natural também tem seu paralelo em Zubiri, uma vez que o filósofo espanhol
relacionou a dimensão moral do homem, pela qual nos encontramos “ligados” à
felicidade e “obrigados” (ob-ligados)
aos deveres daí decorrentes (cf. Sobre
el hombre) à dimensão teologal, pela
qual estamos “religados” ao poder do real (cf. El hombre y Dios).
Ao ler, em Santo Afonso de Maria de Ligório (cf. Glórias
de Maria, Parte II, Tratado I "Sobre as Festas de Nossa Senhora", I,
cap. 1, ponto 1o), que "Maria é a filha primogênita do Pai Eterno", e
que o santo doutor lhe aplicava tanto a passagem de Eclo 24,5, cujo capítulo é acerca da Sabedoria, que diz "Eu
saí da boca do Altíssimo, a primogênita antes de todas as criaturas" (a
segunda oração parece ser uma glosa), quanto a já mencionada Pr 8,22 (mesmo
traduzindo como S. Jerônimo), e ao ver que Santo Tomás (cf. Sermão
sobre a Ave Maria, n. 9) aplicava à Virgem a glosa de Eclo
24,25 ("Em mim está a esperança da vida e da virtude"), então eu não mais temi afirmar minha intuição: a Sabedoria criada, a
Primeira criatura de Deus, é a Virgem Maria!
Como disse o então arcebispo Joseph Ratzinger [com alegria li este texto na reta final do Advento de 2017, que confirma minha inspiração e seus desdobramentos]:
“A ‘Sabedoria’ aparece como intermediária da Criação e da história da salvação, como a primeira criatura de Deus, onde se manifesta a pura forma original da sua vontade criadora, e igualmente a pura resposta, que ele encontra [...]
[...] A liturgia da Igreja amplia essa teologia veterotestamentária da mulher do Novo Testamento, [...] na medida em que faz as leituras sobre a sabedoria referindo-se a Maria. Isso foi bastante criticado pelo movimento litúrgico e pela teologia de orientação cristocêntrica do século XX; afirmava-se que esses textos só poderiam e deveriam ser lidos cristologicamente. Após anos de uma adesão resoluta a essa visão, torna-se cada vez mais claro para mim que ela não soube compreender, na realidade, o elemento específico dos textos sobre a sabedoria [...] Sobra aqui um resto que não se deixa integrar completamente na cristologia: ‘sabedoria’ é um termo feminino, tanto no hebraico quanto no grego, e na consciência linguística dos antigos esse não é um mero e vazio fenômeno gramatical. ‘Sophia’, enquanto feminino, permanece naquela esfera da realidade que é representada pela mulher, o feminino por excelência. Ela significa a resposta ao chamado divino da criação e da eleição. Ela expressa justamente o fato de que existe a pura resposta, e de que nela o amor de Deus encontra a sua morada irrevogável. [...] A partir de uma perspectiva neotestamentária, a sabedoria se refere, por um lado, ao Filho enquanto a Palavra na qual Deus cria, mas por outro lado também à criatura, ao Israel verdadeiro, que é personificado na serva humilde, cujo ser, por completo, está no gesto do ‘Fiat mihi secundum verbum tuum’. A Sophia se refere ao Logos, a Palavra [Wort] que funda a sabedoria, mas também à resposta [Antwort] da mulher, que recebe a sabedoria e lhe traz fruto. A eliminação do elemento mariano da sofiologia anula, no fim, toda uma dimensão do fato bíblico, do fato cristão” (RATZINGER, Joseph. A Filha de Sião: a devoção mariana na Igreja. Trad. Ney Vasconcelos. São Paulo: Paulus, 2013, pp. 19-21).
A primazia de Nossa Senhora depois de Deus não é um
"capricho" católico, ela corresponde à primazia também cronológica da
Sabedoria, da qual a Virgem de Nazaré é a encarnação. O ser criado/poder do
real "veicula" o poder de Deus, mas não é formalmente o Poder de
Deus, senão "sede" de Deus como Poder, como diz Zubiri (cf. El
hombre y Dios), da mesma forma que Maria é "sede da Sabedoria"
(ladainha lauretana). Maria não se identifica com os entes, não é "um só
ente com eles", mas não está "fora" deles, e sim "acima", como o "Poder
do Real" zubiriano que domina e vela sobre as coisas reais desde o próprio âmago das
criaturas, ditando a Lei do Amor aos corações dos entes pessoais -ela é a
"Rainha dos corações" (S. Luís Maria
Grignion de Montfort)-, como amiga dos seres humanos (cf. Sb 7,23), que
intercede por nós junto a seu Filho até o momento de nossa morte (Ave Maria).
Nos termos zubirianos, a realidade, nas coisas, é algo "último",
"possibilitante" e "impelente" (cf. El hombre y
Dios), e nos conduz a Deus, que possui eminentemente estas características;
por isso, Maria é, como rezamos na ladainha lauretana, nosso
"refúgio", nosso "auxílio" e "Mãe do bom
conselho".
Da
mesma forma que o Poder do Real "domina" sobre as coisas
reais, Maria tem "direito e domínio sobre as almas, por graça de
Deus" (S. Luís, Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira
Devoção à Santíssima Virgem, cap. I, art. II, n.37); também por isto
ela é celebrada liturgicamente como "Nossa Senhora Rainha". Da mesma
forma que a Lei Natural é reflexo da Lei Eterna que é Deus, a ladainha
lauretana invoca Maria como "Espelho de Justiça". Em outras palavras, a verdadeira
filosofia é a devoção mariana.
Fica
assim mais clara a ideia de "participação do ser": Deus participa o
seu Ser primeiramente à Virgem, a "Graça Criada" e, através dela, aos
anjos e aos homens, os quais participam do ser criado (de Maria) e, mediante
esta participação, participam do Ser Incriado. Ficando também mais claro o
porquê do culto de hiperdulia a Nossa Senhora, e o porquê dela
ser a "Rainha dos Anjos" (ladainha lauretana). Não se trata, nunca se
tratou, de "devocionismo" dos católicos, mas de objetiva devoção que
respeita a ordem do real. Não há nenhum inconveniente em afirmar a encarnação
da Sabedoria criada (que não deve ser considerada, pelos motivos expostos, o
Verbo, nem uma qualidade divina hipostasiada), já que a Sabedoria Incriada (o
Verbo) se encarnou. Nem é algum inconveniente que a Virgem tenha sido assunta
num corpo glorioso, pois seu Filho, que é Deus, também possui um no céu. Os
corpos gloriosos não são "limitadores" da atividade do Verbo e da Sabedoria,
sua Mãe no tempo, mas apenas pontos focais de suas ações sobre o mundo e as
pessoas.
A
Virgem, segunda personagem mais importante da História da Salvação, integra a
própria estrutura do real, ela é precisamente, como venho dizendo,
"a" realidade, "o" ser (criado), Imaculada desde o
princípio (cf. Sb 7,22). Se a Primeira Criatura não fosse criada Imaculada e
predestinada a não pecar, o pecado poderia chegar a ferir o próprio núcleo da
realidade, e tudo seria posto a perder. Parece razoável supor, a partir do conhecimento
(racional e revelado) da Bondade de Deus e da fé em seu desígnio salvífico (cf.
Ef 1,3-14), que não poderia mesmo ser diferente, isto é, que a Primeira
Criatura deveria ser preservada de toda possibilidade de mácula, em virtude da
Graça e dos méritos de Cristo, e com vistas à salvação dos eleitos, seus
filhos; e isto vai ao encontro do argumento de Duns Escoto: "ele
introduziu na teologia o conceito de redenção preservadora, segundo a qual
Maria foi redimida de modo ainda mais admirável: não mediante a libertação do
pecado, mas através da preservação do pecado" (S. João Paulo II, Catequese
sobre a Virgem Maria publicada no L'Osservatore Romano, ed.
portuguesa, 23, 08/06/1996, p.12). Não se trata de alguma necessidade lógica que se
impõe ao Ser Divino, mas da necessária coerência com a qual Deus, que é Amor,
criou a realidade para salvá-la, uma "necessidade chamada hipotética,
devido à vontade divina", pela qual "Maria é necessária aos homens
para chegarem a seu último fim" (S. Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira
Devoção à Santíssima Virgem, cap. I, art. II, n.39).
Maria
é também "tipo" da Igreja, sua realização exemplar (cf. Constituição
dogmática Lumen Gentium,
n. 63, do Concílio Vaticano II), "membro supereminente e absolutamente único
da Igreja" (LG 53), e por isso a ela se aplica a passagem de Ap 12,1-6. Se
a Igreja é a humanidade reconciliada, a "nova criação", Maria é sua
expressão acabada. Como Maria é Virgem e Mãe, assim também o é a Igreja. Se
pudermos aplicar, à eclesiologia, a antropológica visão tripartite do Apóstolo
(cf. 1Tes 5,23), diríamos que o Paráclito é o Espírito e a Virgem é a
"alma" da Igreja, na qual os fiéis conformam os membros ou corpo;
Maria seria assim a "alma do mundo" (cf. Platão, Timeu). Ainda sobre a relação
entre a Virgem e a Igreja, que é "Esposa de Cristo", o Doutor da
Graça explica que a encarnação de Cristo no ventre de sua Mãe é "a união
do Verbo-Esposo com a carne-Esposa" (cf. Santo Agostinho, Comentário
da Primeira Epístola de João I,2),
isto é, que