28.2.16

Dietrich von Hildebrand sobre a misericórdia

“A misericórdia constitui uma virtude particularmente divina [...]

[...] A compaixão deriva da solidariedade de todos os homens na dor [...]

A misericórdia, pelo contrário, só é possível essencialmente a partir de Deus; originariamente, é um sentimento exclusivamente divino. Constitui, portanto, uma virtude especificamente sobrenatural, só realizável dentro do ethos cristão. Todo o esforço para a realizar num plano puramente natural –no sentido de uma compaixão que desce do alto– produz apenas resultados negativos [...]

Repare-se, porém, que a misericórdia não constitui nenhuma antítese da justiça em si, isto é, não significa carência de justiça. Contém esse valor per emminentiam, por superação [...]

A misericórdia só se encontra nos que contemplam tudo in conspectu Dei, nos que, com ânimo desperto, consideram tudo com medidas sobrenaturais. Pressupõe sempre uma íntima liberdade, uma efusão do coração. Cada cicatriz, cada endurecimento produzido por um acontecimento que não ordenamos diante de Deus, refreia a livre corrente de misericórdia [...] Só pode participar desta virtude especificamente divina quem alcançar o domínio sobrenatural que deriva da verdadeira liberdade, a superioridade característica de quem busca, primeiro que tudo, o reino de Deus e a sua justiça, de quem não espera nada das suas forças, mas tudo de Deus.

Só aquele que quebrar os estreitos limites da sua própria vida, só esse poderá penetrar na ‘miséria’ alheia e, transpondo toda a compaixão, realizar o gesto de amor bondoso que se inclina sobre o miserável e lhe permite sentir um hálito do amor de Deus que o eleve acima de suas fraquezas [...]

A misericórdia é uma virtude especificamente sobrenatural que só pode florescer em quem vive em Cristo e que, como nenhuma outra virtude, representa certíssimo sinal de uma vida em Cristo [...]”


[HILDEBRAND, Dietrich von. A nossa transformação em Cristo. Lisboa: Editorial Aster, 1960, pp. 260-268]





Na esteira do Oscar

Salvo Star Wars VII (algumas indicações técnicas), não assisti a outros filmes indicados. Mas aproveito para partilhar alguns comentários sobre quatro importantes filmes do Oscar passado, que escrevi à época.


Birdman ou A inesperada virtude da ignorância (Alejandro Iñarritu) – Oscar de melhor filme de 2015

Riggam Thomson (Michael Keaton, em ótima atuação) é um ex-ator de cinema que no passado interpretou o super-herói Birdman –lembrando que Keaton fora o Batman dos dois filmes de Tim Burton–, e que no presente pretende se afirmar como ator produzindo, dirigindo e atuando numa peça da Broadway. Os principais coadjuvantes são a filha drogadicta Sam (Emma Stone) e o vaidoso ator Mike Shiner (Edward Norton) –que também atuam muito bem. Não quero fazer uma análise cinematográfica (artística) do filme –para a qual não tenho competência–, mas sim uma resenha de índole filosófica. Para isso, interessa-me destacar três diálogos no filme, que são, na minha opinião, os momentos mais profundos da obra: o primeiro, entre Riggam e sua filha, numa recepção, e os outros dois, entre Sam e Mike, no terraço do teatro.

No primeiro dos diálogos mencionados, Riggam percebe o cheiro de um cigarro de maconha que havia sido fumado por Sam e passa a brigar com a filha. Ela reage apontando a fragilidade do pai: seu desejo de ser relevante, seu medo de não ser importante ou “de não existir”. De certo modo, estes sentimentos não são próprios apenas dos atores, pois toda pessoa busca, de alguma maneira, o reconhecimento ou, ainda, ser amada (o amor é o tema da peça que Riggam está ensaiando). Não ser amado é como não existir.

No segundo diálogo, entre Sam e Mike, este diz a ela que “nada é um problema para ele no palco”, em outras palavras, ele só consegue ser ele mesmo quando não tem um compromisso com a autenticidade, isto é, quando não pode ser reconhecido tal como aquele que se apresenta no palco. Ao mesmo tempo, porém, Mike, ao se aproximar de Sam, tem o desejo de tirar suas máscaras e de se comunicar com o mundo interior da menina; ele diz que deseja “tirar os olhos dela e por na sua cabeça para olhar ao redor e ver a rua como via na idade dela”. É o desejo da experiência de compenetração, de “ver com os olhos do outro”, própria dos amantes; na teologia, fala-se da perichoresis ou circumincessão das Pessoas da Trindade, pela qual cada uma está na outra.

Depois, no terceiro diálogo, também entre Sam e Mike, este lhe diz que “ela é grande, linda, não há álcool ou maconha que esconda isto”. De certo modo, o amor que tem por ela desperta nele a capacidade de ver, além das aparências, aquilo que ela é profundamente e que nenhum vício ou pecado pode destruir. Trata-se da situação de toda pessoa, na realidade; pode-se, contudo, viver sem se descobrir essa dimensão profunda, e perder-se em meio aos ídolos, como são as drogas.

Pois bem, dito isto, como a questão do reconhecimento é resolvida para o personagem principal?

Já chegando ao fim do filme, uma crítica, feita através do alter ego de Riggam, o próprio Birdman –que ao longo do filme “fala-lhe” constantemente–, à indústria do entretenimento e ao público que adora “sangue”, serviu para Riggam entender o modo como se tornaria relevante: na cena final da peça, ele dá um tiro de verdade no próprio nariz –a cena leva a pensar que ele se mata, o que traria ao filme um ar de tragédia–, alcançando grande notoriedade para a peça e para si.

Na cena final, no hospital, Riggam observa os pássaros no céu e sai pela janela; quando sua filha entra no quarto, não o vê, olha pela janela para cima e sorri. Ele se suicidou? É possível uma interpretação metafórica: o sorriso da filha poderia representar seu reconhecimento do “voo” de Riggam como ator e como pai...


Boyhood – da infância à juventude

A premissa deste filme é a filmagem, durante 12 anos, da estória de uma criança/jovem, desde os 6 anos de idade, em sua relação com os pais separados. Não há, contudo, “substância” na estória dos personagens, mas tão somente a vulgaridade das vidas medíocres –que não deve ser confundida com a simplicidade da vida das pessoas comuns. Em resumo, nada acontece, a não ser a passagem do tempo, o “devir”, como dizem os filósofos sofistas pós-modernos. A intenção do filme se revela no diálogo final, do protagonista com uma nova amiga, da faculdade, a qual diz: “Sabe quando dizem ‘aproveite o momento’? Eu não sei, mas acho que é o contrário. É como se o momento nos aproveitasse”. É isso, o tempo passa por cima dos personagens, cujas personalidades nunca se impõem; é como se não houvesse individuação, mas apenas o fluxo do tempo: o filme, assim, não chega a ser uma “biografia”, e nem mesmo uma “cronologia” (a qual deveria supor um logos, um propósito na vida do rapaz), mas mera “cronometria”.


A teoria de tudo

Não me pareceu um grande filme, mas vão algumas observações:

1) Quem não é físico verá, mais ou menos do min 20 ao 60, um resumo compreensível (sem os elementos matemáticos) das teorias de Hawking.
2) O protagonista, Eddie Redmayne, atuou muito bem (ganhou o Oscar). 
3) A história é vendida como uma história de amor, mas quem a vê constata que não é bem assim...


Interestelar


Pareceu-me um filme gnóstico. A "salvação" é imanentista: feita pelos homens e numa perspectiva materialista. O buraco negro é um símbolo cósmico do demônio: uma estrela (anjo) que entrou em colapso –se considerarmos a cosmologia clássica (e não vejo porque ela possa estar "refutada"), poderia mesmo ser "mais" que um símbolo. O personagem principal adentra o inferno, o "coração das trevas" (alusão que um personagem faz ao livro de Joseph Conrad que inspirou o filme Apocalipse Now, com Marlon Brando) e de lá envia uma mensagem para a filha: espiritismo travestido com vestes científicas? Uma frase do início do filme: "os homens nasceram para ser exploradores e não trabalhadores braçais" pode ser a expressão da ideia gnóstica da salvação pelo conhecimento e da revolta contra a condição laboral do homem que se segue à queda do paraíso, condição esta que agora faz parte de nossa realização e que não se opõe a uma reta investigação/exploração da realidade. O poema de Dylan Thomas (aqui pode ser vista uma tradução: http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet107.htm), cujos primeiros versos são recitados, falam de um ódio contra a luz. Mesmo o discurso sobre o amor da personagem Brand (Anne Hathaway), que poderia ter uma leitura cristã quando ela fala que "nós não o inventamos", do "inútil" amor pelos mortos e que ele transcende o espaço e o tempo, poderia ser entendido simplesmente como o "cavalo de troia" que leva as pessoas a acolher os outros aspectos que são transmitidos subliminarmente –e ainda assim ela fala de um amor "que não percebemos conscientemente", que está mais para o eros instintivo da psicanálise do que para o autêntico amor cristão, que também é Razão.

27.2.16

Giovanni Reale sobre a crise da filosofia e da teologia

Excertos de REALE, Giovanni. “Prefácio” de História da Filosofia Grega e Romana I: Pré-Socráticos e orfismo. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2012, pp. 1-3 (grifos do original).


“Vivemos num momento em que se inseriu na crise da filosofia uma espécie de filosofia da crise da filosofia, vale dizer, uma filosofia que teoriza o fim da filosofia. E à crise da filosofia junto-se a crise da teologia, esta também agora, em algumas de suas frentes mais avançadas, tão persuadida da crise dos valores filosóficos, que chega a não considerar como válido tudo quanto o pensamento cristão, ao se estruturar, extraiu da filosofia, particularmente, da filosofia antiga. Assim compreende-se que dessas correntes se proclame em alta voz a necessidade da des-helenização do cristianismo, como se o cristianismo, ao subsumir determinadas categorias especulativas da filosofia clássica, tenha-se tornado seu prisioneiro, a ponto de desnaturar, vindo a se tornar, de algum modo, ele mesmo helênico.

Pois bem, em todas essas tendências se esconde, na realidade, um autêntico enfraquecimento do sentido e do alcance da dimensão especulativa, isto é, da dimensão mais propriamente filosófica: teoriza-se o fim da filosofia porque se está perdendo o sentido da filosofia. A mentalidade técnico-científica habituou-nos a crer que só é válido o que é verificável, acertável, controlável pela experiência e pelo cálculo e o que é fecundo de resultados tangíveis. Ao mesmo tempo, a nova mentalidade política nos habituou a crer que só tem relevância aquilo que faz mudar as coisas: não a teoria, mas a práxis –diz-se– é o que conta; de nada adianta contemplar a realidade, mas nela mergulhar ativamente. E, assim, de um lado, à filosofia se quer impor um método extraído das ciências, que a faz cair inexoravelmente no cientismo; de outro, quer-se impor à filosofia um condicionamento de tipo ativista que a faz degenerar no praxismo. Tanto num como noutro caso, pretende-se absurdamente fazer filosofia, matando a filosofia.  

Esclareçamos melhor este ponto, a nosso ver determinante. Veremos amplamente no curso da nossa exposição que o problema filosófico nasceu e se desenvolveu como tentativa de apreender e explicar o todo, ou seja, a totalidade das coisas ou, pelo menos, como problemática da totalidade. E a filosofia só permanece tal se e enquanto tenta medir-se com o todo e busca projetar para si mesma o sentido da totalidade. Ao contrário, as ciências nasceram como consideração racional restrita a partes ou a setores do real e elaboraram metodologias e técnicas de pesquisa que, moduladas em função das estruturas dessas partes, só podem valer para elas, e não podem, de modo algum, valer para o todo.

A precisão dos métodos científicos supõe necessariamente restrições de âmbitos e simplificações estruturais. Consequentemente, a aplicação ou a pretensão de aplicar os métodos das ciências à filosofia (isto é, ao todo, pois a filosofia é sempre e somente, como dissemos, consideração do todo) produz o monstrum que chamamos de cientismo.

E assim, quando a filosofia renuncia a contemplar para agir, renuncia, mais uma vez, a si mesma. Com efeito, o empenho prático leva-a a ser, fatalmente, mais que desinteressada visão e consideração do verdadeiro, elaboração interessada de ideias submetidas a escopos pragmáticos e, por conseqüência, de filosofia, ela se transforma em ideologia.

Quanto às novas correntes da vanguarda teológica, deve-se salientar que o seu erro é, em certo sentido, mais dramático. Elas arriscam-se, querendo renunciar indiscriminadamente ao logos grego, a renunciar ao logos como tal. É verdade que, em parte, o pensamento cristão subsumiu conceitos estreitamente ligados à cultura helênica e, portanto, historicamente condicionados; mas é também verdade que, junto com eles, subsumiu outros que, além de serem helênicos, são conceitos racionais universalmente válidos, fruto da razão enquanto razão e não enquanto razão grega. E sob o processo de des-helenização da teologia se esconde um neoirracionalismo...

[...] hoje, muitos filósofos ou cultores da filosofia, ou os que se dizem tais, apresentam-se, para dizer com uma imagem da moda, em larga medida como personagens mascarados, isto é, inautênticos, incapazes de assumir a fundo a própria responsabilidade; personagens que não se decidem por renunciar nem à ambição filosófica nem às vantagens empiricamente mais apreciáveis e concretas da ciência e da política...”