11.7.20

Sobre o panenteísmo

Trago para cá, com uma pequena edição, este artigo inicialmente publicado aqui: 

* * * 

Neste artigo, procuro determinar: 1) o conceito de “panenteísmo”, partindo do seu uso original na história da filosofia; 2) sua diferença para uma metafísica teísta, a partir do exemplo do filósofo espanhol Xavier Zubiri (1898-1983).


1) O que é “panenteísmo”?

O termo “panenteísmo” foi usado pela primeira vez pelo filósofo Karl Christian Krause, como nos diz José Ferrater Mora, em seu famoso Dicionário:

Segundo Krause, embora haja uma estreita relação entre o mundo e Deus, nenhum desses termos absorve o outro e nenhum se identifica com o outro. O panenteísmo de Krause se opõe ao panteísmo e nega que o mundo seja Deus, ou que tudo seja divino. Opõe-se também ao teísmo e nega que Deus seja transcendente ao mundo. Contudo, o panenteísmo de Krause se inclina mais para o panteísmo que para o teísmo, e constitui uma variedade do panteísmo, que sublinha a comunidade e reciprocidade do mundo e de Deus.

(FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia: Tomo III (K-P). 2ª edição. São Paulo: Loyola, 2004, vocábulo “Panenteísmo”)

O próprio Ferrater Mora nos dá mais umas pistas no vocábulo “Krause”. É uma citação longa, mas é importante entender algo da filosofia dele para entender sua noção de panenteísmo:

De acordo com Krause, o pensamento procede de dois modos: primeiro, subjetiva ou analiticamente e depois objetiva ou sinteticamente. O ponto de partida analítico consiste num exame dos processos subjetivos, entendendo-se estes como processos próprios do sujeito cognoscente enquanto cognoscente. Nesses processos produz-se a ‘objetivação’ ou transformação do dado em ‘objeto de conhecimento’. Mas a objetivação requer um ente objetivante. Este não pode ser o mero eu psicológico; tem de ser um eu mais fundamental, um proto-eu (Ur-Ich) que é a unidade última de todo o subjetivo, incluindo o corporal e o intelectual. O proto-eu, no entanto, não se basta a si mesmo; seus elementos componentes, o corpo e o intelecto, são essências finitas que fazem parte, respectivamente, da Natureza e do Espírito. Embora essas essências estejam fundadas, por sua vez, numa essência unitária e originária, que as abarca, essa essência continua a ser finita e infundada. Portanto, deve-se buscar sua fundamentação numa essência mais básica e originária. Essa essência é um puro Wesen, um ser essencial infinito, capaz de abarcar os elementos diversos e contrários: é o Absoluto ou Deus.

É importante notar aqui o seguinte: Deus ou o Absoluto, a essência originária, não é um ser feito de 2 partes ou composto, mas é um ser que inclui unitariamente isto que é dual ou diverso no mundo. E é só por isso que ela pode ser o fundamento buscado por Krause. Sigamos com Ferrater Mora:

O ponto de partida subjetivo ou analítico conduz, portanto, a um pensar objetivo ou sintético. A ciência que leva a cabo esse pensar o Absoluto é a ciência fundamental, base de todo conhecimento. O pensar objetivo ou sintético percorre o mesmo caminho do pensar subjetivo ou analítico, mas em sentido inverso: vai do Ser Absoluto ao homem. Por isso, ele começa com uma teoria da proto-essência (Urwesen), continua com uma ciência da razão da razão, passa a uma ciência da Natureza e desemboca numa ciência da essência unificada. Esta última é uma ciência do homem enquanto humanidade. A possibilidade de ir do sujeito a Deus e de Deus ao sujeito levou Krause a pensar que há uma estreita relação entre Deus e o mundo, de um lado, e entre o mundo e Deus, de outro. Esta relação não é para Krause, todavia, uma relação na qual um termo absorva o outro. Por isso ele rejeita a possibilidade de se qualificar sua doutrina como ‘panteísmo’. De todo modo, o que ele defende é aquilo a que dá o nome de ‘panenteísmo’, isto é, uma doutrina que, longe de identificar o mundo e Deus (ou vice-versa), afirma a realidade do mundo como mundo-em-Deus. A comunidade entre Deus e o mundo é a comunidade das essências, que não se reduzem por isso a uma essência única; não se trata de redução, mas de integração.

(FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia: Tomo III (K-P). 2ª edição. São Paulo: Loyola, 2004, vocábulo “Krause”)

Em que sentido o mundo é “mundo-em-Deus”, ou o que significa a “comunidade entre Deus e o mundo enquanto comunidade de essências que não se reduzem a uma essência única”? Krause não está se referindo à tomista presença de Deus no mundo pela sua causalidade (S.Th. I, q.8), nem ao entendimento bíblico da presença do mundo criado em Deus, que podemos ler nos Atos dos Apóstolos 17,28 (“nEle somos, nos movemos e existimos”), já que esta fórmula, que alude à Ação divina conservadora, não pode não ser, por óbvio, conforme o teísmo bíblico e cristão, ou ao monoteísmo da criação ex nihilo.

A explicação deve ser de acordo com Krause (cf. Ferrater Mora): tanto o proto-eu, quanto a dualidade de essências mundanas, a Natureza e o Espírito, são essências finitas: as duas últimas por integrarem um todo maior, que é o justamente o proto-eu, e este, por ser composto daquelas. Deus é a essência infinita por abarcar os elementos diversos e contrários, e não por ser composto por eles. Ou seja, em Deus, Natureza e Espírito estão presentes indiferenciada e unitariamente. No proto-eu, Natureza e Espírito são realmente distintas.

Por isso Deus é distinto do mundo: no primeiro não há distinção entre Natureza e Espírito, e no “mundo”, elas são essências distintas, finitas, limitadas uma pelo outra. Onde reside a comunidade de essências entre Deus e o mundo? Só pode ser no proto-eu: Deus é “mais” que o proto-eu, porque a indistinção precede a composição, mas o proto-eu, em sua unidade composta, reproduz a essência divina de maneira limitada, onde a limitação aqui é a composição (daquilo que era abarcado de modo unitário e indiferenciado).

E por que o mundo é distinto de Deus? Porque só “coincide” ou “se comunica” com o Absoluto pelo ápice, que é o proto-eu, e não em sua totalidade. Se a “estreita relação entre Deus e o mundo” foi pensada por Krause em virtude da possibilidade de ir do sujeito a Deus e de Deus ao sujeito, é porque esta comunicação entre Deus e o mundo se funda na comunidade de essências entre o proto-eu que funda o sujeito e Deus que funda o proto-eu.

Vejamos algo que Ferrater Mora nos diz sobre o “panteísmo”, que é importante para o problema do panenteísmo:

[…] o termo ‘panteísta’ (Pantheist) foi usado, pela primeira vez, por John Toland (1705) e o termo ‘panteísmo’ (Pantheism) pelo adversário de Toland, J. Fay (1709). […]  Tanto Toland quando Fay entendiam por ‘panteísta’ aquele que crê que Deus e o mundo são a mesma oisa, de modo que Deus não tem nenhum ser fundamentalmente distinto do do mundo, e por ‘panteísmo’ a correspondente crença, doutrina ou filosofia. […] a rigor, certas doutrinas não-modernas, orientais e ‘ocidentais’, não são retamente entendidas quando as classificamos de ‘panteístas’ pela simples razão de que seu ‘panteísmo’ não identifica Deus com o mundo, mas parte de uma unidade prévia que não é possível separar nos dois aspectos ‘Deus’ e ‘mundo’. Por exemplo, é de duvidar que sejam propriamente panteístas as doutrinas dos pré-socráticos, ou o neoplatonismo (ou se continuarem sendo qualificadas de ‘panteístas’ é preciso entender-se sobre o peculiar significado do termo). Seria melhor, quando se trata do ‘panteísmo’ pré-moderno, ou não usar o vocábulo ou usá-lo somente com qualificações. Em geral é mais adequado limitar o panteísmo ao ‘panteísmo moderno’.

(FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia: Tomo III (K-P). 2ª edição. São Paulo: Loyola, 2004, vocábulo “Panteísmo”)

Pois bem, penso que bem entendidas, estas teorias, pré-socráticas ou, principalmente, neoplatônicas, são muito melhor definidas como “panenteístas”!

Vejamos algo que Ferrater Mora diz sobre o “monismo místico”, que também poderia ser melhor definido como panenteísta:

[…] Podem-se ainda classificar as doutrinas monistas, como o fez Nicolai Hartmann, como ‘monismo místico’ e ‘monismo panteísta’. O primeiro é representado por Parmênides, cuja fórmula da identidade do ser com o pensar predeterminou o curso ulterior da maioria das doutrinas monistas. O principal e mais característico representante do monismo místico é Plotino, cuja noção de ‘Uno’ constitui o princípio que enseja a oposição entre sujeito e objeto mediante o processo de suas emanações.

(FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia: Tomo III (K-P). 2ª edição. São Paulo: Loyola, 2004, vocábulo “Monismo”, negritos meus)

 


 2) Panenteísmo x teísmo 

Um autor recente, Sanchez Gauto, considerou que Xavier Zubiri fosse panenteísta (Sanchez Gauto, C. Eduardo. “The Transcendental Panentheism Of Xavier Zubiri In Nature, History, God And Man And God”. InThe Xavier Zubiri Review, Vol. 13, 2013-2015, pp. 107-132). É uma tese falsa, e buscarei indicar sua falsidade no confronto entre a argumentação do autor e os textos zubirianos, através do qual também mostrarei a diferença entre a visão panenteísta e a visão teísta que leva em consideração que Deus está no mundo e que o mundo está em Deus. Algumas citações sobre o panenteísmo que o autor traz:

O panenteísmo pode ser genericamente definido como uma visão de Deus na qual “Deus e o mundo são ontologicamente distintos e Deus transcende o mundo, mas o mundo está em Deus ontologicamente” (Cooper, Panentheism-The Other God of the Philosophers, p. 27).

O “panenteísmo tipicamente se refere a uma síntese entre o tradicional teísmo e o panteísmo, pelo qual se acredita que o mundo inteiro (e tudo nele) esteja em Deus, embora Deus transcenda os limites do mundo natural e seja mais do que a natureza” (Stephen Palmquist, “Kant’s Moral Panentheism,” Philosophia 36, no. 1 (2008): 1728, doi:10 . 1007 / s11406 – 007 – 9098 – 0, p. 20).

O autor explica assim esta segunda citação (negrito meu):

Isto é, o mundo e tudo que há nele está está no ser de Deus ou ontologicamente em Deus. A noção de que o mundo está no ser de Deus, isto é, ontologicamente em Deus, é a chave do panenteísmo e ela serve para distingui-lo das afirmações modernas do teísmo clássico, que enfatizam fortemente a noção de imanência divina.

Não está claro o que possa significar “o mundo está no ser de Deus, ontologicamente em Deus”, já que estas afirmações, sem mais explicações podem encontrar significação teísta, a partir da famosa passagem de At 17,28: “Nele somos, nos movemos e existimos”.

Já estas “afirmações modernas do teísmo clássico” que enfatizam a imanência divina são aquelas que afirmam a Transcendência de Deus Criador e ao mesmo tempo afirmam que Deus tem algum tipo de imanência, por exemplo, como Conservador do mundo desde “dentro”. Ou, como diz o autor, citando a outrem:

Cooper explica que, para o teísta clássico, Deus não é apenas imanente; ele poderia ser absolutamente imanente porque a transcendência de Deus é absoluta (cf. Cooper, Panentheism-The Other God of the Philosophers, p. 329-330)

Isto se dá precisamente porque não se pode “dividir” Deus em uma “parte” transcendente e outra “parte” imanente: Deus é inteiramente transcendente enquanto Deus, isto é Absolutamente Absoluto, Separado, Autossuficiente e, ao ser o Criador do mundo por amor, é inteiramente imanente enquanto Causa Conservadora, porque sua Ação Causal não é distinta da Própria Essência ou Ser Divino, sem que isto signifique, de modo algum, alguma espécie de “confinamento” de Deus no interior do mundo, nem de “confinamento” do mundo no interior de Deus: aqui as imagens espaciais de nada servem, pois nos conduzem ou a algum tipo de gnosticismo dualista, ou a algum tipo de panteísmo.

Outra citação feita pelo autor:

panenteísmo’ significa literalmente ‘tudo em Deus’. (A palavra foi cunhada por […] Karl Christian Friedrich Krause). Ele afirma que os indivíduos não-divinos estão incluídos em Deus, estão completamente dentro da vida divina. Deus sabe tudo o que existe sem externalidade, mediação ou perda (embora o conhecimento e a avaliação de Deus sejam mais do que as experiências das criaturas, que estão totalmente incluídas na experiência divina). Deus capacita tudo o que existe sem externalidade, mediação ou perda (embora exista uma genuína indeterminação e liberdade de escolha e ação que Deus capacita no reino da criatura). Isso contrasta com o teísmo tradicional, que tende a considerar Deus totalmente distinto da criação e das criaturas. O deísmo é um extremo dessa tendência. Por outro lado, o panenteísmo também se distingue do panteísmo (literalmente ‘tudo é Deus’). Defende que Deus não é redutível aos indivíduos não divinos, ao universo como um todo ou à estrutura do universo; antes Deus os transcende, tendo uma realidade – uma consciência e um poder – que inclui, mas não se esgota, pela realidade da criação e pelas experiências e ações das criaturas (Nikkel, Panentheism in Hartshorne and Tillich: A Creative Synthesis, p. 2-3).

Nesta visão, o panenteísmo significa que os indivíduos não-divinos estão incluídos em Deus, em contraste com o teísmo, em que Deus é totalmente distinto das criaturas. Mas Deus não é redutível aos indivíduos não-divinos ou ao universo. Com esta ideia da “inclusão”, o autor citado parece se referir àquele momento em que, para Krause (ou talvez para Plotino) os indivíduos estariam indiferenciados em Deus, mas em que, num “panenteísmo cristão” (sic), seriam conhecidos individualmente por um Deus onisciente pessoal. Nesse modelo, mais simples, as pessoas e o mundo são partes de Deus, mas Deus é maior, e por isso não há panteísmo.

Quanto ao deísmo, que o autor menciona, enquanto crença ou filosofia, ele é corolário da visão agnóstica moderna a respeito da Revelação Sobrenatural ou do conhecimento do Mistério de Deus que vem através da Fé, precisamente porque tal agnosticismo nasce no âmbito de uma “distância” espiritual entre o homem e o Criador.

Outra citação que o autor faz ajuda a ver o “panenteísmo cristão” (sic) na forma em que eu esclareci:

O vínculo ontológico entre Deus e o mundo é bem descrito na teologia explicitamente panenteística de Jürgen Moltmann, que afirma: ‘A essência de Deus tem em si a ideia do mundo desde toda a eternidade’ (Jürgen Moltmann, Trinidad y Reino de Dios: La doctrina sobre Dios (Salamanca: Sígueme, 1983), p. 122).

O autor explica assim esta passagem: “Como a essência de Deus é também Sua existência, a criação é necessária e uma extensão do Ser divino, em vez da caracterização totalmente contingente da criação que prevalece no teísmo clássico (cf. S.Th. I, q. 19 a. 3 ad 5; S.Th. I, q. 46, a. 1)”.

Ora, o fato de que a ideia do mundo esteja eternamente na Mente Divina, no Próprio Deus, não significa que o pensamento do mundo a ser criado seja o mundo a ser criado! E é aqui precisamente onde reside um dos grandes erros panenteístas: identificar as possibilidades lógicas da Mente Divina (que são todas pensadas eternamente, simultaneamente, sem discursividade e sem confusão – de um modo que não podemos imaginar –, não havendo, assim, necessidade de emanar um intelecto divino ad extra) com uma espécie de “potência passiva”, isto é como o mundo “já” existindo virtual ou potencialmente, para ser “necessariamente” emanado, porque haveria uma “tensão” em Deus. A criação assim não é mais fruto de uma vontade livre e amorosa, que cria sem necessidade, para doar o ser participado ao que não necessitava nem merecia existir.

O autor cita um trabalho que traz várias classificações para o panenteísmo (cf. Cooper, Panentheism-The Other God of the Philosophers, “Basic Terms and Distinctions in Panentheism”, in Chapter I, pp. 26-30):

1. Panenteísmo explícito ou implícito. O panenteísmo explícito é assumido distintamente por seus proponentes, enquanto outros pensadores têm uma teologia panenteísta enquanto evitam o uso do termo ou simplesmente não o usam.

2. Panenteísmo pessoal ou não pessoal. Alguns pensadores panenteístas veem Deus como não-pessoal, enquanto outros veem Deus como pessoal.

3. Panenteísmo parte-todo ou relacional. Alguns panenteístas consideram o mundo como parte de Deus, sem ser totalmente Deus. Outros veem Deus distinto do mundo, mas ligado ontologicamente de maneira simbiótica.

4. Panenteísmo voluntário ou natural. Alguns pensadores panenteístas consideram a criação do mundo necessária para Deus. Outros veem o mundo como o produto de um ato criador gratuito de Deus

5. Panenteísmo clássico ou moderno. O panenteísmo clássico afirma a maioria dos atributos teístas de Deus, incluindo a onipotência, enquanto o panenteísmo moderno afirma que Deus é afetado pela liberdade criadora”.

Um panenteísmo com Deus pessoal (2) e criação gratuita (4) teria que ser um “panenteísmo cristão” (sic), e então seria necessário precisar o sentido desta “gratuidade”: ela teria que significar um mundo no qual todas as coisas têm um ser simultaneamente criado/participado e elevado/santificado desde o princípio. Mais ou menos como se o cosmos criado inteiro fosse uma “encarnação” de Deus.

O modo de afirmação dos atributos teístas no “panenteísmo clássico” (5), se por “clássico” se entende a concepção do bramanismo ou do neoplatonismo, por exemplo, estão associados a uma divindade impessoal; a afirmação de que Deus é afetado pela liberdade criadora está associada a visões como a da filosofia hegeliana, por exemplo. Esta ideia de que Deus é afetado é uma distorção da noção da Encarnação divina em Cristo, a qual é aplicada ao mundo todo, e no fundo está relacionada à ideia de uma criação necessária, não como uma imposição física, mas como uma necessidade ontológica que nasce de uma incompletude inicial, para que a própria divindade alcance a plenitude espiritual. Sobre o provável panenteísmo de Hegel, podemos ler em Charles Taylor:

[…] Hegel não foi um panteísta. Para ele, o mundo não é divino, nem qualquer parte dele. Deus é, muito antes, o sujeito da necessidade racional que manifesta a si mesmo no mundo. O que distinguia a posição de Hegel do panteísmo, em sua própria opinião, era a necessidade racional, que, é certo, não poderia existir sem o mundo enquanto conjunto das coisas finitas, mas que era superior ao mundo no sentido de ter determinado sua estrutura de acordo com suas próprias exigências. O Geist de Hegel, por conseguinte, é tudo menos uma alma cósmica, cuja natureza estaria dada exatamente como a nossa […] Também há quem tenha chamado a teoria de Hegel de ‘panenteísta’ ou ‘emanacionista’ e, nesse tocante, a tenha ligado à de Plotino. Certamente, há afinidades entre as duas. E Hegel, assim como os gregos, parece estar envolvido com algo como um universo eterno […]. 

(TAYLOR, Charles. Hegel: Sistema, método e estrutura. São Paulo: É Realizações, 2014, pp. 128-129).

Assim, as alternativas do ponto “3” seriam as mais decisivas para uma compreensão essencial do panenteísmo: este é fundamentalmente um entendimento específico do vínculo real entre Deus e o mundo. Elas basicamente dizem (associando-as à definição geral do autor das classificações, assumida pelo autor do artigo): o mundo está em Deus, no ser de Deus, ou ontologicamente em Deus, mas Deus o transcende (parte-todo); o mundo está em Deus, no ser de Deus, ou ontologicamente em Deus, mas sua realidade não está toda incluída em Deus, de modo análogo a como Deus o transcende, senão que eles têm uma “intersecção”, por assim dizer (a ligação “simbiótica”).

O problema todo é que o que importa, filosófica e teologicamente na questão, é o modo como o mundo está em Deus! É o entendimento deste modo que permite distinguir rigorosamente uma metafísica panenteísta tanto de uma metafísica panteísta, quanto de uma metafísica teísta que reconhece a relação criatural inseparável entre Deus e o mundo.

E aí voltamos ao que havia ficado bem estabelecido anteriormente, a partir das contribuições de Ferrater Mora a respeito de Krause: no panenteísmo, o “ponto de encontro” entre a realidade divina e a realidade cósmica é uma primeira realidade medial (primeira depois do Absoluto) composta das distinções que são indiferenciadas na realidade divina una inicial (e que assim não podem gerar imediatamente o múltiplo), e a partir da qual surgem as demais realidades mundanas; esta realidade medial entre a divindade una e o mundo múltiplo é a própria essência divina manifesta, ela é da divindade, que a supera em sua unidade indiferenciada, e é do mundo, que reflete e concretiza as múltiplas possibilidades dessa essência divina sem chegar a ter uma outra realidade que ela (sem que se possa dizer que é “criado” em sentido forte).

Que haja um “ser” intermédio entre a divindade e o mundo, que seja a própria divindade manifesta, e que seja também o ser do mundo, isto é o essencial do panenteísmo. Isto se encontra, por exemplo, e como já mencionei, no neoplatonismo (o Intelecto), ou no bramanismo (o atman), por exemplo.

Para que o panenteísmo seja definido por “o mundo em Deus”, sem confusão com o fundamento que Deus criador oferece ao mundo criado distinto dEle (At 17,28), isto deve significar que o mundo é Deus pelo ápice – não em cada realidade empírica –, possui a própria divindade como sua realidade última, não diretamente a divindade inicial, mas a divindade manifesta, que é unida à divindade inicial.

A falta de rigor e de clareza do autor – e de suas fontes, a bem da verdade, ao menos na consideração dos trechos que ele traz – leva-o a considerar Zubiri um “panenteísta”, por causa de sua doutrina da “religação” ontológica do homem a Deus. Vejamos algumas das razões que ele apresenta, a partir de sua leitura de Natureza, História, Deus (NHD) e El hombre y Dios (HD).

A respeito de Em torno do problema de Deus, ensaio recolhido em NHD, o autor afirma que “pela religação, a humanidade e o mundo inteiro estão ‘em Deus’ ontologicamente” e que a seguinte passagem descreve a “visão panenteísta” (sic):

Deus não é algo que está no homem como parte dele, nem é algo que lhe é acrescentado, de fora, nem é um estado de consciência, nem é um objeto. O que de Deus haja no homem é tão somente religação em que somos abertos a Ele, e nessa religião Deus se nos patenteia. Por isso não se pode, a rigor, falar de uma relação com Deus.

(ZUBIRI, Xavier. Natureza, História, Deus. Prefácio de Joathas Bello. Tradução de Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 422)

O que o autor vislumbra como panenteísmo aqui é simplesmente a “religação”, que Zubiri, nesse momento, define como “o vínculo ontológico do ser humano, não a algo que nos é extrínseco, mas ao que nos faz ser” (cf. NHD, 415), que “nos torna patente… a fundamentalidade da existência humana” (NHD, 416), que é uma “dimensão formalmente constitutiva da existência” (NHD, 417), a “estrutura ontológica da pessoa” (NHD, 418), pela qual somos abertos a Deus (o fundamento a ser descoberto pela razão), como na passagem citada.

A religação é um conceito que, nesse momento, descreve o fato ontológico de que nossa existência é inseparável do fundamento que nos faz ser, e que não “nos é imposto extrinsecamente” (como obrigação), nem “nos inclina intrinsecamente como tendência constitutiva do que somos” (cf. NHD, 415), ou seja, tal fundamento não é algo do nosso ser. Prossigamos com o autor:

A religação nos mostra que Deus não é uma coisa. O homem não está com Deus (como é o caso das coisas); o homem está em Deus. Zubiri aqui cita Atos 17:28: “Movemo-nos, vivemos e somos n’Ele”. O homem não precisa chegar a Deus; ele está vindo dEle. O problema de Deus é, portanto, o problema da religação.

A própria passagem, tão recorrente, sem que seja necessário aduzir nada mais, evidencia que há uma compreensão teísta do “estar em Deus”.

O conceito de ser torna-se problemático, e é aqui que o panenteísmo faz um círculo completo para Zubiri: Como Deus está além do ser, precisamos de um conceito diferente do que é um ser. A doutrina da creatio ex nihilo, combinada com a idéia aristotélica de substância, poderia levar ao resultado indesejável do panteísmo. Qualquer coisa que “é” é qualquer coisa que vem de Deus. Como o status de Deus agora é um problema metafísico, o mundo também se torna problemático ao mesmo tempo. Qual é a resposta? Panenteísmo.

E para buscar provar o seu ponto, o autor cita Zubiri: “A existência religada é uma “visão” de Deus no mundo e o mundo em Deus” (NHD, 431).

Na realidade, é o autor que se enreda no seu círculo: ele postulou que “panteísmo” era x, sem formalizar adequadamente o conceito, e este x é suficientemente vago ou ambíguo para abrigar coisas variadas, incluindo a religação zubiriana. A questão que deveria ser formulada, a partir de uma compreensão adequada do panenteísmo, de um conceito rigorosamente distinto das possibilidades expressivas do teísmo clássico e do monoteísmo revelado, é: este “em” da religação é uma realidade medial que é simultaneamente a realidade de Deus e a realidade do homem e do mundo? Considerando todo o desenvolvimento da filosofia de Zubiri: o “poder do real” é a Realidade Divina Absolutamente Absoluta e é também a realidade humana relativamente absoluta?

A propósito do ensaio O Ser Sobrenatural: Deus e a deificação na teologia paulina, o autor nos diz:

Mesmo através do objetivo principal da deificação ser o homem, toda a criação material não pode ser completamente excluída desse processo e, de certa forma, é afetada por ele. Dessa maneira, o panenteísmo de Zubiri fundamenta sua interpretação filosófica da doutrina cristã e católica romana. Assim, em “Deus e Deificação”, temos uma teologia neoplatônica que é fortemente imanentista e, na opinião deste escritor, até panenteísta. Deus é visto como amor efusivo e a Trindade é Sua vida como emanações ou “efusões” de seu amor. Fora da Trindade, o amor de Deus emana ou derruba de duas maneiras. Naturalmente, na criação, através da efusão ou emanação de uma hierarquia de seres que permanecem ontologicamente ligados à realidade transcendente de Deus. Sobrenaturalmente, “deificando” toda a sua criação por uma encarnação pessoal em Cristo e santificação pela graça para a humanidade. Deificação é uma maneira de a criação retornar à vida íntima de Deus.

Ora, Zubiri certamente é influenciado pelo neoplatonismo cristão do Pseudo-Dionísio neste texto. Eu, particularmente, considero que o Pseudo-Dionísio tem muitas ambiguidades, que podem soar de acordo com o panenteísmo neoplatônico de Plotino ou de Proclo. Mas Zubiri, como de outra parte S. Tomás e a tradição oriental, tomam o Dionísio como ortodoxo, de tal modo que as concepções de “emanação” e de “ser”, entre outras (toda a angelologia dionisiana, por exemplo), do autor neoplatônico, puderam servir aos dois autores católicos, sem que ambos caíssem em panenteísmo. Aliás, o texto teológico de Zubiri em NHD é muito claro ao ensinar os critérios que distinguem a criação teísta da emanação panenteísta:

Salta aos olhos uma diferença essencial com o amor como princípio da vida intradivina. Ali o amor comunica sua idêntica natureza a cada uma das três pessoas. Aqui [na criação] não se trata disso; seria um panteísmo. Os Padres o combateram energicamente em face do gnosticismo e do neoplatonismo de Plotino. Nesse amor de caráter pessoal que é a ágape, sua nota característica é a liberalidade. Mas, enquanto se trata de sua própria natureza divina essa liberalidade significa simplesmente autodoação natural, aqui significa a liberdade como que, ademais, se compraz em produzir outras coisas, outras naturezas.

Em segundo lugar, essa produção é essencialmente diferente, apesar de emergir da mesma raiz, de certo modo, em que está ancorada a expansão intrapessoal do ser divino. Enquanto em Deus mesmo essas processões formais existem por geração e por aspiração, aqui se trata de uma produção transcendente: é a posição não só de outros, como acontece ad intra, mas, ademais, de outras coisas. Contra toda possível forma de emanatismo, o Novo Testamento e os Padres gregos insistem tematicamente nesse caráter transcendente do ato criador em face das processões imanentes que produzem as pessoas divinas (NHD, 484)

Deus só comunica sua natureza ou essência ou só comunica o seu ser ou realidade integral (o ser e a essência em Deus se identificam) nas processões intra-divinas. As criaturas possuem outras naturezas ou outras essências, delimitadas ou criadas, possuem outro ser ou realidade que o Ser Divino, precisamente porque não recebem sua natureza divina enquanto são criaturas (embora pela Graça o homem possa participar da natureza divina e o cosmos possa ser glorificado):

A deificação não é propriamente falando, criação. Na criação, produzem-se coisas diferentes de Deus; na deificação, Deus se dá pessoalmente. […] Na Trindade, Deus vive; na criação, produz coisas; na deificação, as eleva para associá-las à sua vida pessoal (NHD, 493).

Poderíamos dizer que uma nota essencial do panenteísmo quando ele é religioso, é a inexistência da diferença entre criação e deificação: nesses sistemas panenteístas religiosos, a divinização do homem não é uma potência da Graça Sobrenatural, mas de uma “graça intrínseca” (sic), a de já ser, no fundo, a divindade, devendo apenas ser realizado o esforço ascético e dialético para se obter a “gnose”.

A propósito de El hombre y Dios, o autor considera que o poder do real zubiriano “está fundamentado na própria estrutura da realidade, distinta das coisas reais, mas que constitui as coisas como tais. Essa realidade é Deus”.

Ora, Zubiri não diz isto, mas fala da “estrutura do poder do real” (ZUBIRI, Xavier. El hombre y Dios. 6ª edição. Madrid: Alianza, Fundación Xavier Zubiri, 1998, p. 308).

O poder do real não é nada mais que a “formalidade de realidade”, aquilo que Zubiri denomina “de suyo”: o objeto da inteligência é algo “de seu”, algo “que se pertence” e não à inteligência, algo que está na intelecção “desde si mesmo”. É a “realidade” sob o aspecto da “dominância” que o real exerce na vida humana (cf. HD, p. 28; p. 88). O poder do real é um “mais” nas coisas reais: ele é a realidade das coisas reais (o ser dos entes, em termos tomistas), e não está fundado na “própria estrutura da realidade” (da qual ele é um “momento”), como diz o autor, mas no Fundamento Divino da realidade, distinto dele.

Segue dizendo o autor:

Vemos, então, que, para provar a existência de Deus, Zubiri recorre a uma visão panentística de Deus, onde Ele fundamenta toda a realidade pelo elo ontológico da religação. O fundamento de toda a realidade é para Zubiri o poder do real. Esse poder vem da presença formal e constitutiva de Deus em todas as coisas reais. Não é o poder de Deus, mas é um veículo dele. Essa estrutura ontológica do poder do real é outro veículo de Deus no panenteísmo de Zubiri: Certamente, o poder do real não é formalmente o poder de Deus, assim como uma coisa real não é formalmente Deus. Mas o poder do real “transporta” o poder de Deus, transporta Deus como poder: as coisas reais são, por essa razão, o “assento” de Deus como poder. Na medida em que é fundada em Deus, o poder do real é “veículo” e “assento”.

Ora, numa visão panenteísta, o poder do real teria de ser a própria essência divina no fundo das coisas, e não um efeito da presença divina nas coisas. Como já dito, o poder do real não é o “fundamento de toda a realidade”, mas é a própria “realidade” das coisas reais; é a esta realidade ou a este poder que o homem está religado em primeira linha, para poder se elevar à constatação da religação a Deus, Fundamento da realidade. O fundo das coisas reais é “sua realidade’, é “o poder do real”, e o Fundamento deste fundo é Deus. Vejamos o que diz Zubiri:

Efetivamente, o fundo das coisas não é uma physis ou uma natura nem naturata nem naturans. É justamente sua realidade: o caráter de realidade. E na medida em que Deus está constituindo in acto exercito e em todo instante esse caráter de realidade por sua transcendência nas coisas, Deus é algo que está presente no fundo de todas elas de uma maneira contínua, constante e constitutiva [constituinte da realidade da coisa, é o sentido] (HD, pp. 312-313).

O autor assim resume os pilares do “panenteísmo zubiriano” (sic): 1. Deus está presente em todas as coisas e todas as coisas estão em Deus; e Deus fundamenta sua realidade pelo poder do real. 2. As coisas são um assento da presença imanente de Deus e isso lhes dá a “deidade”. 3. Finalmente, o homem acessa essa realidade pelo dispositivo fenomenológico da religação.

Em resposta:

1. As coisas estão “em Deus” enquanto fundadas por Ele, e não enquanto têm o seu Próprio Ser, Essência ou Realidade (o que é essencial ao panenteísmo retamente compreendido).

2. A “deidade” ou poder do real não é a essência divina, mas a realidade criada, em termos teológicos.

3. O sentido da religação já foi bem determinado: vínculo metafísico com o poder do real ou a realidade das coisas reais, que a busca racional descobre como fundado em Deus, descobrindo assim também nossa religação a Deus.

Acrescenta o autor o seguinte:

O panenteísmo de Zubiri é reforçado pela universalização das declarações com relação às coisas para o mundo. As coisas na realidade têm o atributo da respectividade, e a unidade da respectividade é o mundo. Portanto, qualquer coisa que possa ser atribuída à relação Deus-coisas pode ser dita também à relação Deus-mundo.

O que ele está a dizer é que, como as coisas consideradas individualmente estão “religadas” e assim, “em Deus”, o mundo inteiro estaria “em Deus”, no sentido do peculiar panenteísmo defendido pelo autor. Mas na realidade isto apenas significa que todo o mundo é religado a Deus.

O mundo é a “respectividade do poder do real enquanto real”. Deus funda a mundanidade do cosmos (que em Zubiri é “a respectividade das coisas reais enquanto tais coisas reais”, enquanto têm essências ou conteúdos determinados, e não enquanto simplesmente reais). Dizer que Deus funda o poder do real ou a realidade das coisas reais e das pessoas é o mesmo que dizer que ele funda o mundo. O “mundo” tem o mesmo status metafísico do poder do real: é o veículo da presença de Deus no cosmos. Para que houvesse panenteísmo, o mundo teria de ser a própria essência ou realidade divina.

Zubiri critica o bramanismo justamente naquilo que constitui o fulcro do panenteísmo corretamente caracterizado:

A tese do panteísmo te muitas formas na história. […] A primeira, a mais sutil, a mais próxima à verdade […] é o panteísmo brahmânico que entende à última hora que tudo é Deus; que esta realidade radical, necessariamente existente, é a própria totalidade do mundo, mas não por razão “do que” são as coisas do mundo, senão pura e simplesmente no sentido de que todas elas têm uma só subsistência, a subsistência divina. O que para o europeu se lhe faz duro de interpretar, a saber: que Jesus Cristo seja Deus apensar de ter natureza humana, isto é, que seja Deus nada mais que por razão subsistencial, para o brâhmane não só não é ininteligível, senão que é o próprio do universo inteiro; nenhuma de suas coisas tem natureza divina, mas todas elas não têm mais que uma subsistência, que é a divina. E digo que isto é o mais próximo à verdade. Aí está o caso de Cristo. E desde logo é o ABC da teologia que isso poderia ter sido o caso do universo inteiro, e não por razão de uma só pessoa, senão das três ao mesmo tempo (ZUBIRI, Acerca del mundo [1960]. Alianza; Fundación Xavier Zubiri: Madrid, 2010, p. 217).

Outras palavras de Zubiri sobre o Ato criador divino, no escrito que recolhe alguns cursos teológicos que ele deu na Universidade Gregoriana de Roma na década de 70: “Assim como nas processões trinitárias se constitui a essência infinita de Deus, assim também na processão criadora se constitui a essência finita das coisas. Em definitivo, a essência divina não é aquilo que são as coisas” (ZUBIRI, El problema teologal del hombre: Cristianismo. 1ª reimpressão Alianza; Fundación Xavier Zubiri: Madrid, 1999, p. 217).

Por fim, trago aqui o testemunho do Dr. Jesús Sáez Cruz, que provavelmente escreveu a obra mais substancial e mais fundamentada sobre a relação entre Deus e o mundo em Zubiri: SÁEZ CRUZ. La accesibilidad de Dios: Su mundanidade y transcendencia em X. Zubiri. Salamanca: Universidad Pontificia Salamanca, 1995 (Bibliotheca Salmanticensis, Estudios 174). Vejamos o que ele diz:

não é preciso acudir a inspirações de tendências pantenteístas, para explicar a filosofia de Zubiri, quando afirma que as coisas e o mundo estão em Deus e nisto consiste a constituição formal do real por Deus (p. 278, nota 7).

Creio que este “estar em Deus” [do mundo] é muito distinto de toda concepção panenteísta. O “em” aqui é uma categoria de atualização [presença desde si mesmo, não identificação] referida tanto a Deus como ao mundo (e às coisas): Deus “em” as coisas e as coisas “em” Deus (p. 233).

quero assinalar aqui que o estar de Deus “em” a coisa e o estar da coisa “em” Deus são dois modos de enunciar a mesma ação fundamentante [de Deus] desde distintas atualizações [Deus está no fundo das coisas fazendo-as reais e as coisas assim estão em Deus como em seu inseparável Fundamento]. Não é isto panenteísmo, a meu parecer, nem tem nada a ver historicamente com as doutrinas autodeclaradas panenteístas [nas quais Deus não é o Fundamento da realidade das coisas, mas a realidade das coisas] (p. 302).

Zubiri supera o deísmo de um Deus estranho “fora” do mundo ou “sobre” o mundo, para encontrar um Deus cuja nua realidade, força e poder absolutos fundamentam o mundo desde dentro de sua própria realidade. […] Esta é a transcendência de Deus “em” as coisas. E esta é também a presença mundana de a “outra realidade” que não é “o totalmente outro”, por ser transcendência mundanal acessível na realidade que não é Ele. E, sem cair em sutis panenteísmos, mas ancorando suas raízes na tradição do pensamento grego dos Padres da Igreja (p. 308).

A doutrina chamada “perenialismo” também possui uma metafísica panenteísta. Fritchof Shuon, em sua Unidade Transcendente das Religiões, afirma o seguinte (negritos meus):

A ideia de realização metafísica [significa a] realização mediante a qual o homem toma consciência do que em realidade jamais cessou de ser, a saber, a identidade essencial do homem com o Princípio divino que é o único real. Por sua parte, o exoterismo está obrigado a manter a distinção entre o Senhor e o servidor, abstração feita de que os profanos afetam não ver, na ideia metafísica da identidade essencial, mais que panteísmo…

O que ele chama de “exoterismo” é a metafísica teísta da criação ex nihilo. A “distinção entre o Senhor e o servidor” é a distinção Criador-criatura, Ser Absoluto-ser participado. E efetivamente esta doutrina perenialista não é panteísmo, porque o panenteísmo não é panteísmo. O resto é retórica propagandística, e não argumento intelectual.

Rigorosamente falando, o panenteísmo é uma crença, uma ficção filosófico-teológica, que parte da instalação no Absoluto e procura entender a criação “desde dentro” da Divindade; ora, daí não se tem como sair realmente. É claro que se pode construir, a partir da ideia do Absoluto, um discurso super-lógico e um monismo super-sofisticado em comparação com os gnosticismos dualistas e os panteísmos toscos, mas toda esta sofisticação é, repito, uma crença.

A partir dos argumentos legítimos para se buscar intelectualmente a existência divina, que são os argumentos quia, podemos constatar a existência do Ser Pleno (cf. S.Th. I, q2, a2), mas não podemos jamais constatar nem pressupor a identidade entre o nosso ser e este Ser Pleno. E a partir da Revelação da Trindade, como vimos, podemos confirmar a distinção real entre o Ser Absoluto e o ser criado e participado.


A modo de conclusão

 

O panenteísmo deve ser conceituado, portanto, como a cosmovisão em que Deus e o mundo são unidos por um “ser” intermédio que é como que uma hipóstase da divindade e que participa este seu ser divino ao mundo.

Não se trata aqui da identidade panteísta entre Deus e o mundo, já que o mundo e as almas, só são divinos pelo ápice. Nem se trata do gnosticismo dualista, porque o mundo é “bom” e não “mau”, ainda que possa ser “ilusório” ou “transitório”, mero caminho de regresso à unidade divina.

Não há, no panenteísmo, uma distinção entre a criação e a deificação, já que a criação já é a doação de tudo que é necessário para que as almas retornem à divindade originária, apenas restando o esforço ascético e dialético para aceder ao atman, ao nous divino, à “centelha divina” ou qualquer coisa semelhante.

Quaisquer que sejam as distinções categoriais entre os vários panenteísmos (compreensões particulares da emanação, do regresso, dos meios etc.), penso que se pode afirmar que a estrutura essencial do panenteísmo é esta aqui apresentada.


8.7.20

Sobre a Divinização na Teologia Oriental - Parte 2


Segunda parte da minha tradução do Capítulo V (O Dom do Espírito e a divinização) de: LUIS LORDA, Juan. La Gracia de Dios. Madrid: Palabra, 2005, pp. 99-121.

* * * 

3. A DOUTRINA DE GREGORIO PALAMAS

A distinção entre essência e energias

Gregorio Palamas defende, com toda a tradição grega, que o homem foi divinizado até chegar a ser “partícipe da natureza divina” (2Pe 1, 4). Mas, ao mesmo tempo, quer respeitar a tradição que diz que a essência divina em si mesma é inalcançável. Então desenvolve um princípio que encontra em Máximo o Confessor: “Deus pode ser participado no que se comunica, mas não pode ser participado em sua essência incomunicável”. E distingue entre a essência incomunicável e as “energias incriadas”, que, a modo de raios divinos, saem de Deus e chegam à criatura divinizando-a. Segundo isto, entende a graça como a energia divina que ilumina e introduz na contemplação beatificante e permite participar da glória divina.

“Posto que se pode participar de Deus e posto que a essência sobreessencial de Deus é absolutamente imparticipável, há algo entre a essência imparticipável e os participantes que lhes permite participar de Deus (...). É necessário buscar que Deus seja participável de um modo ou outro para que, participando assim, cada um receba de maneira adequada e por analogia da participação, o ser, a vida e a deificação” (Triadas, III, 2, par. 24). Se aos participantes se lhes transmitisse a plenitude da essência divina, seriam outros deuses. Tem que haver alguma diferença entre como é a essência divina em si mesma e como se dá aos homens que participam nela. Segundo Gregório Palamas, essas energias em Deus são o mesmo que a essência (como os raios em sua origem são o mesmo que o sol), mas, enquanto iluminam e divinizam a criatura, distinguem-se realmente da essência.

As “energias” divinas são, literalmente, os “atos” externos (ad extra) de Deus. É o modo de chamar às diversas ações livres de Deus: por um lado, a criação, que origina o ser e a vida; por outro, a graça que diviniza e glorifica. As ações saem da essência divina e, em sua origem, são incriadas e se identificam com ela; mas se distinguem da essência divina e entre si enquanto produzem efeitos externos e distintos. São frequentemente representadas como “raios” que procedem da essência divina. Desta forma, Palamas crê resolver a primeira dificuldade. Na contemplação não se alcança a essência mesma de Deus, senão essa essência enquanto se nos dá a participar, as energias. À energia divina que nos diviniza se lhe pode chamar graça, glória ou, como veremos em seguida, iluminação.

“A iluminação e a graça divina e deificante não é a essência senão a energia de Deus” (Capita physica, 68 e 69); “A graça é, pois, incriada e é dada pelo Filho, enviada e concedida a seus discípulos. Não é o próprio Espírito, senão um dom divinizador, energia não só incriada, senão inseparável do santíssimo Espírito” (Triadas, III, 8). Comenta V. Lossky: “Pela vinda do Espírito Santo, a Trindade habita em nós e nos deifica, nos confere suas energias incriadas, sua glória, sua divindade, que é a luz eterna na que devemos participar” (Teologia mística, p. 127). As energias, que se referem ao operar ad extra, distinguem-se das processões que são o operar ad intra, e constituem a essência mesma de Deus necessária e eterna. As expressões de Palamas podem suscitar alguma confusão, porque as chama “incriadas” e porque fala de uma nova “distinção” (diáfora) na Trindade entre essência e energias. Tropeçamos com a falta de propriedade de toda linguagem para falar de Deus. As energias são incriadas no sentido em que tudo o que há em Deus é incriado (a criação é, evidentemente, criada, mas o ato pelo que Deus a cria, não). Quanto à “distinção”, há que assinalar que propriamente não é “para dentro” da própria essência, senão antes “para fora”, quanto aos efeitos que produz.

A doutrina da distinção ou diversidade (diáfora) entre Essência e Energias divinas, em Deus, suscitou oposição no seio da teologia bizantina. Mas, em sucessivos sínodos de Constantinopla, foi aceita como doutrina praticamente oficial (ss. XIV e XV). Perdeu importância com o translado do centro da Ortodoxia para a Rússia. Mas foi retomada no século XX como doutrina central e característica da teologia ortodoxa.

Há que se reconhecer que não faltam em Palamas expressões infelizes e que suscitam perplexidade, porque, às vezes, expressa as distinções de uma maneira demasiado “física”. Ademais de Barlaam de Calabria, opuseram-se às teses de Gregorio Palamas os teólogos bizantinos Gregorio Akyndinos (1300-1348) e Nicéforo Gregoras (1292-1361), que tinham certa formação tomista, mas eram fortemente antilatinos. Os Sínodos de Constantinopla dos anos 1341, 1347 e 1351 assumira, em termos cada vez mais claros, a doutrina de Gregório Palamas como expressão correta e inclusive regra da fé e condenaram as posições contrárias. Junto à questão do Filioque, esta doutrina foi usada para caracterizar a Ortodoxia frente ao Ocidente cristão. Este uso polêmico provocou que a teologia ocidental a mirasse com receio. As obras de Palamas foram publicadas no Migne (PG 51, 151), com uma advertência sobre sua possível heterodoxia. No Oriente cristão, a doutrina palamita perdeu importância quando o centro da Ortodoxia se deslocou desde Constantinopla a Moscou, por motiva da dominação otomana. Quase esquecida depois, foi retirada no século XVIII do ensinamento oficial da Igreja russa.

Paradoxalmente, o artigo que dedicou a Palamas, Martin Jugie no Diccionnaire de Théologie Catholique 11 (1932) 1735-1818, bem documentado, mas inspirado por um espírito de controvérsia, provocou, por reação, a defesa de Palamas entre os teólogos ortodoxos russos emigrados a Paris depois da Revolução russa de 1917. Estes destacaram a importância da distinção para a identidade da tradição ortodoxa e reformularam seu pensamento, evitando as expressões menos felizes. No primeiro congresso de Teologia Ortodoxa (Atenas 1936), G. Florovsky defendeu a volta a Palamas. Em paris, Vladimir Lossky preparou uma síntese renovada do sistema espiritual e teológico palamita em Teologia mística da Igreja do Oriente (1944); depois, seu discípulo Jean (John) Meyendorff que, com sua tese Introdução a l’étude de Grégoire Palamas (1959), fixou o modo moderno de entender a distinção de Palamas, acentuando o aspecto espiritual e existencial da doutrina. Com Meyendorff, a escola passou aos Estados unidos, ao Saint Vladimir Seminar. E hoje está presente em todos os territórios da Ortodoxia e nos teólogos ortodoxos mais significativos (por exemplo, o romeno D. Staniloe, autor de uma conhecida dogmática). O fato de assumi-la como doutrina distintiva complicou um pouco as coisas.

A luz tabórica

Toda oração verdadeira tem algo de mística, alcança em algum grau a contemplação de Deus. Isto não é fruto de nosso esforço, senão que Deus o dá, é graça de Deus. Segundo Palamas, o que contemplam os santos é a energia divina da iluminação que vem de Deus. Palamas faz sua distinção com ânimo de fundamentar a tradição hesicasta sobre a contemplação, a realidade da iluminação como divinização.

Para não nos perdermos com as imagens ou as expressões desacostumadas há que se ter sempre presente que, quando Palamas fala de luz, refere-se ao que nós entendemos por iluminação. Só que em Palamas abarca tudo, e tem uma manifestação física até chegar à transformação do corpo glorioso. Ao nascer o Batista, exclamou seu pai Zacarias: “Pelas entranhas de misericórdia de nosso Deus, nos visitará o sol que nasce do alto, para iluminar aos que jazem nas trevas e sombras da morte, e para endereçar nossos passos pelo caminho da paz” (Lc 1, 78-79).

O modelo de homem divinizado é Jesus Cristo, que contemplamos glorioso depois de sua ressurreição, e na cena da Transfiguração, no Tabor. Na luz que brilha em Cristo Glorioso, a tradição ortodoxa vê o reflexo de sua divindade. Os apóstolos contemplaram a glória de Deus, pela transformação do corpo de Cristo. Mas também o viram graças a uma iluminação em seu entendimento, porque não se tratava só de uma luz física. Os bizantinos identificam essa luz com a glória (ou a graça) de Deus; é uma energia divina que procede da essência divina; também a chamam “luz tabórica”, para recordar a glória do Tabor. Também se manifestou nas teofanias do Sinai (cf. Ex 19, 16-18; 24, 15-18).

O Oriente cristão tem uma devoção imensa à festa da Transfiguração. Ali vê refletida não só a glória de Cristo, senão também a promessa de nossa salvação. Citando uma passagem da homilia de São João Damasceno sobre a transfiguração “a glória da Divindade se faz glória do corpo” (n. 12), diz Palamas: “Esta luz misteriosa, inacessível, imaterial, incriada, deificante, eterna; este brilho da natureza divina, esta glória da Divindade, esta beleza do Reino celestial é acessível aos sentidos, ao mesmo tempo que os supera” (Triadas, III, 1, 22). Explica V. Lossky: “No momento da encarnação, a luz divina se concentrou, por dizê-lo assim, em Cristo, Deus-Homem, em quem habitava corporalmente a plenitude da divindade. Isto quer dizer que a humanidade de Cristo estava deificada pela união hipostática com a natureza divina (...), mas se produziu uma mudança na consciência dos apóstolos, que receberam por algum tempo a faculdade de ver o Mestre tal como era, resplandecente da luz eterna de sua divindade” (XI, pp. 165-166); “Para ver a luz divina com os olhos corporais como a viram os discípulos no monte Tabor, há que participar de dita luz, ser transformado por ela em maior ou menor medida. A experiência mística supõe, pois, uma mudança de nossa natureza, sua transformação pela graça” (XI, p. 166). A Liturgia das Horas católica recolhe uma homilia de Anastásio Sinaíta (+ ca. 700) na festa da Transfiguração do Senhor (6 de agosto): “com quem brilharemos com nossa mirada espiritualizada, renovados de certo modo os traços de nossa alma, feitos conforme a sua imagem e, como ele, transfigurados e feitos partícipes da natureza divina”. Ademais, ver Catecismo da Igreja Católica 554-555.

Essa luz incriada (a graça ou a glória) explica a experiência dos místicos que, quando chegam ao terceiro grau (união), estão seguros de ser iluminados e contemplar de algum modo a Trindade. Os autores ortodoxos insistem em que é uma iluminação espiritual, que procede diretamente da essência divina. Essa luz vence a obscuridade do pecado, restaura a união com Deus e diviniza o homem. Ao explica-lo têm muito em conta a teologia da luz nos escritos de São João; e este salmo: “pois em ti está a fonte da vida e em tua luz veremos a luz” (Sl 36(35) 10), de que também gosta Santo Agostinho.

Diz V. Lossky: “Na medida em que Deus se manifesta, se comunica e pode ser conhecido, é luz. Se Deus é chamado Luz, não é tão só por analogia com a luz material. A luz divina não tem um sentido alegórico e abstrato: é um elemento da experiência mística (...). A visão perfeita da divindade feita perceptível em sua luz incriada (...) pertence ao século futuro.  Entretanto, os que são dignos dela, conseguem ver (...) desde esta vida, como o viram os três apóstolos no monte Tabor” (XI, p. 163); “Enquanto luz – princípio de manifestação –, a graça não pode permanecer imperceptível em nós. Se nossa natureza está em estado de saúde espiritual não podemos não sentir a Deus. A insensibilidade na vida interior é um estado anormal  (...). Uma pessoa que entra em união cada vez mais estreita com Deus não pode permanecer fora da luza. Se se encontra submergida nas trevas é que sua natureza está obscurecida por algum pecado ou, bem, que Deus o prova para aumentar seu fervor” (XI, 167). O pecado nos afasta de Deus e nos torna insensíveis para captá-lo; assim ocorreu com o pecado original.

Essa luz (graça ou glória) é incriada, procede de Deus e a dá o Espírito Santo para divinizar o homem. Os santos a têm interiormente quando alcançam a contemplação. Essa luz divina, que é a graça do Espírito Santo, combate a obscuridade do homem e impulsiona constantemente à conversão. E também pode se manifestar externamente, como antecipação do corpo glorificado. É o fundamento da iconografia do halo (ou o reflexo de glória) dos santos. Far-se-á plena na ressureição final, quando brilhe também externamente e se tornem gloriosos os corpos dos santos.

Como assinala G. Matzaridis: “A luz incriada, de acordo com o ensinamento de Palamas e, em geral, dos hesicastas, é o dom divinizante do Espírito Santo” (The deification, p. 99); “Pela recepção da graça deificante do Espírito, o intelecto humano é deificado e comunica esta graça ao corpo, de tal forma que todo o homem toma parte no dom deificante” (The deification, p. 103). Isto tem um efeito corporal, como sucede com o halo dos santos, a incorruptibilidade de seus corpos; e a fragrância – o bom odor de Cristo – que muitos deixaram ao morrer. Diz J. Meyendorff: “Desde Macário do Egito até Serafim de Sarov, os místicos do Oriente cristão afirmaram que a comunhão com Deus abarca o composto humano inteiro, e que a luz divina brilha, às vezes, no próprio corpo do homem divinizado, e que esta luz é uma antecipação da ressurreição final” (St. Grégoire Palamas et la mystique ortodoxe, Seuil, Paris 1959, 76).

Segue V. Lossky, glosando a S. Simeão o teólogo: “A luz divina se converte no princípio de nossa consciência: nela conhecemos a Deus e nos conhecemos a nós mesmos. Ela perscruta as profundidades do ser que acede á união com Deus, torna-se para ele o juízo de Deus antes do juízo final. (...). A consciência plena na luz divina se realizará em todos quando a segunda vinda de Cristo (...) A própria ressurreição será uma manifestação do estado interior dos seres, pois os corpos deixarão transparecer os segredos das almas (...). Então, tudo quanto a alma havia amassado em seu tesouro interior aparecerá no exterior, no corpo. Tudo se fará luz, tudo estará penetrado de luz incriada. Os corpos dos santos se tornarão semelhantes ao corpo glorioso do Senhor, tal como apareceu aos apóstolos no dia da Transfiguração” (XI, 173-174). A iconografia católica costuma representar os santos com um halo dourado, que expressa sua iluminação (interna e externa); e ao Senhor (menino ou na cruz) com uns raios especiais, que chama “potências”, que querem expressar o fulgor de sua divindade.

A iluminação na tradição católica

A teologia ocidental fica um pouco perdida com o “realismo” das expressões bizantinas. Mas há que se entender bem: a luz tabórica (energia divina) não é a luz física nem tampouco a luz natural da inteligência. É a iluminação de Deus que ilumina diretamente o entendimento, renova o coração e chega a produzir efeitos físicos no corpo humano. Ao contemplar a Deus diretamente, o homem se enche de glória, se diviniza: “em tua luz veremos a luz” (Sl 36 (35) 10). A teologia ocidental fala em termos semelhantes da luz da glória (lumen gloriae, DzS 895), quando pensa na visão beatífica, ainda que esta expressão não tem na teologia ocidental a relevância antropológica e espiritual da “luz tabórica” na teologia oriental. Essa luz da glória, estritamente falando, é a ação de Deus sobre o entendimento humano que lhe permite contemplá-lo. Com a imagem privilegiada e tão formosa da luz se expressa a glória de Deus e a divinização do homem.

Os mal-entendidos que causam os termos lidos em contextos diferentes fazem que as teologias se ponham objeções mútuas que são quase exatamente as mesmas. A teologia ocidental, às vezes, queixou-se de que contemplar a essência através das energias divinas é, na realidade, contemplar a Deus em um “meio”. Mas os teólogos ortodoxos insistem uma e outra vez que as energias não são nada intermédio, senão a própria essência divina enquanto se dá a participar. Por sua parte, com o mesmo argumento, a teologia oriental descartou o ‘lumen gloriae’. Mas a teologia ocidental insiste em que não é algo criado, senão a elevação que Deus causa no entendimento humano para que possa conhece-lo. Deus mesmo se deixa contemplar, mediante essa iluminação. Para os orientais, a essência de Deus sempre permanece mais além, e o que se contempla são as energias (o que se pode contemplar da essência). Os ocidentais dizem que, na visão beatífica, contempla-se a essência, mas não totalmente: tota sed non totaliter. Parecem variantes de vocabulário sobre intuições comuns.

“Lux aeterna luceat eis”: “que a luz eterna brilhe para eles”, pede a liturgia católica para os fiéis defuntos; “Por causa de sua transcendência, Deus não pode ser visto tal qual é mais que quando ele mesmo abre seu Mistério à contemplação imediata do homem e lhe dá a capacidade para isso. Esta contemplação de Deus em sua glória é chamada pela Igreja ‘a visão Beatífica’” (Catecismo da Igreja Católica 1028; cf. 1722). Diz o Catecismo Romano: “O único modo de conhecer a essência (substantia) divina é que ela mesma se uma a nós e de um modo incrível arraste nossa inteligência e assim sejamos capazes de contemplar a formosura de sua natureza” (XIII, 8); “Alcançaremos a luz da glória quando, iluminados por seu esplendor, vejamos a Deus, luz verdadeira, em sua mesma luz, pois os bem-aventurados sempre intuem a Deus presente, e com esse dom, melhor e maior que nenhum outro, são feitos partícipes da essência divina e gozam de uma verdadeira e estável felicidade” (XIII, 9); Santo Tomás de Aquino, seguindo a Santo Agostinho, pensa que essa luz se fará visível fisicamente “pelo brilho da caridade divina nos corpos renovados” (S. Th. I, q. 12, a. 3, ad 2).

A contemplação será plena no céu, e nos divinizará, mas a inabitação é uma certa antecipação da glória (cf. Mystici Corporis, 31). Em distinta medida, o conhecimento da fé e a contemplação mística (a união com Deus na oração) são uma certa antecipação da visão beatífica. Isto o sustenta a tradição ocidental, em acordo com a tradição oriental sobre a divinização.

Diz o Catecismo Romano: “O próprio Deus que disse que das trevas brilhasse a luz, a acendeu em nossos corações para que o Evangelho não nos ficasse encoberto” (II, 2). Segue o novo Catecismo: “A fé nos faz provar de antemão o gozo e a luz da visão beatífica, fim de nosso caminhar aqui abaixo. Então veremos a Deus ‘face a face’ (1Cor 13, 12), ‘tal qual é’ (1Jo 3, 2). “A fé é, pois, já o começo da vida eterna” (Catecismo da Igreja Católica 163). Ainda que haja uma diferença: “então poderemos ver o que agora cremos. Também agora está em nós e nós nEle; mas agora o cremos, então o conheceremos (...), caminhamos na fé e não na visão; mas então o veremos diretamente tal qual é” (In Johan. 75, 4). Na mística, intensifica-se o conhecimento experimental. Diz Santa Edith Stein, comentando São João da Cruz sobre a “transformação da alma” (Chama, 3, 1): “A luz destes divinos resplendores não é como a luz das lâmpadas materiais. Estas alumiam com suas chamas os objetos que estão em torno e fora delas; aquelas, em contrapartida, alumiam e fazem ver o que está dentro das próprias chamas. E a alma, que se acha precisamente metida dentro daquele incêndio de luz, fica transformada e feita resplendores” (Ciência da Cruz, II, 3, A, b). O próprio São João da Cruz conclui sua Chama com estas palavras: “Sendo essa aspiração cheia de bens e glória, por ela o Espírito Santo encheu a alma de bens e glória, e nisto a enamorou de si mesmo, além de tora expressão e sentimento, nas profundezas de Deus”. Aproximando-se de Deus, parece que não pode dizer nada mais, chega ao silêncio.

4. CONSIDERAÇÕES SOBRE O PALAMISMO

A Igreja católica não fez nenhuma observação direta sobre a doutrina palamita acerca da contemplação e a distinção entre essência e energias, pelo que se pode considerar como uma doutrina teológica que se pode defender. O Concílio de Florença, em seu Decreto para os Armênios (a. 1442), destacou o princípio: “Estas três Pessoas são um só Deus (...) e tudo é uno onde não obsta a oposição de relação”. Isto quer dizer que tudo é comum às três Pessoas e também destaca a unidade da essência divina. À teologia ocidental lhe pareceu, às vezes, que a distinção entre essência e energias comprometia a unidade da essência. Mas isto não é assim, porque a teologia oriental assume plenamente a unidade da essência divina, ainda que se possam encontrar expressões de Palamas pouco felizes e imprecisdas. Sua distinção não se dá propriamente na essência divina, senão em sua manifestação. Na realidade, as energias são a mesma essência divina enquanto se manifesta em suas obras.

A teologia ocidental foi, às vezes, muito polêmica (Jugie), mas, com o crescimento dos estudos ecumênicos, os juízos foram matizados. Não tem muito sentido, por exemplo, sugerir que as expressões de Palamas têm sabor panteísta, quando seu ponto de partida é precisamente que a essência divina é inalcançável. Alguns autores católicos permanecem críticos (M. J. Le Guillou); outros fazem matizes “trinitários” à distinção (Ivanka, Ch. Journet, J. M. Garrigues), outros pensam que não há incompatibilidades de fundo (G. Philips, Y. Congar, A. de Halleux). Muitos apreciam que as diferenças se devem a uma ideia distinta da participação (Garriges, Congar). Em todo caso, quando o tema se afronta sem afã polêmico, e tendo presentes os limites de nossa linguagem, as coisas se vêem em sua justa medida.

A distinção de Palamas tem algo de taulogógica, ou seja, de evidente e incontestável. Deus em si mesmo é inacessível para o homem. Nós o alcançamos na medida em que se nos dá (por suas obras, evidentemente). Mas nunca o abarcamos nem possuímos plenamente (totus sed non totaliter). Isto significa que, em parte, o alcançamos; e, em parte, não. Há algo que se nos dá (sempre através da ação divina) e algo que permanece mais além. Esta distinção óbvia é muito deficiente mas, desde já, não divide a Deus em duas partes. A teologia católica usa distinções parecidas à de Palamas entre a Trindade imanente e a Trindade econômica, entre a vida íntima de Deus (imanente) e as missões das Divinas Pessoas (transeunte), entre o operar divino ad intra e ad extra, entre o âmbito do necessário e o âmbito do voluntário e livre em Deus. As ações ad extra de Deus são o mesmo e, ao mesmo tempo, não são o mesmo que a essência. Diz V. Lossky: “Essência e energias não são, para Palamas, duas partes de Deus, como imaginam agora alguns críticos modernos, senão dois modos diferentes da existência de Deus, em sua natureza e fora de sua natureza; o mesmo Deus que permanece totalmente inacessível em sua essência e se comunica totalmente pela graça” (La vision de Dieu, 130); “As energias não são elementos do ser divino que poderiam ser consideradas à parte, separadamente da Trindade da que são manifestação comum, a irradiação externa (...), significam uma manifestação exterior da Trindade, que não pode ser interiorizada, introduzida, por assim dizer, no interior do ser divino, como sua determinação natural” (Teologia mística, 60).

Entendendo corretamente os termos, inclusive atendendo a seu significado literal, a distinção entre essência e energias se pode reduzir à distinção entre a natureza divina e as ações “ad extra” com as que Deus cria, santifica ou glorifica o cristão. Nesta medida, não coloca dificuldades. A teologia ocidental não se fixou nestes atos, mas em seus efeitos. Esses atos são distintas manifestações de Deus. Em sua origem, identificam-se com Deus. Mas, ao mesmo tempo, nós os distinguimos porque causa efeitos distintos. Somos criados pela ação de Deus (criação); somos santificados e glorificados também pela ação de Deus (graça). Por estas ações conhecemos e chegamos a Deus, sem abarcá-lo nunca. As coisas seguem unidas ao ato criador de Deus e, entretanto, não são Deus. E algo parecido sucede com a graça (ou a iluminação). Expressada nestes termos, a distinção parece não apresentar incompatibilidades (é minha opinião), ainda que suas formulações resultem desacostumadas (às vezes, imprecisas) e desenvolvam uma metáfora da luz que raramente usada pela teologia católica (ainda que sim por sua mística e sua iconografia). À teologia ocidental lhe falta uma reflexão sobre as ações divinas enquanto tais; à teologia oriental, quiçá, convenha fazer-se entender e evitar expressões chocantes: em concreto, tem que evitar “coisificar” as energias (e, em particular, a graça ou luz tabórica).

Resumindo as principais diferenças:

1) Quando falam da graça, a tradição católica e a ortodoxa palamita se fixam em aspectos distintos do mesmo fenômeno. A ortodoxa chama graça à própria ação de Deus (energia) que causa a divinização; enquanto que a católica chama graça, como veremos, ao efeito que a divinização causa no homem (graça santificante).

2) A tradição palamita, ademais, identifica graça e iluminação. E entende que todos os efeitos transformadores e físicos da glória têm a ver com os efeitos dessa graça no homem. A tradição católica distingue a graça e a glória, ainda que entenda que a graça seja como que uma antecipação da glória. Ademais, não se fixa tanto nos aspectos externos – físicos – da graça, ainda que os supõe implicitamente.

3) A tradição palamita pensa a participação como um tomar parte, um “contato” beatificante que nos diviniza (uma luz que ilumina e transforma). Há uma metáfora implícita (o raio). A católica a representa como uma ação de Deus que transforma diretamente a criatura e causa nela uma participação (a graça santificante). Entende essa participação em graus como sucede com o ser ou a beleza (participação transcendental). De maneira semelhante a como todo ser participa do ser divino, toda alma santificada pela inabitação participa, em algum grau, da vida divina, sem se converter em Deus. Por isso, a preocupação que late no sistema palamita não se colocou na teologia católica: participar em Deus não quer dizer ser animados diretamente por sua essência. Os teólogos latinos não pensam que, ao dizer isso, entendem como participa o homem de Deus (nem sequer representam isto); simplesmente afirmam que participa. Na teologia católica, a participação é um conceito, não uma imagem.

4) O Oriente Ortodoxo critica a noção católica de “graça criada” por entender que não pode dar-se nenhum “meio” criado na união com Deus que diviniza. Mas se trata de um mal-entendido sobre o sentido da expressão “graça criada”, ao qual às vezes, deram motivo os próprios autores católicos por usá-la mal. Como teremos ocasião de estudar, a graça santificante não é uma “coisa” ou “substância” criada, senão um hábito; ou seja, é a mudança que se produz na criatura (a divinização). Não é nenhuma coisa, senão uma elevação. É criada só no sentido de que Deus produz esse efeito na criatura quando quer.

5) Aos orientais desgosta o racionalismo da teologia ocidental, que tenta abarcar tudo. Parece-lhes que falta sentido da profundidade dos mistérios (apofatismo). Em muita parte, a teologia ocidental lhes parece afastada da tradição patrística e sem conexão com a vida sacramental e espiritual. Em ocasiões, não lhes falta razão.

6) Aos ocidentais desconcerta o realismo da teologia oriental e também a terminologia metafórica. Os orientais imaginam as energias divinas como se fossem raios que procedem da essência divina. Sabem que isto é uma metáfora imprópria, mas querem destacar a realidade do ato (criador ou divinizador): que procede da essência divina e causa a realidade das coisas ou a divinização do homem, com a glória que tantas vezes é reflexo da presença de Deus.

Tanto ao julgar as expressões da teologia palamita quanto da teologia escolástica, há que se evitar absolutamente a tendência a “coisificar”, porque isto produz quase todos os mal-entendidos. Nem a graça, nem as energias divinas, nem a iluminação, nem o “lumen gloriae”, nem a divinização, nem a santidade são “coisas” nem “substâncias” nem “fluidos”. Desde um ponto de vista ontológico se está falando das ações de Deus ou da transformação que essas ações produzem no homem. Grande parte dos problemas nesta matéria se devem a confusões produzidas na imaginação pelo mal uso dos termos.

Duas tradições que se enriquecem

A contribuição da teologia ortodoxa à teologia católica durante o século XX, devida em grande parte à diáspora russa na França e Estados unidos, foi muito relevante. Assentou as bases de uma aproximação que traz um enriquecimento mútuo. O sentido profundo do mistério que tem a tradição oriental fez pensar a teologia católica, e sua proximidade aos Padres permitiu recuperá-los de uma maneira viva, com seu sabor teológico, litúrgico e espiritual. Pelo que se refere ao tratado da graça, a constante referência bíblica à economia da salvação (o Espírito Santo), a viveza com que usa as categorias patrísticas (admirável intercâmbio), a inserção sacramental (Cabásilas) e o forte acento espiritual da teologia ortodoxa (iluminação) foram um elemento renovador. Compensou claramente a tendência ao racionalismo que esteve presente neste tratado, e reforçou sua relação com o mistério trinitário.

Por sua parte, a teologia ortodoxa se beneficiou grandemente pelos estudos ocidentais e edições dos Padres; de seu esforço sistemático e seu empenho no diálogo e evangelização do mundo moderno. Acolheu com interesse o Catecismo da Igreja Católica, no que encontra tantas coisas em comum, porque foi construído com esse espírito. E, apesar das dificuldades, correspondeu aos esforços ecumênicos. É de desejar que um melhor conhecimento mútuo de ambas tradições favoreça a unidade. Esta unidade tem sua expressão de fé no Credo, mas cabem, e couberam sempre, diferenças legítimas entre os teólogos, e também nas tradições litúrgicas e espirituais, precisamente porque o mistério de Deus é inabarcável. Nenhum teólogo e nenhuma teologia representa plenamente a mente da Igreja, senão só Jesus Cristo.

Apesar das aparências iniciais, as distâncias doutrinais não estão tanto na doutrina da graça, como em outros pontos: a questão do Primado (a função do Papa na Igreja), a concepção da Trindade (a ordem das Pessoas), alguns aspectos da escatologia (o purgatório e a escatologia final) e de prática sacramental (práxis católica sobre a confirmação, separada do batismo e, atualmente, posterior à Eucaristia; também a facilidade oriental para dissolver o matrimônio), À parte, há que se ter em conta profundas diferenças de mentalidade, agravos históricos muito duros (as Cruzadas e a Queda de Constantinopla) e questões de competência pastoral que pesam muito mais do que parece. Não se podem deixar de valorizar os esforços ecumênicos de João Paulo II: “Que breve, muito breve, Cristo, Orientale lumen, nos conceda descobrir que, na realidade, apesar de tantos séculos de afastamento, encontramo-nos muito próximos, porque, talvez sem sabe-lo, caminhávamos juntos para o único Senhor e, portanto, uns para os outros” (Orientale lumen, 29).

Conclusão

A patrística grega pensa a transformação do cristão como uma divinização, usando metáforas que têm uma expressão litúrgica. Frente às aspirações da tradição clássica platônica, os cristãos vão defender que o Evangelho encerra uma promessa de imortalidade. O cristão é, verdadeiramente, um homem divinizado, porque recebeu o Espírito Santo. Com ele, a Trindade se faz presente na alma. Quem antes era pecador, agora tem dentro um princípio de santidade, e foi introduzido nas misteriosas relações da vida divina. Este mistério revelado nos textos sagrados, foi entendido pelos Padres da Igreja recorrendo à noção filosófica platônica de participação e desenvolvendo as grandes ideias-metáforas do admirável intercâmbio e da recapitulação em Cristo.

A tradição ortodoxa recebeu este grande tema da patrística grega e o converteu em uma das chaves da mensagem cristã, dando-lhe uma ampla expressão teológica, ascética, litúrgica e artística. Gregório Palamas desenvolveu sua doutrina da divinização para defender esta tradição e, especialmente, a espiritualidade hesicasta. Estabeleceu uma distinção entre Essência e Energias para expressar de que maneira a essência incomunicável de Deus pode ser participada.

Ainda que a novidade da expressão provoque alguns mal-entendidos, vimos que o Ocidente usa esquemas parecidos. E não parece haver incompatibilidade de fundo. O que a teologia patrística grega e a tradição do Oriente expressa em termos de iluminação e divinização, a teologia ocidental o expressa em termos de graça santificante e virtudes sobrenaturais. Na terceira parte do livro voltaremos sobre o tema e poderemos entender melhor o que isto quer dizer.

A divinização é um grande tema espiritual que conecta com secretas aspirações da alma humana, que também se refletem em diversas religiões. Há no homem uma veia mística e um desejo de plenitude, cuja profundidade se intui no fundo da alma. É frequente que essa aspiração tenha uma expressão panteísta (hinduísmo, New Age). “A Deus ninguém nuca viu, o Unigênito no-lo revelou” (Jo 1,18). Pelo Filho acedemos diretamente ao Pai, que é o Deus pessoal e criador, que se revelou no Antigo Testamento. A doutrina da criação os ensina a distância que se dá entre o Criador e a criatura; por isso, sabemos que Deus não se identifica com o fundo da alma, ainda que esteja ali por sua ação. E pela economia da Redenção, sabemos que a aspiração ao encontro com Deus se realiza em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo.

Bibliografia

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