19.1.26

Em defesa da Missa de Sempre

 

Em defesa da "Missa de sempre"

 

* Trata-se de resposta a certos trechos do livro "Em defesa da missa nova" (cf. OLIVEIRA E SILVA, Pe. José Eduardo de. Em defesa da missa nova. 1a ed. Osasco, SP: Ed. do Autor, 2024, ePDF); as afirmações dos artigos de tal livro são transformadas em perguntas.

 

Questão - Existe uma Missa de Sempre?

 

Art. 1 - A Missa codificada por São Pio V não é a "Missa de sempre"?

 

1. Segundo o Pe. José Eduardo, falar "Missa de Sempre" seria um "intento de enganar", pois "a expressão não é milenar, nem sequer medieval", mas foi "inventada por um bispo sedevacandista, Guérard des Lauriers", para "criar a impressão de que existiria uma liturgia fixa, intocável, perfeita, saída diretamente das mãos dos apóstolos e conservada imaculada até Pio XII" (p. 15). Segundo o autor, a liturgia romana "desde os primeiros séculos evoluiu, incorporou elementos, descartou outros, adaptou-se a culturas e necessidades pastorais. O Cânon Romano,  idolatrado [sic], teve adições, cortes, ajustes. O Ofertório, por exemplo, só apareceu séculos depois etc." (Ibid., pp. 15-16). Diz ainda: "a liturgia sempre foi um organismo vivo..." (Ibid., p. 16).

 

2. De acordo com José Eduardo, Pio V "codificou o rito romano vigente, expurgando variações locais e impondo uma forma mais uniforme. Ele não inventou nada de novo (sic), nem congelou nada para sempre. Nos séculos seguintes, seus sucessores continuaram reformando o mesmo rito" (p. 16). Além disso, "absolutizar um rito é heresia prática (sic): é colocar a Tradição como um objeto morto, e não como rio vivo" (p. 16).

 

Em contrário:

 

Diz D. Athanasius Schneider que "a forma 'extraordinária' é a forma 'constante' da Liturgia Romana da Missa" (cf. SCHNEIDER, D. Athanasius. MONTAGNA, Diane. Christus Vincit: O triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos. 1a ed. São José dos Campos: Instituto Gratia, 2020, p. 262).

 

Responde-se:

 

Nenhum tradicionalista ou amante da Missa tradicional diz "Missa de sempre" para significar uma forma invariável da celebração eucarística, que teria "saído das mãos dos apóstolos" tal qual se encontra no Missal de Pio V a João XXIII. Todos sabem que se trata de uma forma que foi se desenvolvendo organicamente no tempo. A constância, continuidade ou o "sempre" da "Missa de sempre" não estão radicados numa invariabilidade do conteúdo empírico, mas na perpetuidade de sua estrutura ou forma ritual, cujo desenvolvimento alcança a maturidade no Missal reconhecido por Pio V (maturidade já atingida no século XIII, como testemunha o missal franciscano de então, que difunde o missal romano, bem como a Suma Teológica, quando descreve as partes da Missa: cf. S.Th. III, q. 83, a. 4). Então, por contraposição, quando se diz "missa nova", indica-se, não simplesmente uma variação de conteúdo, mas uma mudança estrutural, isto é, que a nova forma ritual já não compartilha a mesma estrutura estético-teológica da forma "constante" (D. Athanasius). Fundamentalmente (sem recorrer à descontinuidade estatística drástica no teor dos textos): porque, do ponto de vista da forma estético-teológica básica do "Sacrifício" ("Liturgia Eucarística") - o núcleo da celebração -, o Ofertório já não é mais expiatório (tornou-se simples apresentação dos dons com a beraká judaica), as orações eucarísticas se multiplicaram e o Cânon romano ("oração eucarística I") já não é exclusivo, e o modo da comunhão não é mais o de sempre (de joelhos e na boca); e do ponto de vista dos tópicos mais gerais da teologia eucarística, porque - ao parecer em nome da "participação ativa" e do ecumenismo - o acento passou do sacrifício propiciatório para o sacrifício eucarístico e laudatório, o ministério sacerdotal foi diluído em face do ministério comum, e a presença real eucarística foi minimizada ante as demais formas de presença (não substanciais) de Cristo.

 

Às objeções:

 

1. Não há oposição entre o caráter vivo da Liturgia e a continuidade estrutural. Toda realidade vivente perdura justamente enquanto sua estrutura fundamental perdura: sua "vida" não é uma sorte de forma "vazia" que agrupa qualquer coisa, mas precisamente uma forma específica que determina as demais notas que podem brotar da forma ou aderir a ela.

 

2. S. Pio V efetivamente não criou nada novo, porque ratificou a "forma ritual de sempre", nem "congelou" as formas acidentais, e é por isso que se pode dizer que seus sucessores continuaram "reformando o mesmo rito". Não se trata de "absolutizar" um rito, mas de reconhecer a forma ritual essencial. Aqui é preciso dizer duas coisas: primeiramente, a "forma ritual" não foi abordada pela teologia sacramental clássica - foi abordada, por exemplo, pela teologia litúrgica de Ratzinger (cf. "A festa da fé") -, que sempre falou de "essência do sacramento" - da forma e da matéria do sacramento, além do ministro (causa eficiente) e da intenção (causa final) -, porque não havia no horizonte teológico um problema de "ruptura litúrgica" (a reforma ou restauração de S. Pio V foi a evitação de uma ruptura protestantizante no seio da Igreja), e os católicos viviam instalados nos ritos tradicionais; todo rito ocidental ou oriental antigo e venerável merece o epíteto de "Missa de Sempre". Finalmente, "heresia prática" seria antes transformar o rio vivo da Tradição numa inundação caótica que não flui num leito formado ao longo do curso e dos ajustes esculpidos dinamicamente pela própria água.

 

Art. 2 - O novus ordo foi inventado numa mesinha de bar?

 

1. Para o Pe. José Eduardo, a crítica dos tradicionalistas à nova liturgia, que faria equivaler a "obra da comissão da reforma litúrgica" a uma "invenção numa mesinha" é que seria banal, já que toda reforma litúrgica passou por comissões e especialistas (cf. Pe. José Eduardo, Em defesa da missa nova, p. 17).

 

2. Segundo o autor, o novus ordo "não foi escrito do zero", a reforma "partiu do rito anterior, com base nos princípios do CVII e nas pesquisas litúrgicas sérias do movimento litúrgico". O Missal de 1970 seria o de 1962 "depurado, simplificado, enriquecido" (cf. pp. 17-18). As mudanças não foram "invenção de mesa de bar, mas obediência a um concílio ecumênico", já que o Concílio pediu que findassem as repetições desnecessárias, que a liturgia fosse mais clara, que o povo participasse entendendo, que os ritos fossem restaurados à nobre simplicidade, e que fosse devidamente enriquecido (cf. p. 18).

 

Em contrário:

 

Diz o Pe. Louis Bouyer: "[...] não consigo reler aquela composição [da Oração Eucarística II] improvável sem me lembrar do terraço do café em Trastevere, onde tivemos [Bouyer e Dom Bernard Botte] que dar os retoques finais à nossa tarefa para podermos apresentá-la na Porta de Bronze [do Palácio Apostólico no Vaticano] antes do horário marcado pelos nossos mestres!" (BOUYER, Louis. The Memoirs of Louis Bouyer: From Youth and Conversion to Vatican II, the Liturgical Reform, and After. Angelico Press. Edição do Kindle, p. 222).

 

Responde-se:

 

Para a crítica tradicionalista, o novo rito seria "um rito de laboratório", por assim dizer, não simplesmente por ter sido elaborado por uma comissão numa "mesinha" (sic), mas porque não segue a estrutura ritual recebida (cf. art. 1), e por ser, assim, uma obra muito humana da comissão. "Esta foi uma das fraquezas da primeira fase da reforma após o Concílio: em grande parte os peritos foram ouvidos quase que exclusivamente" (RATZINGER, Joseph. Prefácio a: REID, D. Alcuin. O desenvolvimento orgânico da Liturgia. Tradução de Rodrigo Otobone. São Paulo: Lignum Vitae, 2023, p. 15).

 

Às objeções:

 

1. A comissão tridentina e o consilium de Bugnini tiveram procedimentos muito distintos: "O resultado da reforma tridentina foi um Missal completamente tradicional: sua estrutura e conteúdo não foram radicalmente rearranjados ou reduzidos, tampouco foram suplantados de maneira desproporcional por inovações" (REID, op. cit., p. 57). Já o novus ordo não corresponde à intenção dos Padres conciliares ou à constituição Sacrosanctum Concilium: "[...] os Padres do Concílio dificilmente poderiam imaginar uma celebração da Santa Missa, onde o celebrante está continuamente voltado para o povo; uma Missa em que as orações tradicionais do Ofertório foram substituídas por orações da ceia do Sábado judaico, diluindo assim o caráter sacrificial da liturgia Eucarística e adaptando-a mais ao significado protestante de um banquete; uma Missa em que várias outras Orações Eucarísticas, muitas vezes recém-inventadas, substituíram o Cânon Romano; uma Missa onde o vernáculo é usado exclusivamente; uma Missa onde a a Sagrada Comunhão é recebida em pé e na mão..." (D. Athansius Schneider, Christus Vincit, p. 262).

 

2. Fundamentalmente respondido no art. 1 e na resposta à 1a objeção. Tenha-se em conta que uma boa reforma pastoral poderia ter sido feita sem mudança estrutural, com enriquecimentos (no lecionário, nas orações do Próprio, nos Prefácios), na tradução de partes, na reinserção das preces ou da procissão das oferendas...

 

Art. 3 - Os tradicionalistas confundem rito e sacramento?

 

1. Segundo o Pe. José Eduardo, os tradicionalistas falam "missa nova" como se estivessem se referindo a uma coisa que não é missa, ou como se só o rito tridentino fosse digno do nome "missa de sempre". Mas toda missa católica é a mesma missa do Calvário, do Cenáculo, "de todos os séculos"; quando alguém diz "missa nova" como se a Igreja tivesse inventado outro sacrifício, "está blasfemando (sic). Se é missa, é a missa de Cristo" (cf. Pe. José Eduardo, Em defesa da missa nova, p. 19).

 

2. O que é novo, diz o Padre, não é o sacrifício, senão o rito, a "vestimenta histórica e cultural com que a Igreja reveste o mistério. Vestimentas mudam, a essência não". O que há são "dois missais", mas "ambos celebram a mesma Eucaristia"; de modo que existiria "a missa única celebrada em diferentes ritos".

 

Em contrário:

 

Diz o prof. Orlando Fedeli (tradicionalista): "A Missa nova é válida, quando o sacerdote pronuncia corretamente as palavras da Consagração, sobre pão de trigo e vinho de uva, tendo a intenção de fazer o que faz a Igreja quando celebra a Missa" (FEDELI, Orlando. "O que há de errado na Missa Nova?". Disponível em: <https://www.montfort.org.br/bra/cartas/doutrina/20090624135521/>). Ora, se a missa nova é considerada válida pelos tradicionalistas (nas condições estabelecidas pela Igreja), então ela é para eles, em princípio, Missa e Sacrifício.

 

Responde-se:

 

Os tradicionalistas justamente fazem a distinção entre rito e sacramento! O rito é o sacrifício ritual (as cerimônias) da Igreja unida a Cristo que reveste o sacrifício do Calvário atualizado sacramentalmente. A crítica tradicionalista é ao novo rito ou novo missal, mas como se diz "missa" para designar unitariamente o sacramento (em que o sacrifício de Cristo se realiza) e o rito que o envolve, por economia se diz "missa nova" querendo significar "rito novo". A crítica se dirige à mudança da estrutura teológico-estética - por "estética", na questão, sempre entendo a configuração sensível objetiva, e não o sentimento ou sensibilidade estética subjetiva -, a qual dificultaria a apreensão (sensível, intelectual, afetiva) do sentido teológico-espiritual do sacrifício celebrado; com o qual o próprio propósito de "participação ativa" se esvanece, pois importa aquilo do que se participa!

 

Às objeções:

 

1. Não se critica o novo rito "por não ser missa", mas precisamente porque ele seria causa ocasional, frequentemente, em virtude de sua própria configuração (de seu afastamento da estrutura e teologia eucarística tradicionais), de celebrações abusivas, com a mitigação prática da verdade integral sobre o sacrifício e a eucaristia (mantida "no papel", isto é, nos documentos eclesiais) - em outra ocasião teremos que investigar o que os tradicionalistas dizem a respeito da "possibilidade da perda da fé" (sic). Pode parecer paradoxal, mas é por amor à missa ou ao sacrifício que se encerra nas celebrações segundo o novo missal que se critica o novo missal!

 

2. A crítica tradicionalista é precisamente, repito, uma crítica à "vestimenta". A crítica é que o novo rito ou as novas vestes são como um véu que encobre o acesso ao mistério, não no que ele tem de efetivamente sublime e incompreensível, mas naquilo em que foi se manifestando no desenvolvimento tradicional. A ideia é a de que o rito tradicional, pelo simples fato de ser tradicional, necessariamente permite, de modo ordinário,  um maior aproveitamento da Graça do Sacrifício, facilitando a conformidade de nosso ser ao amor kenótico-sacrificial de Nosso Senhor Jesus Cristo, dispondo a alma mais convenientemente ao testemunho (ao martírio). 

Mas não se deve fingir que o antigo rito seria absolutamente alheio à possibilidade de abusos: uma missa operística é um abuso, por exemplo; ou então uma missa celebrada por mero esteticismo ou legalismo rubricista, em que faltaria a "misericórdia" (o conhecimento de Deus, o afeto espiritual e a vontade unidos à Mente, ao Coração e à Paixão de Nosso Senhor), e abundaria o "sacrifício" exterior (cf. Os 6,6; Mt 9,13).

Por fim, o que realmente importa do ponto de vista da participação da comunidade eclesial - dando por suposta a validade do Sacramento/Sacrifício - é precisamente o rito ou "vestimenta"! Porque é deste que depende nossa compenetração com a Ação realizada por Cristo (através do sacerdote ministerial).

Para um santo sublime, a vida toda já é eucarística, ele vive pregado na Cruz com Cristo. Para um grande santo, as simples palavras da consagração já evocam todo o Mistério de Cristo. Para os católicos bem avançados, o Cânon ou Anáfora (a Oração Eucarística) podem ser suficientes para uma participação ótima. Para a maioria de nós, o rito integralmente considerado (todo o conjunto de cerimônias, mais o silêncio prévio e a ação de graças posterior) é o que dispõe nosso ser à íntima comunhão com o Sacrifício do Senhor.

Numa situação de proximidade com o evento da Crucificação e Ressurreição, ou de perseguição, uma celebração sumária (nas casas ou catacumbas) já seria suficiente, mas precisamente porque tais situações já despertam o espírito para a urgência da Caridade, ou mesmo a iminência do martírio. 

Um entendimento litúrgico-jurídico é muito insuficiente para a compreensão requerida. Dizer "é tudo missa" (sic) é, de fato, o mesmo que atribuir a santificação à Redenção objetiva somente, é, em última instância, fazer caso nenhum da Missa ou da atualização do Sacrifício do Calvário.






30.7.25

A Cidade de Deus de Santo Agostinho

 

A Cidade de Deus – síntese a partir de Étienne Gilson (Introdução ao estudo de Santo Agostinho)

 

Para compreender a origem da vida social, deve-se observar sua formação num espetáculo público: os espectadores no princípio se ignoram e não formam uma sociedade; mas a atuação talentosa de algum ator produz o deleite em vários, e estes não se contentam em amar o ator, e logo surge uma simpatia recíproca; se eles agora amam-se uns aos outros, não é devido a eles mesmos, mas por causa daquele que amam com um mesmo amor. O amor por um objeto gera espontaneamente uma sociedade formada por todos aqueles cujos amores coincidem e que exclui os que dele se desviam.

 

Aquele que ama a Deus se encontra, em relação de sociedade para com todos os que o amam; ele os quer amando o mesmo objeto que ele, mas com uma vontade muito mais firme, pois não se trata de um simples prazer teatral, mas da Beatitude. Teologicamente, o fundamento dessa comunidade de amor se encontra no fato de Deus ter criado no início um homem só, Adão, em quem as razões seminais de todos os outros homens estavam contidas. A concórdia de sentimentos é, portanto, uma tentativa de restauração da unidade primitiva da natureza humana (cf. De civ. Dei, XIII, 22; 21, 1; XIII, 14; XIV 1). Sobre a origem comum das duas cidades em Adão: cf. De civ. Dei, XII, 27, 2).

 

Uma “Cidade” é o conjunto de homens que une o amor comum por um certo objeto: há tantas cidades quantos amores coletivos. Por haver nos homens dois amores (cf. De civ. Dei, IV, 3), deve haver também duas cidades, às quais se reduzem todos os outros agrupamentos humanos: o conjunto de homens que vivem a vida do homem velho, terrestre, com seu amor comum às coisas temporais, forma a Cidade terrestre. O conjunto dos homens unidos por seu amor divino forma a Cidade de Deus (cf. De civ. Dei, XIV, 28). A filosofia da história é o discernimento, sob a multiplicidade dos povos e dos acontecimentos, da persistência das “duas cidades” desde o início do mundo, e o destacamento da lei que permite saber o destino para elas.

 

O conjunto dos homens que vivem numa cidade se denomina “povo”. Um povo é a associação de uma multidão de seres racionais, associados pela vontade e posses comuns do que eles amam. Os homens são suas vontades ou seus amores; como o amor é o elo constitutiva da cidade, basta saber o que um povo ama para saber o que ele é (cf. De civ. Dei, XIX, 24).

 

O que uma sociedade ama é o fim comum para a obtenção do qual todos os seus membros estão associados. Há pelo menos um fim comum a toda sociedade: a paz. As próprias guerras são feitas para estabelecer a paz. A paz é uma pura tranquilidade de fato, mantida a todo preço. A paz verdadeira é a que satisfaz plenamente as vontades de todos tão bem, que depois de tê-la obtido, elas não desejam nada mais. Qual a condição fundamental para a paz permanente? É a ordem. Para que um conjunto de partes, no caso, de vontades, concordem sobre um mesmo fim, é necessário que cada uma esteja no seu lugar e desempenhe sua função própria corretamente.

 

A paz no corpo é o equilíbrio dos seus apetites; a paz da alma racional é o acordo entre o conhecimento racional e a vontade; a paz doméstica é a concórdia dos habitantes de uma mesma habitação quanto ao comando e à obediência; a paz da cidade é a mesma concórdia estendida da família a todos os cidadãos; a paz da cidade cristã é uma sociedade perfeitamente ordenada de homens que fruem de Deus e se amam mutuamente em Deus. Em todas as coisas, a paz é a tranquilidade da ordem (cf. De civ. Dei, XIX, 13, 1).

 

Há duas ordens segundo as quais se organizam duas cidades. De um lado, os ímpios que trazem a imagem do homem terrestre desde o começo até o fim do mundo: eis uma primeira cidade, constantemente ocupada em se organizar segundo uma ordem que lhe é própria, voltada para a dominação e fruição das coisas materiais. A ordem dessa cidade é um desprezo da ordem verdadeira, uma revolta contra ela. Tal ordem, por pior que seja, enquanto é, é boa (cf. De civ. Dei, XIX, 12, 2), conserva uma aparência de beleza mesmo na depravação. Mas a paz dos ímpios é uma falsa paz, e comparada com a dos justos, não merece tal nome. Sua ordem aparente é apenas uma desordem. O tirano que se empenha em estabelecê-la, submetendo todos os membros da cidade, na realidade, usurpa o lugar de Deus.

 

A Cidade celeste ordena tudo com vistas a assegurar a liberdade cristã para seus cidadãos, o uso de todas as coisas que conduz à fruição de Deus. Sua ordem e unidade são uma simples extensão da ordem e da união que reinam na alma de cada justo. Somente ela frui da paz verdadeira e é a habitação de um povo digno desse nome; somente ela é uma cidade (cf. De civ. Dei, XIX, 23, 5). As duas cidades distinguem-se e se opõem, como os fins aos quais elas se ordenam.

 

Há uma ambiguidade considerável na noção agostiniana de “cidade”. Somente a Cidade de Deus seria uma cidade, porque somente ela é o que uma cidade deve ser. Por outro lado, não se pode negar que a república romana tenha sido uma república verdadeira, porque era um povo associado para a fruição de um amor comum. Era um povo mau, mas era um povo, uma verdadeira cidade, ainda que desprovida de justiça e privada de virtudes verdadeiras (cf. De civ. Dei, XIX, 24). Se admitimos o primeiro sentido, a antítese das duas cidades se dissipa, já que resta apenas uma; se admitirmos a segunda, como as duas cidades antagônicas subsistirão lado-a-lado e quais serão suas relações?

 

A longa narrativa do De Civitate Dei, cuja influência na teologia da história, e talvez sobre a história, será decisiva, é a resposta a essa questão. Apenas a Revelação nos ensina a criação de Adão por Deus e, nele, a das duas cidades nas quais se divide o gênero humano do qual Adão foi o pai (cf. De civ. Dei, XII, 27, 2). Caim fundou a cidade terrestre, e Abel, membro da cidade de Deus, não funda nenhuma, como que afirmando que essa vida é somente uma peregrinação em direção a uma habitação mais feliz (cf. De civ. Dei, XV, 1, 2). É a Revelação que nos permite seguir a construção progressiva da cidade celeste na história e de prever a sua realização. O fim último é o estabelecimento da cidade de Deus perfeita na beatitude eterna de que desfrutará o povo dos eleitos. A construção progressiva da Cidade de Deus segundo os desígnios da Providência é a significação profunda da história, e isso confere a razão de ser para cada povo, esclarecendo-lhe seu destino.

 

Por suas definições, as duas cidades se excluem. De fato, é necessário que elas coexistam, e que encontrem um modus vivendi que deixe à Cidade de Deus a possibilidade de se desenvolver. Há um plano no qual as duas cidades encontram-se e vivem misturadas, o da cidade terrestre. Os habitantes da cidade de Deus, aqui embaixo, são aparentemente confundidos com os que habitam apenas a cidade terrestre. São homens como os outros: seu corpo exige sua parte de bens materiais em razão dos quais a cidade terrestre é organizada; eles participam da ordem desta, de sua paz, beneficiando-se, como os outros, dessa vantagem, e suportam os impostos que ela impõe (cf. De civ. Dei, XIX, 26). Mas a despeito de uma vida aparentemente comum, os dois povos que coabitam a mesma cidade terrestre jamais se misturam verdadeiramente. Os cidadãos da cidade celeste vivem com os outros, mas não como os outros; realizam exteriormente os mesmos atos, mas com um espírito diferente. Para os que vivem a vida do homem velho, os bens da cidade terrestre são os fins dos quais eles fruem; para os que, nessa cidade, levam a vida do homem novo, nascida da graça, os mesmos bens são apenas meios que eles usam reportando-os a seu verdadeiro fim (cf. De civ. Dei, XIX, 17).

 

Da desigual atitude diante dos mesmos objetos nascem inúmeros problemas, referentes às relações do espiritual com o temporal. Por exemplo, sobre o direito de propriedade, alguns estimam que a propriedade é má, contraditória com o ensinamento do Evangelho; outros, só vivem para acumular riquezas. Ambos se enganam, pois a questão reside na maneira de possuir. Os que acumulam incansavelmente bens perecíveis para fruir deles como fins menosprezam a relação essencial das criaturas com Deus. Deus é o Criador, Ele possui todas as obras em suas mãos, é o único a possuí-las. Num sentido, é verdade que o homem não tem nada e que toda propriedade, que se crê fundada unicamente nos direitos do homem, é uma maneira de usurpação. Por outro lado, se descemos desse plano para o das relações entre homens, é claro que existe um direito de propriedade, não dos homens com relação a Deus, mas de um homem em relação a outro. A ocupação legítima, a compra, a troca, a doação, a herança, são muitos os títulos para uma posse justa; apoderar-se por outras vias de um bem já possuído por outrem é substituir uma posse legítima, é roubo e usurpação.

 

Usar mal um bem é possuí-lo mal; possuí-lo mal não é possuí-lo. De direito todas as coisas pertencem aos que sabem usá-las tendo em vista Deus e a beatitude. Mas uma redistribuição dos bens terrestres de acordo com esse princípio não seria nem possível nem desejável. Onde encontrar os justos a quem render os bens mal possuídos? E eles não os desejariam! As coisas só podem permanecer como estão. A iniquidade não deve ser tolerada pelas regras do direito civil, mas é só na outra Vida que a Justiça reinará perfeitamente, e os justos terão tudo o que sabem usar e usarão como convém.

 

A respeito da relação entre a cidade celeste e a cidade terrestre: transpor as regras que valem para uma ao plano de outra é confundir e conturbar tudo. A cidade terrestre tem sua ordem e seu direito. Organizada com vistas a certo estado de concórdia e de paz, deve ser respeitada e defendida, especialmente para que os cidadãos da Cidade de Deus que nela vivem participem dos bens que ela assegura e fruam a sua ordem. A lei temporal prescreve o que assegura a ordem e a paz social, e a lei eterna ordena submeter o temporal ao eterno. É desejável e também possível, em certa medida, que as duas ordens coincidam; a segunda faz sobressair essencialmente uma ordem ideal, cuja realização perfeita só terá lugar no além (é o tema da “Realeza Social de Cristo”).

 

É difícil saber o que a Cidade de Deus pode legitimamente alcançar e, se necessário, exigir da cidade terrestre no assunto (quando seus cidadãos, sejam, em parte, os mesmos, e haja conflitos inevitáveis). A cidade terrestre não tem nada a temer da Cidade de Deus. Os princípios que regulam a vida cristã são diferentes, mas só exigem mais eficazmente o que as leis que governam a cidade querem obter. Aparentemente isso não é evidente, pois o Evangelho prega a “não resistência ao mal”, e ensina que se deve dar o bem em troca do mal. Como admitir que o Estado possa aceitar não se defender contra seus inimigos?! Como o fim da sociedade civil é a concórdia e a paz, e é para assegurá-lo melhor que as leis evitam se vingar, o que é proibir retribuir o mal com o mal. Nenhuma oposição pode surgir entre as duas cidades, tanto que a cidade terrestre se sujeita às leis superiores da justiça; um Estado que poderia ter soldados, funcionários e, de maneira geral, cidadãos segundo o ideal do Cristianismo, não teria nada mais a desejar.

 

Quando a cidade terrestre infringe suas próprias leis e as da justiça, os cidadãos da cidade celeste, que são membros daquela, continuam a observar as leis civis que a cidade terrestre esquece. Na desordem resultante do desprezo das leis, os justos têm muito a sofrer e a perdoar. O que podem corrigir ao seu redor, corrigem; o que não podem emendar, suportam com paciência; de resto, persistem observando a lei. O cristão é o mais certo observador das leis da cidade, porque ele só as observa em prol de fins superiores aos da cidade. Se Deus preservou o respeito à virtude na Roma antiga, foi para preparar as vias para a Cidade divina (esse é o tema histórico central da Cidade de Deus).

 

Quando César pede o que lhe é devido, o cristão lhe dá, não por amor a César, mas por amor a Deus. Como o soberano bom, o mau tem seu poder de Deus, que o consente ao mau para fins cuja natureza nos é desconhecida, mas cuja existência não é duvidosa; não há risco para o cristão. Quando César reclama para si o que só é devido a Deus, o cristão recusa, não por ódio a César, mas por amor a Deus. Também aqui a cidade terrestre nada tem a temer do cristão, dado que, cidadão submisso, ele amará mais sofrer a injustiça do que se armar de violência e mais suportar os castigos desmerecidos do que se esquecer da lei divina da caridade (cf. De civ. Dei, XIX, 4, 5).

 

Santo Agostinho jamais preconizou a adoção de uma forma determinada de governo civil. Para ele, segundo as circunstâncias e a natureza do povo que se deve governar, uma constituição pode ser preferível a outra. Somente a lei eterna é imutável; as leis temporais, não. A felicidade dos imperadores cristãos consiste menos na prosperidade secular que detêm do que na justiça de sua administração e na sua submissão a Deus (cf. De civ. Dei, V, 24).

 

Há uma confusão que se estabelece no pensamento entre dois pares de termos antinômicos: Estado e Igreja, por um lado, e Cidade terrestre e Cidade de Deus. Para Agostinho, esses dois pares não coincidem. A cidade terrestre não é o Estado. Os membros da cidade terrestre estão destinados (não predestinados) à danação; ora, os futuros eleitos necessariamente são parte do Estado onde nasceram e onde vivem; logo, não se pode confundir a cidade terrestre, entidade mística segundo a expressão de Santo Agostinho, com tal ou qual cidade concreta do tempo e do espaço. Tampouco a Igreja é, na concepção de Agostinho, a Cidade de Deus, pois esta é a sociedade de todos os eleitos passados, presentes ou futuros. Ora, manifestamente houve justos eleitos antes da constituição da Igreja de Cristo; há, agora, fora da Igreja, futuros eleitos que se submeterão à sua disciplina antes de morrer; enfim, há na Igreja muitos homens que não estarão no número dos eleitos. As duas cidades estão misturadas aqui embaixo e continuarão assim até que o Juízo Final separe definitivamente os cidadãos de ambas (cf. De civ. Dei, I, 35). O que restará, na visão de Agostinho, não será a Igreja de um lado e o Estado de outro, mas a sociedade divina dos eleitos e a sociedade diabólica dos reprovados.

 

A Igreja é, desde o presente, o reino de Cristo e o Reino dos Céus (cf. De civ. Dei, XX, 9, 1). O Reino de Cristo, que atualmente é a Igreja – Ele está com ela até a consumação dos séculos – não é a Cidade de Deus. Com efeito, esse reino deixa crescer o joio entre o trigo, ao passo que não haverá mais joio misturado ao bom grão na cidade celeste. A Igreja, na visão de Agostinho, é o Reino de Deus, mas não a Cidade de Deus. O Estado é naturalmente estrangeiro e, enquanto tal, indiferente aos fins sobrenaturais; não há por que se espantar que os membros do Estado que são somente membros do Estado sejam desde já os cidadãos destinados à cidade terrestre (cf. De civ. Dei, XIX, 24). Por outro lado, ainda que a Igreja não seja a Cidade de Deus, ela é a única sociedade humana que trabalha para construí-la, então é natural que, em princípio, seus membros sejam seus futuros cidadãos. Agostinho reduz a história uma antítese simplificadora: duas cidades, Babilônia e Jerusalém, com dois povos, os reprovados e os eleitos, e dois reis, o Diabo e Cristo.

 

A oposição das duas cidades seria uma sobrevivência do maniqueísmo em Agostinho? Na realidade, as fontes de sua doutrina são estritamente escriturísticas. A ideia de uma Cidade de Deus lhe foi expressamente sugerida pelo Sl 86, 6: Gloriosa dicta sunt de te, civitas Dei; por outro lado, a oposição clássica entre Babilônia e Jerusalém bastaria para sugerir a ideia de uma cidade má oposta à cidade divina (cf. De civ. Dei, XI, 1). Sua doutrina é antimaniqueísta; para Agostinho, uma natureza má é contraditória em termos, a tal ponto que mesmo a cidade terrestre é boa por natureza e má somente pela perversidade de sua vontade (cf. De civ. Dei, XI, 33).

 

O ponto de partida de Agostinho é a Revelação, que conferindo à história a universalidade que nosso empirismo fragmentário não pode alcançar, ao desvelar sua origem e seu fim, torna possível a teologia da história. Assim, Agostinho admite também a unidade necessária da humanidade e de sua história. Em certo sentido, a humanidade toda é verdadeiramente um único homem submetido por Deus às provas purificantes e iluminadoras de uma revelação progressiva. Entretanto, graças e luzes não serão plenamente eficazes a não ser para os futuros eleitos, membros da comunhão dos santos, cuja constituição e acabamento são a causa final do universo e de sua história.

 

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"Santo Agostinho de Hipona" (c. 1745), 
de Giuseppe Antonio Pianca

 

Étienne Gilson sobre a unidade temporal dos homens e a Fé Católica

 

Excertos do capítulo X (“A Igreja e a Sociedade Universal”), conclusivo, de: GILSON, Étienne. A Evolução da Cidade de Deus. Tradução de João Camillo de Oliveira Tôrres. São Paulo: Herder, 1965, pp. 223-239 (negritos meus). 

 

Em primeiro lugar, toda esta história [da evolução da noção de Cristandade] pressupõe que a definição agostiniana do povo seja verdadeira e, mesmo, a única verdadeira, ao menos quanto ao sentido e sejam quais forem os termos que usamos para exprimi-la. Admitir sua veracidade não implica que todos os grupos humanos que denominamos povos satisfaçam às exigências desta definição. Pouquíssimos homens se acham unidos por seu amor comum de bens realmente idênticos, mas não formam um povo senão na medida em que o são. Reino mineral, vegetal ou animal, não são senão metáforas. A sociedade propriamente dita não começa senão com a razão, logo, com o homem. A força física, certamente é uma ligação, mas não um nexo social. Há sociedade somente onde a concórdia das razões e dos corações ligam mutuamente os indivíduos e as pessoas. Eles formam então um povo, cuja concórdia é o laço.

 

Esta história pressupõe, ademais, que o cristianismo haja revelado a ideia de uma sociedade religiosa fundada na fé em Jesus Cristo, aberta aos homens de todas as raças e de todos os países, contanto somente que vivam da fé. Santo Agostinho denomina esse povo de Cidade de Deus, da qual a Igreja de Cristo é a operária no tempo e neste mundo. Esta cidade, que inclui os mortos e aqueles que ainda estão para nascer, conjuntamente com os vivos, satisfaz exatamente à definição de povo, porque nasce de um amor comum por um bem comum, conhecido de maneira idêntica, graças à unidade perfeita da fé.

 

Neste sentido, o problema da Cidade de Deus se confunde praticamente para nós com o da Igreja, cuja função própria é conduzir os homens ao reino de Cristo, que é o reino dos Céus. É noutro plano que as dificuldades aparecem. Nenhum cidadão da Cidade de Deus pertence à cidade terrestre, que lhe é a antítese, mas, todos pertencem a uma cidade temporal qualquer. Cada um deles possui, por assim dizer, uma dupla fidelidade, e o fato de ser uma delas natural, a outra sobrenatural, não suprime o problema, porque, introduzindo um povo cristão na cidade temporal, a Igreja não suprime o tempo. Ela cria, no tempo, um povo, cujo comportamento temporal é o de um povo cristão. Os costumes comuns aos povos em virtude de serem cristãos constituem a civilização cristã. O conjunto de povos unidos por seu amor do bem comum da civilização cristã constitui a cristandade.

 

Um dos aspectos mais curiosos desse problema reside no fato de que tenha permanecido, até hoje, por assim dizer, à margem da teologia propriamente dita. [...] São Boaventura, Santo Tomás de Aquino, Duns Scotus, Guilherme de Ockam, todos possuem uma doutrina defendida a respeito das relações entre o poder temporal e o poder espiritual, ou entre o império e o papado, mas, nosso problema, que é o da Cidade de Deus em peregrinação ao longo dos tempos, com suas consequências possíveis para a organização da terra, unificação política do globo e o advento de uma era de justiça temporal e de paz, se o vemos brilhar na obra de uns raros visionários como Rogério Bacon e Dante, permanece, geralmente, no segundo plano da especulação cristã.

 

Ele está, não obstante, certamente ligado a um outro cujo lugar central que ocupa na teologia não se pode menosprezar: o da fé e sua propagação entre os homens.

 

[...] Reduzido a seus dados essenciais, [o problema] consiste em saber como se pode universalizar uma verdade de fé, que transcende essencialmente ao poder da razão demonstrativa. Duma parte, Deus concedeu a seus apóstolos e aos sucessores destes a missão de ensinar a todas as nações; doutra parte, o ensino que ele os encarregou de transmitir é a fé no Filho de Deus e a esperança em um Reino, em lhes prometendo ademais, que estaria com eles em seu trabalho até a consumação dos tempos. [...]

 

[...] O Cristianismo não conquista, como o Islã, pela força das armas; não seduz os homens pela promessa de prazer; convida-os ao desprezo do mundo e ao amor de coisas invisíveis, para as quais lhes solicita renunciar a tudo que de ordinário atrai o consentimento dos homens e mesmo, se for necessário, a sofrer perseguições pela verdade. Em suma, o cristianismo teria contra si todas as oportunidades se Deus não houvesse apoiado sua predicação por meio de obras miraculosas que ultrapassam os meios naturais de que dispõem os homens. Provando assim que era Ele quem falava, Deus provou igualmente que era racional crer na verdade de sua palavra, mesmo quando a evidência desta verdade escapa à razão natural. [...]

 

Esta natureza da fé está na origem de nosso problema: impõe aos obreiros da Cidade de Deus a tarefa literalmente ‘sobre-humana’ de obter dos entendimentos humanos a aceitação de uma verdade que não é naturalmente demonstrável. [...] A Igreja é a Jerusalém terrestre que prepara no tempo a realização da Jerusalém celeste; é a sociedade perfeita formada pelos cristãos precisamente enquanto cristãos, em suma, a única sociedade cuja essência é exatamente a de ser cristã. Se existem outros tipos de sociedades que pretendem o título de ‘cristãs’, todas pressupõem a Igreja, que não pressupõe nenhuma. Ela é a Sociedade Cristã Integral, suficiente a si própria e completa por definição.

 

Segue-se daí que todo projeto de uma República Cristã estendendo ao temporal as fronteiras da Igreja postula a existência e o reconhecimento prévio da Igreja. Nós dizemos da Igreja, e não de uma igreja, porque se ela se quer universal, esta sociedade se quer única, e se se quer única deve ser a extensão, no temporal, de uma só e mesma igreja, da qual toma de empréstimo sua unidade.

 

Isto mesmo não basta. Para receber de empréstimo sua unidade, toda sociedade que alega pertencer à Igreja deve aceitar a jurisdição religiosa, e, com mais forte razão moral, estendida a toda ordem temporal na medida em que se colocam os problemas da moralidade. Estes não são os únicos problemas que se põem, mas se põem por toda parte: a propósito da ordem política e social cuja tranquilidade se chama paz; a propósito da guerra, que pode ser justa ou injusta, mas, que não escapa em caso algum às regras do direito e da moral; a propósito dos governos e seus súditos, nenhum dos quais está acima das leis de Deus e dos direitos que estas leis impõem. Que se chame direta ou indireta, pouco importa quanto ao fundo, contanto que esta jurisdição seja reconhecida nos termos e no espírito em que a definiu Santo Tomás de Aquino: em matéria espiritual, é melhor obedecer ao papa; em matéria temporal, é melhor obedecer ao príncipe, mais ainda, porém, ao papa que ocupa o vértice das duas ordens (In II Sent. d44, expos. Textos, ad 4m). O sentido destas palavras é claro. O espiritual não é submetido ao temporal; o príncipe, que tem autoridade no temporal, não a tem, pois, alguma no espiritual; mas o temporal é submetido ao espiritual; o papa, que tem autoridade no espiritual, tem pois também autoridade no temporal, na medida em que este depende do espiritual. A fórmula é simples e basta aplicá-la para ver que ela comporta um sentido preciso. O papa não é soberano político de nenhum dos povos da terra, mas, tem autoridade soberana sobre a maneira pela qual todos os povos conduzem a sua política. Vigário de Cristo Rei, ele os julga a todos em Seu nome e em virtude de Sua autoridade.

 

É fácil prever que reação aguarda semelhantes palavras; nós pedimos, todavia, que, antes de bater-se contra fantasmas, aceite-se escutar esta resposta em função do problema [a evolução da noção de cristandade] de que estudamos previamente os dados históricos. Mesmo se tivesse a força, a Igreja não quereria recorrer a ela para suprimir as outras religiões; non violentia, diz Santo Tomás (Contra Gentiles, 1, 6): a pregação pelas armas não fica bem aos enviados do Príncipe da Paz. Igualmente, a Igreja não pensa em impor a sua jurisdição sobre o temporal, graças à violência ou à astúcia; aí ainda, ela não possui os meios, e se os tivesse, de nada serviriam a seus fins. Trata-se, aqui, de outra coisa. Dirigimo-nos àqueles, mais numerosos do que se crê, que gostariam de construir a sociedade universal cuja ideia a Igreja revelou ao mundo, sem aceitar a unidade da Igreja nem lhe reconhecer a jurisdição. Ninguém os obriga a querer semelhante sociedade, mas, se eles a querem, e com razão, como um fim em si desejável, deveriam querer, também, os meios. Não há violência, nem intolerância no lembrar que é simplesmente contraditório querer um fim e recusar-lhe os meios.

 

[...] Sem uma verdade cristã, não poderia haver nem igreja cristã, nem sociedade cristã. Sem uma verdade una, não poderia haver igreja una, nem sociedade cristã verdadeiramente una. Na desunião de fato em que estamos, a tolerância mútua entre as igrejas é uma coisa excelente, mas, seria melhor que não tivesse oportunidade de exercer-se. De qualquer modo, ela não poderia passar por uma união, menos ainda por uma unidade. Pode-se não querer uma jurisdição, mas não se pode querê-la e recusar a autoridade. [...]

 

[...] toda tentativa para usurpar-lhe [à Cidade de Deus] o título e a finalidade traz desgraça às sociedades humanas que a pretendem realizar na terra. O traço comum a todas estas tentativas é a de substituir ao laço da fé um laço humano, como a filosofia ou a ciência, na esperança de que se universalizará mais facilmente do que a fé, que se facilitará, por aí, o nascimento de uma sociedade temporal universal. A operação é compensada normalmente por um malogro. [...]

 

[...] Para que seja outra coisa do que um aglomerado de povos mais ou menos empiricamente impedidos de se entredevorarem, importa que esta sociedade viva de uma verdade una. Para tornar-se ela própria um povo, cumpre-lhe realizar, por sua vez, a definição estabelecida por Santo Agostinho: um conjunto de homens comungando no amor de um mesmo bem.

 

Qual será este bem? Se ela tem algum sentido, a história dos avatares da Cidade de Deus desde a Idade Média, significa, que não se encontrou, tirando aquele da fé, um universalismo da razão capaz de a substituir. Por mais paradoxal que seja, o resultado da experiência é claro: mesmo onde a razão divide, a fé une. Mas, é mesmo um paradoxo? Sem uma exceção, todos os teólogos ensinam que a verdade da palavra de Deus é mais certa e mais infalível do que mesmo as certezas da razão muito bem demonstradas.

 

[...] Na medida em que, como o esperamos, a sociedade humana de amanhã é realizável, será preciso, pois, não tomá-la em si mesma por uma igreja, mas, aceitar da Igreja a unidade perfeita para qual se dirige e que é incapaz de se dar.

 

Nós o esquecemos, e eis que já torna a desfilar diante de nossos olhos o cortejo das antigas respostas, vinte vezes ensaiadas, vinte vezes refutadas pelos fatos, e, todavia, sempre as mesmas. Oferecem-nos um império universal, como nos tempos de Alexandre Magno, de Augusto, de Napoleão I, ou de outros ainda que temos conhecido depois. Não é completamente certo que os impérios sejam totalmente nocivos, ou mesmo inúteis. Muitos deles contribuíram, por sua parte, para diminuir o retalhamento político da terra, mesmo a preço de grandes sofrimentos, e nada prova que o tempo deles já passou. [...]

 

Acontece que, na medida em que se vai realizar, a sociedade temporal dos homens não realizará jamais senão uma imagem da sociedade sobrenatural e perfeita que é a Cidade de Deus. A Igreja propôs inicialmente aos homens, por Santo Agostinho, o ideal de uma sociedade dos filhos de Deus, unidos a Ele e entre si, pelos laços da fé, da esperança e da caridade. Com efeito, se disseram, eis a única sociedade digna deste nome, mas, vamos fazê-la, nós mesmos, sobre esta terra, em vista do homem e por seus próprios meios. Sabe-se o resultado e Santo Agostinho, por sinal, o previra. Chama-se Babel ou a confusão. É o caso típico destas ideias de que G. K. Chesterton dizia que o mundo está cheio: uma ideia cristã enlouquecida. Sua família é numerosa, mas facilmente reconhecível: é a dos fins divinos que o homem, quando ocorre ter-se como seu inventor, confisca em seu proveito. A série das metamorfoses da Cidade de Deus não tem outro sentido. É a história de um esforço obstinado para fazer desta cidade eterna uma cidade temporal, colocando no lugar da fé não importa que laço natural concebível como força unitiva desta sociedade.

 

Segue-se daí que a Igreja trabalha contra a cidade dos homens? Muito ao contrário. Aqueles que trabalham contra ela são aqueles que, encorajando-a a agarrar-se a um sucedâneo da Igreja, tornam-lhe contraditória a noção e o nascimento impossível. Tudo deve ser progressivamente executado para construí-la, inclusive as grandes forças espirituais que sua universalidade mesma habilita para essa tarefa: a ciência, a arte, o direito e a moral. [...] Empenhados, como homens e como cidadãos, no esforço de conseguir o bem comum de suas cidades temporais, os cristãos se encontram, como cristãos, sobrecarregados de uma responsabilidade mais alta ainda, a de manter e estender a informação do temporal pelo cristianismo por toda parte onde se encontram e em todos os domínios em que lhes é dado agir. [...]

 

Por qualquer palavra que os designemos, esse povo cristão é o mesmo que a Epístola a Diogneto e a Cidade de Deus descreviam já como espalhados no mundo, igual à alma que por toda a parte está co-presente no corpo que ela anima. Não há outro ser que aquele da Igreja, outro fim que o da Igreja, e não o poderia atingir senão sob a tutela da Igreja. Em si, fora do tempo, a verdade da Igreja pode exprimir-se numa multiplicidade de línguas e animar uma pluralidade de instituições temporais que se sucederão no tempo e estender-se-ão no espaço. Eis aí porque, mesmo se esse povo cristão muda de fisionomia ao longo dos séculos porque habita sucessivamente cidades temporais diversas, permanece uno no tempo, como o é no espaço, porque vive da vida una e imutável da Igreja.

 

Esta parte da Cidade de Deus, peregrina no tempo, é também o levedo da cidade temporal, que procura nascer, e da qual a cidade celeste é a ideia. Fora do povo cristão e de qualquer modo em sua fímbria, mas, em sua zona de irradiação e de influência, acha-se a cidade temporal que não é ainda renascida no Verbo e no Espírito, e que todavia, a simples presença da Igreja solicita e persuade lentamente a se reformar à sua imagem. Assim nasce, em torno da Igreja, uma espécie de civilização difusa observável ao longo da história e que constitui, se assim se pode dizer, o catecumenato da civilização pagã ao título de civilização cristã. É, também, pelo que já possui de cristã, mesmo que se defenda disto ou o ignore, que é esperança e preparação duma sociedade temporal que, para unir todos os homens, deve-se apelar para um princípio que transcenda ao homem. Não há outro senão Deus conhecido pela fé. O cristão crê na Cidade de Deus e a esperança que nela deposita é uma certeza; o homem tem o direito de esperar na cidade humana, mas, sua esperança não é uma certeza. A única coisa que o historiador pode fazer para ajudá-lo é colocar sob os olhos, com o objetivo verdadeiro de sua esperança, a causa de seus malogros repetidos em conseguir passá-la para a realidade e fornecer-lhe os meios a seu dispor para ter êxito. O que o historiador não pode fazer é obrigar os homens o fim que eles próprios desejam. Não se pode mesmo saber se o quererão algum dia. [...] Se a unidade temporal da terra é possível, não bastará que os homens a desejem com ardor para que venha afinal sua cidade, com a paz terrestre que eles esperavam. [...] A cidade dos homens não pode surgir à sombra da cruz, senão como bairro da Cidade de Deus.

 

 

 

4.7.25

Verdadeira e falsa mística

 Palestra dada no Centro Dom Bosco, no Rio de Janeiro.


Verdadeira e falsa mística

 

Parece haver um certo silêncio ou ignorância sobre a “mística”, na Igreja. Como se a mística ou a vida contemplativa, a vida de união com Deus, fosse apanágio dos religiosos; ou como se a vida ativa devesse absorver todas as energias da caridade cristã. A liturgia corrente há muito não é vivenciada com o devido caráter “mistagógico”, isto é, de introdução ao Mistério de Cristo. Urge recuperar o senso da verdadeira mística dentro da Igreja, recuper a santidade da Liturgia; a vida mística é imprescindível para que a vida cristã seja fecunda, para que o apostolado seja frutuoso, para que possamos alcançar a santidade.

A união com Deus, a Vida Eterna, a santificação ou a “deificação” (como a chamam os orientais), é a meta da vida cristã, e esta união começa com o sacramento do Batismo, e deve se estreitar ao longo de nossa peregrinação, na cooperação com a Graça de Deus, até a Bem-Aventurança celeste.

            Neste sentido, toda a vida de cada cristão é um contínuo processo “mistagógico” ou de “iniciação nos mistérios cristãos”. Todo cristão é chamado à santificação, cada qual segundo seu estado de vida. O Pe. Antonio Royo Marín nos apresenta as seguintes definições para esta santidade à qual somos chamados (todas elas são, no fundo, modulações desta ideia da “união com Deus”, segundo distintas perspectivas):

 

A Sagrada Escritura, os Santos Padres, os teólogos e os grandes místicos experimentais propuseram diversas fórmulas, embora todas coincidam substancialmente. As principais são as seguintes:

 

a) Consiste em nossa plena configuração com Cristo, em nossa plena cristificação. É a fórmula sublime de São Paulo, na qual insiste reiterada e incansavelmente em todas as suas epístolas.

 

b) Consiste na perfeição da caridade, ou seja, na perfeita união com Deus pelo amor. É a fórmula do Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, no plano estritamente teológico.

 

c) Consiste em viver de uma maneira cada vez mais plena e experimental o mistério inefável da inabitação trinitária em nossas almas. É o pensamento fundamental de São João da Cruz e de todos os grandes místicos experimentais.

 

d) Consiste na perfeita identificação e conformidade de nossa vontade humana à vontade de Deus. Assim fala insistentemente Santa Teresa de Jesus.

 

[...] Todas [as fórmulas] são verdadeiras e expressam a mesma realidade, embora contempladas desde pontos de vista diferentes...

 

(ROYO MARÍN, Antonio. Ser ou não ser santo... eis a questão: Compêndio da obra: Teología de la perfección Cristiana. Trad. Ricardo Harada. Campinas: Ecclesiae, 2016, pp. 21-22).

 

            No caminho desta busca da união com Deus, muitas vezes nos deparamos com vias falsas, com falsos misticismos, que se caracterizam como três espécies de “falsa gnose”: a gnose “intelectualista”, a “sentimentalista” e a “voluntarista”. Primeiramente falaremos da mística verdadeira, depois destes perigos mencionados que estão à espreita, e terminaremos recordando a articulação entre a contemplação e a ação, a oração e a vida apostólica.

 

 

1. A vida mística

 

a) Vida ativa e vida contemplativa

 

Nossa vida e nossa busca da santidade são constituídas por essas duas dimensões: a da ação, ou das atividades externas que se ordenam às necessidades da vida presente; e a da contemplação, que se ordena ao conhecimento da verdade. De um lado, estão nossas atividades transitivas (orientadas para o exterior); de outro, as atividades imanentes de nosso espírito.

Vida ativa e vida contemplativa dividem adequadamente a vida humana (cf. S.Th. II-II q179), como nos sugere a passagem de Marta e Maria (cf. Lc 10,38-42). Das duas, a contemplação “é a melhor parte”, tem a primazia (cf. S.Th. II-II q182); mas isso não significa que devamos dedicar mais tempo a ela que à ação – exceção feita, evidentemente, aos chamados à vida contemplativa –, e sim, considerá-la como valor mais elevado.

Em nossa condição de viadores, não podemos ocupar-nos unicamente com a contemplação – mesmo nas ordens contemplativas, nas quais seus membros também necessitam viver a dimensão da ação, como sugere o próprio lema beneditino (“ora et labora”) –, pois faz parte do desígnio de Deus que nos dediquemos à ação sobre o mundo (cf. Gn 1,28), como criadores de cultura, de modo que a vida ativa também possui uma grande dignidade.

Nossa própria santificação pessoal ou nosso itinerário místico implica um trabalho ascético, um “tomar a própria cruz”, um esforço e uma tensão, seja desenvolvendo o amor ao próximo, seja trabalhando por nossa própria conversão. Essa tensão, presente em nosso trabalho, em nosso apostolado, em nosso serviço caritativo, e em nosso combate espiritual, não corresponde exatamente às disposições de que necessitamos para a contemplação, mas prepara o terreno para a mesma (cf. S.Th. II-II, q182, a3): vida ativa e vida contemplativa se complementam.

A atitude contemplativa prepara a contemplação orante. Esta atitude é oposta àquela que adotamos diante dos meios, pelos quais só nos interessamos à medida que servem para alcançar nossos objetivos. Pela contemplação, nos aplicamos a um objeto como tal, penetramos em sua forma inteligível. Para atingir a contemplação é necessário primeiramente o recolhimento, a unidade pessoal frente à dispersão; ambos conformam a vida contemplativa: “a verdadeira contemplação é recolhimento, e o verdadeiro recolhimento necessita de se submergir na contemplação” (Dietrich von Hildebrand, A nossa transformação em Cristo).

O objeto contemplado tem um valor intrínseco, e atrai nosso coração com seu conteúdo. Não vivemos aquela tensão para o futuro típica da ação, mas nos demoramos no presente. Somos receptivos ao objeto e nos aplicamos a ele plenamente sem divisão; repousamos no objeto. Receptividade não significa passividade, mas abertura, atenção plena: a contemplação é “um estado de atividade no mais elevado sentido da palavra, que traz consigo a autêntica atualização da pessoa, a verdadeira vida espiritual na sua forma mais intensa” (A nossa transformação em Cristo).

Nada que tenha caráter puramente instrumental pode ser objeto de contemplação, porque não tem capacidade para captar nossa atenção. Uma verdade universal, a beleza de uma obra de arte, uma pessoa querida… são exemplos de objetos passíveis de serem contemplados (neste sentido mais amplo). Eles nos põem em contato não somente com eles mesmos, mas nos levam a transcender nossa vida atual, nos elevam ao mundo dos valores, ou seja, ao reino no qual as coisas terrenas são vistas com seu devido valor, no seu devido lugar: o Reino de Deus. Para que seja verdadeira contemplação, a contemplação de uma criatura deve nos levar a Deus, como, de fato, pode fazer, porque o Senhor “tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas” (Rm 1,20). Assim, “a contemplação dos efeitos divinos também pertence, de modo secundário, à vida contemplativa, enquanto que, através deles, o homem é levado ao conhecimento de Deus” (S.Th. II-II, q180, a4): a contemplação das verdades nos leva a contemplar a própria Verdade Subsistente.

 

 

b) Contemplação e oração

 

A oração é o meio de graça mais acessível para todo católico. Para rezar, basta dirigir nossa mente a Deus, o que só pode ser feito desde algum impulso da Graça. E toda a vida de oração pode ser considerada vida contemplativa – e não apenas a “oração de contemplação” em sentido estrito –, até mesmo a oração vocal. Ao pronunciarmos as fórmulas das orações, devemos fazê-lo unindo nosso coração à voz, e assim “a oração vocal se converte em uma primeira forma de oração contemplativa” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2704). Basta lembrar a reza do Santo Rosário ou a famosa “Oração de Jesus”, dos cristãos orientais.

Com maior razão, ainda, pode-se chamar “contemplativa” à oração mental ou “meditação”, que se debruça sobre os mistérios de Cristo, principalmente através da leitura orante da Sagrada Escritura (lectio divina), ou por intermédio do santo rosário (cf. Catecismo, n. 2708).

A oração contemplativa propriamente dita é “um simples olhar sobre Deus no silêncio e no amor. É um dom de Deus, um momento de fé pura durante o qual o orante procura Cristo, se entrega à vontade amorosa do Pai e concentra o seu ser sob a ação do Espírito” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 571).

Não explicarei aqui os “métodos de oração meditativa”, nem mencionarei a contemplação no sentido estrito dos cristãos “avançados” (contemplação adquirida) e dos “perfeitos” (contemplação infusa), mas direi apenas que a meditação, que pode ser feita com uma passagem da Sagrada Escritura ou um trecho de um escrito espiritual dos santos, pode sempre terminar no chamado “colóquio afetivo” com Nosso Senhor, como o chama Santa Teresa, o qual pode ser considerado um germe de oração contemplativa, que todo católico principiante empenhado já poderia buscar: trata-se de se concentrar no mistério que foi compreendido através da meditação, de um rezar com o coração. Sobretudo a Liturgia da Missa é o espaço de contemplação por excelência para todos os católicos: espaço de silêncio, de audição das melodias gregorianas angélicas, de contemplação espiritual do Sacrifício da Cruz e da Entrega Eterna do Verbo Divino ao Pai.

Importante dizer que, na oração cristã, não se trata de contemplar o Deus impessoal do panteísmo, ou “fundir” nossa realidade humana na realidade divina: unidos a Deus conservamos nossa identidade pessoal, uma vez que a alteridade é um bem e existe em Deus mesmo, Uno e Trino (cf. Carta aos Bispos da Igreja católica sobre alguns aspectos da meditação cristã, 14).

c) As três vias do itinerário místico

 

O Pe. Tanquerey, em seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística, infere das palavras de Cristo “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lc 9,23), as três vias, graus ou etapas da vida cristã: o primeiro grau é a abnegação ou renúncia da “via purgativa”; levar a cruz já supõe o exercício das virtudes ou o segundo grau, a “via iluminativa”; finalmente, o sequatur me é a união íntima com Jesus, a união com Deus, e, portanto, a “via unitiva” (cf. AD. TANQUEREY, Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1961, p. 296).

S. João Clímaco assim descreve, na sua Escada Santa, a peregrinação do cristão:

 

Peregrinação é pôr de lado, desamparar, com toda a constância, tudo quanto nos impede o propósito e exercício de piedade, que é louvar e buscar a Deus. Peregrinação é um coração vazio de toda a vã confiança, sabedoria não conhecida, prudência secreta, fugida do mundo, vida invisível, propósito não revelado, amor do desprezo, apetite de angústias, desejo do divino amor, abundância de caridade, aborrecimento de passar como sábio ou como santo, e um profundo silêncio da alma. [...]

 

[...] A peregrinação verdadeira é uma perfeita separação de todas as coisas, com intento de jamais, tanto quanto seja possível, separar de Deus o nosso pensamento. Peregrino é amador de perpétuo pranto, arraigado nas entranhas pela memória de seu Criador [...]

 

O Pe. Garrigou-Lagrange, ao falar das três vias e das três conversões, evoca a analogia com as idades do homem natural: a infância, a adolescência e a vida adulta, como fizera o próprio S. Tomás (II-II, q. 24, a.9), relacionando ainda com a noite dos sentidos e a noite do espírito de S. João da Cruz:

 

[...] Não há como evitar: é preciso que a pessoa saia da infância desenvolvendo-se normalmente; caso contrário, ou toma direção má ou então se torna um atrasado mental, um anormal instável ou talvez um anão espiritual. 'Quem não progride, regride'.

 

Aqui fica claríssima a analogia com a vida espiritual: veremos que o iniciante que não progride como deveria vira-se para o mal ou então permanece como uma alma retardada, amortecida, como um anão espiritual. Aqui também, 'quem não progride, regride', como frequentemente disseram os Padres da Igreja (p. 37).

 

[...] O jovem, que fisicamente está completamente formado, deve começar a tomar o seu lugar na vida social [...] Muitos atravessam mal esta crise da primeira liberdade e, como o filho pródigo, afastam-se da casa paterna [...] Também aqui é imperativo sair da adolescência normalmente; caso contrário, entra-se por um caminho errado, permanecendo um atrasado, daqueles dos quais se diz que ficam a vida toda como crianças.

 

O verdadeiro adulto [...] tem uma mentalidade nova, preocupa-se com questões mais gerais, pelas quais o adolescente ainda não se interessa; compreende a idade anterior mas não é compreendido por ela; conversar sobre certos assuntos não lhe é mais possível, ou então será uma conversa muito superficial.

 

Na vida espiritual há algo de semelhante, entre aquele que progride e o perfeito. O perfeito deve compreender as fases que ele mesmo atravessou, mas não pode esperar que seja plenamente compreendido por aqueles que ainda não as atravessaram (p. 38).


[...] assim como há uma crise mais ou menos manifesta e mais ou menos bem suportada, quando alguém passa da infância à adolescência, a chamada crise da puberdade, ao mesmo tempo física e psicológica, há também uma crise análoga para passar da vida purgativa dos principiantes à via iluminativa dos avançados. Esta crise foi descrita por muitos grandes espirituais, notadamente por Tauler, mas principalmente por São João  [...] sob o nome de purificação passiva dos sentidos, pelo padre Lallemant S.J., e muitos outros sob o nome de segunda conversão" (p. 38).


"Como o adolescente, para chegar adequadamente à idade adulta, precisa atravessar bem a crise anterior da primeira liberdade e não abusar dela quando está longe dos olhos paternos, assim também, para passar da via iluminativa dos avançados à verdadeira via unitiva dos perfeitos, há outra crise espiritual, mencionada por Tauler, descrita por São João Cruz sob o nome de purificação passiva do espírito, e que merece ser chamada de terceira conversão ou melhor, uma transformação da alma" (p. 39).

 

(GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. As 3 vias e as três conversões. 4a ed. Rio de Janeiro: Permanência, 2011)

 

Guilherme de St-Thierry, em sua Carta de Ouro fala, desde outra perspectiva, dos três gêneros de vida cristã: o dos iniciantes ou “animal”, o dos que progridem ou “racional”, e dos perfeitos ou “espiritual":

 

São “animais” aqueles que, por natureza, não agem segundo a razão nem são conduzidos pelo affectus [trata-se, no autor, de um afeto espiritual, de um amor espiritual, que é produzido em nós pela união com Deus]. Mas que, movidos pela autoridade, ou admoestados pela doutrina ou instigados por algum exemplo, aprovam o bem, onde o encontram, e, à semelhança dos cegos, levados pela mão, seguem, isto é, imitam. São “racionais” os que, pelo juízo da razão e o discernimento da ciência natural, possuem o conhecimento e o desejo do bem, mas que todavia lhes falta o affectus. São “perfeitos” aqueles que agem segundo o espírito [o próprio espírito criado, a dimensão humana mais sublime] e que pelo Espírito Santo são mais plenamente iluminados. E por degustarem do bem, cujo affectus os atrai, são chamados de “sábios”. E porque o Espírito Santo os revestiu – como outrora a Gedeão, como que com as vestes do Espírito Santo – são chamados de “espirituais”.

 

O primeiro estado se ocupa do corpo, o segundo da alma, o terceiro só encontra repouso em Deus. Cada um deles possui tanto um modo bem definido de progresso quanto uma medida bem definida de perfeição, conforme o seu estado.

O início do bem, no modo de vida animal, é a perfeita obediência; o progresso é submeter o corpo e reduzi-lo à servidão; a perfeição é quando o hábito do bem se transforma de “costume” em prazer. O início para o racional é a compreensão daquilo que lhe é apresentado na doutrina da fé; o progresso é a preparação, segundo aquilo que lhe é apresentado; a perfeição é quando o juízo da razão para o affectus da mente. A perfeição do racional é o início do espiritual; o seu progresso é contemplar a glória de Deus com o rosto descoberto; sua perfeição é ser transformado nessa mesma imagem, de claridade em claridade, como pelo Espírito do Senhor (cf. 2Cor 3,18).

 

(GUILHERME DE ST-THIERRY, Carta de Ouro. Tradução de Pe. Gabriel Augusto Vecchi. Campinas: Ecclesiae, 2016, pp. 79-81).

 

Não são etapas estanques, como se, no processo, a purificação, a iluminação e a união não se compenetrassem. Como diz o meu amigo Lincoln Hein, cantor sacro, arteterapeuta e estudioso da mística, as três estão sempre unidas:

 

a purificação ilumina e une; a iluminação purifica e eu; a união purifica e ilumina [...] o processo mistagógico de união com o mistério num primeiro momento é mais purificativo afastando do pecado, num segundo momento é mais iluminativo e num terceiro momento é mais unitivo [...]

 

Fica esclarecida a tríplice ação mistagógica da graça pela oração purificativa dirigida a o Pai no coração, pela bem-aventurança da conformidade com a Luz do Verbo nos pensamentos e pelo dom unificante do Espírito Santo na vontade que ama (Coração Orante, pp. 18-19).

 

As três vias podem ser visualizadas na Santa Missa, onde tomamos consciência e pedimos perdão dos nossos pecados ao início, somos iluminados pela Palavra de Deus, e nos unimos a Cristo pela Eucaristia, que, no momento da transubstanciação, nos convida a uma atitude eminentemente contemplativa (cf. Jo 12,32;19,37).

O Pe. González Arintero ensina que a vida mística do cristão é participação da morte e ressurreição de Cristo:

 

A vida de Jesus Cristo [...] foi um contínuo morrer, isto é, uma morte mística cujo último ato e consumação foi a morte natural. Deste modo, a nova vida que as almas fervorosas devem levar em Jesus Cristo não é outra coisa senão um contínuo morrer a si mesmas; é morrer aos mais leves pecados e mesmo às menores imperfeições; morrer ao mundo e a todas as coisas exteriores; morrer aos sentidos e aos cuidados imoderados do corpo; morrer ao caráter e aos defeitos naturais; morrer à própria vontade, à estima e ao amor de nós mesmos, e até às consolações espirituais; morrer aos apoios e seguranças com respeito ao estado de nossa alma; enfim; é morrer a toda propriedade – ou apego – nas coisas concernentes à santidade. Por estes diversos graus de morte, a vida mística de Jesus Cristo vai se estabelecendo em nós; e quando se tenha dado o último golpe de morte, então Jesus Cristo nos ressuscita, comunicando-nos as qualidades de sua vida gloriosa, enquanto possível neste mundo.

 

(GONZÁLEZ ARINTERO, Juan. Graus da oração e os principais fenômenos que os acompanham. Campinas: Ecclesiae, 2017, p. 16).

 

2. O falso “misticismo”

 

            Na purificação ou via purgativa, há uma primazia da vontade; na iluminação ou via iluminativa, uma primazia da inteligência; e na união ou via unitiva, há uma unidade da inteligência e da vontade, e uma primazia da memória de Deus ou do coração, enquanto afetividade ou amor espiritual do fundo da alma, em sentido bíblico. Os falsos misticismos ou falsas gnoses – que se opõem à verdadeira gnose ou conhecimento de Cristo – se apoiam na distorção da ação voluntária, da especulação racional e dos afetos. 

 

a) Falsa mística intelectualista

 

            Aqui, o maior perigo no presente é o chamado “perenialismo”. Sobre este já falei em 2 ou 3 aulas há 2 anos. Também já escrevi um par de artigos substanciais. Remeto-os a estas coisas, e vou sintetizar aqui. O perenialismo é a ideia de que existe um idêntico núcleo “esotérico” ou “metafísico” ou “místico” nas chamadas “grandes religiões” do Ocidente e do Oriente. Esta ideia é falsa, porque tal núcleo corresponde fundamentalmente à metafísica do panenteísmo, que se opõe à metafísica cristã da criação, sendo um panteísmo e uma gnose muito sofisticados: não proclama uma identidade entre o mundo e Deus nem um dualismo entre Deus e o mundo, mas sua identidade pelo fundo subsistente: assim, o fundo da alma humana ou o “intelecto” seria coincidente com a essência divina “manifesta” (seja o “atman” do bramanismo, seja o “nous” neoplatônico, da cabala, do sufismo ou de certas fórmulas heterodoxas de místicos especulativos cristãos, como Escoto Eriúgena ou Mestre Eckhart). Para o católico que não domina as devidas distinções metafísicas, não é difícil confundir a ordinária Presença Divina no seio do mundo e do espírito, como Causa criadora e conservadora – Presença distinta daquela pela Graça, em que Deus é formalmente conhecido e amado como Senhor e Redentor –, tal como ensinam as Escrituras, os santos e o magistério, e este tipo de presença essencial propalada pelos perenialistas.

            O perenialismo será uma tentação maior para católicos estudiosos e “intelectuais”. Como disse à época, as principais consequências práticas são: 1) o aderente ao perenialismo adere à heresia do panenteísmo (condenada no Concílio Vaticano I); 2) adere ao indiferentismo religioso e nega o dogma da exclusividade da Religião Católica; 3) o perenialismo conduz a um intelectualismo vazio, sem substância espiritual, pois o sujeito crê que o conhecimento informativo ou erudito sobre as religiões e suas metafísicas e símbolos já é suficiente; 4) o perenialista cai facilmente na soberba tipicamente gnóstica, crendo que é um sujeito “superior” aos “profanos”, e até ao magistério infalível da Igreja, por conhecer esse esquema “metafísico” (falso); 5) o perenialista pode ser conduzido à dissolução moral, em consequência da soberba, achando-se acima das exigências da lei natural moral (não pelo cumprimento pleno do amor, mas pela anomia); 6) o perenialismo leva à ignorância da Fé católica, pois a verdadeira teologia mística é substituída pela “metafísica” ou “esoterismo” perenialista, a mistagogia litúrgica é substituída pelo “simbolismo e cosmologia tradicionais” (sic), e a formação catequética básica é muitas vezes preterida pela “formação literária do imaginário” (e a literatura moderna está infestada de romantismo e de sua ontologia... panenteísta!); 7) o perenialismo pode instrumentalizar a política conservadora para suas finalidades.

 

b) Falsa mística voluntarista

 

Não há maior distorção da mística no presente (ou em si mesma) que a mistificação da política. O século XX presenciou a mais profunda perversão espiritual da história: captação da mística pela política. A mística é a experiência espiritual de Deus, o Absoluto. A política é o âmbito mais importante da vida temporal enquanto temporal: trata-se da pessoa humana partilhando a vida de uma comunidade constituída pelo consenso racional em torno de leis. São patamares distintos: por um lado, a transcendência e o mundo do Espírito, por outro, a relatividade do mundo histórico, que não pode absolutizar seus objetivos e práticas; que a política deva estar ordenada ao fim sobrenatural, orientada aqui e agora pela realeza social de Cristo, é uma coisa, mas que ela passe a considerar o fim divino como um objetivo formalmente seu, e os meios políticos como os instrumentos adequados para atingir este fim, é outra bastante diferente. Religião e Política são os 2 pólos ordenadores do universo da experiência humana: a ordem espiritual e a ordem temporal. A perturbação mais grave da ordem natural é a violência espiritual da política que absolutiza a relatividade, de modo extremo na experiência dos totalitarismos comunista e nazista, mas de modo mais sutil (sem violência ostensiva) e quiçá mais perigoso para o espírito – “não temais os que matam o corpo, mas a alma” –, a agressividade moral do liberalismo com sua democracia laicista e relativista, e sua estrutura econômica injusta que permite que a violência do estatismo permaneça à espreita. Obviamente, a tentação aqui é sobretudo a famigerada “teologia da libertação”.

Seguindo aqui a reflexão do Pe. Lima Vaz, trata-se de uma transfusão de antigos motivos gnósticos no projeto titânico de inversão radical do anúncio cristão da Encarnação do Verbo: projeto de autodeificação do ser humano na imanência da sua história. A teologia e a mística deveriam se submeter ao que Hegel denomina “a grandeza do ponto de vista do mundo moderno, esse aprofundamento do sujeito em si, vem a ser, que o finito sabe-se como infinito e está, portanto, enredeado com a oposição que é impelido a dissolver”. O alvo da unio mystica deixa de ser a profundidade insondável do Deus transcendente e é posto na História ou, mais exatamente, na práxis histórica do ser humano, absolutizada como práxis demiúrgica de um mundo onde impera a total autárkeia do ator histórico.

A teoria e prática da modernidade são assim um imenso processo da gênese do homem novo a partir do espírito invertido da mística, num humanismo ateu. O séc. XIX assistiu às mais espetaculares inversões da mística especulativa: o prometeísmo marxiano e o dionisismo nietzcheano. Em termos eclesiásticos, essa transformação ronda o “humanismo integral” maritainiano, está à espreita da “fraternidade universal” montiniana, e se concretiza na TL. Temos que nos cuidar também para que nosso apostolado não nos converta em ativistas ou voluntaristas que se esquecem da vida de oração e do primado do Senhor: “Sem Cristo, nada podemos fazer”; sem oração, tornamo-nos ateus práticos ruins como os piores teólogos libertadores.

 

c) Falsa mística sentimentalista

 

            Não há engano místico mais fácil que as falsas revelações e os falsos dons carismáticos. Porque apelam imediatamente ao emocionalismo muito comum nas pessoas, e porque há uma confusão imensa entre a profundidade da Fé e a intensidade dos afetos sensíveis. A vida espiritual iniciante tem sua ascese (sua penitência e sua mortificação) agraciada com consolos sensíveis e afetivos, mas estes jamais são o motor principal da vida cristã, senão efeitos colaterais do crescimento na Fé, que animam o princípio do compromisso cristão, e que logo são retirados para o avanço espiritual que se fundamenta na confiança em Deus.

O que é um “carisma” autêntico? É um dom extraordinário do Espírito Santo geralmente dado para o bem comum da Igreja:

 

4. [...] Los carismas son reconocidos como una manifestación de «la multiforme gracia de Dios» (1Pe 4, 10). No son, por lo tanto, simples capacidades humanas. Su origen divino se expresa de diferentes maneras: según algunos textos provienen de Dios (cf. Rm 12, 3; 1Co 12, 28; 2Ti 1, 6; 1Pe 4, 10); según Ef 4, 7, provienen de Cristo; según 1Co12, 4-11, del Espíritu. Dado que este pasaje es el más insistente (nombra siete veces al Espíritu), los carismas se presentan generalmente como una «manifestación del Espíritu» (1 Co12, 7)

 

5. En1 Co12, 7 Pablo declara que «en cada uno, el Espíritu se manifiesta para el bien común», porque la mayoría de los dones mencionados por el Apóstol, aunque no todos, tienen directamente una utilidad común. Esta destinación a la edificación de todos ha sido bien entendida, por ejemplo, por San Basilio el Grande, cuando dice: «Y estos dones cada uno los recibe más para los demás que para sí mismo [...]. En la vida ordinaria, es necesario que la fuerza del Espíritu Santo dada a uno se transmita a todos. Quien vive por su cuenta, tal vez puede tener un carisma, pero lo hace inútil conservándolo inactivo, porque lo ha enterrado dentro de sí»[15]. Pablo, sin embargo, no excluye que un carisma pueda ser útil sólo para la persona que lo ha recibido. Tal es el caso de hablar en lenguas, diferente bajo este aspecto, al don de la profecía[16]. Los carismas que tienen utilidad común, sean de palabra («palabra de sabiduría», «palabra de conocimiento», «profecía», «palabra de exhortación») o de acción («ejecución de potencias», «dones del ministerio, de gobierno»), también tienen una utilidad personal, porque su servicio al bien común favorece, en aquellos que los poseen, el progreso en la caridad. Pablo recuerda, a este respecto, que, si falta la caridad, incluso los carismas superiores no ayudan a la persona que los recibe (cf.1 Co13, 1-3). Un pasaje severo del Evangelio de Mateo (Mt7, 22-23) expresa la misma realidad: el ejercicio de los carismas vistosos (profecías, exorcismos, milagros), por desgracia, puede coexistir con la ausencia de una auténtica relación con el Salvador. Como resultado, tanto Pedro como Pablo insisten en la necesidad de orientar todos los carismas a la caridad. Pedro da una regla general: «pongan al servicio de los demás los dones que han recibido, como buenos administradores de la multiforme gracia de Dios» (1 Pe4, 10). Pablo se refiere, en particular, al uso de los carismas en las manifestaciones de la comunidad cristiana y dice, «todo sirva para la edificación común» (1Co14, 26).

 

(Carta Iuvenescit Ecclesia sobre os dons carismáticos e hierárquicos da CDF)

 

            Os carismas não são necessariamente um signo de santidade. Eles são um dom para a santidade: do portador do carisma e dos seus destinatários. Supostos carismas extraordinários não indicam por si que o sujeito carismático está unido a Deus. Fenômenos místicos extraordinários, como revelações ou levitação, que realmente podem ocorrer com grandes santos, tampouco são condições ou manifestações necessárias de uma grande santidade. Os santos místicos nos ensinam a não desejar este tipo de manifestações, que não são meios necessários para chegar à união divina. O desejo de revelações tira a pureza da fé, desenvolve uma curiosidade perigosa, é fonte de ilusões, como diz S. João da Cruz citado por Tanquerey. O grande dom que pode ser aspirado por todos sem risco de soberba é a Caridade.

             A confusão “carismatista” ocorre hoje precisamente no meio da Renovação Carismática Católica (RCC), surgida a partir de um encontro entre católicos e protestantes pentecostais na década de 60 do século passado, e que tem seu foco na ideia do “batismo no Espírito Santo” e no “dom de línguas”. Se o Papa Leão XIII, em sua encíclica Divinum Illud Munus, sobre o Espírito Santo, mencionou que talvez haja cristãos que desconhecem o Divino Paráclito ou que têm do Consolador um conhecimento parco (cf. n. 21), o modo ordinário com o qual a Igreja nos exorta a conhecer melhor o Espírito Santo, contudo, não é através do pedido e recepção de “carismas” especiais, mas sim do reconhecimento de sua inabitação pela Graça santificante em nossas almas, com todas as consequências que isto tem para a nossa vida espiritual (ascética e mística). É na atenção às secretas inspirações e moções do Divino Dom que consiste o conhecimento do Espírito de Amor (cf. Divinum Illud Munus, n. 17), e não no estardalhaço. A propósito, o espetacular e mal-chamado “batismo no Espírito Santo” (sic) dos Apóstolos (cf. At 2, 1-4) e, posteriormente, dos samaritanos (cf. At 8, 5-25), dos gentios (cf. At 10, 44-48) e dos discípulos de João (cf. At 8, 5-25), mais o “dom das línguas”, tinham um peculiar caráter fundacional: era a manifestação do nascimento da Igreja Católica ou universal, primeiramente entre os discípulos diretos e primeiros de Cristo, depois entre os judeus heréticos marginalizados, entre os incircuncisos marginalizado, e entre os judeus fiéis que seguiam a João Batista. O “dom das línguas” reportado – ele não é mencionado no episódio da conversão dos samaritanos – se refere ao falar línguas estrangeiras: é o sinal de que a Igreja existe para recompor o que foi fragmentado em Babel. Como diz Santo Agostinho:

 

Quem em nossos dias, espera que aqueles a quem são impostas as mãos para que recebam o Espírito Santo, devem, portanto, falar em línguas, saiba que esses sinais foram necessários para aquele tempo. Pois eles foram dados com o significado de que o Espírito seria derramado sobre os homens de todas as línguas, para demonstrar que o Evangelho de Deus seria proclamado em todas as línguas existentes sobre a Terra. Portanto o que aconteceu, aconteceu com esse significado e passou" (apud LIMA, Alessandro, O Dom das línguas).

 

            Tal derramamento visível do Espírito Santo é, repito, um evento fundacional, que como o dom das línguas, significa a universalidade da Igreja, a qual abarca potencialmente todos os homens, quer as vertentes do antigo povo de Deus, quer os demais povos da terra representados nos gentios. Também é um signo visível ostensivo do que acontece pelo Batismo sacramental: quando S. Pedro cita as palavras de Nosso Senhor (“João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo”), ele não está distinguindo o Batismo sacramental cristão instituído por Cristo do suposto “batismo no Espírito Santo” (sic), pois isto faria equivaler o Batismo cristão e o de João, mas está distinguindo o batismo de João com água do Batismo cristão com água: apenas o segundo significa o derramamento interior do Espírito Santo, que naquela circunstância fundacional foi excepcionalmente exterior também, para patentear visivelmente o acontecimento sobrenatural espiritual do arrependimento e do dom da Fé (cf. At 11, 15-18). Também o fato de que os apóstolos principais, Pedro, o chefe da Igreja, e João, dirijam-se à Samaria para confirmar o Batismo do diácono Felipe, é um signo tanto da autoridade apostólica quanto de uma solene acolhida oficial dos antigos hereges pela Igreja. Em seu momento fundacional, a Igreja abre as portas do Céu para todos os homens através do Batismo sacramental, e esta realidade espiritual é sinalizado com o portento visível do derramamento do Espírito sobre a estas 4 categorias de homens, que representam a totalidade da humanidade chamada à converter-se a Cristo: os discípulos de Nosso Senhor, os judeus que eram fiéis e também os que não eram, e os gentios que eram pagãos.

Para além do uso indevido da expressão “batismo no Espírito Santo” (sic), qualquer intento de reprodução do derramamento do Espírito daquela circunstância fundacional é um equívoco teológico: o de que a Igreja necessitaria uma sorte de “refundação” (sic). Como diz o Papa Leão XIII:

 

não é absolutamente admissível excogitar-se ou guardar uma segunda, mais ampla e fecunda “aparição ou revelação do Espírito Divino”; a que atualmente se efetua na Igreja é deveras perfeita, e nela permanecerá incessantemente até que a Igreja militante, após o percurso do seu período de lutas, seja transplantada para as alegrias da Igreja triunfante no céu (cf. Divinum Illud Munus, n. 10).

 

E no caso do “dom das línguas” mencionado ao longo do capítulo 14 da Primeira Epístola aos Coríntios? Haveria uma diferença entre “xenolália” (o já mencionado falar em línguas estrangeiras) e “glossolália”, que seria o falar em sons estranhos pelos quais somente o espírito ora, mas não a inteligência (a não ser que haja quem interprete)?

Como meu amigo Alessandro Lima demonstra, na sua obra breve, mas substancial, sobre O Dom de Línguas, o consenso dos Padres interpretou tal dom como xenolália. Santo Tomás mencionou duas possibilidades sobre o dom de 1Cor 14: a xenolália ou ainda a pregação sobre visões ou símbolos. Ele também mostrou que, na história da Igreja, grandes santos pregadores, como Santo Antônio de Pádua, S. Vicente Ferrer, S. Francisco Xavier e S. Francisco Solano, apresentaram o dom de línguas como xenolália.

O bíblico e tradicional dom de línguas não corresponde, portanto, à emissão de sons sem sentido: trata-se de línguas estrangeiras ininteligíveis para quem fala ou ora e para quem escuta sem que haja intérpretes; ou então de visões simbólicas também ininteligíveis à parte do dom da interpretação.

            É preciso reconhecer que, no meio desta crise eclesial, onde há muita confusão e desorientação, a RCC tem seus méritos, de evangelização e de compromisso cristão de seus membros. Isto é evidente. Mas também é preciso dizer que os tem apesar da autocompreensão sobre tais supostos “carismas”, e não por causa deles.

 

 

3. A modo de conclusão: Contemplação e ação 

 

A ação se nutre da contemplação; sem essa, nossas atividades periféricas nos arrastam para a superfície. Mas a contemplação, nesta vida, regressa à ação; inclusive, para que o fruto da contemplação seja mais perdurável em nossas vidas, é muito conveniente que nossa oração tenha sempre resoluções, para que a Palavra se faça “carne” também em nossa ação, tendo em vista que “toda oração contemplativa cristã remete constantemente ao amor do próximo, à ação e à paixão, e, precisamente dessa maneira, aproxima mais a Deus”, como nos diz a Carta sobre a meditação cristã (n. 13), comentando a passagem da Transfiguração.

Devemos ter em consideração, no entanto, que a contemplação não é formalmente um “meio” para agirmos melhor, mas encontro pessoal com Deus (fim último da vida cristã), que transfigura nossa vida, permitindo-nos viver uma liturgia diária, encontrando a Deus em todas as circunstâncias, também nas pessoas a quem dirigimos nossa amizade, ação apostólica e serviço fraterno.

A contemplação nos ajuda a ver o rosto do Senhor naqueles que sofrem, aprendendo a servir-Lhe nestes. O amor incondicional ao próximo, como vivido por Jesus, se torna possível em virtude da contemplação, na qual aprendemos a ver os demais com os olhos de Deus.

A ação se impõe como companheira inseparável da contemplação nesta vida também através da necessidade de romper com o pecado através da conversão, da luta ascética, pois “Quem subirá ao monte do Senhor, quem estará no seu lugar santo?”, senão aquele que “tiver as mãos limpas de culpa e o coração puro” (Sl 24,3-4); são os “puros de coração que veem a Deus” (cf. Mt 5,8). Por isso a via “purgativa” da mortificação, do combate espiritual (que é nossa preparação remota para a vida de oração), é necessária à via “iluminativa” da meditação cheia de afeto e à via “unitiva” da contemplação. 

Precisamos ter sempre em conta a perspectiva da cooperação com a graça (cf. Cl 1,29), realizando nossa parte, sem, entretanto, esquecer-nos de que nossa amorosa entrega é impulsionada pelo próprio Deus, que está ao início e ao término de nossa oração. Reiteramos a unidade entre vida contemplativa e vida ativa, ambas se apoiam mutuamente: nosso trabalho, nosso apostolado, nossa caridade, nosso combate… tudo isso deve ser vivido permeado pelo espírito da oração e da contemplação, que é o mesmo Espírito do Senhor; e ao mesmo tempo, a vida vivida sob o impulso desse Espírito torna o fiel cada vez mais apto para a íntima comunhão com o Senhor.

O recolhimento necessário à contemplação não se limita aos momentos  contemplativos, mas pode perdurar na ação, e através de sua vivência, se pode viver o espírito de contemplação sempre, o qual também é ajudado por pequenos exercícios da presença de Deus, como as jaculatórias, as bênçãos das refeições ou o Angelus.

De outra parte, só pode ser recolhida a pessoa que dá à contemplação seu devido lugar no dia-a-dia. Preciso dedicar, todos os dias, algum tempo à oração interior: necessitamos da solidão, para percebermos a companhia d’Aquele que está “no segredo” (cf. Mt 6,6). E assim, gozando, desde agora, da intimidade do Senhor da Vida, nos preparamos para a eternidade, onde só haverá contemplação, como nos recorda S. Agostinho: “ali festejaremos e contemplaremos, contemplaremos e amaremos, amaremos e louvaremos. Eis o que será no fim sem fim” (A Cidade de Deus, XXII, 30).