27.7.21

A "Igreja mista"

 

A interpretação corretiva que S. Agostinho faz da tese do “corpo bipartido do Senhor”, do donatista Ticônio, é a melhor explicação para a situação da Igreja neste período conciliar. Trata-se da tese da “Igreja mista”, que não fere a visibilidade e a indefectibilidade da Igreja, não cai no erro luterano.

 

Trago aqui o texto de A doutrina cristã, um comentário de Ratzinger a respeito em O novo Povo de Deus, e um trecho de uma homilia de S. Agostinho sobre o Apocalipse que incide no mesmo tema; ademais, trechos do capítulo do livro O fim dos tempos do Pe. Alfredo Sáenz, que comenta a visão do Pe. Leonardo Castellani que corrobora a tese agostiniana, além de trechos do próprio Castellani a respeito, de seu livro El Apocalypsis de San Juan, que explicitam a questão da Mulher e da Prostituta.

 

Atenção!

 

* * *

 

“Segunda regra: ‘O Corpo bipartido do Senhor’

 

45. A segunda regra é: ‘O Corpo do Senhor dividido em duas partes’. Na verdade, Ticônio não deveria ter empregado essa fórmula, pois não é Corpo do Senhor o que não haverá de estar com ele para sempre na eternidade. Mas deveria ter dito: ‘O Corpo do Senhor verdadeiro e o misto’. Ou então: ‘O Corpo do Senhor verdadeiro e o simulado’. Ou outra expressão parecida. Pois não se pode dizer que os hipócritas estarão com ele eternamente, e nem que estejam com ele agora, parecendo estar em sua Igreja. Por isso, essa regra poderia, de preferência, ser intitulada: ‘A Igreja mista’.

 

Essa segunda regra exige leitor atento, já que a Escritura, quando fala a uma parte da Igreja, parece dirigir-lhe palavras que ela dirige a outra; ou bem, passa da primeira à segunda porção enquanto se dirige ainda à primeira, como se ambas as partes constituíssem um só corpo, devido à sua mistura aqui na terra e à sua comum participação dos mesmos sacramentos.

 

A isso se aplica o versículo do Cântico dos cânticos: ‘Sou morena mas formosa, como as tendas de Cedar e os pavilhões de Salomão’ (Ct 1,5). O texto não diz: ‘Eu era morena como as tendas de Cedar, e formosa como os pavilhões de Salomão’. Mas ele une os dois epítetos causa da unidade que, no tempo, constituem os peixes bons e maus dentro de uma só rede (Mt 13,48). As tendas de Cedar, com efeito, designam Ismael que não partilhará a herança com o filho da mulher livre (Gn 21,10; Gl 4,30). É porque quando Deus diz a respeito da boa porção da Igreja: ‘Guiarei os cegos por um caminho que eles não conhecem e fá-los-ei andar por veredas que ignoram; mudarei diante deles as trevas em luz e os caminhos tortuosos em direitos; farei isto em favor deles e não os desampararei’ (Is 42,16.17). Deus apressa-se em acrescentar a respeito da porção má, misturada à boa: ‘Esses voltarão para trás’ (id., ibid.), designando já por essas palavras quais os bons. Mas como as duas porções fazem um só enquanto na terra, parece ser dito para a segunda o que se dizia para a primeira. Contudo, não ficarão para sempre misturados. O mau servidor mencionado no evangelho é a prova formal: ‘Quando seu Senhor vier, ele o separará da porção dos bons e o porá na porção dos hipócritas’ (Mt 24,51)”. 

[Santo Agostinho. Patrística - A doutrina cristã - Vol. 17 (pp. 137-138). Paulus Editora. Edição do Kindle]

 

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Comentário de Ratzinger sobre Ticônio e Agostinho:

 

“Agostinho sustentou – e nisto diverge de Ticônio – que os maus jamais estão unidos ao Cristo e que jamais fazem parte da Igreja. Isto porque a Igreja é somente de Cristo e não também do anticristo. A Igreja é uma só e não há nela duas partes que a dividam. Os maus, na verdade, não fazem parte da Igreja. Eles apenas parecem pertencer a ela. Esta distinção feita entre verdade e aparência já fora feita na ontologia neoplatônica. Para Ticônio, ela resta desconhecida, mas em Agostinho ela salva a unidade do conceito de Igreja e apresenta uma solução para o problema da Igreja dos pecadores, que é inteiramente diversa daquela que Ticônio quisera ver.

 

Temos, pois, agora uma ideia mais precisa sobre o problema que nos propusemos analisar, isto é, entendemos melhor agora o que Ticônio pensava a respeito de sua própria justificação como homem extra communiones. É evidente que a salvação de Cristo, segundo essa visão de Ticônio, não está, em primeiro lugar, baseada nas instituições visíveis da Igreja. Mas, por outro lado, Ticônio diz explicitamente que o culto visível da Igreja tanto pode ser um culto prestado ao Cristo como também culto prestado ao demônio, dependendo sempre do espírito com que é feito.

 

Aqui se vê como vai crescendo a ideia de que é possível pertencer a uma Igreja puramente espiritual. Isto, aliás, é consequência lógica da teoria de Ticônio a respeito do corpus bipertitum. Justamente essa doutrina nega praticamente toda validade e toda eficiência da instituição eclesiástica externa. Podemos tentar explicar algo mais. Ticônio ensina que os justos alcançaram a sua salvação não por meio da lei e sim pelos caminhos contrários à lei. Alcançaram salvação mediante a ruptura com a lei e porque foram contra a ostentação da Igreja do seu tempo. Ticônio vê perfeitamente que a dialética de lex e gratia ainda continua no Novo Testamento. Se houve outra pessoa que defendesse essa ideia, não podemos afirmar”. 

[RATZINGER, Joseph. O novo Povo de Deus. São Paulo: Molokai, 2017, pp. 34-35]

 

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Das homilias de S. Agostinho sobre o Apocalipse:

 

“1. Na lição recitada ouvimos que naquela hora sobreveio um grande tremor de terra.

 

Nele reconhece-se a perseguição que o diabo costuma levantar, servindo-se dos homens maus.

 

E a décima parte da cidade caiu, e foram mortos no tremor de terra sete mil homens. O número dez e o número sete são números exatos. Se assim não fosse devia tomar-se o todo pela parte.

 

2. Há na Igreja dois edifícios, um construído sobre a pedra, outro construído sobre a areia. O que está construído sobre a areia diz-se que caiu.

 

E os restantes (foram tomados de terror e) deram glória a Deus.

 

Deram glória a Deus os que estavam edificados sobre a pedra, e não foi possível caírem com os que estavam edificados sobre a areia. Contudo disse: Foram tomados de terror, porque o justo, ao notar a ruína do pecador, mais se afervora na observância dos preceitos, segundo o que se diz: Lavará as mãos no sangue do pecador (Salmo LXXXVII, II)”. 

[SANTO AGOSTINHO. Apocalipse de S. João comentado: Vitória final de Cristo. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1960, p. 161]

 

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Pe. Alfredo Sáenz sobre a exegese do Pe. Castellani sobre o Apocalipse:

 

“Com o advento do Protestantismo se produziu uma estranha variação na exegese do Anticristo. Lutero aplicou a terrível etiqueta esjatológica ao Papado, acreditando ver no Papa a Grande Meretriz de que fala o Apocalipse. Isto sobre a base de que a Igreja pode corromper-se, e de fato se corromperá nos últimos dias, tese muito delicada, e que deve entender-se com cautela em atenção à indefectibilidade que Cristo lhe prometeu, o que não fez Lutero, interpretando, por isso, dita tese de forma herética”. [SÁENZ, Alfredo. O fim dos tempos e sete autores modernos. Carta de Apresentação do Cardeal Ratzinger. Rio de Janeiro: CDB, 2019, p. 393]

 

Alguns autores têm pensado que o katéjon seria a mesma Igreja, cuja presença constituiria o último obstáculo para a manifestação do Anticristo. Assim opina São Justino, o primeiro comentador do Apocalipse, segundo o qual ‘Ecclesia de médio fiet’, a Igreja será retirada do meio. A interpretação é um tanto ousada. É claro que não se pode entender como se se tratasse de uma extinção da mesma Igreja, mas tão somente de uma grave decadência. Sua estrutura temporal será arrasada; ‘fornicará com os reis da terra’ (Ap 17,2), ao menos uma parte ostensiva dela, e a abominação da desolação entrará no lugar santo: ‘Quanto vejas a desolação abominável entrar onde não deve, então já é’ (Mt 24, 15). Também São Vitorino aplicou o katéjon à Igreja – ‘a Igreja será retirada’, diz –, mas no sentido de que voltará à obscuridade, às catacumbas, perdendo todo o influxo na ordem social.

 

Em sua novela João XXIII (XXIV) escreve [o Pe. Leonardo] Castellani que ‘Igreja’ se diz em três sentidos: ‘Há a Igreja que é o projeto de Deus e o ideal do homem, e se inicia no céu, a ‘Esposa’, a qual São Paulo chama ‘sem mancha’, uma; há a Igreja terrena, onde está o trigo e o joio misturados para sempre [sic] [nota: creio que se deve entender ‘até o fim dos tempos’], mas se pode chamar ‘santa’ por sua união com a de cima pela graça, duas; e há a Igreja que vê o mundo, ‘o Vaticano’, que trata com o mundo; que está talvez mais unida com o mundo que outra coisa, e que desacredita o todo’”. [Ibid., pp. 397-7]

 

“Em realidade o Anticristo não se apresentará como um personagem sinistro, a perversidade encarnada. Será, por certo, demoníaco, mas não parecerá tal, ao contrário, fará ostentação de humanitarismo e de humanismo; se fingirá virtuoso, ainda que de fato seja cruel, soberbo e mentiroso [...] Porque o Anticristo não se contentará em negar o Cristo como Deus e Redentor, mas se erigirá em seu lugar, qual verdadeiro Salvador da humanidade. Tratará inclusive de se parecer a Cristo o mais que possa. Será o ‘símio de Deus’, o macaco de Cristo. Encarnará a hipocrisia substancial dos fariseus do século I, que não só eram tidos como santos, mas cridos por si mesmos como tais. Juntará presumidas ‘virtudes’ e um imenso orgulho”. [Ibid., pp. 399]

 

“Como pensa nosso autor [Pe. Castellani], o principal trabalho a ser levado a cabo por esta Segunda Besta [o Falso Profeta] será a adulteração da religião. As Duas Bestas representam assim o poder político, a primeira, e o instinto religioso do homem, a segunda, ambos voltados contra Deus. Afirma-o de maneira terminante: ‘Quando a estrutura temporal da Igreja perca a efusão do Espírito e a religião adulterada se converta na Grande Meretriz, então aparecerá o Homem de Pecado e o Falso Profeta, um Rei do Universo que será ao mesmo tempo como um Sumo Pontífice do Orbe, ou então terá à suas ordens um falso Pontífice, chamado nas profecias o ‘Pseudo-profeta’. Não que a Igreja perderá a fé, mas se verá gravemente afetada. Todas as energias do demônio estarão concentradas em perverter o que é especificamente religioso. Não lhe interessará matar, mas ‘corromper, envenenar, falsificar’”. [Ibid., pp. 408-9]

 

“[...] Castellani se esmera por deixar claro que a corrupção da Igreja não será total. A isso tenderá sem dúvida a intenção do Pseudoprofeta. Logrará, sim, que o Átrio e as Naves sejam infringidos. Mas o Tabernáculo ou Sanctorum será preservado.

 

Como se concretizará esta adulteração do cristianismo? Da maneira que antes assinalamos, ou seja, consentido a Igreja, ela também – em seu setor adúltero, entenda-se –, às três tentações do deserto que em seu momento Cristo soube rejeitar. Uma Igreja afundada no temporal, polarizada nisso, na aquisição dos bens terrenos, na distribuição abundante de pão. Eis aqui a primeira tentação. Uma Igreja em busca de renome, que emprega seus poderes religiosos para alcançar prestígio e ascendência, que substitui a contemplação pela agitação burocrática. Tal a segunda tentação. E a terceira: uma Igreja ao serviço dos que são poderosos, buscando o reino deste mundo, com os meios mais eficazes, que são hoje os satânicos. A acusação de Dostoiévski acerta, agora sim, no alvo.

 

A este ‘naturalismo religioso’ ou ‘aloguismo’ Castellani o sintetiza assim: ‘É o ideal do Acréscimo antes do Reino, ou o Acréscimo sem o Reino, o Reino Milenário desde já e sem Cristo, quer dizer, o cristianismo expurgado da cruz de Cristo e de sua Segunda vinda’.

 

A parte corrupta da Igreja posta a serviço do Anticristo. Eis aí o grande logro da Primeira Besta. O pseudoprofeta será o que ‘atue’, isto é, ‘ritualize’ o projeto do Anticristo, o que leva a cabo sua ‘propaganda sacerdotal’ [...]

 

[...] Bem escreve Castellani: ‘O mundo quer unir-se e atualmente não o pode conseguir senão em uma religião falsa. Ou bem as nações se desdobram em si mesmas em nacionalismos hostis, ou bem se reúnem nefastamente sob a bandeira de uma religião nova, um cristianismo falsificado; o qual naturalmente odiará à morte o autêntico. Só a religião pode criar vínculos supranacionais’. A unificação do mundo se realizará pelo terror e pela mentira, pelo terror político  e pela mentira da falsa religião, ou de um cristianismo falsificado”. [Ibid., pp. 413-4]

 

* * *

 

“Las Dos Mujeres del Apokalypsis representan la religión en sus dos polos extremos, la religión corrompida y la religión fiel, la Forneguera sobre la Bestia roja y la Parturienta vestida del sol de la Fe, pisando la luna del mundo mudable, y coronada de la venticuatral diadema estelar patriarcal y apostólica.

 

Estos dos aspectos de la religión son perfectamente distinguibles para Dios, pero no siempre para nosotros. La cizaña se parece al trigo y no será separada hasta la Siega. [...]

 

Debemos apañamos del mal, pero no podemos juzgar al malhechor. El juicio pertenece a Dios.

 

Una prostituida no se distingue ni en la naturaleza ni en la forma de una mujer honesta. Sigue siendo mujer, no se vuelve bestia. Está sentada sobre la bestia.

Eso es lo que significa también el Pseudo-profeta de la Visión Oncena. Está al servicio del Anticristo, pero se parece al Cristo. ‘Hablaba como el Dragón, pero tenía dos cuernos semejantes al Cordero’.

 

Cuando vino Cristo eran tiempos confusos y tristes. La religión estaba pervertida en sus jefes y consecuentemente en parte del pueblo. ‘Haced todo lo que os dijeren pero no hagáis conforme a sus obras”. Cristo no abandonó la Sinagoga por eso, sino que se hizo matar por purificarla. De su corazón abierto nació la Iglesia, que primordialmente fue judía.

 

Cuando Cristo vuelva la situación será parecida. Solamente el fariseísmo, el pecado contra el Espíritu Santo, es capaz de producir esa magna apostasía que Él predijo: ‘la mayor tribulación desde el Diluvio acá’, será producida por la peor corrupción, la corrupción de lo óptimo. El dolor sólo remediable por Dios en persona es el producido por la corrupción irremediable, ‘la sal que pierde su salinez’.

 

Por eso San Juan vio en la frente de la Ramera la palabra misterio, y dice que se asombró sobremanera, y el Ángel le dice: ‘Ven, y te explicaré el misterio de la Bestia’. Es el Misterio de Iniquidad, la ‘abominación de la desolación’; la parte camal de la Iglesia ocultando, adulterando y aun persiguiendo la verdad. Sinagoga Satanae.

 

Por eso la parte fiel de la Iglesia padecerá entonces ‘dolores como de parto’, y el Dragón estará a punto de tragar a su hijo, que sólo se salvará por milagro, y ella se salvará solamente huyendo a la soledad con dos alas de águila, y aun allí la perseguirá la riada de agua sucia y torrentosa que el Dragón lanzará contra ella... la nueva Esposa pura y sin mácula, inmaculadamente concebida de nuevo.

 

La Esposa comete adulterio... cuando su legítimo Señor y Esposo Cristo no es ya su alma y su todo; cuando los gozos de su casa no son ya toda su vida; cuando codicia lo transitorio del mundo en sus diversas manifestaciones; cuando mira sus grandezas, riquezas y honores con ojos golosos; cuando -como Israel un día- busca la alianza de un poder terreno contra la amenaza de otro poder terreno, cuando los teme demasiado; cuando reconoce al mundo como una realidad ‘muy ponderable’ y lo mira como una potencia cuya ira procura evitar a cualquier costo, cuyo agrado y benevolencia solicita, con cuya ‘sabidría’, educación, ciencia, cultura, política, diplomacia está encantada [...]

 

[Nota: não é teologicamente exato dizer que a “Esposa” comete adultério, mas é a parte infiel do Corpo Místico de Cristo que comete; tampouco ela é “concebida de novo”, senão que o Corpo Místico de Cristo, volta a ser fiel, íntegro, conforme a Alma Esposa, isto é, os infiéis são afastados; penso que se deve entender a intenção didática da explicação de Castellani, até porque ele adiante afirma que o Magistério infalível da Igreja brilhará; toda esta crise final terrível não implica a defectibilidade da Igreja, nem perverte o ensinamento ex cathedra]

 

‘Fornicación’ llaman los profetas a la idolatría. ‘Fornicar con los ídolos’ significa poner los ídolos en lugar de Dios, el legítimo esposo de nuestras mentes. ‘Fornicar con los reyes de la tierra’ significa poner a los poderes de este mundo en el lugar de Dios.

 

Primero se fornica con el corazón desfalleciendo en la fe; después en los hechos, faltando a la caridad.

 

El error fundamental de nuestra práctica actual -y aun de la teoría a veces- es que amalgamamos el Reino y el Mundo, lo cual es exactamente lo que la Biblia llama ‘prostitución’ [...]

 

Dios mantendrá sus promesas acerca de la infalibilidad de la doctrina en el Magisterio Supremo; aun cuando todo parezca anochecido, brillará esa luz.

 

En los últimos días, el residuo de cristianos fieles y su jefe serán visibles. ¡Y tanto! Serán explosivamente visibles, a causa mismo de la furiosa persecución contra ellos; aunque no serán visibles para los perseguidores, que estarán -conforme está dicho a la Iglesia de Laodicea- ‘ciegos’”.

 

[CASTELLANI, Leonardo. "Las Dos Mujeres”, Capítulo I del Cuaderno III de Los Papeles de Benjamín Benavides. Apud Id., El Apocalypsis de San Juan. Buenos Aires: Vortice, 2005, pp. 209-11]


"A Prostituta do Apocalipse" (c. 1570), de Martial Courtois

20.7.21

As virtudes (Pieper) - 4a parte: Temperança

Resumo do capítulo de: PIEPER, Josef. Las virtudes fundamentais. 9a ed. Madrid: Rialp, 2007, pp. 216-17.


Temperança e realização pessoal

 

  • Primeiro efeito da temperança: “tranquilidade do espírito” (S. Tomás)
  • Sentido: fazer ordem no interior do homem, da qual brota a tranquilidade do espírito.
  • Temperança: realizar a ordem no próprio eu.
  • O que a distingue das demais virtudes: tem sua verificação e opera exclusivamente sobre o sujeito atuante.
  • A temperança reverte sobre o que a exercita, o homem enfoca a si mesmo e sua situação interior.
  • Duas formas de preocupação por si mesmo: uma desprendida, outra, egoísta. A primeira garante a autoconservação, a segunda, destrói.
  • Temperança: autoconservação desprendida x degeneração egoísta das energias destinadas à autoconservação.
  • Misterioso: o fato de que a ordem interior do homem não se dê espontaneamente
  • As mesmas forças que alimentam a existência humana podem perverter a ordem interior, até a destruição da pessoa moral
  • Esse fenômeno é explicável somente pela Revelação do pecado original; a não ser que fizéssemos a ilusão de que essa desordem interior não existe.
  • Quando dizemos que os sentidos dominaram a razão fazemos uma metáfora: é o próprio sujeito o responsável do moral e do imoral, o que edifica o próprio eu ou o destrói: “Eu faço o mal que não quero” (Rm 7,19)
  • Como é possível chegar pelo desprendimento ao verdadeiro “amor de si mesmo”?
  • Para Tomás, está de acordo com a própria essência do homem que este ame a Deus mais do que a si mesmo.
  • O poder destrutor que acompanha a violação desta norma está em que semelhante desordem se opõe ao ser e ao destino do homem.
  • Quando este se ama por cima de tudo, falha seu ordenamento e fracassa a realização do sentido inerente ao reto amor de si mesmo, pelo qual se realiza a essência em sua plenitude.
  • “Temperança do avaro”: evita a imoralidade pelos gastos que acarreta.
  • A temperança é o hábito que realiza a ordem interior do homem, com absoluta ausência de egoísmo.
  • A temperança guarda o ser defendendo- contra si mesmo, opõe-se a toda perversão da ordem interior, graças à qual subsiste e opera a pessoa moral
  • A tendência natural ao prazer sensível que se obtém na comida, na bebida e no deleite sexual é a forma de manifestar-se e o reflexo das forças naturais mais potentes que atuam na conservação do homem
  • Estas energias vitais, que se puseram no ser para conservar no indivíduo e na espécie a natureza (cf. Sb 1,14), dão as três formas originais do prazer.
  • Como estas potências representam a atividade irrefreável constitutiva do que é vida, ultrapassam as demais energias na capacidade destruidora quando se desordenam
  • Por isso se localiza aqui a função mais específica da temperança: abstinência e castidade, por uma parte, a falta de sobriedade nos deleites do gosto e luxúria, por outra, são as duas formas originárias da temperança ou da ausência dela
  • O instinto de domínio, a inclinação a fazer-se valer ante os demais, podem servir à verificação do eu em sua versão da humildade, e podem equivocar seu destino e fracassar, quando se convertem em soberba
  • Quando a exigência natural do homem de vingar uma injustiça ou de recuperar o próprio direito lesionado desemboca em desatada cólera está sendo destruído o que deveria ser edificado o que deveria edificar-se à base de mansidão e doçura.
  • Inclusive a natural avidez  de comunicar-se e espraiar-se no mundo sensível ou a ânsia de conhecer  podem degenerar, se o homem não se ajuda da temperança, em ansiedade devoradora ou em mania patológica. Santo Tomás chama a esta depravação “curiosidade” e à temperança que a modera “estudiosidade”
  • Resumindo: castidade, sobriedade, humildade e mansidão, junto com a estudiosidade, são formas da temperança; luxúria, desenfreio, soberba e uma cólera irracional, junto com a curiosidade, são formas da destemperança.
  • Estas partes da temperança estão desprestigiadas porque a imagem do homem foi falseada; a temperança diz respeito à ordem na essência do homem, que compendia em si todos os graus de ser existentes na criação; a temperança dependerá da postura adotada frente à criação.

 

 Sexualidade e castidade

 

  • A castidade é vista com estranheza: o sexual está no centro da atenção, dissolvendo com isso a consciência moral; o maniqueísmo que detesta a procriação humana como algo “sujo” e “inferior à dignidade humana”; e a supervalorização da casusística, que invade um terreno onde menos tem direito a entrar.
  • Para S. Tomás o sexo não é um mal necessário, mas um bem: dar curso ao apetite natural que brota do instinto sexual, e gozar do prazer que isso leva consigo, não tem em si nada de pecaminoso, se realizado segundo a ordem e a medida que corresponde: em virtude desta, o sexo é um bem excelso.
  • Os três bens do matrimônio segundo Tomás são a comunidade de amor e de vida, os filhos e a sacramentalidade; para ele, união de duas vidas em comunidade irrompível pelo amor de amizade, é, dentro do matrimônio, o bem que brota da essência mesma do homem, que está contido no matrimônio por ser união de duas pessoas. 
  • Quanto mais importante é uma coisa, tanto mais há de seguir-se nela a ordem da razão; a tendência sexual, bem tão elevado e necessário, necessita a salvaguarda e a defesa por meio da ordem da razão: a castidade é a virtude pela qual se verifica a ordem da razão no sexual, e a luxúria o vício que desvia a função sexual (ordem da razão: nem idealista, nem racionalista, nem iluminista ou espiritualista, mas realista e aberta à Fé)
  • A virtude que mais é danificada pelas faltas de moderação é a prudência; e em quase todos os casos em que tal situação se apresenta estão provocados pela luxúria.
  • A luxúria dá lugar a uma cegueira do espírito que incapacita a ver os bens do espírito; ela tira a força de vontade.
  • A virtude da castidade, mais que nenhuma, capacita e dispõe o homem para a contemplação.
  • Não morre a alma porque algo lhe falta, mas porque algo positivamente a envenena; a luxúria não mata por um efeito retardado, mas leva a destruição em si mesma
  • A luxúria destrói a fidelidade do homem a si mesmo; a alma se abandona, se entrega desarmada ao mundo sensível, paralisa e aniquila mais tarde a capacidade da pessoa moral, que já não é capaz de escutar silencioso a chamada da realidade, nem de reunir serenamente os dados necessários para adotar a postura justa em uma determinada circunstância
  • A cegueira que produz a luxúria não provêm de uma entrega ao sensível ou sexual (maniqueísmo); o destrutivo desse pecado vem de que por ele o homem se fez parcial, se insensibilizou para perceber a totalidade do que realmente é.
  • O homem não casto quer, mas de forma referida imediata e exclusivamente a si mesmo; sempre se acha distraído por um interesse ilusório, que não é real; a obsessão de gozar, que o tem sempre ocupado, o impede de se aproximar da realidade serenamente e o priva do autêntico conhecimento.
  • A forma de buscar o próprio interesse na luxúria leva sobre si a maldição de um egoísmo estéril; o abandonar-se ao mundo sensual não tem a ver com a autêntica entrega à realidade total do mundo buscando o verdadeiro conhecimento, nem com a entrega do amante à amada.
  • Uma entrega limpa não conhece preços nem entende de recompensas.
  • A essência da luxúria é o egoísmo.
  • A temperança não é, em si, a realização do bem; ela cria os pressupostos necessários para a realização no homem do bem propriamente dito, enquanto mantém e defende a ordem dentro do sujeito

 

Sentido do jejum

 

  • A alegria do coração é algo que a Igreja costuma relacionar, com especial predileção, como jejum e abstinência, formas primeiras de toda ascética: “Quando jejueis, não pareçais tristes...” (Mt 6,16)
  • Segundo S. Tomás, jejuar é um imperativo da lei natural, da moral; é um preceito de direito natural primário.
  • Como preceito eclesiástico positivo ocorre no tempo e na forma estabelecidas.
  • O cristão médio, os que não estamos maduros para a santidade, não seríamos capazes de manter em nós mesmos a ordem se o jejum não nos ajudasse
  • Com o jejum podemos rechaçar as incursões hostis da sensualidade e liberar o espírito para que se eleve a regiões mais altas onde pode encher-se com os valores que lhe são próprios
  • O dever de jejuar, oriundo da própria natureza, recebe um sentido mais elevado e novas motivações pela fé em Cristo e por amor sobrenatural a Deus; aqui há um aperfeiçoamento da natureza pela Graça
  • Na Quaresma, o coração se prepara para estar livre e perfeitamente ordenado para participar da sublime realidade dos mistérios da redenção e da páscoa.
  • A alegria do coração é o agradável fruto do esquecimento de si mesmo; é um sinal infalível da autenticidade de uma temperança que sabe, sem egoísmos, conservar e defender o verdadeiro ser da pessoa.

Temperança como senhorio sobre a dor

 

  • O sentido do tato informa o órgão da dor.
  • Um domínio do espírito sobre o prazer proporcionado pelo tato quer dizer também domínio sobre a dor.
  • O significado da palavra “disciplina”, segundo Ernst Jünger (Sobre el dolor) é manter a vida em contado ininterrupto com a dor e dessa forma tê-la [ter a vida] sempre a ponto “para ser empregada em um momento dado segundo o sentido de uma ordem superior”.
  • Esse conceito parece frio comparado com a alegria da temperança cristã. Contudo, por trás da alegria do coração, que provém de uma criação pessoa em ordem, há também uma atitude severa, com um semblante marcado pela decisão sempre em ato de sacrificar tudo que é criado por amor ao Criador.
  • Ainda que este sacrifício vá iluminado pela alegria de uma aceitação voluntária, que supera infinitamente a qualquer alegria superficial.

 

Humildade e soberba

 

  • O homem, por instinto natural, tem a tendência a sobressair, a demonstrar superioridade
  • A temperança aplicada a esse instinto para submetê-lo aos ditames da razão se chama humildade: esta consiste em que o homem se tenha pelo que realmente é.
  • A humildade não tem a ver com a atitude de autorreprovação, com a autodepreciação do próprio ser e dos próprios méritos ou com uma consciência de inferioridade.
  • A verdadeira humildade não é contrária à magnanimidade, é sua irmã gêmea e companheira, ambas são igualmente distantes da soberba e da pusilanimidade
  • Magnanimidade é o impulso que o espírito voluntariamente se impõe de tender ao sublime; magnânimo é aquele que se crê chamado ou capaz de aspirar ao extraordinário e se faz digno disso, dedica-se unicamente ao grande, tem uma sensibilidade desperta para ver onde está a honra
  • O magnânimo não muda por uma desonra injusta; considera-a simplesmente indigna de sua atenção
  • Nunca considera que exista alguém tão alto que seja merecedor de que, por admiração a ele, cometa-se algo desonesto
  • Características do magnânimo são a sinceridade e a honradez; não cala a verdade por medo; evita, como a peste, a adulação e as posturas retorcidas; não se queixa, pois seu coração não permite que seja assediado por um mal externo qualquer.
  • O magnânimo tem uma inquebrável esperança, uma confiança quase provocativa e a calma perfeita de um coração sem medo.
  • Não se deixa render pela confusão quando esta ronda o espírito, nem se escraviza ante ninguém, e sobretudo não se dobra ante o destino: unicamente é servo de Deus.
  • A soberba não é primariamente uma forma de portar-se com os demais; é sobretudo uma postura ante Deus, a negação da relação criatura-Criador; o soberbo nega a dependência de Deus como criatura.
  • Todos os pecados são fuga de Deus; a soberba é o único que o enfrenta (João Cassiano); os soberbos são os únicos pecadores a quem Deus não suporta (Tg 4,6)
  • Tampouco a humildade é primariamente uma forma de relacionar-se com os demais, mas uma forma determinada de estar na presença de Deus: a afirmação da criaturalidade, a submissão do homem a Deus


Ira justa e Mansidão

 

  • Indignar-se não é necessariamente uma falta de domínio, algo cego e negativo; a ira também pertence às potências constitutivas e construtoras do ser humano
  • Na capacidade de irritar-se é onde melhor se manifesta a energia da natureza humana; a ira vai dirigida a objetivos difíceis de alcançar, àquilo que resiste aos intentos fáceis, é a energia necessária para conquistar um bem que não se rende
  • A ira é boa quando se lança mão dela, segundo a ordem da razão, para que sirva ao fim do homem
  • É má e inclusive um pecado, a ira desmedida que transtorna a ordem da razão: as explosões de indignação e o desejo de vingança manifestam uma ira viciosa
  • O que a ira destemperada não consegue, pode obter a mansidão e a doçura (a doçura é a mansidão exercida com os demais)
  • A mansidão faz o homem dono de si mesmo; não é debilitar a força da potência irascível (como castidade não é destruir a potência sexual), mas pressupõe a paixão da ira, significa moderar essa potência

Incontinência do espírito

 

  • A ânsia de conhecer, enquanto potência originária do ser humano, necessita uma sabedoria que a mantenha em ordem, para que o homem não tenda ao conhecimento de forma desordenada
  • A verdadeira destemperança no anseio cognoscitivo provêm da “concupiscência dos olhos”
  • Existe um modo de ver que perverte o sentido primitivo da potência visual e introduz a desordem em todo o homem
  • A finalidade do ver é perceber a realidade; a concupiscência dos olhos faz que miremos, mas não precisamente para ver o real
  • S. Agostinho diz que a gula não tem interesse em que sua vítima se sacie, mas puramente que coma e goste; é o que acontece com a “curiosidade”, com a concupiscência dos olhos
  • S. Tomás: curiosidade é uma “inquietude errante do espírito”, incluída da dissipação do ânimo, primogênita da acídia
  • A estudiosidade: o homem se opõe com todas as forças de seu instinto de conservação à fatal tentação de dilapidar-se; fecha o santuário de sua vida interior às vaidades da vista e do ouvido, para voltar a uma ascética e conservar aquilo que constitui a verdadeira vida do homem: perceber outra vez a Deus e sua criação


"Temperança" (1335-9), de Giovanni di Balduccio

19.7.21

As virtudes (Pieper) - 3a parte: Fortaleza

Resumo do capítulo de: PIEPER, Josef. Las virtudes fundamentais. 9a ed. Madrid: Rialp, 2007, pp. 173-216.


 Introdução

 

  • As interpretações falsas ou defeituosas da realidade conduzem necessariamente ao estabelecimento de fins falsos e ideais inautênticos.
  • O fundamento real, sem o qual nem a fortaleza nem a temperança poderiam ser concebidas é a existência da iniquidade: do mal humano e do mal diabólico, da culpa e do castigo, do mal que fazemos e que padecemos.

 

 Disposto a cair

 

  • A fortaleza supõe a vulnerabilidade; ser forte ou valente significa poder receber uma ferida
  • Ferida: toda agressão contrária à vontade, que possa sofrer a integridade natural, toda lesão do ser que descansa em si mesmo, tudo que inquieta e oprime
  • A mais grave e profunda de todas as feridas é a morte (as feridas não mortais são imagens da morte)
  • A fortaleza está sempre referida à morte, à que sempre mira face a face; ser forte/corajoso é estar disposto a morrer
  • Uma fortaleza que não esteja radicada nessa disposição a cair não é autêntica e eficaz
  • A disposição se manifesta no risco da ação
  • O ato próprio e supremo da virtude da fortaleza, a sua plenitude, é o martírio; a disposição para o martírio é a raiz essencial da fortaleza cristã
  • O pequeno burguês estima que a verdade e o bem “se impõem” “por si mesmos” sem que a pessoa tenha que se expor; esta opinião é como o entusiasmo barato que elogia a “alegre disposição para o martírio” (p. 185)
  • Receber a ferida não constitui a essência completa da fortaleza; o forte não recebe esta ferida por sua própria vontade, mas a recebe para conservar ou ganhar uma integridade mais essencial e mais profunda

 

 A fortaleza não deve fiar de si mesma

 

  • O que é valente sabe o que é o bem e é valente por sua expressa vontade de bem. Pelo bem se expõe ao perigo de morrer.
  • Não é o perigo que a fortaleza busca, mas a realização do bem da razão; suportar a morte não é louvável em si, mas só na medida em que se ordena ao bem.
  • A fortaleza é fortaleza na medida em que é “informada” pela prudência (“instruída”, “recebe a forma intrínseca”).
  • A virtude da fortaleza não tem a ver com uma impetuosidade cega e puramente vital.
  • O que se expõe a toda sorte de perigo de modo impremeditado e indiferente está a dizer que qualquer coisa é mais valiosa que sua integridade pessoal
  • A essência da fortaleza não é expor-se a qualquer risco, mas entregar-se de modo razoável ao verdadeiro valor do real; a autêntica fortaleza supõe uma valoração justa das coisas, tanto das que se arrisca como das que se espera proteger ou ganhar.
  • O bem do homem é a realização de si conforme a razão; o bem da razão vem da prudência; a justiça quer realizar este bem; a fortaleza e a temperança conservam este bem (com primazia da fortaleza).
  • A fortaleza não é a primordial realização do bem: sua missão é proteger ou abrir passagem a esta realização.
  • Sem a “coisa justa” não há fortaleza: a coisa é o que decide, e não o dano que se possa sofrer.

 

 Resistir e atacar

 

  • Ser forte não é o mesmo que não ter medo; a fortaleza é incompatível com a impavidez que descansa em uma estimação errônea da realidade.
  • O corajoso nem ama a morte nem despreza a vida
  • A fortaleza supõe o medo do homem ao mal; sua essência é o não deixar que o medo a force ao mal ou a impeça de realizar o bem
  • Não há fortaleza no otimismo instintivo ou na confiança nas próprias forças
  • A fortaleza acontece quando o heroísmo natural se paralisa e o mal é enfrentado por amor do bem ou amor de Deus
  • Valente é o que não deixa que o medo aos males perecíveis e penúltimos o faça abandonar os bens últimos e autênticos
  • Só o que realiza o bem, fazendo frente ao dano e ao espantoso, é valente
  • Duas modalidades de fazer frente ao espantoso: a resistência e o ataque.
  • O ato mais próprio é resistir, que implica energia, perseverança no bem; só deste valente coração brota a energia para sofrer o ultraje da ferida e da morte
  • “Paciente é não o que não foge do mal, mas o que não se deixa arrastar por sua presença a um desordenado estado de tristeza” (S. Tomás)
  • Ser paciente: não permitir que a serenidade nem a clarividência da alma sejam roubadas pelas feridas recebidas
  • A paciência não é compatível com a tristeza e a desordem do coração (que faz nosso espírito ser quebrantado e perder sua grandeza), das quais nos protege.
  • O corajoso é paciente, mas a paciência não esgota a fortaleza
  • O valente não só sabe suportar sem desordem interior o mal quando é inevitável, senão que tampouco se recata de atacar com agressividade sobre ele e desviá-lo quando pode ter sentido fazê-lo
  • Nestas ocasiões tem lugar o ataque: a animosidade, a confiança em si mesmo e a esperança na vitória, que supõe a ajuda de Deus
  • O valente usa a ira no exercício de seu próprio ato, sobretudo o atacar; atacar o mal é próprio da ira, que coopera com a fortaleza
  • O mais próprio da fortaleza é a resistência e a paciência; o mundo real é de tal forma que só o caso de extrema gravidade exige a mais profunda força anímica do homem.
  • A mais extrema força do bem se revela na impotência

 

 As três fortalezas: vital, moral e mística

 

  • A virtude da fortaleza mantém o homem a salvo do perigo de amar tanto sua vida que termine perdendo-a
  • “O que ama sua vida termina por perdê-la”: vale para todas as ordens do ser (a pré-moral da saúde psíquica, a moral e a sobrenatural)
  • A falta de coragem para enfrentar as injúrias e para consumar a entrega de si está entra as mais profundas causas de enfermidade psíquica
  • O “egocentrismo” é o denominador comum às diversas neuroses, dominado pela angústia, uma vontade de segurança que se fecha em si mesma, que nem por um só instante cessa de ser o centro da própria mirada (amor próprio)
  • Na esfera do vital, esta fortaleza depende do poder da fortaleza moral.
  • A fortaleza moral é o fundamento da fortaleza espiritual do homem e do cristão, cujo florescimento se dá no terreno de uma valentia enraizada no vital
  • A fortaleza espiritual se desdobra em 3 graus: a fortaleza “política” da vida em comum ordinária e cotidiana; a fortaleza purificadora (fortitudo purgatoria), que cumpre de maneira mais nobre a imagem divina; a fortaleza do espírito purificado (fortitude purgati animi), dos altos cumes da santidade
  • Fortitudo purgatória: dá força à alma para enfrentar a “noite escura” dos sentidos e do espírito
  • “Virtude heroica” (desenvolvimento dos dons do Espírito Santo): fundamento é a fortaleza, “a” virtude heroica
  • Fortaleza e Esperança: uma morte sem esperança é a coisa mais terrível e difícil
  • Não é a ferida o que faz o mártir, mas a conformidade de sua ação à verdade de que há a Vida Eterna

 

18.7.21

As virtudes (Pieper) - 2a parte: Prudência

Resumo do capítulo de: PIEPER, Josef. Las virtudes fundamentais. 9a ed. Madrid: Rialp, 2007, pp. 31-82. 


A primeira das virtudes cardeais

 

  • A prudência é a “mãe” e o fundamento das demais virtudes cardeais: só o prudente pode ser justo, forte, moderado
  • Primazia da prudência: o ser é antes que a verdade e a verdade antes que o bem
  • “Prudente”: “tático experimentado”; recurso dos que querem chegar sempre tarde aos momentos de perigo
  • “Boa ação”: “imprudente”
  • Só é prudente o homem que é bom; toda virtude é prudente
  • A prudência é a causa de que as demais virtudes sejam virtudes
  • A virtude é uma faculdade perfectiva do homem como pessoa espiritual: a justiça, a fortaleza e a temperança só alcançam a perfeição fundadas na prudência
  • O “império” da prudência é a forma exemplar da ação justa, corajosa ou temperada
  • A prudência estampa em toda ação livre do homem o selo interno da bondade
  • Os dez mandamentos executam a prudência
  • Todo pecado é imprudente
  • O bem próprio do homem consiste em que a razão, conhecendo a verdade, informe internamente o querer e o agir
  • A verdade é suposto da justiça; só quem rechaça a verdade, natural ou sobrenatural, é “mau” e incapaz de conversão
  • A medida da prudência é a própria coisa, a realidade objetiva do ser
  • Primazia da prudência: o querer e o agir devem ser conformes a verdade

 

O conhecimento da realidade e a realização do bem


  • A realização do bem pressupõe a conformidade de nossa ação à situação real
  • O prudente precisa conhecer tanto os primeiros princípios universais da razão quanto as realidades concretas sobre as que versa a ação moral
  • Os princípios universais da razão prática são revelados ao homem pela sentença da “sindérese”
  • A prudência não se refere ao fim último, mas às vias que a ele conduzem
  • A unidade viva de sindérese e prudência é o que chamamos “consciência”
  • A prudência é cognoscitiva e imperativa: apreende a realidade para depois ordenar o querer e o agir
  • Essencial na prudência: que o saber da realidade se transforme em império prudente, e este em ação boa.

 

“O juízo da consciência é um juízo prático, [...] que dita aquilo que o homem deve fazer ou evitar, ou então avalia um acto já realizado por ele. [...] aplica a uma situação concreta a convicção racional de que se deve amar e fazer o bem e evitar o mal. Este primeiro princípio da razão prática pertence à lei natural, [...] brilha no coração de cada homem. Mas, enquanto a lei natural põe em evidência as exigências objectivas e universais do bem moral, a consciência é a aplicação da lei ao caso particular [...]” (SJPII, Veritatis Splendor, n. 58).

 

  • Graus pelos quais passa: apreensão dos princípios e da situação, deliberação, juízo, império
  • 1º modo de imprudência: imprevisibilidade (não delibera como deve e age)
  • 2º modo de imprudência: inconstância (a deliberação e o juízo são infrutíferas, não dão lugar ao império)
  • Prudência: faculdade de apreender o real objetivamente e em silenciosa expectação
  • Requisitos: memória fiel ao ser; docilidade ou o saber deixar-se dizer algo (implica humildade); solércia ou objetividade ante o inesperado (captar com um olhar a situação imprevista e tomar a nova decisão)
  • O prudente orienta seu olhar na direção do “ainda não” realizado
  • Império: 1º requisito é o “pressentimento” da “providência”, que dispõe para apreciar com seguro golpe de vista se a ação x será a via real ao fim proposto
  • Nas resoluções morais não há a segurança da conclusão de um raciocínio teorético (ilusão ou erro da sobrevalorização do casuística pelos moralistas)
  • Pode-se faltar com prudência de dois modos: 1º) por um ato positivo de negação ou omissão (imprevisibilidade e inconstância; raiz destas imprudências “por defeito” é a luxúria);
  • 2º) através da “astúcia”, sentido simulador que só se atrai pelo “táctico” das coisas, e busca um fim bom por vias simuladas e falsas (simulação, ocultação, ardil, deslealdade; origem na “avareza”)
  • Na prudência, soberana da conduta, se consuma essencialmente a felicidade da vida ativa (S. Tomás)

 

Precisões e contrastes

 

  • Teoria clássico-cristã sobre a prudência x irracionalismo ou voluntarismo
  • O bem supõe a verdade
  • Moralismo (parecido com voluntarismo): conduta ética como soma de práticas de virtudes e obrigações positivas e negativas isoladas; a ação moral é retirada do solo do conhecimento da verdade
  • A realização do bem é algo completamente diferente do cumprimento meramente factual de um preceito que se “impõe” desde a obscuridade de um arbítrio poderoso
  • O homem é uma essência apta para realizar múltiplas e diversas atividades
  • O bem humano possui margem para variar de múltiplas maneiras, segundo a constituição das pessoas e as distintas constituições
  • Há a obrigação de ser justo, forte, moderado, mas a forma concreta de cumprir esse dever imutável pode empreender várias vias
  • A aspiração de segurança pode degenerar em uma rigidez inumana, que contradiz a essência da pessoa humana
  • Os juízos da doutrina moral e os da casuística estão no plano do abstrato, a única garantia da bondade da ação humana singular vem da prudência
  • Duas formas de operação humana: agir e fazer; a prudência aperfeiçoa a capacidade executiva do homem, e a arte completa a produtiva
  • Não há “técnica” do bem nem da perfeição
  • Jamais o homem pode contemplar o plano concreto definitivo de sua vida
  • É impossível educar um homem na justiça, na fortaleza ou na temperança sem antes e simultaneamente educa-lo na prudência, na valorização objetiva da situação concreta em que ocorre a operação e na faculdade de transformar este conhecimento da realidade em decisão pessoal

 

A prudência e o amor

 

  • Não é o sentido nem o ofício da prudência a descoberta do fim da vida, nem o estabelecimento das disposições fundamentais da essência humana.
  • O sentido da prudência é encontrar as vias adequadas a estes fins e determinar a atualização, aqui e agora, destas disposições fundamentais.
  • Não há quem não tenha consciência de que é necessário amar e realizar o bem, ou da necessidade de ser justo, corajoso e do dever de ser moderado (não são conhecimentos deliberados).
  • A deliberação e o império da prudência são endereçados à realização concreta da justiça, da fortaleza e da temperança.
  • Sem a vontade do bem em geral, o esforço por descobrir o prudente e o bom aqui e agora seria ilusório e vão
  • As possibilidades de ação mais sublimes e fecundas estão contidas, como em germe, na cooperação unânime de prudência e caridade.
  • Sujeição da prudência ao primado da caridade: a primeira é forma das virtudes morais, mas a caridade informa a prudência


"Prudência" (1650), de Luca Ferrari

As virtudes (Josef Pieper) - 1a parte: Esperança

Resumo do capítulo de: PIEPER, Josef. Las virtudes fundamentais. 9a ed. Madrid: Rialp, 2007, pp. 367-413.

Entremeado com passagens da belíssima Encíclica Spe Salvi, de Bento XVI.


"Status viatoris”

 

  • Viator: o que está em caminho; status viatoris: estado do ser que está a caminho
  • Status comprehensoris: estado de quem já alcançou, é comprehensor
  • Estar a caminho: caminhar para a felicidade = plenitude objetiva e resposta subjetiva
  • “Ainda não” do status viatoris: não ser plenitude e ser encaminhamento à plenitude
  • Lado negativo: proximidade da criatura ao “nada” (possibilidade de pecar)
  • Ingresso no status comprehensoris: a possibilidade de dirigir-se ao nada fica impedida
  • Lado positivo: justa aspiração a um termo feliz do caminho
  • A condenação é a irrevogável fixação da vontade no nada
  • O “caminho” do homem conduz à morte como fim (termo) mas não como sentido (finalidade)
  • Filosofia existencial: homem como “ser para a morte”
  • Status viatoris: estrutura criatural, o ser em caminho não “é” [toda] sua essência, mas “se faz”
  • Resposta ao Não ser ainda”:  nem desesperança (o sentido não é o nada), nem presunção (o sentido não foi alcançado ainda), mas a Esperança

 

A Esperança como virtude

 

  • A virtude não é a mansa “moderação” e “probidade” do burguês, mas a culminação do ser da pessoa humana; o imperturbável encaminhamento do homem para a verdadeira realização de seu ser, para o bem
  • A virtude teologal expressa uma culminância entitativa que ultrapassa o que o homem “pode ser” por si mesmo; é o imperturbável encaminhamento para uma plenitude que não é “devida” à natureza do homem.
  • Virtude “teologal”: origem em Deus, tem como objeto a Deus, é conhecida pela Revelação
  • A Esperança é uma imperturbável direção, originada da graça, para a plenitude do ser, para o bem, para a felicidade sobrenatural em Deus.


"[A Vida Eterna não é] uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de João: « Eu hei-de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria » (16,22). Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperança cristã, o que esperamos da fé, do nosso estar com Cristo” (Spe Salvi, n. 12).

  

  • A esperança natural pode se dirigir a um mal objetivo; ela não é virtude (a qual só se dirige ao bem).
  • A esperança é, como o amor, uma das mais simples e primárias atitudes do vivente; por ela, o inquieto coração humano se esforça para alcançar o bem árduo futuro, tanto natural como sobrenatural.
  • O intento de alcançar, próprio da esperança como impulso espiritual do homem natural, está ordenado a receber a direção da Esperança teologal.
  • O ímpeto autêntico da esperança natural, enformada pela virtude teologal, desemboca na virtude da magnanimidade.
  • A humildade não se opõe à magnanimidade, mas é a norma negativa da esperança natural. Da reunião e ambas decorre a justa esperança natural.
  • Elas são a última disposição do homem natural “pressuposto” pela graça. A Esperança sobrenatural se perde pela falta de ambas.
  • Vida sobrenatural no homem tem três fontes: a Fé nos apresenta a realidade de Deus, a Caridade nos vincula a Ele, a Esperança é a “espera tensa e confiada na eterna bem-aventurança da participação completa e intuitiva na vida trinitária de Deus”.
  • A Esperança espera a Vida Eterna. Esperamos a Deus em Deus.
  • As três virtudes são infundidas simultaneamente com a Graça.
  • Na ordem da formação atual, a Fé é anterior à Esperança e à Caridade, e a Esperança é anterior à Caridade. Na desordem culpável da dissolução se perde primeiro a Caridade, depois a Esperança, por último a Fé.
  • Na hierarquia segundo a perfeição, a Caridade tem o primeiro lugar, a Fé o último e a Esperança o lugar intermediário.
  • Relação entre esperança e caridade: distinção entre amor de amizade, mais perfeito, e amor concupiscível
  • Tentação do orgulho: crer que o anseio de esperança referido a si é desprezível. É legítimo desejar o prêmio eterno, pela misericórdia de Deus e os méritos de Cristo, que é o fundamento real da Esperança: “esperança que temos como segura âncora de nossa alma e que penetra atrás do véu onde entrou por nós nosso precursor Jesus” (Hb 6,19-20).
  • Spe salvi facti sumus, “na esperança somos salvos” (Rm 8,24). Estamos salvos, não em realidade, mas em esperança.
  • A oração e a esperança estão essencialmente implicadas. 

“Primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperança é a oração. Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar [...] Ele pode ajudar-me. Se me encontro confinado numa extrema solidão...o orante jamais está totalmente só” (Spe Salvi, n. 32).

 

  • A Esperança participa da certeza da Fé, na qual se apoia; ela se funda sobretudo na onipotência e misericórdia divina, pela qual até o que não tem a graça pode obtê-la

 

Nossa esperança não é individualista, mas comunitária: “Esta vida verdadeira, para a qual sempre tendemos, depende do facto de se estar na união existencial com um « povo » e pode realizar-se para cada pessoa somente no âmbito deste « nós ». Aquela pressupõe, precisamente, o êxodo da prisão do próprio « eu », pois só na abertura deste sujeito universal é que se abre também o olhar para a fonte da alegria, para o amor em pessoa, para Deus” (Spe Salvi, n. 14).

 

  • É incerta a perseverança na esperança; enquanto estamos no status viatoris, podemos voltar-nos ao nada e destruir a esperança sobrenatural


“Nas provações verdadeiramente graves, quando tenho de assumir a decisão definitiva de antepor a verdade ao bem-estar, à carreira e à propriedade, a certeza da verdadeira grande esperança, de que falamos, faz-se necessária. Para isto, precisamos também de testemunhas, de mártires, que se entregaram totalmente, para que no-lo manifestem, dia após dia” (Spe Salvi, n. 39).


  • O homem natural nunca poderia, por maior que fosse a grandeza de ânimo, esperar a vida eterna, consistente na visão beatífica, sem cair com isso na soberba
  • Nossas esperanças naturais aspiram a realizações que são reflexos e sombras confusas da vida eterna, inconscientes prelúdios
  • A virtude da esperança traz também a ordenação da esperança natural do homem.
  • Esperamos de Deus o socorro, não só de benefícios espirituais, senão também temporais; podemos incluir os bens naturais da vida na esperança sobrenatural
  • A esperança natural surge da energia juvenil do homem e se esgota com ela; a esperança sobrenatural fundamenta uma juventude muito mais essencial, a juventude de nossos grandes santos

 

3. A antecipação da não-plenitude (a desesperança)

 

  • Duas formas de falta de esperança: a desesperança e a presunção
  • A presunção é a antecipação antinatural da plenitude; a desesperança é a antecipação antinatural da não-plenitude
  • Por cima de uma Esperança que tem raízes profundas, podem haver desesperanças de diversas classes, que não afetam essa Esperança
  • Mas um homem desesperado no fundo pode mostrar-se completamente “otimista”
  • A desesperança do cristão é uma decisão contra Cristo, uma negação da salvação
  • Na desesperança se põe de manifesto a essência do pecado, que é contradizer a realidade; é a negação do caminho à plenitude
  • A desesperança é a estrutura do ser do condenado
  • A desesperança supõe um anseio: “aquilo que não ansiamos não pode ser objeto nem de nossa esperança nem de nossa desesperança”
  • O princípio da desesperança é a acídia: tristeza a respeito de Deus
  • A acídia é um pecado contra o terceiro mandamento
  • É uma humildade pervertida, não quer aceitar os bens sobrenaturais, por causa das exigências
  • Uma de suas filhas é a pusilanimidade, quanto às possibilidades espirituais, e depois, a malícia, que nasce do ódio contra o divino que há no homem, na eleição do mal enquanto tal
  • Raiz da desesperança é a apática tristeza e a perfeição é o orgulho

 

4. A antecipação da plenitude (a presunção)

 

  • Puerilidade da presunção: antecipa a plenitude de um modo antinatural; o homem julga que alcançou o objetivo, que na realidade pertence ainda ao futuro e é “penoso”
  • A presunção é a atitude do espírito que contradiz a realidade do futuro da vida eterna e do “penoso” de sua conquista
  • A essência da presunção é, como diz S. Agostinho, uma perversa segurança
  • Primeira forma é a presunção “pelagiana”: bastam as próprias forças da natureza humana para alcançar a vida eterna e o perdão
  • Segunda forma de presunção se baseia na teoria protestante da certeza da salvação
  • A desesperança e a presunção fecham o caminho a uma autêntica oração, pois a oração não é outra coisa - em sua forma primária de súplica - que a linguagem da esperança.
  • O que desespera não suplica, porque antecipa a não-plenitude, o presunçoso suplica, mas de um modo impróprio, posto que antecipa a plenitude.
  • Orar em todo tempo: constante necessidade da esperança, que é bastante humildade para suplicar de verdade e tem magnanimidade para, cooperando, esperar a plenitude
  • A esperança reconcilia a Justiça e a Misericórdia Divina. O que só considera a justiça pode ter tão pouca esperança como o que vê unicamente sua misericórdia; ambos caem na falta de esperança, um na desesperança, outro na presunção.

 

“O Juízo de Deus é esperança quer porque é justiça, quer porque é graça. Se fosse somente graça que torna irrelevante tudo o que é terreno, Deus ficar-nos-ia devedor da resposta à pergunta acerca da justiça – pergunta que se nos apresenta decisiva diante da história e do mesmo Deus. E, se fosse pura justiça, o Juízo em definitivo poderia ser para todos nós só motivo de temor. A encarnação de Deus em Cristo uniu de tal modo um à outra, o juízo à graça, que a justiça ficou estabelecida com firmeza: todos nós cuidamos da nossa salvação « com temor e tremor » (Fil 2,12). Apesar de tudo, a graça permite-nos a todos nós esperar e caminhar cheios de confiança ao encontro do Juiz que conhecemos como nosso « advogado », parakletos (cf. 1 Jo 2,1)” (Spe Salvi, n. 47).



5. O temor como dom

 

  • Tese irresponsável: não é digno que o homem sinta temor
  • Atitude que tem duas fontes: o liberalismo do Iluminismo, que situa o temor no domínio do inautêntico, e o estoicismo não cristão, que se enfrenta ante os temores da vida com tenaz impassibilidade, sem medo, mas também sem esperança
  • Teologia clássica da Igreja: é evidente que o homem reaja com temor ante o objetivamente temível
  • O temor é pecado quando se opõe à ordem da razão
  • “O que não tem temor não pode ser justificado” (Eclo 1,28); “O sábio sente temor e se afasta do mal” (Pr 14,16).
  • Temor do Senhor não é “respeito” ante Deus, é o horror ao pecado, à possibilidade de ser separado de Deus

 

“E quem mais do que Maria poderia ser para nós estrela de esperança? Ela que, pelo seu « sim », abriu ao próprio Deus a porta do nosso mundo; Ela que Se tornou a Arca da Aliança viva, onde Deus Se fez carne, tornou-Se um de nós e estabeleceu a sua tenda no meio de nós (cf. Jo 1,14)” (Spe Salvi, n. 49).

 

  • O homem pode temer a possibilidade do pecado de duas formas: por causa da própria culta e por causa da pena.
  • Temor pela culpa mesma: temor filial, temor casto; temor pela pena: temor servil
  • Temor servil é a forma imperfeita do temor do Senhor, fundada no amor concupiscível a Deus.
  • Temor próprio do filho: forma mais autêntica, considera a culpa enquanto tal, está mais próximo do centro pessoal; é um dos sete dons do Espírito Santo, um “presente” além das possibilidades do homem natural.
  • O temor servil corresponde àquele grau de esperança que ainda não foi transformado de raiz pela caridade
  • O temor casto é o “negativo” do “amor de esperança” que se eleva à amizade
  • O temor do Senhor mantém presente para o homem que espera o fato de que a plenitude “ainda não” é real
  • O temor servil corresponde àquele grau de esperança que ainda não foi transformado de raiz pela caridade
  • O temor casto é o “negativo” do “amor de esperança” que se eleva à amizade
  • O temor do Senhor mantém presente para o homem que espera o fato de que a plenitude “ainda não” é real