Comentários a
partir de MFS. Filosofia concreta. São Paulo: É Realizações, 2009:
“Alguma coisa há”
é o princípio (o “ponto arquimédico”) que inicia o filosofar de MFS (Tese 1) em
sua “Filosofia concreta”.
MFS realiza uma
dialética ascensional desta “havência” (termo meu), identificada com o “ser”
(Tese 8), que seria “aptidão para existir” (a noção, como MFS afirma em outra obra, é de Suárez), até o “existir”, que seria “pleno exercício do ser” (ato). Esta última é uma
formulação tal que só cabe estritamente a Deus.
A mera constatação
de que “há algo”, enquanto princípio (fenomenológico) da filosofia, não é,
todavia, nela mesma, para MFS, a constatação de sua atualidade ou realidade em
sentido forte. “O que há” é, por assim dizer, “fenômeno” ou “acidente” insubstantivo
-ele não o diz, mas o sentido é este- que dependeria de alguma coisa que “deve
estar no pleno exercício de seu ser”.
Aqui já se
apresenta um problema monumental: a única realidade que tem o “pleno
exercício/ato do seu ser” é o Ato Puro Divino. Todas as demais coisas, numa
perspectiva clássica realista -e que redundará no monoteísmo da Transcendência
e da criação- são uma mescla de ato e potência ou de ser e não-ser relativos.
MFS faz da realidade perceptível (ponto de partida) o polo do “não-ser
relativo”.
Na Tese 11
reafirmará que o existir é “ser no pleno exercício do ser”, o que, repito, é o
que define Deus clássica e cristãmente; todas as coisas ou entes criados “têm”
ser, como ensina Tomás, e não são o ser. Isto não significa que uma determinada
essência ou delimitação do “ser” não seja todo o Ser (como se fora uma “parte”),
mas que a essência concreta, real, existente, não se possui de golpe, não é
tudo que pode ser. O ente finito ou criado tem uma composição real intrínseca de
ser (esse, actus essendi) e essência. Não se trata da composição entre sua
essência lógica ou conceitual e sua existência factual ou empírica (o que seria
um nominalismo), nem entre a Ideia Eterna e a coisa empírica (o que seria uma
interpretação possível do platonismo), nem entre o Ser Divino
ou Ipsum Esse e o ser relativo ou finito: no primeiro caso o ser das coisas
seria um acidente da consciência humana (idealismo); no segundo e terceiro, um
acidente de Deus!, o que é o erro dos motecallemin,
de fazer das criaturas formas acidentais cujo Ser formal ou Substância
seria Deus (cf. Gilson, Por que São
Tomás criticou Agostinho).
A Tese 16 afirma
que “não há meio-termo entre o ser e o nada (absoluto)”; ou que “o nada
relativo não é meio termo entre ser e nada absoluto”. Isto é: há o ser ou o
nada absoluto; como há algo, há o ser e não há o nada absoluto. O erro sutil de
fundo é interpretar o “ab-soluto”, o “solto-de” ou “desligado” como um
“desligado ou separado do nada absoluto”. Na realidade, Deus ou o Absoluto (a
Realidade Absolutamente Absoluta em termos zubirianos) não se define assim por
ser separado do nada absoluto inexistente; assim ela seria o “todo” englobante
do Criador e da Criatura, do Ser Infinito e do Ser Finito, da “Natureza
Naturante” e da “Natureza Naturada” (numa interpretação parmenidiana ou
espinosiana do princípio da identidade). O Absoluto Divino é separado do ser
relativo (composto de ato e potência, de ser e essência) da criação, transcende
a eles (ainda que “neles” como viu agudamente Zubiri, porque Deus não é o
“Totalmente Outro”, o que redundaria num deísmo, e sim o Criador Transcendente
e Conservador onipresente, imanente ou presente às coisas, como também afirmou
Tomás em S.Th. I, q8): a relação criatural ou religação é uma relação
[categorial: cf. Alvira; Clavell; Melendo. Metafísica. Pamplona: EUNSA,
2001, p. 75; Joathas Bello, “A religação do homem a Deus em Xavier Zubiri e
Tomás de Aquino. In Coletânea: Revista
de Filosofia e Teologia da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. Ano XII -
Fascículo 24 [Julho/Dezembro 2013], pp. 234-252] inseparável das
criaturas, mas em Deus é uma relação ideal, como dizem os escolásticos, ou Deus
é “irrespectivo”, como diz Zubiri (cf. “El problema teologal del hombre:
Cristianismo”). Apenas Cristo é a “Religação Subsistente”, como afirma Zubiri (cf.
“El hombre y Dios”) e “consubstancial” ao Pai pela natureza divina (Credo
Niceno) -e não “todo homem”, como afirma erroneamente Martin Buber a partir de
seu hassidismo na obra “Eu e Tu”.
“Em vão se poderá
responder que todos os entes são iguais pela sua oposição ao nada, e que,
consequentemente, um só conceito é suficiente para abrange-los totalmente. Não
é verdade que eles sejam todos igualmente o não-nada. O Necessário, o Infinito
[...] não se diferenciarão realmente do contingente do finito” (CYRILLE LABEYRIE. Dogme et
Métaphysique. Apud HUGON, Édouard, O.P. “Os princípios da filosofia de S. Tomás
de Aquino”. Porto Alegre: 1998, p. 57)
Na Tese 45 MFS
afirma que “O Ser é o poder infinito e absoluto de ser tudo que pode ser”.
Embora a explicação inicial (“o que pode ser implica o que já é, e só o Ser tem
o poder que permite que tudo que pode ser seja”) seja suficientemente ambígua
para poder ser interpretada corretamente do ponto de vista metafísico e
teológico, o enunciado já traz a ideia de fundo que perpassa toda a
argumentação: “tudo que pode ser” é um “poder infinito” imanente ao Ser, isto
é, nega-se a criação ex nihilo. O horizonte é o horizonte panenteísta (não é
uma gnose dualista tosca) de um Ser que “exerce sua plenitude” como uma
“virtualidade real”, que encerra potências a serem atualizadas nele mesmo, ad intra, no âmbito desse “absoluto
todo” e não ad extra no âmbito da
criação relativamente absoluta (não existiria esse ad extra, que evidentemente
não é um “fora” espacial, entenda-se).
Trata-se, também,
no fundo, do erro da “univocidade do ser”, que o autor defende na Tese 61: uma
univocidade lógica e "TAMBÉM 'REAL”. Há uma virtualidade real ou “aptidão para
existir” real nos termos de MFS que “engloba” o Ser Supremo ou o Existente e os
seres possíveis e “haventes” (os que não encerram a plenitude do exercício de
ser), por assim dizer. Que depois ele tente salvar a distinção essencial entre
Deus e as coisas com um conceito de “analogia” pelo qual os seres “são de certo
modo unívocos e de certo modo distintos entre si”, porque o caráter de “único”
de um ser não é a do outro, não resolve verdadeiramente a confusão
estabelecida. A analogia que corresponde ao Ser Divino e ao ser criado é, nos
termos tomista, de “proporcionalidade”, que se dá “quando a realidade
significada se encontra verdadeira e intrinsecamente nos dois termos comparados,
mas não inteiramente da mesma maneira: a criatura tem o ente real e
intrinsecamente, mas não com a intensidade absoluta que convém a Deus” (cf.
HUGON, Édouard, O.P. “Os princípios da filosofia de S. Tomás de Aquino”. Porto
Alegre: 1998, p. 57). Trocando em miúdos: Deus é Ser Absoluto; as criaturas não
são Este Ser Divino compartilhado entre elas mas têm seu próprio ser criado:
ser criado não é “participar” no sentido de ser uma “parte” NO Ser (um atman do
brahman), mas ser propriamente o que Deus poderia ser em determinadas condições
de finitude (das partículas elementares até um Serafim).
De fato, o MFS fala de "criação" a partir da tese
193. Diz que "parte do não-ser relativo" (lembrando que este está no
Absoluto...), "um possível de ser" que "não era nada
absoluto" mas "sim um nada relativo", "um possível de
ser", que "já está num antecedente como possível", e que
"provém do Ser Infinito"; o "efeito é um fato, o que é feito, o
que implica um antecedente" (tese 199). Esse esquema de causalidade é
precisamente o da produção de um artefato a partir de matéria (potência passiva).
Não é o esquema da criação do ser universal, que não implica antecedente mas é
pura incepção do ser, que não se enquadra na categoria de "mudança" a
partir de algo prévio. Deus fez não a partir de algo nem a partir de seu Ser a
modo da “emanação” em sentido plotiniano, mas a partir de Seu Poder, de Sua
Potência Ativa. Em Deus não há possibilidades reais (potências passivas) não
realizadas, mas o Poder Absoluto de doar o ser ao que não era de modo algum, criando uma alteridade sem qualquer alteração em Si. A criação é
um começo absoluto do que não havia, e não alguma transformação.
Zubiri denomina a
"substantividade" como "aptidão para ser de suyo"
(tanto em Sobre la esencia quanto em outros lugares), porém -e
isto é fundamental- esta aptidão não é o momento mais íntimo das coisas
reais, que é a própria "formalidade do de suyo/de
realidade" (como fica claro em Inteligencia y realidad) que
reifica a essência/substantividade (em termos zubirianos, a essência é o
sub-sistema de notas "constitutivas" [ou últimas e necessárias] da
substantividade ou sistema de notas "constitucionais" [suficientes
para que algo seja de suyo ou real]); e a formalidade de
realidade das coisas reais pende de seu Fundamento que é a Realidade
Absolutamente Absoluta ou Plenário De Suyo (cf. El
hombre y Dios), havendo uma "analogia do absoluto". Em termos
tomasianos: a "essência" (a essência existente, o composto de forma e
matéria, e não meramente o conceito lógico) é potência e o esse é ato (há uma "distinção real" mas não são
"duas coisas"), e o esse participado dos entes pende
do Ser Absoluto ou Ipsum Esse, havendo uma "analogia do
ser". Essas distinções são importantíssimas para se evitar o
panenteísmo, e faltaram a MFS.
Apêndice 1: Condenação do Concílio Vaticano I ao panenteísmo
(em diversas formas):
Cânone 4 sobre a fé católica:
"Se alguém disser que as coisas finitas, ora
corpóreas, ora espirituais, ou pelo menos as espirituais, emanaram da
substância divina, ou que a divina essência por manifestação ou evolução de si,
se faz todas as cosias, ou, finalmente, que Deus é o ente universal ou
indefinido que, determinando-se a si mesmo, constitui a universalidade das
coisas, distinguida em gêneros, espécies e indivíduos, seja anátema".
Apêndice 2: Adendo à "Nota sobre o
panenteísmo de Mário Ferreira dos Santos" (deste blog: http://estudo-notas.blogspot.com/2017/11/adendo-nota-sobre-o-panenteismo-de.html)
Joathas
Soares Bello, neste texto
(clique aqui), comentando alguns trechos da Filosofia Concreta do
filósofo Mário Ferreira dos Santos fez uma uma afirmação, digamos, controversa,
porém verdadeira. Segundo sua linha de argumentação, o núcleo metafísico da
filosofia de Mário Ferreira é a tese panenteísta que foi em substância
condenada pelo Concílio Vaticano I. Ora, "perguntamos" ao próprio
Mário Ferreira dos Santos e então a resposta:
"Na
verdade, podemos dizer de antemão que nossa posição, a ser exposta em 'Teoria
Geral das Tensões', realiza uma síntese da concepção panteísta, da criacionista
e da dualista, que surgem apenas pela ação homogeneizadora, abstractora e
actualizante da razão, à qual corresponde uma ação virtualizadora de tudo
quanto é heterogeneizante e concreto, no sentido dialético, como presença e
identificação dos opostos" (Mário Ferreira dos Santos. O Homem Perante o Infinito. 3ª edição.
São Paulo: Logos, 1960, pp. 176-177).
"O
panenteísmo pode ser monopluralismo quando aceita a irredutibilidade das
tensões, como a nossa posição, que evita assim a queda das aporias do panteísmo"
(Mário Ferreira dos Santos. Teoria Geral
das Tensões, n. 385).

