29.6.25

A Profecia de Daniel

 Publicação original de 18/12/2021. Atualizada em 28/06/2025.


Desde o princípio anunciei o futuro, 

desde a antiguidade, aquilo que ainda não acontecera. 

Eu digo: o meu propósito será realizado, 

hei de cumprir aquilo que me apraz (Is 46, 10).


 


A exegese canônica sobre o Livro de Daniel é preterista (como uma parte da exegese sobre o Apocalipse), imaginando que o ali narrado, especialmente Dn 11, refere-se a fatos conhecidos pelo hagiógrafo (a "guerra entre Selêucidas e Lágidas"), que seriam apresentados como se fosse futuros (para o intérprete de sonhos que teria vivido no exílio da Babilônia).

No entanto, trata-se certamente de uma profecia assombrosa, que constrange a crer em Deus e em Cristo na Igreja Católica!


Panorama histórico








Guerra dos 30 anos e Guerras napoleônicas








As 70 semanas




Síntese







26.6.25

Sobre Raimundo Lúlio (Ramon Llull)

 

Biografia

 

Lúlio era um homem casado e mundano. Diz ele: “Apesar da ajuda que recebi dos anjos e das pregações dos religiosos, cheguei a ser o pior dos homens e o maior pecador desta cidade e de todas as redondezas” (Llibre de contemplació, Cap. XXXVII n. 26). Sofreu uma profunda conversão aos 30 anos, quando compunha rimas para uma dama pela qual estava apaixonado e apareceu-lhe Cristo Crucificado (que voltou a aparecer outras 4 vezes). Isto o moveu ao propósito de entregar-se ao martírio e à conversão dos infiéis (muçulmanos).

 

Para cumprir seu propósito, ele aprendeu a língua e filosofia árabes, estudou filosofia e teologia, e elaborou um método, conhecido como “Arte” (foram várias versões), que, segundo ele, seria capaz de convencer racionalmente os infiéis da verdade cristã. Quis mover o papa e príncipes cristãos para a fundação de vários mosteiros onde fosse aprendida a língua dos infiéis para o envio em missão. Aos 40 anos decide se dedicar inteiramente à contemplação e retira-se para o monte Randa, em suas propriedades perto de Mallorca, onde terá a “iluminação” pela qual é conhecido como “Doutor Iluminado”.

 

No monte Randa [...] Ramon Llull teve uma visão que mudaria para sempre sua forma de pensar. Fazendo vida de eremita, apenas interrompida pela chegada dos serviçais que lhe traziam comida, viu um jovem pastor que cuidava de um rebanho de ovelhas. Bastou um breve aceno ao moço para que, num piscar de olhos, Ramon compreendesse que a missão de sua vida era escrever o melhor livro escrito até então, um livro tão potente cuja simples leitura faria convencer qualquer descrente da verdade dos dogmas cristãos. [...] Mas a Arte não é um fim em si mesmo. Lúlio não quer passar à posteridade apenas pelas suas ideias ou pelas suas composições literárias. O que o move é servir a Deus. E a melhor maneira de servi-Lo é promovendo a conversão dos gentios (M. BUADES, Josep. Doutor Iluminado: Guia Introdutório à vida e obra de Raimundo Lulio [Ramon Llull] [Portuguese Edition] [p. 39]. Edição do Kindle).

 

Sua esposa não suportava seu estilo de vida e eles então se separam. Passa alguns anos ensinando línguas e sua “Arte”, para a conversão dos infiéis. O Papa João XXI (o lisboeta e lógico Pedro Hispano) aprovou sua obra em 1276. Entre 1283 e 1285 escreveu sua obra Blanquerna, romance autobiográfico, onde “traça uma reforma completa da Igreja e apresenta na pessoa de Blanquerna o ideal do matrimônio cristão, as normas de educação dos filhos e as figuras do monge, do bispo e até do papa” (ESTEVE, Jaulent. Raimundo Lúlio: Um único pensamento e um único amor [Portuguese Edition]. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência "Raimundo Lúlio" [Ramon Llull]. Edição do Kindle). Menciona a renúncia de Blanquerna ao papado, o que parece ser uma alusão a Celestino V. No Blanquerna encontra-se a importante parte mística O livro do Amigo e do Amado.

 

Em 1288 é autorizado a ensinar a Arte na Universidade de Paris. Não tem boa acolhida, mas ao conhecer o averroísmo latino e sua tese da “dupla verdade”, começa a lutar com todas as forças contra essa heresia. Em seu desejo do martírio, vai a Gênova, onde, aos 60 anos, passa por sua maior crise espiritual: teme ser assassinado pelos sarracenos ou ser preso perpetuamente. Sofre escrúpulos e quase se desespera, mas parte para Tunis em 1293. Discute com os sábios na rua, é preso e expulso. Em 1301, no Chipre, é acolhido pelos Templários. Se, a princípio, pensava que a conversão deveria sempre ser um ato de liberdade, por essa época começou a pensar que, com a recusa do diálogo pelos adversários, a Cristandade teria o direito de obrigá-los (ao diálogo) pela força. Depois embarcará para Bugia, na Argélia, onde começa a pregar nas ruas que a lei de Maomé é falsa e a ensinar sobre as razões da Santíssima Trindade ao mufi da cidade. Fica preso por 6 meses, é expulso, naufraga perto de Pisa.

 

O Concílio de Vienne (1311-1312) atende alguns dos seus pedidos: decreta que os Hospitalários promovam a cruzada e erige as cátedras de árabe, grego, hebraico e caldeu nas universidades de Paris, Oxford, Bolonha e Salamanca. Em 1314 volta a Tunis, prega nas ruas, e redige novas obras. Vai depois a Bugia, onde é apedrejado pela multidão, e fica meio morto e abandonado. Recolhido por genoveses que voltavam à Europa, morre no navio, já próximo de sua Mallorca, nos inícios de 1316.

 

Lúlio, ao longo dos anos, esforçou-se por purificar sua sabedoria a fim de que, limpa de todo erro ou ignorância, unificasse, num simples olhar, toda a verdade cognoscível. Ao mesmo tempo, seus inúmeros trabalhos, lutas e afãs, parecendo multidão, na realidade refletem apenas uma só coisa: um amor puro e empenhado, Lúlio foi um homem simples que viveu de um único pensamento e de um único amor (JAULENT, op. cit).

 

O papa Pio IX concedeu a Lúlio, em 1847, culto próprio e as honras de Bem-aventurado (Beato).

 

 

A “Arte”

 

As diversas “Artes” constituem um único projeto epistemológico:

 

o estabelecimento de uma nova ciência, universal, inexistente na ordo scientiarum escolástica, que possibilitaria a solução das graves anomalias que o seu autor detectava na ciência escolástico-aristotélica, antes de tudo, a sua inaplicabilidade à argumentação em favor dos conteúdos dos artigos da fé cristã, mas também a sua impotência para fundamentar todas as ciências sobre bases sólidas e concordes com esses conteúdos (RUIZ SIMON, Josep Maria. A Arte de Raimundo Lúlio e a teoria escolástica da Ciência. Tradução de Fernando Salles. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2004, p. 23).

 

Sua “arte” tinha como objetivo “provar a existência da Santíssima Trindade, tanto em Deus como em toda a criação” (COSTA, Ricardo da; PARDO PASTOR, Jordi. “Ramon Llull (1232-1316) e o diálogo inter-religioso. Cristãos, judeus e muçulmanos na cultura ibérica medieval”. Disponível em: https://www.ricardocosta.com/artigo/ramon-llull-1232-1316-e-o-dialogo-inter-religioso-cristaos-judeus-e-muculmanos-na-cultura).

 

Um dos tópicos mais importantes da Arte é a abordagem das contradições aparentes e a “teoria dos pontos transcendentes”. A contradição aparente ou não-existente aparece devido: 1) à altura ou dificuldade do objeto e 2) à limitação da potência cognoscitiva, incapaz de alcançar por suas próprias forças a realidade desse objeto. E desaparece quando o entendimento alcança a verdade – a realidade – do objeto, superando a aparente contradição que leva à dúvida. A superação produz-se: a) quando o intelecto transcende as potências inferiores (os sentidos e a imaginação) que o arrastam para a contradição, e encontra em si mesmo, e segundo sua própria natureza, a verdade; ou b) quando o entendimento se transcende a si mesmo e, por cima das suas possibilidades, alcança uma verdade relativa às realidades superiores (cf. RUIZ SIMON, op. cit., pp 130-131).

 

A gnosiologia de Lúlio inclui o conhecimento pela via do excessus mentis, que S. Boaventura assim havia definido: “uma forma excessiva de conhecer, não na qual o conhecedor excede o que é conhecido, mas na qual o conhecedor é levado para dentro do objeto... elevando-se acima de si mesmo” (Questiones disputatae de scientia Christi). O lugar clássico da descrição desse modo de conhecimento é a primeira parte do capítulo VII dos Nomes Divinos de S. Dionísio Areopagita:

 

Embora a nossa inteligência tenha a capacidade intelectiva de captar as realidades inteligíveis, não obstante a união que nos permite alcançar aquilo que nos supera esteja muito acima da natureza da nossa inteligência. Conformando-nos a essa união, pois, é como havemos de pensar a divindade.

 

Sobre a demonstrabilidade dos artigos de Fé, estão associados à dialética de cunho platônico que Raimundo Lúlio assume no lugar da dialética escolástico-aristotélica: para Lúlio, o homem – fiel ou infiel – tende naturalmente ao conhecimento de Deus. Mas isto não significa que o intelecto possa atingi-lo por suas próprias forças. A fé é a condição de possibilidade do conhecimento dos artigos, mas o entendimento que crê adquire esse conhecimento exercendo a atividade que lhe é própria: a fé permitiria que o entendimento possa entender naturalmente aquilo que o excede. O Espírito Santo permite que o entendimento humano entenda aquilo que o excede. Mas esta inteleção é realizada pelo intelecto “naturalmente”. Porque nessa intelecção, os artigos de fé não ocupam o lugar de principia per se nota, mas, primeiramente, o de suposições, e, depois, o de conclusões (como na dialética de Platão).

 

* * *

 

Gostaria de fazer duas observações a respeito das ideias gnosiológicas de Lúlio. Primeiramente, deve ficar claro que, embora o conhecimento teológico ou possibilitado pela fé faça com que a inteligência conheça desde seus “próprios poderes” intensificados pela luz da Revelação, isto não é suficiente para garantir que a transmissão intelectual das verdades de fé será capaz de convencer o interlocutor (destas verdades) somente pela razoabilidade da argumentação, senão que esta (razoabilidade) deverá suscitar um ato germinal de fé no ouvinte. Em segundo lugar, o conhecimento místico ou pelo excessus mentis é uma elevação da inteligência a uma condição estritamente sobrenatural, isto é, não só quanto ao conhecimento de um conteúdo advindo da Revelação, mas, sobretudo, quanto ao próprio modo de conhecer, unido a Deus (podemos dizer que é o que os manuais de teologia espiritual – ou teologia mística e ascética – chamam de “contemplação infusa”).

 

A Mística

 

Ao estudar o islamismo, Lúlio teve contato com o sufismo. Os sufis tinham desenvolvido técnicas de concentração que lhes permitiriam, supostamente, um contato direto com Deus:

 

Ibn Arabi foi um dos principais pensadores sufistas. Em seus escritos concluiu que ao conhecimento pode chegar-se por duas vias paralelas e compatíveis: a via lenta da razão, a qual, passo a passo, avança para conclusões cada vez mais complexas; e a via rápida da iluminação, com a que Deus nos transmite toda a sabedoria humana no mesmo breve instante que uma centelha demora para iluminar o céu. O misticismo luliano não é apenas fruto de experiências extra-sensoriais. Ramon Llull deveu conhecer e estudar (ou pelo menos assim se desprende da leitura de seus textos) a obra de Ibn Arabi, considerado um dos pais do sufismo (M. BUADES, op. cit., p. 40).

 

Ibn Arabi também influenciou a ideia de Lúlio, de que as grandes religiões monoteístas tinham uma base comum, entre outras coisas, pelos atributos que assignam à Divindade:


o sábio árabe reconhece que o Alcorão bebe da mesma tradição religiosa dos outros povos do Livro. Inclusive, chega a afirmar que aquilo em que os judeus e cristãos acreditam é para eles tão verdadeiro quanto o que os muçulmanos creem baseando-se no Alcorão. Palavras sem dúvida revolucionárias para um século XIII marcado pelas guerras de religião e cujo relativismo cultural possivelmente tenha influenciado na escrita do Livro do gentio e dos três sábios (1274-83). Porém – e essa é uma grande diferença entre os dois pensadores –, enquanto para Lúlio esta unidade de base das três religiões monoteístas tem de conduzir necessariamente para uma unificação de todos os credos no cristianismo (o único que o maiorquino considera plenamente verdadeiro), Ibn Arabi adota uma postura mais próxima dos valores que dominam na nossa época, ou seja, os de um multiculturalismo que prega a coexistência pacífica de todas as fés e culturas, sem impor a superioridade de umas sobre as outras (Ibid., pp. 40-41).

 

* * *

 

Outras observações, agora a respeito da teologia mística e “ecumênica” de Lúlio. Em primeiro lugar, Lúlio não parece distinguir o que Garrigou-Lagrange chamou de “pré-mística natural” (em que pela vida virtuosa, a devoção religiosa, através de técnicas de relaxamento e meditação e, em última instância, pela graça implícita, chega-se a um sentimento de união com Deus: oração de gosto ou quietude, oração de recolhimento ou estar absorto, que são eventos da quarta morada teresiana), e a mística sobrenatural propriamente dita (que se dá no regime da graça explícita e a partir dos eventos da quinta morada). Depois, Lúlio parece um “perenialista” avant la lettre, mas, em sua defesa, ele só considera as grandes religiões monoteístas (ele interpreta o sufismo em termos monoteístas, e não panenteístas), e pensa que seu reto entendimento apontaria para a fé católica. Por fim, penso que o testemunho heroico de Lúlio é teologicamente mais valioso que suas concepções místicas, ainda que suas meditações espirituais não sejam desprovidas de inspiração e caridade ardente, como se poderá ver abaixo.



 

Apêndice 1: Passagens de O Livro do Amigo e do Amado

 

Excertos de LULL, O Livro do Amigo e do Amado. São Paulo: Escala

 

“Blanquerna sentiu o desejo de compor o Livro do Amigo e do Amado, no qual o amigo fosse cristão fiel e devoto, e o amado fosse Deus. Enquanto Blanquerna pensava nisso, lembrou-se que certa vez, quando era papa, um sarraceno contou-lhe que os sarracenos têm alguns homens religiosos, e entre os outros e aqueles que são mais estimados entre eles, encontram-se umas pessoas chamadas ‘sufis’, que têm palavras de amor e breves exemplos e que oferecem aos homens grande devoção; são palavras que  precisam de explicação; pela explicação o entendimento se eleva para o alto e pela elevação multiplica e aumenta a vontade em devoção” (pp. 17-18).

 

“18. O amigo perguntou ao intelecto e à vontade quem estava mais perto do seu amado; ambos correram, chegando mais depressa ao seu amado o intelecto do que a vontade”.

 

“32. As condições do amor são: que o amigo seja resignado, paciente, humilde, temeroso, diligente, confiante e que se aventure em grandes perigos para honrar o seu amado. E as condições do amado são que seja verdadeiro, liberal, piedoso, justo para com seu amigo”.

 

“39. [...] Desde que vi o meu amado nos meus pensamentos nunca se ausentou dos meus olhos do corpo, porque todas as coisas visíveis me representam o meu amado”.

 

“56. Perguntaram ao amigo: ‘Quais são as tuas riquezas’ Respondeu: ‘As penúrias que suporto pelo meu amado’. ‘E qual é o teu descanso?’ ‘O desfalecimento que me dá amor’. ‘E quem é o tem médico?’ ‘A confiança que tenho no meu amado’. ‘E quem é o teu mestre?’ Respondeu e disse que são as significações que as criaturas dão ao seu amado”.

 

“67. O amigo dizia ao seu amado: ‘Tu és tudo e por todo lado e em tudo; e com tudo te desejo todo para que tu sejas todo eu’. O amado: ‘Não me podes ter todo sem seres parte de mim’. E o amigo disse: ‘Tem-me todo e eu todo a ti’. O amado respondeu: ‘E o que terá o teu filho, o teu irmão e o teu pai?’ O amigo disse: ‘Tu és o tal todo que podes chegar a ser todo de cada um que se dá a ti todo”.

 

“100. Perguntaram ao amigo que sinal trazia o amado em seu estandarte. Ele respondeu que de um homem morto. Perguntaram-lhe então por que trazia tal sinal. Respondeu: ‘Porque foi um homem morto e crucificado, e para que aqueles que se gabam de serem seus amantes seguissem o seu escravo”.

 

“358. ‘Diz louco: o que é a religião?’ Respondeu: ‘Limpeza de pensamento e desejo de morrer para honrar o meu amado e renunciar ao mundo para que não haja obstáculo na sua contemplação e para dizer a verdade das suas honras”.

 

* * *

 

Apêndice 2: Sobre a astrologia de Raimundo Lúlio

 

Excerto de LLULL, O novo tratado de Astronomia. Tradução de Esteve Jaulent. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência "Raimundo Lúlio" [Ramon Llull], 2011.

 

“Pergunta-se: O homem possui liberdade contra as constelações superiores? Solução: A liberdade é instrumento da vontade, que é uma parte da alma humana, conjunta que é ao corpo. Por isso no homem a liberdade é uma das partes do homem, e assim é instrumento natural para a escolha, assim como são os ouvidos para ouvir e os olhos para ver. Ainda que as constelações superiores sejam instrumentos naturais para o favorecimento ou o desfavorecimento, todavia não são instrumento conjuntos com os corpos dos homens nem são partes dos mesmos. Por isso o homem, com sua livre vontade, vence os efeitos das constelações. Disto temos experiência; se um homem tem apetite a algum ato natural pela sede ou pela fome, pode, com sua vontade, obrigar o ato de tal maneira que o ato não provenha da potência, embora a constelação lhe dê o apetite” (pp. 178-179).

 

* * *

 

Apêndice 3: Lúlio sobre o Anticristo

 

Excertos de LLULL, Livro contra o Anticristo. Trad. Hubert Jean Cormier. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência "Raimundo Lúlio" (Ramon Llull), 2016.

 

“O Anticristo será um homem tão mau e perverso contra a verdade que, da mesma maneira que será amante da maior falsidade e erro, assim também será contrário à maior verdade nos dizeres e nas obras” (p. 32).

 

“Tão fortemente se multiplicarão os erros e os trabalhos no mundo e tão grandes serão a malícia e a falsidade do Anticristo, e tão pouca será a devoção e a caridade que se terá para com Deus e o próximo, que, se antes do Anticristo vir, não nos prepararmos e dispusermos a combatê-lo, assim como também às suas consequências, seguir-se-á grandioso dano naqueles que viverão no seu tempo, e a nós não será dada a glória pelo mérito que poderíamos ter ao restaurar grande parte dos danos que o Anticristo causaria se, antes de sua chegada, não se fizer a preparação...” (p. 33).

 

“O Anticristo será um rei muito poderoso no mundo e ofertará de diversas maneiras dons aos homens para que caiam em erros. Um desses falsos dons será a liberdade, considerada como um hábito da vontade que se encontraria mortificada pela Fé, pela Esperança, pela Caridade, pela Justiça, pela Prudência, pela Fortaleza e pela Temperança. Desta maneira estariam mortificados os atos das virtudes que serão declinados pela privação e exaltados pelos atos pecaminosos, pelos vícios e pelos hábitos das potências da alma. A oferta de dons do Anticristo terá como resultado a privação da liberdade para entender, amar e lembrar, e por isso o entendimento terá mais fortemente como objeto a imaginação das coisas sensuais do que à Caridade, à Justiça e às coisas intelectuais. E a lembrança terá como objeto muito mais as coisas e as prosperidades deste mundo do que a Bem-Aventurança do século futuro. Desta forma poder-se-á repreender ao Anticristo pelos seus dons, devido à má obra consequente contra o ato das Dignidades Divinas e das virtudes criadas; tal será a obra contra os Princípios pelos quais o homem é criado, recriado e sustentado neste mundo e no outro. Assim será demonstrado que o Anticristo não será Deus, nem profeta, nem filho da Caridade e da Justiça.

 

Juntamente com os dons que ofertará o Anticristo, convém lembrar que os dons que ofertou neste mundo nosso Senhor Jesus Cristo, pois o Anticristo dará terras, cavalos, vestidos, cidades, castelos e outras coisas semelhantes a estas, mas não dará Fé, Esperança, Caridade, etc., e nem dará a si mesmo coisas como pobreza, humildade, paciência, tormentos e morte, por amor e salvação de seu povo. Nosso Senhor Jesus Cristo deu pobreza, humildade, justiça, caridade, paciência, etc., para recriar-nos e por seus dons, que foram dons de Si mesmo, deu-nos atos de Fé, Esperança, Caridade, etc. Por isso, comparando-se os dons que Jesus Cristo nos deu, segundo a celestial Bem-aventurança, com os que ofertará o Anticristo, que serão contrários à vida eterna, poder-se-á vencer o Anticristo e seus dons, por esta contrariedade” (pp. 95-96).

 

“Aos homens que acreditarem nele (no Anticristo) e o adorarem como a um deus, prometerá muitas coisas neste mundo e no outro, pois aos homens que amarem as bondades temporais prometerá saúde, vida longa e filhos, satisfação dos trabalhos que tenham empreendido e muitas coisas semelhantes a estas. E aos homens que amarem a glória celestial, prometer-lhes-á dar conhecimento da Unidade e Trindade de Deus e da Encarnação e união da natureza incriada e criada, e prometerá muitas outras coisas que convém à glória de Deus; pois o Anticristo será contra a verdade da divina Unidade e Trindade e da Encarnação e, por isso, suas promessas serão realizadas de outra maneira, de tal modo que será coisa impossível ao homem dar glória a Deus. Por isso pode o Anticristo ser contrariado em suas promessas mediante a verdade significada pelos Princípios da Glória que os bem-aventurados darão à Unidade, Trindade e Encarnação de Deus.

 

Jesus Cristo prometeu por meio das virtudes gloriosas, e o Anticristo prometerá por meio dos vícios, bem-aventuranças neste mundo e a glória no outro. Jesus prometeu maior glória através da pobreza do que da riqueza e quis que seus apóstolos e discípulos fossem pobres. O Anticristo fará o contrário, pois tornará ricos e bem-aventurados neste mundo àqueles que nele crerem e obedecerem. Assim, da mesma forma que Jesus Cristo prometeu fortemente a Bem-aventurança no outro século o Anticristo fará o contrário, e é por isso que o Anticristo prometerá vencer, confundindo o que nosso Senhor Jesus Cristo prometeu, como se as promessas do Anticristo fossem contrárias aos atos das Dignidades Divinas e às virtudes criadas, e tudo o que Jesus Cristo lhes prometeu será concordante” (pp. 97-98).

 

“O Anticristo atormentará e matará os homens que o contestarem e que não crerem nele. Ora, Jesus Cristo sofreu tormentos para que o povo acreditasse n'Ele e Lhe obedecesse. O Anticristo matará impassivelmente homens, enquanto Jesus Cristo pacientemente sofreu dores muito graves e morte vergonhosa. O Anticristo ameaçará tão terrivelmente os homens que lhes tirará a caridade, multiplicando o temor à caridade e à justiça; Jesus Cristo, no entanto, predicou humildemente a caridade, por isso, os hábitos da liberdade, do temor e da caridade concordarão entre si, compreendendo-se a morte e os tormentos que Cristo padeceu. Os tormentos e as mortes que o Anticristo produzirá podem ser efetivamente reprendidos por suas mesmas obras.

 

Foi demonstrado que é mais conveniente Jesus Cristo ser Deus do que o Anticristo. Dirá o Anticristo que ele é Deus, mas mostrará por suas obras que ele não o é. Por isso matará os homens que não acreditarem nele, dando a entender que não voltará a morrer por amor ao homem. Por este motivo o Anticristo morrerá por morte não natural, demonstrando assim que não é Deus, pois se o fosse, iria à morte pacificamente e não coagido. [...] A morte horripilante, o temor e os tormentos que fará desabar sobre os homens serão enormes. Conforme a pregação que nosso Senhor realizou na Montanha das Bem-Aventuranças, não pediu que os homens se matassem, mas que se convertessem e se esperasse a sua conversão e, além disto, quis garantir a liberdade nos atos virtuosos, sem coagi-los por meio de tormentos, nem matando pessoas, por isso, o Anticristo poderá ser confundido nas suas obras, precisamente pelos tormentos que realizará nas pessoas” (pp. 99-100).

 

24.6.25

A vida de Moisés (S. Gregório de Nissa)

 

Síntese da segunda parte da obra de S. Gregório de Nissa

  

“Neste tratado místico, Gregório fornece um guia para a vida virtuosa em forma de um retrato ideal de Moisés. Consiste em duas partes, que exigem dois tipos diferentes de exegese escriturística. A primeira [...] dá atenção especial ao sentido literal. A segunda parte é uma interpretação alegórica, na qual o grande legislador e líder espiritual de Israel se torna o símbolo da transformação mística e da ascensão da alma a Deus. Toda a obra mostra a influência de Platão e Fílon” (QUASTEN, Johannes. Patrologia: A era de ouro da literatura patrística grega: do Concílio de Niceia ao Concílio de Calcedônia. Rio de Janeiro: CDB, 2023, pp. 404-5).

 

I

 

Moisés nasceu quando o tirano havia ordenado matar os varões (Ex 1,6). Como imitaremos com nossa livre escolha as circunstâncias do nascimento de Moisés?

Todo ser sujeito à mudança não permanece idêntico a si mesmo, passa sempre de um estado a outra. O feminino da vida, aquele que o tirano quer que sobreviva, é a índole material e passional a que é conduzida, ao escorregar, a natureza humana; o renovo varonil é o impetuoso e forte da virtude, que é hostil ao tirano e por esse suspeito de rebelião contra seu poder.

Somos, de certa forma, nossos pais: geramos a nós mesmos de acordo com o que queremos ser; mediante a livre escolha, nos adaptamos ao modelo de varão ou fêmea, virtude ou vício. No começo da vida virtuosa se encontra o nascer que provoca tristeza ao inimigo; o livre-arbítrio faz o papel de parteira. Os sábios e providentes pensamentos, que são os pais deste filho varão, protegem aquele que põem na corrente em uma cesta para não afundar. Esta cesta é a educação, tecida com diversas disciplinas; manterá flutuando sobre as ondas da vida aquele que leva (Ex 2,3).

Quem conseguir permanecer fora da instabilidade constante dos negócios humanos, que imite Moisés e chore, pois as lágrimas são proteção segura para os que se salvam através da virtude (Ex 2, 6).

A filha do faraó, mulher sem filhos e estéril, representa a sabedoria pagã. A cultura pagã é estéril, sempre grávida, porém sem jamais dar à luz em um parto. Os frutos de sua filosofia são todos vazios e imaturos, abortados antes de chegar à luz do conhecimento de Deus.

 

II

 

Quem conviver com a rainha dos egípcios deve correr à que é mãe por natureza, da qual Moisés não se separou no tempo de sua infância, pois foi alimentado com o leite materno. Não devemos nos separar do leite da Igreja: os preceitos e costumes da Igreja, com os quais a alma se alimenta e se fortifica.

Se for necessário viver de novo no estrangeiro, tratar com a filosofia pagã, que seja depois de ter afastado os perversos pastores do uso injusto dos poços (Ex 2, 17), depois de ter refutado os mestres da maldade pelo mau uso da educação.

 

IV

 

O resplendor que ilumina a lama do profeta se acende de um arbusto de espinhos (Ex 3, 1-6). Se Deus é a verdade (Jo 14, 6; 8, 12), e a verdade é a luz, o caminho da virtude que nos conduz ao conhecimento daquela luz, que desceu até a natureza humana, brilha como a luz de uma sarça da terra, que com seus resplendores ilumina mais que todos os astros do céu. Esta passagem ensina o mistério da Virgem: a luz divina, que graças a seu parto, ilumina a vida humana, guardou incorrupta a sarça que ardia sem que a flor da virgindade se secasse no parto.

A definição da verdade: não errar no conhecimento do ser. O erro é uma ilusão que se produz no pensamento a respeito do que não é, como se o que não existe tivesse consistência, enquanto a verdade é um conhecimento firme do que verdadeiramente existe. Alguém, depois de ter passado muito tempo em solidão, embebido em altas meditações, conhecerá com esforço o que é verdadeiramente existente, e o que é o não existente, isto é, aquilo que tem ser só em aparência, ao ter uma natureza que não subsiste por si mesma (Ex 3, 14).

Moisés, instruído pela teofania, compreendeu então que fora da causa suprema de tudo, na qual tudo tem consistência, nenhuma das coisas que são captadas com os sentidos e que se conhece com o pensamento tem consistência no ser. O pensamento vê que nenhum dos seres é com tal suficiência que lhe seja possível existir sem participar do ser. O que sempre é de igual forma, que não muda, é o melhor; aquele que é participado por todos e que não fica diminuído com esta participação, é o que verdadeiramente existe e cuja contemplação é o conhecimento da verdade.


IX / X / XI / XII

 

O ensinamento da verdade é acolhido segundo as disposições dos que recebem a Palavra. Esta mostra a todos o que é bom e o que é mau. Quem é dócil àquilo que lhe é mostrado tem a mente na luz; quem tem a disposição contrária e não aceita que a alma olhe para a luz da verdade permanece na obscuridade da ignorância.

O faraó não se endureceu por querer divino. Ser dirigido pela virtude e cair no vício não se atribui a uma fatalidade estabelecida pelo querer divino: estas diferenças no modo de viver surgem exclusivamente da livre escolha de cada um. Não é uma irresistível força do alto que leva um a estar nas trevas e outro na luz: nós temos dentro de nós, na nossa natureza e em nossa livre escolha, as causas da luz e da escuridão, convertendo-nos naquilo que queremos.

Embora a vida luminosa se apresente igualmente acessível a todos, os que caminham nas trevas são empurrados à obscuridade do mal por suas práticas perversas, enquanto os outros são iluminados pela luz da virtude. A dolorosa retribuição pelo uso perverso da liberdade tem sua origem e causa em nós. Para quem vive sem pecado, não existem as trevas, os vermos, a geena, o fogo (Mc 9, 43).

 

XIII / XIV / XV

 

Moisés ou o que o imita elevando-se na virtude, com a iluminação recebida do alto, considera como uma injustiça de sua parte não guiar os demais a uma vida livre. Moisés infunde-lhes um desejo mais forte de liberdade, pondo diante deles a gravidade dos padecimentos; perto de libertar o povo do mal, traz a morte a todo primogênito egípcio (Ex 12, 29). Considerando a interpretação espiritual, é mais razoável crer que o Legislador quis propor um ensinamento: quem se empenha na luta da virtude contra o vício deve fazê-lo desaparecer em seus primeiros brotos.

Quem engendra o mal, antes do adultério, produziu o desejo; antes do crime, a cólera; quem destrói o primogênito, destrói totalmente a descendência que o segue, do mesmo modo que quem golpeou a cabeça da serpente matou, com o mesmo golpe, o corpo que rasteja atrás. Isto não poderia acontecer se antes as ombreiras das portas não tivessem sido borrifadas com o sangue que afugenta o Exterminador (Ex 12, 23): pelo verdadeiro cordeiro, afasta-se a primeira entrada do mal em nós; pois uma vez que o exterminador esteja dentro, não o expulsaremos com um simples pensamento.

Mais apropriada que a interpretação literal é a interpretação espiritual que exorta aqueles que buscam uma vida libre através das virtudes a abastecer-se com a riqueza estrangeira, para embelezar o divino templo do mistério com as riquezas da inteligência, como fez o grande Basílio.

 

XVI / XVII / XVIII / XIX

 

A nuvem conduz ao mar (Ex 13, 21): o Espírito Santo conduz ao bem os que são dignos. O que a segue atravessa a água, enquanto o guia abre nela uma passagem estreita através da qual se caminha seguro até a liberdade, onde desaparece debaixo da água aquele que perseguia para escravizar. Reconhece-se o mistério da água a que alguém desce junto com todo o exército do inimigo e da qual emerge só, depois de se afogar na água o exército inimigo (Ex 14, 26-30).

O exército egípcio significa as diversas paixões da alma às quais se escraviza o homem. Isto são os cavalos, os carros e os que montam; são os arqueiros, os infantes e o resto do exército dos inimigos (Ex 14, 9). Nos três homens montados no carro (Ex 14, 7), reconhecemos a tríplice divisão da alma: racional, concupiscível e irascível. É necessário que quantos, no Batismo, passam através da água sacramental, façam morrer na água todo o exército do vício; a avareza, o desejo impuro, o espírito de rapina, a tendência à soberba e à prepotência, o impulso à violência, a ira, o rancor, a inveja, os ciúmes... Devemos afogar na água inclusive os maus movimentos da alma e suas sequelas. Comecemos a vida nova sem resíduo de maldade. Afoguemos no Batismo salvador toda pessoa egípcia, toda forma de maldade; devemos emergir sós, sem arrastar nenhum estrangeiro.

 

XXII / XXIII / XXIV

 

A montanha verdadeiramente escarpada e de difícil acesso designa o conhecimento de Deus: a teologia.

Que significa o fato de Moisés penetrar as trevas e nelas ver a Deus? O que se narra aqui parece contrário à primeira teofania (Ex 20, 21). Então a Divindade foi vista na luz; agora, nas trevas. Quanto mais se avança na contemplação, mais se percebe que a natureza divina é invisível. Abandonando tudo o que é visível, não só tudo o que está no campo da sensibilidade, mas também tudo quanto a inteligência parecer ver, marcha sempre para o que está mais oculto, até penetrar, com o trabalho intenso da inteligência, no invisível e incompreensível, e ali vê a Deus. Nisto consiste o verdadeiro conhecimento do que buscamos, em ver no não ver, pois o que buscamos transcende todo o conhecimento, totalmente circundado pela incompreensibilidade como por trevas. Por esta razão disse o elevado João que esteve nas trevas luminosas: a Deus nunca ninguém viu (Jo 1, 18), definindo com esta negação que o conhecimento da essência divina é inacessível não só aos homens, senão também a toda natureza intelectual.

Moisés cresce em conhecimento, confessa que vê Deus nas trevas, agora sabe que a Divindade, por sua própria natureza, é algo que supera todo conhecimento e toda compreensão (Ex 20, 21). Todo conceito, elaborado pelo entendimento com uma imagem sensível para conhecer e alcançar a natureza divina, dá uma imagem falsa de Deus, e não dá a conhecer o próprio Deus. Conhecê-lo consiste em não formar nenhuma ideia d’Ele a partir das coisas conhecidas segundo a forma humana de conhecer.

 

XXXVIII

 

Isto é ver realmente a Deus: não encontrar jamais a saciedade do desejo. É totalmente inevitável que quem o vir se inflame em desejos de o ver ainda mais. Nenhum limite interromperá o progresso na ascensão a Deus, por não haver limite no bem.

De outro ponto de vista, a corrida é quietude. Coloca-te sobre a fenda (Ex 33, 21). Como a quietude é o mesmo que o movimento é o mais paradoxal de tudo. Quem corre não está quieto e quem está quieto não marcha para cima; aqui, ao contrário, o permanecer estável se origina do caminhar para cima. Quanto mais sólida e firmemente alguém se mantém no bem, tanto mais consuma a corrida da virtude. Quem é instável e vacilante quanto à base de suas convicções, por carecer de uma segura estabilidade no bem, é sacudido pelas ondas e jamais alcançará a virtude.



"A sarça ardente" (1476), de Nicolas Froment