O
desafio dos parentes próximos: o Islã da Meia Lua
"Observou o cardeal Martini, arcebispo de
Milão, uma diocese onde os imigrados da África e Ásia são já centenas de
milhares: o enfrentamento que nas décadas anteriores os católicos mantiveram com
os marxistas será transferido para os muçulmanos. Assim, desmentindo todas as
previsões dos que pensavam que o problema do terceiro milênio seria –para os
crentes que ficam– o desafio do ateísmo e a secularização, aqui vemos que será
o desafio de outra religião. E a menos “secular” de todas elas.
Não se tem enfatizado suficientemente
que enquanto o marxismo era um judeu-cristianismo laicizado, o islamismo é um judeu-cristianismo simplificado. De ambos se pode dizer que, sem a mensagem dos
profetas de Israel –desde Abraão até Jesus inclusive–, não teriam tido lugar ou
teriam sido muito diferentes. Assim, o desafio para o cristão é novamente um “assunto
de família”, o qual não é um consolo, dado que precisamente estes são os
enfrentamentos mais insidiosos e violentos.
Começando por estas linhas, quiséramos apontar
algumas das reflexões que recolhemos ao longo de muitos anos sobre a fé
proclamada por Mohamed, “o digno de elogio”, ao que nossa língua chama de forma
aproximada “Maomé”. Parece-nos que a histórica migração, da que agora só vemos
o princípio, e que está levando a uma nova invasão muçulmana da Europa,
justifica o espaço que pretendemos conceder ao tema. Mas, deixando à parte a
atualidade cotidiana, interrogar-se acerca do islã é desde sempre um dos
deveres principais do cristão consciente de sua fé.
O Alcorão, com efeito, é sobretudo um
escândalo: o escândalo de um “Novíssimo Testamento” que declara superado o Novo
Testamento cristão. Enquanto os crentes em Jesus estavam seguros de que com ele
terminava a revelação divina começada com Abraão e Moisés, vemos aparecer uma
religião que não só despoja a Jesus de seu caráter divino senão que, ainda
desfazendo-se em respeitosos elogios para com ele, o relega à condição de
penúltimo profeta, de anunciador de uma parte, mas não de toda a vontade
divina, só completada com as palavras que nos chegam através do último e
definitivo dos reveladores, Mohamed. Com este, os cristãos ficam relegados ao
passado, gente da qual há que se compadecer porque, ainda que tenham avançado
do Antigo ao Novo Testamento, ficaram aí, sem passar ao Alcorão, que se
apresenta como a terceira parte das Escrituras, que começam na Torá judaica.
Ali onde nos primeiros séculos de
expansão chegavam as hordas muçulmanas, só aos politeístas, aos pagãos, se lhes
apresentava o dilema de converter-se e abandonar os ídolos ou ser exterminados.
Não acontecia o mesmo com os judeus e cristãos, “o povo do Livro”, que eram
submetidos a tributo e encerrados em seus anacrônicos guetos à espera de que se
decidissem a aceitar a realidade e reconhecer que a história da salvação havia
dado um passo adiante, que Abraão e Jesus não deviam ser abandonados senão
superados.
Este é, pois, o escândalo –e o mistério–
do Alcorão e da poderosa fé que conseguiu suscitar. Acostumados a olhar os
judeus que seguiram sendo como gente com a visão encoberta, incapazes de
vislumbrar os novos tempos, os cristãos viram-se, por sua vez, considerados
como se estivessem parados na penúltima etapa, sem saber alcançar a última.
Por esta razão o islamismo poderia
aparecer como mais crível que o cristianismo aos ocidentais que agora convivem
com aquele. Tempo atrás era a religião
dos desprezados povos coloniais, e converter-se teria parecido uma
extravagância indigna de um civilizado europeu. Agora, em contrapartida,
começaram as conversões e em alguns países, como França, adveio quase um
fenômeno de massas.
E isto acontece também porque, sob nossa
perspectiva “progressista”, o último que chega nos parece sempre melhor que o
que havia antes. Desde a estrela de Davi à cruz e à meia lua não existe quiçá
um progresso contínuo? Precisamente por chegar depois de Moisés e Jesus Cristo,
não será Mohamed o melhor?
No fundo, são os próprios cristãos os
que apontaram esta ideia de progresso, de superação do judaísmo, para abrir-se
à nova anunciada por Jesus. Nesta passagem da Torá aos Evangelhos tem origem a
visão, que o Ocidente fez sua terminando por laicizá-la nas ideologias “progressistas”,
de uma história como subida que leva sempre a novas conquistas.
O Alcorão pode assim impressionar a convicção –que hoje em dia está inscrita na mentalidade do homem moderno– de que o novo sempre é melhor que o velho. Se o proselitismo muçulmano sabe utilizar esta categoria do espírito ocidental, a perspectiva de uma Europa se não islamizada, ao menos profundamente influenciada por este credo chegado do deserto árabe, poderia parecer menos incrível. Ao menos, entende-se, para a escala humana.
Por outra parte, esta passagem teve
lugar em várias ocasiões. Doze ou treze séculos atrás, muitos dos antepassados
desses muçulmanos norte-africanos que vemos pulular hoje por nossas ruas eram
cristãos. No Egito, no Magreb, na Síria, na Anatólia, nos Bálcãs, na própria
Palestina, povos inteiros deram o passo –e para sempre, a menos que o queiram
de outra forma futuros desígnios divinos– do Novo ao Novíssimo Testamento, de
Jesus a Maomé. O islã também conheceu ilhas de resistência cristãs que duraram
até nossos dias entre os armênios, os coptas monofisitas do Egito e Oriente
Médio, os moçárabes ibéricos. E teve que se retirar de algumas regiões onde a
vida cristã voltou a tomar o poder, sem que a islamização se arraigasse, como
Espanha, Grécia, Sicília, Mata e boa parte dos Bálcãs.
Mas em outros lugares a meia lua foi
mais forte que a cruz; e não só no campo de batalha (que, dentro de uma
perspectiva cristã, significa pouco ou nada) senão naquilo que significa mais,
nos corações. Uma vez conquistados para a nova fé, esses povos permaneceram,
até o presente, fielmente inamovíveis. Ocorreu também nas Igrejas fundadas pelo
próprio são Paulo na costa da Síria e na atual Turquia, na Anatólia. E se a
espanhola mesquita de Córdoba há séculos se transformou em igreja católica,
durante séculos a igreja de Santa Sofia de Constantinopla, rebatizada como Istambul,
encontrava-se entre as mesquitas muçulmanas mais veneradas antes de ser
transformada em museu.
O próprio Anuário Pontifício leva ainda
as marcas do drama: junto aos bispos “residentes”, ou seja, os que estão à
frente de uma diocese efetivamente existente, os bispos “titulares”, aparece
uma lista dos présulos, ou seja, aqueles aos que se lhes atribuiu o “título” de
uma diocese que há mais de mil anos ficou reduzida a um nome, já sem fiéis, que
passaram todos às palavras do Alcorão.
Parece ser que só no norte da África –ilustre
por ser terra de santos, de padres da Igreja e papas– contavam-se quase uns
seiscentos bispados e ao menos havia igual número de regiões situadas a oriente
do Egito. Fora algum ou outro núcleo de resistência (que, precisamente hoje,
pela crise do Oriente Médio estão em vias de desaparição), quase não ficou nada
da abundante semeadura do Evangelho. Todos os esforços para voltar a semear
suas palavras resultaram estéreis. Em pouco mais de vinte anos, do 632 ao 656,
sob os primeiros quatro califas que sucederam a Maomé, os homens do Alcorão se
propagaram desde a Tripolitania ao oeste, até o Indo ao leste e ao norte até o
mar Negro, regiões que eram em grande parte cristãs e onde a fé em Jesus
acabaria por se extinguir.
Como isto pôde acontecer? Que enigmático
significado pode vislumbrar o crente? Isto é o que gostaríamos de ver".
[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a ed. Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 45-50, grifos do original]
[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a ed. Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 45-50, grifos do original]

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