14.4.20

A nossa transformação em Cristo - 3


Excertos do terceiro ("Conhecimento próprio") e quarto ("A verdadeira consciência") capítulos do livro A nossa transformação em Cristo, de Dietrich von Hildebrand. 


Referência: HILDEBRAND. A nossa transformação em Cristo. Tradução de Osvaldo Aguiar E. M. da Costa Maia. São Paulo: Cultor de livros, 2017.

Os destaques em negrito são meus.

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Conhecimento próprio

Vimos já que a disposição incondicional de mudar e o arrependimento são os primeiros fundamentos, indispensáveis, para atingir o fim a que misericórdia de Deus nos destinou – a nova formação em Jesus Cristo. O segundo passo decisivo neste caminho é o pleno conhecimento de nós mesmos (p. 45).

Enquanto não conhecermos as nossas faltas [...] nem com a melhor boa vontade será possível um domínio real dos nossos efeitos. [...] (p. 44)

[...] a verdadeira transformação, a verdadeira destruição de um defeito, o “arrasamento dos montes e colinas” para encher “os vales e as covas” pressupõe sempre que nós próprios reconheçamos, até certo ponto pelo menos, onde se encontram os defeitos. [...] O domínio de um defeito exige igualmente o seu reconhecimento (p. 46).

O primeiro e melhor caminho que se nos abre para chegarmos ao verdadeiro conhecimento de nós mesmos é aceitarmos a luta com defeitos que não conhecemos, através de um ato de obediência. Mas nesta luta só chegaremos a obter pleno êxito no momento em que nós mesmos possamos reconhecer interiormente os nossos defeitos, pois enquanto não atingirmos este segundo grau, não poderemos afirmar que alcançamos o estágio final da luta pelo domínio próprio (p. 46).

[...] Existe um verdadeiro conhecimento de si mesmo, pressuposto de toda santificação, e um conhecimento falso e infecundo de si mesmo, que nos submerge na confusão de uma atitude egocêntrica (p. 46).

O falso e infecundo conhecimento de nós mesmos aparece quando nos analisamos como autoespectadores, com um interesse puramente psicológico. No falso conhecimento próprio, a observação da natureza não é como a espada da justiça, separando o que é bom do que é mau; apresenta-se de modo puramente neutral. Analisamo-nos como analisaríamos qualquer fenômeno natural. A solidariedade com a nossa natureza fica suspensa, de maneira a observarmo-nos como observaríamos qualquer outro ser que despertasse a nossa curiosidade [...] Sempre acabamos por nos considerarmos heróis de romance, sem nos sentirmos responsáveis pelas faltas cometidas (p. 46).

[...] em tal posição não conseguimos compreender as faltas no seu conteúdo e sentido morais. [...] se trata, antes de mais nada, de uma pessoa, de um ser capaz de tomar partido, de um ser que não pode ser encarado senão em face de Deus e do mundo dos valores. Nem repara sequer que somos responsáveis por nós próprios (p. 47).

[...] Os homens que descobrem os seus defeitos por um processo puramente psicológico, totalmente neutral, não se tornam capazes de vencer os seus defeitos por meio dessa simples comprovação. [...] o conhecimento puramente neutral de nós mesmos leva à resignação em face deles. Sentimo-nos mais longe de dominar esses defeitos do que quando não sabíamos da sua existência. Confessamo-los abertamente, sem a menor vergonha, não por humildade ou por consciência de termos cometido uma falta, mas apenas porque os convertemos numa questão psicológica interessante, indiferente (p. 47).

O único conhecimento próprio verdadeiro e fecundo é o que nasce do confronto de nós mesmos com Deus. [...] devemos fixar os nossos olhos em Deus [...] e perguntar: “Quem és tu? Quem sou eu?”. Devemos dizer com Santo Agostinho: “Se eu pudesse conhecer-te, conhecer-me-ia a mim mesmo”. Só mediante o conhecimento da nossa situação metafísica, à luz do nosso destino final e do fim para que fomos chamados, poderemos alcançar o conhecimento adequado de nós mesmos (p. 48).

Só a luz que vem de Deus e a chamada que Deus nos dirige nos abrem os olhos às nossas insuficiências e defeitos: só elas podem mostrar-nos a distância entre o que somos e o que realmente devíamos ser [...] Este conhecimento próprio exige uma disposição de mudança (pp. 48-9).

O interesse pelo que somos é uma consequência da vontade de nos tornarmos homens novos em Jesus Cristo. [...] Desejamos transformar-nos por amor de Deus, e, para nos tornarmos diferentes, é necessário saber como somos. O confronto com Deus, tal como o vemos na doutrina da Igreja, tornar-nos verdadeiramente perspicazes na busca dos valores e mostra-nos implacavelmente os nossos defeitos (p. 49).

[...] Como se baseia na disposição de mudança, o reconhecimento de um defeito contém em germe a vontade de o dominar. Por muito doloroso que seja o reconhecimento do que em nós há de obscuro e de falível, nunca chega a ser deprimente como o conhecimento puramente natural. Em primeiro lugar, concede-nos a felicidade de aprofundarmos cada vez mais na verdade; e quanto mais penetramos na verdade, tanto mais próximos estamos de Deus, manancial de toda a verdade, a verdade mesma. Quando se desvanecem as ilusões a nosso respeito, e despertamos do engano em que dormíamos, quando superamos a tendência que nos impedia de ver muitas coisas, atingimos já um enorme progresso, uma nova etapa no caminho da liberdade. A libertação do nosso orgulho, que sempre trata de nos enganar, eleva-nos e torna-nos felizes (p. 49).

[...] Devemos pedir e agradecer a Deus a graça de nos abrir os olhos para os perigos verdadeiros, indicando-nos onde devemos enrijecer a luta (p. 50).

Deveríamos beijar encarecidamente as mãos dos que destruíssem as falsas ilusões que sobre nós mesmos nutrimos. Quantas vezes teremos nos convencido de que o entusiasmo por uma virtude é já possuí-la! [...] Quando o entusiasmo se esvai, a nossa natureza geme com dor [...] (p. 50)

[...] para o cristão que vive da fé, o conhecimento de si mesmo não conduz nunca ao desespero covarde e desalentador, nunca pode leva-lo a sucumbir sob o peso da culpa. Tem a mais absoluta certeza de que Deus quer a sua santificação [...] Sabe muito bem que, por si mesmo, nada pode, mas que em Cristo pode tudo (p. 51).

Pelas nossas forças não conseguiremos lançar a ponte sobre o abismo que nos separa de Deus; temos de ser guiados por Cristo [...] (p. 51)

[...] O pecador tem que sentir-se cheio da ânsia de se reconhecer tal como é diante de Deus, tem que despertar de todas as ilusões e de todos os enganos a seu respeito, e descobrir todas as suas faltas e fraquezas. [...] Mas nunca deve convencer-se de que é fácil tal conhecimento, nem que todas as suas faltas se tornarão visíveis e manifestas logo que nasça o desejo de se conhecer (p. 51).

Deve convencer-se, com saudável desconfiança, de que se acha ainda enredado em muitas ilusões e deve suplicar continuamente: “Limpa-me das minhas culpas escondidas”. Só a obediência aos diretores espirituais ou aos superiores pode nos conduzir ao verdadeiro conhecimento de nós mesmos e à liberdade que este conhecimento dá. [...] é imprescindível o olhar objetivo do diretor espiritual, do superior a quem Deus nos confiou, ou dos nossos bons amigos, para conseguirmos conhecer-nos (pp. 51-2).

[...] há alguma coisa que só a ele [ao cristão] compete: é a vontade incondicional de “morrer” para converter-se num homem novo em Cristo, e o desejo, que essa vontade traz consigo, de se conhecer tal como é realmente. Esta ânsia fá-lo implorar: “Senhor, faz que eu veja” (Lc 18,41) (p. 52).


* * * 



A verdadeira consciência

[...] Nas conversões acontece uma coisa semelhante ao despertar de uma sonolência. O aparecimento da realidade de Deus, o conhecimento da situação metafísica em que Deus colocou o homem [...] traz consigo um novo estádio de consciência. No converso, que o cardeal Newman compara a um homem que sai das fundas galerias de uma mina e vê pela primeira vez a luz do dia, a sua vida interior parece um cochilar, um vago crepúsculo da consciência (p. 53).

Também pelo propósito de seguirmos incondicionalmente Cristo, conseguimos na nossa vida um campo mais extenso para a consciência. Existem, porém, muitas espécies de consciência [... ] (p. 53)

Existe, por exemplo, uma consciência perniciosa, de valor negativo, oposta à verdadeira consciência, que pode destruir a nossa vida interior [...] (p. 53)

Esta caracteriza-se por impedir-nos de que alguma coisa se apodre totalmente do nosso espírito [...] (p. 54)

Mas na falsa consciência, temos de distinguir duas espécies fundamentais.

Em primeiro lugar, a perversão da mentalidade normal pela destruição do traço característico das nossas atitudes intencionais, graças a uma exagerada observação reflexiva de nós mesmos.

Em segundo lugar, a hipertrofia da consciência, que nos leva a permanecer no puro e simples conhecimento, quando é o momento de agir e de tomar uma atitude (p. 54).

[...] primeira espécie. Há homens que fazem incidir a sua atenção continuamente sobre si mesmos, e que por isso não se acham em condições de se deter a considerar um objeto. Quando ouvem uma bela música, prestam excessiva atenção às suas próprias reações, e, assim, vão perdendo a capacidade de corresponderem a uma obra de arte musical (p. 54).

[...] vida normal do espírito do homem [...] sua atenção deve fixar-se totalmente no objeto [...], sem atender à sua própria atuação, mas apenas ao objeto concreto da suas observações. Quando [...] se olha de soslaio para a atuação do próprio sujeito, destrói-se o contato com o objeto. Este deixa de nos falar direta e realmente [...] (p. 54)

[...] Nesta falsa consciência, somos a todo momento espectadores de nós mesmos. Contemplamo-nos de um ponto exterior e envenenamos com isso o verdadeiro desenvolvimento da nossa vida, pois na atenção que se dedica a um objeto, vai implícito um certo “esquecimento de nós mesmos”, e só assim se pode estabelecer um contato real com as coisas e com o seu logos (p. 55).

A maneira de consciencializar uma fixação de critério que estamos realizando é diferente, em princípio, do modo de sentir conscientemente um objeto, isto é, do modo de tomar consciência de uma coisa. Existem duas orientações fundamentais na vida da nossa alma: a orientação intencional para um objeto que se acha diante de nós e cuja peculiaridade se apresenta a nós, como acontece quando vemos uma casa, por exemplo; e outra, a realização consciente de um ato, a constância de uma fixação de critério, de que maneira nenhuma pode ser o objeto, pois é qualquer coisa que se desenvolve em nós, em que nós participamos, como acontece, por exemplo, quando nos alegramos com alguma coisa (p. 55).

[...] Os nossos critérios vivem do embate com o objeto, dirigem-se intencionalmente para esse objeto e têm de se produzir de maneira retilínea, isto é, sem se debruçarem sobre si mesmos (p. 55).

Por isso, os homens nunca seriam capazes de sentir verdadeiro amor, se, em vez de contemplarem a beleza do ser amado, se ocupassem na consideração dos seus próprios sentimentos [...] (p. 55)

Esta falsa consciência é mortal para a vida interior. Não nos permite vibrar em face dos valores, e alimenta o nosso orgulho, pois um homem assim dotado, em cada boa ação que pratica dirige os olhos para si mesmo e acompanha como espectador todos os seus atos. [...] Como cristãos, devemos mostrar-nos “inconscientes” segundo este tipo de consciência. [...] “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita” (p. 56).

A segunda espécie de falsa consciência provém de uma hipertrofia, de um predomínio exagerado da função de conhecer. Encontramo-la naqueles homens que, quando as circunstâncias exigem deles um juízo determinado ou um ato, não são capazes de se desprenderam da análise. [...] Por muito justificável que pareça a análise do objeto [a Nova Sinfonia de Beethoven é exemplificada pelo autor], quando este é constituído por relações de ordem estética, a verdade é que não permite viver a beleza (p. 56).

Outro homem, no momento de amar, resolve converter o ser amado num objeto de conhecimento psicológico, observa-o, e verifica com interesse como se comportou naqueles instantes. [...] Igualmente absurda seria a atitude de um homem, que ao ver outro em perigo, examinasse a expressão angustiada do seu rosto, em vez de o salvar (pp. 56-7).

Na vida do homem, o conhecimento possui um duplo objetivo. Aparece, em primeiro lugar, como valor a se; em segundo lugar, como fundamento do nosso querer e dos nossos critérios. Constitui um dos traços essenciais do homem como ser espiritual, isto é, único ser terreno capaz não só de estabelecer com o mundo que o rodeia um contato causal, como também de participar intencionalmente no seu ser. [...] (p. 57)

Nesta singular consciência [...] revela-se de maneira especial a soberana atitude do homem como imagem de Deus e rei da criação. Não compreenderia o sentido do homem quem tentasse negar que o conhecimento pode apontar-se como fim do homem, que o homem foi chamado a penetrar o Cosmos com o seu pensamento [...] (p. 57)

Em segundo lugar, o conhecimento serve de fundamento a todo o nosso querer e atuar, nas nossas definições de critério. Só mediante o conhecimento podemos apoderar-nos do valor das coisas, dar respostas segundo o nosso juízo, atuar no mundo exterior pelas nossas ações [...] Não fomos chamados apenas a reconhecer Deus e a contemplá-lo cara a cara, mas também a submergir-nos n’Ele, suplicantes a deixarmo-nos penetrar pelo seu olhar amoroso. A verdadeira união com o ser consiste no frui [...] e na entrega plenamente responsável, baseada no conhecimento (p. 58).

O homem para quem o conhecimento é a única maneira de contatar com o ser, para quem as coisas perdem todo o interesse a partir do momento em que foram explicadas, é um homem deformado. Não sente desejo de participar em tudo aquilo que é. O conhecimento não é para ele um meio de participar no ser, mas uma categoria a se, dotada de leis próprias, que já não tem como finalidade possuir a verdade. [...] o meio de conhecer converteu-se para ele num fim (p. 58).

Quando se trata, porém, de assuntos de profunda transcendência, que encerram um elevado valor, estes exigem que ultrapassemos o contato puramente cognoscitivo, para atingirmos, mediante o conhecimento, as soluções daqueles problemas que envolvem uma fixação de critério. Determinadas situações requerem que nos inclinemos para a ação. Quem sofre de uma hipertrofia do conhecimento desconhece o tema objetivo de cada situação, e por conseguinte, as suas exigências. [...] Nunca chega a atingir o essencial, que seria o fundamento de uma nova atuação para a fixação de critério. Tal homem sempre permanece como espectador, nunca chega a aproximar-se verdadeiramente das coisas, não se deixa arrastar para a sua órbita (pp. 58-9).

Este intelectualismo antiobjetivo e desagregador é a segunda espécie de falsa consciência. [...] O homem interessa-se então por todos os temas. [...] foge do contato objeto, para contemplar tudo “pelo lado de fora” [...] (p. 59)

A verdadeira consciência bem pouco tem que ver com tudo isto, pois a relação intencional e significativa com o ente atinge a primazia sobre os valores puramente associativos ou condicionados por influxos corporais. O homem inconsciente é presa de todas as influências causais. Quando dormimos mal, por exemplo, o mundo aparece-nos trise e sem brilho. [...] Não somos capazes de nos desligarmos de um humor puramente condicionado pela nossa própria pessoa [...] Se uma situação nos faz recordar antigos acontecimentos desagradáveis [...] por causa de uma simples associação, deixamo-nos assaltar por uma aversão ou por um temor injustificados, que podem conduzir-nos a juízos errados (p. 59).

O homem consciente só ao conteúdo objetivo atribui valor normativo para a fixação de critério. [...] É capaz de distinguir perfeitamente as impressões válidas das que não têm valor nenhum. A referência intencional e significativa ao objeto conseguiu vencer as influências psicológicas e os preconceitos puramente associativos (p. 59).

Podemos afirmar que a nossa inteligência atingiu a idade adulta quando nela alcançaram predomínio exclusivo o verdadeiro conteúdo das coisas e as relações intencionais com as mesmas. [...] Para encarar todas as coisas in conspectu Dei, “diante de Deus”, e para encontrar seu sentido partindo do espírito de Jesus Cristo, é necessário que o elemento intencional e significativo predomine sobre aquilo que é puramente associativo e apenas fisicamente condicionado; é pelo menos necessária uma distinção clara entre o que tem e o que não tem valor (p. 60).

Existe outro fato intimamente relacionado com esta característica da verdadeira consciência: o despertar para uma plena maioridade moral, para a capacidade de sancionar. Os homens inconscientes vão para onde a sua natureza os arrasta. Identificam-se com as respostas que a sua natureza lhes oferece. Não sabem fazer uso das enormes possibilidades da pessoa espiritual. A sua correspondência aos valores, mesmo quando é acerada, possui sempre o caráter de puro acaso. [...]  Os valores não exigem apenas um “sim” derivado das circunstâncias naturais em que o acaso nos coloca; exigem um “sim” plenamente consciente, expressão da personalidade livre. [...] (pp. 60-1)

O homem consciente é tão independente da sua natureza, que não aceita de olhos fechados o que ela lhe proporciona [nota: o autor está sempre se referindo à “natureza” em seu estado concreto, caído, e não em sentido abstrato e ideal; seria nosso “homem velho”]. Se nele germina, por exemplo, a inveja ou o pensamento de lesar outra pessoa, domina estas tendências daninhas recorrendo à sua consciência isenta. Não identifica as tendências naturais com o centro livre e consciente da pessoa; declara abertamente não se solidarizar com elas. [...] o homem consciente não dá uma resposta casual, ditada pela natureza; responde também com o centro livre da sua pessoa: é esse centro que sanciona a resposta (p. 61).

Evidentemente, só pelo uso desta capacidade de sanção é que as nossas reações aos valores podem conseguir um caráter livre, proveniente do espírito. E só a não utilização deste centro consciente da pessoa nos impedirá de atingir a maioridade moral e de respondermos a Deus com o “sim” que Ele nos pede. Quando atingirmos estes estágios, a nossa vida ganhará aquela unidade interna, fundada em Deus, que nos coloca acima dos fracassos da nossa natureza [...] (p. 61)

Com o crescimento da consciência, aparece relacionada a continuidade [...] O homem inconsciente vive do momento que passa, torna-se prisioneiro da impressão momentânea, que naturalmente aparece objetivamente condicionada por muitas vivências anteriores. As verdades a que conseguiu chegar e os valores que se lhe deparam não permanecem como uma propriedade que nunca mais irá se perder [...] (p. 61)

A vida do inconsciente muda constantemente segundo o que o rodeia a cada instante, ou torna-o tão conservador que o faz viver apegado a determinadas impressões dos primeiros tempos [...] A verdadeira continuidade, porém, nada tem a ver com um temperamento conservador, como o dos camponeses, e menos ainda com a rendição absoluta à força do costume (p. 62).

Quem possui a verdadeira continuidade conserva todas as verdades e todos os valores autênticos que pouco a pouco foi descobrindo. Confronta organicamente cada nova verdade e cada novo valor com as verdades e com os valores já conhecidos [...] anseia por contemplar todas as coisas na harmonia do conjunto [...], à luz de Deus. [...] (p. 62)

Só quem possui a verdadeira continuidade [...] coloca todos os fatos da vida no quadro da situação metafísica do homem e contempla-os com olhos de eternidade. Retém a verdade fundamental de cada situação para assim contemplar tudo à luz de Deus (p. 62).

Sem continuidade, não é possível transformar-nos em Jesus Cristo, pois para isso é indispensável que a luz de Cristo ilumine toda a nossa vida, e que em face de qualquer ato perguntemos a nós próprios o que faria Cristo em semelhante situação. Devemos pautar todas as coisas por Cristo e assim as conseguiremos coordenar entre si. Só a continuidade torna possível o autêntico arrependimento, pois só ela permite compreender que uma conduta nada perde da sua importância pelo fato de ser passada, que a maldade de uma falta não diminui pelo fato de se situar num passado longínquo (pp. 62-3).

A consciência que encontramos na verdadeira continuidade está intimamente relacionada com a verdade. [...] (p. 63).
[...] Estar despertos quer dizer viver in conspectu Dei, considerar todas as coisas em função do nosso destino eterno [...] (p. 63)

[...] todos aqueles para os quais não brilhou ainda o lumen Christi são ainda inconscientes, não despertaram ainda para a vida. [...] (pp. 63-4)

[...] A pessoa só se encontra totalmente presente na resposta clara transformada pela sanção, pois só esta resposta consegue uma realização total e valiosa. [...] (p. 64)

[...] O homem verdadeiramente consciente [...] já não é presa de ilusões a respeito de si mesmo. O seu ser foi iluminado pela luz de Deus, que ele deixou penetrar até aos recantos mais íntimos (pp. 64-5).

A vida passa a desenvolver-se em face de Jesus Cristo e não se pode tolerar que torrentes vitais ocultas, mal conhecidas, que não foram aferidas por Cristo, continuem a ditar-lhe uma conduta. O olho espiritual da sua pessoa, iluminado por Jesus Cristo, penetra nas profundidades do seu ser, dissipa todas as ilusões. Pode-se dizer que a sua vida é dotada de unidade, o que não acontece no homem inconsciente, em que podem subsistir, sem se fundirem, diversas e opostas correntes vitais, sem que ele perceba a oposição que entre elas reina (p. 65).

[...] O homem consciente permanece sempre o mesmo, atingiu a unidade de vida, porque reduziu tudo a um denominador comum [Cristo]. [...] Tornou-se simples no mais alto significado da palavra (p. 65).

Exemplo típico da verdadeira consciência é o das Confissões de Santo Agostinho, que tudo confrontava com Deus e tudo expunha com clareza frente à face de Deus, e assim alcançou plena consciência de si mesmo (p. 65).

O cristão deve esforçar-se para que em toda a sua vida penetre a luz da verdade, o lumen Christi [...] (p. 65)

[...] Na consciência vai-se concretizando o sentido da tarefa que temos de levar a cabo sobre a face da terra, e este depende [...] do “sim”, mediante o qual nos entregamos a Deus para que nos transforme, aquele “sim” que Deus quis ouvir dos lábios da Santíssima Virgem [...] “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Foi esta a frase essencial que Deus confiou à humanidade para que a pronunciasse (p. 66).


12.4.20

A nossa transformação em Cristo - 2


Excertos do segundo capítulo ("Arrependimento") do livro A nossa transformação em Cristo, de Dietrich von Hildebrand. 

Referência: HILDEBRAND. A nossa transformação em Cristo. Tradução de Osvaldo Aguiar E. M. da Costa Maia. São Paulo: Cultor de livros, 2017.

Os destaques em negrito são meus.

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Arrependimento

O arrependimento surge no início do encontro da alma com Deus. [...] O confronto da nossa pessoa com Deus força-nos a reconhecer a nossa indignidade e fraqueza, gera a dor das nossas culpas, queima-nos o coração e obriga-nos a prostrar-nos diante de Deus, cheios de arrependimento, e a exclamar: “Só contra ti pequei e cometi iniquidades diante do teu rosto” (p. 35).

Apenas pelo arrependimento nas nossas culpas nos poderemos afastar decisivamente do mal e dirigir os nossos passos para Deus. [...] Sem a disposição de saldar as ofensas a Deus [...] é impossível uma verdadeira entrega a Deus. [...] Só por meio do arrependimento se pode fundir toda a dureza do nosso coração, de maneira a provocar aquela docilidade de que já falamos, a capacidade de recebermos a forma de Cristo (p. 35).

O verdadeiro arrependimento [...] encerra uma patente transformação, um repúdio das faltas em que incorremos: uma franca desautorização de tudo o que aconteceu e um abandono do lugar em que nos encontrávamos quando caímos na tentação. Afasta-nos dos homens com quem convivíamos até aquele momento e, em princípio, leva-nos a renunciar à posição que ocupávamos. Abandonamos a defesa do amor próprio e da dureza interior, e chegamos à humilhação que faz escutar a voz da consciência. [...] O coração é trespassado pela dor, mas ao mesmo tempo é iluminado pelo desejo do bem (p. 36).

No arrependimento, não nos afligimos apenas pelo pecado cometido, pronunciamos sobre ele uma contundente sentença, afastamo-nos dele, e [...] procuramos reparar a ofensa. Mas aqui nos deparamos com a nossa impotência, pois não podemos dar por inexistente a falta em que incorremos. [...] Por isso, o arrependimento, quando não se enche de esperança na misericórdia de Deus, conduz ao desespero. O arrependimento de Judas foi deste tipo (pp. 36-7).

[...] no arrependimento cristão encontramos sempre uma imploração da misericórdia divina. [...] buscamos espontaneamente a pena merecida, ao mesmo tempo que suplicamos a Deus, [...] que aceite a nossa reconciliação, tendo fé no seu poder de apagar todos os pecados (p. 37).

[...] O cristão sabe perfeitamente que nenhum arrependimento pode destruir a culpa do pecado, mas sabe também que “o Cordeiro de Deus apaga toda as culpas”, e que Deus [...] perdoa pelos méritos de Jesus Cristo a todos aqueles que, arrependidos, lhe confessem as suas faltas. A transformação implícita na contrição vem a ser por isso um regresso a Deus, um refúgio na misericórdia divina (p. 37).

À contrição corresponde a consciência de termos pecado, a convicção de que não temos direito a sermos perdoados, como o filho pródigo [...]; embora ao mesmo tempo abriguemos a esperança da incompreensível grandeza da misericórdia de Deus. É exemplo deste tipo de arrependimento o de Davi depois de pecar com a mulher de Urias, ao contrário do sentimento de culpa em Adão, que por remorsos se escondeu de Deus e lhe quis fugir; daquele tipo foi ainda o arrependimento de São Pedro depois de ter negado Cristo, quando o olhar de Jesus lhe transpassou o coração (p. 37).

A esperança da reconciliação com Deus [...] não é um elemento da contrição, mas torna o arrependimento  do cristão mais profundo e confere-lhe um caráter que o distingue do puro arrependimento natural. Nem por isso a dor dos pecados é menor. Comparados com a misericórdia e com o infinito amor de Deus, os pecados surgem-nos infinitamente mais graves; mas a dor é mais luminosa, mais consoladora, e o arrependimento baseia-se no amor. Só as lágrimas dessa dor são lágrimas verdadeiras; as do obscuro arrependimento desesperado carecem do consolo que encontramos no pranto do cristão; o desesperado apenas pode derramar lágrimas de nojo por si mesmo [...] (pp. 37-8).

[...] faz parte do verdadeiro arrependimento o desejo de nos reconciliarmos com Deus e de voltarmos a percorrer os seus caminhos. No verdadeiro arrependimento encontramos, portanto, ao lado de um aspecto relativo ao passado, um outro, relativo ao futuro. A transformação que através dele se realiza contém o desejo imanente de nunca mais nos separarmos de Deus. Mas esta concreta resolução não pode ser imediatamente levada à prática; a sua plena realização não será possível enquanto não se puder obter a reconciliação com Deus (p. 38).

[...] Não pensamos simplesmente: “Como pude eu fazer estas coisas?; mas dizemos também: “Nunca mais voltarei a fazê-las” – um repúdio da culpa para o futuro. [...] (p. 38)

É impossível penetrar no mundo dos valores morais, [...] se não compreendermos que é necessário adotar uma posição em face das faltas passadas, e se não abandonarmos a ideia de que as faltas anteriores podem perder atualidade. [...] (p. 39)

[...] não é possível reconciliarmo-nos com Deus enquanto a nossa falta não for perdoada por Ele, e enquanto não cumprirmos a respectiva penitência. [...] O cristão conhece o enorme dom que a graça lhe confere pelo sacramento da penitência, pois quando confessa as faltas ao representante de Deus, Cristo destrói as suas culpas e lança uma ponte sobre o abismo que o separa de Deus. Sabe que o obstáculo ao livre desenvolvimento da vida sobrenatural foi eliminado pela absolvição do sacerdote [nota: em seguida o autor menciona a contrição perfeita como exceção] (pp. 39-40).

Nem os próprios profetas, nem qualquer homem antes de Cristo, pôde apagar o pecado mediante as suas próprias forças; mesmo nestes casos, o perdão e a destruição das faltas foi operada pela paixão de Cristo (p. 40).

Ainda que o arrependimento não contenha o poder de apagar as faltas, possui, no entanto, o poder objetivo de causar uma modificação interna, e neste sentido é insubstituível. Subjetivamente, porém [...], a alma fica plenamente convencida de que sem o desaparecimento da culpa não pode operar-se a transformação interior, e de que o desejo de se converter é inútil se as culpas não tiverem sido apagadas pelo sangue de Cristo. [...] (p. 41)

[...] Existe [...] um arrependimento passivo, o qual, aguardando também que a misericórdia de Deus perdoe as culpas, não espera, no entanto, a purificação e a santificação. É uma atitude de falsa humildade, que leva a considerar tão arraigada a nossa tendência para o pecado que se concebe como pura jactância o propósito de melhorar a vida futura. E, assim, o único caminho seria encomendar-se à misericórdia de Deus, suportando com paciência as culpas da vida (p. 41).

No luteranismo, o conceito dogmático de justificação conduz a um arrependimento passivo semelhante a este, pois para Lutero não existe purificação nem justificação [nota: entenda-se, não existe justificação real, transformação ontológica das potências da alma que entram em jogo na vida moral, no sentido do dogma católico]; simplesmente as nossas culpas não são tomadas em consideração graças a Cristo. [...] (p. 41)

O verdadeiro cristão sabe perfeitamente que, entregue a si mesmo, voltará a cair; mas sabe também que, no batismo, recebeu de Jesus Cristo uma vida sobrenatural, e que pela graça de Deus pode e deve converter-se num homem novo. [...] é estéril todo o propósito que não nasça da dor de contrição, visto não proceder da sua última razão de ser, isto é, não nascer de Deus para se dirigir a Deus. [...] (p. 42)

O verdadeiro cristão exclama com Davi (Sl 59,19): “Um espírito contrito vale aos olhos de Deus tanto como uma oferenda; oh Deus, Tu não desprezarás um coração contrito e humilhado”. Do arrependimento levado a tal extremo, surgirá a valiosa e heroica resolução de nos convertermos num homem novo. Por meio deste arrependimento, o cristão lança de novo as suas âncoras em Deus, e do fundo da suas fraquezas e das suas misérias floresce a necessária vontade de nunca mais tornar a separar-se d’Ele, e nasce a sagrada audácia de “se despir” do homem velho par ase vestir do “homem novo” em Jesus Cristo (pp. 42-3).

No arrependimento, encontramos uma verdadeira renúncia de nós mesmos, em que o orgulho se desfaz e a dureza do coração abranda. Pelo arrependimento renunciamos aos caprichos do critério próprio, que nos parece tão natural, mas que torna extremamente difícil, por exemplo, pedir perdão a alguém com quem se foi injusto. Se há arrependimento, rendemo-nos por humildade e por amor. Desaparece a dureza que nos fecha a alma para Deus e para o próximo; o violento prurido de termos razão e de defendermos as posições própria, é afastado. Adotamos uma atitude que nos abre para tudo o que é bom e nos obriga a abandonar a defesa rígida dos pontos de vista pessoais (p. 43).

O arrependimento significa também uma singular penetração nas profundidades. Despertamos da inconsciência em que vivemos para a plena transcendência da situação metafísica do homem, para a vida segundo a vontade de Deus, para os seus sagrados mandamentos, para a ideia do nosso destino último da responsabilidade que Deus nos confiou, da importância que a nossa passagem pela terra tem para a nossa vida ultraterrena. [...] Pelo arrependimento, correspondemos à infinita santidade do nosso Senhor absoluto, do nosso eterno Juiz, a cujo julgamento não podemos furtar-nos, e reconhecemos, além disso, a nossa falibilidade. Por isso o arrependimento é a mais antiga palavra dirigida pelo homem, depois da queda, a Deus. Não é simplesmente indispensável para a nossa transformação em Cristo, para alcançarmos a docilidade do nosso ser e sermos formados por Jesus Cristo; dá também à alma do homem uma beleza particular, pois nele aflora uma atitude cheia de respeito, de humildade e de amor; com ele abandona o homem a torre de marfim de sua soberba [...], e encaminha-se para a região que lhe permite apresentar-se animosamente perante Deus (pp. 43-4).


11.4.20

A nossa transformação em Cristo (Dietrich von Hildebrand) - 1


Excertos da introdução e do primeiro capítulo ("Disposição de mudar") do livro A nossa transformação em Cristo, de Dietrich von Hildebrand. 

Referência: HILDEBRAND. A nossa transformação em Cristo. Tradução de Osvaldo Aguiar E. M. da Costa Maia. São Paulo: Cultor de livros, 2017.

Os destaques em negrito são meus.

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Introdução

Deus chamou-nos para nos tornar “homens novos” em Jesus Cristo. Pelo batismo, Ele confere-nos uma nova vida sobrenatural, faz-nos participantes da sua existência. Esta vida, porém, não deve jazer escondida, como um segredo, no mais íntimo da nossa alma; deve determinar a transformação de toda a nossa personalidade. A incomensurável misericórdia de Deus não nos chamou somente a uma perfeição ética, que não é essencialmente distinta da perfeição natural e que apenas recebe transcendência sobrenatural pelo caminho oculto da graça, mas sim à sobrenatural plenitude em Jesus Cristo, que, mesmo qualitativamente, é coisa completamente diferente da simples virtude natural (p. 7).

Disposição de mudar

Também o homem não religioso conhece o propósito de mudar. Também ele deseja desenvolver-se e aperfeiçoar-se [...] ao contrário do que acontece com o que se abandona e vai para onde o seu temperamento o conduz (pp. 11-2).

[...] Mesmo para um homem da Antiga Aliança se tornava patente a profunda ferida causada na natureza humana pelo pecado original; e assim chegava à convicção de que esta ferida não podia sanar-se unicamente pelas forças humanas, e que o homem tinha necessidade de ser salvo. [...] nem o arrependimento mais intenso seria suficiente para apagar a mancha do pecado original que o separava de Deus, [...] nem a melhor das boas vontades, nem todos os esforços de uma ética natural lhe poderiam proporcionar as belezas do estado paradisíaco. Vivia nele o profundo desejo do Salvador [...] (p. 12)

Jesus Cristo, o Messias, não é somente o Salvador que destrói a culpa original e nos limpa de todos os pecados, mas é principalmente o distribuidor de uma nova vida divina. [...] (p. 12)

É evidente a diferença entre a disposição de mudar dos cristãos e dos idealistas naturais. O idealista está cheio de confiança na natureza humana. [...] Não concebe a nossa incapacidade para apagarmos uma culpa de caráter moral e para provocarmos uma renovação ética originada do nosso próprio interior. [...] Nem sequer suspeita da insuficiência total de qualquer ética natural e da qualidade incomparavelmente superior da virtude assente sobre bases sobrenaturais (p. 13).

A sua disposição de mudar difere da do cristão essencialmente nos seguintes pontos: em primeiro lugar [...] A disposição de mudar limita-se sempre a um aperfeiçoamento imanente da natureza [...] Para os cristãos, o processo da mudança é uma transformação, uma superação inicial do humano pelo divino, um salto para o sobrenatural (pp. 13-4).

Há uma segunda circunstância [...] A disposição de mudança nos idealistas refere-se a pontos determinados [...] deseja desembaraçar-se desta ou daquela falta, adquirir esta ou aquela virtude; o cristão, pelo contrário, deseja ser outro totalmente, tanto no que é naturalmente mau como no que é naturalmente bom (p. 14).

Podemos acrescentar, em terceiro lugar, que o homem que aspira a uma elevação ética natural, apesar de toda a boa vontade de modificar-se, parte do terreno da natureza: afastar-se dele seria cair no vácuo. O cristão, porém, renuncia a apoiar-se neste terreno, pelo desejo de ser um homem novo. [...] (p. 14).

Há muitos católicos que possuem uma disposição de mudar limitada. Esforçam-se por seguir os mandamentos e por se despojarem daqueles defeitos que reconhecem culposos, mas não têm vontade nem disposição de se converterem num ser completamente novo, de romper com as medidas puramente humanas, de considerar tudo à luz sobrenatural; não se decidem a uma total metanoia, a uma verdadeira transformação. De fato, apoiam-se com maior firmeza naquilo que, segundo medidas humanas, lhes parece justo. Em consciência, não se afastam da ideia de uma afirmação pessoal no mundo. Não se julgam obrigados, por exemplo, a amar os inimigos; permitem-se até um certo grau de desenvolvimento do orgulho, e julgam-se com direito a repelir, segundo as relações naturais, qualquer humilhação. Parece-lhes perfeitamente natural e compreensível a pretensão de serem bem considerados no mundo; não querem passar por “loucos de Cristo”, concedem determinados limites ao temor da opinião alheia, pretendem afirmar o valor próprio mesmo aos olhos do mundo. Mantêm-se fiéis a muitos convencionalismos e não sentem nenhum escrúpulo em deixar, dentro de certos limites, “que as coisas corram tal como são”. [...] (pp. 14-5)

Só possui a plena e incondicionada vontade de mudar aquele que, ao ouvir da boca do Senhor: “segue-me”, segue o Senhor “deixando tudo”. Isto não quer dizer que deva abandonar tudo no sentido de seguir os conselhos evangélicos (que para isso é preciso termos sido chamados especialmente), mas sim que [...] o cristão se abandone a si mesmo e abandone todas as medidas puramente naturais, para se transformar em Cristo. A incondicional disposição de mudança [...] constitui o primeiro pressuposto da transformação em Cristo (pp. 15-6).

[...] é necessário também o ardente desejo de nos tornarmos um “homem novo” em Jesus Cristo, a vontade apaixonada de que morra o nosso próprio ser, para podermos nos formar de novo segundo Cristo. Isso pressupõe uma espécie de amortecimento do nosso próprio ser, que deve se tornar como a cera branda, em que o rosto de Cristo possa ficar impresso. [...] É necessário que possamos exclamar como São Paulo a caminho de Damasco: “Senhor, que queres que eu faça?” (p. 16)

A disposição de mudar totalmente [...] é o fundamento duradouro para podermos avançar, a atitude que devemos manter permanentemente enquanto nos acharmos em statu viae, até alcançarmos o status finalis, em que a nossa vontade já não tenha necessidade de fazer qualquer esforço, e em que possamos repousar inalteravelmente em Deus, na sua felicidade incomensurável (p. 16).

Se esta vontade apaixonada de nos convertermos cessa, [...] já não nos encontramos dentro de uma concepção verdadeiramente religiosa. [...] Nesta disposição de mudar exprime-se a entrega incondicional a Deus, a consciência da nossa própria impotência, a verdadeira vida de fé, a amorosa inclinação para Deus, as quais encontram a sua mais elevada expressão nas palavras da Santíssima Virgem: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (p. 17).



[...] Todos os santos mostram que tal estado de “disponibilidade”, essa contínua vontade de nos deixarmos transformar por Cristo, não diminui com o progresso espiritual. Quanto maior é a transformação em Cristo, tanto mais profunda e ilimitada é a disposição de mudar [...] (p. 17).

[...] O processo de morrermos para ressuscitarmos em Cristo não deve findar enquanto nos acharmos sobre a terra [...] (p. 17)

[...] É costume agrupar os santos em duas grandes categorias: a dos “grandes conversos”, como São Paulo e Santa Maria Madalena, e a daqueles em quem se pode observar um lento, mas contínuo crescimento da graça, como São João Evangelista e Santa Catarina de Sena. Não é somente o homem que passou pelo processo de uma conversão, e que teve naturalmente de arrepender-se da vida passada, que tem de mudar; também o que nunca chegou a uma luta aberta com os mandamentos de Deus tem de mostrar uma disposição absoluta de mudar de natureza, para se converter, seguindo Jesus Cristo, num homem novo, para receber a marca da natureza de Jesus Cristo (p. 18).

A disposição para se deixar transformar por Jesus Cristo constitui a oposição mais absoluta, não só ao movimento considerado em si mesmo [...] mas ainda à ideia de plenitude de vida, que se funda numa contínua cadeia de modificações. [...] (p. 19)

[...] O nosso entendimento de cristãos vai, portanto, fixar-se naquele momento que já não conhecerá a mudança, e desejamos tornar-nos participantes da imutabilidade de Deus. Não nos seduz o puro ritmo vitalista da mutação [...] não nos sentimos ébrios de Natureza em sentido panteísta, não acreditamos que sejamos simplesmente uma parte dela; sentimo-nos em face dela completamente distintos, pessoas espirituais dotadas de alma imortal. [...] (p. 19)

[...] A nossa vida, porém, só será imutável na medida em que consigamos nos transformar em Jesus Cristo. Enquanto não o conseguirmos, enquanto pretendermos apegar-nos à nossa maneira de ser, a sujeição à nossa natureza lançar-nos-á no mundo do mutável. [...] (p. 20)

[...] do simples ritmo vital, pode deduzir-se o direito a não nos considerarmos discípulos nem aprendizes, mas sim mestres (p. 21).

[...] se consideramos o ciclo vital (juventude, maturidade e senilidade) do ponto de vista natural [...] a disposição de mudar, a fluidez, não diminuem; aumentam à medida que o homem se aproxima da verdadeira maturidade, da fase em que as coisas não essenciais vão retrocedendo, em que a vida vai se tornando cada vez mais simples, e em que as coisas verdadeiramente importantes vão ganhando cada vez mais realce [...] (p. 21)

[...] Quanto mais um homem se aproxima da eternidade, tanto mais os seus olhos se orientam para a “única coisa necessária” [...] Esta é a sobrenatural e eterna juventude, aquele juventude a que se refere o introito [na realidade, oração ao pé do altar] da santa missa quando diz: “[o Deus] que alegra minha juventude” (p. 22).

[...] o grau de nossa disponibilidade diante de Jesus Cristo, da disposição incondicional de “nos despirmos das roupas da nossa maneira de ser, a fim de nos vestirmos com as de Cristo”, constitui a medida exata do nosso desenvolvimento religioso (p. 22).

[...] Se realmente desejamos ser diferentes do que realmente somos, não devemos ser nós, mas sim Cristo com a sua autoridade quem deve determinar o que pela vontade de Deus pode e deve continuar a existir no nosso ser. [...] mediante a intervenção do diretor espiritual ou de um superior, pois não devemos nem podemos precisar por nós mesmos qual deva ser a amplitude necessária da nossa modificação. [...] só chegará a santo quem estiver disposto a deixar-se moldar em medida ilimitada (p. 23).

Esta disposição de mudar não é um valor oposto à continuidade [...] a atitude em que se toma em consideração a extrema unidade de toda a verdade e de todo o valor que Deus contém. Devemos reter firmemente todas as autênticas verdades e todos os valores de importância essencial que iluminaram a nossa alma: estes nunca devem desaparecer da nossa inteligência. O descontínuo coloca realmente o presente num primeiro plano a que não tem direito. Pretere impressões de valor essencial em favor daquilo que em determinado momento se apresenta como presente. Não retém as verdades e os valores fundamentais reconhecidos de uma maneira supra-atual, e não é, portanto, capaz de confrontar com eles cada situação atual, vivendo-a até aos seus mais profundos fundamentos. [...] a norma pela qual pauta e avalia todas as novas impressões formou-se numa situação momentânea atual [...] essas impressões se apresentam como justapostas, independentes umas das outras, sem que haja um laço que as unifique [...] de modo que o que há de valioso nas impressões anteriores se desvanece perante o dinamismo do presente e do atual (p. 23).

[...] A fidelidade ao que ganhamos não é consequência de um conservantismo formal, mas sim da inalterabilidade e da importância da verdade e dos valores autênticos, que não sofrem decadência (p. 24).

A mesma razão que faz com que o homem dotado do sentido da continuidade se mantenha inquebrantavelmente fiel a tudo o que é verdadeiro, força-o também a conservar-se aberto a todas as novas verdades. Fá-lo mostrar-se além disso disposto a abandonar a todo o momento qualquer ideia tida como verdadeira logo que seja refutada por uma visão mais profunda. A continuidade é um pressuposto necessário até para a correção de um ponto de vista anterior [...] (p. 24)

[...] A nossa fidelidade não deve limitar-se a um determinado valor; deve orientar-se para o próprio conceito de valor, ou seja, em última análise, para Deus – “o bem supremo” [...] (p. 25)

[...] a continuidade não se acha em contradição com uma verdadeira vontade de mudar; [...] em cada estágio da nossa transformação em Cristo, devemos mostrar-nos suscetíveis de sermos moldados em formas mais perfeitas (p. 25).

Mas não existe acaso uma fidelidade também para com a própria personalidade, uma vez que esta foi criada por Deus? [...] (p. 26)

É evidente que a disposição de mudar radicalmente não envolve a renúncia às peculiaridades que Deus quis para o nosso ser. A peculiaridade de cada ser humano, porém, pode ser entendida em dois sentidos. Umas vezes compreende também os defeitos, as originalidades, as insuficiências, as imperfeições e as casualidades. Outras vezes, porém, compreende tão somente a ideia emanada de Deus, única, particular, que não pode repetir-se. Tal ideia apenas atinge o seu pleno desenvolvimento na personalidade do santo. Esta ideia, por um lado, abrange um particular caráter natural a que não pode encontrar-se adscrita qualquer imperfeição, e, por outro, a transformação sobrenatural da natureza, que lhe confere uma sublimação e uma elevação incomparáveis. [...] (p. 26)

[...] facilmente verificamos [a reta peculiaridade] nos santos, que, à parte o traço comum de “que já não vivem de si, mas é Cristo que vive neles”, conservam cada qual uma individualidade perfeitamente diferenciada. Pense-se em São Francisco de Assis ou em Santa Catarina de Sena. A conservação da individualidade criada por Deus não pode entrar nunca em conflito com a transformação em Cristo. [...] (p. 27)

O misterioso fato de Deus estar mais próximo de nós do que nós próprios faz com que nós não sejamos nós mesmos – como pensamento de Deus que não pode repetir-se – enquanto não voltarmos a nascer em Jesus Cristo. [...] nem todos os caminhos são apropriados para todos os homens. Existem diversos caminhos que levam a Deus, todos eles de igual valor [nota: todos dentro do Caminho que é Cristo]: o do beneditino, o do franciscano, o do dominicano, o de tantos outros (p. 27).

O nome que Deus pronunciou para cada alma [...] tem de ser separado [...] daquilo que vulgarmente se entende por individualidade, que cada qual sente como elemento seu. Esse elemento a que chamam individualidade resulta do encontro de numerosos fatores, experiências, desgostos, falsas reações que se produziram, meio em que se viveu, educação recebida, convencionalismos, etc. (p. 27)

[...] O ser que nós sentimos está muito longe da palavra interior com que Deus nos chama. Com as nossas próprias forças nunca poderíamos descobrir de maneira efetiva essa palavra: “Todo homem é falso” (p. 27).

As coisas a que temos de renunciar de uma vez para sempre não pertencem, portanto, ao nosso próprio ser [...] A disposição de mudar não diz respeito à individualidade última, à individualidade querida por Deus: esta apenas deve ser metamorfoseada e glorificada, mas não abandonada ou substituída por outra. O ser essencial de cada homem tem uma missão determinada e específica (pp. 27-8).

É frequente encontrar-se um tipo de homem que [...] carece de ímpeto interior para o que há de mais elevado no seu espírito [...] Existem homens que parecem insensíveis ao exemplo dos santos [...] “Não fui chamado a tais feitos, sou um ser miserável!”. Isso é [...] desleixo, negação daqueles bens que deveríamos multiplicar, e falta de sentido de responsabilidade ante a chamada de Deus. [...] lhes falta impulso para as coisas superiores. [...] (p. 28)

A posição diametralmente oposta é a do homem a que não falta certo ímpeto, mas que é incapaz de reconhecer os seus limites e luta desesperadamente, violentamente, por ascender. Quando na sua presença se fala de qualquer assunto relacionado com a vida espiritual, intervém imediatamente, como se conhecesse plenamente a matéria. [...] supõe-se a uma altura que na realidade não conseguiu atingir. É evidente que possui um impulso, mas alimentado [...] pela presunção. [...] (p. 29)

Tais pruridos de ascender são, na maioria dos casos, produto de um complexo de inferioridade ou de uma infantil inconsciência. A insensatez radica mais no desejo de querer parecer aquilo que não é, do que numa simples carência de dotes espirituais. Se um homem reconhece o lugar que deve ocupar e se limita ao que compreende, não obstante a falta de dotes, nunca pode ser tachado de insensato, nunca as suas fraquezas chegarão a limitar-lhe os horizontes e a oprimir-lhe o ânimo (p. 29).

Quer a inércia e o abandono, quer a violenta tendência para as alturas, são atitudes insustentáveis. A disposição sobrenatural de mudar constitui a verdadeira situação entre as duas posições extremas. O homem reconhece os seus limites naturais, mas reconhece ao mesmo tempo a particular vocação que Deus colocou na sua alma; não se abandona [...] nem pretende ascender com violência convulsa a uma falsa visão ideal. [...] está convencido da sua própria miséria, mas tal convicção não o lança numa atitude de resignação [...] sabe que pode vir a ser outro, se se deixar formar novamente por Jesus Cristo; deve recordar aquelas palavras da parábola: “Amigo, como chegaste a este lugar sem as vestes nupciais?” As vestes nupciais são a docilidade a Jesus Cristo e a disposição de nos mudarmos n’Ele, o propósito de abandonar tudo, e sobretudo o próprio “eu” (pp. 29-30).

Um dos maiores obstáculos que se levantam a esta fluidez é um ideal mal compreendido de fidelidade. A adesão a certas ideias e a certos mundos espirituais converte-se em valor positivo. Ora, em boa verdade, só possui valor positivo a adesão à verdade e aos valores autênticos [...] (p. 30)

É forçoso que deixemos de ser fiéis a todos os erros e a todos os valores não autênticos a partir do momento em que descobrirmos a sua falsidade. [...] Só existe uma fidelidade verdadeiramente válida, a fidelidade a Deus, o sumo Bem, e a tudo o que no-lo indica ou dele nos provém (p. 30).

“Devo manter-me fiel às pessoas que amei, por muitos defeitos que tenham”. Mas não se deduza daí que devemos igual fidelidade às ideias, aos meios espirituais e às atmosferas culturais, que em dado momento tiveram para nós algum significado e às quais nos sentimos arraigados durante muito tempo. Em boa verdade, o que acontece com as pessoas é completamente diferente do que acontece com as ideais e com os valores espirituais, pois o homem é um status viae e não um ente definitivamente fixo, inequívoco, como uma ideia (p. 30).

[...] no amor a outra pessoa, surge em mim a ideia de Deus, que o homem representa, e é precisamente a Deus que eu acudo [...] da relação com uma pessoa nasce uma promessa imanente que pode exigir uma fidelidade, coisa naturalmente inadequada numa relação impessoal. [...] (p. 31)

No entanto, a verdadeira fidelidade aos homens com quem tratamos em determinadas circunstâncias, pode exigir que nos separemos totalmente dessas circunstâncias. Basta que façam perigar a fidelidade que devemos a Deus e que a nós mesmos devemos [...] a ruptura aparente da nossa fidelidade para com eles é uma manifestação de verdadeira fidelidade, pois visa a nossa salvação e a deles, e pode, por isso, considerar-se como preceito de um amor mais profundo (p. 31).

[...] Muitas coisas habituais e familiares [...] porque talvez tragam recordações da infância, retêm-nos com força e levam-nos a desejar que o mundo de Cristo irradie sobre as nossas vidas apenas na medida em que não nos obrigue a renunciar ao nosso “mundo”. [...] Quanta humanização excessiva, quantos falsos sentimentalismos descobrimos na chamada piedade popular” [...] Devemos sentir o desejo de contemplar sem deformações a verdadeira face de Cristo, tal como no-la mostra a Igreja. Devemos ansiar por subir ao mundo de Jesus Cristo, e não pretender que Jesus Cristo desça até nós. [...] (pp. 31-2)

Da medida da nossa disponibilidade depende a medida da nossa transformação em Cristo. A disposição de mudar totalmente é um pressuposto necessário da “concepção” de Jesus Cristo na nossa alma [...] (p. 32)