19.1.26

Em defesa da Missa de Sempre

 

Em defesa da "Missa de sempre"

 

* Trata-se de resposta a certos trechos do livro "Em defesa da missa nova" (cf. OLIVEIRA E SILVA, Pe. José Eduardo de. Em defesa da missa nova. 1a ed. Osasco, SP: Ed. do Autor, 2024, ePDF); as afirmações dos artigos de tal livro são transformadas em perguntas.

 

Questão - Existe uma Missa de Sempre?

 

Art. 1 - A Missa codificada por São Pio V não é a "Missa de sempre"?

 

1. Segundo o Pe. José Eduardo, falar "Missa de Sempre" seria um "intento de enganar", pois "a expressão não é milenar, nem sequer medieval", mas foi "inventada por um bispo sedevacandista, Guérard des Lauriers", para "criar a impressão de que existiria uma liturgia fixa, intocável, perfeita, saída diretamente das mãos dos apóstolos e conservada imaculada até Pio XII" (p. 15). Segundo o autor, a liturgia romana "desde os primeiros séculos evoluiu, incorporou elementos, descartou outros, adaptou-se a culturas e necessidades pastorais. O Cânon Romano,  idolatrado [sic], teve adições, cortes, ajustes. O Ofertório, por exemplo, só apareceu séculos depois etc." (Ibid., pp. 15-16). Diz ainda: "a liturgia sempre foi um organismo vivo..." (Ibid., p. 16).

 

2. De acordo com José Eduardo, Pio V "codificou o rito romano vigente, expurgando variações locais e impondo uma forma mais uniforme. Ele não inventou nada de novo (sic), nem congelou nada para sempre. Nos séculos seguintes, seus sucessores continuaram reformando o mesmo rito" (p. 16). Além disso, "absolutizar um rito é heresia prática (sic): é colocar a Tradição como um objeto morto, e não como rio vivo" (p. 16).

 

Em contrário:

 

Diz D. Athanasius Schneider que "a forma 'extraordinária' é a forma 'constante' da Liturgia Romana da Missa" (cf. SCHNEIDER, D. Athanasius. MONTAGNA, Diane. Christus Vincit: O triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos. 1a ed. São José dos Campos: Instituto Gratia, 2020, p. 262).

 

Responde-se:

 

Nenhum tradicionalista ou amante da Missa tradicional diz "Missa de sempre" para significar uma forma invariável da celebração eucarística, que teria "saído das mãos dos apóstolos" tal qual se encontra no Missal de Pio V a João XXIII. Todos sabem que se trata de uma forma que foi se desenvolvendo organicamente no tempo. A constância, continuidade ou o "sempre" da "Missa de sempre" não estão radicados numa invariabilidade do conteúdo empírico, mas na perpetuidade de sua estrutura ou forma ritual, cujo desenvolvimento alcança a maturidade no Missal reconhecido por Pio V (maturidade já atingida no século XIII, como testemunha o missal franciscano de então, que difunde o missal romano, bem como a Suma Teológica, quando descreve as partes da Missa: cf. S.Th. III, q. 83, a. 4). Então, por contraposição, quando se diz "missa nova", indica-se, não simplesmente uma variação de conteúdo, mas uma mudança estrutural, isto é, que a nova forma ritual já não compartilha a mesma estrutura estético-teológica da forma "constante" (D. Athanasius). Fundamentalmente (sem recorrer à descontinuidade estatística drástica no teor dos textos): porque, do ponto de vista da forma estético-teológica básica do "Sacrifício" ("Liturgia Eucarística") - o núcleo da celebração -, o Ofertório já não é mais expiatório (tornou-se simples apresentação dos dons com a beraká judaica), as orações eucarísticas se multiplicaram e o Cânon romano ("oração eucarística I") já não é exclusivo, e o modo da comunhão não é mais o de sempre (de joelhos e na boca); e do ponto de vista dos tópicos mais gerais da teologia eucarística, porque - ao parecer em nome da "participação ativa" e do ecumenismo - o acento passou do sacrifício propiciatório para o sacrifício eucarístico e laudatório, o ministério sacerdotal foi diluído em face do ministério comum, e a presença real eucarística foi minimizada ante as demais formas de presença (não substanciais) de Cristo.

 

Às objeções:

 

1. Não há oposição entre o caráter vivo da Liturgia e a continuidade estrutural. Toda realidade vivente perdura justamente enquanto sua estrutura fundamental perdura: sua "vida" não é uma sorte de forma "vazia" que agrupa qualquer coisa, mas precisamente uma forma específica que determina as demais notas que podem brotar da forma ou aderir a ela.

 

2. S. Pio V efetivamente não criou nada novo, porque ratificou a "forma ritual de sempre", nem "congelou" as formas acidentais, e é por isso que se pode dizer que seus sucessores continuaram "reformando o mesmo rito". Não se trata de "absolutizar" um rito, mas de reconhecer a forma ritual essencial. Aqui é preciso dizer duas coisas: primeiramente, a "forma ritual" não foi abordada pela teologia sacramental clássica - foi abordada, por exemplo, pela teologia litúrgica de Ratzinger (cf. "A festa da fé") -, que sempre falou de "essência do sacramento" - da forma e da matéria do sacramento, além do ministro (causa eficiente) e da intenção (causa final) -, porque não havia no horizonte teológico um problema de "ruptura litúrgica" (a reforma ou restauração de S. Pio V foi a evitação de uma ruptura protestantizante no seio da Igreja), e os católicos viviam instalados nos ritos tradicionais; todo rito ocidental ou oriental antigo e venerável merece o epíteto de "Missa de Sempre". Finalmente, "heresia prática" seria antes transformar o rio vivo da Tradição numa inundação caótica que não flui num leito formado ao longo do curso e dos ajustes esculpidos dinamicamente pela própria água.

 

Art. 2 - O novus ordo foi inventado numa mesinha de bar?

 

1. Para o Pe. José Eduardo, a crítica dos tradicionalistas à nova liturgia, que faria equivaler a "obra da comissão da reforma litúrgica" a uma "invenção numa mesinha" é que seria banal, já que toda reforma litúrgica passou por comissões e especialistas (cf. Pe. José Eduardo, Em defesa da missa nova, p. 17).

 

2. Segundo o autor, o novus ordo "não foi escrito do zero", a reforma "partiu do rito anterior, com base nos princípios do CVII e nas pesquisas litúrgicas sérias do movimento litúrgico". O Missal de 1970 seria o de 1962 "depurado, simplificado, enriquecido" (cf. pp. 17-18). As mudanças não foram "invenção de mesa de bar, mas obediência a um concílio ecumênico", já que o Concílio pediu que findassem as repetições desnecessárias, que a liturgia fosse mais clara, que o povo participasse entendendo, que os ritos fossem restaurados à nobre simplicidade, e que fosse devidamente enriquecido (cf. p. 18).

 

Em contrário:

 

Diz o Pe. Louis Bouyer: "[...] não consigo reler aquela composição [da Oração Eucarística II] improvável sem me lembrar do terraço do café em Trastevere, onde tivemos [Bouyer e Dom Bernard Botte] que dar os retoques finais à nossa tarefa para podermos apresentá-la na Porta de Bronze [do Palácio Apostólico no Vaticano] antes do horário marcado pelos nossos mestres!" (BOUYER, Louis. The Memoirs of Louis Bouyer: From Youth and Conversion to Vatican II, the Liturgical Reform, and After. Angelico Press. Edição do Kindle, p. 222).

 

Responde-se:

 

Para a crítica tradicionalista, o novo rito seria "um rito de laboratório", por assim dizer, não simplesmente por ter sido elaborado por uma comissão numa "mesinha" (sic), mas porque não segue a estrutura ritual recebida (cf. art. 1), e por ser, assim, uma obra muito humana da comissão. "Esta foi uma das fraquezas da primeira fase da reforma após o Concílio: em grande parte os peritos foram ouvidos quase que exclusivamente" (RATZINGER, Joseph. Prefácio a: REID, D. Alcuin. O desenvolvimento orgânico da Liturgia. Tradução de Rodrigo Otobone. São Paulo: Lignum Vitae, 2023, p. 15).

 

Às objeções:

 

1. A comissão tridentina e o consilium de Bugnini tiveram procedimentos muito distintos: "O resultado da reforma tridentina foi um Missal completamente tradicional: sua estrutura e conteúdo não foram radicalmente rearranjados ou reduzidos, tampouco foram suplantados de maneira desproporcional por inovações" (REID, op. cit., p. 57). Já o novus ordo não corresponde à intenção dos Padres conciliares ou à constituição Sacrosanctum Concilium: "[...] os Padres do Concílio dificilmente poderiam imaginar uma celebração da Santa Missa, onde o celebrante está continuamente voltado para o povo; uma Missa em que as orações tradicionais do Ofertório foram substituídas por orações da ceia do Sábado judaico, diluindo assim o caráter sacrificial da liturgia Eucarística e adaptando-a mais ao significado protestante de um banquete; uma Missa em que várias outras Orações Eucarísticas, muitas vezes recém-inventadas, substituíram o Cânon Romano; uma Missa onde o vernáculo é usado exclusivamente; uma Missa onde a a Sagrada Comunhão é recebida em pé e na mão..." (D. Athansius Schneider, Christus Vincit, p. 262).

 

2. Fundamentalmente respondido no art. 1 e na resposta à 1a objeção. Tenha-se em conta que uma boa reforma pastoral poderia ter sido feita sem mudança estrutural, com enriquecimentos (no lecionário, nas orações do Próprio, nos Prefácios), na tradução de partes, na reinserção das preces ou da procissão das oferendas...

 

Art. 3 - Os tradicionalistas confundem rito e sacramento?

 

1. Segundo o Pe. José Eduardo, os tradicionalistas falam "missa nova" como se estivessem se referindo a uma coisa que não é missa, ou como se só o rito tridentino fosse digno do nome "missa de sempre". Mas toda missa católica é a mesma missa do Calvário, do Cenáculo, "de todos os séculos"; quando alguém diz "missa nova" como se a Igreja tivesse inventado outro sacrifício, "está blasfemando (sic). Se é missa, é a missa de Cristo" (cf. Pe. José Eduardo, Em defesa da missa nova, p. 19).

 

2. O que é novo, diz o Padre, não é o sacrifício, senão o rito, a "vestimenta histórica e cultural com que a Igreja reveste o mistério. Vestimentas mudam, a essência não". O que há são "dois missais", mas "ambos celebram a mesma Eucaristia"; de modo que existiria "a missa única celebrada em diferentes ritos".

 

Em contrário:

 

Diz o prof. Orlando Fedeli (tradicionalista): "A Missa nova é válida, quando o sacerdote pronuncia corretamente as palavras da Consagração, sobre pão de trigo e vinho de uva, tendo a intenção de fazer o que faz a Igreja quando celebra a Missa" (FEDELI, Orlando. "O que há de errado na Missa Nova?". Disponível em: <https://www.montfort.org.br/bra/cartas/doutrina/20090624135521/>). Ora, se a missa nova é considerada válida pelos tradicionalistas (nas condições estabelecidas pela Igreja), então ela é para eles, em princípio, Missa e Sacrifício.

 

Responde-se:

 

Os tradicionalistas justamente fazem a distinção entre rito e sacramento! O rito é o sacrifício ritual (as cerimônias) da Igreja unida a Cristo que reveste o sacrifício do Calvário atualizado sacramentalmente. A crítica tradicionalista é ao novo rito ou novo missal, mas como se diz "missa" para designar unitariamente o sacramento (em que o sacrifício de Cristo se realiza) e o rito que o envolve, por economia se diz "missa nova" querendo significar "rito novo". A crítica se dirige à mudança da estrutura teológico-estética - por "estética", na questão, sempre entendo a configuração sensível objetiva, e não o sentimento ou sensibilidade estética subjetiva -, a qual dificultaria a apreensão (sensível, intelectual, afetiva) do sentido teológico-espiritual do sacrifício celebrado; com o qual o próprio propósito de "participação ativa" se esvanece, pois importa aquilo do que se participa!

 

Às objeções:

 

1. Não se critica o novo rito "por não ser missa", mas precisamente porque ele seria causa ocasional, frequentemente, em virtude de sua própria configuração (de seu afastamento da estrutura e teologia eucarística tradicionais), de celebrações abusivas, com a mitigação prática da verdade integral sobre o sacrifício e a eucaristia (mantida "no papel", isto é, nos documentos eclesiais) - em outra ocasião teremos que investigar o que os tradicionalistas dizem a respeito da "possibilidade da perda da fé" (sic). Pode parecer paradoxal, mas é por amor à missa ou ao sacrifício que se encerra nas celebrações segundo o novo missal que se critica o novo missal!

 

2. A crítica tradicionalista é precisamente, repito, uma crítica à "vestimenta". A crítica é que o novo rito ou as novas vestes são como um véu que encobre o acesso ao mistério, não no que ele tem de efetivamente sublime e incompreensível, mas naquilo em que foi se manifestando no desenvolvimento tradicional. A ideia é a de que o rito tradicional, pelo simples fato de ser tradicional, necessariamente permite, de modo ordinário,  um maior aproveitamento da Graça do Sacrifício, facilitando a conformidade de nosso ser ao amor kenótico-sacrificial de Nosso Senhor Jesus Cristo, dispondo a alma mais convenientemente ao testemunho (ao martírio). 

Mas não se deve fingir que o antigo rito seria absolutamente alheio à possibilidade de abusos: uma missa operística é um abuso, por exemplo; ou então uma missa celebrada por mero esteticismo ou legalismo rubricista, em que faltaria a "misericórdia" (o conhecimento de Deus, o afeto espiritual e a vontade unidos à Mente, ao Coração e à Paixão de Nosso Senhor), e abundaria o "sacrifício" exterior (cf. Os 6,6; Mt 9,13).

Por fim, o que realmente importa do ponto de vista da participação da comunidade eclesial - dando por suposta a validade do Sacramento/Sacrifício - é precisamente o rito ou "vestimenta"! Porque é deste que depende nossa compenetração com a Ação realizada por Cristo (através do sacerdote ministerial).

Para um santo sublime, a vida toda já é eucarística, ele vive pregado na Cruz com Cristo. Para um grande santo, as simples palavras da consagração já evocam todo o Mistério de Cristo. Para os católicos bem avançados, o Cânon ou Anáfora (a Oração Eucarística) podem ser suficientes para uma participação ótima. Para a maioria de nós, o rito integralmente considerado (todo o conjunto de cerimônias, mais o silêncio prévio e a ação de graças posterior) é o que dispõe nosso ser à íntima comunhão com o Sacrifício do Senhor.

Numa situação de proximidade com o evento da Crucificação e Ressurreição, ou de perseguição, uma celebração sumária (nas casas ou catacumbas) já seria suficiente, mas precisamente porque tais situações já despertam o espírito para a urgência da Caridade, ou mesmo a iminência do martírio. 

Um entendimento litúrgico-jurídico é muito insuficiente para a compreensão requerida. Dizer "é tudo missa" (sic) é, de fato, o mesmo que atribuir a santificação à Redenção objetiva somente, é, em última instância, fazer caso nenhum da Missa ou da atualização do Sacrifício do Calvário.