5.10.17

Sta. Edith Stein sobre os anjos

Tradução de: STEIN, Edith. La estructura de la persona humana. 3a impressão. Madrid: BAC, 2007, pp. 124-126.


"Espíritos 'puros' finitos

Os que tradicionalmente têm sido denominados 'espíritos puros' são pessoas finitas. 'Finitas' não no sentido do fim temporal, senão, por um lado, por não existir desde toda a eternidade, mas haver sido criadas, e, por outro lado, porque seu ser é limitado: cada uma dessas pessoas é qualitativamente única, distinta de todas as demais. Estão, portanto, circunscritas a uma determinada substância e ao ser a ela correspondente, e assim, neste sentido, não superaram por completo a fixação [nota: “limitação”, nos termos steinianos]. Há pessoas deste tipo ‘mais altas’ e ‘mais baixas’, e o conhecimento e o amor de umas é distinto do de outras.

Segundo santo Tomás, nelas se dá oposição de potência e atualidade, mas não a de espírito e matéria. No que se refere a esta segunda oposição, é preciso admitir decididamente a tese tomista, se é que por materialidade se entende corporalidade espacial. E se se equiparam espiritualidade e imaterialidade neste sentido, também a denominação de ‘espíritos puros’ resulta acertada.

Temos de nos perguntar, entretanto, se esta noção de matéria não é quiçá demasiado estreita e se ela se desentende de seu último sentido formal. Neste último sentido formal, com efeito, parece-me que a matéria não pode faltar na estrutura de nenhum ser criado [nota: é a mesma tese de S. Boaventura]. Para que possa ser finito, tem de se opor ao divino, isto é, ao infinito e situado mais além de toda limitação: há de admitir, e inclusive exigir para seu ser, medida e limitação. A matéria que enche o espaço e é acessível à determinação geométrica já empresta conteúdo a esta ideia formal de matéria. Aquilo que admite diversos graus de ser espiritual, a ‘matéria’ que forma parte da estrutura das pessoas espirituais (na falta de uma denominação melhor, eu a tenho chamado até agora ‘força espiritual’), é outro tipo de conteúdo dessa ideia. Toda as substâncias finitas são, por isso, uma unidade de forma e matéria. Desta maneira, só a Deus posso dar o nome de ‘forma pura’, mas não (diferentemente do que faz santo Tomás) aos espíritos finitos.

Surge agora a pergunta de se, apesar de sua fixação ontológica, é própria dos espíritos incorpóreos uma certa superação da fixação, uma ligeireza e uma mobilidade superiores a sua desvinculação espacial. Na atualidade pura do Espírito Puro encontramos incluídas todas essas características. Quais ou quanto delas convém aos espíritos finitos é algo que poderemos esclarecer tão logo examinemos a relação existente neles entre a potência e o ato.

Os espíritos puros não têm ‘potências’ no sentido de capacidades a desenvolver: sua existência não reveste a forma de um processo de desenvolvimento. O que são por natureza, eles o são em ato. Se neles cabe falar de potencialidade, esta significa a possibilidade da passagem a uma atualidade mais alta, de um incremento de ser e ao mesmo tempo de um enriquecimento do que seu espírito abarca. Mas este incremento não se deve a um desdobramento de sua natureza, senão a uma intervenção sobrenatural: por parte de Deus ou de espíritos finitos mais altos. Ao ser suscetíveis desse enriquecimento e incremento de ser, não são imutáveis como Deus. Mas tampouco são organismos que desdobram no tempo o que são por natureza e nos quais parte daquilo que são potencialmente não se desdobrará nunca em atos. Seu ser natural não está submetido a obstáculo algum, nem interior nem exterior, e neste sentido estão desligados, são ligeiros e se acham em livre movimento espiritual”.



"Serafins, Querubins e Anjos Adoradores" 
(1370-71), de Jacopo di Cione

4.10.17

São Francisco de Assis, "luzeiro para todos os que crêem"

Textos sobre o santo ou do próprio.

Fontes: o primeiro está na página da Santa Sé ( https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20100127.html); os demais foram tirados de: VVAA. Fontes Franciscanas. Santo André: Mensageiro de Santo Antônio, 2005 (grifos da edição).

* * *

Bento XVI, da Audiência Geral de 17/01/2010:

"'Nasceu no mundo um sol'. Com estas palavras, na Divina Comédia (Paraíso, Canto XI), o sumo poeta italiano Dante Alighieri alude ao nascimento de Francisco, ocorrido entre o final de 1181 e o início de 1182, em Assis. Pertencente a uma família rica – o pai era comerciante de tecidos Francisco transcorreu uma adolescência e uma juventude tranquilas, cultivando os ideais cavalheirescos da época. Com vinte anos participou numa campanha militar, e foi aprisionado. Adoeceu e foi libertado. Depois do regresso a Assis, começou nele um lento processo de conversão espiritual, que o levou a abandonar gradualmente o estilo de vida mundano, que tinha praticado até então. Remontam a esta época os célebres episódios do encontro com o leproso, ao qual Francisco, descendo do cavalo, deu o ósculo da paz, e da mensagem do Crucifixo na pequena Igreja de São Damião. Três vezes Cristo na Cruz se animou, e disse-lhe: "Vai, Francisco, e repara a minha Igreja em ruínas". Este simples acontecimento da palavra do Senhor ouvida na igreja de São Damião esconde um simbolismo profundo. Imediatamente São Francisco é chamado a reparar esta pequena igreja, mas o estado de ruínas deste edifício é símbolo da situação dramática e preocupante da própria Igreja naquele tempo, com uma fé superficial que não forma e não transforma a vida, com um clero pouco zeloso, com o refrear-se do amor; uma destruição interior da Igreja que implica também uma decomposição da unidade, com o nascimento de movimentos heréticos. Contudo, no centro desta Igreja em ruínas está o Crucifixo e fala: chama à renovação, chama Francisco a um trabalho manual para reparar concretamente a pequena igreja de São Damião, símbolo da chamada mais profunda a renovar a própria Igreja de Cristo, com a sua radicalidade de fé e com o seu entusiasmo de amor a Cristo. Este acontecimento, que aconteceu provavelmente em 1205, faz pensar noutro evento semelhante que se verificou em 1207: o sonho do Papa Inocêncio III. Ele vê em sonhos que a Basílica de São João de Latrão, a igreja-mãe de todas as igrejas, está a desabar e um religioso pequeno e insignificante ampara com os seus ombros a igreja para que não caia. É interessante notar, por um lado, que não é o Papa quem dá ajuda para que a igreja não desabe, mas um religioso pequeno e insignificante, que o Papa reconhece em Francisco que o visita. Inocêncio III era um Papa poderoso, de grande cultura teológica, assim como de grande poder político, contudo não é ele quem renova a Igreja, mas um religioso pequeno e insignificante: é São Francisco, chamado por Deus. Por outro lado, é importante observar que São Francisco não renova a Igreja sem ou contra o Papa, mas em comunhão com ele. As duas realidades caminham juntas: o Sucessor de Pedro, os Bispos, a Igreja fundada na sucessão dos Apóstolos e o carisma novo que o Espírito Santo cria neste momento para renovar a Igreja. Ao mesmo tempo, cresce a verdadeira renovação".

* * *

São Boaventura, do Prólogo da Legenda Maior de São Francisco:

"1. Nestes últimos dias, a graça de Deus nosso Salvador apareceu em seu servo, Francisco, para todos os verdadeiros humildes e amigos da santa Pobreza. Venerando nele a superabundante misericórdia de Deus, são instruídos, pelo seu exemplo, a renunciar radicalmente a toda impiedade e aos desejos do mundo, a viver de acordo com o Cristo e a sentir, com insaciável desejo, a sede da feliz esperança. Pois, Deus Excelso olhou para ele, verdadeiro pobrezinho e contrito, com tão benigna condescendência que não só levantou o indigente do pó da vida mundana mas, também, como verdadeiro 'pro-fessor' [Nota da edição: No latim, professor: aquele que trabalha a modo de artesão, profisional], guia e arauto da perfeição evangélica, o constituiu luzeiro para todos os que crêem, a fim de que, dando testemunho da luz preparasse no Senhor um caminho de luz e de paz para os corações dos fiéis.

Pois, qual estrela d'alva a brilhar entre as nuvens, guiou para a luz, com o clarão de sua vida e doutrina, os que jaziam nas trevas e à sombra da morte. Como o arco-íris refulge por entre as nuvens da glória, apresentando em si o sinal da aliança do Senhor, anunciou aos homens a paz e a salvação. Sendo igualmente ele anjo de verdadeira paz, foi destinado por Deus, segundo também à imagem e semelhança do Precursor, a preparar no deserto o caminho da mais alta Pobreza e a pregar a penitência, tanto pelo exemplo como pela palavra. Como aparece sobejamente do curso de sua vida, o Céu o dotou, primeiro, com os dons da graça celestial, enriqueceu-o, depois, com os méritos de uma virtude invicta e, repleto também do espírito de profecia, foi predestinado para um ministério angélico..."

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Tomás de Celano, da Primeira Vida de São Francisco:

"84. Sua maior aspiração, seu mais vivo desejo e mais elevado propósito era observar o Evangelho em tudo e por tudo, imitando com perfeição, atenção, esforço, dedicação e fervor os 'passos de Nosso Senhor Jesus Cristo no seguimento de sua doutrina'. Estava sempre meditando em suas palavras e recordava seus atos com muita inteligência. Gostava tanto de lembrar a humildade de sua encarnação e o amor de sua paixão, que nem queria pensar em outras coisas"

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S. Francisco de Assis, da Regra não-bulada

"Se, porém, algum dos Ministros preceituar a algum dos Irmãos algo contra a nossa vida ou contra a sua alma, não se atenha a obedecer-lhe; porque não é obediência aquela na qual se comete delito ou pecado" (5,2).

"E se virem algum deles [Ministros] andar segundo a carne e não segundo o espírito, de acordo com a retidão da nossa vida, após a terceira admoestação, se ele não se emendar, denunciem-no ao Ministro e servo de toda a fraternidade..." (5,4).

"Se um dos Irmãos, por instigação do diabo, fornicar, seja despojado do hábito que perdeu por sua torpe iniquidade e deponha-o por inteiro e seja definitivamente excluído da nossa Ordem" (13,1).

Comentário: se estes conselhos fossem seguidos nas "novas comunidades" e nas dioceses cobertas de escândalos de pedofilia, quantos absurdos seriam evitados... 

"Os Irmãos, onde quer que estejam, se não puderem observar a nossa vida, recorram quanto antes ao seu Ministro, cientificando-o disto. O Ministro, então, se empenhe em atendê-los de tal modo como ele próprio quereria, se estivesse em semelhante situação" (6,1-2).

Comentário: veja a diferença de tratamento entre aqueles que vivem de modo indigno (trechos acima) e aqueles que simplesmente se veem aquém do altíssimo ideal da ordem franciscana! Que delicadeza e reverência!

"E a esmola é a herança e a justiça devida aos pobres" (9,5).

Comentário: é um ato de injustiça negar a esmola, portanto!, e ficar esperando uma "solução política" para a pobreza. A mente de S. Francisco é absolutamente contrária às ideologias que pensam que a caridade é uma "forma de atenuar a culpa, mantendo o status quo", ou um "privilégio do Estado".

"Os Irmãos que vão [entre muçulmanos], porém, podem viver espiritualmente entre eles de dois modos. Um modo é: não entrem em litígios nem em contendas, mas sejam súditos de toda humana criatura por causa de Deus e confessem serem cristãos. O outro modo é: quando virem que agrada ao Senhor, anunciem a palavra de Deus para que creiam em Deus Onipotente, Pai e Filho e Espírito Santo..." (16,5-7).

Comentário: que equilíbrio!, nem uma atitude conflitiva, nem uma atitude relativista!

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São Francisco de Assis, das Admoestações:

"16. Da pureza de coração

 Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus.

São verdadeiramente puros os que desprezam as coisas terrenas, buscam as celestiais e não deixam de adorar sempre e ver o Senhor Deus, vivo e verdadeiro, de ânimo e de coração puro.

17. Do humilde servo de Deus

Bem-aventurado aquele servo, que não se exalta mais pelo bem que o Senhor diz e opera por ele do que pelo bem que o Senhor diz e opera por outro. Peca o homem que quer receber mais do seu próximo do que não quer dar de sei ao Senhor Deus.

18. Da compaixão do próximo

Bem-aventurado o homem que suporta o próximo segundo a sua fragilidade naquilo que quereria ser suportado por ele, se estivesse em idêntica situação. Bem-aventurado o servo que devolve todos os bens ao Senhor Deus, porque quem retiver algo para si, esconde em si a riqueza do Senhor seu Deus e o que julgava ter, ser-lhe-á tomado.

19. Do humilde servo de Deus

Bem-aventurado o servo que não se tem por melhor, quando é engrandecido e exaltado pelos homens do que quando é tido por vil, simples e desprezado. Porque, quanto é o homem diante de Deus, tanto é em si mesmo e nada mais. Ai daquele religioso que é enaltecido pelos outros e por própria vontade não quer descer. E bem-aventurado aquele servo que não se enaltece por própria vontade e sempre deseja estar sob os pés dos outros".



"São Francisco recebendo os estigmas" (c. 1440), de Fra Angélico