10.12.16

Uma breve reflexão sobre os comics (HQ) de super-heróis

Eu aprendi a ler com as "Histórias Ilustradas da Bíblia" e com os quadrinhos da Marvel e da DC, que colecionei dos 6 aos 14 anos (desfazendo-me de praticamente toda a coleção quando fui morar sozinho, mais tarde).

Não penso que a "arte pop" deva ser considerada irrelevante. De fato, as HQ de super-heróis ajudaram tanto a fecundar minha imaginação quanto, depois das Escrituras, na minha formação moral: o bem e o mal eram realmente distintos (no sentido cristão), o bem sempre prevalecia, mesmo que custasse sacrifícios, e isto representava um convite ao heroísmo. Pode ser que o formato não seja apto a desenvolvimentos muito profundos, mas nem só de profundidades vive o ser humano. De algum modo, tais histórias são versões modernas e simplificadas das mitologias clássicas.

Atualmente, só leio eventualmente algum encadernado com boas histórias do passado, ou assisto algum episódio das séries cotadas (só vi integralmente Smallville, que desencadeou as séries recentes, e mesmo assim só por ser fã, porque boas realmente só foram as 3 primeiras temporadas), além de ver algumas das adaptações cinematográficas (gosto bastante dos já velhos Superman I e II com o Cristopher Reeve, do Homem-Aranha II com o Tobey Maguire, da recente trilogia do Batman do Nolan -considero o segundo episódio uma grande história e um grande filme-, e dos dois últimos do Capitão América, especialmente "Guerra Civil", sobre o qual escrevi uma resenha crítica neste blog: A morte do pai como morte da fraternidade).
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Nas últimas décadas, a Marvel criou um Universo paralelo, "Ultimate", com versões hodiernas dos heróis clássicos. Recentemente, resolveu acabar com a confusão, unificando os universos (uma estratégia para alavancar as vendas). Para isso concebeu umas novas "Guerras Secretas", alusão às primeiras, da década de 80, história muito fraca e com desenhos horrorosos, que só serviu para vender bonecos e estabelecer o formato "mini-série" (sendo bastante inferior à "Crise nas infinitas terras" da concorrente DC). Resolvi dar uma olhada, para conhecer as concepções atuais da "Casa das Ideias" (como é conhecida a Marvel).

Depois de uma crise que provocou o fim do multiverso, o vilão Dr. Destino tornou-se o "deus" tirano de um novo mundo que é uma colcha de retalhos dos antigos. Os heróis dos velhos mundos resolvem enfrentar o falso deus, liderados pelo Senhor Fantástico (Reed Richards). Paralelamente ao arco principal, saíram outras revistas contando as agruras das versões dos heróis neste mundo novo (das poucas que vi, são histórias muito fracas).

Ao fim, Reed Richards vence seu arqui-inimigo (que entre outras coisas, desposou a Mulher Invisível), com a sua principal habilidade, que é a inteligência, mostrando assim a relevância e primazia do Quarteto Fantástico no Universo Marvel (não por acaso, eles representam os "4 elementos", fundamentos materiais do Universo para a cosmologia clássica).

Para um cristão ou um realista, é verdadeiramente decepcionante o final: a noção de transcendência está completamente ausente, o homem aparece como seu próprio salvador, e o mundo é apresentado como o lar permanente do ser humano, o qual pode ser recriado e progredir infinitamente.

Nos últimos quadrinhos da história final, Richards fala a Sue Storm de sua "conversão" da crença na contração universal e na entropia à crença na "expansão", e isso é ilustrado por umas imagens do Dr. Destino tirando sua máscara e vendo seu rosto curado, sendo "Tudo vive" a última frase do Sr. Fantástico. Há, nisso, uma ratificação da heresia da "apocatástase" (redenção do demônio), que vem coroar o relativismo moral presente desde meados dos 80 nas HQ de heróis. Uma lástima, pois a mensagem de fundo é que não vale a pena lutar pelo bem, já que mesmo o mais nefasto vilão será feliz, ainda que não se arrependa de seus crimes.



6.12.16

C. S. Lewis sobre a Lei Natural

Excertos de LEWIS, C.S. A abolição do homem. Tradução de Remo Mannarino Filho. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012:


"Até bem recentemente, todos os professores, e os homens em geral, acreditavam que o universo tinha uma natureza tal que nossas reações emocionais poderiam tanto ser congruentes como incongruentes em relação a ele -acreditavam, na verdade, que os objetos não são meros receptores, mas podem merecer nossa aprovação ou desaprovação, nossa reverência ou nosso desprezo [...].

Santo Agostinho define a virtude como ordo amoris - a disposição ordenada das afeiçoes, na qual cada objeto corresponde ao grau de amor que lhe é apropriado. Aristóteles diz que o objetivo da educação é fazer com que o aluno goste e desgoste do que é certo gostar e desgostar. Quando a idade do pensamento reflexivo chegar, o aluno assim treinado nas 'afeições ordenadas' ou nos 'justos sentimentos' facilmente encontrará os primeiros princípios da Ética; mas o homem corrupto não poderá enxergá-los e não fará nenhum progresso nessa ciência. Platão, antes dele, já havia dito o mesmo. O animalzinho humano não terá logo de cara as reações certas. Ele deve ser treinado para sentir prazer, agrado, repulsa e ódio em relação às coisas que realmente são prazerosas, agradáveis, repulsivas e odiáveis. Na República, o jovem bem-educado é 'aquele que veria com maior clareza o que há de errado em obras humanas imperfeitas ou em obras incompletas da natureza, e com uma justa aversão censuraria e odiaria o feio mesmo em sua juventude. e elevaria aprazíveis louvores à beleza, recebendo-a em sua alma e sendo nutrido por ela, de modo que se torne um homem de coração gentil. Tudo isso antes que ele alcance a idade da razão; de modo que, quando a Razão por fim lhe chegar, então, com a criação que recebeu, ele abrirá seus braços para lhe dar as boas-vindas e a reconhecerá por causa da afinidade que tem por ela'. No hinduísmo primitivo, a conduta dos homens que podem ser chamados bons consiste na conformidade à -ou quase na participação na- Rta, o grande rito ou modelo do natural e do sobrenatural que se revela do mesmo modo na ordem do cosmos, nas virtudes morais e nas cerimônias do templo. A retidão, a correção, a ordem, a Rta são constantemente identificadas com satya ou a verdade, correspondência com a realidade. [...]

Os chineses também falam de um grande ente (o maior dos entes) chamado Tao. [...] Ele é a Via pela qual o universo prossegue [...] É também a Via que todos os homens deveriam trilhar [...] Os antigos judeus igualmente louvavam a Lei como 'verdadeira'.

[...] É a doutrina do valor objetivo, a convicção de que certas posturas são realmente verdadeiras, e outras realmente falsas, a respeito do que é o universo e do que somos nós. Aqueles que conhecem o Tao podem afirmar que chamar uma criança de graciosa e um ancião de venerável não é simplesmente registrar um fato psicológico sobre nossas momentâneas emoções paternas ou filiais, mas reconhecer uma qualidade que exige de nós uma certa resposta, quer a demos, quer não. De minha parte, não aprecio a companhia de crianças pequenas, mas, uma vez que falo de dentro do Tao, reconheço nisso um defeito meu -da mesma forma como um homem pode reconhecer-se daltônico ou desprovido de ouvido musical. E, uma vez que nossas aprovações e desaprovações são assim reconhecimentos do valor objetivo ou respostas a uma ordem objetiva, os estados emocionais podem portanto estar em harmonia com a razão (quando sentimos afeição por aquilo que merece aprovação) ou em desarmonia com ela (quando percebemos que a afeição é merecida mas não conseguimos senti-la). Nenhuma emoção é, em si mesma, um julgamento; nesse sentido, todas as emoções e sentimentos são alógicos. Mas eles podem ser razoáveis ou irrazoáveis na medida em que se conformam à Razão ou não conseguem conformar-se. O coração nunca toma o lugar da cabeça, mas ele pode, e deve, obedecer-lhe" (pp. 13-18)

[...] Isso a que tenho chamado por conveniência de Tao, e que outros poderiam chamar Lei Natural, Moral Tradicional, Primeiros Princípios da Razão Prática ou Primeiros Lugares-comuns, não é um entre uma série de sistemas de valores possíveis. É a única fonte possível de todos os juízos de valor. Casa seja rejeitado, todos os valores serão também rejeitados. Se qualquer valor for preservado, também ele será preservado. [...] Tudo aquilo que pretende ser um novo sistema ou (como se diz agora) uma 'ideologia' consiste em fragmentos do próprio Tao, arbitrariamente arrancados de seu contexto e então hipertrofiados até a loucura em seu isolamento, mas devendo ainda ao Tao, e somente a ele, a validade que possuem. Se o meu dever para com meus pais não passa de superstição, então o mesmo vale para meus deveres em relação à posteridade. Se a justiça é uma superstição, então também o é o meu dever para com o meu país ou para com a minha raça. Se a busca do conhecimento científico é um valor verdadeiro, então também o é a fidelidade conjugal. A rebeldia das novas ideologias contra o Tao é a rebeldia dos galhos contra a árvore: se os rebeldes pudessem vencer, descobririam que destruíam a si próprios. A capacidade da mente humana para inventar novos valores não é maior do que a de imaginar uma nova cor primária, ou, na verdade, a de criar um novo sol e um novo céu no qual ele se mova.

[...] o Tao comporta um desenvolvimento que vem de dentro. Existe uma diferença entre um autêntico avanço moral e uma simples inovação. Existe um avanço autêntico da máxima confuciana 'Não faças com os outros o que não gostarias que fizessem contigo' para a cristã 'Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam'. Já a moral de Nietzsche é um exemplo de simples inovação. O primeiro caso é um avanço porque ninguém que não reconhecesse a validade da antiga máxima poderia ver uma razão para aceitar a mais recente, e qualquer um que aceitasse a antiga iria imediatamente reconhecer a mais recente como sendo uma ampliação do mesmo princípio. [...] Mas a ética nitzschiana só poderia ser aceita se estivéssemos dispostos a descartar a moral tradicional como um simples erro, se nos puséssemos em uma posição de onde não pudéssemos encontrar nenhum fundamento para os juízos de valor. Essa é a diferença entre um homem que nos diz: 'Já que você gosta de comer legumes frescos, por que não os planta no quintal para comê-los ainda mais frescos?' e um que nos diz: 'Jogue fora esse pedaço de pão e experimente comer tijolos ou centopeias em vez disso" (pp. 42-45).