18.12.18

São João Damasceno sobre as imagens


Trecho traduzido de: JOÃO DAMASCENO. Exposición de la fe. Madrid: Ciudad Nueva, 2003, pp. 273-276.


* * *


“Uma vez que alguns nos reprovam que veneramos e honramos a imagem de nosso Salvador e de nossa Senhora, e além disto as dos restantes santos e companheiros de Cristo, haverão de ouvir como Deus desde o princípio criou o homem conforme a sua própria imagem. Assim pois, por causa de que nos veneramos uns aos outros se não é enquanto fomos feitos conforme a imagem de Deus? Pois como afirmou Basílio, que fala e sabe muito das coisas divinas, “a honra das imagens passa ao modelo”. Mas o protótipo é o que se representou, aquilo de onde sai o derivado. Por causa de que o povo de Moisés se prostrava ante a tenda e seu entorno e não antes diante de toda a criação? Sem dúvida, porque esta remete a uma imagem e a um modelo das coisas do céu. Certamente Deus disse a Moisés: Olha! Farás tudo conforme ao modelo que te foi mostrado na visão. Também os Querubins que cobriam o propiciatório, não eram obra de mãos humanas? E a respeito do que estava no famoso Templo de Jerusalém? Não foi manufaturado e construído pela arte dos homens?

A Sagrada Escritura fala contra dos que se prosternam ante as esculturas, mas também contra os que sacrificam aos demônios. Tanto sacrificavam [entenda-se, em geral] os gregos, como sacrificavam os judeus. Mas os gregos sacrificavam aos demônios, em contrapartida, os judeus, a Deus. A oferenda dos gregos era desprezável e condenada, em contrapartida, a dos justos era agradável a Deus. Com efeito, sacrificou Noé e Deus sentiu uma fragrância de bom odor. Deus recebe o perfume de sua boa vontade e do afeto para Ele. Portanto, as esculturas dos gregos, a o ser representações de demônios, eram justamente desprezáveis e proibidas.

Ademais, quem pode fazer uma imitação do Deus invisível, incorpóreo, não circunscrito e sem figura? Com efeito, é o extremo da loucura e da impiedade o representar a Deus. Em consequência, no Antigo Testamento o emprego das imagens não era costume. Mas Deus, por causa de suas entranhas de misericórdia, em verdade se fez homem para nossa salvação. E não como foi visto por Abraão em figura de homem, nem tampouco pelos profetas, senão que se fez verdadeiramente homem em essência [isto é, em natureza]. Entreteve-se na terra e tratou com os homens, fez milagres, padeceu, foi crucificado, ressuscitou e ascendeu aos céus. Toda estas coisas em verdade ocorreram -foram vistas pelos homens- e foram escritas para recordação nossa e para ensinamento dos que não estavam então, para que os que não o vimos, ao escutar e crer, alcancemos a bem-aventurança do Senhor.

Mas posto que nem todos sabem letras, nem têm tempo para a leitura, os Padres compreenderam que algumas proezas, para sua recordação concisa, fossem pintadas em imagens. Por negligência muitas vezes não temos na mente a Paixão do Senhor, mas quando vemos a imagem de Cristo crucificado voltamos à recordação da paixão salvadora, e caindo por terra adoramos, não a matéria, senão a quem é representado. Como tampouco adoramos a matéria do Evangelho, nem a da Cruz, senão ao modelo. Com efeito, em que difere uma cruz que não tem a efígie do Senhor de outra que a tem? E igualmente dizemos sobre a Mãe de Deus, porque a honra dada a ela sobe para aquele que dela se encarnou. De modo semelhante as ações viris dos santos varões nos incitam à virilidade, ao fervor, à imitação de suas virtudes e à glória de Deus, porque, como dissemos, a honra aos mais nobres companheiros de servidão é uma prova de afeto para o Soberano comum, e a honra dada à imagem passa ao protótipo. Mas esta tradição não está escrita, como que adoremos em direção ao oriente, que adoremos a Cruz e outras muitas coisas semelhantes.

Reporta-se esta história. Abgar, que reinava na cidade de Edesa, enviou um pintor para que pintasse a imagem do Senhor. Ao não ser capaz o pintor de plasmá-lo por causa da magnificência resplandecente de seu rosto, o mesmo Senhor pôs seu rosto divino e vivificante sobre um pano. Foi impressa sua imagem no pano, e assim o envio a Abgar, quem o havia requerido.

Ademais, existem muitas coisas que os Apóstolos transmitiram não por escrito, porque escreve Paulo, o Apóstolo dos gentios: Portanto, irmãos, ficai firmes; guardai as tradições que vos ensinamos oralmente ou por escrito. E aos coríntios: Eu vos louvo por vos recordardes de mim em todas as ocasiões e por conservardes as tradições tais como vo-las transmiti.

Recordamos que Lucas, apóstolo e evangelista, pintou ao Senhor e a sua Mãe. Corre o rumo que as imagens deles se conservam na cidade dos romanos”


S. João Damasceno (c. 676-749)

8.12.18

A Imaculada Conceição, Primícias da criação

Ainda não  se louvou, exaltou, honrou, amou e serviu suficientemente a Maria, pois muito mais louvor, respeito, amor e serviço ela merece. 
(S. Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem)

Mas de Sião será dito: "Todo homem ali nasceu". (Sl 87,5)


Sempre que eu lia, no Antigo Testamento, acerca da "Sabedoria", eu pensava que esta realidade não deveria ser confundida com o Verbo de Deus ou a "Sabedoria Incriada" (apesar desta apropriação constar da Liturgia da Santíssima Trindade do ciclo A do Lecionário reformado, e de que esta identificação é comum na teologia). E o pensava sobretudo por duas razões: apesar da tradução que S. Jerônimo fez de Pr 8,22 ("O Senhor 'possuiu-me'..."), para opor-se aos erros de Ário, o verbo hebraico qânânî significa "criou-me" (cf. Bíblia de Jerusalém), e isto é mais consonante com outras passagens paralelas (cf. Eclo 1,4.9; 24,8-9); e Salomão toma a Sabedoria como "esposa" (cf. Sb 8,2) e ela é a "mãe de tudo" (cf. Sb 7,12), ou seja, ela é figura feminina, e não masculina, como é o Filho de Deus, sendo esta designação incompatível com o simbolismo místico, em que o Verbo é o Esposo e a alma, a esposa. O Verbo é, antes, o "Sábio", que criou a Sabedoria (cf. Eclo 1,8-9).

Tampouco, por outro lado, parecia-me certa a identificação, sem mais, entre o "ser" da filosofia e o Ser Divino (cf. Ex 3,14) -como disse Platão, o Bem (Deus) é o "além do ser"-, havendo nesta, e em certa interpretação da ideia de "participação", uma visão equivocada e filo-panteísta.

Então, na Festa da Natividade de Nossa Senhora (08 de setembro) do ano de 2013, ao contemplar uma imagem da Virgem, veio-me a presente Ideia, que, depois de bastante tempo de oração, meditação e estudo, consegui formalizar teologicamente (o presente texto tem muitas referências filosóficas, porque o tema se encontra numa interface entre filosofia e teologia, e a razão e a Revelação se iluminam reciprocamente).

Se a "Sabedoria" é a primeira criatura de Deus, isto nos remete à famosa definição filosófica do Liber de causis sobre o "ser": prima rerum creaturarum est esse, isto é, "a primeira das coisas criadas é o ser". Embora Santo Tomás interprete esta definição afirmando o (ato de) "ser" como "o primeiro em cada ente" (o "ato da essência"), as considerações zubirianas sobre a "formalidade de realidade" ou o "poder do real" nos ajudam a compreender melhor a questão: cada coisa real "é real" pela (formalidade de) "realidade" que envolve o conteúdo reificando-a (cf. Sobre la esenciaEl hombre y Dios), ou, projetando esta visão em Tomás, cada ente "é" pelo (ato de) "ser" que atualiza a essência entificando-a. Como explica Zubiri, a realidade ou o "poder do real" excede cada coisa real, comunicando-se de uma coisa real às demais; assim, paralelamente, o "ser" se difunde de um ente a outro. Isto ajuda a entender tanto o adágio do Pseudo-Dionísio, de que "o ser é difusivo de si", quanto, por exemplo, a "primeira via" tomasiana sobre a existência de Deus, em que a "atualização" que um "motor" efetua num "movido" é menos uma ação empírica (na interpretação errada que Escoto faz das vias tomasianas como vias "físicas", que só poderiam chegar a um "Motor Primeiro" imanente), que a comunicação metafísica de ser ou realidade. Por isso se diz que a Sabedoria está "difundida em todas as criaturas" (cf. Eclo 1,9), "tudo abrangendo" (Sb 7,23).

Nem mesmo é impossível que a Sabedoria tenha sido criada desde sempre (cf. Pv 8,23; Eclo 1,1b.4b; Eclo 24,9), pois, como Santo Tomás explica, a criação não depende de um princípio cronológico, mas de um Princípio ontológico (cf. Acerca da eternidade do mundo): a Sabedoria criada poderia existir desde a eternidade, e as coisas reais que participam de sua realidade -e, por meio desta, da Realidade Divina- poderiam ter sido criadas no tempo. Aliás, depois da explicação de Tomás -que Jerônimo desconhecia- é mais razoável esta interpretação de uma criação eterna da Sabedoria do que a tradução não literal do verbo "criar".

Por outra parte, a Sabedoria dos livros sapienciais (e proféticos) também é a "Lei": cf. Sb 6,17-19; Eclo 24,1-23; Br 3,12--4,1. Ela "governa o universo retamente" (Sb 8,1), "domina sobre as criaturas e governa com justiça e santidade" (Sb 9,2-3). Esta Sabedoria, criada, é "um reflexo da luz eterna", "um espelho nítido da atividade de Deus" e uma "imagem de sua bondade" (cf. Sb 7,26). Tais atributos remetem precisamente à definição tomasiana da Lei Natural, que é “a impressão da luz divina em nós” e "a participação da lei eterna na criatura racional” (S.Th. I-II, q91 a2). A Lei Eterna nada mais é do que a Sabedoria Divina ou o próprio Deus (Cf. S.Th. I-II, q91 a1; q93 a1); ela é participada à criatura racional através da Lei Natural, que assim pode ser vista como a Sabedoria (criada) dos livros sapienciais.  

Aquilo que o Esse é no âmbito metafísico, ou seja o Princípio (ontológico, e não apenas lógico), a Lei Natural é no campo ético ou moral (assim como nosso intelecto especulativo apreende os princípios da realidade, nossso intelecto prático apreende os princípios da Lei Natural). "Ser" e "Lei Natural" são duas faces da mesma realidade: a Sabedoria criada, objeto da philosophia, que é tanto a Sapiência quanto a Prudência/Sagacidade (cf. Pr 8,12). Vê-se, assim, que o "ser" dos filósofos não é o Ser Divino, mas que a filosofia, bem exercitada, é meio para aceder às verdades da teologia, que tem por objeto o 
Ipsum Esse. A correlação entre o Esse e a Lei Natural também tem seu paralelo em Zubiri, uma vez que o filósofo espanhol relacionou a dimensão moral do homem, pela qual nos encontramos “ligados” à felicidade e “obrigados” (ob-ligados) aos deveres daí decorrentes (cf. Sobre el hombre) à dimensão teologal, pela qual estamos “religados” ao poder do real (cf. El hombre y Dios).

Ao ler, em Santo Afonso de Maria de Ligório (cf. Glórias de Maria, Parte II, Tratado I "Sobre as Festas de Nossa Senhora", I, cap. 1, ponto 1o), que "Maria é a filha primogênita do Pai Eterno", e que o santo doutor lhe aplicava tanto a passagem de Eclo 24,5, cujo capítulo é acerca da Sabedoria, que diz "Eu saí da boca do Altíssimo, a primogênita antes de todas as criaturas" (a segunda oração parece ser uma glosa), quanto a já mencionada Pr 8,22 (mesmo traduzindo como S. Jerônimo), e ao ver que Santo Tomás (cf. Sermão sobre a Ave Maria, n. 9) aplicava à Virgem a glosa de Eclo 24,25 ("Em mim está a esperança da vida e da virtude"), então eu não mais temi afirmar minha intuição: a Sabedoria criada, a Primeira criatura de Deus, é a Virgem Maria! 

Como disse o então arcebispo Joseph Ratzinger [com alegria li este texto na reta final do Advento de 2017, que confirma minha inspiração e seus desdobramentos]:

“A ‘Sabedoria’ aparece como intermediária da Criação e da história da salvação, como a primeira criatura de Deus, onde se manifesta a pura forma original da sua vontade criadora, e igualmente a pura resposta, que ele encontra [...] 
[...] A liturgia da Igreja amplia essa teologia veterotestamentária da mulher do Novo Testamento, [...] na medida em que faz as leituras sobre a sabedoria referindo-se a Maria. Isso foi bastante criticado pelo movimento litúrgico e pela teologia de orientação cristocêntrica do século XX; afirmava-se que esses textos só poderiam e deveriam ser lidos cristologicamente. Após anos de uma adesão resoluta a essa visão, torna-se cada vez mais claro para mim que ela não soube compreender, na realidade, o elemento específico dos textos sobre a sabedoria [...] Sobra aqui um resto que não se deixa integrar completamente na cristologia: ‘sabedoria’ é um termo feminino, tanto no hebraico quanto no grego, e na consciência linguística dos antigos esse não é um mero e vazio fenômeno gramatical. ‘Sophia’, enquanto feminino, permanece naquela esfera da realidade que é representada pela mulher, o feminino por excelência. Ela significa a resposta ao chamado divino da criação e da eleição. Ela expressa justamente o fato de que existe a pura resposta, e de que nela o amor de Deus encontra a sua morada irrevogável. [...] A partir de uma perspectiva neotestamentária, a sabedoria se refere, por um lado, ao Filho enquanto a Palavra na qual Deus cria, mas por outro lado também à criatura, ao Israel verdadeiro, que é personificado na serva humilde, cujo ser, por completo, está no gesto do ‘Fiat mihi secundum verbum tuum’. A Sophia se refere ao Logos, a Palavra [Wort] que funda a sabedoria, mas também à resposta [Antwort] da mulher, que recebe a sabedoria e lhe traz fruto. A eliminação do elemento mariano da sofiologia anula, no fim, toda uma dimensão do fato bíblico, do fato cristão” (RATZINGER, Joseph. A Filha de Sião: a devoção mariana na Igreja. Trad. Ney Vasconcelos. São Paulo: Paulus, 2013, pp. 19-21).

A primazia de Nossa Senhora depois de Deus não é um "capricho" católico, ela corresponde à primazia também cronológica da Sabedoria, da qual a Virgem de Nazaré é a encarnação. O ser criado/poder do real "veicula" o poder de Deus, mas não é formalmente o Poder de Deus, senão "sede" de Deus como Poder, como diz Zubiri (cf. El hombre y Dios), da mesma forma que Maria é "sede da Sabedoria" (ladainha lauretana). Maria não se identifica com os entes, não é "um só ente com eles", mas não está "fora" deles, e sim "acima", como o "Poder do Real" zubiriano que domina e vela sobre as coisas reais desde o próprio âmago das criaturas, ditando a Lei do Amor aos corações dos entes pessoais -ela é a "Rainha dos corações" (S. Luís Maria Grignion de Montfort)-, como amiga dos seres humanos (cf. Sb 7,23), que intercede por nós junto a seu Filho até o momento de nossa morte (Ave Maria). Nos termos zubirianos, a realidade, nas coisas, é algo "último", "possibilitante" e "impelente" (cf. El hombre y Dios), e nos conduz a Deus, que possui eminentemente estas características; por isso, Maria é, como rezamos na ladainha lauretana, nosso "refúgio", nosso "auxílio" e "Mãe do bom conselho".

Da mesma forma que o Poder do Real "domina" sobre as coisas reais, Maria tem "direito e domínio sobre as almas, por graça de Deus" (S. Luís, Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, cap. I, art. II, n.37); também por isto ela é celebrada liturgicamente como "Nossa Senhora Rainha". Da mesma forma que a Lei Natural é reflexo da Lei Eterna que é Deus, a ladainha lauretana invoca Maria como "Espelho de Justiça". Em outras palavras, a verdadeira filosofia é a devoção mariana

Fica assim mais clara a ideia de "participação do ser": Deus participa o seu Ser primeiramente à Virgem, a "Graça Criada" e, através dela, aos anjos e aos homens, os quais participam do ser criado (de Maria) e, mediante esta participação, participam do Ser Incriado. Ficando também mais claro o porquê do culto de hiperdulia a Nossa Senhora, e o porquê dela ser a "Rainha dos Anjos" (ladainha lauretana). Não se trata, nunca se tratou, de "devocionismo" dos católicos, mas de objetiva devoção que respeita a ordem do real. Não há nenhum inconveniente em afirmar a encarnação da Sabedoria criada (que não deve ser considerada, pelos motivos expostos, o Verbo, nem uma qualidade divina hipostasiada), já que a Sabedoria Incriada (o Verbo) se encarnou. Nem é algum inconveniente que a Virgem tenha sido assunta num corpo glorioso, pois seu Filho, que é Deus, também possui um no céu. Os corpos gloriosos não são "limitadores" da atividade do Verbo e da Sabedoria, sua Mãe no tempo, mas apenas pontos focais de suas ações sobre o mundo e as pessoas.

A Virgem, segunda personagem mais importante da História da Salvação, integra a própria estrutura do real, ela é precisamente, como venho dizendo, "a" realidade, "o" ser (criado), Imaculada desde o princípio (cf. Sb 7,22). Se a Primeira Criatura não fosse criada Imaculada e predestinada a não pecar, o pecado poderia chegar a ferir o próprio núcleo da realidade, e tudo seria posto a perder. Parece razoável supor, a partir do conhecimento (racional e revelado) da Bondade de Deus e da fé em seu desígnio salvífico (cf. Ef 1,3-14), que não poderia mesmo ser diferente, isto é, que a Primeira Criatura deveria ser preservada de toda possibilidade de mácula, em virtude da Graça e dos méritos de Cristo, e com vistas à salvação dos eleitos, seus filhos; e isto vai ao encontro do argumento de Duns Escoto: "ele introduziu na teologia o conceito de redenção preservadora, segundo a qual Maria foi redimida de modo ainda mais admirável: não mediante a libertação do pecado, mas através da preservação do pecado" (S. João Paulo II, Catequese sobre a Virgem Maria publicada no L'Osservatore Romano, ed. portuguesa, 23, 08/06/1996, p.12). Não se trata de alguma necessidade lógica que se impõe ao Ser Divino, mas da necessária coerência com a qual Deus, que é Amor, criou a realidade para salvá-la, uma "necessidade chamada hipotética, devido à vontade divina", pela qual "Maria é necessária aos homens para chegarem a seu último fim" (S. Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, cap. I, art. II, n.39).


Maria é também "tipo" da Igreja, sua realização exemplar (cf. Constituição dogmática Lumen Gentium, n. 63, do Concílio Vaticano II), "membro supereminente e absolutamente único da Igreja" (LG 53), e por isso a ela se aplica a passagem de Ap 12,1-6. Se a Igreja é a humanidade reconciliada, a "nova criação", Maria é sua expressão acabada. Como Maria é Virgem e Mãe, assim também o é a Igreja. Se pudermos aplicar, à eclesiologia, a antropológica visão tripartite do Apóstolo (cf. 1Tes 5,23), diríamos que o Paráclito é o Espírito e a Virgem é a "alma" da Igreja, na qual os fiéis conformam os membros ou corpo; Maria seria assim a "alma do mundo" (cf. Platão, Timeu). Ainda sobre a relação entre a Virgem e a Igreja, que é "Esposa de Cristo", o Doutor da Graça explica que a encarnação de Cristo no ventre de sua Mãe é "a união do Verbo-Esposo com a carne-Esposa" (cf. Santo Agostinho, Comentário da Primeira Epístola de João I,2), isto é, que

o Verbo é o Esposo e a Esposa é a carne humana. E o Verbo humanado é o único Filho de Deus, o qual é, ao mesmo tempo, o filho do homem. O seio da Virgem Maria é a câmara nupcial. É aí que Ele se tornou a Cabeça da Igreja, é aí que se adiantou, como Esposo, saindo de seu tálamo, conforme a profecia das Escrituras (Sl 18,6): "E ele sai, qual esposo da alcova, como alegre herói percorrendo o caminho". Dessa alcova ele saiu, como um Esposo e convidado veio às bodas (Id., Comentário do Evangelho de João, VII, 4)

Se Deus é o Criador e Maria, a Sabedoria criada,  é "a" realidade, entende-se melhor as passagens de Sb 13,1 e Rm 1,20: o mundo eleva a Deus através da apreensão metafísica (de modo formal no filósofo, de modo ingênuo nas demais pessoas) da "realidade", que envolve todas as criaturas (a expressão zubiriana para o "caráter metafísico" de tudo que há é mais feliz que o clássico "ser", precisamente por ser termo feminino), e que é meio para se chegar à Realidade Absoluta. A tese de que Maria é a "Medianeira de todas as graças" se torna ainda mais plausível, já que, efetivamente, não se pode chegar a Deus à parte do "mundo" ou da realidade. E também porque Deus chega a nós através do mundo, seja através dos profetas, seja através da carne que tomou de Maria, seja através da Igreja, de seus sacramentos e seus santos, que continuam a obra da encarnação e da redenção. Trata-se, em todo caso, de uma "mediação subordinada à mediação de Cristo" (cf. São João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris Mater, n. 39), único mediador da salvação humana, uma "mediação especial e excepcional, fundada na sua 'plenitude de graça'" (Ibid., loc. cit.). Assim como Cristo é o Salvador dos homens nascidos antes dEle, a Virgem, aqui definida como a Sabedoria e a Lei, já realizava o papel de medianeira antes do Novo Testamento, desde o primeiro homem (cf. Sb 10,1ss). Como diz S. Luís de Montfort, "ela é o canal misterioso, o aqueduto, pelo qual passam abundante e docemente suas [de Deus] miserircórdias", "dispensadora de tudo que Ele possui" (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, cap. I, art. I, nn. 24-25); também o afirma Santo Afonso de Ligório, ao dizer que "Deus quer que pelas mãos de Maria nos cheguem todas as graças" (Glórias de Maria); e, por último, mas não menos importante, o Magistério, na voz do Papa Leão XIII:


pode-se com toda verdade e rigor afirmar que, por divina disposição, nada nos pode ser comunicado, do imenso tesouro da graça de Cristo - sabe-se que "a glória e a verdade vieram de Jesus Cristo" (Jo 1, 17), - senão por meio de Maria. De modo que, assim como ninguém pode achegar-se ao Pai Supremo senão por meio do Filho, assim também, ordinariamente, ninguém pode achegar-se a Cristo senão por meio de sua Mãe (Carta Encíclica Octobri mense, n. 12).

Finalmente, como ensina o Doutor Angélico:

a Bem-aventurada Virgem é cheia de graça, a ponto de espalhar sua plenitude de graça sobre todos os homens. Que cada santo possua graça suficiente para a salvação de muitos homens é coisa considerável. Mas se um santo fosse dotado de uma graça capaz de salvar toda a humanidade, ele gozaria de uma abundância de graça insuperável. Ora, essa plenitude de graça existe no Cristo e na Bem-aventurada Virgem (Santo Tomás, Sermão sobre a Ave Maria, n. 9).

Assim, não cansemos de aclamar, com Santa Isabel, Benedicta tu in mulieribus, e de suplicar, com os cristãos de todos os tempos: Sancta MariaMater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen.

* * * 

Apêndice: 

Santo Agostinho, no XII Livro das Confissões, nos fala da Sabedoria criada, natureza intelectual e primeira criatura. Os grifos são meus, para destacar a maternidade e criaturalidade de tal Sabedoria.


"E então? Negais talvez a existência de uma criatura sublime, de tal modo unida em casto amor ao Deus verdadeiro e eterno, embora não coeterna com ele, mas que nunca se separa dele para entregar-se às vicissitudes mutáveis do tempo, mas repousa sempre e unicamente na contemplação dele? Com efeito, ó Deus, voltando tua face para a criatura que te ama conforme a tua vontade, tu a sacias, e deste modo tal criatura não se afasta de ti para recolher-se em si mesma.

Ela é a casa de Deus, que não é terrena nem formada do nosso céu material, mas espiritual e participante da tua eternidade, porque permanece eternamente imaculada. Fundaste-a “pelos séculos dos séculos” e a colocaste “sob uma lei que não passará”. Todavia, essa habitação não é coeterna contigo, porque teve princípio. Foi criada. Não encontramos o tempo antes dessa criatura. De fato, a sabedoria foi criada antes de todas as coisas.

É claro, não se trata da Sabedoria coeterna e perfeitamente igual a ti, seu Pai e nosso Deus, por meio da qual tudo foi criado e que é o princípio no qual criaste o céu e a terra. Trata-se daquela sabedoria que é criatura, isto é, a natureza intelectual, que é luz para contemplar a luz. Também esta é chamada sabedoria, embora criada. Entre a sabedoria que cria e a sabedoria criada, e entre a justiça que justifica e a justiça que vem da justificação, existe a mesma diferença que há entre a luz que ilumina e a luz refletida. Nós mesmos fomos denominados tua justiça. Diz um servo teu: “...a fim de que nele nos tornemos justiça de Deus”. Portanto, antes de tudo criaste uma sabedoria, espírito racional e intelectual, cidadão de tua cidade santa, nossa mãe que está no alto, livre e eterna nos céus, “aqueles céus dos céus que te louvam”, isto é, aquele “céu que pertence ao Senhor”.

Portanto, achamos que não existe um tempo antes dessa sabedoria, pois ela foi criada antes de tudo e precede também a criação do tempo. Antes dela existe a eternidade do Criador, de quem recebeu a origem, mas não no tempo, que ainda não existia, e sim na sua própria condição de criatura.

Desse modo, ela procede de ti, meu Deus, mas permanecendo completamente diferente de ti. Não encontramos nenhum tempo, não só antes dela, mas nem sequer nela, porque ela é capaz de contemplar sempre a tua face, sem jamais dela se afastar. Por isso, não sofre variações. Contudo, nela existe a possibilidade de mudar, e tornar-se-ia tenebrosa e gélida se não continuasse a permanecer unida a ti por um grande amor, brilhando perenemente como a luz do meio-dia. Ó morada luminosa e fascinante, amei a tua beleza e o lugar onde habita a glória do meu Senhor, teu Criador e Senhor. Por ti suspiro no meu exílio, pedindo ao teu Criador que também me possua em ti, porque criou também a mim. “Errei como ovelha desgarrada”, mas espero ser reconduzido a ti sobre os ombros do meu pastor, teu Criador."



"A Imaculada Conceição" (1719), de Martino Altomonte

3.11.18

Dietrich Von Hildebrand sobre a intuição e o dado fenomenológicos


Tradução minha de excertos de: HILDEBRAND. Ética Cristiana. Barcelona: Herder, 1962, pp. 39-54.

Retirados dos Prolegômenos, onde DVH expõe sua compreensão da intuição e do dado fenomenológicos. Posteriormente, seguirei com postagens de trechos do livro sobre a “ética” propriamente dita. A presente serve tanto como ilustração do método fenomenológico em sua versão hildebrandiana, como de introdução a estas futuras postagens.

* * *

“[...] Esta obra parte do 'imediatamente dado', ou seja, dos dados da experiência. O leitor só estará capacitado para apreciar nossas aquisições, se está disposto a deixar de lado por um momento a todas as teorias com as que está familiarizado [...] Desejo começar desde o princípio, suspendendo todas as teorias relacionadas com a esfera moral. Desejo começar pela própria experiência moral, como diz Aristóteles falando sobre a alma ao começo do livro segundo do De Anima:

Seja suficiente o dito sobre as opiniões dos antigos acerca da alma e comecemos de novo, como desde o princípio, esforçando-nos por determinar o que é a alma.

Rogamos ao leitor que olhe sem nenhum preconceito filosófico aos dados morais em si mesmos, que ‘escute a voz do ser’ mesmo e que despreze tudo o que não apresente as credenciais do imediatamente dado. Rogamos que siga favoravelmente nossa análise dos dados, passo a passo: que suspenda toda explicação de antigas teorias, reduções ou interpretações, muitas das quais por desgraça frequentemente não deixam lugar nenhum para os dados em questão. Quando se tenha chegado a uma compreensão total de nossa análise, será hora de confrontar nossas conquistas com as de outras teorias éticas.

[...]

Um de nossos principais cuidados será o de evitar toda tese que os dados não nos imponham, e sobretudo, abster-nos de pressupostos tácitos que nem são evidentes nem provados. Tomamos a realidade a sério, como se revela. Sentimos um grande respeito para todo o imediatamente dado, para tudo o que possuiu um significado real, intrínseco, e verdadeira inteligibilidade.

Muitos filósofos dão por assentado que tudo o que é acessível a nossa experiência imediata é duvidoso, subjetivo, ou, no melhor dos casos, só um aspecto secundário da realidade que não pode exigir nem obter nossa plena atenção e interesse. Alguns destes filósofos proclamam orgulhosamente como achado seu que há uma discrepância total entre a realidade e os dados que a experiência pré-filosófica nos oferece. Eles nos dirão que em realidade a cor é só uma vibração, a beleza, uma contração das vísceras, o amor, um mero instinto sexual e assim sucessivamente.

Estes filósofos hão de identificar o objeto ou com algo relacionado com ele pela causalidade ou com algo que está ligado a ele de qualquer outro modo. Tal identificação confunde simplesmente o método filosófico com o método próprio das ciências naturais. A física, a química ou a biologia, não somente podem descobrir seres dos quais nós não tínhamos a menor ideia em nosso conhecimento pré-científico, por exemplo, certas glândulas ou micróbios ou raios cósmicos, senão que também podem mostrar-nos que algumas coisas que na experiência primigênia parecem totalmente distintas, em realidade são idênticas.

Tal método de redução, legítimo em ciências naturais com seus objetos específicos e seus fins próprios de conhecimento, é impossível e de nenhum proveito a respeito do objeto e do fim do conhecimento filosófico. A filosofia nunca descobrirá algo absolutamente alheio a nosso conhecimento pré-filosófico. [...] É completamente razoável afirmar que um homem que pretende ser justo, em realidade só procede por ressentimento; mas é absurdo dizer que a justiça é em realidade um ressentimento do débil. Ainda supondo que se pudesse manter que a justiça real não se encontra em nenhuma parte deste mundo, é absurdo dizer que a justiça como tal é só uma invenção do débil em ordem a superar o forte. A primeira tese pode ser verdadeira ou falsa; a segunda é simplesmente absurda

Repetimos o que dissemos acima: tomamos a sério o imediatamente dado. É um erro fundamental crer que temos de nos aproximar aos dados oferecidos pela experiência com a pressuposição de que é uma mera impressão subjetiva, ou no máximo uma mera aparência que diferente evidentemente da natureza real objetiva do ser.

O mero fato de que algo seja acessível a nossa experiência imediata, de que nos seja dado, não determina de maneira alguma o fato de que o dado tenha somente uma validez subjetiva.

Já é tempo de que comprovemos o verdadeiro caráter de uma impressão meramente subjetiva, ou seja, de uma entidade que não tem outro estado na realidade que ser um objeto de minha consciência, uma mera percepção à qual se pode aplicar com justiça a fórmula esse est percipi [nota: “ser é ser percebido”, fórmula de Berkeley, ou seja, o ser se esgota na percepção]. Uma mera aparência, por exemplo, é um objeto cujo ‘ser’ em realidade não é senão ‘ser percebido’. Isto se aplica em primeiro lugar aos conteúdos de nossa consciência das coisas corpóreas que ulteriormente se descobre que eram meras aparências e que não existiam no mundo real que nos rodeia; por exemplo, uma ilusão é uma mera aparência. A montanha que vemos entre sonhos e a impressão oblíqua do bastão na água são meras aparências. Aplica-se em segundo lugar a qualquer ficção: um centauro, um dragão, uma montanha de ouro. Tudo aquilo que é tomado como existente, sem que em realidade exista, ou o que é conhecido ou acariciado pela mente como uma mera ficção.

Naturalmente, é impossível que uma entidade seja mera aparência, se possui um caráter de intrínseca necessidade e de inteligibilidade plena. A justiça, o amor, o tempo, o espaço e outras entidades que têm a mesma necessidade e inteligibilidade intrínsecas, não são nem podem ser meras aparências. Prescindindo da questão de sua existência concreta aqui e agora, são algo totalmente objetivo e autônomo, independentes de seu ser objeto de nossa consciência. Se alguém dissesse que o tempo, o espaço ou a justiça são todos uma mera ilusão, uma ficção como a montanha de ouro, imediatamente captaríamos o caráter absurdo de tal asserto. Nunca se poderia inventar uma entidade de uma plenitude de sentido, de uma verdade ontológica, tão última e objetiva como a justiça. O caráter necessariamente contingente de toda ‘invenção’ e de todo produto da imaginação do homem é essencialmente incompatível com a intrínseca consistência e com a verdade ontológica da justiça.

Esses dados intrinsecamente necessários e altamente inteligíveis descartam não somente toda interpretação deles como invenções, ilusões, ficções, sonhos etc., senão ainda qualquer distinção em seu interior entre aparência por uma parte e essência ontológica por outra. No que diz respeito aos objetos das ciências naturais nós distinguimos entre o aspecto que nossa experiência primigênia nos oferece e a natureza dos objetos que a investigação científica descobre. Esta aparência é certamente mais que a efêmera existência de um simples objeto de nossa consciência. É a ‘face’ válida desses seres reais e sua essência estética, por assim dizer, a qual é totalmente real [nota: como dizia Zubiri, o conteúdo sensível é de suyo na apreensão inteligente senciente], ainda que não necessariamente em conformidade com sua natureza constitutiva [ainda que distinto da essência mundanal, diria Zubiri]. Para nossa experiência primitiva a baleia parece um peixe e a ciência nos diz que é um mamífero. A química nos revela uma afinidade essencial entre coisas que para nossa experiência primigênia não têm de modo algum tal semelhança. Este aspecto primigênio, ponto de arranque de nossos conceitos dos seres [nota: de nosso logos das coisas reais, diria Zubiri], não é simplesmente uma ilusão subjetiva, senão uma aparência objetiva. Nem perde sua significação e seu profundo conteúdo por pertencer a um estrato distinto do de sua natureza constitutiva [nota: sua essência física no mundo ou além da apreensão da consciência]. Mas esta distinção de aparência e natureza real só se aplica a substâncias corpóreas em seu caráter ininteligível e contingente.

De qualquer maneira, não tem sentido dizer que o chamamos justiça é acaso só uma aparência e que a realidade subjacente é uma invenção dos débeis para defender-se. A justiça, o amor, a verdade, o espaço, o tempo, os números, não podem ser meras aparências, nem podem ser tampouco as aparências objetivas de alguma outra coisa. Cada uma destas entidades é demasiado inteligível, demasiado necessária, demasiado definida em si mesma para que nenhum homem são possa interpretá-las como simples manifestação de algo em realidade diferente da suposta aparência.

Ao sublinhar com tanta insistência a necessidade de permanecer sobretudo nos dados e especialmente no imediatamente dado, pode surgir a pergunta: que é precisamente o ‘dado’? Que quer dizer a contraposição entre o dado na experiência e as teorias, explanações e hipóteses? Seria certamente uma total incompreensão de nossa exortação a aderir-se ao dado em filosofia, se isto se interpretasse como uma intenção de que a filosofia consistisse em uma mera descrição de nossa experiência ingênua.

Os dados pelos quais devemos começar e que temos de penetrar e analisar em filosofia não se identificam de modo algum com a imagem do universo que nossa experiência ingênua nos oferece. Nem consiste a filosofia em descrever tudo o que é objeto de nossa experiência.

Para expor a natureza dos dados como nós os entendemos, temos de captar em primeiro lugar uma distinção decisiva no domínio do conhecimento ingênuo pré-filosófico.

Existem muitos tipos diferentes de conhecimento pré-filosófico. [...] Menciono só alguns pontos decisivos. Está antes de tudo o conhecimento que o homem tem em seu contato vital com o ser: ver uma paisagem, deleitar-se na música, ver aproximar-se o trem em que se vai viajar, ou sentir excessivamente quente nosso quarto. Incluo neste tipo qualquer saber de um objeto em contato vital no reflexo com o ser. Em segundo lugar estão as teorias a-filosóficas e a-científicas, ou seja, as opiniões que o homem forma quando começa a raciocinar e a refletir sobre a experiência primeira.

Este raciocínio e teorização pré-filosóficos e a-científicos [nota: do âmbito do logos zubiriano, e não da ratio, que é alcançada por pouquíssimas pessoas] se fazem com frequência sem contato real com a experiência ingênua. Em muitas pessoas medeia um abismo definido entre suas imediatas impressões e experiências e suas opiniões teoréticas sobre o conteúdo de sua experiência. Elas se indignam ante um crime e pouco depois sustentam que o bem ou o mal objetivo não existem. Medeia um abismo infranqueável entre os que elas experimentam ao ouvir uma sinfonia de Beethoven que as impressiona profundamente e as explicações que dão de por que a sinfonia é bela. Essas opiniões teóricas pré-filosóficas são concebidas e alimentadas em grande parte pela leitura de livros não assimilados, por filosofias populares de jornalismo, por generalizações ilegítimas e conclusões falsas, por toda sorte de influências desafortunadas; por tudo, exceto pelo conteúdo real da experiência ingênua.

Nesses aspectos teóricos pré-filosóficos encontramos a atmosfera do diletantismo e dos preconceitos intelectuais; aqui floresce a doxa, as opiniões fortuitas e confusas que Sócrates tratava de combater com a chamada ironia socrática. Por desgraça tais concepções e convicções, ainda que tenham sido construídas sem uma referência genuína à experiência ingênua, não ficam completamente sem influência na própria experiência ingênua, posto que obscurecem e fazem confuso o conhecimento ingênuo no reflexo que resulta de todo contato vital com o ser.

Chegar ao dado no sentido que damos ao termo, é purificar o conteúdo da experiência ingênua, e purgá-lo de todas as influências inconscientes da doxa. E unicamente a filosofia pode realizar este objetivo. É uma tarefa grande e difícil adquirir consciência de todas as deformações, aditamentos e interpretações que atuam como uma cortina ou névoa entre nossa mente e a voz do ser em nosso contato vital. Quem creia que não necessita purificar consciente e cautamente sua ingênua imagem do universo, nem desarraigar dela todas as influências ilegítimas inconscientes, manifesta com sua ilusão até que ponto é presa da doxa.

O segundo passo que conduz ao dado, tal como nós entendemos o termo, é uma ulterior purificação do conhecimento resultante desse contato vivo com o ser. Consiste em eliminar as reduções estreitas e acidentais que a visão pragmática impõe a nossa aproximação ao ser.

Certamente o método pragmático exerce uma função positiva como motor poderoso de nosso conhecimento. Entretanto, desde o ponto de vista da adequação e plenitude do conhecimento, o método pragmático inevitavelmente produz o efeito de que nós captamos em nosso contato com o ser somente um segmento, a saber, o segmento indispensável para conhecer com vistas ao uso prático do ser em questão.

A superação desta unilateralidade em nossa experiência do ser é um dos pré-requisitos essenciais para poder alcançar os dados objetivos, assim como para uma exploração verdadeiramente filosófica. Em realidade, a legítima direção da problemática filosófica como tal é já uma antítese do método pragmático.

[...] Ao liberar a voz autêntica do ser de toda unilateralidade pragmática, chega a filosofia ao dado pelo qual deve começar. [...]

Nossa aspiração a enfocar o ‘dado’ seria mal entendida por completo, se se a confundisse com a aspiração de todos aqueles que, em nome do empirismo, impugnam todo conhecimento metafísico e a priori. Não tomamos o dado no sentido de uma observação de muitos fatos acidentais e contingentes. Nosso dado não é nem a experiência de um explorador, nem a de um científico que multiplica os experimentos como ponto de partida para induções. Não é a experiência propugnada por Francis Bacon.

O ‘dado’ a que aludimos e que opomos a teorias, interpretações e hipóteses, é sempre uma entidade necessária e inteligível [nota: algo de suyo, diria Zubiri, e não apenas um conteúdo sensível], único objeto legítimo da filosofia, tal como ser, verdade, conhecimento, espaço, tempo, homem, justiça, injustiça, números, amor, querer e muitos outros. Tal é o objeto que possui uma essência necessária e profundamente inteligível. Algo que se impõe a nosso entendimento, que se manifesta e se convalida plenamente, quando enfocamos sobre ele uma intuição intelectual.

O ‘dado’ em nosso sentido não se caracteriza de modo algum pelo fato de ser facilmente apreensível, de que nós possamos captá-lo com um esforço intelectual mínimo. Tal seria o dado dos positivistas ou de David Hume. O preconceito aqui implicado se origina da ideia de as sensações têm, em seu ser dadas, uma superioridade sobre outros dados [nota: trata-se aqui de sensações de um ‘puro sentir’, em linguagem zubiriana]; superioridade que não é precisamente dada, senão que é antes o postulado de uma teoria arbitrária.

Tampouco pode identificar-se o dado com o que é visto e admitido por todos. Pois ao dizer que algo é admitido por todos, podemos referir-nos a coisas muito diversas. Em nossa experiência ingênua há muitos tipos diferentes de saber sobre um ser.

Dá-se, por exemplo, um tipo de saber manifestado na percepção plenamente consciente da cor vermelha; outro tipo de saber se mostra na situação existente antes de que o Organon de Aristóteles fosse escrito, quando os homens estavam familiarizados com as leis do silogismo ao usá-las, sem poder, não obstante, formulá-las. Qualquer criança sabe de algum modo que não pode uma coisa existir e não existir simultaneamente, ainda que não penetre neste fato do mesmo modo que Aristóteles ao formular o princípio.

Uma criança pergunta constantemente ‘por quê’, e deseja saber a causa de muitas coisas que se lhe apresentam, e com frequência ainda sua causa final. A auto-evidência dos princípios de causalidade eficiente e final se pressupõe e implicitamente se declara na própria pergunta. Mas a criança não ‘conhece’ estes princípios do mesmo modo que [conhece] a casa em que vive, seus brinquedos, um gato, a cor vermelha ou sua mãe.

Se se confunde o dado com os objetos conhecidos e admitidos por todos, no sentido de um conhecimento que capacita a qualquer um para formar para si um conceito deles, seriam excluídos da escala dos dados todos aqueles princípios que continuamente pressupomos e que constituem os exemplos mais típicos do dado.

[...]

O dado abraça também o que é apreendido em um saber implícito, ou seja, o dado compreende tudo o que se inclui na mensagem do ser transmitido a cada um, ainda que seja de uma maneira implícita. A prise de conscience [tomada de consciência] plena destes dados é um dos afazeres fundamentais da filosofia.

Contudo, o domínio do dado se estende ainda mais longe. Ainda as coisas que não estão incluídas na mensagem do ser transmitido a cada um, podem pertencer ao reino do dado. O dado inclui também coisas cuja captação pressupõe talentos especiais, tais como o bel na natureza e na arte.

Agora vemos com clareza que o ‘dado’, em nossa linguagem, não é sinônimo nem da experiência como tal, nem muito mentos ainda da concepção vulgar e ingênua do mundo. Mais ainda, a filosofia está longe de ser uma simples descrição de qualquer experiência. É sobretudo a prise de conscience plena de todo o ‘dado’ em nosso sentido, cuja revelação implica já uma tarefa difícil, que deve ser levada a cabo com cautela.

[...]

A exploração filosófica dos dados profundamente inteligíveis, necessários, longe de consistir em uma mera descrição deles, aspira à intuição dos fatos necessários, essencialmente radicados na natureza do ser dado. Aspira a uma intuição absolutamente certa desses fatos necessários, uma intuição que implica uma penetração mais profunda e gradual na natureza dessa entidade.

Nem há que dizer que nossa exortação a aderir ao ‘dado’ de nenhuma maneira significa que nós possamos e devamos esquecer aqueles dados que a prise de conscience de grandes filósofos no passado nos fez acessíveis. Se esta fosse nossa convicção, isto equivaleria a sentenciar a filosofia e este livro estaria condenado de antemão. Seria completamente absurdo abrir um livro filosófico com a pretensão de que cada um desconhecesse todas as contribuições que a filosofia pode fazer.

Todas as verdadeiras conquistas dos grandes filósofos do passado, precisamente por seu caráter de uma plena prise de conscience de um dado, abriram nossos olhos diante desse dado. Antes do achado, o dado se nos oferecia unicamente em nossa experiência ingênua. Não tínhamos consciência plena dele; menos ainda a fortiori uma compreensão filosófica dele. Seria difícil determinar até que limite somos devedores a Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e outros por haver alargado nosso conhecimento do dado.

[...] Antes de tudo devemos abster-nos de crer que somos incapazes de ampliar a prise de conscience do ‘dado’; uma consequência de tal crença seria supor que estamos equipados unicamente para chegar a ser comentadores do pensamento dos grandes filósofos, em lugar de ser filósofos nós mesmos.

[...] Desejamos sublinhar que existem muitas essências inteligíveis tão fundamentalmente novas que não podem ser alcançadas por dedução, senão única e exclusivamente por uma intuição original [nota: aqui não se trata das essências mundanais ou além da apreensão das coisas sensíveis, mas de ‘essências’ num sentido fenomenológico, mais amplo, tanto de realidades imateriais que a inteligência pode inferir a partir da experiência, como a ‘vida’ ou a ‘virtude’, que serão exemplos no próximo parágrafo, quanto de realidades sensíveis que, em termos clássicos seriam ‘formas acidentais’, mas que em termos zubirianos, por exemplo, são ‘reais’ apenas na apreensão, como a cor, que serve de exemplo em seguida]. É claramente impossível que um cego [de nascença, é preciso complementar] conheça o que é a cor. A nós mesmos nos é impossível deduzir a essência da cor da noção de um ser corpóreo e com isso transmitir a um cego a noção de cor. Mas não é este o único caso em que a dedução de uma essência é impossível e no qual é necessário apelar a uma intuição original da essência.

A mesma observação se aplica a muitos dados últimos de ordem espiritual. Se bem a intuição originária não é neste caso uma percepção sensível, um mirar com nossos olhos, senão uma intuição intelectual não menos imediata que a percepção. É impossível deduzir da noção de ser, e do que chamados os primeiros princípios, a natureza da vida, do tempo ou do espaço, da pessoa, da virtude moral ou da noção de consciência. Todos estes dados últimos hão de ser captados pelo menos uma vez na intuição originária, e nessa experiência primária há de basear-se a prise de conscience filosófica.

[...]

Para muitas pessoas o conhecimento filosófico equivale a uma redução de todas as essências diferentes a certas noções gerais e fundamentais. Parece-lhes incompatível com um conhecimento sistemático filosófico a necessidade de uma intuição originária. Para eles a definição parecer ser o cume da conquista intelectual. [...]

[...] A definição não significa para nós o cume do pensamento. Uma definição nunca pode esgotar a plenitude de uma essência necessária e inteligível. Unicamente pode circunscrevê-la mencionando alguns traços essenciais suficientes para distinguir esta essência de outra. A definição serve também para dar a um conceito uma precisão unívoca. Só podem esgotar-se em uma definição os seres privados de uma plenitude ontológica ou os objetos técnicos e os meros instrumentos. Mas quanto nos afastamos dos seres artificiais, nos enfrentamos mais e mais com os mistérios do ser. Então nossa definição não deveria pretender esgotar a natureza deste ser, senão unicamente a modesta aspiração de fixá-la univocamente num conceito. [...] A ansiedade por alcançar uma definição o mais rapidamente possível pode afastar-nos para sempre de toda intuição genuína do objeto.

[...]

Outro perigo se esconde em uma sistematização prematura: nossa tendência a nos deixar levar pela lógica imanente de um sistema; e a nos preocupar mais por guardar a consistência de tal sistema do que por fazer justiça à natureza de um ser. [...]

[...]

Resumindo, podemos dizer: em primeiro lugar, o evidente, como qualquer outra coisa realmente dada, deve ter uma preferência indiscutível sobre qualquer hipótese, explanação ou interpretação.

Em segundo lugar devemos aproximar-nos ao ser com aptidão para captar a natureza específica de cada novo dado, especialmente se este dado tem o caráter de uma ratio fundamentalmente nova, tal como o ser pessoal, o tempo, o espaço, a virtude moral, o conhecimento, a vontade etc.

Em terceiro lugar, devemos orientar nossos esforços na direção que nos permitirá fazer plena justiça a um dado. Devemos ser sempre conscientes do perigo de violá-lo reduzindo-o a algo que já nos é familiar; conscientes da tentação de certa preguiça intelectual, disfarçada de ‘economia’ epistemológica, que nos faz surdos à voa do ser e nos afasta da admiração suficiente de sua natureza.

Finalmente, a tarefa de apreciar exatamente a natureza de um dado que se nos oferece, deve ter preferência sobre o esforço de harmonizar a natureza deste ser com dados indubitáveis anteriormente descobertos.

[...] Por exemplo, o problema da relação entre a liberdade da vontade e o princípio da causalidade, para ser analisado com fruto, pressupõe que captamos adequadamente a natureza da liberdade. Se começamos a análise da liberdade interessando-nos primariamente por suas relações com a causalidade, se começamos nos perguntando como pode a liberdade coexistir com o princípio de causalidade, frustramos a compreensão plena da liberdade. Corremos perigo de ver a liberdade à luz da causalidade ou de desconfiar do dado por crê-lo incompatível com a causalidade. Muitos materialistas são incapazes de captar o caráter absolutamente diferente e novo da realidade física e da espiritual, por estar demasiado preocupados pela relação entre corpo e alma e pela unidade consistente do mundo corpóreo.

A primazia da exploração da natureza de um dado sobre a exploração de sua relação a outros seres é necessária, sobretudo porque o problema real de sua relação com outros seres não se pode nem sequer se impor enquanto não tenhamos feito justiça plena à natureza do ser que consideramos.

Mais ainda, a exploração da natureza de um dado tem uma primazia definida sobre a questão de sua relação a outros seres, porque não temos direito a fazer depender o conhecimento de sua natureza de se somos ou não capazes de dar uma resposta à multidão de problemas que brotam do dado originário. Admitir que existem entidades espirituais, atos de conhecimento ou vontade, por exemplo, não pode depender de nossa capacidade para resolver o problema do corpo e da alma, [não pode depender de nossa capacidade] para responder à questão de por que a realização de um ato de pensar pressupõe a integridade de certas partes do cérebro. É uma fatal ‘logificação’ da realidade requerer uma inteligibilidade tênue, uma transparência fácil concernente a todos os problemas possíveis, que impõe um tipo fundamentalmente novo de ser, e adaptar e mutilar a natureza desse ser até que todos esses problemas desapareçam. Todo dado fundamentalmente novo, que esteja dado imediatamente e que desenvolva univocamente sua natureza, deve ser afirmado, ainda que essa admissão coloque inumeráveis dificuldades.

Em vez de evitar estes problemas violando ou negando a verdadeira natureza de um ser, deveriam nos inspirar um novo esforço por mergulhar mais profundamente, uma disposição para aceitar a tarefa dificultosa e cansada de trabalhá-los mais. Compreenderíamos e aceitaríamos de todo coração este convite a buscar a solução do problema em um estrato mais profundo.

Isto nos leva a um [...] princípio, o mais importante: não nos é lícito dar de lado a algo que se nos revelou inequivocamente, pelo mero fato de ser incapazes de responder a muitos problemas suscitados pela admissão desse fato. O cardeal Newman sublinhou esta verdade fundamental com respeito ao conteúdo de nossa fé em suas famosas palavras: ‘dez mil dificuldades não forma uma simples dúvida’.

Às vezes é impossível conseguir a conciliação de fatos fundamentais no estádio de nosso conhecimento natural. Não podemos compreender, por exemplo, como podem coexistir a liberdade e a predestinação, nem sequer como pode conciliar-se a liberdade humana com a graça eficaz. Mas isto não deveria comover nossa absoluta certeza de que ambas existem. De novo, sempre será um mistério inescrutável a existência do mal no mundo criado e governado por um Deus absolutamente sábio, absolutamente poderoso e infinitamente bom. Negaríamos por isso a existência do mal para escapar a esse dilema? [nota: é o que faz o monismo, quer filosófico, quer religioso] Negaríamos a existência de Deus ante a existência indubitável do mal? Não; temos de ter o valor de dizer: vejo algo com absoluta certeza; e também vejo isto outro com absoluta certeza. Afirmarei as duas coisas, ainda que não saiba como possam conciliar-se.

Há que notar outra propriedade característica da aproximação legítima ao problema da moralidade. No espírito de total abertura a tudo aquilo que é dado, não queremos excluir nenhum valor moral acessível a nós em nossa análise da moralidade. O santo é a encarnação mais perfeita da moralidade. O fato de que esta moralidade seja nova e incomparavelmente mais alta, não é razão para excluí-la de nossa análise filosófica. Pelo contrário, será o modelo de nossa análise, posto que, como é óbvio, temos de escolher as manifestações mais altas de moralidade para compreender a essência da moralidade como tal [nota do autor: Ainda o filósofo não católico Henri Bergson se deu conta da impossibilidade de ignorar os dados da moral dos místicos. Em sua obra Les deux sources de la morale et de la religion... mostra claramente que essa moral difere de qualquer moral sem Cristo, e que é a mais elevada e autêntica de todas...].


Unicamente o preconceito pode negar o fato da moralidade cristã resplandecente nos santos. Este fato é acessível, em sua qualidade completamente diferente e nova, a toda mente sã e sem preconceito, ainda antes da fé. Quantos se converteram por essa caridade irresistível e vitoriosa, por essa humildade comovedora, por essa liberdade profundamente interior que resplandece nos santos! Ainda que saibamos pela fé que esta moralidade depende da graça, nossa mente pode captar o fato desta moralidade com a luz da razão...”



Foto do site "Hildebrand Project" (http://www.hildebrandproject.org/)

"A pessoa veraz reconhece um caráter solene em cada afirmação. 
Ela compreende que, em tudo que pronuncia, 
é chamada a sustentar o testemunho da verdade". 
(tradução minha)