31.3.16

Vittorio Messori sobre o Islã (2)

Islã/2

“O profeta de Meca morreu no ano de 632. Apenas seis anos depois, o Califa (ou seja, “o sucessor”) Omar despoja os bizantinos de Jerusalém e no ano de 640 os muçulmanos entram no Egito. Um ano depois conquistam Alexandria, a grande metrópole convertida em importante patriarcado cristão. A corrida para o oeste continua e, depois de estender-se ao longo dos milhares de quilômetros do litoral mediterrâneo, no ano 711 os árabes atravessam o estreito de Gilbraltar para desembarcar na Espanha. Serão necessários sete séculos de luta para expulsá-los.

Reservando-nos a oportunidade de falar mais adiante das outras conquistas de extensíssimos territórios já cristianizados na Ásia, aqui queremos examinar a sorte desse norte da África que havia sido uma das primeiras regiões evangelizadas. Segundo a Tradição, o próprio são Marcos pregou a fé no Egito; e nas sedes episcopais dessa África mediterrânea se encontravam pastores da estatura de santo Agostinho. A atividade teológica nas cidades, principalmente em Alexandria, era extremamente rica e vivaz. No deserto abundavam os eremitas e os mosteiros nos que se vivia a ascese com dramática seriedade.

Como pôde acontecer que uma vida cristã semelhante se apagasse (com a parcial exceção do Egito) e que a fé surgida do Alcorão tenha podido cobrir tudo?

Na realidade, as coisas são muito mais complexas do que o que certas interpretações ainda pretendem. Não é que, como fulgurados pela Palavra que traziam os árabes, os cristãos repudiassem o Evangelho ao descobrir que a Verdade residia no Alcorão. A mudança religiosa veio (ao fim de séculos, e às vezes nem sequer por completo) com as campanhas militares e depois com a política social, fiscal e matrimonial.

Para entendê-lo, primeiro é preciso recordar que a islamização da África mediterrânea possui traços distintos no Egito e na parte restada da costa até o Atlântico. As duas partes haviam ficado divididas pela linha de demarcação entre o Império romano do Ocidente e o do Oriente. O Egito falava grego e mantinha relações com Constantinopla; as regiões ocidentais falavam latim e olhavam para Roma. Com a queda desta última, toda a África setentrional recaiu sob o Império bizantino, o qual, entretanto, só possuía o controle de alguma cidade costeira.

Os árabes não tiveram dificuldades em invadir estes territórios porque, tendo a Síria em seu poder, Bizâncio já não podia enviar reforços por via terrestre. A resistência também foi escassa porque os próprios cristãos egípcios acolheram os muçulmanos como libertadores. Aqui, como em outros lugares, os árabes encontraram populações dispostas a abrir-lhes as portas em nome da antiga rebelião do Oriente, e dos povos semíticos em particular, contra o Ocidente que, desde os tempos de Grécia e Roma, havia exercido sua hegemonia sobre populações orgulhosas de sua independência e sua cultura.

No Egito, além disso, davam-se condições especiais porque o patriarcado de Alexandria se havia afastado de Constantinopla por razões teológicas, atrás das quais se escondia uma antiga rivalidade. Os egípcios haviam escolhido o monofisismo (Cristo só possuía uma natureza, a divina), resistindo ao governo imperial que, remetendo-se aos decretos conciliares, pretendia afirmar o dogma ortodoxo da dupla natureza. A maioria do povo apoiava o clero monofisita, enquanto Bizâncio havia imposto sua hierarquia, chamada ‘melquita’.


Cruz copta

É sabido que, por uma lógica imutável, quando duas facções da mesma religião se enfrentam, cada uma delas prefere a vitória de outra religião antes que a da parte contrária. Assim ocorreu com os monofisitas do Egito em luta com os melquitas gregos. O islamismo ainda estava em período embrionário, os povos submetidos não sabiam bem de que se tratava, provavelmente lhes devia parecer outra seita judaico-cristã, já que em qualquer caso era claro seu monoteísmo e a reivindicação dos profetas bíblicos, assim como a grande veneração por Jesus e Maria.

Assim, chegou-se a uns acordos e as portas do Egito se abriram de par em par. Entre as primeiras medidas tomadas pelos árabes conta-se a supressão da Igreja imperial melquita, de modo que os bispos monofisitas obtiveram o mando da cristandade. Foi uma vitória pírrica porque também se aplicou o direito religioso muçulmano que nessa época dava seus primeiros passos: enquanto que os muçulmanos só estavam obrigados a pagar a esmola legal, a comunidade cristã –em troca da ‘proteção’ e do direito a continuar residindo em zona ocupada pelos islamitas– devia pagar taxas exorbitantes, cujo benefício ia parar inteiramente nos muçulmanos. E não só isso: os cristãos não eram cidadãos senão súditos; todas as carreiras na administração e no exército ficavam reservadas aos árabes crentes em Alá, que seguidamente se transladariam em massa à África para nutrir as exíguas tropas dos primeiros conquistadores.

Não se deve esquecer o direito matrimonial árabe que sempre foi um fator poderoso na lenta mais implacável islamização (como o é também hoje em dia na Euroga dos imigrados). Assim ocorre que uma mulher muçulmana não pode casar-se com um cristão ou um judeu, enquanto que um muçulmano pode casar-se com uma mulher cristã ou judia, e os filhos comuns são, por lei, muçulmanos. Além disso, para prosseguir com a erosão de sua comunidade, os cristãos foram proibidos de fazer proselitismo, assim como de construir novas igrejas e inclusive de restaurar as já existentes. Estas condições pioraram quando os turcos substituíram os árabes.

O resultado foi o que ainda persiste: os cristãos se estabilizaram em torno de dez por cento da população. Assim, apesar de tudo, o Evangelho não foi completamente desterrado do Egito durante os mais de treze séculos de dominação muçulmana. Junto às conversões por conveniência deram-se muitos casos nos quase, durante séculos, preferiu-se o martírio antes que renegar Jesus por Maomé.

Isto não ocorreu na zona ocidental do Egito, na África ‘latina’, onde a islamização foi completa, ainda que não tão rápida como muitos afirmam. Pelos historiadores árabes sabemos que todavia no século XI havia naquelas zonas bispos e algumas tribos que não haviam renunciado ao cristianismo.

As províncias imperiais da África (a atual Tunísia e parte da Argélia de hoje) e da Numídia (o resto da Argélia) estavam cristianizadas, mas quase somente o segmento cidadão de origem latina. As populações berberes quase não havia sido alcançadas pela evangelização. O cristianismo apenas havia chegado às duas Mauritânias, a bastante extensa região a ocidente de Numídia que chega até o Atlântico, a que constitui o Magreb e que corresponde à parte mais ao oeste da atual Argélia e todo o Marrocos. Esta era a ‘África esquecida’. A colonização romana ocorrera tendo como base a península tunisiana, à direita e à esquerda de Cartago. Só quando já era tarde e o império começava a desmoronar, decidiram criar as duas províncias da Mauritânia, que até o momento só haviam sido reinos federados. A precariedade da situação é mostrada pelo fato de que esta era uma das três zonas do império onde os romanos haviam construído um limes, uma fronteira fortificada, para defender-se das incursões chegadas do sul.

Muito poucos anos depois da conquista do Egito, os muçulmanos iniciaram o ataque contra estas províncias africanas da Numídia e Mauritânia. Encontrarão nelas uma cristandade debilitada e agitada, apesar do aparente esplendor. Delas não ficará nada. O porquê o saberemos no próximo capítulo”.


[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a ed. Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 50-54]

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