Islã/2
“O profeta de Meca morreu no ano de 632.
Apenas seis anos depois, o Califa (ou seja, “o sucessor”) Omar despoja os
bizantinos de Jerusalém e no ano de 640 os muçulmanos entram no Egito. Um ano
depois conquistam Alexandria, a grande metrópole convertida em importante
patriarcado cristão. A corrida para o oeste continua e, depois de estender-se
ao longo dos milhares de quilômetros do litoral mediterrâneo, no ano 711 os
árabes atravessam o estreito de Gilbraltar para desembarcar na Espanha. Serão
necessários sete séculos de luta para expulsá-los.
Reservando-nos a oportunidade de falar
mais adiante das outras conquistas de extensíssimos territórios já
cristianizados na Ásia, aqui queremos examinar a sorte desse norte da África
que havia sido uma das primeiras regiões evangelizadas. Segundo a Tradição, o
próprio são Marcos pregou a fé no Egito; e nas sedes episcopais dessa África mediterrânea
se encontravam pastores da estatura de santo Agostinho. A atividade teológica
nas cidades, principalmente em Alexandria, era extremamente rica e vivaz. No
deserto abundavam os eremitas e os mosteiros nos que se vivia a ascese com
dramática seriedade.
Como pôde acontecer que uma vida cristã
semelhante se apagasse (com a parcial exceção do Egito) e que a fé surgida do
Alcorão tenha podido cobrir tudo?
Na realidade, as coisas são muito mais
complexas do que o que certas interpretações ainda pretendem. Não é que, como
fulgurados pela Palavra que traziam os árabes, os cristãos repudiassem o
Evangelho ao descobrir que a Verdade residia no Alcorão. A mudança religiosa
veio (ao fim de séculos, e às vezes nem sequer por completo) com as campanhas
militares e depois com a política social, fiscal e matrimonial.
Para entendê-lo, primeiro é preciso
recordar que a islamização da África mediterrânea possui traços distintos no
Egito e na parte restada da costa até o Atlântico. As duas partes haviam ficado
divididas pela linha de demarcação entre o Império romano do Ocidente e o do
Oriente. O Egito falava grego e mantinha relações com Constantinopla; as
regiões ocidentais falavam latim e olhavam para Roma. Com a queda desta última,
toda a África setentrional recaiu sob o Império bizantino, o qual, entretanto,
só possuía o controle de alguma cidade costeira.
Os árabes não tiveram dificuldades em
invadir estes territórios porque, tendo a Síria em seu poder, Bizâncio já não
podia enviar reforços por via terrestre. A resistência também foi escassa
porque os próprios cristãos egípcios acolheram os muçulmanos como libertadores.
Aqui, como em outros lugares, os árabes encontraram populações dispostas a
abrir-lhes as portas em nome da antiga rebelião do Oriente, e dos povos
semíticos em particular, contra o Ocidente que, desde os tempos de Grécia e
Roma, havia exercido sua hegemonia sobre populações orgulhosas de sua
independência e sua cultura.
No Egito, além disso, davam-se condições
especiais porque o patriarcado de Alexandria se havia afastado de Constantinopla
por razões teológicas, atrás das quais se escondia uma antiga rivalidade. Os
egípcios haviam escolhido o monofisismo (Cristo só possuía uma natureza, a
divina), resistindo ao governo imperial que, remetendo-se aos decretos
conciliares, pretendia afirmar o dogma ortodoxo da dupla natureza. A maioria do
povo apoiava o clero monofisita, enquanto Bizâncio havia imposto sua
hierarquia, chamada ‘melquita’.
Cruz copta
É sabido que, por uma lógica imutável,
quando duas facções da mesma religião se enfrentam, cada uma delas prefere a
vitória de outra religião antes que a da parte contrária. Assim ocorreu com os
monofisitas do Egito em luta com os melquitas gregos. O islamismo ainda estava
em período embrionário, os povos submetidos não sabiam bem de que se tratava,
provavelmente lhes devia parecer outra seita judaico-cristã, já que em qualquer
caso era claro seu monoteísmo e a reivindicação dos profetas bíblicos, assim
como a grande veneração por Jesus e Maria.
Assim, chegou-se a uns acordos e as
portas do Egito se abriram de par em par. Entre as primeiras medidas tomadas
pelos árabes conta-se a supressão da Igreja imperial melquita, de modo que os
bispos monofisitas obtiveram o mando da cristandade. Foi uma vitória pírrica
porque também se aplicou o direito religioso muçulmano que nessa época dava
seus primeiros passos: enquanto que os muçulmanos só estavam obrigados a pagar
a esmola legal, a comunidade cristã –em troca da ‘proteção’ e do direito a
continuar residindo em zona ocupada pelos islamitas– devia pagar taxas
exorbitantes, cujo benefício ia parar inteiramente nos muçulmanos. E não só
isso: os cristãos não eram cidadãos senão súditos; todas as carreiras na
administração e no exército ficavam reservadas aos árabes crentes em Alá, que
seguidamente se transladariam em massa à África para nutrir as exíguas tropas
dos primeiros conquistadores.
Não se deve esquecer o direito
matrimonial árabe que sempre foi um fator poderoso na lenta mais implacável
islamização (como o é também hoje em dia na Euroga dos imigrados). Assim ocorre
que uma mulher muçulmana não pode casar-se com um cristão ou um judeu, enquanto
que um muçulmano pode casar-se com uma mulher cristã ou judia, e os filhos
comuns são, por lei, muçulmanos. Além disso, para prosseguir com a erosão de
sua comunidade, os cristãos foram proibidos de fazer proselitismo, assim como
de construir novas igrejas e inclusive de restaurar as já existentes. Estas
condições pioraram quando os turcos substituíram os árabes.
O resultado foi o que ainda persiste: os
cristãos se estabilizaram em torno de dez por cento da população. Assim, apesar
de tudo, o Evangelho não foi completamente desterrado do Egito durante os mais
de treze séculos de dominação muçulmana. Junto às conversões por conveniência
deram-se muitos casos nos quase, durante séculos, preferiu-se o martírio antes
que renegar Jesus por Maomé.
Isto não ocorreu na zona ocidental do
Egito, na África ‘latina’, onde a islamização foi completa, ainda que não tão
rápida como muitos afirmam. Pelos historiadores árabes sabemos que todavia no
século XI havia naquelas zonas bispos e algumas tribos que não haviam
renunciado ao cristianismo.
As províncias imperiais da África (a
atual Tunísia e parte da Argélia de hoje) e da Numídia (o resto da Argélia)
estavam cristianizadas, mas quase somente o segmento cidadão de origem latina.
As populações berberes quase não havia sido alcançadas pela evangelização. O
cristianismo apenas havia chegado às duas Mauritânias, a bastante extensa
região a ocidente de Numídia que chega até o Atlântico, a que constitui o
Magreb e que corresponde à parte mais ao oeste da atual Argélia e todo o
Marrocos. Esta era a ‘África esquecida’. A colonização romana ocorrera tendo
como base a península tunisiana, à direita e à esquerda de Cartago. Só quando
já era tarde e o império começava a desmoronar, decidiram criar as duas
províncias da Mauritânia, que até o momento só haviam sido reinos federados. A
precariedade da situação é mostrada pelo fato de que esta era uma das três
zonas do império onde os romanos haviam construído um limes, uma fronteira fortificada, para defender-se das incursões
chegadas do sul.
Muito poucos anos depois da conquista do
Egito, os muçulmanos iniciaram o ataque contra estas províncias africanas da
Numídia e Mauritânia. Encontrarão nelas uma cristandade debilitada e agitada,
apesar do aparente esplendor. Delas não ficará nada. O porquê o saberemos no
próximo capítulo”.
[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a
ed. Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 50-54]

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