20.7.21

As virtudes (Pieper) - 4a parte: Temperança

Resumo do capítulo de: PIEPER, Josef. Las virtudes fundamentais. 9a ed. Madrid: Rialp, 2007, pp. 216-17.


Temperança e realização pessoal

 

  • Primeiro efeito da temperança: “tranquilidade do espírito” (S. Tomás)
  • Sentido: fazer ordem no interior do homem, da qual brota a tranquilidade do espírito.
  • Temperança: realizar a ordem no próprio eu.
  • O que a distingue das demais virtudes: tem sua verificação e opera exclusivamente sobre o sujeito atuante.
  • A temperança reverte sobre o que a exercita, o homem enfoca a si mesmo e sua situação interior.
  • Duas formas de preocupação por si mesmo: uma desprendida, outra, egoísta. A primeira garante a autoconservação, a segunda, destrói.
  • Temperança: autoconservação desprendida x degeneração egoísta das energias destinadas à autoconservação.
  • Misterioso: o fato de que a ordem interior do homem não se dê espontaneamente
  • As mesmas forças que alimentam a existência humana podem perverter a ordem interior, até a destruição da pessoa moral
  • Esse fenômeno é explicável somente pela Revelação do pecado original; a não ser que fizéssemos a ilusão de que essa desordem interior não existe.
  • Quando dizemos que os sentidos dominaram a razão fazemos uma metáfora: é o próprio sujeito o responsável do moral e do imoral, o que edifica o próprio eu ou o destrói: “Eu faço o mal que não quero” (Rm 7,19)
  • Como é possível chegar pelo desprendimento ao verdadeiro “amor de si mesmo”?
  • Para Tomás, está de acordo com a própria essência do homem que este ame a Deus mais do que a si mesmo.
  • O poder destrutor que acompanha a violação desta norma está em que semelhante desordem se opõe ao ser e ao destino do homem.
  • Quando este se ama por cima de tudo, falha seu ordenamento e fracassa a realização do sentido inerente ao reto amor de si mesmo, pelo qual se realiza a essência em sua plenitude.
  • “Temperança do avaro”: evita a imoralidade pelos gastos que acarreta.
  • A temperança é o hábito que realiza a ordem interior do homem, com absoluta ausência de egoísmo.
  • A temperança guarda o ser defendendo- contra si mesmo, opõe-se a toda perversão da ordem interior, graças à qual subsiste e opera a pessoa moral
  • A tendência natural ao prazer sensível que se obtém na comida, na bebida e no deleite sexual é a forma de manifestar-se e o reflexo das forças naturais mais potentes que atuam na conservação do homem
  • Estas energias vitais, que se puseram no ser para conservar no indivíduo e na espécie a natureza (cf. Sb 1,14), dão as três formas originais do prazer.
  • Como estas potências representam a atividade irrefreável constitutiva do que é vida, ultrapassam as demais energias na capacidade destruidora quando se desordenam
  • Por isso se localiza aqui a função mais específica da temperança: abstinência e castidade, por uma parte, a falta de sobriedade nos deleites do gosto e luxúria, por outra, são as duas formas originárias da temperança ou da ausência dela
  • O instinto de domínio, a inclinação a fazer-se valer ante os demais, podem servir à verificação do eu em sua versão da humildade, e podem equivocar seu destino e fracassar, quando se convertem em soberba
  • Quando a exigência natural do homem de vingar uma injustiça ou de recuperar o próprio direito lesionado desemboca em desatada cólera está sendo destruído o que deveria ser edificado o que deveria edificar-se à base de mansidão e doçura.
  • Inclusive a natural avidez  de comunicar-se e espraiar-se no mundo sensível ou a ânsia de conhecer  podem degenerar, se o homem não se ajuda da temperança, em ansiedade devoradora ou em mania patológica. Santo Tomás chama a esta depravação “curiosidade” e à temperança que a modera “estudiosidade”
  • Resumindo: castidade, sobriedade, humildade e mansidão, junto com a estudiosidade, são formas da temperança; luxúria, desenfreio, soberba e uma cólera irracional, junto com a curiosidade, são formas da destemperança.
  • Estas partes da temperança estão desprestigiadas porque a imagem do homem foi falseada; a temperança diz respeito à ordem na essência do homem, que compendia em si todos os graus de ser existentes na criação; a temperança dependerá da postura adotada frente à criação.

 

 Sexualidade e castidade

 

  • A castidade é vista com estranheza: o sexual está no centro da atenção, dissolvendo com isso a consciência moral; o maniqueísmo que detesta a procriação humana como algo “sujo” e “inferior à dignidade humana”; e a supervalorização da casusística, que invade um terreno onde menos tem direito a entrar.
  • Para S. Tomás o sexo não é um mal necessário, mas um bem: dar curso ao apetite natural que brota do instinto sexual, e gozar do prazer que isso leva consigo, não tem em si nada de pecaminoso, se realizado segundo a ordem e a medida que corresponde: em virtude desta, o sexo é um bem excelso.
  • Os três bens do matrimônio segundo Tomás são a comunidade de amor e de vida, os filhos e a sacramentalidade; para ele, união de duas vidas em comunidade irrompível pelo amor de amizade, é, dentro do matrimônio, o bem que brota da essência mesma do homem, que está contido no matrimônio por ser união de duas pessoas. 
  • Quanto mais importante é uma coisa, tanto mais há de seguir-se nela a ordem da razão; a tendência sexual, bem tão elevado e necessário, necessita a salvaguarda e a defesa por meio da ordem da razão: a castidade é a virtude pela qual se verifica a ordem da razão no sexual, e a luxúria o vício que desvia a função sexual (ordem da razão: nem idealista, nem racionalista, nem iluminista ou espiritualista, mas realista e aberta à Fé)
  • A virtude que mais é danificada pelas faltas de moderação é a prudência; e em quase todos os casos em que tal situação se apresenta estão provocados pela luxúria.
  • A luxúria dá lugar a uma cegueira do espírito que incapacita a ver os bens do espírito; ela tira a força de vontade.
  • A virtude da castidade, mais que nenhuma, capacita e dispõe o homem para a contemplação.
  • Não morre a alma porque algo lhe falta, mas porque algo positivamente a envenena; a luxúria não mata por um efeito retardado, mas leva a destruição em si mesma
  • A luxúria destrói a fidelidade do homem a si mesmo; a alma se abandona, se entrega desarmada ao mundo sensível, paralisa e aniquila mais tarde a capacidade da pessoa moral, que já não é capaz de escutar silencioso a chamada da realidade, nem de reunir serenamente os dados necessários para adotar a postura justa em uma determinada circunstância
  • A cegueira que produz a luxúria não provêm de uma entrega ao sensível ou sexual (maniqueísmo); o destrutivo desse pecado vem de que por ele o homem se fez parcial, se insensibilizou para perceber a totalidade do que realmente é.
  • O homem não casto quer, mas de forma referida imediata e exclusivamente a si mesmo; sempre se acha distraído por um interesse ilusório, que não é real; a obsessão de gozar, que o tem sempre ocupado, o impede de se aproximar da realidade serenamente e o priva do autêntico conhecimento.
  • A forma de buscar o próprio interesse na luxúria leva sobre si a maldição de um egoísmo estéril; o abandonar-se ao mundo sensual não tem a ver com a autêntica entrega à realidade total do mundo buscando o verdadeiro conhecimento, nem com a entrega do amante à amada.
  • Uma entrega limpa não conhece preços nem entende de recompensas.
  • A essência da luxúria é o egoísmo.
  • A temperança não é, em si, a realização do bem; ela cria os pressupostos necessários para a realização no homem do bem propriamente dito, enquanto mantém e defende a ordem dentro do sujeito

 

Sentido do jejum

 

  • A alegria do coração é algo que a Igreja costuma relacionar, com especial predileção, como jejum e abstinência, formas primeiras de toda ascética: “Quando jejueis, não pareçais tristes...” (Mt 6,16)
  • Segundo S. Tomás, jejuar é um imperativo da lei natural, da moral; é um preceito de direito natural primário.
  • Como preceito eclesiástico positivo ocorre no tempo e na forma estabelecidas.
  • O cristão médio, os que não estamos maduros para a santidade, não seríamos capazes de manter em nós mesmos a ordem se o jejum não nos ajudasse
  • Com o jejum podemos rechaçar as incursões hostis da sensualidade e liberar o espírito para que se eleve a regiões mais altas onde pode encher-se com os valores que lhe são próprios
  • O dever de jejuar, oriundo da própria natureza, recebe um sentido mais elevado e novas motivações pela fé em Cristo e por amor sobrenatural a Deus; aqui há um aperfeiçoamento da natureza pela Graça
  • Na Quaresma, o coração se prepara para estar livre e perfeitamente ordenado para participar da sublime realidade dos mistérios da redenção e da páscoa.
  • A alegria do coração é o agradável fruto do esquecimento de si mesmo; é um sinal infalível da autenticidade de uma temperança que sabe, sem egoísmos, conservar e defender o verdadeiro ser da pessoa.

Temperança como senhorio sobre a dor

 

  • O sentido do tato informa o órgão da dor.
  • Um domínio do espírito sobre o prazer proporcionado pelo tato quer dizer também domínio sobre a dor.
  • O significado da palavra “disciplina”, segundo Ernst Jünger (Sobre el dolor) é manter a vida em contado ininterrupto com a dor e dessa forma tê-la [ter a vida] sempre a ponto “para ser empregada em um momento dado segundo o sentido de uma ordem superior”.
  • Esse conceito parece frio comparado com a alegria da temperança cristã. Contudo, por trás da alegria do coração, que provém de uma criação pessoa em ordem, há também uma atitude severa, com um semblante marcado pela decisão sempre em ato de sacrificar tudo que é criado por amor ao Criador.
  • Ainda que este sacrifício vá iluminado pela alegria de uma aceitação voluntária, que supera infinitamente a qualquer alegria superficial.

 

Humildade e soberba

 

  • O homem, por instinto natural, tem a tendência a sobressair, a demonstrar superioridade
  • A temperança aplicada a esse instinto para submetê-lo aos ditames da razão se chama humildade: esta consiste em que o homem se tenha pelo que realmente é.
  • A humildade não tem a ver com a atitude de autorreprovação, com a autodepreciação do próprio ser e dos próprios méritos ou com uma consciência de inferioridade.
  • A verdadeira humildade não é contrária à magnanimidade, é sua irmã gêmea e companheira, ambas são igualmente distantes da soberba e da pusilanimidade
  • Magnanimidade é o impulso que o espírito voluntariamente se impõe de tender ao sublime; magnânimo é aquele que se crê chamado ou capaz de aspirar ao extraordinário e se faz digno disso, dedica-se unicamente ao grande, tem uma sensibilidade desperta para ver onde está a honra
  • O magnânimo não muda por uma desonra injusta; considera-a simplesmente indigna de sua atenção
  • Nunca considera que exista alguém tão alto que seja merecedor de que, por admiração a ele, cometa-se algo desonesto
  • Características do magnânimo são a sinceridade e a honradez; não cala a verdade por medo; evita, como a peste, a adulação e as posturas retorcidas; não se queixa, pois seu coração não permite que seja assediado por um mal externo qualquer.
  • O magnânimo tem uma inquebrável esperança, uma confiança quase provocativa e a calma perfeita de um coração sem medo.
  • Não se deixa render pela confusão quando esta ronda o espírito, nem se escraviza ante ninguém, e sobretudo não se dobra ante o destino: unicamente é servo de Deus.
  • A soberba não é primariamente uma forma de portar-se com os demais; é sobretudo uma postura ante Deus, a negação da relação criatura-Criador; o soberbo nega a dependência de Deus como criatura.
  • Todos os pecados são fuga de Deus; a soberba é o único que o enfrenta (João Cassiano); os soberbos são os únicos pecadores a quem Deus não suporta (Tg 4,6)
  • Tampouco a humildade é primariamente uma forma de relacionar-se com os demais, mas uma forma determinada de estar na presença de Deus: a afirmação da criaturalidade, a submissão do homem a Deus


Ira justa e Mansidão

 

  • Indignar-se não é necessariamente uma falta de domínio, algo cego e negativo; a ira também pertence às potências constitutivas e construtoras do ser humano
  • Na capacidade de irritar-se é onde melhor se manifesta a energia da natureza humana; a ira vai dirigida a objetivos difíceis de alcançar, àquilo que resiste aos intentos fáceis, é a energia necessária para conquistar um bem que não se rende
  • A ira é boa quando se lança mão dela, segundo a ordem da razão, para que sirva ao fim do homem
  • É má e inclusive um pecado, a ira desmedida que transtorna a ordem da razão: as explosões de indignação e o desejo de vingança manifestam uma ira viciosa
  • O que a ira destemperada não consegue, pode obter a mansidão e a doçura (a doçura é a mansidão exercida com os demais)
  • A mansidão faz o homem dono de si mesmo; não é debilitar a força da potência irascível (como castidade não é destruir a potência sexual), mas pressupõe a paixão da ira, significa moderar essa potência

Incontinência do espírito

 

  • A ânsia de conhecer, enquanto potência originária do ser humano, necessita uma sabedoria que a mantenha em ordem, para que o homem não tenda ao conhecimento de forma desordenada
  • A verdadeira destemperança no anseio cognoscitivo provêm da “concupiscência dos olhos”
  • Existe um modo de ver que perverte o sentido primitivo da potência visual e introduz a desordem em todo o homem
  • A finalidade do ver é perceber a realidade; a concupiscência dos olhos faz que miremos, mas não precisamente para ver o real
  • S. Agostinho diz que a gula não tem interesse em que sua vítima se sacie, mas puramente que coma e goste; é o que acontece com a “curiosidade”, com a concupiscência dos olhos
  • S. Tomás: curiosidade é uma “inquietude errante do espírito”, incluída da dissipação do ânimo, primogênita da acídia
  • A estudiosidade: o homem se opõe com todas as forças de seu instinto de conservação à fatal tentação de dilapidar-se; fecha o santuário de sua vida interior às vaidades da vista e do ouvido, para voltar a uma ascética e conservar aquilo que constitui a verdadeira vida do homem: perceber outra vez a Deus e sua criação


"Temperança" (1335-9), de Giovanni di Balduccio

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