19.7.21

As virtudes (Pieper) - 3a parte: Fortaleza

Resumo do capítulo de: PIEPER, Josef. Las virtudes fundamentais. 9a ed. Madrid: Rialp, 2007, pp. 173-216.


 Introdução

 

  • As interpretações falsas ou defeituosas da realidade conduzem necessariamente ao estabelecimento de fins falsos e ideais inautênticos.
  • O fundamento real, sem o qual nem a fortaleza nem a temperança poderiam ser concebidas é a existência da iniquidade: do mal humano e do mal diabólico, da culpa e do castigo, do mal que fazemos e que padecemos.

 

 Disposto a cair

 

  • A fortaleza supõe a vulnerabilidade; ser forte ou valente significa poder receber uma ferida
  • Ferida: toda agressão contrária à vontade, que possa sofrer a integridade natural, toda lesão do ser que descansa em si mesmo, tudo que inquieta e oprime
  • A mais grave e profunda de todas as feridas é a morte (as feridas não mortais são imagens da morte)
  • A fortaleza está sempre referida à morte, à que sempre mira face a face; ser forte/corajoso é estar disposto a morrer
  • Uma fortaleza que não esteja radicada nessa disposição a cair não é autêntica e eficaz
  • A disposição se manifesta no risco da ação
  • O ato próprio e supremo da virtude da fortaleza, a sua plenitude, é o martírio; a disposição para o martírio é a raiz essencial da fortaleza cristã
  • O pequeno burguês estima que a verdade e o bem “se impõem” “por si mesmos” sem que a pessoa tenha que se expor; esta opinião é como o entusiasmo barato que elogia a “alegre disposição para o martírio” (p. 185)
  • Receber a ferida não constitui a essência completa da fortaleza; o forte não recebe esta ferida por sua própria vontade, mas a recebe para conservar ou ganhar uma integridade mais essencial e mais profunda

 

 A fortaleza não deve fiar de si mesma

 

  • O que é valente sabe o que é o bem e é valente por sua expressa vontade de bem. Pelo bem se expõe ao perigo de morrer.
  • Não é o perigo que a fortaleza busca, mas a realização do bem da razão; suportar a morte não é louvável em si, mas só na medida em que se ordena ao bem.
  • A fortaleza é fortaleza na medida em que é “informada” pela prudência (“instruída”, “recebe a forma intrínseca”).
  • A virtude da fortaleza não tem a ver com uma impetuosidade cega e puramente vital.
  • O que se expõe a toda sorte de perigo de modo impremeditado e indiferente está a dizer que qualquer coisa é mais valiosa que sua integridade pessoal
  • A essência da fortaleza não é expor-se a qualquer risco, mas entregar-se de modo razoável ao verdadeiro valor do real; a autêntica fortaleza supõe uma valoração justa das coisas, tanto das que se arrisca como das que se espera proteger ou ganhar.
  • O bem do homem é a realização de si conforme a razão; o bem da razão vem da prudência; a justiça quer realizar este bem; a fortaleza e a temperança conservam este bem (com primazia da fortaleza).
  • A fortaleza não é a primordial realização do bem: sua missão é proteger ou abrir passagem a esta realização.
  • Sem a “coisa justa” não há fortaleza: a coisa é o que decide, e não o dano que se possa sofrer.

 

 Resistir e atacar

 

  • Ser forte não é o mesmo que não ter medo; a fortaleza é incompatível com a impavidez que descansa em uma estimação errônea da realidade.
  • O corajoso nem ama a morte nem despreza a vida
  • A fortaleza supõe o medo do homem ao mal; sua essência é o não deixar que o medo a force ao mal ou a impeça de realizar o bem
  • Não há fortaleza no otimismo instintivo ou na confiança nas próprias forças
  • A fortaleza acontece quando o heroísmo natural se paralisa e o mal é enfrentado por amor do bem ou amor de Deus
  • Valente é o que não deixa que o medo aos males perecíveis e penúltimos o faça abandonar os bens últimos e autênticos
  • Só o que realiza o bem, fazendo frente ao dano e ao espantoso, é valente
  • Duas modalidades de fazer frente ao espantoso: a resistência e o ataque.
  • O ato mais próprio é resistir, que implica energia, perseverança no bem; só deste valente coração brota a energia para sofrer o ultraje da ferida e da morte
  • “Paciente é não o que não foge do mal, mas o que não se deixa arrastar por sua presença a um desordenado estado de tristeza” (S. Tomás)
  • Ser paciente: não permitir que a serenidade nem a clarividência da alma sejam roubadas pelas feridas recebidas
  • A paciência não é compatível com a tristeza e a desordem do coração (que faz nosso espírito ser quebrantado e perder sua grandeza), das quais nos protege.
  • O corajoso é paciente, mas a paciência não esgota a fortaleza
  • O valente não só sabe suportar sem desordem interior o mal quando é inevitável, senão que tampouco se recata de atacar com agressividade sobre ele e desviá-lo quando pode ter sentido fazê-lo
  • Nestas ocasiões tem lugar o ataque: a animosidade, a confiança em si mesmo e a esperança na vitória, que supõe a ajuda de Deus
  • O valente usa a ira no exercício de seu próprio ato, sobretudo o atacar; atacar o mal é próprio da ira, que coopera com a fortaleza
  • O mais próprio da fortaleza é a resistência e a paciência; o mundo real é de tal forma que só o caso de extrema gravidade exige a mais profunda força anímica do homem.
  • A mais extrema força do bem se revela na impotência

 

 As três fortalezas: vital, moral e mística

 

  • A virtude da fortaleza mantém o homem a salvo do perigo de amar tanto sua vida que termine perdendo-a
  • “O que ama sua vida termina por perdê-la”: vale para todas as ordens do ser (a pré-moral da saúde psíquica, a moral e a sobrenatural)
  • A falta de coragem para enfrentar as injúrias e para consumar a entrega de si está entra as mais profundas causas de enfermidade psíquica
  • O “egocentrismo” é o denominador comum às diversas neuroses, dominado pela angústia, uma vontade de segurança que se fecha em si mesma, que nem por um só instante cessa de ser o centro da própria mirada (amor próprio)
  • Na esfera do vital, esta fortaleza depende do poder da fortaleza moral.
  • A fortaleza moral é o fundamento da fortaleza espiritual do homem e do cristão, cujo florescimento se dá no terreno de uma valentia enraizada no vital
  • A fortaleza espiritual se desdobra em 3 graus: a fortaleza “política” da vida em comum ordinária e cotidiana; a fortaleza purificadora (fortitudo purgatoria), que cumpre de maneira mais nobre a imagem divina; a fortaleza do espírito purificado (fortitude purgati animi), dos altos cumes da santidade
  • Fortitudo purgatória: dá força à alma para enfrentar a “noite escura” dos sentidos e do espírito
  • “Virtude heroica” (desenvolvimento dos dons do Espírito Santo): fundamento é a fortaleza, “a” virtude heroica
  • Fortaleza e Esperança: uma morte sem esperança é a coisa mais terrível e difícil
  • Não é a ferida o que faz o mártir, mas a conformidade de sua ação à verdade de que há a Vida Eterna

 

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