20.8.21

Sobre a obediência

 

Esse pequeno estudo sobre o desenvolvimento da noção de “obediência” (conselho evangélico e virtude humana e cristã conexa à Fé) na Tradição católica tem como objetivo a indicação da mudança antitradicional que se opera na teologia e prática modernas, mais especificamente a partir da filosofia nominalista e, posteriormente, da concepção jesuítica sobre a obediência e a autoridade; esta nova concepção distorce a relação entre os fiéis e os súditos e a autoridade, e é causa de problemas sérios que se verificam hoje, desde os gravíssimos abusos sexuais na Igreja até as arbitrariedades do sujeito magisterial supremo.

 

1. A virtude da obediência segundo Santo Tomás, o Doutor Comum

 

Antes de mais nada, é preciso dizer que a “obediência” é uma virtude mais ampla que a obediência religiosa (relacionada ao conselho evangélico), e presente em todas as relações humanas, marcadas pela relação de autoridade e subordinação. Sobretudo é necessário obedecer a Deus, obedecendo-se a Lei natural (e o direito divino positivo que a expressa ou os 10 mandamentos), as leis humanas positivas conformes a Lei natural, as autoridades eclesiásticas, civis, militares e humanas em geral, como os bispos, os governantes, os pais, os empregadores, os chefes. Toda a vida humana é marcada pela presença da obediência, na medida em que está marcada pela presença da lei, logo da autoridade. Ensina Santo Tomás:

 

assim como em virtude da própria ordem natural establecida por Deus os seres naturais inferiores se submetem necessariamente à moção dos superiores, assim também nos assuntos humanos, segundo a ordem do direito natural, os súditos devem obedecer os superiores (S.Th. I-II, q.104, a.1).

 

Diz ainda o Aquinate, definindo a “obediência”:

 

 

Portanto, a obediência é virtude especial, e seu objeto especial é o mandato tácito ou expresso. Porque a vontade do superior, de qualquer modo que se nos sugira, é um mandato tácito, e tanto mais pronta parece nossa obediência quanto mais se adianta ao mandato expresso, depois de haver adivinhado a vontade do superior (S.Th. I-II, q.104, a.2; grifo meu).

 

Todas as vontades devem obedecer à autoridade divina em tudo (cf. S.Th. I-II, q.104, a), inclusive as autoridades religiosas, e até a pontifícia, por suposto; e é somente com esta observação que se pode entender corretamente o definido na Bula Unam Sanctam, ou seja, de que “é absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice”.

 

Se, contudo, o superior manda algo contra a autoridade divina, não deve ser obedecido (cf. At 5, 29) – isto vale inclusive para o superior eclesiástico, o qual, se manda contra Deus, age como homem, e não como autoridade sagrada (cf. S.Th. I-II, q.104, a.5). Há duas razões para o súdito não obedecer em tudo ao superior: por causa de um preceito de autoridade superior, ou em algo do qual não depende do superior; e isto de tal modo que os atos interiores da vontade só são devidos a Deus (cf. Ibid.).

 

Especificamente quanto aos religiosos, ensina Tomás, com grande sabedoria prática:

 

Os religiosos fazem profissão de obediência quanto às observâncias regulares, e de acordo com sus regra se submetem a seus superiores. Portanto, estão obrigados a obedecer somente naquilo que pode pertencer à vida regular. Tal é a obediência suficiente para conseguir a salvação eterna. Mas, se querem obedecer-lhes em outras matérias, pertencerá neste caso a um grau superior de perfeição, sempre que não sejam contrárias a Deus ou contra a regra professada; porque tal obediência seria ilícita (S.Th. I-II, q.104, a.5, ad3).

  

2. Passagens sobre a obediência e a autoridade no Novo Testamento

 

a) A obediência de Jesus

 

Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus:

Ele tinha a condição divina,

e não considerou o ser igual a Deus

como algo a que se apegar ciosamente.

Mas esvaziou-se a si mesmo,

e assumiu a condição de servo,

tomando a semelhança humana. 

E, achado em figura de homem,

humilhou-se e foi obediente até à morte,

e morte de cruz! (Fl 2, 5-8).

 

“Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4, 34).

 

“Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!” (Lc 22, 42)

 

Explica o Catecismo da Igreja Católica sobre a vontade humana de Cristo:

 

De igual modo, a Igreja confessou, no sexto Concilio ecuménico, que Cristo possui duas vontades e duas operações naturais, divinas e humanas, não opostas mas cooperantes, de maneira que o Verbo feito carne quis humanamente, em obediência ao Pai, tudo quanto decidiu divinamente com o Pai e o Espírito Santo para a nossa salvação. A vontade humana de Cristo «segue a sua vontade divina, sem fazer resistência nem oposição em relação a ela, antes estando subordinada a essa vontade omnipotente» (n. 475).

 

b) A obediência pronta de Nossa Senhora, de S. José e de Abraão

 

“Disse, então, Maria: ‘Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra’” (Lc 1, 38).

 

“José, ao despertar do sono, agiu conforme o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu em casa sua mulher” (Mt 1, 24).

 

“Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia” (Hb 11, 8).

 

Sobre a obediência da fé, diz o Catecismo da Igreja Católica, mencionando a Virgem Maria e Abraão:

 

Obedecer (ob-audire) na fé é submeter-se livremente à palavra escutada, por a sua verdade ser garantida por Deus, que é a própria verdade. Desta obediência, o modelo que a Sagrada Escritura nos propõe é Abraão. A sua realização mais perfeita é a da Virgem Maria (n. 144).

 

c) A ordem da autoridade e a autoridade eclesiástica e civil

 

“Porém, respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: ‘Mais importa obedecer a Deus do que aos homens’” (At 5, 29).

 

Diz o Catecismo da Igreja Católica a respeito do juízo certo da consciência, que manifesta a Lei natural e, enformada pela Fé, a própria Lei divina:

 

O ser humano deve obedecer sempre ao juízo certo da sua consciência. Agindo deliberadamente contra ele, condenar-se-ia a si mesmo [...]

 

A consciência boa e pura é iluminada pela fé verdadeira. Porque a caridade procede, ao mesmo tempo, «dum coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera» (1 Tm 1, 5) (n. 1790; n. 1794).

 

Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” (Hb 13, 17).

 

“E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre

vós no Senhor, e vos admoestam” (1Ts 5, 12).

 

“Lembra-lhes que devem ser submissos aos magistrados e às autoridades, que devem ser obedientes e estar sempre prontos para qualquer trabalho honesto” (Tt 3,1).

 

“Todo homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. De modo que aquele que se revolta contra a autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus” (Rm 12, 1-2).


Não se trata, obviamente, nesta última passagem, de que todas e cada uma das autoridades concretas sejam eleitas de Deus, mas de que a autoridade humana é uma participação na autoridade divina, e de que a revolta contra este princípio de autoridade participada – a atitude anarquista, por exemplo, ou o revolucionário contra uma autoridade justa – é uma ordem contra a ordem da criação. A autoridade, contudo, deve governar segundo Deus e segundo a Lei natural, como vimos na explicação de S. Tomás.

 

Sobre a obediência eclesiástica e a obediência civil, ensina o Catecismo da Igreja Católica:

 

Feito membro da Igreja, o baptizado já não se pertence a si próprio mas àquele que morreu e ressuscitou por nós. A partir daí, é chamado a submeter-se aos outros, a servi-los na comunhão da Igreja, a ser «obediente e dócil» aos chefes da Igreja e a considerá-los com respeito e afeição (n. 1269).

 

O dever de obediência impõe a todos a obrigação de tributar à autoridade as honras que lhe são devidas e de rodear de respeito e, segundo o seu mérito, de gratidão e benevolência, as pessoas que a exercem (n. 1900).

 

d) A autoridade doméstica e laboral

 

Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa; para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra. E vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor.

 

Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo; não servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus; servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. Sabendo que cada um receberá do Senhor todo o bem que fizer, seja servo, seja livre. E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças, sabendo também que o Senhor deles e vosso está no céu, que para com ele não há acepção de pessoas (Ef 6, 1-9).

 

 

Vós, mulheres, estai sujeitas a vossos próprios maridos, como convém no Senhor. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não vos irriteis contra elas. Vós, filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor. Vós, pais, não irriteis a vossos filhos, para que não percam o ânimo.

 

Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus. E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens, sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis. Mas quem fizer agravo receberá o agravo que fizer; pois não há acepção de pessoas (Cl 3, 18-25).

 

 

3. A obediência nos Padres

 

a) S. Clemente Romano sobre a obediência a Deus

 

“Obedeçamos, portanto à grandiosa e gloriosa vontade do Senhor” (Carta aos Coríntios, n. 9).

 

“Abraão, que foi chamado amigo, foi encontrado fiel em sua obediência às palavras de Deus. Por obediência, ele saiu de sua terra, de sua família e da casa de seu pai” (n. 10).

 

“Portanto, irmãos, é justo e santo obedecer a Deus, mais do que seguir aqueles que, por orgulho e revolta, se tornaram chefes de odiosa inveja” (n. 14).

 

“Obedeçamos, portanto, ao seu nome santíssimo e glorioso, fugindo das ameaças proferidas pela Sabedoria contra os que resistem, a fim de que ‘habitemos confiantes’ sob o nome santíssimo de sua majestade” (n. 58).

 

b) S. Inácio de Antioquia sobre a obediência à Hierarquia

 

Convém caminhar de acordo com o pensamento de vosso bispo, como já o fazeis. Vosso presbitério, de boa reputação e digno de Deus, está unido ao bispo, assim como as cordas à cítara. Por isso, no acordo de vossos sentimentos e na harmonia de vosso amor, vós podeis cantar a Jesus Cristo (Carta aos Efésios, n. 4).

 

Convém que não abuseis da idade do vosso bispo, mas, pelo poder de Deus Pai, lhe tributeis toda reverência. De fato, eu soube que vossos santos presbíteros não abusaram de sua evidente condição juvenil, mas, como gente sensata em Deus, se submetem a ele, não a ele, mas ao Pai do bispo de todos, Jesus Cristo. Portanto, para honra daquele que nos amou, é preciso obedecer sem nenhuma hipocrisia, porque não é ao bispo visível que se engana, mas é ao invisível que se mente (Carta aos Magnésios, n. 3).

 

Quando vos submeteis ao bispo como a Jesus Cristo, demonstrais a mim que não viveis segundo os homens, mas segundo Jesus Cristo, que morreu por nós, a fim de que, crendo em sua morte, possais escapar da morte. É necessário, portanto, como já o fazeis, nada realizar sem o bispo, mas também submeter-vos ao presbitério, como aos apóstolos de Jesus Cristo, nossa esperança, no qual encontraremos em toda a nossa conduta. É preciso, também, que os diáconos, ministros dos mistérios de Jesus Cristo, agradem a todos e de todos os modos. Com efeito, não é de comida e bebida que eles são ministros, e sim servidores da Igreja de Deus. É preciso, portanto, que eles evitem qualquer tipo de repreensão, como se evita o fogo.

 

Da mesma forma, todos respeitem os diáconos como a Jesus Cristo, e também ao bispo, que é imagem do pai, e os presbíteros como à assembleia dos apóstolos. Sem eles, não se pode falar de Igreja (Carta aos Tralianos, nn. 2-3).

 

c) São Bento e São João Clímaco sobre a obediência religiosa

 

 

O primeiro grau da humildade é a obediência sem demora. É peculiar àqueles que estimam nada haver mais caro do que o Cristo; por causa do santo serviço que professaram, por causa do medo do inferno ou por causa da glória da vida eterna, desconhecem o que seja demorar na execução de alguma coisa, logo que ordenada pelo superior, como sendo por Deus ordenada. Deles diz o Senhor: "Logo ao ouvir-me, obedeceu-me" (Sl 17,45). E, do mesmo modo, diz aos doutores: "Quem vos ouve, a mim ouve" (Lc 10,16). Pois são estes mesmos que, deixando imediatamente as coisas que lhe dizem respeito e abandonando a própria vontade, desocupando logo as mãos e deixando inacabado o que faziam, seguem com seus atos, tendo os passos já dispostos para obediência, a voz que ordena. E, como que num só momento, ambas as coisas, a ordem recém dada do mestre e a perfeita obediência do discípulo, são realizadas simultaneamente e rapidamente, na prontidão do temor de Deus (Regra, cap. 5: Da obediência; negritos meus).

 

Característica da obediência religiosa é a prontidão para cumprir a ordem dada pelo superior religioso como se fora dada por Deus. Tal como fizeram Jesus, Maria, José, Abraão.

 

No cap. 2, S. Bento havia considerado a figura da autoridade, isto é, do Abade: para ser “digno de presidir ao mosteiro deve lembrar” que “faz as vezes de Cristo”, que “nada deve ensinar, determinar ou ordenar que seja contrário ao preceito do Senhor”, deve ser ortodoxo e buscar a santidade, “apresentar as coisas boas e santas mais pelas ações do que pelas palavras”; deve ser coerente, de modo que “quanto ensine aos discípulos como nocivo, indique pela sua maneira de agir que não se deve praticar, a fim de que, pregando aos outros, não se torne ele próprio réprobo”; não deve “fazer distinção de pessoas no mosteiro”, mas deve ser caridoso, “corrigir os outros e emendar-se dos próprios vícios”.

 

Antes, no cap. 1, S. Bento havia considerado os 4 gêneros de monges (cenobitas ou monasteriais, anacoretas ou eremitas, sarabaítas e giróvagos). Teoricamente, um anacoreta ou eremita (um “perfeito”) é a pessoa mais adequada para guiar os cenobitas ou monasteriais. É a alguém assim, ou pelo menos a um avançado de comprovada virtude, que se pede obedecer livremente de maneira pronta. Sigamos com o texto do cap. 5 sobre a obediência:

 

Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida eterna; por isso, lançam-se como que de assalto ao caminho estreito do qual diz o Senhor: “Estreito é o caminho
que conduz à vida” (Mt 7,14), e assim, não tendo como norma de vida a própria vontade, nem obedecendo aos próprios desejos e prazeres, mas caminhando sob o juízo e domínio de outro e vivendo em comunidade, desejam que um Abade lhes presida. Imitam, sem dúvida, aquela máxima do Senhor que diz: "Não vim fazer a minha vontade, mas a d'Aquele que me enviou” (Jo 6,38).

 

Mas essa mesma obediência somente será digna da aceitação de Deus e doce aos homens se o que é ordenado for executado sem tremor, sem delongas, não mornamente, não com murmuração, nem com resposta de quem não quer. Porque a obediência prestada aos superiores é tributada a Deus. Ele próprio disse "Quem vos ouve, a mim ouve" (Lc 10,16). E convém que seja prestada de boa vontade pelos discípulos, porque "Deus ama aquele que dá com alegria” (2Cor 9,7). Pois, se o discípulo obedecer de má vontade e se murmurar, mesmo que não com a boca, mas só com o coração, ainda que cumpra a ordem, não será mais o seu ato aceito por Deus que vê seu coração a murmurar. Por tal ação não consegue graça alguma e, mais ainda, incorre no castigo dos murmuradores se não se emendar pela satisfação (negritos meus).

 

 

* * *

 

Obediência é perfeita abnegação da alma; abnegação declarada por exercício e obras do corpo. Obediência é perfeita abnegação do corpo, declarada com fervor e vontade da alma, porque, para a perfeita obediência, é necessário que tudo concorra, tanto o corpo como a alma, e tudo é necessário que se negue, quando a obediência o exige. Obediência é mortificação dos membros em alma viva. Obediência é obra sem exame, morte voluntária, vida sem curiosidade, porto seguro, escusa perante Deus [nota: “escusa” no sentido de que a santa obediência é uma obra da caridade que cobre pecados], menosprezo do temor da morte, navegação impávida, caminho pelo qual dormindo se transita. Obediência é sepulcro da própria vontade e ressurreição da humildade; pois o verdadeiro obediente, a nada resistindo, fazendo sem discernimento tudo o que lhe é mandado (quanto não é claramente mau), confiando humildemente na discrição de seu prelado, e desta maneira mortificando santamente sua alma, dará a Deus seguras contas de si. Obediência é resignar, com grande discrição, o próprio discernimento (A Santa Escada, cap. IV; negritos meus).

 

A obediência religiosa é um meio singular de santificação para os consagrados. Deve-se cumprir a ordem (legítima, justa, segundo Deus) do superior, mortificando a própria vontade, quer os desejos ilegítimos (pecaminosos), por óbvio, quer as escolhas racionais legítimas em tese, mas que devem ser renunciadas em favor da escolha do superior no cumprimento da regra, como diria Santo Tomás. Neste caso, sempre deve haver uma união de coração à vontade do superior, porque esta não é caprichosa, mas é segundo o Evangelho, a Lei Natural e a Regra: o ato interior da vontade do súdito se une àquela vontade legítima do superior como representante da vontade divina.

 

Certamente, pela necessária analogia da vida cristã, a vida doméstica também é um âmbito de sacrifício das próprias vontades, também é um âmbito de renúncias de eleições legítimas, em nome do bem comum.

 

Em qualquer caso, contudo, nunca se trata de renunciar à faculdade da vontade: renuncia-se aos desejos sensíveis, renuncia-se a eleições legítimas possíveis do livre-arbítrio, mas jamais ao próprio ato volitivo, porque ou é a liberdade a que se une à vontade do superior (ou às necessidades da vida familiar, por exemplo) ou então não há ação humana em sinergia com a ação divina, não há caridade, não há mérito; não há santidade, e nem mesmo, no caso de anulação ilegítima da vontade do súdito, um ato em si mesmo servível à salvação.

  

4. A obediência nos mestres espirituais medievais

 

a) Guilherme de St-Thierry

 

Assim como uma estrela difere de outra estrela em luminosidade (1Cor 15, 41), assim também uma cela difere da outra segundo o gênero de vida, a saber, dos iniciantes, dos que progridem e dos perfeitos. O estado dos iniciantes pode ser chamado de “animal”, o dos que progridem “racional” e o dos perfeitos “espiritual”. [...] (Carta de Ouro, n. 41).

 

São “animais” aqueles que, por natureza, não agem segundo a razão nem são conduzidos pelo affectus [nota: amor espiritual, na linguagem do autor]. Mas que, movidos pela autoridade, ou admoestados pela doutrina ou instigados por algum exemplo, aprovam o bem, onde o encontram, e, à semelhança dos cegos, levados pela mão, seguem, isto é, imitam. São “racionais” os que, pelo juízo da razão e o discernimento da ciência natural, possuem o conhecimento e o desejo do bem, mas que todavia lhes falta o affectus. São “perfeitos” aqueles que agem segundo o espírito e que pelo Espírito Santo são mais plenamente iluminados. E por degustarem do bem, cujo affectus os atrai, são chamados de “sábios”. E porque o Espírito Santo os revestiu – como outrora a Dedão, como que com as vestes do Espírito Santo – são chamados de “espirituais” (n. 43).

 

Guilherme apresenta as três “idades” da vida espiritual, e como a “obediência” funciona distintamente em cada uma; isto é óbvio, mas é esquecido: o principiante, como uma criança, precisa ser levado pela mão, vive da obediência, sua vida moral e espiritual dela depende inteiramente (isto exige e pressupõe um superior reto, como a obediência familiar exige e pressupõe um pai reto); o avançado, que já vê o bem que deve ser feito, mas ainda não tem a força do amor (o affectus) requer o império da razão do superior para sua realização, como um jovem precisa da motivação do pai; o perfeito ou espiritual vive a obediência da caridade: como Guilherme dirá adiante, já está aderido à vontade de Deus, mas ainda assim se rebaixa e se faz obediente como Cristo.

 

A respeito da obediência do principiante e de sua necessidade do diretor espiritual, ensina Guilherme:

 

[...] A perfeita obediência, sobretudo no principiante, não julga o quê ou o por quê lhe ordenam [algo], mas se limita somente em fazer, humilde e fielmente, o que lhe foi ordenado pelo superior.

 

A árvore da ciência do bem e do mal do Paraíso é, na vida religiosa, o “poder discricionário” nas mãos do pai espiritual, que tudo julga e não é julgado por ninguém. A ele compete discernir, aos outros obedecer (cf. 1Cor 2, 15). [...] [Adão] Julgou, comeu, fez-se desobediente e foi expulso do Paraíso. Assim é o homem animal que julga, o noviço prudente, o iniciante que se faz de sábio! Passar muito tempo na cela, perseverar na comunidade, lhe é impossível. Que ele se torne insensato para tornar-se sábio (1Cor 3, 18). Que todo o seu juízo nesta matéria consista em não fazer juízo algum. E que seja esta toda a sua sabedoria, a de não ter sabedoria nenhuma neste assunto (nn. 53-54).

 

Eis o porquê da virtuosa simplicidade: o homem novo na vida religiosa e solitária, que não possui ainda razão para o dirigir, nem affectus para o atrair, nem discernimento para o moderar, mas que precisa usar de violência contra si mesmo, deve, como o vaso nas mãos do oleiro, deixar-se trabalhar pela lei dos mandamentos como por mãos alheias e ser formado, em toda paciência, no torno variável da obediência e no fogo da provação, submetendo-se á vontade e ao arbítrio daquele que o plasma e o forma.

 

Ainda que tenha um talento comprovado, que brilhe pela habilidade, que se destaque pela inteligência, esses instrumentos são tanto de vícios quanto de virtudes. Que não se recusa, portanto, a aprender a utilizar para o bem aquilo que pode servir para o mal, pois é nisso justamente que consiste o trabalho da virtude. [...] (nn. 68-69).

 

Se te apressas em busca da saúde, toma cuidado para não presumir nada, por pouco que seja, por ti mesmo, sem antes consultar o médico [o diretor espiritual] [...] (n. 98)

 

[...] A Deus deves a piedade, Àquele a quem te consagras inteiramente a seu serviço; à consciência deves a honra, diante da qual te envergonhes de pecar; ao pai espiritual a obediência plena de caridade, a quem recorres em qualquer ocasião (n. 101).

 

E sobre a obediência dos perfeitos, como já adiantado (mencionando ainda sua obediência aos pares e inferiores, tema que será retomado por S. Francisco de Sales, como veremos mais adiante):

 

Os perfeitos e espirituais [...] sempre se esforçam e se humilham no mesmo nível dos principiantes, para que, pelas virtudes da obediência e da submissão, fortaleçam e robusteçam suas próprias virtudes. Descendo abaixo de si mesmos, elevam-se acima de si [...] (n. 190).

 

Uma boa guardiã da vontade é, portanto, a obediência, seja ela de preceito, de conselho, de sujeição ou apenas da caridade. Com frequência, segundo o Apóstolo Pedro (cf. 1Pd 1, 22), os filhos da obediência castificam seus corações com maior pureza e doçura por uma obediência de caridade para com seus pares (ou até mesmo para com seus inferiores) do que aqueles que se submetem aos seus superiores por uma obediência de necessidade (n. 240).

  

b) São Francisco de Assis

 

Diz o Senhor no Evangelho: “Quem não renuncia a todos os seus bens não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33), e: “Quem quiser salvar sua alma, perdê-la-á” (Mt 16,25). Abandona tudo quanto possui e perde sua vida aquele que a si mesmo abandona inteiramente à obediência nas mãos do seu prelado. E tudo o que faz e diz, sabendo que não contraria a vontade dele, e sendo bom o que faz, é obediência verdadeira. E se acaso o súdito vê algo melhor e mais útil à sua alma do que aquilo que o prelado lhe ordena, sacrifique a Deus o seu conhecimento, se aplique com firmeza a cumprir as ordens do prelado, pois nisto é que consiste a verdadeira obediência feita com amor, que agrada a Deus e reverte a bem do próximo.

 

Entretanto, se o prelado der ao súdito alguma ordem contrária à alma, este todavia não se separe dele, embora não lhe seja lícito obedecer-lhe. E se por esse motivo tiver de suportar perseguições da parte de alguém, que então o ame ainda mais por amor de Deus.

Pois aquele que prefere aturar perseguições a querer ficar separado de seus irmãos, permanece verdadeiramente na perfeita obediência, porque “dá a sua vida pelos seus irmãos” (Jo 15,13). Há efetivamente muitos religiosos que, sob o pretexto de verem coisas preferíveis às que os prelados ordenam “olham para trás” (Lc 9,62) e “voltam ao vômito de sua vontade própria” (Pr 26,11). Esses tais são homicidas e, por seus exemplos funestos, causam a perdição de muitas almas (Admoestações, Cap. 3).

 

Retornam as ideias de que a ordem deve ser boa (justa), que é necessário sacrificar até escolhas melhores que as do superior, mas que não se pode obedecer ordens más ou “contrárias à alma”. São Francisco ensina, contudo, que a ordem má não retira a autoridade do superior: aquela desobediência pontual diante da ordem injusta é legítima, mas separar-se da autoridade já não o seria.

 

Certamente, não se trata aqui de uma autoridade tirânica, mas de uma que erra sem comprometer o bem geral da alma ou o bem comum da comunidade.

 

No limite, podemos pensar em erros graves da autoridade suprema da Igreja: se alguém dela se separa voluntariamente, daí advém um dano mais grave do que a aceitação de sua legitimidade sem a obediência a suas ordens ilegítimas; o justo é precisamente resistir ao mal, aceitando as perseguições e inclusive a excomunhão imerecida, e não realizar uma indevida “deposição” da autoridade injusta [deposição meramente intencional e sem efeitos práticos ou políticos, que constituiria uma atitude sectária].

 

c) O autor da Imitação de Cristo (atribuído a Tomás de Kempis)

 

Grande coisa é viver na obediência, às ordens de um superior e não ser senhor de si. Muito mais seguro é obedecer que mandar. Muitos obedecem mais por necessidade que por amor; sofrem e, facilmente murmuram. Esses nunca alcançarão a liberdade de espírito, se não se submeterem, de todo o coração, por amor de Deus. Para onde quer que te voltes, não encontrarás sossego, senão na humilde sujeição à autoridade do superior.

A imaginação e a mudança dos lugres têm enganado a muitos. É verdade que cada um gosta de seguir o seu próprio parecer e mais se inclina para aqueles que lhe partilham a opinião. Se, porém, estamos animados pelo Espírito de Deus, faz-se necessário que, algumas vezes, renunciemos ao nosso parecer, por amor da paz. Quem é tão sábio que possa conhecer perfeitamente todas as coisas? Não confies, pois, muito em teus próprios conhecimentos; antes, de boa vontade, procura consultar aos de outrem. Se o tem parecer é bom e, por amor de Deus, o deixares, para seguir o dos outros, mais te aproveitará. Muitas vezes ouvi dizer que mais seguro é ouvir e tomar conselhos que os dar. Pode também acontecer que seja bom o parecer de qualquer um; mas não querer ceder aos outros, quando a razão e as circunstâncias o mandam, é sinal de soberba e obstinação (Imitação de Cristo, Livro I, cap. 9; negritos meus).

 

Apesar dos problemas da devotio moderna, especialmente o “culto ao método e ao diretor espiritual” [veja-se aqui o artigo do Pe. Ravier Olivera Ravasi: A devotio moderna - características e sintomas], o autor da Imitação de Cristo recolhe o básico da Tradição católica sobre a “obediência”: a necessidade de uma obediência de coração, a humildade que reconhece os limites do próprio conhecimento – desde que isso não se converta em uma espúria renúncia à faculdade da inteligência ou à cegueira voluntária diante do equívocos graves patentes do superior –, a renúncia aos próprios pareceres legítimos.

 

d) Santa Catarina de Sena

 

No que diz respeito à potestade papal, como veremos posteriormente, S. Catarina já começa a incorrer num certo “ultramontanismo” avant la lettre, no espírito da definição imprecisa ou genérica da Unam Sanctam – sim, não existe imprecisão apenas no CVII, porque a “necessidade de submissão ao papa para a salvação” requer obviamente ulteriores explicações para que se entenda de modo plausível, compatível com a Tradição e com a Lei Natural, e não como ratificação de possíveis atos tirânicos (sabemos das intenções políticas de Bonifácio VIII, e precisamos separar a intenção eclesial de sua definição de seu possível uso pessoal). Mas, o que a terciária dominicana diz de modo geral sobre a “autoridade” e a “obediência” cristãs está em consonância com o que vimos até aqui. Vejamos alguns exemplos:

 

Sobretudo vós, senhora superiora, procurai ser obediente a Deus, suportando a função que ele vos impôs, a de governar suas ovelhas. [...]

 

Quanto às irmãs, rogo-lhes em nome d’Aquele que assumiu toda a nossa miséria, que se inclinem para entrar pela porta estreita da santa obediência, a fim de o orgulho da vontade não as prejudicar. Caríssimas irmãs, não vos pareça difícil a repreensão. [...] Sede então obedientes por amor daquele dulcíssimo e amantíssimo jovem Filho de Deus, que foi obediente até a morte. Assim possuiremos aquela espada para eliminar o vício da soberba com a força divina. Enraizados na virtude da caridade, nós a revelaremos através da virtude da obediência; e esta última, nós a comprovaremos com a virtude da humildade (Carta 30, nn. 5-6).

 

É preciso antes morrer, que desobedecer ao superior. Vede! Jamais aconteceu, e Deus não o permita, que um superior ordenasse algo contrário a Deus. E se isso viver a acontecer, vós não devereis obedecer. Mas nos outros casos, procurai sempre a obediência, sem ficar olhando para a própria satisfação, espiritual ou material (Carta 36, n. 4).

 

O religioso que tem a caridade vence o incômodo de suportar as observâncias monásticas e as ordens difíceis dos superiores. Igualmente, tudo se suporta com paciência, com facilidade se obedece. Possuindo a humildade, ele jamais responde ao superior. Nele, a humildade e a obediência se equilibram [...]

 

Filhos queridos, toda pessoa deve obedecer aos mandamentos de Deus. Essa obediência afasta a culpa do pecado mortal e infunde a vida da graça. [...]

 

Essa obediência aos mandamentos é de caráter geral. A ela está obrigado todo cristão. Mas existe um outro tipo de obediência, própria dos que, já tendo obedecido aos mandamentos, querem progredir por ações e desejos na prática da caridade perfeita. São os que vivem no “jardim” da Igreja, ou seja, na vida religiosa. Torna-se fácil obedecer à Regra e ao prelado, para quem já praticou a obediência geral e passou à obediência especial. O cristão que entra na vida religiosa com sua vontade pessoal “morta”, como sempre deveria acontecer, sentir-se-á feliz (Carta 84, nn. 3-4).

 

Apesar dessa retórica idealizadora do “se o superior já ordenou algo contrário a Deus”, a santa afirma o critério correto: uma ordem contra Deus não deve ser obedecida. A vontade pessoal “morta” deve ser entendida quanto àquelas escolhas legítimas e quiçá melhores que as dos superiores, mas que devem ser proscritas no âmbito do seguimento da Regra religiosa. No Diálogo, ela desenvolveu mais suas ideias esboçadas nas Cartas, mas diz essencialmente o mesmo. Pode-se destacar a distinção que ela faz entre a “obediência do religioso” e a “obediência do leigo consagrado”: a primeira é mais perfeita, a segunda é mais incerta, “por não estar comprometido com o voto” (cf. Diálogo, 36.10). Depois retornaremos à questão da autoridade pontifícia na autora.

 

5. Exercício da autoridade e obediência cristã na reta teologia espiritual moderna

 

a) São João da Cruz

 

- quando víssemos em nossa Ordem perdida a delicadeza, que faz parte da polidez cristã e monástica, e que, em seu lugar, reinasse a agressividade e a ferocidade nos superiores, vício esse próprio de bárbaros, devíamos deplorá-la como acabada. Porque quem jamais viu as virtudes e as coisas de Deus serem impostas a pauladas e com grosseria?

 

- quando os religiosos são formados sob a ação desses rigores, tão desarrazoados, vêm a ficar pusilânimes para empreender coisas grandes na virtude, como se tivessem sido criados entre feras [...]

 

- podia-se recear ser ardil do demônio formar os religiosos desta maneira, porque, formados com esse temor, não teriam os superiores quem ousasse adverti-los nem discordar deles quando estivessem em erro.

 

E que, se por esse caminho, ou por outro semelhante, chegar a Ordem a tal estado que aqueles, que estariam obrigados pelas leis de caridade e justiça, isto é, seus membros mais representativos, não ousarem dizer o que convém nos capítulos e juntas, ou em outras ocasiões, por fraqueza, pusilanimidade ou por receio de desgostar o superior e assim não serem escolhidos para desempenhar cargos - o que é manifesta ambição - tenham-na por perdida e por completamente relaxada" (Ditames de Espírito, n. 11; negritos meus).

 

Perceba-se a liberdade de espírito de São João da Cruz em sua crítica dura às possíveis agressividades dos superiores, que deforma os religiosos, bem como na autorização que dá aos súditos para advertir os maus superiores e deles discordar quando errarem. É péssimo sinal para a estrutura religiosa a presença de modos bárbaros entre os superiores.

 

b) São Francisco de Sales

 

Trago aqui o capítulo sobre a “obediência” de Filoteia (Introdução à vida devota) que o grande santo moderno escreveu para a devoção dos leigos.

 

A caridade sozinha nos faz realmente perfeitos, mas a obediência, a castidade e a pobreza são as principais virtudes que nos ajudam a adquirir a perfeição. A obediência, pois, dedica o nosso espírito à castidade, o nosso corpo à pobreza. os nossos bens ao amor e serviço de Deus. São como que três braços da cruz espiritual, em que estamos crucificados com Jesus Cristo e fundam-se ao mesmo tempo numa quarta virtude, que é a santa humildade.

 

Não pretendo falar-te destas três virtudes com respeito aos votos solenes da religião ou aos votos simples que mesmo no mundo se emitem por graves razões, porque, embora os votos tragam consigo muitas graças e merecimentos, a simples prática destas virtudes é absolutamente bastante para conduzir à perfeição. É verdade que esses votos, principalmente os solenes, elevam uma pessoa ao estado da perfeição; mas há uma grande diferença entre o estado da perfeição e a perfeição mesma, pois que todos os religiosos c bispos estão no estado da perfeição; mas nem todos são perfeitos, como é evidente.

 

Esforcemo-nos, Filoteia, por praticar essas virtudes, cada um segundo a sua vocação, porque, ainda que não nos ponham no estado da perfeição, elas nos darão todavia a perfeição; demais, somos todos obrigados à prática destas virtudes, conquanto não o sejamos todos do mesmo modo.

 

Duas espécies há de obediência, uma necessária e outra voluntária. Segundo as leis da obediência necessária, deves obedecer a teus superiores eclesiásticos, ao papa, ao bispo, ao vigário e aos seus representantes; além disso, deves obedecer às autoridades civis, isto é, ao príncipe e aos magistrados que estabeleceu no seu Estado; por fim, deves obedecer aos superiores domésticos: ao pai, à mãe, ao dono e à dona da casa.

 

Chama-se necessária esta obediência porque ninguém se pode eximir da obrigação de obedecer a estes superiores, tendo-lhes Deus dado a autoridade para governar com preceitos e ordens os que estão confiados à sua direção. Obedece, pois, às suas ordens; nisto consiste a obediência a que estás obrigada incondicionalmente; mas, para torná-la mais perfeita, segue também os seus conselhos e até os seus desejos e inclinações, tanto quanto a caridade e a prudência o permitirem.

 

Obedece-lhes nas coisas agradáveis, como comer, divertir-se; pois, conquanto não pareça ser grande virtude obedecer em semelhantes coisas, contudo grande falta seria faltar aqui com a devida submissão. Obedece-lhes nas coisas indiferentes, como vestir uma ou outra roupa, passar por um caminho ou por outro, falar ou calar-se, e já a obediência terá um merecimento muito grande. Obedece-lhes em coisas dificultosas, ásperas e desagradáveis, e a obediência será perfeita. Obedece sem réplica, mas com mansidão; sem demora, mas com fervor; sem constrangimento, mas com alegria. Sobretudo obedece com amor e por amor daquele que por nosso amor se tornou obediente até à morte da cruz e preferiu, como diz São Bernardo, perder a vida a desobedecer.

 

Para aprender a obedecer com facilidade aos superiores, acostuma a te acomodares de bom grado com a vontade dos teus iguais, conformando-te aos seus sentimentos sem espírito de contestação, se não houver aí alguma coisa de mal; e mesmo às inclinações razoáveis dos teus inferiores te deves acomodar de boa vontade e não exerças a tua autoridade dum modo imperioso, enquanto se mantêm em ordem. É um engano dizer que se estivesse na religião, obedecer-se-ia facilmente, quando se sente dificuldade e repugnância em obedecer às pessoas que Deus constituiu acima de nós.

 

Por obediência voluntária entendemos aquela que não nos foi imposta por um preceito, mas a que nos obrigamos por livre escolha. Ninguém pode escolher para si o pai e a mãe; de ordinário, não se escolhe o seu príncipe, o seu bispo e até muitas vezes nem o seu consorte; mas escolhe-se livremente o seu confessor e diretor espiritual. Seja que nesta escolha se faça um voto de obedecer-lhe – como Santa Teresa, que, além do voto solene da Ordem, de obedecer aos superiores, se ligou por um voto especial e simples de obedecer ao padre Graciano – ou seja, que sem voto algum se proponha humildemente obedecer ao confessor, e esta obediência chama-se voluntária, porque em seu princípio depende de nossa vontade e eleição.

 

Devemos obedecer a todos os superiores, mas a cada um nas coisas de sua competência; aos príncipes, em tudo que diz respeito à polícia e à ordem pública; aos prelados, em tudo que concerne à disciplina eclesiástica; a um pai, a um senhor, a um marido nas coisas domésticas; ao confessor e ao diretor, em tudo o que tem relação com a direção particular da alma.

 

Pede ao teu diretor espiritual que te designe as ações de piedade que deves praticar; deste modo se tornarão melhores, porque, além da sua própria bondade e merecimento, terão ainda o mérito da obediência que as preceituou e animou de seu espírito.

 

Bem-aventurados são os obedientes, porque Deus nunca permitirá que se percam (Filoteia, Parte III, cap. 11; grifos meus).

 

O santo exorta os leigos a obedecer as ordens – justas, presume-se – dos superiores, e também a seguir seus conselhos e desejos, mas sem excluir a virtude da prudência, que julga da oportunidade de fazê-lo. Oferece critérios de humildade muito pertinentes, na conformação à vontade – sempre justa, “se não houver mal” – dos iguais, e até às inclinações dos inferiores.

 

Está presente a figura do “diretor espiritual” – que é importante, especialmente no período inicial da conversão, ou então, nos avançados, para o discernimento da experiência mística (que requer, como ensina S. Teresa D’Ávila, que o diretor seja necessariamente muito douto, e não apenas piedoso), mas cujo valor é muito exagerado na vida laical no período recente (cf. o artigo do Pe. Ravasi mencionado acima) –, mas ela é referida às “práticas de piedade”, e não às decisões morais. 

 

Em tudo S. Francisco de Sales é muito prudente, muito razoável.

 

* * *

 

Em toda essa questão da obediência está suposta a obediência a Deus, de onde vem toda autoridade. Quando se trata da autoridade civil ou da autoridade doméstica, ela deve mandar de acordo com a Lei natural; quando se trata da autoridade eclesiástica ou da autoridade religiosa, também.

 

Em nenhum caso, a obediência é “cega”, nem mesmo quando se trata da autoridade militar: nenhum subordinado que cometa uma atrocidade está escusado “por seguir ordens”.

 

A total conformação da vontade ao superior religioso tampouco é cega, mas supõe, se não a santidade, pelo menos a virtude ou retidão do superior; se a linguagem usada nesse âmbito por alguns mestres parece favorecer uma tal obediência cega, é simplesmente porque estão supondo a justiça das ordens (mesmo quando elas não são as mais sábias); tenha-se em conta as advertências a respeito da necessidade de não obedecer às ordens más: isto supõe a não anulação da faculdade da inteligência, a necessidade da virtude da prudência, a não anulação da faculdade da vontade, mas a necessidade do exercício do livre-arbítrio: a própria mente e a própria vontade do súdito se conservam, o que é anulado são as imaginações, os desejos, ou os raciocínios e escolhas legítimas mas que podem ser sacrificados sem prejuízo da salvação da alma, ou de tal modo que possam constituir renúncias meritórias, enformadas pela Caridade.


6. A distorção moderna da concepção da autoridade e da obediência

 

a) A hipertrofia mundanizante do poder pontifício

 

A famosa bula Unam Sanctam (1302), do Papa Bonifácio VIII, proclamou uma verdade de sempre: a obediência ao papa é necessária à salvação, na medida em que a Igreja é necessária à salvação – já o primado de jurisdição do papa na Igreja seria bem definido no Concílio Vaticano I, referindo-se à fé, à moral e à disciplina ou governo da Igreja universal.

 

O contexto era o da afirmação do poder papal em face do poder temporal, o que também é verdade: a autoridade espiritual está sobre a autoridade temporal, a Igreja é a guardiã da Lei moral, que é imprescindível para o bom governo dos homens; a comunidade política é também comunidade religiosa e deve honrar a Deus como Ele quer ser honrado, na Verdadeira Religião (cf. Leão XIII, Immortale Dei); e Cristo Rei deve reinar também sobre as sociedades (cf. Pio IX, Quas Primas).

 

Mas esse contexto de disputa política no início da aventura absolutista dos estados modernos, bem como os raciocínios incidentais (não recobertos pela infalibilidade da definição) a respeito da relação entre o poder espiritual e o poder temporal conduzem a uma mundanização do poder espiritual; assim, se diz, por exemplo (negritos meus):

 

As palavras do Evangelho nos ensinam: esta potência comporta duas espadas, todas as duas estão em poder da Igreja: a espada espiritual e a espada temporal. Mas esta última deve ser usada para a Igreja enquanto que a primeira deve ser usada pela Igreja. O espiritual deve ser manuseado pela mão do padre; o temporal, pela mão dos reis e cavaleiros, com o consenso e segundo a vontade do padre. Uma espada deve estar subordinada à outra espada; a autoridade temporal deve ser submissa à autoridade espiritual.

 

O poder espiritual deve superar em dignidade e nobreza toda espécie de poder terrestre. Devemos reconhecer isso quando mais nitidamente percebemos que as coisas espirituais sobrepujam as temporais. A verdade o atesta: o poder espiritual pode estabelecer o poder terrestre e julgá-lo se este não for bom. Ora, se o poder terrestre se desvia, será julgado pelo poder espiritual. Se o poder espiritual inferior se desvia, será julgado pelo poder superior. Mas, se o poder superior se desvia, somente Deus poderá julgá-lo e não o homem. Assim testemunha o apóstolo: "O homem espiritual julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado" (1Cor 2,15).


Para além do curioso uso alegórico da passagem das “duas espadas” – entenda-se que o formalmente definido está garantidado pela infalibilidade, independentemente da exegese sem base no sentido literal, e independentemente das intenções políticas concretas de Bonifácio VIII –, há uma certa confusão entre a dependência do poder temporal para com o poder espiritual do papa e o poder espiritual do papa como poder temporal; ou ainda – e isto é mais grave – entre o poder espiritual do papa e o poder absoluto de Deus, que constitui todo outro poder, espiritual ou temporal.

 

A justa relação entre o poder espiritual e o poder temporal, entre a Igreja e o Estado é delicada: trata-se da mediania de uma distinção com cooperação e subordinação do Estado nos assuntos espirituais e morais; os erros ou vícios são a separação (liberalismo, laicismo) e a confusão (ingerência do poder temporal na escolha dos bispos, consideração de qualquer heresia como crime penal, submissão dos documentos papais à autorização dos reis, etc.).

 

Não obstante, o histórico poder temporal dos papas (os Estados Pontifícios) é sumamente conveniente para o exercício da missão pontitícia, na medida em que garante a justa liberdade de movimento ao papa, sem a ingerência direta de um imperador cristão circunstancialmente hostil ou de um governante apóstata. O minúsculo estado do Vaticano cumpre muito mal essa função.

 

Neste século XIV, a dilaceração espiritual causada pelo exílio de Avignon e o cisma conduzirá ao aprofundamento desta atribuição teórica de caráter “absoluto” ao poder papal, como que numa compensação psicológica para o fato da perda concreta de autoridade moral sobre os poderes do mundo. Santa Catarina de Sena será representante deste equívoco:

 

Ó Filho de Deus, bondoso Verbo! Deixaste teu sangue no corpo (místico) da santa Igreja e desejas que ele seja distribuído pelo teu representante (o papa)! Deus veio em socorro das necessidades do homem, que dia a dia perde o domínio de si mesmo, ofendendeo o Criador. Deus pôs na Igreja o remédio da santa confissão, que é eficaz no vigor do sangue. E o oferece não apenas uma vez (na vida), mas sempre. Sem juízo é quem a deixa para o futuro e age contra tal representante, qeu detém as chaves do sangue de Cristo crucificado. Ainda que ele fosse um demônio encarnado, jamais devo levantar a cabeça contra ele. Sempre devo humilhar-me e implorar misericórdia. É a única maneira de receber ou participar dos frutos da redenção. Peço-vos quenada façais contra o vosso chefe.

 

Não vos admireis se o demônio, como já o fez (no passado), venha pôr uma coloração de virtude no desejo de fazer justiça contra os pastores maus e culpados. Não acrediteis nele. Não façais justiça em assuntos que não vos dizem respeito. Nosso Salvador não o quer. Ele afirma que os pastores são seus ungidos (Sl 104, 15). Deus não quer que vós e qualquer outra pessoa façais justiça. Ele a fará. Assim como não convém que um servo assuma a autoridade do juiz para exercer a justiça contra m malfeitor. Seria uma atitude má, porque não toca a ele fazer coisa.

 

[...] Deus não quer que vós ou qualquer pessoa sejais justiceiros dos seus ministros. Ele reservou tal função para si e para o seu representante (o papa). Se este se omite, apesar de ser seu dever e estar falhando, humildemente devemos esperar a punição e a correção do supremo juiz, o eterno Deus. Também se, por tal omissão, perdêssemos todos os nossos bens, pois devemos preferir as realidades espirituais e a vida da graça a eles, e à vida corporal. Os bens materiais são finitos, enquanto a graça divina é infinita e nos propicia um prêmio eterno. Se perdermor a graça, porém, terminamos mal (Santa Catarina de Sena, Carta 28, n. 4).

 

Ora, esta ideia de que “ainda que o papa fosse um demônio encarnado etc.” é simplesmente absurda – adiante, no mesmo parágrafo da carta, Catarina dirá aquilo de “reclinar a cabeça no peito do Cristo da terra”. Como imagem retórica para um papa ocultamente ímpio, ela não tem sentido, porque se trataria de uma situação indiscernível (uma malignidade escondida, não fenomênica), e a reverência ao sujeito da autoridade sagrada manter-se-ia sem problemas; mas se ela quer significar um bispo romano que, tendo sido supostamente eleito de forma legítima, é manifestamente ímpio, moralmente escandaloso, claramente herético, um homem que age de modo tirânico, não existe a menor razoabilidade em exigir uma reverência além do limite do respeito ao cargo sagrado e à dignidade pessoal, e aí se trataria não mais de amor a um “pai espiritual” (sic), mas de caridade ao inimigo.

 

O poder das chaves, o primado de jurisdição, a questão do sacramento da penitência, nada disso é diretamente confrontado, ao ser enfrentada uma possível injustiça escandalosa patente de um bispo de Roma. Não faz nenhum sentido acusar um tal enfrentamento de “atitude cismática” (antes, seria um tal bispo romano que estaria se separando do decoro de seu cargo...).

 

A justiça de Deus deverá se cumprir por intermédio da Providência, de um próximo Papa, etc., e devemos esperá-la com a devida paciência, mas o juízo teológico e moral veraz, a resistência e a denúncia profética contra uma tal situação e uma tal impostura, realizados com a prudência, a moderação e a coragem requeridas nas circunstâncias, seriam atitudes perfeitamente justificadas. Ademais, os “ungidos” de Deus em sentido bíblico estrito são os homens chamados de um modo sobrenatural direto [assim como o “homem espiritual” de 1Cor 2, 15 citado na Unam Sanctam é o cristão perfeito, e não simplesmente o detentor de potestade religiosa, a não ser quando este tem alguma participação na sabedoria divina ou empenha a palavra magisterial infalível]; apenas em sentido lato os sacerdotes ministerais chamados pela mediação institucional são “ungidos” (por receberem o sacramento da Ordem), e aqueles que são ostensivamente maus, e sem arrependimento, não o são em sentido algum! Uma coisa é o rigorismo montanista e donatista contra maus pastores que se arrependem, outra coisa muito diferente é essa confusa – e, no fundo, idólatra – atribuição da santidade do cargo ao indivíduo mau que o detém, dele abusando pública e permanentemente.

 

Certamente há que se preferir as realidades espirituais, e é justamente por isso que se há de resistir à potestade eclesiástica que é nociva a estes bens eternos.

 

b) A moral da “obrigação” e a concepção tirânica da autoridade

 

A partir de Guilherme de Ockham, como consequência da negação das essências universais e das Ideias Divinas Eternas, desaparece também o conceito moral de “Lei Natural” e surge uma concepção de “liberdade de indiferença”: o ato humano seria moralmente bom ou mal na medida em que se conformasse ou não à obrigação legal (Lei Positiva) imposta por Deus, quem poderia nos mandar odiá-lO, segundo o filósofo nominalista. 

 

Ora, como já ensinara Sócrates em Eutífron, algo é bom não porque Deus assim o deseja arbitrariamente, mas Deus quer aquilo que é objetivamente justo. De fato, Deus é a Justiça, o Bem, a Verdade, e Ele não pode desejar arbitrariamente nada, tudo que Ele ama é intrinsecamente amável, porque é amado nEle ou desde a Verdade.

 

A partir da visão nominalista, a vida moral será marcada pela “obrigação”, e separar-se-á do clássico (e bíblico) desejo de felicidade (da “Vida eterna”), bem como da vivência das virtudes. A teologia moral se afasta da teologia espiritual – que se converte em apanágio de religiosos ascetas e místicos – e se transforma, praticamente, em “teologia jurídica”, estudo da Lei Divina Positiva (os Mandamentos), em que a “consciência” converter-se-á em juiz subjetivo dos próprios atos, daí surgindo o problema do “casuísmo” (cf. Servais-Théodore Pinckaers, A Moral Católica. São Paulo: Quadrante, 2015, pp. 47-58; Joathas Bello, Reflexões sobre teologia moral).

 

Este contexto, que combina a absolutização do poder pontifício e a nominalista moral de obrigação, é a ocasião para surgir uma concepção do dever como resultado da ordem de um superior (que desde sempre faz as vezes de Deus): tal ordem já é vista como um fim em si mesmo, ou seja, não se trata da suposição (de sempre) de sua conformidade com a Lei natural e a Lei evangélica, mas de sua identificação com a Lei. É uma diferença sutil, mas que, em determinados contextos, pode trazer consequências desastrosas para a vida dos religiosos e a vida da Igreja em geral. O superior não deve conformar sua vontade à Vontade divina, de modo que a conformação da vontade do súdito à vontade do superior seja conformação à Vontade de Deus; não, agora se trata de que o súdito conforme sua vontade à vontade do superior, sem mais, como se esta tivesse nela mesma as prerrogativas divinas.

 

Suárez, por exemplo, dizia que a lei é “o ato pelo qual um superior quer obrigar um inferior à realização de um determinado ato”; nele há uma sutil transposição da questão da verdade divina da Lei natural (enquanto reflexo da “Lei Eterna”) para a vontade divina de impô-la como Lei natural (cf. Joathas Bello, Escolas de Salamanca e Coimbra e o Direito das Gentes).  

 

Na obra da “contrarreforma”, esta concepção vigorou nos manuais de teologia moral. Devemos pressupor a boa intenção daqueles que, pela necessidade de restabelecer a disciplina do clero e dos religiosos, acentuavam a urgência da obediência à lei positiva, sem uma mais ampla investigação dos fundamentos da moral; tais manuais cumpriram seu papel nesse contexto, como afirma o Pe. Pinckaers (cf. A Moral Católica, p. 54).

 

O jesuitismo representaria a versão tirânica desta moral moderna.

 

Na formulação dos “graus de obediência” de S. Inácio de Loyola, o primeiro e mais baixo grau é a mera execução da ordem do superior; o segundo é querer a ordem do superior enquanto tal; o terceiro é conformar o intelecto à ordem do interior, crendo-a correta simplesmente porque foi dada por ele; e o grau mais alto é o de não ter mais vontade própria para obedecer que um objeto inanimado. Segundo cita Ad. Tanquerey em seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística:

 

[...] explica S. Inácio (Lettre CXX): «Mas quem pretende fazer perfeita e inteira ablação de si mesmo, além da vontade é necessário que ofereça o entendimento . . . não somente tendo um querer, mas também um mesmo sentir com seu Superior, sujeitando o próprio· juízo ao dele, enquanto a vontade devota pode inclinar o entendimento. Assim como pode errar a nossa vontade, assim o pode o entendimento no que nos convém. E assim como, para nossa vontade se não desviar do bem, é acertado conformá-la com a do Superior; assim também para não errar o entendimento, se deve unir com o dele». Acrescenta, contudo: «Com isto não se tira, se alguma coisa se vos representasse diferente do que ao Superior, e fazendo oração, vos parecesse diante do divino acatamento convir que lha representásseis. que o possais fazer. Contudo, se nisto quereis proceder sem suspeita de amor e juízo próprio, deveis estar indiferentes, antes e depois de a representardes, não somente para a execução de tomar ou deixar a coisa de que se trata, mas ainda para mais vos contentardes e terdes: por melhor quanto o Superior ordenar». - e o que se chama obediência cega, que faz esteja o homem nas mãos dos superiores «perinde ac baculus, perinde ac cadaver» (S. IGNAT., Constitut. VI, § I, reg. 36); mas com as reservas que faz S. Inácio e as que nós fizemos mais acima, não tem nada desarrazoado esta obediência, visto como é a Deus que sujeitamos a nossa vontade e entendimento, ·como vamos ainda explicar com mais precisão, expondo as qualidades da obediência.

 

Se é possível reconduzir, com benevolência, essa formulação do fundador à Tradição, considerando que a ordem do superior representa a vontade de Deus, que o superior tem seu intelecto conformado à Lei Divina, e a falta de vontade própria não é anulação da faculdade volitiva, já é mais difícil fazer isto com a fórmula do Pe. Alonso Rodríguez, S.J., a propósito do exame de consciência, segundo a qual o penitente deve “seguir a obediência cega, ou seja, a obediência sem indagação nem exame, nem busca de razões do por que e do para que, sendo para mim razão suficiente que seja obediência e mandato do Superior” (Práctica de la perfección y de las virtudes cristianas).

 

Rodriguez realiza a habitual exceção da obediência a mandatos manifestamente contrários à lei divina, mas, como afirma o teólogo John Lamont, a doutrina jesuíta do “probabilismo” tende a anular esta exceção, pois sustenta que não há pecado em fazer qualquer ação que uma autoridade reputada sustenta que é permissível, e o superior religioso de alguém normalmente tem uma autoridade reputada; ademais, esta exceção se torna praticamente ilusória, uma vez que alguém tenha se tornado incapaz de criticar as ações dos superiores; é precisamente essa a dinâmica psicológica que permite os inúmeros abusos, inclusive sexuais, dos quais temos notícias nos últimos tempos no interior da Igreja: a inteligência já não consegue questionar uma ordem que apareça como ilegítima (como uma clara imoralidade), porque tenderá a desconfiar de seu juízo, considerando-o “subjetivista” (“o superior sempre tem razão”), e a vontade seguirá esse engodo, pois do contrário seria “caprichosa” na imaginação. É a anulação não só dos desejos ilegítimos ou das eleições lícitas em face de outras também lícitas, mas da própria personalidade (cf. Lamont, “Tyranny and sexual abuse in the Catholic Church: A Jesuit tragedy”. Excerto traduzido ao espanhol disponível em: https://caminante-wanderer.blogspot.com/2021/08/la-obediencia-y-los-abusos-una.html).

 

Passo a citar textualmente as importantes conclusões do Dr. John Lamont (os negritos estão no artigo citado):

 

A concepção da autoridade religiosa e da obediência religiosa que se impôs na Igreja a partir do século XVI foi, pois, uma inovação fundamental que se afastou das posições católicas anteriores. Chegou a influenciar na Igreja através da formação dada nos seminários para os sacerdotes diocesanos e o enfoque da disciplina nas congregações religiosas. A vida cotidiana dos seminaristas e dos religiosos estava estruturada por una multidão de normas que regulavam as minúcias do comportamento, e as atividades que saíam desta rotina geralmente só podiam ser realizadas com a permissão do superior. [...]

 

Este enfoque da autoridade teve efeitos prejudiciais para o clero e os religiosos. A prestação da obediência servil dos subordinados destruía a força de carácter e a capacidade de pensamento independente. O exercício da autoridade tirânica por parte dos superiores produziu um orgulho desmedido e uma incapacidade de autocrítica. O fato de que todos os superiores começaram em uma posição subordinada significava que a ascensão era facilitada para aqueles que dominavam as artes do escravo: a adulação, a dissimulação e a manipulação

Quanto aos leigos, por efeito da promoção de uma concepção servil da obediência, foram infantilizados na esfera religiosa. Esta infantilização pode ser observada na arte e na devoção religiosa, especialmente a partir do século XIX, y na disposição a prestar obediência cega ao clero. A dissociação resultante entre a maturidade adulta e a crença religiosa socavou a fé e o compromisso religioso entre os leigos, e contribuiu à constante secularização das sociedades católicas.

 

Esta exposição da história e da natureza de uma concepção tirânica da autoridade na Igreja explica muitos traços da crise dos abusos sexuais. O amadurecimento psicológico é necessário para resistir com êxito à tentação sexual. Ao atacar esta maturidade, a inculcação de uma concepção servil da autoridade torna muito difícil a castidade. As personalidades deformadas e inadequadas daqueles que se sentem atraídos pela atividade sexual perversa não serão descobertas em um sistema de formação que se baseia em inculcar a obediência servil. Estas personas costumam ser boas no servilismo e na dissimulação. Prosperarão em um sistema baseado na obediência servil, enquanto que os homens de inteligência e caráter lutarão sob esse sistema.

 

Os superiores não pensarão que sua própria autoridade está ligada à autoridade da lei, e não estarão inclinados a respeitar e obedecer a lei como tal. Terão um forte incentivo para ocultar os abusos sexuais, porque a autoridade do clero sobre os leigos será baseada em uma concepção infantilizada na qual os clérigos são considerados figuras paternas quase divinas que não podem fazer nada mau. Mas esta concepção se destrói se se fazem públicas as infrações graves cometidas pelo clero. Os leigos serão facilmente persuadidos ou intimidados para que guardem silêncio sobre os casos de abuso sexual que encontrem. […]

 

A infantilização produzida por esta forma de entender a autoridade contribuiu ao abuso sexual de várias maneiras. Uma pessoa infantilizada não pode exercer um juízo independente e não é capaz de defender a si mesma nem aos demais. […]

 

Esta “infantilização” mencionada por Lamont é muito presente na ideia equivocada de que a “vontade de Deus” (sic) é uma determinação absoluta de todos os passos do cristão. Ora, essa visão elimina inteiramente a realidade da liberdade e, assim, a cooperação com a Graça, e ela está associada à concepção tirânica da autoridade na vida religiosa. Nas “novas comunidades”, isto acaba levando à idolatria dos juízos e do “estilo” do “pai fundador” (sic), repercutidos pelas autoridades regionais: em suma, à absolutização da instituição, que se torna “intérprete” do “plano de Deus” (sic). A propósito, merece ser citada a reflexão do Pe. Antonio Ruiz Retegui no âmbito de sua crítica ao “institucional” (a instituição religiosa como fim em si mesma, que podemos ler também como “a autoridade religiosa como fim em si mesma”):

 

O aspecto "institucional" tende a se fazer dominante sobre o aspecto propriamente espiritual, de consciência. A instituição se converte em instância última e, em consequência, na referência definitiva e absoluta: a instituição se converte em um fim em si mesma. O fim que a instituição está chamada a cumprir se desvanece e aparece como a manutenção da própria instituição, que tenderá a prevalecer sobre as pessoas. Sua unidade já não procederá da concórdia no cumprimento da missão, senão na defesa dos elementos estruturais da própria instituição em si mesma. Mas já advertiram os antigos, quando o fim se esfuma, a própria instituição muda de carácter e se desvirtua (Retegui, “Lo teologal y lo institucional”. Disponível em https://www.opuslibros.org/libros/Teologal/capitulo7.htm).

 

E ainda:

 

A maneira direta em que se manifesta a tendência a vincular a consciência nas decisões institucionais é a identificação quase total dessas decisões com "a vontade de Deus". Efetivamente a vontade de Deus é a referência moral fundamental. Mas sobre o modo de se referir à expressão "vontade de Dios" na linguagem institucional pendem algumas ambiguidades perigosas. Com efeito, com frequência se afirma que a vontade de Deus se manifesta sobretudo nas indicações dos que governam. [...]

 

As respostas que o homem dá a Deus, dá-as desde a própria situação, ou seja, desde a realidade própria e desde a realidade do mundo em que vive. Neste sentido, pode se dizer que são verdadeiras respostas a Deus, mas não porque Deus tenha manifestado um mandato determinado em concreto, senão porque as condições próprias e a natureza das criaturas que configuram o mundo devem ser consideradas como lei ou vontade de Deus. (https://www.opuslibros.org/libros/Teologal/capitulo8.htm).

 

As reflexões do Pe. Retegui se orientam a instituições católicas e “movimentos” formados por leigos e padres seculares. Mas elas se aplicam, por analogia, às instituições religiosas, quando as ordens dos superiores não visam à formação da maturidade dos súditos, como se a vida religiosa não se dirigisse à capacidade de discernir em pessoa a Vontade divina, como se os religiosos jamais pudessem deixar de ser principiantes na vida espiritual, ou, o que é pior, como se estivessem a serviço das metas da instituição, e não de Deus.

 

É relevante trazer a visão de Dietrich von Hildebrand, grande filósofo e teólogo católico do século passado, em seu livro Cavalo de Troia na Cidade de Deus – no qual procurou defender a ortodoxia do Concílio Vaticano II no momento das primeiras interpretações progressistas tresloucadas –, a respeito dessa distorção teológica e prática da obediência e da autoridade no âmbito católico, que estava bem viva no período pré-conciliar:

 

Houve, indubitavelmente, muitos abusos de autoridade nas ordens religiosas e nos seminários: abusos que conduziram a uma despersonalização da vida religiosa e, algumas vezes, a um embotamento da consciência. Ao converter a obediência formal na virtude mais importante, obscurecendo a diferença essencial entre as virtudes morais e a correção meramente disciplinar, acentuando excessivamente as coisas que – pela parvitas materiae – eram triviais: as pessoas revestidas de autoridade criaram uma situação na qual a personalidade do religioso ou do seminarista corria perigo de frustrar-se, e o sentido da hierarquia dos valores ficava quase inevitavelmente morto. O resultado de tudo isso era a estreiteza, a angústia e – algumas vezes – os transtornos mentais. Mas o Concílio Vaticano II produziu uma grande libertação nesta esfera [nota: entende-se desde uma expectativa e inteligência ortodoxa da novidade conciliar].

 

Agora, ao reagir – neste caso contra um abuso de princípios válidos, antes que contra uma verdade incompleta –, os católicos progressistas não conseguem compreender as verdadeiras intenções do Concílio e a correção adequada de tais abusos [idem]. Cometem o erro clássico a respeito de um abuso: perder de vista o valor da coisa de que se abusou e tentar eliminá-la completamente. Se uma coisa é má, então não podemos abusar dela. O valor negativo de qualquer abuso pressupõe que a coisa de que se abusou tem um valor positivo. Quando o abuso da autoridade e da obediência inclui uma falsificação da natureza desses princípios, a eliminação do abuso esclarecerá o valor sublime da genuína obediência e da genuína autoridade religiosa.

 

A mesquinhez e a violência autoritária são incompatíveis com a sagrada e caritativa autoridade do abade ou do superior de uma ordem religiosa ou de um seminário. São incompatíveis com o respeito à alma humana, com a generosidade e magnanimidade que permitem ao superior distinguir claramente entre o essencial e o que não o é. Agora, a “solução” dos católicos progressistas é eliminar a autoridade sagrada e a santa obediência, e substituí-las por uma simples autoridade técnica e por uma fidelidade profana. Os católicos progressistas não conseguem captar o sentido e a beleza da santa obediência, a liberdade interna que dita obediência confere ao que obedece, a gloriosa autodoação que essa obediência leva consigo (Dietrich von Hildebrand, El Caballo de Troya em la Ciudad de Dios. 5ª ed. Madrid: Fax, 1974, pp. 42-3; destaques meus).

 

O progressismo distorce as coisas: a obediência e a autoridade são bens objetivos, necessários. Retamente compreendidas e vividas, são bens imprescindíveis para a salvação e para a santificação das almas. Mas, reitero, é preciso entender que também a autoridade deve obediência a Deus, à Lei natural, aos critérios objetivos da própria regra, e ao bom senso, evidentemente.

 

Um ponto que merece ser mencionado a respeito dessa “mesquinhez e violência autoritária” é a questão das “humilhações”: o paradigma de Nosso Senhor e dos grandes santos supõe o atingimento da maturidade espiritual e moral, a plenitude da virtude da fortaleza; não faz o menor sentido que um superior aja infligindo humilhações a seus súditos, como se esse fosse um modo legítimo de obter tal maturidade! Ora, o noviço, o aprendiz, já tem na vivência regular da vida religiosa, como toda pessoa tem na vida secular, uma série de infortúnios, já lida com irmãos e pessoas sem caridade ou mesmo cheias de malícia, e deve aprender a maturidade suportando esses reveses inevitáveis; o superior está chamado a sempre corrigir com o devido equilíbrio de firmeza e amor, mas não está autorizado a realizar vexações artificiais, e apenas uma mentalidade não cristã pode supor o contrário – quem é pai de família e busca viver com retidão conhece as “malcriações” que merecem uma dura correção, mas também conhece a clemência a que devemos nos inclinar por causa da condição pueril e das vicissitudes da adolescência, e porque a nossa solicitude paterna não é perfeita como é a divina. Antes, o superior e os irmãos mais avançados devem ajudar os iniciantes a lidar com as humilhações ordinárias, a fortalecer as mãos abatidas e os joelhos vacilantes, para que se tornem aptos a sofrer voluntariamente por Cristo e até morrer pela Fé.

 

Essa mentalidade tirânica e infantilizadora introjetada nos fiéis, associada a uma má compreensão da Vontade divina permissiva e da Providência, leva os católicos à imaginação estúpida de que “essas injustiças ajudam o abusado a se santificar”. Que Deus em seu amor levante o súdito de sua prostração é uma coisa, mas a própria circunstância de abuso (psicológico, físico, sexual) do superior é um crime e uma pedra de tropeço, na medida em que a imaturidade psicológica, moral e espiritual do súdito não permite que se dê então uma verdadeira união com Deus. Essas subjugações das péssimas autoridades não são algo com o qual se há de contar normalmente na vida religiosa e cristã, como se noviços, seminaristas ou filhos tivessem de ter maturidade e fortaleza para suportar tais abusos, quando na realidade ele deveriam ser cuidados por seu superiores, os quais não são seus carrascos, mas aqueles que precisamente são colocados por Deus para serem imagens vivas de Cristo, encaminhando-os à virtude.

 

Enfim, é por esta combinação terrível de hipertrofia tirânica da autoridade religiosa e servilismo, associados a um entendimento equivocado do bíblico “não julgueis”, que o fiel católico vive tantas vezes um temor meramente humano, calando-se diante de escândalos eclesiásticos absurdos, introjetando na consciência o critério dos abusadores; ora, quando se trata de hereges e homens imorais manifestos, habituais e sem arrependimento, a sua situação eclesiástica nada significa no campo da moral: eles [ainda] estão no nosso meio, mas não são dos nossos, são aqueles falsos mestres com suas doutrinas destruidoras e sua negação da Encarnação, que contam coisas que eles mesmos inventaram, e que já estão julgados. 

  

A modo de conclusão

 

A obediência é um divino conselho e uma santa virtude. Assim o disse e exemplificou Nosso Senhor, e também o disseram os Santos Apóstolos, os Santos Padres, Santo Tomás e outros mestres medievais, bem como os maiores mestres espirituais modernos. Devemos obedecer os mandamentos e as autoridades legítimas, sejam religiosas, civis ou domésticas, na medida em que elas representam para nós a vontade e a bondade divinas.

 

Vimos, contudo, como estas noções de obediência e autoridade podem ser distorcidas, como na Igreja a concepção do poder papal equivocou-se num absolutismo, e a concepção da autoridade religiosa equivocou-se numa tirania. Vimos como a concepção servil da obediência e a concepção tirânica da autoridade têm sido fonte de males tremendos para a vida de tantos fiéis e de escândalos sem fim para o Corpo Místico de Cristo.

 

Há décadas temos assistido passivamente a novas doutrinas, a novas pastorais e a uma nova liturgia estranhas à Tradição tomarem de assalto a Igreja, pelo abuso de poder dos papas que dirigiram o CVII, e temos assistido aqui e agora ao governo despótico do atual Bispo de Roma.

 

Cabe recuperar e difundir a verdadeira doutrina católica sobre a santa obediência, para fazermos o que nos cabe, que é resistir com prudência e coragem a tantos abusos, esperando em Deus e suplicando a Ele a justiça que certamente virá.



"O Anjo impedindo Abraão de sacrificar Isaac" (1635), de Rembrandt

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