Esse
pequeno estudo sobre o desenvolvimento da noção de “obediência” (conselho
evangélico e virtude humana e cristã conexa à Fé) na Tradição católica tem como
objetivo a indicação da mudança antitradicional que se opera na teologia e
prática modernas, mais especificamente a partir da filosofia nominalista e,
posteriormente, da concepção jesuítica sobre a obediência e a autoridade; esta
nova concepção distorce a relação entre os fiéis e os súditos e a autoridade, e
é causa de problemas sérios que se verificam hoje, desde os gravíssimos abusos
sexuais na Igreja até as arbitrariedades do sujeito magisterial supremo.
1. A
virtude da obediência segundo Santo Tomás, o Doutor Comum
Antes de
mais nada, é preciso dizer que a “obediência” é uma virtude mais ampla que a
obediência religiosa (relacionada ao conselho evangélico), e presente em todas
as relações humanas, marcadas pela relação de autoridade e subordinação.
Sobretudo é necessário obedecer a Deus, obedecendo-se a Lei natural (e o
direito divino positivo que a expressa ou os 10 mandamentos), as leis humanas
positivas conformes a Lei natural, as autoridades eclesiásticas, civis,
militares e humanas em geral, como os bispos, os governantes, os pais, os
empregadores, os chefes. Toda a vida humana é marcada pela presença da
obediência, na medida em que está marcada pela presença da lei, logo da
autoridade. Ensina Santo Tomás:
assim como em virtude da própria ordem natural
establecida por Deus os seres naturais inferiores se submetem necessariamente à
moção dos superiores, assim também nos assuntos humanos, segundo a ordem do
direito natural, os súditos devem obedecer os superiores (S.Th. I-II, q.104,
a.1).
Diz ainda
o Aquinate, definindo a “obediência”:
Portanto, a obediência é virtude especial, e seu
objeto especial é o mandato tácito ou expresso. Porque a vontade do
superior, de qualquer modo que se nos sugira, é um mandato tácito, e tanto mais
pronta parece nossa obediência quanto mais se adianta ao mandato expresso, depois
de haver adivinhado a vontade do superior (S.Th. I-II, q.104, a.2; grifo meu).
Todas as
vontades devem obedecer à autoridade divina em tudo (cf. S.Th. I-II, q.104, a),
inclusive as autoridades religiosas, e até a pontifícia, por suposto; e é
somente com esta observação que se pode entender corretamente o definido na
Bula Unam Sanctam, ou seja, de que “é absolutamente necessário à
salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice”.
Se,
contudo, o superior manda algo contra a autoridade divina, não deve ser
obedecido (cf. At 5, 29) – isto vale inclusive para o superior eclesiástico, o
qual, se manda contra Deus, age como homem, e não como autoridade sagrada (cf.
S.Th. I-II, q.104, a.5). Há duas razões para o súdito não obedecer em tudo ao
superior: por causa de um preceito de autoridade superior, ou em algo do qual
não depende do superior; e isto de tal modo que os atos interiores da vontade
só são devidos a Deus (cf. Ibid.).
Especificamente
quanto aos religiosos, ensina Tomás, com grande sabedoria prática:
Os religiosos fazem profissão de obediência quanto às
observâncias regulares, e de acordo com sus regra se submetem a seus
superiores. Portanto, estão obrigados a obedecer somente naquilo que pode
pertencer à vida regular. Tal é a obediência suficiente para conseguir a salvação
eterna. Mas, se querem obedecer-lhes em outras matérias, pertencerá neste caso
a um grau superior de perfeição, sempre que não sejam contrárias a Deus ou
contra a regra professada; porque tal obediência seria ilícita (S.Th. I-II,
q.104, a.5, ad3).
2. Passagens
sobre a obediência e a autoridade no Novo Testamento
a) A
obediência de Jesus
Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo
Jesus:
Ele tinha a condição divina,
e não considerou o ser igual a Deus
como algo a que se apegar ciosamente.
Mas esvaziou-se a si mesmo,
e assumiu a condição de servo,
tomando a semelhança humana.
E, achado em figura de homem,
humilhou-se e foi obediente até à morte,
e morte de cruz! (Fl 2, 5-8).
“Meu
alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4,
34).
“Pai, se
queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja
feita!” (Lc 22, 42)
Explica o
Catecismo da Igreja Católica sobre a vontade humana de Cristo:
De igual modo, a Igreja
confessou, no sexto Concilio ecuménico, que Cristo possui duas vontades e duas
operações naturais, divinas e humanas, não opostas mas cooperantes, de maneira
que o Verbo feito carne quis humanamente, em obediência ao Pai, tudo quanto
decidiu divinamente com o Pai e o Espírito Santo para a nossa salvação. A
vontade humana de Cristo «segue a sua vontade divina, sem fazer resistência nem
oposição em relação a ela, antes estando subordinada a essa vontade
omnipotente» (n. 475).
b) A obediência
pronta de Nossa Senhora, de S. José e de Abraão
“Disse,
então, Maria: ‘Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra’”
(Lc 1, 38).
“José, ao
despertar do sono, agiu conforme o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu em
casa sua mulher” (Mt 1, 24).
“Pela fé
Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança;
e saiu, sem saber para onde ia” (Hb 11, 8).
Sobre a
obediência da fé, diz o Catecismo da Igreja Católica, mencionando a
Virgem Maria e Abraão:
Obedecer (ob-audire) na
fé é submeter-se livremente à palavra escutada, por a sua verdade ser garantida
por Deus, que é a própria verdade. Desta obediência, o modelo que a Sagrada
Escritura nos propõe é Abraão. A sua realização mais perfeita é a da Virgem
Maria (n. 144).
c) A
ordem da autoridade e a autoridade eclesiástica e civil
“Porém,
respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: ‘Mais importa obedecer a Deus do
que aos homens’” (At 5, 29).
Diz o Catecismo
da Igreja Católica a respeito do juízo certo da consciência, que manifesta
a Lei natural e, enformada pela Fé, a própria Lei divina:
O ser humano deve
obedecer sempre ao juízo certo da sua consciência. Agindo deliberadamente
contra ele, condenar-se-ia a si mesmo [...]
A consciência boa e
pura é iluminada pela fé verdadeira. Porque a caridade procede, ao mesmo tempo,
«dum coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera» (1
Tm 1, 5) (n. 1790; n. 1794).
“Obedecei
a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como
aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo,
porque isso não vos seria útil” (Hb 13, 17).
“E
rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem
sobre
vós no Senhor,
e vos admoestam” (1Ts 5, 12).
“Lembra-lhes
que devem ser submissos aos magistrados e às autoridades, que devem ser
obedientes e estar sempre prontos para qualquer trabalho honesto” (Tt 3,1).
“Todo
homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não
venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. De modo que
aquele que se revolta contra a autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus”
(Rm 12, 1-2).
Não se
trata, obviamente, nesta última passagem, de que todas e cada uma das
autoridades concretas sejam eleitas de Deus, mas de que a autoridade humana é
uma participação na autoridade divina, e de que a revolta contra este princípio
de autoridade participada – a atitude anarquista, por exemplo, ou o revolucionário
contra uma autoridade justa – é uma ordem contra a ordem da criação. A
autoridade, contudo, deve governar segundo Deus e segundo a Lei natural, como
vimos na explicação de S. Tomás.
Sobre a
obediência eclesiástica e a obediência civil, ensina o Catecismo da Igreja
Católica:
Feito membro da Igreja,
o baptizado já não se pertence a si próprio mas àquele que morreu e ressuscitou
por nós. A partir daí, é chamado a submeter-se aos outros, a servi-los na
comunhão da Igreja, a ser «obediente e dócil» aos chefes da Igreja e a
considerá-los com respeito e afeição (n. 1269).
O dever de obediência
impõe a todos a obrigação de tributar à autoridade as honras que lhe são
devidas e de rodear de respeito e, segundo o seu mérito, de gratidão e
benevolência, as pessoas que a exercem (n. 1900).
d) A
autoridade doméstica e laboral
Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no
Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro
mandamento com promessa; para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra.
E vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e
admoestação do Senhor.
Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a
carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo; não
servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo,
fazendo de coração a vontade de Deus; servindo de boa vontade como ao Senhor, e
não como aos homens. Sabendo que cada um receberá do Senhor todo o bem que
fizer, seja servo, seja livre. E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles,
deixando as ameaças, sabendo também que o Senhor deles e vosso está no céu, que
para com ele não há acepção de pessoas (Ef 6, 1-9).
Vós, mulheres, estai sujeitas a vossos próprios
maridos, como convém no Senhor. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não vos
irriteis contra elas. Vós, filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto
é agradável ao Senhor. Vós, pais, não irriteis a vossos filhos, para que não
percam o ânimo.
Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores
segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens,
mas em simplicidade de coração, temendo a Deus. E tudo quanto fizerdes, fazei-o
de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens, sabendo que recebereis do
Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis. Mas quem fizer
agravo receberá o agravo que fizer; pois não há acepção de pessoas (Cl 3,
18-25).
3. A obediência nos Padres
a) S.
Clemente Romano sobre a obediência a Deus
“Obedeçamos,
portanto à grandiosa e gloriosa vontade do Senhor” (Carta aos Coríntios, n. 9).
“Abraão,
que foi chamado amigo, foi encontrado fiel em sua obediência às palavras de
Deus. Por obediência, ele saiu de sua terra, de sua família e da casa de seu
pai” (n. 10).
“Portanto,
irmãos, é justo e santo obedecer a Deus, mais do que seguir aqueles que, por
orgulho e revolta, se tornaram chefes de odiosa inveja” (n. 14).
“Obedeçamos,
portanto, ao seu nome santíssimo e glorioso, fugindo das ameaças proferidas
pela Sabedoria contra os que resistem, a fim de que ‘habitemos confiantes’ sob
o nome santíssimo de sua majestade” (n. 58).
b) S.
Inácio de Antioquia sobre a obediência à Hierarquia
Convém caminhar de acordo com o pensamento de vosso
bispo, como já o fazeis. Vosso presbitério, de boa reputação e digno de Deus,
está unido ao bispo, assim como as cordas à cítara. Por isso, no acordo de
vossos sentimentos e na harmonia de vosso amor, vós podeis cantar a Jesus
Cristo (Carta aos Efésios, n. 4).
Convém que não abuseis da idade do vosso bispo,
mas, pelo poder de Deus Pai, lhe tributeis toda reverência. De fato, eu soube
que vossos santos presbíteros não abusaram de sua evidente condição juvenil,
mas, como gente sensata em Deus, se submetem a ele, não a ele, mas ao Pai do
bispo de todos, Jesus Cristo. Portanto, para honra daquele que nos amou, é
preciso obedecer sem nenhuma hipocrisia, porque não é ao bispo visível que se
engana, mas é ao invisível que se mente (Carta aos Magnésios, n. 3).
Quando vos submeteis ao bispo como a Jesus Cristo,
demonstrais a mim que não viveis segundo os homens, mas segundo Jesus Cristo,
que morreu por nós, a fim de que, crendo em sua morte, possais escapar da
morte. É necessário, portanto, como já o fazeis, nada realizar sem o bispo, mas
também submeter-vos ao presbitério, como aos apóstolos de Jesus Cristo, nossa
esperança, no qual encontraremos em toda a nossa conduta. É preciso, também,
que os diáconos, ministros dos mistérios de Jesus Cristo, agradem a todos e de
todos os modos. Com efeito, não é de comida e bebida que eles são ministros, e
sim servidores da Igreja de Deus. É preciso, portanto, que eles evitem qualquer
tipo de repreensão, como se evita o fogo.
Da mesma forma, todos respeitem os diáconos como a
Jesus Cristo, e também ao bispo, que é imagem do pai, e os presbíteros como à
assembleia dos apóstolos. Sem eles, não se pode falar de Igreja (Carta aos
Tralianos, nn. 2-3).
c) São
Bento e São João Clímaco sobre a obediência religiosa
O primeiro grau da humildade é a obediência sem
demora. É peculiar àqueles que estimam nada haver mais caro do que o
Cristo; por causa do santo serviço que professaram, por causa do medo do
inferno ou por causa da glória da vida eterna, desconhecem o que seja demorar
na execução de alguma coisa, logo que ordenada pelo superior, como sendo por
Deus ordenada. Deles diz o Senhor: "Logo ao ouvir-me,
obedeceu-me" (Sl 17,45). E, do mesmo modo, diz aos doutores: "Quem
vos ouve, a mim ouve" (Lc 10,16). Pois são estes
mesmos que, deixando imediatamente as coisas que lhe dizem respeito e
abandonando a própria vontade, desocupando logo as mãos e deixando
inacabado o que faziam, seguem com seus atos, tendo os passos já dispostos para
obediência, a voz que ordena. E, como que num só momento, ambas as
coisas, a ordem recém dada do mestre e a perfeita obediência do discípulo, são
realizadas simultaneamente e rapidamente, na prontidão do temor de Deus
(Regra, cap. 5: Da obediência; negritos meus).
Característica
da obediência religiosa é a prontidão para cumprir a ordem dada pelo superior
religioso como se fora dada por Deus. Tal como fizeram Jesus, Maria, José,
Abraão.
No cap.
2, S. Bento havia considerado a figura da autoridade, isto é, do Abade: para
ser “digno de presidir ao mosteiro deve lembrar” que “faz as vezes de Cristo”,
que “nada deve ensinar, determinar ou ordenar que seja contrário ao preceito
do Senhor”, deve ser ortodoxo e buscar a santidade, “apresentar as coisas
boas e santas mais pelas ações do que pelas palavras”; deve ser coerente, de
modo que “quanto ensine aos discípulos como nocivo, indique pela sua maneira de
agir que não se deve praticar, a fim de que, pregando aos outros, não se torne
ele próprio réprobo”; não deve “fazer distinção de pessoas no mosteiro”, mas
deve ser caridoso, “corrigir os outros e emendar-se dos próprios vícios”.
Antes, no
cap. 1, S. Bento havia considerado os 4 gêneros de monges (cenobitas ou
monasteriais, anacoretas ou eremitas, sarabaítas e giróvagos). Teoricamente, um
anacoreta ou eremita (um “perfeito”) é a pessoa mais adequada para guiar os
cenobitas ou monasteriais. É a alguém assim, ou pelo menos a um avançado de
comprovada virtude, que se pede obedecer livremente de maneira pronta. Sigamos
com o texto do cap. 5 sobre a obediência:
Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida
eterna; por isso, lançam-se como que de assalto ao caminho estreito do qual diz
o Senhor: “Estreito é o caminho
que conduz à vida” (Mt 7,14), e assim, não tendo como norma de vida a
própria vontade, nem obedecendo aos próprios desejos e prazeres, mas caminhando
sob o juízo e domínio de outro e vivendo em comunidade, desejam que um Abade
lhes presida. Imitam, sem dúvida, aquela máxima do Senhor que diz:
"Não vim fazer a minha vontade, mas a d'Aquele que me enviou” (Jo 6,38).
Mas essa mesma obediência somente será digna da
aceitação de Deus e doce aos homens se o que é ordenado for executado sem
tremor, sem delongas, não mornamente, não com murmuração, nem com resposta de
quem não quer. Porque a obediência prestada aos superiores é tributada a
Deus. Ele próprio disse "Quem vos ouve, a mim ouve" (Lc 10,16). E
convém que seja prestada de boa vontade pelos discípulos, porque "Deus ama
aquele que dá com alegria” (2Cor 9,7). Pois, se o discípulo obedecer de má
vontade e se murmurar, mesmo que não com a boca, mas só com o coração, ainda
que cumpra a ordem, não será mais o seu ato aceito por Deus que vê seu coração
a murmurar. Por tal ação não consegue graça alguma e, mais ainda, incorre
no castigo dos murmuradores se não se emendar pela satisfação (negritos meus).
* * *
Obediência é perfeita abnegação da
alma; abnegação declarada por exercício e obras do corpo. Obediência é perfeita
abnegação do corpo, declarada com fervor e vontade da alma, porque, para a
perfeita obediência, é necessário que tudo concorra, tanto o corpo como a alma,
e tudo é necessário que se negue, quando a obediência o exige. Obediência é
mortificação dos membros em alma viva. Obediência é obra sem exame, morte
voluntária, vida sem curiosidade, porto seguro, escusa perante Deus [nota: “escusa”
no sentido de que a santa obediência é uma obra da caridade que cobre pecados],
menosprezo do temor da morte, navegação impávida, caminho pelo qual dormindo se
transita. Obediência é sepulcro da própria vontade e ressurreição da humildade;
pois o verdadeiro obediente, a nada resistindo, fazendo sem discernimento tudo
o que lhe é mandado (quanto não é claramente mau), confiando
humildemente na discrição de seu prelado, e desta maneira mortificando
santamente sua alma, dará a Deus seguras contas de si. Obediência é resignar,
com grande discrição, o próprio discernimento (A Santa Escada, cap. IV;
negritos meus).
A
obediência religiosa é um meio singular de santificação para os consagrados.
Deve-se cumprir a ordem (legítima, justa, segundo Deus) do superior,
mortificando a própria vontade, quer os desejos ilegítimos (pecaminosos), por
óbvio, quer as escolhas racionais legítimas em tese, mas que devem ser
renunciadas em favor da escolha do superior no cumprimento da regra,
como diria Santo Tomás. Neste caso, sempre deve haver uma união de coração à
vontade do superior, porque esta não é caprichosa, mas é segundo o Evangelho, a
Lei Natural e a Regra: o ato interior da vontade do súdito se une àquela
vontade legítima do superior como representante da vontade divina.
Certamente,
pela necessária analogia da vida cristã, a vida doméstica também é um âmbito de
sacrifício das próprias vontades, também é um âmbito de renúncias de eleições
legítimas, em nome do bem comum.
Em
qualquer caso, contudo, nunca se trata de renunciar à faculdade da
vontade: renuncia-se aos desejos sensíveis, renuncia-se a eleições legítimas
possíveis do livre-arbítrio, mas jamais ao próprio ato volitivo, porque ou é a
liberdade a que se une à vontade do superior (ou às necessidades da vida
familiar, por exemplo) ou então não há ação humana em sinergia com a ação
divina, não há caridade, não há mérito; não há santidade, e nem mesmo, no caso
de anulação ilegítima da vontade do súdito, um ato em si mesmo servível à
salvação.
4. A obediência nos
mestres espirituais medievais
a) Guilherme de
St-Thierry
Assim como uma estrela difere de outra
estrela em luminosidade (1Cor 15, 41), assim também uma cela difere da outra
segundo o gênero de vida, a saber, dos iniciantes, dos que progridem e dos
perfeitos. O estado dos iniciantes pode ser chamado de “animal”, o dos que
progridem “racional” e o dos perfeitos “espiritual”. [...] (Carta de Ouro, n.
41).
São “animais” aqueles que, por
natureza, não agem segundo a razão nem são conduzidos pelo affectus [nota:
amor espiritual, na linguagem do autor]. Mas que, movidos pela autoridade,
ou admoestados pela doutrina ou instigados por algum exemplo, aprovam o bem,
onde o encontram, e, à semelhança dos cegos, levados pela mão, seguem, isto é,
imitam. São “racionais” os que, pelo juízo da razão e o discernimento da
ciência natural, possuem o conhecimento e o desejo do bem, mas que todavia lhes
falta o affectus. São “perfeitos” aqueles que agem segundo o espírito e
que pelo Espírito Santo são mais plenamente iluminados. E por degustarem do
bem, cujo affectus os atrai, são chamados de “sábios”. E porque o Espírito
Santo os revestiu – como outrora a Dedão, como que com as vestes do Espírito
Santo – são chamados de “espirituais” (n. 43).
Guilherme
apresenta as três “idades” da vida espiritual, e como a “obediência” funciona
distintamente em cada uma; isto é óbvio, mas é esquecido: o principiante, como
uma criança, precisa ser levado pela mão, vive da obediência, sua vida moral e
espiritual dela depende inteiramente (isto exige e pressupõe um superior reto,
como a obediência familiar exige e pressupõe um pai reto); o avançado, que já
vê o bem que deve ser feito, mas ainda não tem a força do amor (o affectus)
requer o império da razão do superior para sua realização, como um jovem
precisa da motivação do pai; o perfeito ou espiritual vive a obediência da
caridade: como Guilherme dirá adiante, já está aderido à vontade de Deus, mas
ainda assim se rebaixa e se faz obediente como Cristo.
A
respeito da obediência do principiante e de sua necessidade do diretor
espiritual, ensina Guilherme:
[...] A perfeita obediência,
sobretudo no principiante, não julga o quê ou o por quê lhe ordenam [algo], mas
se limita somente em fazer, humilde e fielmente, o que lhe foi ordenado pelo
superior.
A árvore da ciência do bem e do mal
do Paraíso é, na vida religiosa, o “poder discricionário” nas mãos do pai
espiritual, que tudo julga e não é julgado por ninguém. A ele compete
discernir, aos outros obedecer (cf. 1Cor 2, 15). [...] [Adão] Julgou, comeu,
fez-se desobediente e foi expulso do Paraíso. Assim é o homem animal que julga,
o noviço prudente, o iniciante que se faz de sábio! Passar muito tempo na cela,
perseverar na comunidade, lhe é impossível. Que ele se torne insensato para
tornar-se sábio (1Cor 3, 18). Que todo o seu juízo nesta matéria consista em
não fazer juízo algum. E que seja esta toda a sua sabedoria, a de não ter
sabedoria nenhuma neste assunto (nn. 53-54).
Eis o porquê da virtuosa
simplicidade: o homem novo na vida religiosa e solitária, que não possui ainda
razão para o dirigir, nem affectus para o atrair, nem discernimento para
o moderar, mas que precisa usar de violência contra si mesmo, deve, como o vaso
nas mãos do oleiro, deixar-se trabalhar pela lei dos mandamentos como por mãos
alheias e ser formado, em toda paciência, no torno variável da obediência e no
fogo da provação, submetendo-se á vontade e ao arbítrio daquele que o plasma e
o forma.
Ainda que tenha um talento
comprovado, que brilhe pela habilidade, que se destaque pela inteligência,
esses instrumentos são tanto de vícios quanto de virtudes. Que não se recusa,
portanto, a aprender a utilizar para o bem aquilo que pode servir para o mal,
pois é nisso justamente que consiste o trabalho da virtude. [...] (nn. 68-69).
Se te apressas em busca da saúde,
toma cuidado para não presumir nada, por pouco que seja, por ti mesmo, sem
antes consultar o médico [o diretor espiritual] [...] (n. 98)
[...] A Deus deves a piedade,
Àquele a quem te consagras inteiramente a seu serviço; à consciência deves a
honra, diante da qual te envergonhes de pecar; ao pai espiritual a obediência
plena de caridade, a quem recorres em qualquer ocasião (n. 101).
E
sobre a obediência dos perfeitos, como já adiantado (mencionando ainda sua
obediência aos pares e inferiores, tema que será retomado por S. Francisco de
Sales, como veremos mais adiante):
Os perfeitos e espirituais [...]
sempre se esforçam e se humilham no mesmo nível dos principiantes, para que,
pelas virtudes da obediência e da submissão, fortaleçam e robusteçam suas
próprias virtudes. Descendo abaixo de si mesmos, elevam-se acima de si [...]
(n. 190).
Uma boa guardiã da vontade é,
portanto, a obediência, seja ela de preceito, de conselho, de sujeição ou apenas
da caridade. Com frequência, segundo o Apóstolo Pedro (cf. 1Pd 1, 22), os
filhos da obediência castificam seus corações com maior pureza e doçura por uma
obediência de caridade para com seus pares (ou até mesmo para com seus
inferiores) do que aqueles que se submetem aos seus superiores por uma
obediência de necessidade (n. 240).
b) São Francisco de Assis
Diz
o Senhor no Evangelho: “Quem não renuncia a todos os seus bens não pode ser meu
discípulo” (Lc 14,33), e: “Quem quiser salvar sua alma, perdê-la-á” (Mt 16,25).
Abandona tudo quanto possui e perde sua vida aquele que a si mesmo abandona
inteiramente à obediência nas mãos do seu prelado. E tudo o que faz e diz,
sabendo que não contraria a vontade dele, e sendo bom o que faz, é
obediência verdadeira. E se acaso o súdito vê algo melhor e mais útil à
sua alma do que aquilo que o prelado lhe ordena, sacrifique a Deus o seu
conhecimento, se aplique com firmeza a cumprir as ordens do prelado, pois
nisto é que consiste a verdadeira obediência feita com amor, que agrada a Deus
e reverte a bem do próximo.
Entretanto,
se o prelado der ao súdito alguma ordem contrária à alma, este todavia não
se separe dele, embora não lhe seja lícito obedecer-lhe. E se por esse
motivo tiver de suportar perseguições da parte de alguém, que então o ame ainda
mais por amor de Deus.
Pois
aquele que prefere aturar perseguições a querer ficar separado de seus irmãos,
permanece verdadeiramente na perfeita obediência, porque “dá a sua vida pelos seus
irmãos” (Jo 15,13). Há efetivamente muitos religiosos que, sob o pretexto de
verem coisas preferíveis às que os prelados ordenam “olham para trás” (Lc 9,62)
e “voltam ao vômito de sua vontade própria” (Pr 26,11). Esses tais são
homicidas e, por seus exemplos funestos, causam a perdição de muitas almas
(Admoestações, Cap. 3).
Retornam as ideias
de que a ordem deve ser boa (justa), que é necessário sacrificar
até escolhas melhores que as do superior, mas que não se pode obedecer ordens
más ou “contrárias à alma”. São Francisco ensina, contudo, que a ordem má não
retira a autoridade do superior: aquela desobediência pontual diante da ordem
injusta é legítima, mas separar-se da autoridade já não o seria.
Certamente, não se
trata aqui de uma autoridade tirânica, mas de uma que erra sem comprometer o
bem geral da alma ou o bem comum da comunidade.
No limite, podemos
pensar em erros graves da autoridade suprema da Igreja: se alguém dela se
separa voluntariamente, daí advém um dano mais grave do que a aceitação de sua
legitimidade sem a obediência a suas ordens ilegítimas; o justo é precisamente
resistir ao mal, aceitando as perseguições e inclusive a excomunhão imerecida,
e não realizar uma indevida “deposição” da autoridade injusta [deposição meramente
intencional e sem efeitos práticos ou políticos, que constituiria uma atitude
sectária].
c) O autor da Imitação
de Cristo (atribuído a Tomás de Kempis)
Grande coisa é viver na obediência,
às ordens de um superior e não ser senhor de si. Muito mais seguro é obedecer
que mandar. Muitos obedecem mais por necessidade que por amor; sofrem e, facilmente
murmuram. Esses nunca alcançarão a liberdade de espírito, se não se submeterem,
de todo o coração, por amor de Deus. Para onde quer que te voltes, não
encontrarás sossego, senão na humilde sujeição à autoridade do superior.
A imaginação e a mudança dos lugres
têm enganado a muitos. É verdade que cada um gosta de seguir o seu próprio
parecer e mais se inclina para aqueles que lhe partilham a opinião. Se, porém,
estamos animados pelo Espírito de Deus, faz-se necessário que, algumas
vezes, renunciemos ao nosso parecer, por amor da paz. Quem é tão sábio que
possa conhecer perfeitamente todas as coisas? Não confies, pois, muito em teus
próprios conhecimentos; antes, de boa vontade, procura consultar aos de outrem.
Se o tem parecer é bom e, por amor de Deus, o deixares, para seguir o dos
outros, mais te aproveitará. Muitas vezes ouvi dizer que mais seguro é
ouvir e tomar conselhos que os dar. Pode também acontecer que seja bom o
parecer de qualquer um; mas não querer ceder aos outros, quando a razão e as
circunstâncias o mandam, é sinal de soberba e obstinação (Imitação de Cristo,
Livro I, cap. 9; negritos meus).
Apesar
dos problemas da devotio moderna, especialmente o “culto ao método e ao
diretor espiritual” [veja-se aqui o artigo do Pe. Ravier Olivera Ravasi: A devotio moderna - características e
sintomas], o autor da Imitação de Cristo recolhe o
básico da Tradição católica sobre a “obediência”: a necessidade de uma
obediência de coração, a humildade que reconhece os limites do próprio
conhecimento – desde que isso não se converta em uma espúria renúncia à
faculdade da inteligência ou à cegueira voluntária diante do equívocos graves
patentes do superior –, a renúncia aos próprios pareceres legítimos.
d)
Santa Catarina de Sena
No
que diz respeito à potestade papal, como veremos posteriormente, S. Catarina já
começa a incorrer num certo “ultramontanismo” avant la lettre, no
espírito da definição imprecisa ou genérica da Unam Sanctam – sim, não
existe imprecisão apenas no CVII, porque a “necessidade de submissão ao papa
para a salvação” requer obviamente ulteriores explicações para que se entenda
de modo plausível, compatível com a Tradição e com a Lei Natural, e não como
ratificação de possíveis atos tirânicos (sabemos das intenções políticas de
Bonifácio VIII, e precisamos separar a intenção eclesial de sua definição de
seu possível uso pessoal). Mas, o que a terciária dominicana diz de modo geral
sobre a “autoridade” e a “obediência” cristãs está em consonância com o que
vimos até aqui. Vejamos alguns exemplos:
Sobretudo vós, senhora superiora, procurai
ser obediente a Deus, suportando a função que ele vos impôs, a de governar
suas ovelhas. [...]
Quanto às irmãs, rogo-lhes em nome d’Aquele
que assumiu toda a nossa miséria, que se inclinem para entrar pela porta
estreita da santa obediência, a fim de o orgulho da vontade não as prejudicar.
Caríssimas irmãs, não vos pareça difícil a repreensão. [...] Sede então
obedientes por amor daquele dulcíssimo e amantíssimo jovem Filho de Deus, que
foi obediente até a morte. Assim possuiremos aquela espada para eliminar o
vício da soberba com a força divina. Enraizados na virtude da caridade, nós a
revelaremos através da virtude da obediência; e esta última, nós a
comprovaremos com a virtude da humildade (Carta 30, nn. 5-6).
É preciso antes morrer, que
desobedecer ao superior.
Vede! Jamais aconteceu, e Deus não o permita, que um superior ordenasse algo
contrário a Deus. E se isso viver a acontecer, vós não devereis obedecer.
Mas nos outros casos, procurai sempre a obediência, sem ficar olhando para a
própria satisfação, espiritual ou material (Carta 36, n. 4).
O religioso que tem a caridade
vence o incômodo de suportar as observâncias monásticas e as ordens difíceis
dos superiores. Igualmente, tudo se suporta com paciência, com facilidade se
obedece. Possuindo a humildade, ele jamais responde ao superior. Nele, a
humildade e a obediência se equilibram [...]
Filhos queridos, toda pessoa
deve obedecer aos mandamentos de Deus. Essa obediência afasta a culpa do
pecado mortal e infunde a vida da graça. [...]
Essa obediência aos mandamentos é
de caráter geral. A ela está obrigado todo cristão. Mas existe um outro tipo de
obediência, própria dos que, já tendo obedecido aos mandamentos, querem
progredir por ações e desejos na prática da caridade perfeita. São os que vivem
no “jardim” da Igreja, ou seja, na vida religiosa. Torna-se fácil obedecer à
Regra e ao prelado, para quem já praticou a obediência geral e passou à
obediência especial. O cristão que entra na vida religiosa com sua vontade
pessoal “morta”, como sempre deveria acontecer, sentir-se-á feliz (Carta
84, nn. 3-4).
Apesar
dessa retórica idealizadora do “se o superior já ordenou algo contrário a
Deus”, a santa afirma o critério correto: uma ordem contra Deus não deve ser
obedecida. A vontade pessoal “morta” deve ser entendida quanto àquelas
escolhas legítimas e quiçá melhores que as dos superiores, mas que devem ser
proscritas no âmbito do seguimento da Regra religiosa. No Diálogo, ela
desenvolveu mais suas ideias esboçadas nas Cartas, mas diz essencialmente
o mesmo. Pode-se destacar a distinção que ela faz entre a “obediência do
religioso” e a “obediência do leigo consagrado”: a primeira é mais perfeita, a
segunda é mais incerta, “por não estar comprometido com o voto” (cf. Diálogo,
36.10). Depois retornaremos à questão da autoridade pontifícia na autora.
5. Exercício da
autoridade e obediência cristã na reta teologia espiritual moderna
a)
São João da Cruz
- quando
víssemos em nossa Ordem perdida a delicadeza, que faz parte da polidez
cristã e monástica, e que, em seu lugar, reinasse a agressividade e a
ferocidade nos superiores, vício esse próprio de bárbaros, devíamos deplorá-la
como acabada. Porque quem jamais viu as virtudes e as coisas de Deus serem
impostas a pauladas e com grosseria?
- quando os
religiosos são formados sob a ação desses rigores, tão desarrazoados, vêm a
ficar pusilânimes para empreender coisas grandes na virtude, como se
tivessem sido criados entre feras [...]
- podia-se
recear ser ardil do demônio formar os religiosos desta maneira, porque, formados
com esse temor, não teriam os superiores quem ousasse adverti-los nem discordar
deles quando estivessem em erro.
E que, se por
esse caminho, ou por outro semelhante, chegar a Ordem a tal estado que aqueles,
que estariam obrigados pelas leis de caridade e justiça, isto é, seus membros
mais representativos, não ousarem dizer o que convém nos capítulos e juntas, ou
em outras ocasiões, por fraqueza, pusilanimidade ou por receio de desgostar o
superior e assim não serem escolhidos para desempenhar cargos - o que é
manifesta ambição - tenham-na por perdida e por completamente relaxada"
(Ditames de Espírito, n. 11; negritos meus).
Perceba-se
a liberdade de espírito de São João da Cruz em sua crítica dura às possíveis
agressividades dos superiores, que deforma os religiosos, bem como na
autorização que dá aos súditos para advertir os maus superiores e deles
discordar quando errarem. É péssimo sinal para a estrutura religiosa a presença
de modos bárbaros entre os superiores.
b)
São Francisco de Sales
Trago
aqui o capítulo sobre a “obediência” de Filoteia (Introdução à vida
devota) que o grande santo moderno escreveu para a devoção dos leigos.
A caridade sozinha nos faz
realmente perfeitos, mas a obediência, a castidade e a pobreza são as
principais virtudes que nos ajudam a adquirir a perfeição. A obediência, pois,
dedica o nosso espírito à castidade, o nosso corpo à pobreza. os nossos bens ao
amor e serviço de Deus. São como que três braços da cruz espiritual, em que
estamos crucificados com Jesus Cristo e fundam-se ao mesmo tempo numa quarta
virtude, que é a santa humildade.
Não pretendo falar-te destas três
virtudes com respeito aos votos solenes da religião ou aos votos simples que
mesmo no mundo se emitem por graves razões, porque, embora os votos tragam
consigo muitas graças e merecimentos, a simples prática destas virtudes é
absolutamente bastante para conduzir à perfeição. É verdade que esses votos,
principalmente os solenes, elevam uma pessoa ao estado da perfeição; mas há uma
grande diferença entre o estado da perfeição e a perfeição mesma, pois que
todos os religiosos c bispos estão no estado da perfeição; mas nem todos são
perfeitos, como é evidente.
Esforcemo-nos, Filoteia, por
praticar essas virtudes, cada um segundo a sua vocação, porque, ainda que não
nos ponham no estado da perfeição, elas nos darão todavia a perfeição; demais,
somos todos obrigados à prática destas virtudes, conquanto não o sejamos todos
do mesmo modo.
Duas espécies há de obediência, uma
necessária e outra voluntária.
Segundo as leis da obediência necessária, deves obedecer a teus superiores
eclesiásticos, ao papa, ao bispo, ao vigário e aos seus representantes;
além disso, deves obedecer às autoridades civis, isto é, ao príncipe e
aos magistrados que estabeleceu no seu Estado; por fim, deves obedecer aos
superiores domésticos: ao pai, à mãe, ao dono e à dona da casa.
Chama-se necessária esta obediência
porque ninguém se pode eximir da obrigação de obedecer a estes superiores,
tendo-lhes Deus dado a autoridade para governar com preceitos e ordens os que
estão confiados à sua direção.
Obedece, pois, às suas ordens; nisto consiste a obediência a que estás obrigada
incondicionalmente; mas, para torná-la mais perfeita, segue também os seus
conselhos e até os seus desejos e inclinações, tanto quanto a caridade e a
prudência o permitirem.
Obedece-lhes nas coisas agradáveis,
como comer, divertir-se; pois, conquanto não pareça ser grande virtude obedecer
em semelhantes coisas, contudo grande falta seria faltar aqui com a devida
submissão. Obedece-lhes nas coisas indiferentes, como vestir uma ou outra
roupa, passar por um caminho ou por outro, falar ou calar-se, e já a obediência
terá um merecimento muito grande. Obedece-lhes em coisas dificultosas, ásperas
e desagradáveis, e a obediência será perfeita. Obedece sem réplica, mas com
mansidão; sem demora, mas com fervor; sem constrangimento, mas com alegria.
Sobretudo obedece com amor e por amor daquele que por nosso amor se tornou
obediente até à morte da cruz e preferiu, como diz São Bernardo, perder a vida
a desobedecer.
Para aprender a obedecer com
facilidade aos superiores, acostuma a te acomodares de bom grado com a
vontade dos teus iguais, conformando-te aos seus sentimentos sem
espírito de contestação, se não houver aí alguma coisa de mal; e mesmo
às inclinações razoáveis dos teus inferiores te deves acomodar de boa vontade
e não exerças a tua autoridade dum modo imperioso, enquanto se mantêm em ordem.
É um engano dizer que se estivesse na religião, obedecer-se-ia facilmente,
quando se sente dificuldade e repugnância em obedecer às pessoas que Deus
constituiu acima de nós.
Por obediência voluntária
entendemos aquela que não nos foi imposta por um preceito, mas a que nos
obrigamos por livre escolha. Ninguém pode escolher para si o pai e a mãe; de
ordinário, não se escolhe o seu príncipe, o seu bispo e até muitas vezes nem o
seu consorte; mas escolhe-se livremente o seu confessor e diretor espiritual.
Seja que nesta escolha se faça um voto de obedecer-lhe – como Santa Teresa,
que, além do voto solene da Ordem, de obedecer aos superiores, se ligou por um
voto especial e simples de obedecer ao padre Graciano – ou seja, que sem voto
algum se proponha humildemente obedecer ao confessor, e esta obediência
chama-se voluntária, porque em seu princípio depende de nossa vontade e eleição.
Devemos obedecer a todos os
superiores, mas a cada um nas coisas de sua competência; aos príncipes, em tudo que diz
respeito à polícia e à ordem pública; aos prelados, em tudo que concerne à disciplina
eclesiástica; a um pai, a um senhor, a um marido nas coisas domésticas;
ao confessor e ao diretor, em tudo o que tem relação com a direção
particular da alma.
Pede ao teu diretor espiritual que
te designe as ações de piedade que deves praticar; deste modo se tornarão melhores,
porque, além da sua própria bondade e merecimento, terão ainda o mérito da
obediência que as preceituou e animou de seu espírito.
Bem-aventurados são os obedientes,
porque Deus nunca permitirá que se percam (Filoteia, Parte III, cap.
11; grifos meus).
O
santo exorta os leigos a obedecer as ordens – justas, presume-se – dos
superiores, e também a seguir seus conselhos e desejos, mas sem excluir a
virtude da prudência, que julga da oportunidade de fazê-lo. Oferece
critérios de humildade muito pertinentes, na conformação à vontade – sempre
justa, “se não houver mal” – dos iguais, e até às inclinações dos inferiores.
Está
presente a figura do “diretor espiritual” – que é importante, especialmente no
período inicial da conversão, ou então, nos avançados, para o discernimento da
experiência mística (que requer, como ensina S. Teresa D’Ávila, que o diretor
seja necessariamente muito douto, e não apenas piedoso), mas cujo valor
é muito exagerado na vida laical no período recente (cf. o artigo do Pe. Ravasi
mencionado acima) –, mas ela é referida às “práticas de piedade”, e não às
decisões morais.
Em
tudo S. Francisco de Sales é muito prudente, muito razoável.
*
* *
Em
toda essa questão da obediência está suposta a obediência a Deus, de onde vem
toda autoridade. Quando se trata da autoridade civil ou da autoridade
doméstica, ela deve mandar de acordo com a Lei natural; quando se trata da
autoridade eclesiástica ou da autoridade religiosa, também.
Em
nenhum caso, a obediência é “cega”, nem mesmo quando se trata da autoridade
militar: nenhum subordinado que cometa uma atrocidade está escusado “por seguir
ordens”.
A
total conformação da vontade ao superior religioso tampouco é cega, mas supõe,
se não a santidade, pelo menos a virtude ou retidão do superior; se a linguagem
usada nesse âmbito por alguns mestres parece favorecer uma tal obediência cega,
é simplesmente porque estão supondo a justiça das ordens (mesmo quando elas não
são as mais sábias); tenha-se em conta as advertências a respeito da
necessidade de não obedecer às ordens más: isto supõe a não anulação da faculdade
da inteligência, a necessidade da virtude da prudência, a não anulação da faculdade
da vontade, mas a necessidade do exercício do livre-arbítrio: a própria mente e
a própria vontade do súdito se conservam, o que é anulado são as imaginações,
os desejos, ou os raciocínios e escolhas legítimas mas que podem ser
sacrificados sem prejuízo da salvação da alma, ou de tal modo que possam
constituir renúncias meritórias, enformadas pela Caridade.
6.
A distorção moderna da concepção da autoridade e da obediência
a) A hipertrofia mundanizante do poder pontifício
A famosa bula Unam Sanctam (1302), do Papa Bonifácio VIII,
proclamou uma verdade de sempre: a obediência ao papa é necessária à salvação,
na medida em que a Igreja é necessária à salvação – já o primado de jurisdição
do papa na Igreja seria bem definido no Concílio Vaticano I, referindo-se à fé,
à moral e à disciplina ou governo da Igreja universal.
O contexto era o da afirmação do poder papal em face do poder temporal,
o que também é verdade: a autoridade espiritual está sobre a autoridade
temporal, a Igreja é a guardiã da Lei moral, que é imprescindível para o bom
governo dos homens; a comunidade política é também comunidade religiosa e deve
honrar a Deus como Ele quer ser honrado, na Verdadeira Religião (cf. Leão XIII,
Immortale Dei); e Cristo Rei deve reinar também sobre as sociedades (cf.
Pio IX, Quas Primas).
Mas esse contexto de disputa política no início da aventura absolutista
dos estados modernos, bem como os raciocínios incidentais (não recobertos pela
infalibilidade da definição) a respeito da relação entre o poder espiritual e o
poder temporal conduzem a uma mundanização do poder espiritual; assim, se diz,
por exemplo (negritos meus):
As palavras do Evangelho nos ensinam: esta potência
comporta duas espadas, todas as duas estão em poder da Igreja: a espada
espiritual e a espada temporal. Mas esta última deve ser usada para a Igreja
enquanto que a primeira deve ser usada pela Igreja. O espiritual deve ser
manuseado pela mão do padre; o temporal, pela mão dos reis e cavaleiros, com o
consenso e segundo a vontade do padre. Uma espada deve estar subordinada à
outra espada; a autoridade temporal deve ser submissa à autoridade espiritual.
O poder espiritual deve superar em dignidade e
nobreza toda espécie de poder terrestre. Devemos reconhecer isso quando mais
nitidamente percebemos que as coisas espirituais sobrepujam as temporais. A
verdade o atesta: o poder espiritual pode estabelecer o poder terrestre e
julgá-lo se este não for bom. Ora, se o poder terrestre se desvia, será
julgado pelo poder espiritual. Se o poder espiritual inferior se desvia, será
julgado pelo poder superior. Mas, se o poder superior se desvia, somente Deus
poderá julgá-lo e não o homem. Assim testemunha o apóstolo: "O homem
espiritual julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado" (1Cor
2,15).
Para além do curioso uso alegórico da passagem das “duas espadas” – entenda-se que o formalmente definido está garantidado pela infalibilidade, independentemente da exegese sem base no sentido literal, e independentemente das intenções políticas concretas de Bonifácio VIII –, há uma certa confusão entre a dependência do poder temporal para com o poder espiritual do papa e o poder espiritual do papa como poder temporal; ou ainda – e isto é mais grave – entre o poder espiritual do papa e o poder absoluto de Deus, que constitui todo outro poder, espiritual ou temporal.
A justa relação entre o poder espiritual e o poder temporal, entre a
Igreja e o Estado é delicada: trata-se da mediania de uma distinção com
cooperação e subordinação do Estado nos assuntos espirituais e morais; os erros
ou vícios são a separação (liberalismo, laicismo) e a confusão (ingerência do
poder temporal na escolha dos bispos, consideração de qualquer heresia como
crime penal, submissão dos documentos papais à autorização dos reis, etc.).
Não obstante, o histórico poder temporal dos papas (os Estados
Pontifícios) é sumamente conveniente para o exercício da missão pontitícia, na
medida em que garante a justa liberdade de movimento ao papa, sem a ingerência
direta de um imperador cristão circunstancialmente hostil ou de um governante
apóstata. O minúsculo estado do Vaticano cumpre muito mal essa função.
Neste século XIV, a dilaceração espiritual causada pelo exílio de
Avignon e o cisma conduzirá ao aprofundamento desta atribuição teórica de
caráter “absoluto” ao poder papal, como que numa compensação psicológica para o
fato da perda concreta de autoridade moral sobre os poderes do mundo. Santa
Catarina de Sena será representante deste equívoco:
Ó Filho de Deus, bondoso Verbo! Deixaste teu sangue
no corpo (místico) da santa Igreja e desejas que ele seja distribuído pelo teu
representante (o papa)! Deus veio em socorro das necessidades do homem, que dia
a dia perde o domínio de si mesmo, ofendendeo o Criador. Deus pôs na Igreja o
remédio da santa confissão, que é eficaz no vigor do sangue. E o oferece não
apenas uma vez (na vida), mas sempre. Sem juízo é quem a deixa para o futuro e
age contra tal representante, qeu detém as chaves do sangue de Cristo
crucificado. Ainda que ele fosse um demônio encarnado, jamais devo levantar
a cabeça contra ele. Sempre devo humilhar-me e implorar misericórdia.
É a única maneira de receber ou participar dos frutos da redenção. Peço-vos
quenada façais contra o vosso chefe.
Não
vos admireis se o demônio, como já o fez (no passado), venha pôr uma coloração
de virtude no desejo de fazer justiça contra os pastores maus e culpados. Não
acrediteis nele. Não façais justiça em assuntos que não vos dizem respeito.
Nosso Salvador não o quer. Ele afirma que os pastores são seus ungidos (Sl
104, 15). Deus não quer que vós e qualquer outra pessoa façais justiça.
Ele a fará. Assim como não convém que um servo assuma a autoridade do juiz
para exercer a justiça contra m malfeitor. Seria uma atitude má, porque não
toca a ele fazer coisa.
[...]
Deus não quer que vós ou qualquer pessoa sejais justiceiros dos seus ministros.
Ele reservou tal função para si e para o seu representante (o papa). Se este se
omite, apesar de ser seu dever e estar falhando, humildemente devemos
esperar a punição e a correção do supremo juiz, o eterno Deus. Também se, por
tal omissão, perdêssemos todos os nossos bens, pois devemos preferir as
realidades espirituais e a vida da graça a eles, e à vida corporal. Os bens
materiais são finitos, enquanto a graça divina é infinita e nos propicia um
prêmio eterno. Se perdermor a graça, porém, terminamos mal (Santa
Catarina de Sena, Carta 28, n. 4).
Ora, esta ideia de que “ainda que o papa fosse um demônio encarnado
etc.” é simplesmente absurda – adiante, no mesmo parágrafo da carta, Catarina
dirá aquilo de “reclinar a cabeça no peito do Cristo da terra”. Como imagem
retórica para um papa ocultamente ímpio, ela não tem sentido, porque se
trataria de uma situação indiscernível (uma malignidade escondida, não
fenomênica), e a reverência ao sujeito da autoridade sagrada manter-se-ia sem
problemas; mas se ela quer significar um bispo romano que, tendo sido
supostamente eleito de forma legítima, é manifestamente ímpio, moralmente
escandaloso, claramente herético, um homem que age de modo tirânico, não existe
a menor razoabilidade em exigir uma reverência além do limite do respeito ao
cargo sagrado e à dignidade pessoal, e aí se trataria não mais de amor a um
“pai espiritual” (sic), mas de caridade ao inimigo.
O poder das chaves, o primado de jurisdição, a questão do sacramento da
penitência, nada disso é diretamente confrontado, ao ser enfrentada uma
possível injustiça escandalosa patente de um bispo de Roma. Não faz
nenhum sentido acusar um tal enfrentamento de “atitude cismática” (antes, seria
um tal bispo romano que estaria se separando do decoro de seu cargo...).
A justiça de Deus deverá se cumprir por intermédio da Providência, de um
próximo Papa, etc., e devemos esperá-la com a devida paciência, mas o juízo teológico
e moral veraz, a resistência e a denúncia profética contra uma tal situação e
uma tal impostura, realizados com a prudência, a moderação e a coragem
requeridas nas circunstâncias, seriam atitudes perfeitamente justificadas.
Ademais, os “ungidos” de Deus em sentido bíblico estrito são os homens
chamados de um modo sobrenatural direto [assim como o “homem espiritual” de
1Cor 2, 15 citado na Unam Sanctam é o cristão perfeito, e não
simplesmente o detentor de potestade religiosa, a não ser quando este tem
alguma participação na sabedoria divina ou empenha a palavra magisterial
infalível]; apenas em sentido lato os sacerdotes ministerais chamados pela
mediação institucional são “ungidos” (por receberem o sacramento da Ordem), e
aqueles que são ostensivamente maus, e sem arrependimento, não o são em sentido
algum! Uma coisa é o rigorismo montanista e donatista contra maus pastores que
se arrependem, outra coisa muito diferente é essa confusa – e, no fundo,
idólatra – atribuição da santidade do cargo ao indivíduo mau que o detém, dele
abusando pública e permanentemente.
Certamente há que se preferir as realidades espirituais, e é justamente
por isso que se há de resistir à potestade eclesiástica que é nociva a estes
bens eternos.
b) A moral da “obrigação” e a concepção tirânica da autoridade
A partir de Guilherme de Ockham, como consequência da negação das
essências universais e das Ideias Divinas Eternas, desaparece também o conceito
moral de “Lei Natural” e surge uma concepção de “liberdade de indiferença”: o
ato humano seria moralmente bom ou mal na medida em que se conformasse ou não à
obrigação legal (Lei Positiva) imposta por Deus, quem poderia nos mandar odiá-lO,
segundo o filósofo nominalista.
Ora, como já ensinara Sócrates em Eutífron, algo é bom não porque
Deus assim o deseja arbitrariamente, mas Deus quer aquilo que é objetivamente
justo. De fato, Deus é a Justiça, o Bem, a Verdade, e Ele não pode desejar
arbitrariamente nada, tudo que Ele ama é intrinsecamente amável, porque é amado
nEle ou desde a Verdade.
A partir da visão nominalista, a vida moral será marcada pela
“obrigação”, e separar-se-á do clássico (e bíblico) desejo de felicidade (da
“Vida eterna”), bem como da vivência das virtudes. A teologia moral se afasta
da teologia espiritual – que se converte em apanágio de religiosos ascetas e
místicos – e se transforma, praticamente, em “teologia jurídica”, estudo da Lei
Divina Positiva (os Mandamentos), em que a “consciência” converter-se-á em juiz
subjetivo dos próprios atos, daí surgindo o problema do “casuísmo” (cf.
Servais-Théodore Pinckaers, A Moral Católica. São Paulo: Quadrante,
2015, pp. 47-58; Joathas Bello, Reflexões sobre
teologia moral).
Este contexto, que combina a absolutização do poder pontifício e a
nominalista moral de obrigação, é a ocasião para surgir uma concepção do dever
como resultado da ordem de um superior (que desde sempre faz as vezes de Deus):
tal ordem já é vista como um fim em si mesmo, ou seja, não se trata da
suposição (de sempre) de sua conformidade com a Lei natural e a Lei evangélica,
mas de sua identificação com a Lei. É uma diferença sutil, mas que, em
determinados contextos, pode trazer consequências desastrosas para a vida dos
religiosos e a vida da Igreja em geral. O superior não deve conformar sua
vontade à Vontade divina, de modo que a conformação da vontade do súdito à
vontade do superior seja conformação à Vontade de Deus; não, agora se trata de
que o súdito conforme sua vontade à vontade do superior, sem mais, como se esta
tivesse nela mesma as prerrogativas divinas.
Suárez, por exemplo, dizia que a lei é “o ato pelo qual um superior quer
obrigar um inferior à realização de um determinado ato”; nele há uma sutil
transposição da questão da verdade divina da
Lei natural (enquanto reflexo da “Lei Eterna”) para
a vontade divina de impô-la como Lei natural (cf.
Joathas Bello, Escolas
de Salamanca e Coimbra e o Direito das Gentes).
Na obra da “contrarreforma”, esta concepção vigorou nos manuais de
teologia moral. Devemos pressupor a boa intenção daqueles que, pela necessidade
de restabelecer a disciplina do clero e dos religiosos, acentuavam a urgência
da obediência à lei positiva, sem uma mais ampla investigação dos fundamentos
da moral; tais manuais cumpriram seu papel nesse contexto, como afirma o Pe.
Pinckaers (cf. A Moral Católica, p. 54).
O
jesuitismo representaria a versão tirânica desta moral moderna.
Na
formulação dos “graus de obediência” de S. Inácio de Loyola, o primeiro e mais
baixo grau é a mera execução da ordem do superior; o segundo é querer a ordem
do superior enquanto tal; o terceiro é conformar o intelecto à ordem do
interior, crendo-a correta simplesmente porque foi dada por ele; e o grau mais
alto é o de não ter mais vontade própria para obedecer que um objeto inanimado.
Segundo cita Ad. Tanquerey em seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística:
[...] explica S. Inácio (Lettre
CXX): «Mas quem pretende fazer perfeita e inteira ablação de si mesmo, além da
vontade é necessário que ofereça o entendimento . . . não somente tendo um
querer, mas também um mesmo sentir com seu Superior, sujeitando o próprio·
juízo ao dele, enquanto a vontade devota pode inclinar o entendimento. Assim
como pode errar a nossa vontade, assim o pode o entendimento no que nos convém.
E assim como, para nossa vontade se não desviar do bem, é acertado conformá-la
com a do Superior; assim também para não errar o entendimento, se deve unir com
o dele». Acrescenta, contudo: «Com isto não se tira, se alguma coisa se vos
representasse diferente do que ao Superior, e fazendo oração, vos parecesse
diante do divino acatamento convir que lha representásseis. que o possais
fazer. Contudo, se nisto quereis proceder sem suspeita de amor e juízo próprio,
deveis estar indiferentes, antes e depois de a representardes, não somente para
a execução de tomar ou deixar a coisa de que se trata, mas ainda para mais vos
contentardes e terdes: por melhor quanto o Superior ordenar». - e o que se
chama obediência cega, que faz esteja o homem nas mãos dos superiores «perinde
ac baculus, perinde ac cadaver» (S. IGNAT., Constitut. VI, § I, reg. 36); mas
com as reservas que faz S. Inácio e as que nós fizemos mais acima, não tem nada
desarrazoado esta obediência, visto como é a Deus que sujeitamos a nossa
vontade e entendimento, ·como vamos ainda explicar com mais precisão, expondo
as qualidades da obediência.
Se
é possível reconduzir, com benevolência, essa formulação do fundador à
Tradição, considerando que a ordem do superior representa a vontade de Deus,
que o superior tem seu intelecto conformado à Lei Divina, e a falta de vontade
própria não é anulação da faculdade volitiva, já é mais difícil fazer isto com
a fórmula do Pe. Alonso Rodríguez, S.J., a propósito do exame de consciência,
segundo a qual o penitente deve “seguir a
obediência cega, ou seja, a obediência sem indagação nem exame, nem busca de
razões do por que e do para que, sendo para mim razão suficiente que
seja obediência e mandato do Superior” (Práctica de la perfección y de
las virtudes cristianas).
Rodriguez realiza a habitual exceção da obediência
a mandatos manifestamente contrários à lei divina, mas, como afirma o teólogo
John Lamont, a doutrina jesuíta do “probabilismo” tende a anular esta exceção,
pois sustenta que não há pecado em fazer qualquer ação que uma autoridade
reputada sustenta que é permissível, e o superior religioso de alguém
normalmente tem uma autoridade reputada; ademais, esta exceção se torna
praticamente ilusória, uma vez que alguém tenha se tornado incapaz de criticar
as ações dos superiores; é precisamente essa a dinâmica psicológica que permite
os inúmeros abusos, inclusive sexuais, dos quais temos notícias nos últimos
tempos no interior da Igreja: a inteligência já não consegue questionar uma
ordem que apareça como ilegítima (como uma clara imoralidade), porque tenderá a
desconfiar de seu juízo, considerando-o “subjetivista” (“o superior sempre tem
razão”), e a vontade seguirá esse engodo, pois do contrário seria “caprichosa”
na imaginação. É a anulação não só dos desejos ilegítimos ou das eleições
lícitas em face de outras também lícitas, mas da própria personalidade (cf.
Lamont, “Tyranny
and sexual abuse in the Catholic Church: A Jesuit tragedy”. Excerto traduzido
ao espanhol disponível em: https://caminante-wanderer.blogspot.com/2021/08/la-obediencia-y-los-abusos-una.html).
Passo
a citar textualmente as importantes conclusões do Dr. John Lamont (os negritos estão
no artigo citado):
A concepção da autoridade religiosa e da obediência
religiosa que se impôs na Igreja a partir do século XVI foi, pois, uma inovação
fundamental que se afastou das posições católicas anteriores. Chegou a influenciar na Igreja através da
formação dada nos seminários para os sacerdotes diocesanos e o enfoque da
disciplina nas congregações religiosas. A vida cotidiana dos seminaristas e dos
religiosos estava estruturada por una multidão de normas que regulavam as minúcias
do comportamento, e as atividades que saíam desta rotina geralmente só podiam
ser realizadas com a permissão do superior. [...]
Este enfoque da autoridade teve efeitos prejudiciais
para o clero e os religiosos. A prestação da obediência servil dos subordinados
destruía a força de carácter e a capacidade de pensamento independente. O exercício
da autoridade tirânica por parte dos superiores produziu um orgulho desmedido e
uma incapacidade de autocrítica. O fato de que todos os superiores começaram em
uma posição subordinada significava que a ascensão era facilitada para
aqueles que dominavam as artes do escravo: a adulação, a dissimulação e a manipulação.
Quanto aos leigos, por efeito da promoção de uma
concepção servil da obediência, foram infantilizados na esfera religiosa. Esta infantilização pode ser observada na arte e
na devoção religiosa, especialmente a partir do século XIX, y na disposição a
prestar obediência cega ao clero. A dissociação resultante entre a maturidade
adulta e a crença religiosa socavou a fé e o compromisso religioso entre os leigos,
e contribuiu à constante secularização das sociedades católicas.
Esta exposição da história e da natureza de uma
concepção tirânica da autoridade na Igreja explica muitos traços da crise dos
abusos sexuais. O amadurecimento psicológico é necessário para resistir com êxito
à tentação sexual. Ao atacar esta maturidade, a inculcação de uma
concepção servil da autoridade torna muito difícil a castidade. As
personalidades deformadas e inadequadas daqueles que se sentem atraídos pela
atividade sexual perversa não serão descobertas em um sistema de formação que
se baseia em inculcar a obediência servil. Estas personas costumam ser boas no
servilismo e na dissimulação. Prosperarão em um sistema baseado na obediência
servil, enquanto que os homens de inteligência e caráter lutarão sob esse
sistema.
Os superiores não pensarão que sua própria
autoridade está ligada à autoridade da lei, e não estarão inclinados a respeitar
e obedecer a lei como tal. Terão um forte incentivo para ocultar os abusos
sexuais, porque a autoridade do clero sobre os leigos será baseada em uma concepção
infantilizada na qual os clérigos são considerados figuras paternas quase divinas
que não podem fazer nada mau. Mas esta concepção se destrói se se fazem
públicas as infrações graves cometidas pelo clero. Os leigos serão facilmente
persuadidos ou intimidados para que guardem silêncio sobre os casos de abuso
sexual que encontrem. […]
A infantilização produzida por esta forma de
entender a autoridade contribuiu ao abuso sexual de várias maneiras. Uma pessoa infantilizada não pode exercer um juízo
independente e não é capaz de defender a si mesma nem aos demais. […]
Esta
“infantilização” mencionada por Lamont é muito presente na ideia equivocada de
que a “vontade de Deus” (sic) é uma determinação absoluta de todos os passos do
cristão. Ora, essa visão elimina inteiramente a realidade da liberdade e,
assim, a cooperação com a Graça, e ela está associada à concepção tirânica da
autoridade na vida religiosa. Nas “novas comunidades”, isto acaba levando à
idolatria dos juízos e do “estilo” do “pai fundador” (sic), repercutidos pelas
autoridades regionais: em suma, à absolutização da instituição, que se torna
“intérprete” do “plano de Deus” (sic). A propósito, merece ser citada a
reflexão do Pe. Antonio Ruiz Retegui no âmbito de sua crítica ao
“institucional” (a instituição religiosa como fim em si mesma, que podemos ler
também como “a autoridade religiosa como fim em si mesma”):
O aspecto
"institucional" tende a se fazer dominante sobre o aspecto
propriamente espiritual, de consciência. A instituição se converte em instância
última e, em consequência, na referência definitiva e absoluta: a instituição
se converte em um fim em si mesma. O fim que a instituição está chamada a
cumprir se desvanece e aparece como a manutenção da própria instituição, que
tenderá a prevalecer sobre as pessoas. Sua unidade já não procederá da
concórdia no cumprimento da missão, senão na defesa dos elementos estruturais
da própria instituição em si mesma. Mas já advertiram os antigos, quando o fim
se esfuma, a própria instituição muda de carácter e se desvirtua (Retegui, “Lo
teologal y lo institucional”. Disponível em https://www.opuslibros.org/libros/Teologal/capitulo7.htm).
E
ainda:
A maneira
direta em que se manifesta a tendência a vincular a consciência nas decisões
institucionais é a identificação quase total dessas decisões com "a vontade
de Deus". Efetivamente a vontade de Deus é a referência moral fundamental.
Mas sobre o modo de se referir à expressão "vontade de Dios" na linguagem
institucional pendem algumas ambiguidades perigosas. Com efeito, com frequência
se afirma que a vontade de Deus se manifesta sobretudo nas indicações dos que
governam. [...]
As respostas
que o homem dá a Deus, dá-as desde a própria situação, ou seja, desde a
realidade própria e desde a realidade do mundo em que vive. Neste sentido, pode
se dizer que são verdadeiras respostas a Deus, mas não porque Deus tenha
manifestado um mandato determinado em concreto, senão porque as condições próprias
e a natureza das criaturas que configuram o mundo devem ser consideradas como
lei ou vontade de Deus. (https://www.opuslibros.org/libros/Teologal/capitulo8.htm).
As
reflexões do Pe. Retegui se orientam a instituições católicas e “movimentos”
formados por leigos e padres seculares. Mas elas se aplicam, por analogia, às
instituições religiosas, quando as ordens dos superiores não visam à formação
da maturidade dos súditos, como se a vida religiosa não se dirigisse à
capacidade de discernir em pessoa a Vontade divina, como se os religiosos
jamais pudessem deixar de ser principiantes na vida espiritual, ou, o que é
pior, como se estivessem a serviço das metas da instituição, e não de Deus.
É
relevante trazer a visão de Dietrich von Hildebrand, grande filósofo e teólogo
católico do século passado, em seu livro Cavalo de Troia na Cidade de Deus –
no qual procurou defender a ortodoxia do Concílio Vaticano II no momento das
primeiras interpretações progressistas tresloucadas –, a respeito dessa
distorção teológica e prática da obediência e da autoridade no âmbito católico,
que estava bem viva no período pré-conciliar:
Houve, indubitavelmente, muitos
abusos de autoridade nas ordens religiosas e nos seminários: abusos que
conduziram a uma despersonalização da vida religiosa e, algumas vezes, a um
embotamento da consciência. Ao converter a obediência formal na virtude mais
importante, obscurecendo a diferença essencial entre as virtudes morais e a
correção meramente disciplinar, acentuando excessivamente as coisas que – pela parvitas
materiae – eram triviais: as pessoas revestidas de autoridade criaram uma
situação na qual a personalidade do religioso ou do seminarista corria perigo
de frustrar-se, e o sentido da hierarquia dos valores ficava quase
inevitavelmente morto. O resultado de tudo isso era a estreiteza, a angústia e
– algumas vezes – os transtornos mentais. Mas o Concílio Vaticano II
produziu uma grande libertação nesta esfera [nota: entende-se desde
uma expectativa e inteligência ortodoxa da novidade conciliar].
Agora, ao reagir – neste caso
contra um abuso de princípios válidos, antes que contra uma verdade incompleta
–, os católicos progressistas não conseguem compreender as verdadeiras
intenções do Concílio e a correção adequada de tais abusos [idem]. Cometem
o erro clássico a respeito de um abuso: perder de vista o valor da coisa de que
se abusou e tentar eliminá-la completamente. Se uma coisa é má, então não
podemos abusar dela. O valor negativo de qualquer abuso pressupõe que a coisa
de que se abusou tem um valor positivo. Quando o abuso da autoridade e da
obediência inclui uma falsificação da natureza desses princípios, a eliminação
do abuso esclarecerá o valor sublime da genuína obediência e da genuína
autoridade religiosa.
A mesquinhez e a violência
autoritária são incompatíveis com a sagrada e caritativa autoridade do abade ou
do superior de uma ordem religiosa ou de um seminário. São incompatíveis com o respeito
à alma humana, com a generosidade e magnanimidade que permitem ao superior
distinguir claramente entre o essencial e o que não o é. Agora, a “solução”
dos católicos progressistas é eliminar a autoridade sagrada e a santa
obediência, e substituí-las por uma simples autoridade técnica e por uma
fidelidade profana. Os católicos progressistas não conseguem captar o
sentido e a beleza da santa obediência, a liberdade interna que dita
obediência confere ao que obedece, a gloriosa autodoação que essa obediência
leva consigo (Dietrich von Hildebrand, El Caballo de Troya em la Ciudad
de Dios. 5ª ed. Madrid: Fax, 1974, pp. 42-3; destaques meus).
O
progressismo distorce as coisas: a obediência e a autoridade são bens
objetivos, necessários. Retamente compreendidas e vividas, são bens
imprescindíveis para a salvação e para a santificação das almas. Mas, reitero,
é preciso entender que também a autoridade deve obediência a Deus, à Lei
natural, aos critérios objetivos da própria regra, e ao bom senso,
evidentemente.
Um
ponto que merece ser mencionado a respeito dessa “mesquinhez e violência
autoritária” é a questão das “humilhações”: o paradigma de Nosso Senhor e dos
grandes santos supõe o atingimento da maturidade espiritual e moral, a
plenitude da virtude da fortaleza; não faz o menor sentido que um superior aja
infligindo humilhações a seus súditos, como se esse fosse um modo legítimo de
obter tal maturidade! Ora, o noviço, o aprendiz, já tem na vivência regular da
vida religiosa, como toda pessoa tem na vida secular, uma série de infortúnios,
já lida com irmãos e pessoas sem caridade ou mesmo cheias de malícia, e deve
aprender a maturidade suportando esses reveses inevitáveis; o superior está
chamado a sempre corrigir com o devido equilíbrio de firmeza e amor, mas não
está autorizado a realizar vexações artificiais, e apenas uma mentalidade não
cristã pode supor o contrário – quem é pai de família e busca viver com retidão
conhece as “malcriações” que merecem uma dura correção, mas também conhece a
clemência a que devemos nos inclinar por causa da condição pueril e das
vicissitudes da adolescência, e porque a nossa solicitude paterna não é
perfeita como é a divina. Antes, o superior e os irmãos mais avançados devem
ajudar os iniciantes a lidar com as humilhações ordinárias, a fortalecer as
mãos abatidas e os joelhos vacilantes, para que se tornem aptos a sofrer
voluntariamente por Cristo e até morrer pela Fé.
Essa
mentalidade tirânica e infantilizadora introjetada nos fiéis, associada a uma
má compreensão da Vontade divina permissiva e da Providência, leva os católicos
à imaginação estúpida de que “essas injustiças ajudam o abusado a se
santificar”. Que Deus em seu amor levante o súdito de sua prostração é uma
coisa, mas a própria circunstância de abuso (psicológico, físico, sexual) do
superior é um crime e uma pedra de tropeço, na medida em que a imaturidade
psicológica, moral e espiritual do súdito não permite que se dê então uma
verdadeira união com Deus. Essas subjugações das péssimas autoridades não são
algo com o qual se há de contar normalmente na vida religiosa e cristã,
como se noviços, seminaristas ou filhos tivessem de ter maturidade e
fortaleza para suportar tais abusos, quando na realidade ele deveriam ser
cuidados por seu superiores, os quais não são seus carrascos, mas aqueles que
precisamente são colocados por Deus para serem imagens vivas de Cristo,
encaminhando-os à virtude.
Enfim,
é por esta combinação terrível de hipertrofia tirânica da autoridade religiosa
e servilismo, associados a um entendimento equivocado do bíblico “não
julgueis”, que o fiel católico vive tantas vezes um temor meramente humano,
calando-se diante de escândalos eclesiásticos absurdos, introjetando na
consciência o critério dos abusadores; ora, quando se trata de hereges e homens
imorais manifestos, habituais e sem arrependimento, a sua situação eclesiástica
nada significa no campo da moral: eles [ainda] estão no nosso meio, mas não são
dos nossos, são aqueles falsos mestres com suas doutrinas destruidoras e sua
negação da Encarnação, que contam coisas que eles mesmos inventaram, e que já
estão julgados.
A
modo de conclusão
A
obediência é um divino conselho e uma santa virtude. Assim o disse e
exemplificou Nosso Senhor, e também o disseram os Santos Apóstolos, os Santos
Padres, Santo Tomás e outros mestres medievais, bem como os maiores mestres
espirituais modernos. Devemos obedecer os mandamentos e as autoridades
legítimas, sejam religiosas, civis ou domésticas, na medida em que elas
representam para nós a vontade e a bondade divinas.
Vimos,
contudo, como estas noções de obediência e autoridade podem ser distorcidas,
como na Igreja a concepção do poder papal equivocou-se num absolutismo, e a
concepção da autoridade religiosa equivocou-se numa tirania. Vimos como a
concepção servil da obediência e a concepção tirânica da autoridade têm sido fonte
de males tremendos para a vida de tantos fiéis e de escândalos sem fim para o
Corpo Místico de Cristo.
Há
décadas temos assistido passivamente a novas doutrinas, a novas pastorais e a uma
nova liturgia estranhas à Tradição tomarem de assalto a Igreja, pelo abuso de
poder dos papas que dirigiram o CVII, e temos assistido aqui e agora ao governo
despótico do atual Bispo de Roma.
Cabe
recuperar e difundir a verdadeira doutrina católica sobre a santa obediência,
para fazermos o que nos cabe, que é resistir com prudência e coragem a tantos
abusos, esperando em Deus e suplicando a Ele a justiça que certamente virá.

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