18.7.21

As virtudes (Pieper) - 2a parte: Prudência

Resumo do capítulo de: PIEPER, Josef. Las virtudes fundamentais. 9a ed. Madrid: Rialp, 2007, pp. 31-82. 


A primeira das virtudes cardeais

 

  • A prudência é a “mãe” e o fundamento das demais virtudes cardeais: só o prudente pode ser justo, forte, moderado
  • Primazia da prudência: o ser é antes que a verdade e a verdade antes que o bem
  • “Prudente”: “tático experimentado”; recurso dos que querem chegar sempre tarde aos momentos de perigo
  • “Boa ação”: “imprudente”
  • Só é prudente o homem que é bom; toda virtude é prudente
  • A prudência é a causa de que as demais virtudes sejam virtudes
  • A virtude é uma faculdade perfectiva do homem como pessoa espiritual: a justiça, a fortaleza e a temperança só alcançam a perfeição fundadas na prudência
  • O “império” da prudência é a forma exemplar da ação justa, corajosa ou temperada
  • A prudência estampa em toda ação livre do homem o selo interno da bondade
  • Os dez mandamentos executam a prudência
  • Todo pecado é imprudente
  • O bem próprio do homem consiste em que a razão, conhecendo a verdade, informe internamente o querer e o agir
  • A verdade é suposto da justiça; só quem rechaça a verdade, natural ou sobrenatural, é “mau” e incapaz de conversão
  • A medida da prudência é a própria coisa, a realidade objetiva do ser
  • Primazia da prudência: o querer e o agir devem ser conformes a verdade

 

O conhecimento da realidade e a realização do bem


  • A realização do bem pressupõe a conformidade de nossa ação à situação real
  • O prudente precisa conhecer tanto os primeiros princípios universais da razão quanto as realidades concretas sobre as que versa a ação moral
  • Os princípios universais da razão prática são revelados ao homem pela sentença da “sindérese”
  • A prudência não se refere ao fim último, mas às vias que a ele conduzem
  • A unidade viva de sindérese e prudência é o que chamamos “consciência”
  • A prudência é cognoscitiva e imperativa: apreende a realidade para depois ordenar o querer e o agir
  • Essencial na prudência: que o saber da realidade se transforme em império prudente, e este em ação boa.

 

“O juízo da consciência é um juízo prático, [...] que dita aquilo que o homem deve fazer ou evitar, ou então avalia um acto já realizado por ele. [...] aplica a uma situação concreta a convicção racional de que se deve amar e fazer o bem e evitar o mal. Este primeiro princípio da razão prática pertence à lei natural, [...] brilha no coração de cada homem. Mas, enquanto a lei natural põe em evidência as exigências objectivas e universais do bem moral, a consciência é a aplicação da lei ao caso particular [...]” (SJPII, Veritatis Splendor, n. 58).

 

  • Graus pelos quais passa: apreensão dos princípios e da situação, deliberação, juízo, império
  • 1º modo de imprudência: imprevisibilidade (não delibera como deve e age)
  • 2º modo de imprudência: inconstância (a deliberação e o juízo são infrutíferas, não dão lugar ao império)
  • Prudência: faculdade de apreender o real objetivamente e em silenciosa expectação
  • Requisitos: memória fiel ao ser; docilidade ou o saber deixar-se dizer algo (implica humildade); solércia ou objetividade ante o inesperado (captar com um olhar a situação imprevista e tomar a nova decisão)
  • O prudente orienta seu olhar na direção do “ainda não” realizado
  • Império: 1º requisito é o “pressentimento” da “providência”, que dispõe para apreciar com seguro golpe de vista se a ação x será a via real ao fim proposto
  • Nas resoluções morais não há a segurança da conclusão de um raciocínio teorético (ilusão ou erro da sobrevalorização do casuística pelos moralistas)
  • Pode-se faltar com prudência de dois modos: 1º) por um ato positivo de negação ou omissão (imprevisibilidade e inconstância; raiz destas imprudências “por defeito” é a luxúria);
  • 2º) através da “astúcia”, sentido simulador que só se atrai pelo “táctico” das coisas, e busca um fim bom por vias simuladas e falsas (simulação, ocultação, ardil, deslealdade; origem na “avareza”)
  • Na prudência, soberana da conduta, se consuma essencialmente a felicidade da vida ativa (S. Tomás)

 

Precisões e contrastes

 

  • Teoria clássico-cristã sobre a prudência x irracionalismo ou voluntarismo
  • O bem supõe a verdade
  • Moralismo (parecido com voluntarismo): conduta ética como soma de práticas de virtudes e obrigações positivas e negativas isoladas; a ação moral é retirada do solo do conhecimento da verdade
  • A realização do bem é algo completamente diferente do cumprimento meramente factual de um preceito que se “impõe” desde a obscuridade de um arbítrio poderoso
  • O homem é uma essência apta para realizar múltiplas e diversas atividades
  • O bem humano possui margem para variar de múltiplas maneiras, segundo a constituição das pessoas e as distintas constituições
  • Há a obrigação de ser justo, forte, moderado, mas a forma concreta de cumprir esse dever imutável pode empreender várias vias
  • A aspiração de segurança pode degenerar em uma rigidez inumana, que contradiz a essência da pessoa humana
  • Os juízos da doutrina moral e os da casuística estão no plano do abstrato, a única garantia da bondade da ação humana singular vem da prudência
  • Duas formas de operação humana: agir e fazer; a prudência aperfeiçoa a capacidade executiva do homem, e a arte completa a produtiva
  • Não há “técnica” do bem nem da perfeição
  • Jamais o homem pode contemplar o plano concreto definitivo de sua vida
  • É impossível educar um homem na justiça, na fortaleza ou na temperança sem antes e simultaneamente educa-lo na prudência, na valorização objetiva da situação concreta em que ocorre a operação e na faculdade de transformar este conhecimento da realidade em decisão pessoal

 

A prudência e o amor

 

  • Não é o sentido nem o ofício da prudência a descoberta do fim da vida, nem o estabelecimento das disposições fundamentais da essência humana.
  • O sentido da prudência é encontrar as vias adequadas a estes fins e determinar a atualização, aqui e agora, destas disposições fundamentais.
  • Não há quem não tenha consciência de que é necessário amar e realizar o bem, ou da necessidade de ser justo, corajoso e do dever de ser moderado (não são conhecimentos deliberados).
  • A deliberação e o império da prudência são endereçados à realização concreta da justiça, da fortaleza e da temperança.
  • Sem a vontade do bem em geral, o esforço por descobrir o prudente e o bom aqui e agora seria ilusório e vão
  • As possibilidades de ação mais sublimes e fecundas estão contidas, como em germe, na cooperação unânime de prudência e caridade.
  • Sujeição da prudência ao primado da caridade: a primeira é forma das virtudes morais, mas a caridade informa a prudência


"Prudência" (1650), de Luca Ferrari

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