Resumo do capítulo de: PIEPER, Josef. Las virtudes fundamentais. 9a ed. Madrid: Rialp, 2007, pp. 31-82.
A primeira das virtudes cardeais
- A prudência é a “mãe” e o fundamento das demais virtudes cardeais: só o prudente pode ser justo, forte, moderado
- Primazia da prudência: o ser é antes que a verdade e a verdade antes que o bem
- “Prudente”: “tático experimentado”; recurso dos que querem chegar sempre tarde aos momentos de perigo
- “Boa ação”: “imprudente”
- Só é prudente o homem que é bom; toda virtude é prudente
- A prudência é a causa de que as demais virtudes sejam virtudes
- A virtude é uma faculdade perfectiva do homem como pessoa espiritual: a justiça, a fortaleza e a temperança só alcançam a perfeição fundadas na prudência
- O “império” da prudência é a forma exemplar da ação justa, corajosa ou temperada
- A prudência estampa em toda ação livre do homem o selo interno da bondade
- Os dez mandamentos executam a prudência
- Todo pecado é imprudente
- O bem próprio do homem consiste em que a razão, conhecendo a verdade, informe internamente o querer e o agir
- A verdade é suposto da justiça; só quem rechaça a verdade, natural ou sobrenatural, é “mau” e incapaz de conversão
- A medida da prudência é a própria coisa, a realidade objetiva do ser
- Primazia da prudência: o querer e o agir devem ser conformes a verdade
O conhecimento da realidade e a realização do bem
- A realização do bem pressupõe a conformidade de nossa ação à situação real
- O prudente precisa conhecer tanto os primeiros princípios universais da razão quanto as realidades concretas sobre as que versa a ação moral
- Os princípios universais da razão prática são revelados ao homem pela sentença da “sindérese”
- A prudência não se refere ao fim último, mas às vias que a ele conduzem
- A unidade viva de sindérese e prudência é o que chamamos “consciência”
- A prudência é cognoscitiva e imperativa: apreende a realidade para depois ordenar o querer e o agir
- Essencial na prudência: que o saber da realidade se transforme em império prudente, e este em ação boa.
“O juízo da consciência é um juízo prático, [...] que dita aquilo que o homem deve fazer ou evitar, ou então avalia um acto já realizado por ele. [...] aplica a uma situação concreta a convicção racional de que se deve amar e fazer o bem e evitar o mal. Este primeiro princípio da razão prática pertence à lei natural, [...] brilha no coração de cada homem. Mas, enquanto a lei natural põe em evidência as exigências objectivas e universais do bem moral, a consciência é a aplicação da lei ao caso particular [...]” (SJPII, Veritatis Splendor, n. 58).
- Graus pelos quais passa: apreensão dos princípios e da situação, deliberação, juízo, império
- 1º modo de imprudência: imprevisibilidade (não delibera como deve e age)
- 2º modo de imprudência: inconstância (a deliberação e o juízo são infrutíferas, não dão lugar ao império)
- Prudência: faculdade de apreender o real objetivamente e em silenciosa expectação
- Requisitos: memória fiel ao ser; docilidade ou o saber deixar-se dizer algo (implica humildade); solércia ou objetividade ante o inesperado (captar com um olhar a situação imprevista e tomar a nova decisão)
- O prudente orienta seu olhar na direção do “ainda não” realizado
- Império: 1º requisito é o “pressentimento” da “providência”, que dispõe para apreciar com seguro golpe de vista se a ação x será a via real ao fim proposto
- Nas resoluções morais não há a segurança da conclusão de um raciocínio teorético (ilusão ou erro da sobrevalorização do casuística pelos moralistas)
- Pode-se faltar com prudência de dois modos: 1º) por um ato positivo de negação ou omissão (imprevisibilidade e inconstância; raiz destas imprudências “por defeito” é a luxúria);
- 2º) através da “astúcia”, sentido simulador que só se atrai pelo “táctico” das coisas, e busca um fim bom por vias simuladas e falsas (simulação, ocultação, ardil, deslealdade; origem na “avareza”)
- Na prudência, soberana da conduta, se consuma essencialmente a felicidade da vida ativa (S. Tomás)
Precisões e contrastes
- Teoria clássico-cristã sobre a prudência x irracionalismo ou voluntarismo
- O bem supõe a verdade
- Moralismo (parecido com voluntarismo): conduta ética como soma de práticas de virtudes e obrigações positivas e negativas isoladas; a ação moral é retirada do solo do conhecimento da verdade
- A realização do bem é algo completamente diferente do cumprimento meramente factual de um preceito que se “impõe” desde a obscuridade de um arbítrio poderoso
- O homem é uma essência apta para realizar múltiplas e diversas atividades
- O bem humano possui margem para variar de múltiplas maneiras, segundo a constituição das pessoas e as distintas constituições
- Há a obrigação de ser justo, forte, moderado, mas a forma concreta de cumprir esse dever imutável pode empreender várias vias
- A aspiração de segurança pode degenerar em uma rigidez inumana, que contradiz a essência da pessoa humana
- Os juízos da doutrina moral e os da casuística estão no plano do abstrato, a única garantia da bondade da ação humana singular vem da prudência
- Duas formas de operação humana: agir e fazer; a prudência aperfeiçoa a capacidade executiva do homem, e a arte completa a produtiva
- Não há “técnica” do bem nem da perfeição
- Jamais o homem pode contemplar o plano concreto definitivo de sua vida
- É impossível educar um homem na justiça, na fortaleza ou na temperança sem antes e simultaneamente educa-lo na prudência, na valorização objetiva da situação concreta em que ocorre a operação e na faculdade de transformar este conhecimento da realidade em decisão pessoal
A prudência e o amor
- Não é o sentido nem o ofício da prudência a descoberta do fim da vida, nem o estabelecimento das disposições fundamentais da essência humana.
- O sentido da prudência é encontrar as vias adequadas a estes fins e determinar a atualização, aqui e agora, destas disposições fundamentais.
- Não há quem não tenha consciência de que é necessário amar e realizar o bem, ou da necessidade de ser justo, corajoso e do dever de ser moderado (não são conhecimentos deliberados).
- A deliberação e o império da prudência são endereçados à realização concreta da justiça, da fortaleza e da temperança.
- Sem a vontade do bem em geral, o esforço por descobrir o prudente e o bom aqui e agora seria ilusório e vão
- As possibilidades de ação mais sublimes e fecundas estão contidas, como em germe, na cooperação unânime de prudência e caridade.
- Sujeição da prudência ao primado da caridade: a primeira é forma das virtudes morais, mas a caridade informa a prudência

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