18.7.21

As virtudes (Josef Pieper) - 1a parte: Esperança

Resumo do capítulo de: PIEPER, Josef. Las virtudes fundamentais. 9a ed. Madrid: Rialp, 2007, pp. 367-413.

Entremeado com passagens da belíssima Encíclica Spe Salvi, de Bento XVI.


"Status viatoris”

 

  • Viator: o que está em caminho; status viatoris: estado do ser que está a caminho
  • Status comprehensoris: estado de quem já alcançou, é comprehensor
  • Estar a caminho: caminhar para a felicidade = plenitude objetiva e resposta subjetiva
  • “Ainda não” do status viatoris: não ser plenitude e ser encaminhamento à plenitude
  • Lado negativo: proximidade da criatura ao “nada” (possibilidade de pecar)
  • Ingresso no status comprehensoris: a possibilidade de dirigir-se ao nada fica impedida
  • Lado positivo: justa aspiração a um termo feliz do caminho
  • A condenação é a irrevogável fixação da vontade no nada
  • O “caminho” do homem conduz à morte como fim (termo) mas não como sentido (finalidade)
  • Filosofia existencial: homem como “ser para a morte”
  • Status viatoris: estrutura criatural, o ser em caminho não “é” [toda] sua essência, mas “se faz”
  • Resposta ao Não ser ainda”:  nem desesperança (o sentido não é o nada), nem presunção (o sentido não foi alcançado ainda), mas a Esperança

 

A Esperança como virtude

 

  • A virtude não é a mansa “moderação” e “probidade” do burguês, mas a culminação do ser da pessoa humana; o imperturbável encaminhamento do homem para a verdadeira realização de seu ser, para o bem
  • A virtude teologal expressa uma culminância entitativa que ultrapassa o que o homem “pode ser” por si mesmo; é o imperturbável encaminhamento para uma plenitude que não é “devida” à natureza do homem.
  • Virtude “teologal”: origem em Deus, tem como objeto a Deus, é conhecida pela Revelação
  • A Esperança é uma imperturbável direção, originada da graça, para a plenitude do ser, para o bem, para a felicidade sobrenatural em Deus.


"[A Vida Eterna não é] uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de João: « Eu hei-de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria » (16,22). Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperança cristã, o que esperamos da fé, do nosso estar com Cristo” (Spe Salvi, n. 12).

  

  • A esperança natural pode se dirigir a um mal objetivo; ela não é virtude (a qual só se dirige ao bem).
  • A esperança é, como o amor, uma das mais simples e primárias atitudes do vivente; por ela, o inquieto coração humano se esforça para alcançar o bem árduo futuro, tanto natural como sobrenatural.
  • O intento de alcançar, próprio da esperança como impulso espiritual do homem natural, está ordenado a receber a direção da Esperança teologal.
  • O ímpeto autêntico da esperança natural, enformada pela virtude teologal, desemboca na virtude da magnanimidade.
  • A humildade não se opõe à magnanimidade, mas é a norma negativa da esperança natural. Da reunião e ambas decorre a justa esperança natural.
  • Elas são a última disposição do homem natural “pressuposto” pela graça. A Esperança sobrenatural se perde pela falta de ambas.
  • Vida sobrenatural no homem tem três fontes: a Fé nos apresenta a realidade de Deus, a Caridade nos vincula a Ele, a Esperança é a “espera tensa e confiada na eterna bem-aventurança da participação completa e intuitiva na vida trinitária de Deus”.
  • A Esperança espera a Vida Eterna. Esperamos a Deus em Deus.
  • As três virtudes são infundidas simultaneamente com a Graça.
  • Na ordem da formação atual, a Fé é anterior à Esperança e à Caridade, e a Esperança é anterior à Caridade. Na desordem culpável da dissolução se perde primeiro a Caridade, depois a Esperança, por último a Fé.
  • Na hierarquia segundo a perfeição, a Caridade tem o primeiro lugar, a Fé o último e a Esperança o lugar intermediário.
  • Relação entre esperança e caridade: distinção entre amor de amizade, mais perfeito, e amor concupiscível
  • Tentação do orgulho: crer que o anseio de esperança referido a si é desprezível. É legítimo desejar o prêmio eterno, pela misericórdia de Deus e os méritos de Cristo, que é o fundamento real da Esperança: “esperança que temos como segura âncora de nossa alma e que penetra atrás do véu onde entrou por nós nosso precursor Jesus” (Hb 6,19-20).
  • Spe salvi facti sumus, “na esperança somos salvos” (Rm 8,24). Estamos salvos, não em realidade, mas em esperança.
  • A oração e a esperança estão essencialmente implicadas. 

“Primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperança é a oração. Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar [...] Ele pode ajudar-me. Se me encontro confinado numa extrema solidão...o orante jamais está totalmente só” (Spe Salvi, n. 32).

 

  • A Esperança participa da certeza da Fé, na qual se apoia; ela se funda sobretudo na onipotência e misericórdia divina, pela qual até o que não tem a graça pode obtê-la

 

Nossa esperança não é individualista, mas comunitária: “Esta vida verdadeira, para a qual sempre tendemos, depende do facto de se estar na união existencial com um « povo » e pode realizar-se para cada pessoa somente no âmbito deste « nós ». Aquela pressupõe, precisamente, o êxodo da prisão do próprio « eu », pois só na abertura deste sujeito universal é que se abre também o olhar para a fonte da alegria, para o amor em pessoa, para Deus” (Spe Salvi, n. 14).

 

  • É incerta a perseverança na esperança; enquanto estamos no status viatoris, podemos voltar-nos ao nada e destruir a esperança sobrenatural


“Nas provações verdadeiramente graves, quando tenho de assumir a decisão definitiva de antepor a verdade ao bem-estar, à carreira e à propriedade, a certeza da verdadeira grande esperança, de que falamos, faz-se necessária. Para isto, precisamos também de testemunhas, de mártires, que se entregaram totalmente, para que no-lo manifestem, dia após dia” (Spe Salvi, n. 39).


  • O homem natural nunca poderia, por maior que fosse a grandeza de ânimo, esperar a vida eterna, consistente na visão beatífica, sem cair com isso na soberba
  • Nossas esperanças naturais aspiram a realizações que são reflexos e sombras confusas da vida eterna, inconscientes prelúdios
  • A virtude da esperança traz também a ordenação da esperança natural do homem.
  • Esperamos de Deus o socorro, não só de benefícios espirituais, senão também temporais; podemos incluir os bens naturais da vida na esperança sobrenatural
  • A esperança natural surge da energia juvenil do homem e se esgota com ela; a esperança sobrenatural fundamenta uma juventude muito mais essencial, a juventude de nossos grandes santos

 

3. A antecipação da não-plenitude (a desesperança)

 

  • Duas formas de falta de esperança: a desesperança e a presunção
  • A presunção é a antecipação antinatural da plenitude; a desesperança é a antecipação antinatural da não-plenitude
  • Por cima de uma Esperança que tem raízes profundas, podem haver desesperanças de diversas classes, que não afetam essa Esperança
  • Mas um homem desesperado no fundo pode mostrar-se completamente “otimista”
  • A desesperança do cristão é uma decisão contra Cristo, uma negação da salvação
  • Na desesperança se põe de manifesto a essência do pecado, que é contradizer a realidade; é a negação do caminho à plenitude
  • A desesperança é a estrutura do ser do condenado
  • A desesperança supõe um anseio: “aquilo que não ansiamos não pode ser objeto nem de nossa esperança nem de nossa desesperança”
  • O princípio da desesperança é a acídia: tristeza a respeito de Deus
  • A acídia é um pecado contra o terceiro mandamento
  • É uma humildade pervertida, não quer aceitar os bens sobrenaturais, por causa das exigências
  • Uma de suas filhas é a pusilanimidade, quanto às possibilidades espirituais, e depois, a malícia, que nasce do ódio contra o divino que há no homem, na eleição do mal enquanto tal
  • Raiz da desesperança é a apática tristeza e a perfeição é o orgulho

 

4. A antecipação da plenitude (a presunção)

 

  • Puerilidade da presunção: antecipa a plenitude de um modo antinatural; o homem julga que alcançou o objetivo, que na realidade pertence ainda ao futuro e é “penoso”
  • A presunção é a atitude do espírito que contradiz a realidade do futuro da vida eterna e do “penoso” de sua conquista
  • A essência da presunção é, como diz S. Agostinho, uma perversa segurança
  • Primeira forma é a presunção “pelagiana”: bastam as próprias forças da natureza humana para alcançar a vida eterna e o perdão
  • Segunda forma de presunção se baseia na teoria protestante da certeza da salvação
  • A desesperança e a presunção fecham o caminho a uma autêntica oração, pois a oração não é outra coisa - em sua forma primária de súplica - que a linguagem da esperança.
  • O que desespera não suplica, porque antecipa a não-plenitude, o presunçoso suplica, mas de um modo impróprio, posto que antecipa a plenitude.
  • Orar em todo tempo: constante necessidade da esperança, que é bastante humildade para suplicar de verdade e tem magnanimidade para, cooperando, esperar a plenitude
  • A esperança reconcilia a Justiça e a Misericórdia Divina. O que só considera a justiça pode ter tão pouca esperança como o que vê unicamente sua misericórdia; ambos caem na falta de esperança, um na desesperança, outro na presunção.

 

“O Juízo de Deus é esperança quer porque é justiça, quer porque é graça. Se fosse somente graça que torna irrelevante tudo o que é terreno, Deus ficar-nos-ia devedor da resposta à pergunta acerca da justiça – pergunta que se nos apresenta decisiva diante da história e do mesmo Deus. E, se fosse pura justiça, o Juízo em definitivo poderia ser para todos nós só motivo de temor. A encarnação de Deus em Cristo uniu de tal modo um à outra, o juízo à graça, que a justiça ficou estabelecida com firmeza: todos nós cuidamos da nossa salvação « com temor e tremor » (Fil 2,12). Apesar de tudo, a graça permite-nos a todos nós esperar e caminhar cheios de confiança ao encontro do Juiz que conhecemos como nosso « advogado », parakletos (cf. 1 Jo 2,1)” (Spe Salvi, n. 47).



5. O temor como dom

 

  • Tese irresponsável: não é digno que o homem sinta temor
  • Atitude que tem duas fontes: o liberalismo do Iluminismo, que situa o temor no domínio do inautêntico, e o estoicismo não cristão, que se enfrenta ante os temores da vida com tenaz impassibilidade, sem medo, mas também sem esperança
  • Teologia clássica da Igreja: é evidente que o homem reaja com temor ante o objetivamente temível
  • O temor é pecado quando se opõe à ordem da razão
  • “O que não tem temor não pode ser justificado” (Eclo 1,28); “O sábio sente temor e se afasta do mal” (Pr 14,16).
  • Temor do Senhor não é “respeito” ante Deus, é o horror ao pecado, à possibilidade de ser separado de Deus

 

“E quem mais do que Maria poderia ser para nós estrela de esperança? Ela que, pelo seu « sim », abriu ao próprio Deus a porta do nosso mundo; Ela que Se tornou a Arca da Aliança viva, onde Deus Se fez carne, tornou-Se um de nós e estabeleceu a sua tenda no meio de nós (cf. Jo 1,14)” (Spe Salvi, n. 49).

 

  • O homem pode temer a possibilidade do pecado de duas formas: por causa da própria culta e por causa da pena.
  • Temor pela culpa mesma: temor filial, temor casto; temor pela pena: temor servil
  • Temor servil é a forma imperfeita do temor do Senhor, fundada no amor concupiscível a Deus.
  • Temor próprio do filho: forma mais autêntica, considera a culpa enquanto tal, está mais próximo do centro pessoal; é um dos sete dons do Espírito Santo, um “presente” além das possibilidades do homem natural.
  • O temor servil corresponde àquele grau de esperança que ainda não foi transformado de raiz pela caridade
  • O temor casto é o “negativo” do “amor de esperança” que se eleva à amizade
  • O temor do Senhor mantém presente para o homem que espera o fato de que a plenitude “ainda não” é real
  • O temor servil corresponde àquele grau de esperança que ainda não foi transformado de raiz pela caridade
  • O temor casto é o “negativo” do “amor de esperança” que se eleva à amizade
  • O temor do Senhor mantém presente para o homem que espera o fato de que a plenitude “ainda não” é real


Nenhum comentário: