8.3.21

O desenvolvimento da Doutrina Cristã segundo S. John Henry Newman

Excertos de: NEWMAN, John Henry. Ensaio sobre o desenvolvimento da Doutrina Cristã. Tradução de Fabio A. Vitta. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, pp. 207-248 (“os desenvolvimentos doutrinais vistos em relação às corrupções doutrinais”; negritos meus).

  

[...] Para descobrir o que é uma corrupção ou perversão da verdade, vejamos o que a palavra significa quando usada literalmente para as substâncias materiais. Deve ficar claro, antes de tudo, que uma corrupção é algo que ocorre apenas à matéria organizada; uma pedra pode ser esmagada até virar pó, mas não pode ser corrompida. Corrução, ao contrário, é o desmantelamento da vida, preliminar ao seu término. Essa divisão de um corpo em seus componentes é o estágio anterior à sua dissolução; ela começa quando a vida atingiu sua perfeição, e é a consequência, ou melhor, a continuidade desse processo em direção à perfeição, sendo ao mesmo tempo a reversão e o desfazer-se daquilo que aconteceu antes. Até que esse ponto de regressão seja alcançado, o corpo tem uma função própria, uma direção e objetivo em sua ação, e uma natureza com suas leis; isso começa agora a ser perdido, junto aos traços e atributos dos anos anteriores; e, com eles, o seu vigor e a capacidade de nutrição, de assimilação e de autorreparação.

 

4. Tomando esta analogia como um guia, atrevo-me a estabelecer sete notas de variável peso, independência e aplicabilidade, para diferenciar os desenvolvimentos saudáveis de uma ideia de seu estado de corrupção e declínio, como segue: Não há corrupção se ela mantém um único e mesmo tipo, os mesmos princípios, a mesma organização; se os seus inícios antecipam suas fases subsequentes, e se os seus fenômenos posteriores protegem e se subordinam aos anteriores; se ela tem um poder de assimilação e renovação, e uma ação vigorosa do começo ao fim. Agora vou desenvolver essas provas, quase na mesma ordem em que as enumerei.

  

a) Primeira nota de um desenvolvimento genuíno: preservação do tipo [da espécie]


1. Esta preservação é sugerida prontamente pela analogia com o crescimento físico, que ocorre de tal forma que as partes e proporções da forma desenvolvida, embora alteradas, correspondem àquelas que pertencem aos seus rudimentos. O animal adulto tem a mesma estrutura que possuía no nascimento; as aves jovens não se transformam em peixes, nem a criança degenera nos animais, selvagens ou domésticos, sobre os quais tem, por herança, o senhorio. [...]

 

2. De maneira semelhante, toda vocação ou ofício tem o seu próprio tipo, que aqueles que desempenham são obrigados a manter; desviar-se do tipo em qualquer ponto essencial é renunciar à vocação. [...] Os magistrados são chamados de “corruptos” quando seus julgamentos são guiados pelo amor ao lucro ou pela acepção de pessoas, pois a administração da justiça é sua função essencial. Assim, os corpos colegiados ou monásticos perdem o direito a suas dotações ou a seus edifícios quando, por relaxamento ou degeneração, negligenciam seus estatutos ou sua Regra. [...]

 

4. [...] essa unidade de tipo. Característica de um desenvolvimento fiel, não deve chegar ao ponto de negar toda variação, ou mesmo considerável alteração de proporção e relação, com o passar do tempo, nas partes ou aspectos de uma ideia. Grandes mudanças na aparência exterior e na harmonia interna ocorrem no próprio caso da criação animal. O pássaro emplumado difere muito de sua forma rudimentar no ovo. A borboleta é o desenvolvimento – embora não seja, de forma alguma, a imagem – da lagarta. [...] se os animais predadores estivessem no paraíso, alimentando-se de ervas, eles deveriam ter estruturas corporais muito diferentes da estrutura de músculos, garras, dentes e vísceras que agora lhes serve para uma existência carnívora. [...]

 

7. [...] as ideias podem ser permanentes, mesmo quando sua expressão é infinitamente variada; e não podemos determinar se um suposto desenvolvimento é verdadeiro ou não, sem algum conhecimento adicional que vá além da mera experiência dessa variação. [...] também pode acontecer que uma representação que constitui uma variação em relação ao seu original possa ser sentida como mais verdadeira e fiel do que outra que apresenta maior aparência de exatidão. Assim acontece com mais de um retrato que não nos parece bem feito: à primeira vista, claro , ele nos decepciona; mas, quando nos familiarizamos com ele, vemos o que não conseguíamos ver a princípio, e o preferimos a outros, não por sua perfeita semelhança, mas como um esboço, que, de tão preciso, parece uma caricatura.

 

8. Por outro lado, é frequente que verdadeiras perversões e corrupções não pareçam, externamente, tão diferentes das doutrinas das quais se originam, quanto as mudanças que são consistentes com estas e que são verdadeiros desenvolvimentos. [...]

Aliás, uma das causas da de corrupção na religião é a recusa de acompanhar o curso doutrina à medida que ela avança, e um apego obstinado às noções do passado. É o que vemos de forma clara na história da raça escolhida. Os samaritanos que se recusaram a acrescentar os Profetas à Lei, e os saduceus que negaram uma verdade ensinada veladamente no livro do Êxodo, eram, na aparência, apenas fiéis seguidores da doutrina primitiva. Nosso Senhor encontrou o seu povo rigoroso na observância da letra da Lei, e os condenou por não se deixarem conduzir ao seu espírito, isto é, aos seus desenvolvimentos. O Evangelho é o desenvolvimento da Lei [...]

Assim também ocorre com nossos amigos: os mais obsequiosos nem sempre são os mais verdadeiros, e uma aparente crueldade é frequentemente uma genuína afeição. [...]


9. Uma ideia, portanto, nem sempre apresenta a mesma imagem externa. Essa circunstância, porém, não tem força para enfraquecer o argumento em favor de sua identidade substancial, tal como pode ser deduzida de sua semelhança externa, quando esta permanece. Ao contrário, exatamente por essa razão, a unidade de tipo torna-se a garantia mais segura da sanidade e solidez dos desenvolvimentos, quando é persistentemente preservada, apesar do número ou da importância destes.

 

b) Segunda nota: continuidade dos princípios

 

1. [...] Pode-se dizer que a vida das doutrinas consiste na lei ou princípio que elas incorporam.

 

Princípios são abstratos e gerais, doutrinas se relacionam a fatos; doutrinas se desenvolvem, e princípios, à primeira vista, não; as doutrinas crescem e são ampliadas, os princípios são permanentes; as doutrinas são intelectuais, e os princípios são mais imediatamente éticos e práticos. Os sistemas vivem nos princípios e representam doutrinas. [...]

[...]

As doutrinas dão suporte aos princípios, como, na matemática, as definições dão suporte aos axiomas e postulados. [...]

 

3. Diz-se popularmente que os princípios se desenvolvem quando são exemplificados; assim, as várias seitas do protestantismo, desconectadas como são umas das outras, são chamadas desenvolvimentos do princípio do julgamento privado, do qual não são, na verdade, senão aplicações e resultados.

 

Um desenvolvimento, para ser fiel, deve manter tanto a doutrina quanto o princípio de que se originou. A doutrina sem o seu princípio correspondente permanece estéril, senão sem vida [...]

 

6. [...] Assim, a continuidade ou a alteração dos princípios sobre os quais uma ideia se desenvolveu é uma segunda marca de diferenciação entre um verdadeiro desenvolvimento e uma corrupção.

 

c) Terceira nota: poder de assimilação

 

1. No mundo físico, tudo o que tem vida é caracterizado pelo crescimento, e de nenhum modo “crescer” significa “deixar de viver” A vida cresce agregando à sua própria substância materiais externos, e essa absorção ou assimilação está completa quando os materiais agregados passam a pertencer ao organismo ou entram em sua unidade. Duas coisas não podem se tornar uma, a menos que haja um poder de assimilação em uma ou em outra [...]

[...] Um processo eclético, conservador, assimilativo, curativo, modelador, um poder unificador é essencial, e é um terceiro teste de um desenvolvimento fiel.

 

2. Assim, um poder de desenvolvimento é uma prova de vida, não apenas em sua tentativa, mas especialmente em seu sucesso; pois uma mera fórmula, ou não se expande, ou se rompe na expansão. Uma ideia viva se converte em muitas, mas permanece uma só. [...]

 

3. No Cristianismo, a opinião, enquanto matéria-prima, é chamada filosofia ou escolástica; quando é um resíduo rejeitado, é chamada heresia.

[...]

 

5. Quanto mais forte e mais viva é uma ideia, ou seja, quanto mais poderosamente se instala nas mentes humanas, mais capaz se torna de dispensar as salvaguardas e confiar em si mesma contra o perigo da corrupção. [...] As fórmulas, subscrições ou artigos de religião são indispensáveis quando o princípio de vida é fraco. [...] A Igreja de Roma pode se valer das oportunidades mais livremente do que outros corpos, confiando em sua tradição viva, e às vezes pensa-se que ela desconsidera princípios e escrúpulos, quando, na verdade, está apenas dispensando fórmulas. Assim, os santos são frequentemente caracterizados por atos que não servem de padrão par aos outros.

 

d) Quarta nota: sequência lógica

 

1. A lógica é a organização do pensamento e, como tal, é uma segurança para a fidelidade dos desenvolvimentos intelectuais; e a necessidade de usá-la é inegável, porque suas regras não deve ser transgredidas. [...]

 

2. [...] O racionalismo é o exercício da razão ao invés da fé, em questões de fé. Mas não é uma questão de fé adotar as premissas, nem falta de fé aceitar a conclusão.

Ao mesmo tempo, pode-se admitir que o processo espontâneo que ocorre dentro da própria mente é maior e melhor do que aquele que é lógico; pois este último, sendo científico, é propriedade comum, e pode ser tomado e usado por mentes que são pessoalmente estranhas, em qualquer sentido verdadeiro, às ideias em questão e ao seu desenvolvimento.

 

5. [...]  Há um certo avanço contínuo e um caminho determinado que pertencem à história de uma doutrina, política ou instituição e que se imprime no senso comum da humanidade, segundo o qual aquilo que vem no final é o resultado do que era no princípio. Este sentimento é expresso no provérbio, não se limitando ao latim, exitus acta probat [“os êxitos comprovam os atos”], o que é sancionado pela Sabedoria Divina quando, advertindo contra os falsos profetas, diz: “pelos seus frutos os conhecereis”.

Uma doutrina, portanto, que em seus anos de maturidade é professada por uma filosofia ou religião, provavelmente será um verdadeiro desenvolvimento, não uma corrução, na medida em que pareça ser o resultado lógico de seu ensinamento original.

 

e) Quinta nota: antecipação de seu futuro


1. Uma vez que, quando uma ideia está viva, isto é, influente e eficaz, ela certamente se desenvolverá de acordo com sua própria natureza, e que as tendências, que se verificam a longo prazo, podem, sob circunstâncias favoráveis, mostrar-se também desde cedo, e que a lógica é a mesma em todas as épocas, alguns exemplos de um desenvolvimento que está por vir, embora vagos e isolados, podem ocorrer desde o início, embora seja necessário um certo tempo para leva-los à perfeição. E como os desenvolvimentos são, em grande medida, apenas aspectos da ideia de que procedem, e como todos eles são consequências naturais desta, muitas vezes é uma questão meramente acidental a ordem que eles se realizam nas mentes individuais [...]

 

4. [...] Outra evidência, então, da fidelidade de um desenvolvimento final é a sua antecipação clara em um período inicial da história da ideia à qual ele pertence.

  

f) Sexta nota: atitude conservadora para com o passado

 

1. Assim como os desenvolvimentos que são precedidos por indicações definidas têm uma justa probabilidade em seu favor, assim também aqueles que contradizem e invertem o curso da doutrina que foi desenvolvida antes deles, e da qual se originaram, são certamente corruptos; pois um desenvolvimento se torna uma corrupção no momento em que deixa de ilustrar e começa a prejudicar as aquisições obtidas em sua história anterior.

[...] Um verdadeiro desenvolvimento, então, pode ser descrito como aquele que mantém o curso dos desenvolvimentos antecedentes, sendo realmente aqueles antecedentes e alguma coisa além deles; é um acréscimo que ilustra, não obscurece; que corrobora, não corrige o corpo de pensamento do qual procede; e esta é a sua característica que contrasta com a corrupção.

[...]

 

g) Sétima nota: vigor permanente

 

1. [...] a corrupção tende àquele estado seguinte, que é a dissolução. Portanto, a corrupção não pode ser algo duradouro; e a duração é outro sinal indicador de um desenvolvimento fiel.

Si gravis, brevis; si longus, levis; é o lema estoico de consolo perante a dor; e de várias desordens pode até ser dito: quanto pior, mais curto.

Os homens moderados não gostam de mudanças nas questões civis, e temem reformas e inovações, pois acham que, se fossem um pouco longe demais, seriam lançados em alguma grande calamidade antes que algum remédio pudesse ser aplicado. A possibilidade de uma corrupção lenta não os preocupa. Revoluções são geralmente violentas e rápidas; na verdade, elas são o caminho de uma corrupção.

 

2. A trajetória de uma heresia é sempre curta; ela é um estado intermediário entre a vida e a morte, ou algo que é como a morte; ou, se não resultar na morte, ela evolui para algum novo – e talvez oposto – caminho de erro, que não pretende estar conectado a ela. E dessa maneira, realmente, mas somente dessa maneira, um princípio herético pode continuar vivo por muito tempo: primeiro seguindo em uma direção, depois em outra.

A abundância da iniquidade é o sinal do fim que se aproxima: os fiéis, em consequência, gritam: “Até quando?” como se a demora se opusesse à razão, tanto quanto à paciência. Três anos e meio vão completar o reinado do Anticristo.

Tampouco constitui objeção real o fato de que o mundo seja sempre corrupto, mas que, apesar disso, o mal não preencha sua medida e transborde; pois isso provém da ação neutralizadora da verdade e da virtude, que se contrapõem ao mal; se a Igreja fosse removida, o mundo logo chegaria ao seu fim.

Assim também, embora o povo escolhido, com o passar do tempo, se tornasse cada vez pior, até que não houve mais recuperação, ainda assim sua trajetória de corrupção era continuamente interrompida por reformas, retornando a um estágio menos avançado de declínio.

 

3. É verdade que a decadência, que é uma forma de corrupção, é lenta; mas a decadência é um estado no qual não há nenhuma ação violenta ou vigorosa, seja de caráter conservador, seja de caráter destrutivo, sendo a influência hostil poderosa o suficiente para debilitar as funções da vida, mas não para acelerar seu próprio processo. [...]

 

4. [...] O ponto a ser averiguado é a unidade e a identidade da ideia consigo mesma através de todos os estágios de seu desenvolvimento, do primeiro ao último; e estes são sete sinais que indicam se ela pode ser justamente considerada a mesma durante todo o processo. Para garantir sua própria unidade substancial, ela deve ser vista como una no tipo, una em seu sistema de princípios, una em seu poder de união em relação aos fatores externos [poder de assimilação], una em sua sequência lógica, una no testemunho de suas fases iniciais em favor das posteriores [antecipação de seu futuro], una na proteção que suas fases posteriores proporcionam às anteriores [atitude conservadora para com o passado], e una em sua união do vigor com a continuidade, isto é, em sua tenacidade [vigor permanente].




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