14.4.20

A nossa transformação em Cristo - 3


Excertos do terceiro ("Conhecimento próprio") e quarto ("A verdadeira consciência") capítulos do livro A nossa transformação em Cristo, de Dietrich von Hildebrand. 


Referência: HILDEBRAND. A nossa transformação em Cristo. Tradução de Osvaldo Aguiar E. M. da Costa Maia. São Paulo: Cultor de livros, 2017.

Os destaques em negrito são meus.

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Conhecimento próprio

Vimos já que a disposição incondicional de mudar e o arrependimento são os primeiros fundamentos, indispensáveis, para atingir o fim a que misericórdia de Deus nos destinou – a nova formação em Jesus Cristo. O segundo passo decisivo neste caminho é o pleno conhecimento de nós mesmos (p. 45).

Enquanto não conhecermos as nossas faltas [...] nem com a melhor boa vontade será possível um domínio real dos nossos efeitos. [...] (p. 44)

[...] a verdadeira transformação, a verdadeira destruição de um defeito, o “arrasamento dos montes e colinas” para encher “os vales e as covas” pressupõe sempre que nós próprios reconheçamos, até certo ponto pelo menos, onde se encontram os defeitos. [...] O domínio de um defeito exige igualmente o seu reconhecimento (p. 46).

O primeiro e melhor caminho que se nos abre para chegarmos ao verdadeiro conhecimento de nós mesmos é aceitarmos a luta com defeitos que não conhecemos, através de um ato de obediência. Mas nesta luta só chegaremos a obter pleno êxito no momento em que nós mesmos possamos reconhecer interiormente os nossos defeitos, pois enquanto não atingirmos este segundo grau, não poderemos afirmar que alcançamos o estágio final da luta pelo domínio próprio (p. 46).

[...] Existe um verdadeiro conhecimento de si mesmo, pressuposto de toda santificação, e um conhecimento falso e infecundo de si mesmo, que nos submerge na confusão de uma atitude egocêntrica (p. 46).

O falso e infecundo conhecimento de nós mesmos aparece quando nos analisamos como autoespectadores, com um interesse puramente psicológico. No falso conhecimento próprio, a observação da natureza não é como a espada da justiça, separando o que é bom do que é mau; apresenta-se de modo puramente neutral. Analisamo-nos como analisaríamos qualquer fenômeno natural. A solidariedade com a nossa natureza fica suspensa, de maneira a observarmo-nos como observaríamos qualquer outro ser que despertasse a nossa curiosidade [...] Sempre acabamos por nos considerarmos heróis de romance, sem nos sentirmos responsáveis pelas faltas cometidas (p. 46).

[...] em tal posição não conseguimos compreender as faltas no seu conteúdo e sentido morais. [...] se trata, antes de mais nada, de uma pessoa, de um ser capaz de tomar partido, de um ser que não pode ser encarado senão em face de Deus e do mundo dos valores. Nem repara sequer que somos responsáveis por nós próprios (p. 47).

[...] Os homens que descobrem os seus defeitos por um processo puramente psicológico, totalmente neutral, não se tornam capazes de vencer os seus defeitos por meio dessa simples comprovação. [...] o conhecimento puramente neutral de nós mesmos leva à resignação em face deles. Sentimo-nos mais longe de dominar esses defeitos do que quando não sabíamos da sua existência. Confessamo-los abertamente, sem a menor vergonha, não por humildade ou por consciência de termos cometido uma falta, mas apenas porque os convertemos numa questão psicológica interessante, indiferente (p. 47).

O único conhecimento próprio verdadeiro e fecundo é o que nasce do confronto de nós mesmos com Deus. [...] devemos fixar os nossos olhos em Deus [...] e perguntar: “Quem és tu? Quem sou eu?”. Devemos dizer com Santo Agostinho: “Se eu pudesse conhecer-te, conhecer-me-ia a mim mesmo”. Só mediante o conhecimento da nossa situação metafísica, à luz do nosso destino final e do fim para que fomos chamados, poderemos alcançar o conhecimento adequado de nós mesmos (p. 48).

Só a luz que vem de Deus e a chamada que Deus nos dirige nos abrem os olhos às nossas insuficiências e defeitos: só elas podem mostrar-nos a distância entre o que somos e o que realmente devíamos ser [...] Este conhecimento próprio exige uma disposição de mudança (pp. 48-9).

O interesse pelo que somos é uma consequência da vontade de nos tornarmos homens novos em Jesus Cristo. [...] Desejamos transformar-nos por amor de Deus, e, para nos tornarmos diferentes, é necessário saber como somos. O confronto com Deus, tal como o vemos na doutrina da Igreja, tornar-nos verdadeiramente perspicazes na busca dos valores e mostra-nos implacavelmente os nossos defeitos (p. 49).

[...] Como se baseia na disposição de mudança, o reconhecimento de um defeito contém em germe a vontade de o dominar. Por muito doloroso que seja o reconhecimento do que em nós há de obscuro e de falível, nunca chega a ser deprimente como o conhecimento puramente natural. Em primeiro lugar, concede-nos a felicidade de aprofundarmos cada vez mais na verdade; e quanto mais penetramos na verdade, tanto mais próximos estamos de Deus, manancial de toda a verdade, a verdade mesma. Quando se desvanecem as ilusões a nosso respeito, e despertamos do engano em que dormíamos, quando superamos a tendência que nos impedia de ver muitas coisas, atingimos já um enorme progresso, uma nova etapa no caminho da liberdade. A libertação do nosso orgulho, que sempre trata de nos enganar, eleva-nos e torna-nos felizes (p. 49).

[...] Devemos pedir e agradecer a Deus a graça de nos abrir os olhos para os perigos verdadeiros, indicando-nos onde devemos enrijecer a luta (p. 50).

Deveríamos beijar encarecidamente as mãos dos que destruíssem as falsas ilusões que sobre nós mesmos nutrimos. Quantas vezes teremos nos convencido de que o entusiasmo por uma virtude é já possuí-la! [...] Quando o entusiasmo se esvai, a nossa natureza geme com dor [...] (p. 50)

[...] para o cristão que vive da fé, o conhecimento de si mesmo não conduz nunca ao desespero covarde e desalentador, nunca pode leva-lo a sucumbir sob o peso da culpa. Tem a mais absoluta certeza de que Deus quer a sua santificação [...] Sabe muito bem que, por si mesmo, nada pode, mas que em Cristo pode tudo (p. 51).

Pelas nossas forças não conseguiremos lançar a ponte sobre o abismo que nos separa de Deus; temos de ser guiados por Cristo [...] (p. 51)

[...] O pecador tem que sentir-se cheio da ânsia de se reconhecer tal como é diante de Deus, tem que despertar de todas as ilusões e de todos os enganos a seu respeito, e descobrir todas as suas faltas e fraquezas. [...] Mas nunca deve convencer-se de que é fácil tal conhecimento, nem que todas as suas faltas se tornarão visíveis e manifestas logo que nasça o desejo de se conhecer (p. 51).

Deve convencer-se, com saudável desconfiança, de que se acha ainda enredado em muitas ilusões e deve suplicar continuamente: “Limpa-me das minhas culpas escondidas”. Só a obediência aos diretores espirituais ou aos superiores pode nos conduzir ao verdadeiro conhecimento de nós mesmos e à liberdade que este conhecimento dá. [...] é imprescindível o olhar objetivo do diretor espiritual, do superior a quem Deus nos confiou, ou dos nossos bons amigos, para conseguirmos conhecer-nos (pp. 51-2).

[...] há alguma coisa que só a ele [ao cristão] compete: é a vontade incondicional de “morrer” para converter-se num homem novo em Cristo, e o desejo, que essa vontade traz consigo, de se conhecer tal como é realmente. Esta ânsia fá-lo implorar: “Senhor, faz que eu veja” (Lc 18,41) (p. 52).


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A verdadeira consciência

[...] Nas conversões acontece uma coisa semelhante ao despertar de uma sonolência. O aparecimento da realidade de Deus, o conhecimento da situação metafísica em que Deus colocou o homem [...] traz consigo um novo estádio de consciência. No converso, que o cardeal Newman compara a um homem que sai das fundas galerias de uma mina e vê pela primeira vez a luz do dia, a sua vida interior parece um cochilar, um vago crepúsculo da consciência (p. 53).

Também pelo propósito de seguirmos incondicionalmente Cristo, conseguimos na nossa vida um campo mais extenso para a consciência. Existem, porém, muitas espécies de consciência [... ] (p. 53)

Existe, por exemplo, uma consciência perniciosa, de valor negativo, oposta à verdadeira consciência, que pode destruir a nossa vida interior [...] (p. 53)

Esta caracteriza-se por impedir-nos de que alguma coisa se apodre totalmente do nosso espírito [...] (p. 54)

Mas na falsa consciência, temos de distinguir duas espécies fundamentais.

Em primeiro lugar, a perversão da mentalidade normal pela destruição do traço característico das nossas atitudes intencionais, graças a uma exagerada observação reflexiva de nós mesmos.

Em segundo lugar, a hipertrofia da consciência, que nos leva a permanecer no puro e simples conhecimento, quando é o momento de agir e de tomar uma atitude (p. 54).

[...] primeira espécie. Há homens que fazem incidir a sua atenção continuamente sobre si mesmos, e que por isso não se acham em condições de se deter a considerar um objeto. Quando ouvem uma bela música, prestam excessiva atenção às suas próprias reações, e, assim, vão perdendo a capacidade de corresponderem a uma obra de arte musical (p. 54).

[...] vida normal do espírito do homem [...] sua atenção deve fixar-se totalmente no objeto [...], sem atender à sua própria atuação, mas apenas ao objeto concreto da suas observações. Quando [...] se olha de soslaio para a atuação do próprio sujeito, destrói-se o contato com o objeto. Este deixa de nos falar direta e realmente [...] (p. 54)

[...] Nesta falsa consciência, somos a todo momento espectadores de nós mesmos. Contemplamo-nos de um ponto exterior e envenenamos com isso o verdadeiro desenvolvimento da nossa vida, pois na atenção que se dedica a um objeto, vai implícito um certo “esquecimento de nós mesmos”, e só assim se pode estabelecer um contato real com as coisas e com o seu logos (p. 55).

A maneira de consciencializar uma fixação de critério que estamos realizando é diferente, em princípio, do modo de sentir conscientemente um objeto, isto é, do modo de tomar consciência de uma coisa. Existem duas orientações fundamentais na vida da nossa alma: a orientação intencional para um objeto que se acha diante de nós e cuja peculiaridade se apresenta a nós, como acontece quando vemos uma casa, por exemplo; e outra, a realização consciente de um ato, a constância de uma fixação de critério, de que maneira nenhuma pode ser o objeto, pois é qualquer coisa que se desenvolve em nós, em que nós participamos, como acontece, por exemplo, quando nos alegramos com alguma coisa (p. 55).

[...] Os nossos critérios vivem do embate com o objeto, dirigem-se intencionalmente para esse objeto e têm de se produzir de maneira retilínea, isto é, sem se debruçarem sobre si mesmos (p. 55).

Por isso, os homens nunca seriam capazes de sentir verdadeiro amor, se, em vez de contemplarem a beleza do ser amado, se ocupassem na consideração dos seus próprios sentimentos [...] (p. 55)

Esta falsa consciência é mortal para a vida interior. Não nos permite vibrar em face dos valores, e alimenta o nosso orgulho, pois um homem assim dotado, em cada boa ação que pratica dirige os olhos para si mesmo e acompanha como espectador todos os seus atos. [...] Como cristãos, devemos mostrar-nos “inconscientes” segundo este tipo de consciência. [...] “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita” (p. 56).

A segunda espécie de falsa consciência provém de uma hipertrofia, de um predomínio exagerado da função de conhecer. Encontramo-la naqueles homens que, quando as circunstâncias exigem deles um juízo determinado ou um ato, não são capazes de se desprenderam da análise. [...] Por muito justificável que pareça a análise do objeto [a Nova Sinfonia de Beethoven é exemplificada pelo autor], quando este é constituído por relações de ordem estética, a verdade é que não permite viver a beleza (p. 56).

Outro homem, no momento de amar, resolve converter o ser amado num objeto de conhecimento psicológico, observa-o, e verifica com interesse como se comportou naqueles instantes. [...] Igualmente absurda seria a atitude de um homem, que ao ver outro em perigo, examinasse a expressão angustiada do seu rosto, em vez de o salvar (pp. 56-7).

Na vida do homem, o conhecimento possui um duplo objetivo. Aparece, em primeiro lugar, como valor a se; em segundo lugar, como fundamento do nosso querer e dos nossos critérios. Constitui um dos traços essenciais do homem como ser espiritual, isto é, único ser terreno capaz não só de estabelecer com o mundo que o rodeia um contato causal, como também de participar intencionalmente no seu ser. [...] (p. 57)

Nesta singular consciência [...] revela-se de maneira especial a soberana atitude do homem como imagem de Deus e rei da criação. Não compreenderia o sentido do homem quem tentasse negar que o conhecimento pode apontar-se como fim do homem, que o homem foi chamado a penetrar o Cosmos com o seu pensamento [...] (p. 57)

Em segundo lugar, o conhecimento serve de fundamento a todo o nosso querer e atuar, nas nossas definições de critério. Só mediante o conhecimento podemos apoderar-nos do valor das coisas, dar respostas segundo o nosso juízo, atuar no mundo exterior pelas nossas ações [...] Não fomos chamados apenas a reconhecer Deus e a contemplá-lo cara a cara, mas também a submergir-nos n’Ele, suplicantes a deixarmo-nos penetrar pelo seu olhar amoroso. A verdadeira união com o ser consiste no frui [...] e na entrega plenamente responsável, baseada no conhecimento (p. 58).

O homem para quem o conhecimento é a única maneira de contatar com o ser, para quem as coisas perdem todo o interesse a partir do momento em que foram explicadas, é um homem deformado. Não sente desejo de participar em tudo aquilo que é. O conhecimento não é para ele um meio de participar no ser, mas uma categoria a se, dotada de leis próprias, que já não tem como finalidade possuir a verdade. [...] o meio de conhecer converteu-se para ele num fim (p. 58).

Quando se trata, porém, de assuntos de profunda transcendência, que encerram um elevado valor, estes exigem que ultrapassemos o contato puramente cognoscitivo, para atingirmos, mediante o conhecimento, as soluções daqueles problemas que envolvem uma fixação de critério. Determinadas situações requerem que nos inclinemos para a ação. Quem sofre de uma hipertrofia do conhecimento desconhece o tema objetivo de cada situação, e por conseguinte, as suas exigências. [...] Nunca chega a atingir o essencial, que seria o fundamento de uma nova atuação para a fixação de critério. Tal homem sempre permanece como espectador, nunca chega a aproximar-se verdadeiramente das coisas, não se deixa arrastar para a sua órbita (pp. 58-9).

Este intelectualismo antiobjetivo e desagregador é a segunda espécie de falsa consciência. [...] O homem interessa-se então por todos os temas. [...] foge do contato objeto, para contemplar tudo “pelo lado de fora” [...] (p. 59)

A verdadeira consciência bem pouco tem que ver com tudo isto, pois a relação intencional e significativa com o ente atinge a primazia sobre os valores puramente associativos ou condicionados por influxos corporais. O homem inconsciente é presa de todas as influências causais. Quando dormimos mal, por exemplo, o mundo aparece-nos trise e sem brilho. [...] Não somos capazes de nos desligarmos de um humor puramente condicionado pela nossa própria pessoa [...] Se uma situação nos faz recordar antigos acontecimentos desagradáveis [...] por causa de uma simples associação, deixamo-nos assaltar por uma aversão ou por um temor injustificados, que podem conduzir-nos a juízos errados (p. 59).

O homem consciente só ao conteúdo objetivo atribui valor normativo para a fixação de critério. [...] É capaz de distinguir perfeitamente as impressões válidas das que não têm valor nenhum. A referência intencional e significativa ao objeto conseguiu vencer as influências psicológicas e os preconceitos puramente associativos (p. 59).

Podemos afirmar que a nossa inteligência atingiu a idade adulta quando nela alcançaram predomínio exclusivo o verdadeiro conteúdo das coisas e as relações intencionais com as mesmas. [...] Para encarar todas as coisas in conspectu Dei, “diante de Deus”, e para encontrar seu sentido partindo do espírito de Jesus Cristo, é necessário que o elemento intencional e significativo predomine sobre aquilo que é puramente associativo e apenas fisicamente condicionado; é pelo menos necessária uma distinção clara entre o que tem e o que não tem valor (p. 60).

Existe outro fato intimamente relacionado com esta característica da verdadeira consciência: o despertar para uma plena maioridade moral, para a capacidade de sancionar. Os homens inconscientes vão para onde a sua natureza os arrasta. Identificam-se com as respostas que a sua natureza lhes oferece. Não sabem fazer uso das enormes possibilidades da pessoa espiritual. A sua correspondência aos valores, mesmo quando é acerada, possui sempre o caráter de puro acaso. [...]  Os valores não exigem apenas um “sim” derivado das circunstâncias naturais em que o acaso nos coloca; exigem um “sim” plenamente consciente, expressão da personalidade livre. [...] (pp. 60-1)

O homem consciente é tão independente da sua natureza, que não aceita de olhos fechados o que ela lhe proporciona [nota: o autor está sempre se referindo à “natureza” em seu estado concreto, caído, e não em sentido abstrato e ideal; seria nosso “homem velho”]. Se nele germina, por exemplo, a inveja ou o pensamento de lesar outra pessoa, domina estas tendências daninhas recorrendo à sua consciência isenta. Não identifica as tendências naturais com o centro livre e consciente da pessoa; declara abertamente não se solidarizar com elas. [...] o homem consciente não dá uma resposta casual, ditada pela natureza; responde também com o centro livre da sua pessoa: é esse centro que sanciona a resposta (p. 61).

Evidentemente, só pelo uso desta capacidade de sanção é que as nossas reações aos valores podem conseguir um caráter livre, proveniente do espírito. E só a não utilização deste centro consciente da pessoa nos impedirá de atingir a maioridade moral e de respondermos a Deus com o “sim” que Ele nos pede. Quando atingirmos estes estágios, a nossa vida ganhará aquela unidade interna, fundada em Deus, que nos coloca acima dos fracassos da nossa natureza [...] (p. 61)

Com o crescimento da consciência, aparece relacionada a continuidade [...] O homem inconsciente vive do momento que passa, torna-se prisioneiro da impressão momentânea, que naturalmente aparece objetivamente condicionada por muitas vivências anteriores. As verdades a que conseguiu chegar e os valores que se lhe deparam não permanecem como uma propriedade que nunca mais irá se perder [...] (p. 61)

A vida do inconsciente muda constantemente segundo o que o rodeia a cada instante, ou torna-o tão conservador que o faz viver apegado a determinadas impressões dos primeiros tempos [...] A verdadeira continuidade, porém, nada tem a ver com um temperamento conservador, como o dos camponeses, e menos ainda com a rendição absoluta à força do costume (p. 62).

Quem possui a verdadeira continuidade conserva todas as verdades e todos os valores autênticos que pouco a pouco foi descobrindo. Confronta organicamente cada nova verdade e cada novo valor com as verdades e com os valores já conhecidos [...] anseia por contemplar todas as coisas na harmonia do conjunto [...], à luz de Deus. [...] (p. 62)

Só quem possui a verdadeira continuidade [...] coloca todos os fatos da vida no quadro da situação metafísica do homem e contempla-os com olhos de eternidade. Retém a verdade fundamental de cada situação para assim contemplar tudo à luz de Deus (p. 62).

Sem continuidade, não é possível transformar-nos em Jesus Cristo, pois para isso é indispensável que a luz de Cristo ilumine toda a nossa vida, e que em face de qualquer ato perguntemos a nós próprios o que faria Cristo em semelhante situação. Devemos pautar todas as coisas por Cristo e assim as conseguiremos coordenar entre si. Só a continuidade torna possível o autêntico arrependimento, pois só ela permite compreender que uma conduta nada perde da sua importância pelo fato de ser passada, que a maldade de uma falta não diminui pelo fato de se situar num passado longínquo (pp. 62-3).

A consciência que encontramos na verdadeira continuidade está intimamente relacionada com a verdade. [...] (p. 63).
[...] Estar despertos quer dizer viver in conspectu Dei, considerar todas as coisas em função do nosso destino eterno [...] (p. 63)

[...] todos aqueles para os quais não brilhou ainda o lumen Christi são ainda inconscientes, não despertaram ainda para a vida. [...] (pp. 63-4)

[...] A pessoa só se encontra totalmente presente na resposta clara transformada pela sanção, pois só esta resposta consegue uma realização total e valiosa. [...] (p. 64)

[...] O homem verdadeiramente consciente [...] já não é presa de ilusões a respeito de si mesmo. O seu ser foi iluminado pela luz de Deus, que ele deixou penetrar até aos recantos mais íntimos (pp. 64-5).

A vida passa a desenvolver-se em face de Jesus Cristo e não se pode tolerar que torrentes vitais ocultas, mal conhecidas, que não foram aferidas por Cristo, continuem a ditar-lhe uma conduta. O olho espiritual da sua pessoa, iluminado por Jesus Cristo, penetra nas profundidades do seu ser, dissipa todas as ilusões. Pode-se dizer que a sua vida é dotada de unidade, o que não acontece no homem inconsciente, em que podem subsistir, sem se fundirem, diversas e opostas correntes vitais, sem que ele perceba a oposição que entre elas reina (p. 65).

[...] O homem consciente permanece sempre o mesmo, atingiu a unidade de vida, porque reduziu tudo a um denominador comum [Cristo]. [...] Tornou-se simples no mais alto significado da palavra (p. 65).

Exemplo típico da verdadeira consciência é o das Confissões de Santo Agostinho, que tudo confrontava com Deus e tudo expunha com clareza frente à face de Deus, e assim alcançou plena consciência de si mesmo (p. 65).

O cristão deve esforçar-se para que em toda a sua vida penetre a luz da verdade, o lumen Christi [...] (p. 65)

[...] Na consciência vai-se concretizando o sentido da tarefa que temos de levar a cabo sobre a face da terra, e este depende [...] do “sim”, mediante o qual nos entregamos a Deus para que nos transforme, aquele “sim” que Deus quis ouvir dos lábios da Santíssima Virgem [...] “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Foi esta a frase essencial que Deus confiou à humanidade para que a pronunciasse (p. 66).


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