11.6.20

Julián Marías sobre a fenomenologia de Husserl


Trecho traduzido por mim de: MARÍAS, Julián. Historia de la filosofía. Madrid: Alianza, 1999, pp. 393-400.

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Husserl procede essencialmente de Brentano; portanto, sua tradição filosófica é a deste: católica, escolástica e, em suma, grega. A isto se acrescenta a influência de Bolzano, a de Leibniz muito expressamente e a dos ingleses, sobretudo Hume; e, desde já, o kantismo [...] Em torno de Husserl se constituiu a escola fenomenológica, notável por seu rigor, precisão e fecundidade...





1. Os objetos ideais

O PSICOLOGISMO – [...] Em 1900 não havia filosofia vigente. A tradição idealista estava perdida desde os anos do positivismo; havia uma anarquia filosófica; só algumas tendências contrárias à metafísica, que se considerava como algo excomungado; dominava a psicologia associacionista de tipo inglês. Esta psicologia havia influído nas doutrinas filosóficas, contaminando-as de psicologismo. Psicologismo é aquela atitude pela qual uma disciplina filosófica se reduz à psicologia. Por exemplo, os psicologistas entendiam a lógica como uma disciplina normativa dos atos psíquicos do pensar. O conteúdo da lógica seriam as regras para pensar bem.

Frente a este psicologismo se situa Husserl, e dedica a combatê-lo e superá-lo o primeiro tomo de suas Investigações. Se não se rompesse com o psicologismo, não se poderia fazer uma filosofia...

O método de Husserl, nisto como em tudo, é fazer descrições. Husserl reconhece que a lógica fala de ideias, conceitos, juízos, etc., mas não que fale de nada psicológico, senão sempre de algo ideal. Toma Husserl um caso e sobre ele vê seu sentido. Por exemplo, o princípio de contradição. Segundo os psicologistas, significaria que o homem não pode pensar que A é A e não-A. Husserl se opõe a isto, e diz que o sentido do princípio é que, se A é A, não pode ser não-A. O princípio de contradição não se refere à possibilidade do pensar, senão à verdade do pensado, ao comportamento dos objetos. O princípio de contradição, e assim os demais princípios lógicos, têm validez objetiva.

O psicologismo, por uma parte, pode ser ceticismo; por outra parte, tende ao relativismo. O ceticismo nega que se possa conhecer a verdade; o relativismo admite que tudo pode ser verdade, mas que esta é relativa: há um relativismo individual e outro específico; a verdade – e a validez dos princípios – estaria restrita à espécie humana, que não poderia pensar que A é A e não-A. Husserl refuta o relativismo, não só o individual, senão o específico; diz que se os anjos entendem por A, por ser e por verdade o mesmo que entendemos nós, têm que dizer que A não pode ser A e não-A ao memo tempo. Trata-se de uma validez a priori e absoluta, independente das condições psicológicas do pensamento. Portanto, Husserl postula, frente à lógica psicologista, uma lógica pura dos objetos ideais, ou seja, dos princípios lógicos, das leis lógicas puras e das significações.

A FENOMENOLOGIA – A fenomenologia é uma ciência de objetos ideais. [...] uma ciência a priori; ademais, é uma ciência universal, porque é ciência das essências das vivências. Vivência (Erlebnis) é todo ato psíquico; ao envolver, a fenomenologia, o estudo de todas as vivências, tem que envolver o [estudo] dos objetos das vivências, porque as vivências são intencionais, e é essencial nelas a referência a um objeto...

O SER IDEAL – Os objetos ideais se distinguem dos reais por um caráter essencial. O ser ideal é atemporal, e o ser real [nota: o ser extramental considerado empiricamente, na realidade] está sujeito ao tempo, é hic et nunc, aqui e agora. Este computador [mesa, no exemplo original] em que escrevo está aqui no quarto e, sobretudo, neste momento; o 3, o círculo ou o princípio de contradição têm uma validez à parte do tempo. Por esta razão, os objetos ideais são espécies; não têm o princípio de individuação que é o aqui e o agora. Ideia em grego é o que se ; species em latim é a mesma coisa. Os objetos ideais são, pois, espécies ou, por outro nome, essências.

PROBLEMAS DO SER IDEAL – Os objetos ideais são para Husserl eternos, ou antes atemporais. Mas se poderia pergunta onde estão. Husserl considera sem sentido esta pergunta. Poder-se-iam aceitar três hipóstases que ele rechaça:

1º A hipóstase psicológica, que consistiria em fazer residir os objetos ideais na mente; sua existência seria mental, existiriam em meu pensamento.
2º A hipóstase metafísica, por exemplo a do platonismo, em que as ideias são entes que estão em um lugar imaterial.
3º A hipóstase agostiniana ou teológica, em que as ideias estão na mente de Deus, que as está pensando eternamente.

Husserl, com o medo à metafísica que herdou de sua época, evita tudo que é metafísico, e diz que os objetos ideais têm meramente validez. Acerca deste ponto surgiu uma polêmica entre Husserl e Heidegger, a propósito da verdade. Husserl opina que a fórmula de Newton, por exemplo, seria verdade ainda que ninguém a pensasse. Heidegger diz que isto não tem sentido, que sua verdade não existiria se não houvesse uma existência que a pensasse; se não houvesse nenhuma mente – nem humana nem não humana – que a pensasse, haveria astros, haveria movimento, se se quer, mas não haveria verdade da fórmula de Newton nem nenhuma outra. A verdade necessita de alguém que a pense, que a descubra (alétheia), seja homem, anjo ou Deus.

2. As significações

PALAVRA, SIGNIFICAÇÃO E OBJETO – Vimos que a fenomenologia trata das significações...

Suponhamos uma palavra, por exemplo, mesa. Temos aqui uma porção de coisas. Primeiro, um fenômeno físico, acústico, o som da palavra; mas isso só não é uma palavra; um fenômeno físico não pode ser um signo...

O que faz que uma palavra seja palavra é a significação [...] Que é a significação? Está na palavra? Evidentemente, não. Palavras distintas podem ter uma significação única [...] Parece então que a significação é o objeto; mas não é assim, porque às vezes o objeto não existe, e não pode ser a significação; por exemplo, quando digo círculo quadrado.

As significações são objetos ideais. Quem aponta para o objeto é a significação. Entre a palavra e o objeto se nos interpõe a significação. As significações consistem em apontar para os objetos intencionais, não forçosamente reais, nem tampouco ideais, senão que podem ser inexistentes; por exemplo, se digo “poliedro regular de cinco faces”, esse objeto não existe, não é real nem tampouco ideal, senão impossível; e, entretanto, a expressão tem uma significação que aponta a um objeto intencional; agora, que o objeto exista ou não, é questão à parte e que não interessa aqui.

INTENÇÃO E CUMPRIMENTO [Erfüllung] – [...] há duas maneiras muito distintas de entender. Uma é o simples entender a expressão; outra é representar intuitivamente as significações. Ao entender uma significação sem mais, chama Husserl pensamento simbólico ou intenção significativa. À representação intuitiva das significações a chama pensamento intuitivo ou cumprimento/preenchimento significativo. No primeiro caso há um mentar,um mero aludir, e no segundo um intuir; há aqui uma intuição das essências. A fenomenologia, que é uma ciência descritiva, descreve essências, mas nunca objetos.

Para expressar algo, portanto, é mister uma significação: ao fenômeno da expressão se lhe superpõe uma significação; e quando esta significação se enche de conteúdo na intuição, temos a apreensão da essência.

3. O analítico e o sintético

TODO E PARTE – A terceira investigação de Husserl é um estudo sobre os todos e as partes, de uma importância extraordinária para a compreensão da fenomenologia. A palavra todo supõe algo composto de partes. Ao contrário, parte supõe um componente de um todo.

Husserl distingue entre partes independentes (que podem existir por si, como o pé de uma mesa), e não independentes (que não podem existir ilhadas, como a cor ou a extensão de uma mesa). Às partes independentes as chama Husserl pedaços; às não independentes, momentos: extensão, cor, forma, etc.

Nos momentos se podem distinguir dois tipos: 1º, o da cor, por exemplo, que está na mesa; 2º, a igualdade desta mesa e outra: a igualdade não está na mesa; a cor é uma nota da coisa [nota: um “acidente”, em termos escolásticos], a igualdade é uma relação [nota: em sentido similar à “categoria” aristotélica correspondente].

IMPLICAÇÃO E COMPLICAÇÃO – Encontramo-nos com o problema de que é o que une as partes. A corporeidade não se dá só, senão unida à cor, à extensão, etc. Husserl fala de dois tipos fundamentais de uniões:

1º Dizemos: todos os corpos são extensos. A corporeidade e a extensão vão unidas. O corpo implica a extensão; implicar algo quer dizer incluí-lo; a coisa implicada é uma nota daquilo que a implica. Entre as notas de corpo está o ser extenso [...] É o que Kant chama juízos analíticos, e hoje se diz implicação.

2º Ortega chama complicação àquela relação pela qual uma parte está unida a outra, mas sem estar contida nela. A cor, por exemplo, complica a extensão; uma cor inextensa não pode se dar. Husserl chama a isto fundação ou fundamentação (Fundierung). A fundamentação pode ser reversível ou irreversível. A nota A e a B podem se exigir mutuamente, ou a nota A exigir a B, mas não ao revés. A nota cor complica a nota extensão, mas não ao revés; em contrapartida, não há direita sem esquerda, e vice-versa; a complicação é, pois, unilateral ou bilateral.

JUÍZOS ANALÍTICOS E SINTÉTICOS – Husserl fala de juízos analíticos e sintéticos com muita mais precisão que Kant. São juízos analíticos aqueles cujo predicado está implicado no sujeito. Juízos sintéticos, aqueles em que [o predicado] não está implicado, senão que se lhe acresce. Que os juízos analíticos sejam a priori, está claro. Mas Kant fala de juízos sintéticos a priori. Husserl encontra que estes juízos são aqueles em que o sujeito complica o predicado, nos que há uma relação de fundação entre o sujeito e o predicado.

4. A consciência

A fenomenologia é ciência descritiva das essências da consciência pura. Que é a consciência? Husserl distingue três sentidos deste termo:

1º O conjunto de todas as vivências: a unidade da consciência.
2º O sentido que se expressa ao dizer ter consciência de uma coisa, o dar-se conta. [...] Se vejo uma coisa, o vê-la é um ato de minha consciência (no primeiro sentido); mas se me dou conta do ver, tenho consciência (no segundo sentido) de havê-la visto.
3º O sentido da consciência como vivência intencional. Este é o sentido principal.

VIVÊNCIA INTENCIONAL – É um ato psíquico que não se esgota em ser seu ato e aponta para um objeto. Exista ou não o objeto, como objeto intencional é algo distinto do ato psíquico.

Uma vivência intencional concreta tem dois grupos de elementos: a essência intencional e os conteúdos não-intencionais (sensações, sentimentos, etc.); estes conteúdos individualizam as vivências, por exemplo a percepção de uma habitação desde distintos pontos. O que não é distinto é a essência intencional, e esta se compõe de dois elementos: qualidade (o caráter do ato que faz que  a vivência seja deste objeto e desta maneira). Se eu digo “o vencedor de Iena” e o “vencido de Waterloo”, tenho duas representações de um único objeto intencional (Napoleão); mas a matéria é distinta, pois em uma apreendo a Napoleão como vencedor e na outra como vencido. Resumindo:




Husserl distingue entre a matéria sexual e a forma intencional, e entre ato intencional ou nóesis e o conteúdo objetivo a que o ato se refere ou nóema.

A REDUÇÃO FENOMENOLÓGICA – Chegamos ao momento fundamental da fenomenologia, o que se chama epoké (abstenção), fenomenológica. Consiste em tomar uma vivência e pô-la “entre parênteses”...

A raiz disso está no idealismo de Husserl. O idealismo havia reduzido a realidade indubitável a processos de consciência. Brentano havia dito que a percepção interna era evidente, adequada e infalível. Husserl segue a Brentano, mas com uma modificação. Temos uma percepção como tal; a percepção de uma mesa consiste em que a apreendo como existente, como real. E nisso, na crença de que vai acompanhada, se diferencia a percepção de outra vivência; por exemplo, uma mera representação. Mas para não sair do indubitável, em vez de dizer: “estou vendo esta mesa que existe”, devo dizer: “eu tenho uma vivência, e entre os caracteres dela está o de minha crença na existência da mesa”; mas a crença figura sempre como caráter da vivência [nota: Husserl ignora o que Zubiri chamou de “formalidade de realidade”, que é a própria “forma” aristotélica abstraída pelo “intelecto agente” enquanto ela está embebida de “ato de ser” (S. Tomás) e “se nos impõe” como algo “essenciado”/“enformado” a ser desvendado na conceituação – pela fenomenologia –, e na ciência empírica ou metafísica do que poderia ser profundamente]. A isto, a este por entre parênteses, Husserl chama redução fenomenológica ou epokhé.

Estas vivências são minhas. E que sou eu? A redução fenomenológica tem que estender-se também a meu eu, e o fenomenólogo “sucumbe” também à epokhé como sujeito psicofísico, como posição existencial; só fica o eu puro, que não é sujeito histórico, aqui e agora, senão o foco do feixe que são as vivências. Isto é a consciência pura ou reduzida fenomenologicamente. Agora temos, pois, as vivências da consciência pura...

AS ESSÊNCIAS – Um objeto qualquer não se pode descrever porque tem infinitas notas. Mas mediante a redução eidética, passa-se das vivências a suas essências. Que são as essências? Husserl dá uma definição rigorosa.

O conjunto de todas as notas unidas entre si por fundação constitui a essência da vivência.

Suponhamos um triângulo; tomo uma nota, o ser equilátero; esta nota está unida por complicação ou fundação ao ser equiângulo, e assim a outras muitas notas; todas elas constituem a essência do triângulo equilátero.

Husserl distingue entre multiplicidades definidas e não definidas; nas primeiras, fixados uns quantos elementos delas, se deduzem rigorosamente os demais. Assim ocorre com as essências matemáticas: se fixo as notas “polígono de três lados”, deduz-se daí rigorosamente toda a essência do triângulo. Nas outras multiplicidades não se chega tão simples e exaustivamente à essência.

5. A fenomenologia como método e como tese idealista

A DEFINIÇÃO COMPLETA – Se reunimos os caracteres que fomos descobrindo na fenomenologia, chegamos a que é uma ciência eidética descritiva das essências das vivências da consciência pura. Esta abstrusa definição tem já par anos um sentido transparente. E agora vemos por que a fenomenologia é ciência a priori e universal. É a priori em seu sentido mais pleno, porque só descreve essências (ou seja, objetos ideais e não empíricos) das vivências de uma consciência que tampouco é empírica, senão pura, e portanto, também a priori. E é universal porque se refere a todas as vivências, e como estas apontam a seus objetos, os objetos intencionais ficam envoltos na consideração fenomenológica; ou seja, tudo o que há para o fenomenólogo.

O MÉTODO – Este método [...] nos leva ao conhecimento das essências, que é tradicionalmente a meta da filosofia. É um conhecimento evidente e fundado na intuição; mas não é uma intuição sensível, senão eidética, ou seja, de essências (eidos). Sobre a intuição de um caso me elevo à intuição da essência, mediante a redução fenomenológica. E o exemplo que me serve de base pode ser um ato de percepção ou simplesmente de imaginação; a qualidade do ato não importa para a intuição eidética.

Este método fenomenológico é o método da filosofia atual [na filosofia europeia continental do início da década de 40]. Como método, a fenomenologia é uma descoberta genial, que abre um caminho livre à filosofia. É o ponto de partido de onde é forçoso arrancar. Mas não é isso só: há uma falsidade no próprio centro da fenomenologia, e é seu sentido metafísico. 

O IDEALISMO FENOMENOLÓGICO – Husserl quer evitar [...] a metafísica; este intento é vão, porque a filosofia é metafísica. E, com efeito, Husserl a faz ao afirmar como realidade radical a consciência pura. Husserl é idealista, e nele alcança o idealismo sua forma mais aguda e refinada. Mas esta posição é insustentável; o idealismo, nesta sua etapa última e mais perfeita, mostra sua interna contradição. Se pensamos a fundo a fenomenologia, sairemos dela. Isto é o que fez a metafísica dos últimos anos. A fenomenologia, ao realizar-se, leva-nos mais além do pensamento de Husserl, a outras formas nas que a primitiva ciência eidética e descritiva se converte em verdadeira filosofia em sua forma mais plena e rigorosa: em uma metafísica.

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