Trecho traduzido por mim de: MARÍAS,
Julián. Historia de la filosofía. Madrid: Alianza, 1999, pp. 393-400.
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Husserl procede essencialmente de
Brentano; portanto, sua tradição filosófica é a deste: católica, escolástica e,
em suma, grega. A isto se acrescenta a influência de Bolzano, a de Leibniz
muito expressamente e a dos ingleses, sobretudo Hume; e, desde já, o kantismo
[...] Em torno de Husserl se constituiu a escola fenomenológica, notável por
seu rigor, precisão e fecundidade...
1. Os objetos ideais
O PSICOLOGISMO – [...] Em 1900 não havia
filosofia vigente. A tradição idealista estava perdida desde os anos do
positivismo; havia uma anarquia filosófica; só algumas tendências contrárias à
metafísica, que se considerava como algo excomungado; dominava a psicologia
associacionista de tipo inglês. Esta psicologia havia influído nas doutrinas
filosóficas, contaminando-as de psicologismo. Psicologismo é aquela
atitude pela qual uma disciplina filosófica se reduz à psicologia. Por exemplo,
os psicologistas entendiam a lógica como uma disciplina normativa dos atos
psíquicos do pensar. O conteúdo da lógica seriam as regras para pensar bem.
Frente a este psicologismo se situa
Husserl, e dedica a combatê-lo e superá-lo o primeiro tomo de suas Investigações.
Se não se rompesse com o psicologismo, não se poderia fazer uma filosofia...
O método de Husserl, nisto como em tudo, é
fazer descrições. Husserl reconhece que a lógica fala de ideias, conceitos, juízos,
etc., mas não que fale de nada psicológico, senão sempre de algo ideal.
Toma Husserl um caso e sobre ele vê seu sentido. Por exemplo, o princípio de
contradição. Segundo os psicologistas, significaria que o homem não pode pensar
que A é A e não-A. Husserl se opõe a isto, e diz que o sentido do princípio
é que, se A é A, não pode ser não-A. O princípio de contradição
não se refere à possibilidade do pensar, senão à verdade do pensado, ao
comportamento dos objetos. O princípio de contradição, e assim os demais
princípios lógicos, têm validez objetiva.
O psicologismo, por uma parte, pode ser
ceticismo; por outra parte, tende ao relativismo. O ceticismo nega que se possa
conhecer a verdade; o relativismo admite que tudo pode ser verdade, mas que
esta é relativa: há um relativismo individual e outro específico; a
verdade – e a validez dos princípios – estaria restrita à espécie humana, que
não poderia pensar que A é A e não-A. Husserl refuta o relativismo, não só o
individual, senão o específico; diz que se os anjos entendem por A, por ser
e por verdade o mesmo que entendemos nós, têm que dizer que A não
pode ser A e não-A ao memo tempo. Trata-se de uma validez a priori e
absoluta, independente das condições psicológicas do pensamento. Portanto,
Husserl postula, frente à lógica psicologista, uma lógica pura dos objetos
ideais, ou seja, dos princípios lógicos, das leis lógicas puras e das
significações.
A FENOMENOLOGIA – A fenomenologia é uma
ciência de objetos ideais. [...] uma ciência a priori; ademais, é uma
ciência universal, porque é ciência das essências das vivências.
Vivência (Erlebnis) é todo ato psíquico; ao envolver, a fenomenologia, o
estudo de todas as vivências, tem que envolver o [estudo] dos objetos das
vivências, porque as vivências são intencionais, e é essencial nelas a
referência a um objeto...
O SER IDEAL – Os objetos ideais se
distinguem dos reais por um caráter essencial. O ser ideal é atemporal,
e o ser real [nota: o ser extramental considerado empiricamente, na
realidade] está sujeito ao tempo, é hic et nunc, aqui e agora. Este
computador [mesa, no exemplo original] em que escrevo está aqui no quarto e, sobretudo, neste momento; o 3, o círculo ou o princípio de contradição têm
uma validez à parte do tempo. Por esta razão, os objetos ideais são espécies;
não têm o princípio de individuação que é o aqui e o agora. Ideia em
grego é o que se vê; species em latim é a mesma coisa. Os objetos
ideais são, pois, espécies ou, por outro nome, essências.
PROBLEMAS DO SER IDEAL – Os objetos ideais
são para Husserl eternos, ou antes atemporais. Mas se poderia pergunta onde
estão. Husserl considera sem sentido esta pergunta. Poder-se-iam aceitar três hipóstases
que ele rechaça:
1º A hipóstase psicológica, que
consistiria em fazer residir os objetos ideais na mente; sua existência seria
mental, existiriam em meu pensamento.
2º A hipóstase metafísica, por
exemplo a do platonismo, em que as ideias são entes que estão em um lugar
imaterial.
3º A hipóstase agostiniana ou teológica,
em que as ideias estão na mente de Deus, que as está pensando eternamente.
Husserl, com o medo à metafísica que
herdou de sua época, evita tudo que é metafísico, e diz que os objetos ideais
têm meramente validez. Acerca deste ponto surgiu uma polêmica entre
Husserl e Heidegger, a propósito da verdade. Husserl opina que a fórmula de
Newton, por exemplo, seria verdade ainda que ninguém a pensasse. Heidegger diz
que isto não tem sentido, que sua verdade não existiria se não houvesse uma
existência que a pensasse; se não houvesse nenhuma mente – nem humana nem não
humana – que a pensasse, haveria astros, haveria movimento, se se quer, mas não
haveria verdade da fórmula de Newton nem nenhuma outra. A verdade
necessita de alguém que a pense, que a descubra (alétheia), seja homem,
anjo ou Deus.
2. As significações
PALAVRA, SIGNIFICAÇÃO E OBJETO – Vimos que
a fenomenologia trata das significações...
Suponhamos uma palavra, por exemplo, mesa.
Temos aqui uma porção de coisas. Primeiro, um fenômeno físico, acústico, o som
da palavra; mas isso só não é uma palavra; um fenômeno físico não pode ser
um signo...
O que faz que uma palavra seja palavra é a
significação [...] Que é a significação? Está na palavra? Evidentemente,
não. Palavras distintas podem ter uma significação única [...] Parece então que
a significação é o objeto; mas não é assim, porque às vezes o objeto não
existe, e não pode ser a significação; por exemplo, quando digo círculo
quadrado.
As significações são objetos ideais.
Quem aponta para o objeto é a significação. Entre a palavra e o objeto se nos
interpõe a significação. As significações consistem em apontar para os objetos
intencionais, não forçosamente reais, nem tampouco ideais, senão que podem ser inexistentes;
por exemplo, se digo “poliedro regular de cinco faces”, esse objeto não existe,
não é real nem tampouco ideal, senão impossível; e, entretanto, a
expressão tem uma significação que aponta a um objeto intencional; agora, que o
objeto exista ou não, é questão à parte e que não interessa aqui.
INTENÇÃO E CUMPRIMENTO [Erfüllung] – [...]
há duas maneiras muito distintas de entender. Uma é o simples entender a
expressão; outra é representar intuitivamente as significações. Ao entender
uma significação sem mais, chama Husserl pensamento simbólico ou intenção
significativa. À representação intuitiva das significações a chama pensamento
intuitivo ou cumprimento/preenchimento significativo. No primeiro caso há
um mentar,um mero aludir, e no segundo um intuir; há aqui uma
intuição das essências. A fenomenologia, que é uma ciência descritiva, descreve
essências, mas nunca objetos.
Para expressar algo, portanto, é mister
uma significação: ao fenômeno da expressão se lhe superpõe uma significação; e
quando esta significação se enche de conteúdo na intuição, temos a
apreensão da essência.
3. O analítico e o sintético
TODO E PARTE – A terceira investigação de
Husserl é um estudo sobre os todos e as partes, de uma importância
extraordinária para a compreensão da fenomenologia. A palavra todo supõe
algo composto de partes. Ao contrário, parte supõe um componente de um
todo.
Husserl distingue entre partes independentes
(que podem existir por si, como o pé de uma mesa), e não independentes
(que não podem existir ilhadas, como a cor ou a extensão de uma mesa). Às partes
independentes as chama Husserl pedaços; às não independentes, momentos:
extensão, cor, forma, etc.
Nos momentos se podem distinguir
dois tipos: 1º, o da cor, por exemplo, que está na mesa; 2º, a igualdade
desta mesa e outra: a igualdade não está na mesa; a cor é uma nota da
coisa [nota: um “acidente”, em termos escolásticos], a igualdade é uma relação
[nota: em sentido similar à “categoria” aristotélica correspondente].
IMPLICAÇÃO E COMPLICAÇÃO – Encontramo-nos
com o problema de que é o que une as partes. A corporeidade não se dá só, senão
unida à cor, à extensão, etc. Husserl fala de dois tipos fundamentais de
uniões:
1º Dizemos: todos os corpos são extensos.
A corporeidade e a extensão vão unidas. O corpo implica a extensão;
implicar algo quer dizer incluí-lo; a coisa implicada é uma nota daquilo que a
implica. Entre as notas de corpo está o ser extenso [...] É o que
Kant chama juízos analíticos, e hoje se diz implicação.
2º Ortega chama complicação àquela
relação pela qual uma parte está unida a outra, mas sem estar contida nela. A cor,
por exemplo, complica a extensão; uma cor inextensa não pode se dar. Husserl chama
a isto fundação ou fundamentação (Fundierung). A
fundamentação pode ser reversível ou irreversível. A nota A e a B podem se
exigir mutuamente, ou a nota A exigir a B, mas não ao revés. A nota cor
complica a nota extensão, mas não ao revés; em contrapartida, não há direita
sem esquerda, e vice-versa; a complicação é, pois, unilateral ou bilateral.
JUÍZOS ANALÍTICOS E SINTÉTICOS – Husserl fala
de juízos analíticos e sintéticos com muita mais precisão que Kant. São juízos
analíticos aqueles cujo predicado está implicado no sujeito. Juízos sintéticos,
aqueles em que [o predicado] não está implicado, senão que se lhe acresce. Que
os juízos analíticos sejam a priori, está claro. Mas Kant fala de juízos
sintéticos a priori. Husserl encontra que estes juízos são aqueles em
que o sujeito complica o predicado, nos que há uma relação de fundação
entre o sujeito e o predicado.
4. A consciência
A fenomenologia é ciência descritiva
das essências da consciência pura. Que é a consciência? Husserl distingue
três sentidos deste termo:
1º O conjunto de todas as vivências:
a unidade da consciência.
2º O sentido que se expressa ao dizer ter
consciência de uma coisa, o dar-se conta. [...] Se vejo uma coisa, o
vê-la é um ato de minha consciência (no primeiro sentido); mas se me dou conta
do ver, tenho consciência (no segundo sentido) de havê-la visto.
3º O sentido da consciência como vivência
intencional. Este é o sentido principal.
VIVÊNCIA INTENCIONAL – É um ato psíquico
que não se esgota em ser seu ato e aponta para um objeto. Exista ou não o objeto,
como objeto intencional é algo distinto do ato psíquico.
Uma vivência intencional concreta tem dois
grupos de elementos: a essência intencional e os conteúdos não-intencionais
(sensações, sentimentos, etc.); estes conteúdos individualizam as
vivências, por exemplo a percepção de uma habitação desde distintos pontos. O
que não é distinto é a essência intencional, e esta se compõe de dois
elementos: qualidade (o caráter do ato que faz que a vivência seja deste objeto e desta
maneira). Se eu digo “o vencedor de Iena” e o “vencido de Waterloo”, tenho
duas representações de um único objeto intencional (Napoleão); mas a matéria
é distinta, pois em uma apreendo a Napoleão como vencedor e na outra como
vencido. Resumindo:
Husserl distingue entre a matéria sexual e
a forma intencional, e entre ato intencional ou nóesis e o conteúdo
objetivo a que o ato se refere ou nóema.
A REDUÇÃO FENOMENOLÓGICA – Chegamos ao
momento fundamental da fenomenologia, o que se chama epoké (abstenção),
fenomenológica. Consiste em tomar uma vivência e pô-la “entre parênteses”...
A raiz disso está no idealismo de
Husserl. O idealismo havia reduzido a realidade indubitável a processos de
consciência. Brentano havia dito que a percepção interna era evidente, adequada
e infalível. Husserl segue a Brentano, mas com uma modificação. Temos uma
percepção como tal; a percepção de uma mesa consiste em que a apreendo como
existente, como real. E nisso, na crença de que vai acompanhada, se
diferencia a percepção de outra vivência; por exemplo, uma mera representação.
Mas para não sair do indubitável, em vez de dizer: “estou vendo esta mesa
que existe”, devo dizer: “eu tenho uma vivência, e entre os caracteres dela
está o de minha crença na existência da mesa”; mas a crença figura sempre
como caráter da vivência [nota: Husserl ignora o que Zubiri chamou de “formalidade
de realidade”, que é a própria “forma” aristotélica abstraída pelo “intelecto
agente” enquanto ela está embebida de “ato de ser” (S. Tomás) e “se nos impõe”
como algo “essenciado”/“enformado” a ser desvendado na conceituação – pela fenomenologia –,
e na ciência empírica ou metafísica do que poderia ser profundamente]. A isto, a este por entre
parênteses, Husserl chama redução fenomenológica ou epokhé.
Estas vivências são minhas. E que sou eu?
A redução fenomenológica tem que estender-se também a meu eu, e o fenomenólogo “sucumbe”
também à epokhé como sujeito psicofísico, como posição existencial; só
fica o eu puro, que não é sujeito histórico, aqui e agora, senão o foco
do feixe que são as vivências. Isto é a consciência pura ou reduzida
fenomenologicamente. Agora temos, pois, as vivências da consciência pura...
AS ESSÊNCIAS – Um objeto qualquer não se
pode descrever porque tem infinitas notas. Mas mediante a redução eidética,
passa-se das vivências a suas essências. Que são as essências? Husserl dá uma
definição rigorosa.
O conjunto de todas as notas unidas entre
si por fundação constitui a essência da vivência.
Suponhamos um triângulo; tomo uma nota, o
ser equilátero; esta nota está unida por complicação ou fundação ao ser
equiângulo, e assim a outras muitas notas; todas elas constituem a essência do
triângulo equilátero.
Husserl distingue entre multiplicidades definidas
e não definidas; nas primeiras, fixados uns quantos elementos delas, se
deduzem rigorosamente os demais. Assim ocorre com as essências matemáticas: se
fixo as notas “polígono de três lados”, deduz-se daí rigorosamente toda a
essência do triângulo. Nas outras multiplicidades não se chega tão simples e
exaustivamente à essência.
5. A fenomenologia como método e como tese
idealista
A DEFINIÇÃO COMPLETA – Se reunimos os
caracteres que fomos descobrindo na fenomenologia, chegamos a que é uma ciência
eidética descritiva das essências das vivências da consciência pura. Esta
abstrusa definição tem já par anos um sentido transparente. E agora vemos por
que a fenomenologia é ciência a priori e universal. É a priori
em seu sentido mais pleno, porque só descreve essências (ou seja, objetos
ideais e não empíricos) das vivências de uma consciência que tampouco é
empírica, senão pura, e portanto, também a priori. E é universal
porque se refere a todas as vivências, e como estas apontam a seus objetos,
os objetos intencionais ficam envoltos na consideração fenomenológica; ou
seja, tudo o que há para o fenomenólogo.
O MÉTODO – Este método [...] nos leva ao
conhecimento das essências, que é tradicionalmente a meta da filosofia. É um
conhecimento evidente e fundado na intuição; mas não é uma
intuição sensível, senão eidética, ou seja, de essências (eidos).
Sobre a intuição de um caso me elevo à intuição da essência, mediante a redução
fenomenológica. E o exemplo que me serve de base pode ser um ato de percepção
ou simplesmente de imaginação; a qualidade do ato não importa para a intuição
eidética.
Este método fenomenológico é o método
da filosofia atual [na filosofia europeia continental do início da década
de 40]. Como método, a fenomenologia é uma descoberta genial, que abre um caminho
livre à filosofia. É o ponto de partido de onde é forçoso arrancar. Mas não é
isso só: há uma falsidade no próprio centro da fenomenologia, e é seu
sentido metafísico.
O IDEALISMO FENOMENOLÓGICO – Husserl quer
evitar [...] a metafísica; este intento é vão, porque a filosofia é
metafísica. E, com efeito, Husserl a faz ao afirmar como realidade radical
a consciência pura. Husserl é idealista, e nele alcança o idealismo sua forma
mais aguda e refinada. Mas esta posição é insustentável; o idealismo, nesta sua
etapa última e mais perfeita, mostra sua interna contradição. Se pensamos a
fundo a fenomenologia, sairemos dela. Isto é o que fez a metafísica dos últimos
anos. A fenomenologia, ao realizar-se, leva-nos mais além do pensamento de
Husserl, a outras formas nas que a primitiva ciência eidética e descritiva se
converte em verdadeira filosofia em sua forma mais plena e rigorosa: em uma
metafísica.


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