Excertos da introdução e do primeiro capítulo ("Disposição de mudar") do livro A nossa transformação em Cristo, de Dietrich von Hildebrand.
Referência: HILDEBRAND. A nossa
transformação em Cristo. Tradução de Osvaldo Aguiar E. M. da Costa Maia.
São Paulo: Cultor de livros, 2017.
Os destaques em negrito são meus.
* * *
Introdução
Deus chamou-nos para nos tornar “homens
novos” em Jesus Cristo. Pelo batismo, Ele confere-nos uma nova vida
sobrenatural, faz-nos participantes da sua existência. Esta vida, porém,
não deve jazer escondida, como um segredo, no mais íntimo da nossa alma; deve
determinar a transformação de toda a nossa personalidade. A incomensurável
misericórdia de Deus não nos chamou somente a uma perfeição ética, que
não é essencialmente distinta da perfeição natural e que apenas recebe
transcendência sobrenatural pelo caminho oculto da graça, mas sim à
sobrenatural plenitude em Jesus Cristo, que, mesmo qualitativamente, é
coisa completamente diferente da simples virtude natural (p. 7).
Disposição de mudar
Também o homem não religioso conhece o
propósito de mudar. Também ele deseja desenvolver-se e aperfeiçoar-se [...] ao
contrário do que acontece com o que se abandona e vai para onde o seu
temperamento o conduz (pp. 11-2).
[...] Mesmo para um homem da Antiga
Aliança se tornava patente a profunda ferida causada na natureza humana
pelo pecado original; e assim chegava à convicção de que esta ferida
não podia sanar-se unicamente pelas forças humanas, e que o homem tinha
necessidade de ser salvo. [...] nem o arrependimento mais intenso seria
suficiente para apagar a mancha do pecado original que o separava de Deus,
[...] nem a melhor das boas vontades, nem todos os esforços de uma ética
natural lhe poderiam proporcionar as belezas do estado paradisíaco. Vivia nele
o profundo desejo do Salvador [...] (p. 12)
Jesus Cristo, o Messias, não é somente o
Salvador que destrói a culpa original e nos limpa de todos os pecados, mas é
principalmente o distribuidor de uma nova vida divina. [...] (p. 12)
É evidente a diferença entre a disposição
de mudar dos cristãos e dos idealistas naturais. O idealista está cheio de
confiança na natureza humana. [...] Não concebe a nossa incapacidade para
apagarmos uma culpa de caráter moral e para provocarmos uma renovação ética
originada do nosso próprio interior. [...] Nem sequer suspeita da insuficiência
total de qualquer ética natural e da qualidade incomparavelmente superior
da virtude assente sobre bases sobrenaturais (p. 13).
A sua disposição de mudar difere da do cristão
essencialmente nos seguintes pontos: em primeiro lugar [...] A disposição de
mudar limita-se sempre a um aperfeiçoamento imanente da natureza [...] Para
os cristãos, o processo da mudança é uma transformação, uma superação
inicial do humano pelo divino, um salto para o sobrenatural (pp. 13-4).
Há uma segunda circunstância [...] A
disposição de mudança nos idealistas refere-se a pontos determinados [...]
deseja desembaraçar-se desta ou daquela falta, adquirir esta ou aquela virtude;
o cristão, pelo contrário, deseja ser outro totalmente, tanto no
que é naturalmente mau como no que é naturalmente bom (p. 14).
Podemos acrescentar, em terceiro lugar,
que o homem que aspira a uma elevação ética natural, apesar de toda a boa
vontade de modificar-se, parte do terreno da natureza: afastar-se dele
seria cair no vácuo. O cristão, porém, renuncia a apoiar-se neste
terreno, pelo desejo de ser um homem novo. [...] (p. 14).
Há muitos católicos que possuem
uma disposição de mudar limitada. Esforçam-se por seguir os mandamentos e
por se despojarem daqueles defeitos que reconhecem culposos, mas não têm
vontade nem disposição de se converterem num ser completamente novo, de romper
com as medidas puramente humanas, de considerar tudo à luz sobrenatural; não se
decidem a uma total metanoia, a uma verdadeira transformação. De fato,
apoiam-se com maior firmeza naquilo que, segundo medidas humanas, lhes parece
justo. Em consciência, não se afastam da ideia de uma afirmação pessoal no
mundo. Não se julgam obrigados, por exemplo, a amar os inimigos; permitem-se
até um certo grau de desenvolvimento do orgulho, e julgam-se com direito a repelir,
segundo as relações naturais, qualquer humilhação. Parece-lhes perfeitamente
natural e compreensível a pretensão de serem bem considerados no mundo; não
querem passar por “loucos de Cristo”, concedem determinados limites ao temor da
opinião alheia, pretendem afirmar o valor próprio mesmo aos olhos do mundo.
Mantêm-se fiéis a muitos convencionalismos e não sentem nenhum escrúpulo em
deixar, dentro de certos limites, “que as coisas corram tal como são”. [...]
(pp. 14-5)
Só possui a plena e incondicionada vontade
de mudar aquele que, ao ouvir da boca do Senhor: “segue-me”, segue o Senhor
“deixando tudo”. Isto não quer dizer que deva abandonar tudo no sentido de
seguir os conselhos evangélicos (que para isso é preciso termos sido chamados
especialmente), mas sim que [...] o cristão se abandone a si mesmo e abandone
todas as medidas puramente naturais, para se transformar em Cristo. A incondicional
disposição de mudança [...] constitui o primeiro pressuposto da
transformação em Cristo (pp. 15-6).
[...] é necessário também o ardente
desejo de nos tornarmos um “homem novo” em Jesus Cristo, a vontade
apaixonada de que morra o nosso próprio ser, para podermos nos formar de novo
segundo Cristo. Isso pressupõe uma espécie de amortecimento do nosso próprio
ser, que deve se tornar como a cera branda, em que o rosto de Cristo possa
ficar impresso. [...] É necessário que possamos exclamar como São Paulo a
caminho de Damasco: “Senhor, que queres que eu faça?” (p. 16)
A disposição de mudar totalmente
[...] é o fundamento duradouro para podermos avançar, a atitude que
devemos manter permanentemente enquanto nos acharmos em statu viae,
até alcançarmos o status finalis, em que a nossa vontade já não tenha
necessidade de fazer qualquer esforço, e em que possamos repousar
inalteravelmente em Deus, na sua felicidade incomensurável (p. 16).
Se esta vontade apaixonada de nos
convertermos cessa, [...] já não nos encontramos dentro de uma concepção
verdadeiramente religiosa. [...] Nesta disposição de mudar exprime-se a
entrega incondicional a Deus, a consciência da nossa própria impotência, a
verdadeira vida de fé, a amorosa inclinação para Deus, as quais encontram a sua
mais elevada expressão nas palavras da Santíssima Virgem: “Eis aqui a
escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (p. 17).
[...] Todos os santos mostram que tal
estado de “disponibilidade”, essa contínua vontade de nos deixarmos
transformar por Cristo, não diminui com o progresso espiritual. Quanto
maior é a transformação em Cristo, tanto mais profunda e ilimitada é a
disposição de mudar [...] (p. 17).
[...] O processo de morrermos para
ressuscitarmos em Cristo não deve findar enquanto nos acharmos sobre a terra
[...] (p. 17)
[...] É costume agrupar os santos em duas
grandes categorias: a dos “grandes conversos”, como São Paulo e Santa Maria
Madalena, e a daqueles em quem se pode observar um lento, mas contínuo
crescimento da graça, como São João Evangelista e Santa Catarina de Sena. Não
é somente o homem que passou pelo processo de uma conversão, e que teve
naturalmente de arrepender-se da vida passada, que tem de mudar; também o
que nunca chegou a uma luta aberta com os mandamentos de Deus tem de mostrar
uma disposição absoluta de mudar de natureza, para se converter,
seguindo Jesus Cristo, num homem novo, para receber a marca da natureza de
Jesus Cristo (p. 18).
A disposição para se deixar transformar
por Jesus Cristo constitui a oposição mais absoluta, não só ao movimento
considerado em si mesmo [...] mas ainda à ideia de plenitude de vida, que se
funda numa contínua cadeia de modificações. [...] (p. 19)
[...] O nosso entendimento de cristãos
vai, portanto, fixar-se naquele momento que já não conhecerá a mudança, e
desejamos tornar-nos participantes da imutabilidade de Deus. Não nos seduz o
puro ritmo vitalista da mutação [...] não nos sentimos ébrios de Natureza em
sentido panteísta, não acreditamos que sejamos simplesmente uma parte dela;
sentimo-nos em face dela completamente distintos, pessoas espirituais dotadas
de alma imortal. [...] (p. 19)
[...] A nossa vida, porém, só
será imutável na medida em que consigamos nos transformar em Jesus Cristo.
Enquanto não o conseguirmos, enquanto pretendermos apegar-nos à nossa maneira
de ser, a sujeição à nossa natureza lançar-nos-á no mundo do mutável. [...] (p.
20)
[...] do simples ritmo vital, pode
deduzir-se o direito a não nos considerarmos discípulos nem aprendizes, mas sim
mestres (p. 21).
[...] se consideramos o ciclo vital
(juventude, maturidade e senilidade) do ponto de vista natural [...] a
disposição de mudar, a fluidez, não diminuem; aumentam à medida que o homem
se aproxima da verdadeira maturidade, da fase em que as coisas não
essenciais vão retrocedendo, em que a vida vai se tornando cada vez mais
simples, e em que as coisas verdadeiramente importantes vão ganhando cada
vez mais realce [...] (p. 21)
[...] Quanto mais um homem se aproxima
da eternidade, tanto mais os seus olhos se orientam para a “única coisa
necessária” [...] Esta é a sobrenatural e eterna juventude, aquele
juventude a que se refere o introito [na realidade, oração ao pé do altar] da
santa missa quando diz: “[o Deus] que alegra minha juventude” (p. 22).
[...] o grau de nossa disponibilidade
diante de Jesus Cristo, da disposição incondicional de “nos despirmos das
roupas da nossa maneira de ser, a fim de nos vestirmos com as de Cristo”,
constitui a medida exata do nosso desenvolvimento religioso (p. 22).
[...] Se realmente desejamos ser
diferentes do que realmente somos, não devemos ser nós, mas sim Cristo com a
sua autoridade quem deve determinar o que pela vontade de Deus pode e deve
continuar a existir no nosso ser. [...] mediante a intervenção do diretor
espiritual ou de um superior, pois não devemos nem podemos precisar por nós
mesmos qual deva ser a amplitude necessária da nossa modificação. [...] só
chegará a santo quem estiver disposto a deixar-se moldar em medida ilimitada
(p. 23).
Esta disposição de mudar não é um valor
oposto à continuidade [...] a atitude em que se toma em consideração a
extrema unidade de toda a verdade e de todo o valor que Deus contém. Devemos reter
firmemente todas as autênticas verdades e todos os valores de importância
essencial que iluminaram a nossa alma: estes nunca devem desaparecer da
nossa inteligência. O descontínuo coloca realmente o presente num primeiro
plano a que não tem direito. Pretere impressões de valor essencial em favor
daquilo que em determinado momento se apresenta como presente. Não retém as
verdades e os valores fundamentais reconhecidos de uma maneira supra-atual, e
não é, portanto, capaz de confrontar com eles cada situação atual, vivendo-a
até aos seus mais profundos fundamentos. [...] a norma pela qual pauta e avalia
todas as novas impressões formou-se numa situação momentânea atual [...] essas
impressões se apresentam como justapostas, independentes umas das outras, sem
que haja um laço que as unifique [...] de modo que o que há de valioso nas
impressões anteriores se desvanece perante o dinamismo do presente e do atual
(p. 23).
[...] A fidelidade ao que ganhamos
não é consequência de um conservantismo formal, mas sim da
inalterabilidade e da importância da verdade e dos valores autênticos, que não
sofrem decadência (p. 24).
A mesma razão que faz com que o homem
dotado do sentido da continuidade se mantenha inquebrantavelmente fiel a
tudo o que é verdadeiro, força-o também a conservar-se aberto a todas as
novas verdades. Fá-lo mostrar-se além disso disposto a abandonar a
todo o momento qualquer ideia tida como verdadeira logo que seja
refutada por uma visão mais profunda. A continuidade é um pressuposto
necessário até para a correção de um ponto de vista anterior [...] (p. 24)
[...] A nossa fidelidade não deve
limitar-se a um determinado valor; deve orientar-se para o próprio conceito
de valor, ou seja, em última análise, para Deus – “o bem supremo” [...]
(p. 25)
[...] a continuidade não se acha em
contradição com uma verdadeira vontade de mudar; [...] em cada estágio da
nossa transformação em Cristo, devemos mostrar-nos suscetíveis de sermos
moldados em formas mais perfeitas (p. 25).
Mas não existe acaso uma fidelidade também
para com a própria personalidade, uma vez que esta foi criada por Deus? [...] (p.
26)
É evidente que a disposição de mudar
radicalmente não envolve a renúncia às peculiaridades que Deus quis para o
nosso ser. A peculiaridade de cada ser humano, porém, pode ser entendida em
dois sentidos. Umas vezes compreende também os defeitos, as originalidades, as
insuficiências, as imperfeições e as casualidades. Outras vezes, porém,
compreende tão somente a ideia emanada de Deus, única, particular, que
não pode repetir-se. Tal ideia apenas atinge o seu pleno desenvolvimento na
personalidade do santo. Esta ideia, por um lado, abrange um particular
caráter natural a que não pode encontrar-se adscrita qualquer imperfeição, e,
por outro, a transformação sobrenatural da natureza, que lhe confere uma
sublimação e uma elevação incomparáveis. [...] (p. 26)
[...] facilmente verificamos [a reta peculiaridade]
nos santos, que, à parte o traço comum de “que já não vivem de si, mas é Cristo
que vive neles”, conservam cada qual uma individualidade perfeitamente diferenciada.
Pense-se em São Francisco de Assis ou em Santa Catarina de Sena. A conservação
da individualidade criada por Deus não pode entrar nunca em conflito com a
transformação em Cristo. [...] (p. 27)
O misterioso fato de Deus estar mais
próximo de nós do que nós próprios faz com que nós não sejamos nós
mesmos – como pensamento de Deus que não pode repetir-se – enquanto não
voltarmos a nascer em Jesus Cristo. [...] nem todos os caminhos são
apropriados para todos os homens. Existem diversos caminhos que levam a Deus,
todos eles de igual valor [nota: todos dentro do Caminho que é Cristo]:
o do beneditino, o do franciscano, o do dominicano, o de tantos outros (p. 27).
O nome que Deus pronunciou para cada alma
[...] tem de ser separado [...] daquilo que vulgarmente se entende
por individualidade, que cada qual sente como elemento seu. Esse elemento a
que chamam individualidade resulta do encontro de numerosos fatores,
experiências, desgostos, falsas reações que se produziram, meio em que se
viveu, educação recebida, convencionalismos, etc. (p. 27)
[...] O ser que nós sentimos está muito
longe da palavra interior com que Deus nos chama. Com as nossas próprias forças
nunca poderíamos descobrir de maneira efetiva essa palavra: “Todo homem é falso”
(p. 27).
As coisas a que temos de renunciar de uma
vez para sempre não pertencem, portanto, ao nosso próprio ser
[...] A disposição de mudar não diz respeito à individualidade última, à
individualidade querida por Deus: esta apenas deve ser metamorfoseada e glorificada,
mas não abandonada ou substituída por outra. O ser essencial de cada homem tem
uma missão determinada e específica (pp. 27-8).
É frequente encontrar-se um tipo de
homem que [...] carece de ímpeto interior para o que há de mais elevado no
seu espírito [...] Existem homens que parecem insensíveis ao exemplo dos
santos [...] “Não fui chamado a tais feitos, sou um ser miserável!”. Isso é [...]
desleixo, negação daqueles bens que deveríamos multiplicar, e falta de
sentido de responsabilidade ante a chamada de Deus. [...] lhes falta impulso
para as coisas superiores. [...] (p. 28)
A posição diametralmente oposta é a do
homem a que não falta certo ímpeto, mas que é incapaz de reconhecer os seus
limites e luta desesperadamente, violentamente, por ascender. Quando na sua
presença se fala de qualquer assunto relacionado com a vida espiritual,
intervém imediatamente, como se conhecesse plenamente a matéria. [...] supõe-se
a uma altura que na realidade não conseguiu atingir. É evidente que possui um
impulso, mas alimentado [...] pela presunção. [...] (p. 29)
Tais pruridos de ascender são, na maioria
dos casos, produto de um complexo de inferioridade ou de uma infantil
inconsciência. A insensatez radica mais no desejo de querer parecer aquilo que
não é, do que numa simples carência de dotes espirituais. Se um homem
reconhece o lugar que deve ocupar e se limita ao que compreende, não
obstante a falta de dotes, nunca pode ser tachado de insensato, nunca as
suas fraquezas chegarão a limitar-lhe os horizontes e a oprimir-lhe o ânimo (p. 29).
Quer a inércia e o abandono, quer a
violenta tendência para as alturas, são atitudes insustentáveis. A disposição
sobrenatural de mudar constitui a verdadeira situação entre as duas
posições extremas. O homem reconhece os seus limites naturais, mas
reconhece ao mesmo tempo a particular vocação que Deus colocou na sua alma;
não se abandona [...] nem pretende ascender com violência convulsa a uma falsa
visão ideal. [...] está convencido da sua própria miséria, mas tal convicção
não o lança numa atitude de resignação [...] sabe que pode vir a ser outro, se
se deixar formar novamente por Jesus Cristo; deve recordar aquelas palavras da
parábola: “Amigo, como chegaste a este lugar sem as vestes nupciais?” As vestes
nupciais são a docilidade a Jesus Cristo e a disposição de nos mudarmos n’Ele,
o propósito de abandonar tudo, e sobretudo o próprio “eu” (pp. 29-30).
Um dos maiores obstáculos que se levantam
a esta fluidez é um ideal mal compreendido de fidelidade.
A adesão a certas ideias e a certos mundos espirituais converte-se em valor positivo.
Ora, em boa verdade, só possui valor positivo a adesão à verdade e aos valores
autênticos [...] (p. 30)
É forçoso que deixemos de ser fiéis a
todos os erros e a todos os valores não autênticos a partir do momento em que
descobrirmos a sua falsidade. [...] Só existe uma
fidelidade verdadeiramente válida, a fidelidade a Deus, o sumo Bem, e a tudo o
que no-lo indica ou dele nos provém (p. 30).
“Devo manter-me fiel às pessoas que
amei, por muitos defeitos que tenham”. Mas não se deduza daí que devemos igual
fidelidade às ideias, aos meios espirituais e às atmosferas culturais, que
em dado momento tiveram para nós algum significado e às quais nos sentimos
arraigados durante muito tempo. Em boa verdade, o que acontece com as pessoas é
completamente diferente do que acontece com as ideais e com os valores
espirituais, pois o homem é um status viae e não um ente definitivamente
fixo, inequívoco, como uma ideia (p. 30).
[...] no amor a outra pessoa, surge em mim
a ideia de Deus, que o homem representa, e é precisamente a Deus que eu acudo [...]
da relação com uma pessoa nasce uma promessa imanente que pode exigir uma
fidelidade, coisa naturalmente inadequada numa relação impessoal. [...] (p. 31)
No entanto, a verdadeira fidelidade aos
homens com quem tratamos em determinadas circunstâncias, pode exigir que nos
separemos totalmente dessas circunstâncias. Basta que façam perigar a
fidelidade que devemos a Deus e que a nós mesmos devemos [...] a ruptura
aparente da nossa fidelidade para com eles é uma manifestação de verdadeira
fidelidade, pois visa a nossa salvação e a deles, e pode, por isso,
considerar-se como preceito de um amor mais profundo (p. 31).
[...] Muitas coisas habituais e familiares
[...] porque talvez tragam recordações da infância, retêm-nos com força e
levam-nos a desejar que o mundo de Cristo irradie sobre as nossas vidas apenas
na medida em que não nos obrigue a renunciar ao nosso “mundo”. [...] Quanta
humanização excessiva, quantos falsos sentimentalismos descobrimos na chamada
piedade popular” [...] Devemos sentir o desejo de contemplar sem deformações a
verdadeira face de Cristo, tal como no-la mostra a Igreja. Devemos ansiar por
subir ao mundo de Jesus Cristo, e não pretender que Jesus Cristo desça até nós.
[...] (pp. 31-2)
Da medida da nossa disponibilidade depende
a medida da nossa transformação em Cristo. A disposição de mudar totalmente
é um pressuposto necessário da “concepção” de Jesus Cristo na nossa alma [...]
(p. 32)

Um comentário:
Excelente texto!
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