Excertos do segundo capítulo ("Arrependimento") do livro A
nossa transformação em Cristo, de Dietrich von Hildebrand.
Referência: HILDEBRAND. A nossa transformação em Cristo.
Tradução de Osvaldo Aguiar E. M. da Costa Maia. São Paulo: Cultor de livros,
2017.
Os destaques em negrito são meus.
* * *
* * *
Arrependimento
O arrependimento surge no início do
encontro da alma com Deus. [...] O confronto da nossa pessoa
com Deus força-nos a reconhecer a nossa indignidade e fraqueza, gera a dor
das nossas culpas, queima-nos o coração e obriga-nos a prostrar-nos
diante de Deus, cheios de arrependimento, e a exclamar: “Só contra ti
pequei e cometi iniquidades diante do teu rosto” (p. 35).
Apenas pelo arrependimento nas nossas
culpas nos poderemos afastar decisivamente do mal e dirigir os nossos passos
para Deus. [...] Sem a disposição de saldar as ofensas a Deus [...] é
impossível uma verdadeira entrega a Deus. [...] Só por meio do
arrependimento se pode fundir toda a dureza do nosso coração, de maneira a
provocar aquela docilidade de que já falamos, a capacidade de recebermos a
forma de Cristo (p. 35).
O verdadeiro arrependimento [...]
encerra uma patente transformação, um repúdio das faltas em que
incorremos: uma franca desautorização de tudo o que aconteceu e um abandono do
lugar em que nos encontrávamos quando caímos na tentação. Afasta-nos dos homens
com quem convivíamos até aquele momento e, em princípio, leva-nos a renunciar à
posição que ocupávamos. Abandonamos a defesa do amor próprio e da dureza
interior, e chegamos à humilhação que faz escutar a voz da consciência. [...]
O coração é trespassado pela dor, mas ao mesmo tempo é iluminado pelo desejo do
bem (p. 36).
No arrependimento, não nos afligimos
apenas pelo pecado cometido, pronunciamos sobre ele uma contundente sentença,
afastamo-nos dele, e [...] procuramos reparar a ofensa. Mas aqui nos deparamos
com a nossa impotência, pois não podemos dar por inexistente a falta
em que incorremos. [...] Por isso, o arrependimento, quando não se enche de
esperança na misericórdia de Deus, conduz ao desespero. O arrependimento de
Judas foi deste tipo (pp. 36-7).
[...] no arrependimento cristão
encontramos sempre uma imploração da misericórdia divina. [...] buscamos
espontaneamente a pena merecida, ao mesmo tempo que suplicamos a Deus,
[...] que aceite a nossa reconciliação, tendo fé no seu poder de apagar
todos os pecados (p. 37).
[...] O cristão sabe perfeitamente que nenhum
arrependimento pode destruir a culpa do pecado, mas sabe também que “o Cordeiro
de Deus apaga toda as culpas”, e que Deus [...] perdoa pelos méritos
de Jesus Cristo a todos aqueles que, arrependidos, lhe confessem as suas faltas.
A transformação implícita na contrição vem a ser por isso um regresso a Deus,
um refúgio na misericórdia divina (p. 37).
À contrição corresponde a consciência de
termos pecado, a convicção de que não temos direito a sermos perdoados, como o
filho pródigo [...]; embora ao mesmo tempo
abriguemos a esperança da incompreensível grandeza da misericórdia de Deus.
É exemplo deste tipo de arrependimento o de Davi depois de pecar com a mulher
de Urias, ao contrário do sentimento de culpa em Adão, que por remorsos se
escondeu de Deus e lhe quis fugir; daquele tipo foi ainda o arrependimento de
São Pedro depois de ter negado Cristo, quando o olhar de Jesus lhe transpassou
o coração (p. 37).
A esperança da reconciliação com Deus [...]
não é um elemento da contrição, mas torna o arrependimento do cristão mais profundo e confere-lhe um
caráter que o distingue do puro arrependimento natural. Nem por isso a dor dos
pecados é menor. Comparados com a misericórdia e com o infinito amor de
Deus, os pecados surgem-nos infinitamente mais graves; mas a dor é mais
luminosa, mais consoladora, e o arrependimento baseia-se no amor. Só as
lágrimas dessa dor são lágrimas verdadeiras; as do obscuro arrependimento
desesperado carecem do consolo que encontramos no pranto do cristão; o
desesperado apenas pode derramar lágrimas de nojo por si mesmo [...] (pp. 37-8).
[...] faz parte do verdadeiro
arrependimento o desejo de nos reconciliarmos com Deus e de voltarmos a
percorrer os seus caminhos. No verdadeiro arrependimento encontramos,
portanto, ao lado de um aspecto relativo ao passado, um outro, relativo ao
futuro. A transformação que através dele se realiza contém o desejo imanente de
nunca mais nos separarmos de Deus. Mas esta concreta resolução não pode ser
imediatamente levada à prática; a sua plena realização não será possível
enquanto não se puder obter a reconciliação com Deus (p. 38).
[...] Não pensamos simplesmente: “Como
pude eu fazer estas coisas?; mas dizemos também: “Nunca mais voltarei a
fazê-las” – um repúdio da culpa para o futuro. [...] (p. 38)
É impossível penetrar no mundo dos valores
morais, [...] se não compreendermos que é necessário adotar uma posição em face
das faltas passadas, e se não abandonarmos a ideia de que as faltas anteriores
podem perder atualidade. [...] (p. 39)
[...] não é possível reconciliarmo-nos com
Deus enquanto a nossa falta não for perdoada por Ele, e enquanto não cumprirmos
a respectiva penitência. [...] O cristão conhece o enorme dom que a graça
lhe confere pelo sacramento da penitência, pois quando confessa as
faltas ao representante de Deus, Cristo destrói as suas culpas e lança uma
ponte sobre o abismo que o separa de Deus. Sabe que o obstáculo ao livre
desenvolvimento da vida sobrenatural foi eliminado pela absolvição do sacerdote
[nota: em seguida o autor menciona a contrição perfeita como exceção]
(pp. 39-40).
Nem os próprios profetas, nem qualquer
homem antes de Cristo, pôde apagar o pecado mediante as suas próprias forças;
mesmo nestes casos, o perdão e a destruição das faltas foi operada pela paixão
de Cristo (p. 40).
Ainda que o arrependimento não
contenha o poder de apagar as faltas, possui, no entanto, o poder objetivo de
causar uma modificação interna, e neste sentido é insubstituível. Subjetivamente,
porém [...], a alma fica plenamente convencida de que sem o desaparecimento
da culpa não pode operar-se a transformação interior, e de que o desejo de se
converter é inútil se as culpas não tiverem sido apagadas pelo sangue de Cristo.
[...] (p. 41)
[...] Existe [...] um arrependimento
passivo, o qual, aguardando também que a misericórdia de Deus perdoe as culpas,
não espera, no entanto, a purificação e a santificação. É uma atitude de falsa
humildade, que leva a considerar tão arraigada a nossa tendência para o pecado
que se concebe como pura jactância o propósito de melhorar a vida futura. E, assim,
o único caminho seria encomendar-se à misericórdia de Deus, suportando com
paciência as culpas da vida (p. 41).
No luteranismo, o conceito dogmático de
justificação conduz a um arrependimento passivo semelhante a este, pois para
Lutero não existe purificação nem justificação [nota: entenda-se, não
existe justificação real, transformação ontológica das potências da alma que entram
em jogo na vida moral, no sentido do dogma católico]; simplesmente as nossas
culpas não são tomadas em consideração graças a Cristo. [...] (p. 41)
O verdadeiro cristão sabe perfeitamente que,
entregue a si mesmo, voltará a cair; mas sabe também que, no batismo, recebeu
de Jesus Cristo uma vida sobrenatural, e que pela graça de Deus pode e deve
converter-se num homem novo. [...] é estéril todo o propósito que não nasça
da dor de contrição, visto não proceder da sua última razão de ser, isto é, não
nascer de Deus para se dirigir a Deus. [...] (p. 42)
O verdadeiro cristão exclama com Davi (Sl
59,19): “Um espírito contrito vale aos olhos de Deus tanto como uma oferenda;
oh Deus, Tu não desprezarás um coração contrito e humilhado”. Do
arrependimento levado a tal extremo, surgirá a valiosa e heroica resolução de
nos convertermos num homem novo. Por meio deste arrependimento, o cristão lança
de novo as suas âncoras em Deus, e do fundo da suas fraquezas e das suas misérias
floresce a necessária vontade de nunca mais tornar a separar-se d’Ele, e nasce
a sagrada audácia de “se despir” do homem velho par ase vestir do “homem novo”
em Jesus Cristo (pp. 42-3).
No arrependimento,
encontramos uma verdadeira renúncia de nós mesmos, em que o orgulho se
desfaz e a dureza do coração abranda. Pelo arrependimento renunciamos aos
caprichos do critério próprio, que nos parece tão natural, mas que torna
extremamente difícil, por exemplo, pedir perdão a alguém com quem se foi injusto.
Se há arrependimento, rendemo-nos por humildade e por amor. Desaparece
a dureza que nos fecha a alma para Deus e para o próximo; o violento prurido de
termos razão e de defendermos as posições própria, é afastado. Adotamos uma
atitude que nos abre para tudo o que é bom e nos obriga a abandonar a defesa
rígida dos pontos de vista pessoais (p. 43).
O arrependimento significa também uma
singular penetração nas profundidades. Despertamos da inconsciência em
que vivemos para a plena transcendência da situação metafísica do homem, para a
vida segundo a vontade de Deus, para os seus sagrados mandamentos, para a ideia
do nosso destino último da responsabilidade que Deus nos confiou, da
importância que a nossa passagem pela terra tem para a nossa vida ultraterrena.
[...] Pelo arrependimento, correspondemos à infinita santidade do nosso
Senhor absoluto, do nosso eterno Juiz, a cujo julgamento não podemos
furtar-nos, e reconhecemos, além disso, a nossa falibilidade. Por isso o
arrependimento é a mais antiga palavra dirigida pelo homem, depois da queda, a
Deus. Não é simplesmente indispensável para a nossa transformação em Cristo,
para alcançarmos a docilidade do nosso ser e sermos formados por Jesus Cristo; dá
também à alma do homem uma beleza particular, pois nele aflora uma atitude
cheia de respeito, de humildade e de amor; com ele abandona o homem a torre
de marfim de sua soberba [...], e encaminha-se para a região que lhe permite apresentar-se
animosamente perante Deus (pp. 43-4).

Nenhum comentário:
Postar um comentário