12.4.20

A nossa transformação em Cristo - 2


Excertos do segundo capítulo ("Arrependimento") do livro A nossa transformação em Cristo, de Dietrich von Hildebrand. 

Referência: HILDEBRAND. A nossa transformação em Cristo. Tradução de Osvaldo Aguiar E. M. da Costa Maia. São Paulo: Cultor de livros, 2017.

Os destaques em negrito são meus.

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Arrependimento

O arrependimento surge no início do encontro da alma com Deus. [...] O confronto da nossa pessoa com Deus força-nos a reconhecer a nossa indignidade e fraqueza, gera a dor das nossas culpas, queima-nos o coração e obriga-nos a prostrar-nos diante de Deus, cheios de arrependimento, e a exclamar: “Só contra ti pequei e cometi iniquidades diante do teu rosto” (p. 35).

Apenas pelo arrependimento nas nossas culpas nos poderemos afastar decisivamente do mal e dirigir os nossos passos para Deus. [...] Sem a disposição de saldar as ofensas a Deus [...] é impossível uma verdadeira entrega a Deus. [...] Só por meio do arrependimento se pode fundir toda a dureza do nosso coração, de maneira a provocar aquela docilidade de que já falamos, a capacidade de recebermos a forma de Cristo (p. 35).

O verdadeiro arrependimento [...] encerra uma patente transformação, um repúdio das faltas em que incorremos: uma franca desautorização de tudo o que aconteceu e um abandono do lugar em que nos encontrávamos quando caímos na tentação. Afasta-nos dos homens com quem convivíamos até aquele momento e, em princípio, leva-nos a renunciar à posição que ocupávamos. Abandonamos a defesa do amor próprio e da dureza interior, e chegamos à humilhação que faz escutar a voz da consciência. [...] O coração é trespassado pela dor, mas ao mesmo tempo é iluminado pelo desejo do bem (p. 36).

No arrependimento, não nos afligimos apenas pelo pecado cometido, pronunciamos sobre ele uma contundente sentença, afastamo-nos dele, e [...] procuramos reparar a ofensa. Mas aqui nos deparamos com a nossa impotência, pois não podemos dar por inexistente a falta em que incorremos. [...] Por isso, o arrependimento, quando não se enche de esperança na misericórdia de Deus, conduz ao desespero. O arrependimento de Judas foi deste tipo (pp. 36-7).

[...] no arrependimento cristão encontramos sempre uma imploração da misericórdia divina. [...] buscamos espontaneamente a pena merecida, ao mesmo tempo que suplicamos a Deus, [...] que aceite a nossa reconciliação, tendo fé no seu poder de apagar todos os pecados (p. 37).

[...] O cristão sabe perfeitamente que nenhum arrependimento pode destruir a culpa do pecado, mas sabe também que “o Cordeiro de Deus apaga toda as culpas”, e que Deus [...] perdoa pelos méritos de Jesus Cristo a todos aqueles que, arrependidos, lhe confessem as suas faltas. A transformação implícita na contrição vem a ser por isso um regresso a Deus, um refúgio na misericórdia divina (p. 37).

À contrição corresponde a consciência de termos pecado, a convicção de que não temos direito a sermos perdoados, como o filho pródigo [...]; embora ao mesmo tempo abriguemos a esperança da incompreensível grandeza da misericórdia de Deus. É exemplo deste tipo de arrependimento o de Davi depois de pecar com a mulher de Urias, ao contrário do sentimento de culpa em Adão, que por remorsos se escondeu de Deus e lhe quis fugir; daquele tipo foi ainda o arrependimento de São Pedro depois de ter negado Cristo, quando o olhar de Jesus lhe transpassou o coração (p. 37).

A esperança da reconciliação com Deus [...] não é um elemento da contrição, mas torna o arrependimento  do cristão mais profundo e confere-lhe um caráter que o distingue do puro arrependimento natural. Nem por isso a dor dos pecados é menor. Comparados com a misericórdia e com o infinito amor de Deus, os pecados surgem-nos infinitamente mais graves; mas a dor é mais luminosa, mais consoladora, e o arrependimento baseia-se no amor. Só as lágrimas dessa dor são lágrimas verdadeiras; as do obscuro arrependimento desesperado carecem do consolo que encontramos no pranto do cristão; o desesperado apenas pode derramar lágrimas de nojo por si mesmo [...] (pp. 37-8).

[...] faz parte do verdadeiro arrependimento o desejo de nos reconciliarmos com Deus e de voltarmos a percorrer os seus caminhos. No verdadeiro arrependimento encontramos, portanto, ao lado de um aspecto relativo ao passado, um outro, relativo ao futuro. A transformação que através dele se realiza contém o desejo imanente de nunca mais nos separarmos de Deus. Mas esta concreta resolução não pode ser imediatamente levada à prática; a sua plena realização não será possível enquanto não se puder obter a reconciliação com Deus (p. 38).

[...] Não pensamos simplesmente: “Como pude eu fazer estas coisas?; mas dizemos também: “Nunca mais voltarei a fazê-las” – um repúdio da culpa para o futuro. [...] (p. 38)

É impossível penetrar no mundo dos valores morais, [...] se não compreendermos que é necessário adotar uma posição em face das faltas passadas, e se não abandonarmos a ideia de que as faltas anteriores podem perder atualidade. [...] (p. 39)

[...] não é possível reconciliarmo-nos com Deus enquanto a nossa falta não for perdoada por Ele, e enquanto não cumprirmos a respectiva penitência. [...] O cristão conhece o enorme dom que a graça lhe confere pelo sacramento da penitência, pois quando confessa as faltas ao representante de Deus, Cristo destrói as suas culpas e lança uma ponte sobre o abismo que o separa de Deus. Sabe que o obstáculo ao livre desenvolvimento da vida sobrenatural foi eliminado pela absolvição do sacerdote [nota: em seguida o autor menciona a contrição perfeita como exceção] (pp. 39-40).

Nem os próprios profetas, nem qualquer homem antes de Cristo, pôde apagar o pecado mediante as suas próprias forças; mesmo nestes casos, o perdão e a destruição das faltas foi operada pela paixão de Cristo (p. 40).

Ainda que o arrependimento não contenha o poder de apagar as faltas, possui, no entanto, o poder objetivo de causar uma modificação interna, e neste sentido é insubstituível. Subjetivamente, porém [...], a alma fica plenamente convencida de que sem o desaparecimento da culpa não pode operar-se a transformação interior, e de que o desejo de se converter é inútil se as culpas não tiverem sido apagadas pelo sangue de Cristo. [...] (p. 41)

[...] Existe [...] um arrependimento passivo, o qual, aguardando também que a misericórdia de Deus perdoe as culpas, não espera, no entanto, a purificação e a santificação. É uma atitude de falsa humildade, que leva a considerar tão arraigada a nossa tendência para o pecado que se concebe como pura jactância o propósito de melhorar a vida futura. E, assim, o único caminho seria encomendar-se à misericórdia de Deus, suportando com paciência as culpas da vida (p. 41).

No luteranismo, o conceito dogmático de justificação conduz a um arrependimento passivo semelhante a este, pois para Lutero não existe purificação nem justificação [nota: entenda-se, não existe justificação real, transformação ontológica das potências da alma que entram em jogo na vida moral, no sentido do dogma católico]; simplesmente as nossas culpas não são tomadas em consideração graças a Cristo. [...] (p. 41)

O verdadeiro cristão sabe perfeitamente que, entregue a si mesmo, voltará a cair; mas sabe também que, no batismo, recebeu de Jesus Cristo uma vida sobrenatural, e que pela graça de Deus pode e deve converter-se num homem novo. [...] é estéril todo o propósito que não nasça da dor de contrição, visto não proceder da sua última razão de ser, isto é, não nascer de Deus para se dirigir a Deus. [...] (p. 42)

O verdadeiro cristão exclama com Davi (Sl 59,19): “Um espírito contrito vale aos olhos de Deus tanto como uma oferenda; oh Deus, Tu não desprezarás um coração contrito e humilhado”. Do arrependimento levado a tal extremo, surgirá a valiosa e heroica resolução de nos convertermos num homem novo. Por meio deste arrependimento, o cristão lança de novo as suas âncoras em Deus, e do fundo da suas fraquezas e das suas misérias floresce a necessária vontade de nunca mais tornar a separar-se d’Ele, e nasce a sagrada audácia de “se despir” do homem velho par ase vestir do “homem novo” em Jesus Cristo (pp. 42-3).

No arrependimento, encontramos uma verdadeira renúncia de nós mesmos, em que o orgulho se desfaz e a dureza do coração abranda. Pelo arrependimento renunciamos aos caprichos do critério próprio, que nos parece tão natural, mas que torna extremamente difícil, por exemplo, pedir perdão a alguém com quem se foi injusto. Se há arrependimento, rendemo-nos por humildade e por amor. Desaparece a dureza que nos fecha a alma para Deus e para o próximo; o violento prurido de termos razão e de defendermos as posições própria, é afastado. Adotamos uma atitude que nos abre para tudo o que é bom e nos obriga a abandonar a defesa rígida dos pontos de vista pessoais (p. 43).

O arrependimento significa também uma singular penetração nas profundidades. Despertamos da inconsciência em que vivemos para a plena transcendência da situação metafísica do homem, para a vida segundo a vontade de Deus, para os seus sagrados mandamentos, para a ideia do nosso destino último da responsabilidade que Deus nos confiou, da importância que a nossa passagem pela terra tem para a nossa vida ultraterrena. [...] Pelo arrependimento, correspondemos à infinita santidade do nosso Senhor absoluto, do nosso eterno Juiz, a cujo julgamento não podemos furtar-nos, e reconhecemos, além disso, a nossa falibilidade. Por isso o arrependimento é a mais antiga palavra dirigida pelo homem, depois da queda, a Deus. Não é simplesmente indispensável para a nossa transformação em Cristo, para alcançarmos a docilidade do nosso ser e sermos formados por Jesus Cristo; dá também à alma do homem uma beleza particular, pois nele aflora uma atitude cheia de respeito, de humildade e de amor; com ele abandona o homem a torre de marfim de sua soberba [...], e encaminha-se para a região que lhe permite apresentar-se animosamente perante Deus (pp. 43-4).


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