Com minhas orações pela salvação da alma do Cardeal Daniélou, que morreu em circunstâncias estranhas (as quais parecem ter uma explicação cristã), mas que foi um bom teólogo, preocupado com a Verdade.
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“Grandeza e fraqueza de René Guénon
A morte de René Guénon chamou a atenção sobre uma obra que se deve considerar como uma das mais singulares desta época. Ela se situa tão completamente fora da mentalidade moderna, choca tão violentamente os hábitos mais inveterados que se apresenta como um corpo estanho no mundo intelectual de hoje. Mas a grandeza de Guénon está precisamente em ter sabido desembaraçar-se completamente dos preconceitos da época e de ter elaborado sua obra na solidão com um rigor inflexível. O que é certo é que ele tocou nos problemas mais essenciais de hoje, quais sejam, o da civilização técnica e das ameaças que ela comporta, o da organização da sociedade econômica e política. Fê-lo ao mesmo tempo de modo irritante e profundo, mas que não pode deixar ninguém indiferente. Sua obra encerra uma parte de verdade. Tem também limites que a tornam inaceitável a um cristão.
Uma
primeira verdade da obra de Guénon é a reabilitação do conhecimento simbólico
em face do conhecimento científico. Nesse ponto, talvez mais do que em qualquer
outro, ele choca a mentalidade hodierna. Para um homem formado nos métodos
positivos da química ou da astronomia, voltar à alquimia e à astrologia parece
absurdo. Guénon pensa que todo o espírito moderno está empenhado num imenso
desvio e que há mais verdade essencial na astrologia, com todas as suas
ingenuidades, que na astronomia, com toda a sua técnica. Trata-se aqui, com
efeito, de uma diferença de plano. Toda a ciência do mundo pode alargar as
dimensões da gaiola onde se acha o homem: mas não pode fazê-lo sair dessa gaiola.
A intuição simbólica, ao contrário, à qual as realidades do mundo material nos
fazem ajuntar uma realidade que as ultrapassa, tem um valormais vital.
Entenda-se
bem o que queremos dizer. Não se trata, para Guénon, de voltar à astrologia e à
alquimia sob sua forma vulgar de pseudo-ciência. Mas trata-se de compreender
que os astros ou os metais nos interessam mais profundamente pela sua
significação que pelo uso material que deles podemos fazer ou pelos elementos
que os compõem. Em uma das mais belas páginas do Rei do Mundo, Guénon fala da esmeralda caída da fronte de Lúcifer e
na qual está talhada o Graal. Pode-se considerar uma esmeralda do ponto de
vista de seu valor comercial; é o que faz o comerciante ou o proprietário, que
a guarda em seu cofre. Pode-se considera-la do ponto de vista de suas
propriedades materiais: é o que faz o químico; mas o que há de mais real na
esmeralda é a significação de sua cor e de sua consistência; e é o que apanha o
alquimista.
Pode-se
dizer outro tanto de outros domínios. A astronomia esclarece-nos somente sobre
a mecânica celeste. Mas permanecemos na superfície das coisas. O mundo astral
está repleto de significações. E são essas significações que é necessário
revelar. Guénon bem viu que o movimento dos astros não devia ser considerado
como o arquétipo das realidades terrestres, mas que esse movimento era mais
propriamente o símbolo das realidades de outra ordem. Essa observação
encontra-se com o pensamento de Mircea Eliade, quando este mostra que não são
os astros em si mesmos que adoram os representantes das religiões astrais, mas
que o céu visível é uma ‘hierofania’ através da qual o mundo espiritual é
manifestado. Estamos aqui no oposto de uma astrologia vulgar, que consideraria
a existência humana como condicionada pelos astros.
Geometria e
matemática são o objeto de uma mesma crítica. As figuras geométricas não
importam somente pelas relações numéricas que apresentam; têm também um valor
qualitativo e estão na origem de todas as formas de figuração simbólica. Entre
essas formas, Guénon apegou-se especialmente ao simbolismo da cruz. Voltaremos
a esse ponto. É preciso dizer a mesma coisa da matemática. Ao lado de uma
ciência dos números, há uma simbólica dos números. Guénon afirma que não é sem
razão que o número 7 ou o número 40 representam na religião bíblica um papel
tão notável. Eles constituem uma verdadeira linguagem. E seu interesse provém
do fato de essa linguagem não ser puramente convencional e arbitrária, mas
repousar sobre propriedades naturais dos números, como era o caso das figuras
geométricas ou grupos estelares.
Isso sugere
uma observação importante: as diferentes tradições apresentam-nos os mesmos
símbolos ou símbolos vizinhos. A que atribuir essa permanência? A concepção de
uma transmissão positiva a partir de uma origem comum é pouco aceitável. Talvez
Guénon – e é um dos pontos contestáveis de sua concepção – pareça, por vezes,
sustenta-la. É muito mais satisfatório ver aí, com Mircéa Eliade, o fato de os
símbolos serem fundados sobre a natureza mesma das realidades visíveis e do
espírito humano, de modo que este dá espontaneamente as mesmas significações
aos mesmos objetos. Há, portanto, uma simbólica universal, natural, que as
tradições testemunham. Esta simbólica não é, porém, algo congelado. Os símbolos
são realidades vivas na consciência coletiva. É todo um mundo cuja exploração
apenas começamos.
Nesta
simbólica tradicional, Guénon faz entrar a simbólica cristã. Ele aproxima a
simbólica da cruz na Índia e no Cristianismo. Observa que o número dos doze
apóstolos atesta a importância atribuída ao número doze, que aparece, por outro
lado, na doutrina dos signos do zodíaco. A veste branca do Papa atesta um valor
da cor branca, que se encontra em todas as religiões. Há, portanto, analogias
seguras. Elas levam Guénon a ver no Cristianismo uma das formas da tradição
primordial e a interessar-se no Cristianismo pelo que tem em comum com as
outras tradições. E é aí que começamos a não poder mais segui-lo. O
Cristianismo reconhece perfeitamente a existência de uma simbólica natural, que
se liga à religião cósmica, quer dizer, a esta revelação e Deus através do
mundo invisível, acessível a todos os homens, do qual falamos acima.
Mas o
Cristianismo é precisamente coisa diferente. É uma irrupção de Deus na História,
um acontecimento radicalmente novo. Se a cruz tem uma tal importância para ele,
não é, em primeiro lugar, por causa de seu valor simbólico, é porque Cristo
morreu sobre um patíbulo composto de dois pedaços de madeira. E esse dado
histórico está em primeiro lugar. Como esse patíbulo tinha vagamente a forma de
uma cruz, a liturgia carregou-o ulteriormente de todo o simbolismo natural da
cruz, como significando as quatro dimensões ou o eixo do mundo. Assinalou-se
alhures que a cruz de Jesus Cristo tinha valor de redenção universal. Mas esses
simbolismos são secundários em relação aos fatos históricos. E é essa
importância do Cristianismo como novidade absoluta que Guénon desconhece
inteiramente.
Assim
também isso não é de admirar, pois essa condenação de toda a História é parte
essencial de seu pensamento. E este é o segundo ponto a considerar no qual
igualmente o excelente e o detestável se unem estranhamente. Falemos, em
primeiro lugar, do excelente. Sentimos profunda satisfação quando vemos Guénon
condenar com violência sem igual as ideologias modernas do progresso da
evolução, do historicismo. Pensamos com ele que é absurdo crer que o
desenvolvimento da ciência traz uma transformação qualitativa da humanidade.
Guénon vai mais longe e vê nela a marca de uma decadência. A partir do século
XVI, essa decadência acentua-se. Tocamos um grave problema. A ciência, como
tal, e não somente em seus costumes culpáveis, na medida em que assume uma
importância desproporcionada em relação à sabedoria, não arrasta o mundo,
inevitavelmente, a catástrofes? A solução de Guénon pode parecer radica.
Contudo a questão não pode ser resolvida no sentido de um fácil otimismo.
É preciso
reconhecer, ainda, todo o alcance da corajosa crítica de Guénon aos
preconceitos mais inveterados e mais nefastos do mundo moderno. Esperando
alguma salvação da ciência, o homem desvia-se de seus verdadeiros meios de
salvação. E aqueles que o entretém nesta ilusão, sejam eles marxistas ou
liberais, são os verdadeiros responsáveis pela miséria do mundo moderno. É
verdade que as noções de progresso científico, de evolução biológica são
desprovidas de toda incidência espiritual. É verdade que a hipertrofia do
pensamento científico desvia o homem moderno da intuição intelectual dos
valores metafísicos. É verdade que, no plano natural, o desenvolvimento do
tempo não traz ao homem nada de essencial, pois o essencial são os princípios
da metafísica, que são imutáveis.
Não há nada
de essencial que seja novo na ordem natural, Mas não se dá o mesmo no plano cristão.
Pois aqui estamos em presença de acontecimentos que mudam qualitativamente a
existência humana e constituem uma novidade absoluta. Basta reler São Paulo
para ver quão frequentemente os termos ‘nova criação’, ‘novo homem’ se repetem
em seu texto. Há, portanto, elementos que a tradição anterior não possuía, uma
promoção espiritual. Esta promoção corresponde à passagem do conhecimento de
Deus pelo mundo visível, à revelação de sua vida íntima em Jesus Cristo. Por
conseguinte, aqui somente, mas no sentido mais amplo do termo, existe História.
Guénon não viu isso. Para ele o Cristianismo não é uma realidade privilegiada.
E ter-se ele tornado finalmente muçulmano é bem a prova disso.
Isso nos conduz
ao último aspecto de seu pensamento, aquele referente às relações da ciência,
da sabedoria e da fé. Aqui ainda a parte positiva de seu pensamento impressiona
em primeiro lugar. Contra o relativismo e o pragmatismo modernos, Guénon
restaura o valor do pensamento especulativo, ao mesmo tempo em sua importância
e em seu valor. A realidade suprema é o mundo das ideias eternas do qual as
coisas sensíveis são o reflexo. A atividade mais alta do homem é a intuição
dessas essências. Guénon encontra aqui a contemplação platônica. Só o conhecimento
dessas verdades eternas pode permitir organizar as coisas humanas com
sabedoria. Os que possuem esse conhecimento constituem a autoridade espiritual.
Guénon restaura uma concepção hierárquica da sociedade. E choca-se novamente
contra um dogma moderno, qual seja, o da democracia e do sufrágio universal. A
autoridade espiritual é composta pelos que possuem a tradição. Ela subsiste
eminentemente no ‘rei do mundo’, que é o arquétipo ideal. Ela se encarna visivelmente
em certas personagens. O Soberano Pontífice representa a esse respeito, para
Guénon, uma dessas autoridades. E este é um dos aspectos do Catolicismo que ele
mais defende, enquanto vê no Protestantismo uma perversão do Cristianismo
autêntico.
Mas qual é
a tradição cujos depositários são as autoridades espirituais? É propriamente a
tradição dos princípios intelectuais. Esses princípios são, antes de mais nada,
os da filosofia da Índia, do Vedanta, ao qual Guénon consagrou sua primeira
obra. Esta é a verdade suprema. Já no plano filosófico isso não deixa de
suscitar inquietude. Pois a filosofia da Índia deixa-nos incertos sobre dados
tão essenciais como a transcendência absoluta de Deus, a imortalidade pessoal,
a criação [nota: que são os três
únicos temas verdadeiramente relevantes em metafísica; sem a afirmação de um
Deus Transcendente e Criador, esfuma-se a diferença entre Este, a criação e a
alma individual, e se cai num imanentismo de índole panenteísta, que tantas
vezes tenho criticado, cujas supostas ‘verdades metafísicas’ são todas de índole
logicista, não atingindo o verdadeiro âmbito do propriamente espiritual].
Entretanto o que aparece mais ainda é que a verdade superior é de ordem
filosófica. As religiões, e em particular os grandes monoteísmos mediterrâneos,
são uma espécie de compromisso entre a pura verdade metafísica e as
necessidades afetivas dos homens, que precisam ter misticismos e liturgias. Essa
transposição da relação, que une metafísica e revelação, constitui a fraqueza,
o erro principal da obra de Guénon.
E é aí que
se enxerta o problema, tão importante em sua obra, do esoterismo. Pode-se compreender
por essa palavra duas coisas absolutamente distintas. De uma parte, no interior
de uma religião, pode-se considerar que há aspectos misteriosos que não podem
ser imprudentemente mostrados aos principiantes. Tal era a explicação do
Cântico dos Cânticos no judaísmo; tais, no Catolicismo, os caminhos da mística.
Não se trata de outras doutrinas, mas somente de penetração da mesma realidade.
A gnose [nota: aqui não no sentido
esotérico abaixo, do ‘ocultismo’, mas no sentido de ‘conhecimento’ profundo do que
é conhecido de modo geral] prolonga a fé para São Paulo. Nada é mais oposto ao
Cristianismo que a distinção de cristãos de primeira e de segunda zonas. É o
batismo que constitui a iniciação. E o batizado sabe tudo o que deve saber. Ele
não terá de receber uma segunda iniciação num sentido secreto dos ritos e dos
dogmas.
Tem o
esoterismo, com efeito, um segundo sentido, que é o que lhe dá Guénon. Consiste
em dizer que, além da diversidade das religiões existe uma doutrina oculta,
comum a elas e cujo conhecimento é propriamente iniciador. É o que já
encontramos na falsa gnose dos primeiros séculos cristãos. Aqui o conhecimento
vulgar e o conhecimento superior têm um objeto diferente. Há uma doutrina
secreta absolutamente diversa da doutrina esotérica. E essa doutrina secreta
não é o Cristianismo, tal qual o ensina o catecismo. É uma outra doutrina cujos
dogmas são uma transcrição simbólica, mas na qual é preciso ser iniciado para
conhecer o sentido oculto. E precisamente a oposição do exoterismo e do esoterismo
reforça aquela da religião e da sabedoria. E somente a sabedoria dá
verdadeiramente a salvação.
Vê-se
porque a obra de Guénon é ao mesmo tempo tão importante e tão decepcionante.
Ela nos atrai porque ele fala do que nos parece verdadeiramente interessante.
Ela nos atrai porque Guénon denunciou com coragem erros que, acreditamos com
ele, são as fontes profundas da decadência do mundo presente. Mas, se passamos
ao pensamento positivo de Guénon, ele nos parece radicalmente incompatível com o Cristianismo (grifos meus).
Esvazia, com efeito, seu próprio conteúdo: a afirmação do caráter absolutamente
privilegiado da ressurreição de Jesus
Cristo”.

Um comentário:
Muito esclarecedor. Precisava há muito tempo de um texto que me ajudasse a entender um pouco a discussão em torno da figura desse homem.
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