29.9.18

Jean Daniélou sobre René Guénon

Capítulo de: DANIÉLOU, Jean. Sobre o mistério da história: A esfera e a cruz. São Paulo, Herder, 1964, pp. 109-114.

Com minhas orações pela salvação da alma do Cardeal Daniélou, que morreu em circunstâncias estranhas (as quais parecem ter uma explicação cristã), mas que foi um bom teólogo, preocupado com a Verdade.

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Grandeza e fraqueza de René Guénon

A morte de René Guénon chamou a atenção sobre uma obra que se deve considerar como uma das mais singulares desta época. Ela se situa tão completamente fora da mentalidade moderna, choca tão violentamente os hábitos mais inveterados que se apresenta como um corpo estanho no mundo intelectual de hoje. Mas a grandeza de Guénon está precisamente em ter sabido desembaraçar-se completamente dos preconceitos da época e de ter elaborado sua obra na solidão com um rigor inflexível. O que é certo é que ele tocou nos problemas mais essenciais de hoje, quais sejam, o da civilização técnica e das ameaças que ela comporta, o da organização da sociedade econômica e política. Fê-lo ao mesmo tempo de modo irritante e profundo, mas que não pode deixar ninguém indiferente. Sua obra encerra uma parte de verdade. Tem também limites que a tornam inaceitável a um cristão.

Uma primeira verdade da obra de Guénon é a reabilitação do conhecimento simbólico em face do conhecimento científico. Nesse ponto, talvez mais do que em qualquer outro, ele choca a mentalidade hodierna. Para um homem formado nos métodos positivos da química ou da astronomia, voltar à alquimia e à astrologia parece absurdo. Guénon pensa que todo o espírito moderno está empenhado num imenso desvio e que há mais verdade essencial na astrologia, com todas as suas ingenuidades, que na astronomia, com toda a sua técnica. Trata-se aqui, com efeito, de uma diferença de plano. Toda a ciência do mundo pode alargar as dimensões da gaiola onde se acha o homem: mas não pode fazê-lo sair dessa gaiola. A intuição simbólica, ao contrário, à qual as realidades do mundo material nos fazem ajuntar uma realidade que as ultrapassa, tem um valormais vital.

Entenda-se bem o que queremos dizer. Não se trata, para Guénon, de voltar à astrologia e à alquimia sob sua forma vulgar de pseudo-ciência. Mas trata-se de compreender que os astros ou os metais nos interessam mais profundamente pela sua significação que pelo uso material que deles podemos fazer ou pelos elementos que os compõem. Em uma das mais belas páginas do Rei do Mundo, Guénon fala da esmeralda caída da fronte de Lúcifer e na qual está talhada o Graal. Pode-se considerar uma esmeralda do ponto de vista de seu valor comercial; é o que faz o comerciante ou o proprietário, que a guarda em seu cofre. Pode-se considera-la do ponto de vista de suas propriedades materiais: é o que faz o químico; mas o que há de mais real na esmeralda é a significação de sua cor e de sua consistência; e é o que apanha o alquimista.

Pode-se dizer outro tanto de outros domínios. A astronomia esclarece-nos somente sobre a mecânica celeste. Mas permanecemos na superfície das coisas. O mundo astral está repleto de significações. E são essas significações que é necessário revelar. Guénon bem viu que o movimento dos astros não devia ser considerado como o arquétipo das realidades terrestres, mas que esse movimento era mais propriamente o símbolo das realidades de outra ordem. Essa observação encontra-se com o pensamento de Mircea Eliade, quando este mostra que não são os astros em si mesmos que adoram os representantes das religiões astrais, mas que o céu visível é uma ‘hierofania’ através da qual o mundo espiritual é manifestado. Estamos aqui no oposto de uma astrologia vulgar, que consideraria a existência humana como condicionada pelos astros.

Geometria e matemática são o objeto de uma mesma crítica. As figuras geométricas não importam somente pelas relações numéricas que apresentam; têm também um valor qualitativo e estão na origem de todas as formas de figuração simbólica. Entre essas formas, Guénon apegou-se especialmente ao simbolismo da cruz. Voltaremos a esse ponto. É preciso dizer a mesma coisa da matemática. Ao lado de uma ciência dos números, há uma simbólica dos números. Guénon afirma que não é sem razão que o número 7 ou o número 40 representam na religião bíblica um papel tão notável. Eles constituem uma verdadeira linguagem. E seu interesse provém do fato de essa linguagem não ser puramente convencional e arbitrária, mas repousar sobre propriedades naturais dos números, como era o caso das figuras geométricas ou grupos estelares.

Isso sugere uma observação importante: as diferentes tradições apresentam-nos os mesmos símbolos ou símbolos vizinhos. A que atribuir essa permanência? A concepção de uma transmissão positiva a partir de uma origem comum é pouco aceitável. Talvez Guénon – e é um dos pontos contestáveis de sua concepção – pareça, por vezes, sustenta-la. É muito mais satisfatório ver aí, com Mircéa Eliade, o fato de os símbolos serem fundados sobre a natureza mesma das realidades visíveis e do espírito humano, de modo que este dá espontaneamente as mesmas significações aos mesmos objetos. Há, portanto, uma simbólica universal, natural, que as tradições testemunham. Esta simbólica não é, porém, algo congelado. Os símbolos são realidades vivas na consciência coletiva. É todo um mundo cuja exploração apenas começamos.

Nesta simbólica tradicional, Guénon faz entrar a simbólica cristã. Ele aproxima a simbólica da cruz na Índia e no Cristianismo. Observa que o número dos doze apóstolos atesta a importância atribuída ao número doze, que aparece, por outro lado, na doutrina dos signos do zodíaco. A veste branca do Papa atesta um valor da cor branca, que se encontra em todas as religiões. Há, portanto, analogias seguras. Elas levam Guénon a ver no Cristianismo uma das formas da tradição primordial e a interessar-se no Cristianismo pelo que tem em comum com as outras tradições. E é aí que começamos a não poder mais segui-lo. O Cristianismo reconhece perfeitamente a existência de uma simbólica natural, que se liga à religião cósmica, quer dizer, a esta revelação e Deus através do mundo invisível, acessível a todos os homens, do qual falamos acima.

Mas o Cristianismo é precisamente coisa diferente. É uma irrupção de Deus na História, um acontecimento radicalmente novo. Se a cruz tem uma tal importância para ele, não é, em primeiro lugar, por causa de seu valor simbólico, é porque Cristo morreu sobre um patíbulo composto de dois pedaços de madeira. E esse dado histórico está em primeiro lugar. Como esse patíbulo tinha vagamente a forma de uma cruz, a liturgia carregou-o ulteriormente de todo o simbolismo natural da cruz, como significando as quatro dimensões ou o eixo do mundo. Assinalou-se alhures que a cruz de Jesus Cristo tinha valor de redenção universal. Mas esses simbolismos são secundários em relação aos fatos históricos. E é essa importância do Cristianismo como novidade absoluta que Guénon desconhece inteiramente.

Assim também isso não é de admirar, pois essa condenação de toda a História é parte essencial de seu pensamento. E este é o segundo ponto a considerar no qual igualmente o excelente e o detestável se unem estranhamente. Falemos, em primeiro lugar, do excelente. Sentimos profunda satisfação quando vemos Guénon condenar com violência sem igual as ideologias modernas do progresso da evolução, do historicismo. Pensamos com ele que é absurdo crer que o desenvolvimento da ciência traz uma transformação qualitativa da humanidade. Guénon vai mais longe e vê nela a marca de uma decadência. A partir do século XVI, essa decadência acentua-se. Tocamos um grave problema. A ciência, como tal, e não somente em seus costumes culpáveis, na medida em que assume uma importância desproporcionada em relação à sabedoria, não arrasta o mundo, inevitavelmente, a catástrofes? A solução de Guénon pode parecer radica. Contudo a questão não pode ser resolvida no sentido de um fácil otimismo.

É preciso reconhecer, ainda, todo o alcance da corajosa crítica de Guénon aos preconceitos mais inveterados e mais nefastos do mundo moderno. Esperando alguma salvação da ciência, o homem desvia-se de seus verdadeiros meios de salvação. E aqueles que o entretém nesta ilusão, sejam eles marxistas ou liberais, são os verdadeiros responsáveis pela miséria do mundo moderno. É verdade que as noções de progresso científico, de evolução biológica são desprovidas de toda incidência espiritual. É verdade que a hipertrofia do pensamento científico desvia o homem moderno da intuição intelectual dos valores metafísicos. É verdade que, no plano natural, o desenvolvimento do tempo não traz ao homem nada de essencial, pois o essencial são os princípios da metafísica, que são imutáveis.

Não há nada de essencial que seja novo na ordem natural, Mas não se dá o mesmo no plano cristão. Pois aqui estamos em presença de acontecimentos que mudam qualitativamente a existência humana e constituem uma novidade absoluta. Basta reler São Paulo para ver quão frequentemente os termos ‘nova criação’, ‘novo homem’ se repetem em seu texto. Há, portanto, elementos que a tradição anterior não possuía, uma promoção espiritual. Esta promoção corresponde à passagem do conhecimento de Deus pelo mundo visível, à revelação de sua vida íntima em Jesus Cristo. Por conseguinte, aqui somente, mas no sentido mais amplo do termo, existe História. Guénon não viu isso. Para ele o Cristianismo não é uma realidade privilegiada. E ter-se ele tornado finalmente muçulmano é bem a prova disso.

Isso nos conduz ao último aspecto de seu pensamento, aquele referente às relações da ciência, da sabedoria e da fé. Aqui ainda a parte positiva de seu pensamento impressiona em primeiro lugar. Contra o relativismo e o pragmatismo modernos, Guénon restaura o valor do pensamento especulativo, ao mesmo tempo em sua importância e em seu valor. A realidade suprema é o mundo das ideias eternas do qual as coisas sensíveis são o reflexo. A atividade mais alta do homem é a intuição dessas essências. Guénon encontra aqui a contemplação platônica. Só o conhecimento dessas verdades eternas pode permitir organizar as coisas humanas com sabedoria. Os que possuem esse conhecimento constituem a autoridade espiritual. Guénon restaura uma concepção hierárquica da sociedade. E choca-se novamente contra um dogma moderno, qual seja, o da democracia e do sufrágio universal. A autoridade espiritual é composta pelos que possuem a tradição. Ela subsiste eminentemente no ‘rei do mundo’, que é o arquétipo ideal. Ela se encarna visivelmente em certas personagens. O Soberano Pontífice representa a esse respeito, para Guénon, uma dessas autoridades. E este é um dos aspectos do Catolicismo que ele mais defende, enquanto vê no Protestantismo uma perversão do Cristianismo autêntico.

Mas qual é a tradição cujos depositários são as autoridades espirituais? É propriamente a tradição dos princípios intelectuais. Esses princípios são, antes de mais nada, os da filosofia da Índia, do Vedanta, ao qual Guénon consagrou sua primeira obra. Esta é a verdade suprema. Já no plano filosófico isso não deixa de suscitar inquietude. Pois a filosofia da Índia deixa-nos incertos sobre dados tão essenciais como a transcendência absoluta de Deus, a imortalidade pessoal, a criação [nota: que são os três únicos temas verdadeiramente relevantes em metafísica; sem a afirmação de um Deus Transcendente e Criador, esfuma-se a diferença entre Este, a criação e a alma individual, e se cai num imanentismo de índole panenteísta, que tantas vezes tenho criticado, cujas supostas ‘verdades metafísicas’ são todas de índole logicista, não atingindo o verdadeiro âmbito do propriamente espiritual]. Entretanto o que aparece mais ainda é que a verdade superior é de ordem filosófica. As religiões, e em particular os grandes monoteísmos mediterrâneos, são uma espécie de compromisso entre a pura verdade metafísica e as necessidades afetivas dos homens, que precisam ter misticismos e liturgias. Essa transposição da relação, que une metafísica e revelação, constitui a fraqueza, o erro principal da obra de Guénon.

E é aí que se enxerta o problema, tão importante em sua obra, do esoterismo. Pode-se compreender por essa palavra duas coisas absolutamente distintas. De uma parte, no interior de uma religião, pode-se considerar que há aspectos misteriosos que não podem ser imprudentemente mostrados aos principiantes. Tal era a explicação do Cântico dos Cânticos no judaísmo; tais, no Catolicismo, os caminhos da mística. Não se trata de outras doutrinas, mas somente de penetração da mesma realidade. A gnose [nota: aqui não no sentido esotérico abaixo, do ‘ocultismo’, mas no sentido de ‘conhecimento’ profundo do que é conhecido de modo geral] prolonga a fé para São Paulo. Nada é mais oposto ao Cristianismo que a distinção de cristãos de primeira e de segunda zonas. É o batismo que constitui a iniciação. E o batizado sabe tudo o que deve saber. Ele não terá de receber uma segunda iniciação num sentido secreto dos ritos e dos dogmas.

Tem o esoterismo, com efeito, um segundo sentido, que é o que lhe dá Guénon. Consiste em dizer que, além da diversidade das religiões existe uma doutrina oculta, comum a elas e cujo conhecimento é propriamente iniciador. É o que já encontramos na falsa gnose dos primeiros séculos cristãos. Aqui o conhecimento vulgar e o conhecimento superior têm um objeto diferente. Há uma doutrina secreta absolutamente diversa da doutrina esotérica. E essa doutrina secreta não é o Cristianismo, tal qual o ensina o catecismo. É uma outra doutrina cujos dogmas são uma transcrição simbólica, mas na qual é preciso ser iniciado para conhecer o sentido oculto. E precisamente a oposição do exoterismo e do esoterismo reforça aquela da religião e da sabedoria. E somente a sabedoria dá verdadeiramente a salvação.

Vê-se porque a obra de Guénon é ao mesmo tempo tão importante e tão decepcionante. Ela nos atrai porque ele fala do que nos parece verdadeiramente interessante. Ela nos atrai porque Guénon denunciou com coragem erros que, acreditamos com ele, são as fontes profundas da decadência do mundo presente. Mas, se passamos ao pensamento positivo de Guénon, ele nos parece radicalmente incompatível com o Cristianismo (grifos meus). Esvazia, com efeito, seu próprio conteúdo: a afirmação do caráter absolutamente privilegiado da ressurreição de Jesus Cristo”.



Um comentário:

Carlos Botinelly disse...

Muito esclarecedor. Precisava há muito tempo de um texto que me ajudasse a entender um pouco a discussão em torno da figura desse homem.