Alguns dos trechos
de maior densidade da história da filosofia. Com breves comentários explicativos.
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“Timeu: [...] A meu parecer, será
preciso, de início, distinguir o seguinte. Em que consiste o que sempre existiu
e nunca teve princípio? E em que consiste o que devém e nunca é? O primeiro é
apreendido pelo entendimento com a ajuda da razão, por ser sempre igual a si
mesmo, enquanto o outro o é pela opinião, secundada pela sensação carecente de
razão, porque a todo instante nasce e prece, sem nunca ser verdadeiramente. E
agora: tudo o que nasce ou devém procede necessariamente de uma causa, porque
nada pode originar-se sem causa”.
Comentário: As duas perguntas iniciais revelam a distinção entre o “mundo
inteligível” ou das Ideias e o “mundo sensível” ou do devir: o primeiro é o das
verdades essenciais (do “sempre igual a si mesmo”) alcançadas pela inteligência
metafísica ou espiritual, com a ajuda do raciocínio dialético, o qual não é um
mundo “além” deste (no sentido de separado), mas a “altura” ou “profundidade”
deste mundo que se reflete nas coisas sensíveis, desde as quais nos elevamos; o
segundo é o dos acidentes mutáveis que decorrem na superfície do ser destas
coisas sensíveis, e são objeto de um conhecimento opinativo derivado de
impressões não inteligidas formalmente. Depois, Platão, pela voz de Timeu,
enuncia o “princípio da causalidade”, que não é a tautologia “todo efeito tem
uma causa”, nem a mera percepção empírica de dois fatos consecutivos funcionalmente
ligados, mas a visão intelectual da dependência existencial de tudo aquilo que
é originado no mundo que nos cerca (visão absolutamente fora do alcance da
crítica humeana).
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“Quando o
artista trabalha em sua obra, a vista dirigida para o que sempre se conserva
igual a si mesmo, e lhe transmite a forma e a virtude desse modelo, é natural
que seja belo tudo o que ele realiza. Porém se ele se fixa no que devém e toma
como modelo algo sujeito ao nascimento, nada belo poderá criar. Quanto ao céu
em universal – ou mundo, ou, se preferirem outro nome mais apropriado,
confiramos-lhe esse mesmo – no que diz respeito, antes de mais nada devemos
considerar o que importa levar em conta no início de qualquer estudo: se sempre
existiu e nunca teve princípio de nascimento ou nasceu nalgum momento e teve
começo? Nasceu, pois é visível, tocável e dotado de corpo, coisas sensíveis
todas elas. Ora, conforme já vimos, tudo o que é sensível e pode ser apreendido
pela opinião com a ajuda da sensação, está sujeito ao devir e ao nascimento.
Afirmamos, ainda, que tudo o que devém só nasce por efeito de alguma causa. Mas
quanto ao autor e pai deste universo é tarefa difícil encontrá-lo e, uma vez
encontrado, impossível indicar o que seja”.
Comentário: Aqui Platão define para nós o que é o “belo”: aquilo que é feito
segundo o modelo eterno ou essencial, isto é, a obra plasmada segundo a Verdade.
Da imitação das coisas sensíveis enquanto mutáveis, não nasce a beleza. O mundo
que nos cerca tem uma causa (“nasceu”), não é uma realidade absoluta ou
independente, pois é sensível e, portanto, mutável. Árdua, contudo, é a tarefa
de descobrir a Causa deste mundo, ou seja, Deus, e impossível, para nós, a visão de sua Essência: a metafísica é apta a vislumbrar sua existência (o que faz Platão no presente texto, por exemplo), embora não possa encontrar sua realidade essencial (“indicar o que seja”); com isto concorda o ensino católico, que afirma que a razão pode chegar a Deus, mas que
somente a Revelação divina pode nos comunicar Sua intimidade, que é a Vida da
Santíssima Trindade, conhecida neste mundo pela Graça da Fé, e vista no outro, na Glória da Bem-aventurança.
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“Outro ponto
que precisamos deixar claro, é saber qual dos dois modelos tinha em vista o
arquiteto quando o construiu: o imutável e sempre igual a si mesmo ou o que
está sujeito ao nascimento? Ora, se este mundo é belo e for bom seu construtor,
sem dúvida nenhuma este fixara a vista no modelo eterno; e se for o que nem se
poderá mencionar, no modelo sujeito ao nascimento. Mas, para todos nós é mais do que claro que ele tinha em mira o
paradigma eterno; entre as coisas nascidas não há o que seja mais belo do que o
mundo, sendo seu autor a melhor das causas. Logo, se foi produzido dessa maneira,
terá de ser apreendido pela razão e a inteligência e segundo o modelo sempre
idêntico a si mesmo” (grifos meus).
Comentário: Perceba-se como, para Platão, a “beleza” ou a “ordem” do mundo é
algo “evidente para todos”. Agostinho também falava, ao tratar do “problema do
mal”, que o mundo como um todo é harmonioso, apesar das desordens físicas
pontuais. Esta é uma intuição originária partilhada pelo homem antigo e pelo cristão: a
apreensão intelectual do mundo como um “cosmos”. Este nos conduz, pelo
raciocínio metafísico, a Deus, o Ordenador. Se hoje falta a muitos uma tal intelecção
do mundo, isto é uma aberração (cujas causas já discuti alhures), que impede, a
vários, a elevação da vista da inteligência ao Criador do universo.
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“Nessas
condições, necessariamente o mundo terá de ser a imagem de alguma coisa. Em
tudo, o mais importante é partir de um começo natural. Por isso, em se tratando
de uma imagem e seu modelo antes de mais nada precisamos distinguir o seguinte:
as palavras são da mesma ordem das coisas que elas exprimem; quando expressam o
que é estável e fixo e visível com a ajuda da inteligência, elas também serão
fixas e inalteráveis, tanto quanto é possível e o permite sua natureza serem
irrefutáveis e inabaláveis, nem mais nem menos. Mas, se apenas exprimirem o que
foi copiado do modelo, ou seja, uma simples imagem, terão de ser, tão somente,
parecidas, para ficarem em proporção com o objeto: o que a essência é para o
devir, a verdade é para a crença”.
Comentário: Um pouco de filosofia da linguagem, de muita importância para a
teologia: os dogmas católicos são fixados por palavras ou termos humanos, mas que
expressam, com a adequação possível, uma verdade certa; a infalibilidade da
expressão decorre precisamente da imutabilidade da verdade que se atinge (que se deixa atingir): é menos
em virtude da ação intelectual-linguística que da Luz do próprio Mistério enunciado!
Se, de outra parte, a Igreja se voltar para a análise do mundo enquanto “o
tempo atual”, expressando-se através de uma “teologia pastoral”, como em muitas
passagens do Concílio Vaticano II, é o próprio objeto teologizado que impede um
magistério infalível ou uma “palavra estável e fixa”: nem é que a Igreja “possa
falhar”, é que uma tal análise da realidade contingente “não pode atingir
alguma verdade essencial" a ser definida, e portanto, a ser digna de Fé teologal.
“[...] Então,
digamos por que razão o que formou o universo e tudo o que devém o formou. Ele
era bom; ora, no que é bom jamais poderá entrar inveja seja do que for. Estreme,
assim de inveja, quis que, na medida do possível, todas as coisas fossem
semelhantes a ele. Podemos admitir com a maior segurança a opinião dos homens
sensatos de que esse é o princípio mais eficiente do devir e da ordem do mundo.
Desejando a divindade que tudo fosse bom e, tanto quanto possível, estreme de
defeitos, tomou o conjunto das coisas visíveis – nunca em repouso, mas movimentando-se
discordante e desordenadamente – e fê-lo passar da desordem para a ordem, por
estar convencido de que esta em tudo é superior àquela. Não era nem nunca foi
possível que o melhor pudesse fazer uma coisa que não fosse a mais bela de
todas”
Comentário: O Demiurgo criou um mundo “bom”, porém, feito a partir da enformação de uma
matéria informe ou caótica que não proveio dele. Platão não conhece a criação ex nihilo, mas não apresenta este caos
como uma fonte necessariamente “má”. Se não acerta absolutamente (não tem
a inteligência iluminada pela Revelação do Gênesis), evita, contudo, tanto o
erro dualista quanto o panenteísta (em que cairia Plotino).

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