Escola de Mileto (Tales, Anaximandro e Anaxímenes)
O
mundo é, desde sempre, “natureza”,
“princípio”
de onde emerge o real,
o
qual, permanecendo sempre igual,
produz
as coisas, múltipla riqueza.
A
“água”, fonte última da vida,
em
Tales é o princípio procurado;
e,
para Anaximandro, o “ilimitado”,
produz
o ser, repara a injustiça:
o
mundo nasce de uma divisão,
e
predomina o individual,
mas
volta-se à justiça original.
O
“ar”, que é, da alma, a condição,
segundo
Anaxímenes, também
abarca
o universo e o mantém.
Pitagóricos
Não
é na solidão, mas como escola
fraterna,
que o saber se alimenta;
contrário
a uma vida barulhenta,
imerso
no segredo, ele consola.
O
número é o princípio do real,
em
tudo há uma regularidade
de
cunho matemático: a verdade
do
ser não se limita ao corporal.
A
culpa original é expiada,
liberta
a alma por metempsicose,
purificada
a vida pela gnose
e
pela vida reta e consagrada
à
divindade. Não comprar, correr,
mas
contemplar é o vosso viver.
Parmênides
Não
é um elemento o que se busca,
mas o caráter próprio do real,
não
“este” ou “aquele”, afinal,
e
sim o “ser” que o múltiplo ofusca.
A
via opinativa vê o vário
e
via impraticável é a do não-ser.
Somente
é verdadeiro o entender
que
apenas há o Ente, sem contrário.
Contrária
aos sentidos é a Mente,
pois
vê, além das coisas, a Unidade,
e,
do devir, a Imobilidade,
a
Eterna Macicez própria do Ente.
Dois
mundos são então constituídos,
a
mente e os sentidos são cindidos...
Heráclito
Se
para o homem grego é o movimento
que
é, do pensamento, o horizonte
–que
é que permanece, quem responde?–
tu
foste quem fizeste dele o centro,
de
forma oracular e enigmática.
No
mundo, tudo muda o tempo todo,
devir
que é governado pelo “fogo”.
Se
“tudo é um”, porém, seria estática
a
verdadeira face deste mundo?
Se
este é “comum” para os “despertos”,
se
a “coisa sábia” é “uma só”, decerto,
será
que o sentido mais profundo
que
teu pensar obscuro nos relata
de
fato se opõe ao do Eleata?
Físicos pluralistas (Empédocles,
Anaxágoras e Demócrito)
A
terra, a água, o fogo e o ar:
raízes
são os quatro elementos;
Empédocles,
poeta de Agrigento,
o
ente, veio, então, multiplicar;
o
ódio a separar e o amor
unindo
entre si os diferentes.
Divide,
Anaxágoras, o ente,
em
infinitas partes a compor
as
coisas: eis as “homeomerias”,
que
são,em várias“formas”, agrupadas,
e
pela “Inteligência”, ordenadas.
Demócrito
foi, na filosofia,
o
pai do atomismo sensualista,
fundando
a visão materialista.
Sócrates
Virtude,
para ti, é a ciência,
e
o vício, ignorância, significa.
Não
há culpa moral, pois não se aplica
a
tese, que é cristã, da incoerência.
Feliz
é quem a alma se dirige
à
ordem da virtude. Nele o mal
não
pode ter lugar. Tens um sinal,
o dáimon que te impede o que inflige.
Tu
sabes que não sabes, pois divina,
só
ela, é a ciência verdadeira.
Dialogar
com a alma, eis a primeira
missão
que o filósofo ensina.
Irônico,
nos levas à humildade,
e eduzes
de nossa alma a verdade.
Platão
O uno e o múltiplo esclareces,
descortinando
um mundo de essências,
o
verdadeiro ser das aparências,
que
a alma, neste mundo aquém, esquece.
Ao
perceber as coisas perecíveis,
o
homem se recorda das Ideias,
e
assim desemaranha-se da teia
dos
entes rumo às Formas invisíveis.
À
alma consideras tripartida:
razão,
afeto, impulsos corporais,
regidos
por virtudes cardeais,
que
trazem harmonia à própria vida.
Justiça
no indivíduo, sem a qual
não
há aquela dita social.
Aristóteles
Filósofo
tu és, por excelência,
amigo
do saber da Divindade.
Em
quatro causas buscas a verdade,
e
encontras, entre as coisas, as essências.
O
ser que existe em si é a ousia,
substantia, foi vertida em
latim,
matéria
e forma unidas com um fim,
do
ser, a campeã da analogia.
O
homem, animal que tem razão,
por
ela encontrará felicidade:
saber,
a principal atividade,
que
não despreza a vida em comunhão.
Caminho
rumo a tal é a virtude,
mediania
para a plenitude.
Helenismo (Estoicismo
e Epicurismo)
Num
mundo em que o cosmopolitismo
ruiu
a base cômoda da pólis,
buscar
uma moral que nos console
explica
o labor do Helenismo.
A
lógica, a física, a moral,
o
novo esquema do filosofar:
que
é o mundo? Como bem pensar?,
a
fim de ser feliz, fugir ao mal.
No
Pórtico, viver sob a Razão
que
rege o universo é autarquia,
por
nada abalada: apatia;
e
para o Jardim, sem sensação
na
morte, não há nada a temer,
e
é feliz quem vive o bom prazer.
Plotino
Do
Uno, o mundo, por “emanação”,
saiu
em graus diversos refletindo
a
origem do seu próprio ser divino
–
bem próximo chegaste à “criação”.
Primeiro
o Noûs, o mundo das ideias,
depois
a “Alma”, que é o seu reflexo,
por
fim, vem a matéria, o ser complexo,
que
é de nossas almas a cadeia,
da
qual nós precisamos nos livrar
voltando
ao Uno, nossa identidade,
eliminando
em nós a alteridade,
na
mística união a contemplar.
O
exitus-reditus que ensinas
seria,
logo após, cristã doutrina.
Agostinho
Confessas
teu pecado e teu louvor
a
Deus, que, a inquietude, nos acalma,
o
íntimo habitante de nossa alma;
filósofo
é quem tem por Ele amor!
O
Deus, em que as ideias de Platão
habitam;
sendo elas nossa luz,
mostrando
a verdade que conduz
ao
Criador das coisas, à Razão.
Memória,
inteligência e vontade,
imagem
que há em nós das Três Pessoas:
o
Pai, o Verbo, o Amor. Em nós ressoa,
qual
voz que nos convida à caridade,
motor
que, oculto, faz a humana história,
na
luta pelo bem até a glória.
Anselmo
Não
partes do conceito, mas do dado
do
Deus que é revelado na Escritura:
mais
alto ser da mais sublime altura,
que
pelo néscio ateu é bem pensado.
Se
o Deus que para o néscio é negativo,
se
encontra, ao ser pensado, em sua mente,
forçoso
é que exista realmente,
pois
é maior que a ideia o efetivo!
Assim,
se Deus é o maior pensável,
sem
dúvida existe, é necessário,
nem
mesmo é razoável o contrário!
Se
alguém, porém, não crê, é escusável,
contudo,
os bens sensíveis são cimento
do
qual se chega ao Bem do argumento.
Árabes (Avicena e Averróis)
Tu,
médico tão sábio, nos informas
aquilo
que primeiro é cognoscível:
o
ser: ser necessário e ser possível;
a
este conhecemos como norma,
mas
é acidental sua existência,
com
isso o Necessário se infere,
que
necessariamente cria a série
do
mundo, através de Inteligências.
A
última é o Intelecto dito Agente,
o
qual seria o mesmo em todos nós.
Da
mesma opinião é Averróis,
o
qual diz que há modos diferentes
de
ler o Alcorão, mas Maomé
teria
unido a razão e a fé.
Judeus
(IbnGabirol e Maimônides)
Seria
universal o hilemorfismo?
Avicebron
assim o defendia.
Um
corpo de outro se distinguiria
porque
nas formas há um pluralismo.
Princípio
criador é a Vontade,
à
qual de forma em forma, nós subimos.
Se
na ciência já nos instruímos,
e
a ela vemos longe da verdade
contida
na Escritura, então Moisés
virá
nos socorrer e nos mostrar
que
aquilo que parece, pois, negar
artigos
que expressam nossa fé,
não
tem senão provável a razão,
a
certa estando na Revelação.
Tomás de Aquino
Formosa
catedral tu edificas
com
pedras dos saberes dos antigos;
em
ti toda verdade encontra abrigo,
e
com o teu labor fica mais rica.
A
fé e a razão em ti unidas,
predicam
a que é uma só Verdade;
com
pés fincados na realidade,
percorres
cinco vias rumo à Vida.
Descobres,
mais profundo que a essência,
o
ser, ato mais íntimo do ente,
que
além de algo preciso é existente.
Do
Incriado Ser, maior ciência,
que
a tua, ó Angélico, não temos,
perene
inspiração, Doutor supremo!
Boaventura
Se
o mundo, para Deus, é uma estrada,
pecar
é o que à terra nos remete.
A
graça para o Alto nos converte,
faz
ver a criação assemelhada
ao
Criador: o mundo é seu vestígio,
a
sua imagem n’alma está presente,
e
é prova de que Ele é existente!
Se
o Ato Puro ocupa o fastígio,
os
outros entes todos têm matéria
–
possível que recebe o seu ato–,
e
mesmo o espírito criado!
Princípio
do indivíduo, então, seria,
da
forma e da matéria, a união;
seria
a morte, já, ressurreição.
Duns Escoto
Diferes
o objeto filosófico
daquele
próprio à Teologia:
a
Deus enquanto tal esta vigia,
e
a outra vê o problema ontológico.
O
“ser” abstrato, indeterminado,
–
e não o ipsum esse– é na verdade,
conceito
que, por univocidade,
a
tudo “o que é” é aplicado.
Não
é forma vazia, mas riqueza
real.
Divide-se em modalidades:
finito
e infinito (a Divindade).
Deus
livre realiza sua empresa:
essências
feitas de “formalidades”,
determinadas
pela “hecceidade”.
Ockham
Real
e verdadeiro garantidos
só
há na intuição que é sensível,
que
o fato evidencia. Deduzível
só
é aquele agente percebido.
O
único real é o indivíduo,
que
não é determinação da essência
–confusa
concepção da existência,
não
algo que, por Deus, foi concebido.
De
Deus, a unicidade, é só provável,
a
alma imortal não conhecemos.
Nem
mesmo a lei moral apreendemos:
se
Deus mandasse o ora condenável,
seria
meritório o cumprimento.
Ser livre é mais que ter conhecimento...
Eckhart
Na
sarça, ao dizer “eu sou quem sou”,
Deus
brinca como se Se escondesse;
a
Ele não compete, pois, o esse,
além
do ser, Se encontra Quem criou.
Mas
alto que o Ser é o Inteligir,
e
nele é que repousa a Unidade;
se
Deus, porém, é ser, é nulidade
a
criatura, que é nada por si.
Na
alma, além de suas faculdades,
habita
uma centelha, que é divina.
Se
o homem para ela se inclina,
com
Deus se faz a mística unidade.
Além
dos seres e do que a limita,
encontra,
a alma, Deus, que a habita.
Nicolau de Cusa
Se Deus é infinito,são finitos
o homem e o mundo. O Redentor
uniu
o que estava a se opor.
Conhecem
por primeiro os sentidos,
imagens,
fornecendo; a razão,
a
estas, compreende em abstrato;
por
fim o intelecto é levado,
com
a graça, a uma nova dimensão:
a
Deus, o infinito que ignoro.
Feliz
é quem percebe tal distância,
e
compartilha a douta ignorância!
É
Deus a coincidentia oppositorum!
O
Deus em que residem exemplares
das
coisas, que em nós são similares.
Renascimento e
Política (Maquiavel e Tomás More)
Não
mais pela moral será guiada
a
prática política real.
Se
o homem tende a ser, de fato, mau,
“virtude”
é a astúcia planejada.
Não
mais o bem comum, mas conservar
poder
se torna o fim do governante
–que
agora não tem mais o freio de antes–,
Maquiavel
a Polis vem turvar.
Tomás,
por outro lado, na Utopia,
buscava
o Estado ideal:
ausente
a propriedade, ausente o mal,
assim,
o corajoso mártir via.
De
fato, a sociedade desejada,
no
Céu será, enfim, realizada.
Descartes
Na
época em que impera o ceticismo,
envolto,
tu estás, por incertezas;
encontras,
em tua mente, a firmeza
buscada,
inaugurando o idealismo.
Sentidos
não se prestam a mostrar
a
verdadeira face do real,
e,
poderia mesmo, um “Gênio Mau”,
usar
boas razões para enganar.
De
uma coisa só não se duvida:
que
o ser duvidador, pois, pensa, existe!
O
cético inimigo não resiste!
Do
mundo, agora, a mens está cindida,
mas
nela encontra a ideia do Perfeito,
de
Deus, que não engana, pois, efeito.
Espinosa
Buscando
a racional necessidade,
no
mundo dos conceitos, instalado,
defines
o ainda não achado,
e
fazes, das noções, realidade.
“Substância”
é o conceito que se basta,
e
tal só cabe à totalidade:
o
Deus, “Causa de Si”, que é, na verdade,
a
própria natureza. Iconoclasta,
eriges
teu sistema panteísta,
no
qual as várias coisas são os modos
da
Única Substância. Move o todo,
a
necessária lei determinista;
ser
livre é sabê-lo, e assim te invade
o
amor do intelecto à Divindade!
Leibniz
Atento
às lições do Estagirita,
no
mundo, encontras a pluralidade:
as
mônadas, substâncias, unidades,
com
todas as mudanças já inscritas.
As
mônadas, fechadas, sem janelas,
por
Deus são previamente harmonizadas.
Verdades
de razão são as fundadas
na
não-contradição e há aquelas
de
fato, onde importa a experiência
(as
últimas, nas mônadas, contidas,
no
fundo, às de razão, são reduzidas).
O
Deus, cuja bondade e onipotência
defendes
firmemente, é o Criador
do
mundo que entre os mundos é o melhor!
Empirismo I
(Bacon, Hobbes)
Estão
no mesmo plano a mão e a mente,
na
lógica que Bacon inaugura;
na
nova via, que é mais segura,
o
pensador agora faz e entende.
Dos
ídolos que dão falsas certezas,
devemos
desfazer-nos. E passar
ao
método indutivo que nos dá
a
chave para abrir a natureza.
Se
o homem é um lobo para o homem,
e
a natureza, estado é de guerra,
a
paz só pôde vir a esta terra
por
meio de um Estado que consome
a
tudo em seu furor absolutista.
Vê
bem, Hobbes, se isso é uma conquista...
Empirismo II
(Locke, Berkeley, Hume)
Não
é, pois, a razão, que evidencia
aquilo
que se pode conhecer,
mas
só as sensações e o perceber
interno,
que as primeiras, associa.
Na
mente, então vazia, são efeitos,
ideias.
E são duas qualidades
sentidas:
as que têm sua verdade
nos
corpos e as que surgem no sujeito.
Assim,
em Locke o mundo externo existe;
o
Bispo diz “ser é ser percebido”,
real
é só o eu que é intuído;
e
em Hume o próprio eu já não resiste,
mas
é somente palco de impressões:
sujeitos
são, de ideias, coleções.
Adam Smith
Qual
é a natureza da riqueza?
Que
causa, nas nações, prosperidade?
A
busca egoísta da vantagem,
gerando
uma social grandeza
de
modo indireto; a economia,
guiada
pela “mão que não se vê”,
assim
termina por abastecer
a
todos, dando ensejo à harmonia.
Riqueza
é o produto do trabalho
que,
bens materiais, pode criar;
mas
dela, pois, quem usufruirá?
O
que produz? Aqui há algo falho...
Terminarei
agora o meu soneto:
ó
capital, devora$ meu ter... >o)
Kant
“Desperta,
pois, do sonho que pretende,
das
coisas, vislumbrar o próprio ser,
pois
é somente o seu aparecer
que
o conhecer humano vê, entende!”
A
alma humana e Deus, seu fundamento,
não
sendo intuídos, estão fora
daquilo
que é Ciência, muito embora,
na
prática razão têm seu assento.
O
proceder correto é respeitar
o
mandamento incondicional:
do
teu agir, faz lei universal.
O
belo agrada sem interessar,
de
modo universal e sem conceito.
Ó
céu, ó Lei, ó drama do Sujeito!
Fichte
Incondicionalmente,
a pessoa
moral
ou o “eu puro” se assenta:
tal
kantiano achado fundamenta,
de
Fichte, o pensamento, o qual incoa
no
Eu que a si se põe e ao fazê-lo
também
põe o “não-eu” com que se enfrenta.
Assim,
tudo resulta e se sustenta
no
ato que é do Eu. Novo modelo
idealista
agora se inaugura.
O
que é o “não-eu”, o Eu, limita,
e
este contra aquele se afirma,
fazendo-se:
atividade pura.
E
o que envolve a ambos, a Unidade,
é
o Absoluto, “luz”, Razão, Deidade.
Schelling
De
ti, quatro sistemas eu escuto:
a
natureza vês, primeiramente,
qual
lento despertar do inteligente,
e,
na base de ambos, o Absoluto.
Após
vem teu esquema panteísta,
no
qual se expressa a identidade
de
natureza e espiritualidade,
que
apenas a intuição conquista.
Depois,
à identidade renuncias,
e
evolução vês na realidade,
até
chegar à nossa liberdade.
Por
fim, bem perto da ortodoxia
religiosa,
torna-te teísta,
contrário
ao panteísmo idealista.
Hegel
Não
pode intuir, a mente humana,
imediatamente
o Absoluto,
mas
o trabalho deste gênio arguto
revela
como tudo dele emana.
Do
Espírito, a Fenomenologia,
desvela
o caminho ascensional,
por
qual a Consciência, afinal,
regressa
a si: eis a Sabedoria!
Conhece
a si primeiro pela Arte,
intuição
sensível da verdade;
e
na Religião, a intimidade,
no
Espírito agora toma parte;
mas
a Filosofia, o conceito,
faz
Um do objeto e do sujeito.
Feuerbach
Proclamas,
contra Hegel, o sensismo:
real
é o intuído nos sentidos,
não
há que ir além do percebido.
És
prógono audaz do ateísmo,
buscando
revelar do Cristianismo
o
que seria sua interna essência:
do
homem, a infinita consciência,
se
faz divina: antropomorfismo.
O
Deus religioso é o próprio ser
do homem sem, do indivíduo, as
raias,
um
ser que se aliena e assim se espraia!
Cristãos
mistérios querem nos dizer
verdades
de profunda humanidade:
o
amor, a comunhão, a piedade...
Define-se
o homem no ativismo,
mas
seu trabalho, no capitalismo,
perdeu
todo afã, todo lirismo,
somente
a luta vence tal abismo.
Histórico
é teu materialismo,
e
é, ele, puro economicismo.
Inverso,
pois, está o hegelianismo:
a
história, ideias, gera. Imanentismo.
Revelas
o real antagonismo:
o
proletário vence o burguesismo:
é
revolucionário o socialismo,
e
ruma em direção ao comunismo
–o
homem se dilui,
coletivismo–;
o
meio: a treva!, o totalitarismo.
Schopenhauer
O
mundo é minha representação,
só
é em dependência do sujeito
–
assumes, do Vedanta, o preceito–,
existe
só na sua percepção.
Tal
mundo é o que aparece e não essência,
mas
não estamos presos à ilusão:
o
corpo e seu desejo, pois, nos dão
a
irracional vontade na latência.
Essência
é a vontade insaciável,
que
quando satisfeita traz o tédio,
até
novo tender. Qual o remédio?
Na
arte, há liberdade, mas instável;
justiça
e compaixão, via que passa;
só
mesmo a ascese encontra a graça.
Kierkegaard
Real
é o indivíduo existente,
que
vence o imanentismo e o panteísmo;
que
a Deus encontra, pois, no cristianismo:
a
vida só é grave para o crente.
Ninguém
me substitui perante Cristo,
mas
muitos “como os outros” querem ser,
alheios
a Jesus buscam viver,
mas
nEle é que, autêntico, existo.
Sou
livre e a vida é possibilidade,
e
a angústia é o sentimento que domina,
angústia
que assim é minha sina.
Reconhecer
que na profundidade
estou
nas mãos de Deus, contra o assédio
do
desespero, assim, é o remédio.
Comte
Percorre
a Humanidade três estágios:
primeiro,
o teológico: o real
se
explica pelo sobrenatural;
depois,
do metafísico o apanágio
é
explicar por meio de essências;
por
fim, vem o estágio positivo,
ficando,
então, de lado, os motivos,
em
prol dos raciocínios da Ciência.
Só
ela é capaz de nos trazer
controle
sobre o que é natural,
domínio
sobre a vida social,
enfim,
nossos problemas resolver.
Transcende
o indivíduo, a Humanidade,
e
é ela a verdadeira divindade.
Nietzsche
De
um lado Dionísio, de outro, Apolo,
instintos
e razão em harmonia,
a
vida plena, sem dicotomia,
o
mundo “aquém”, só ele, é nosso solo.
Num
tempo infindo as forças limitadas
combinam-se
em seu retorno eterno.
Vontade
irracional, em teu governo,
ao
super-homem, toda devotada!
Os
débeis ressentidos contra os nobres
teriam
transmutado o que é o bem:
não
mais a altivez do que é “alguém”;
virtude
é nada ser, o bom é o pobre...
Mais
grave erro, nunca antes visto
é
tua concepção de quem é Cristo...
Wittgenstein
Exprimes,
da Linguagem, duas vias:
há
uma ontologia no Tratactus:
divide-se
o real em vários fatos,
compostos
do que não se dissocia.
Aos
fatos damos voz, representamos:
proposições
complexas são partidas
em
outras que já não são divididas.
Conjunto
do saber é o que falamos.
Filosofar:
elucidar o dito,
mas
há, mais que o empírico, o inefável:
o
místico, o que não é sondável.
Nas
Investigações um desmentido:
Linguagem
não é só denominar,
sentido é o uso. A jogar!
Husserl
O
homem não conhece tão somente
as
regras do seu próprio pensamento,
mas,
nele, se opera o atingimento
do
objeto e de leis independentes.
Estuda
a fenomenologia
vivências
que são, pois, “intencionais”,
voltadas
a objetos ideais,
essências
que a mente intuiria.
Forçoso
é suspender a conjectura
acerca
do existir do que é mentado,
bem
como do autor do vivenciado,
restando
a consciência dita pura;
só
falta elevar-se, da vivência,
à
pura intuição de sua essência.
Scheler
É
norma a priori, universal,
que
move nosso ético agir;
valores
são matéria a descobrir,
a
prática não vem da lei formal.
Captamos
os valores ordenados,
por
uma intuição emocional,
–a
qual também é espiritual–,
em
tipos ou modelos encarnados.
É
centro de intencionalidade,
o
homem, indivíduo concreto;
não
é atado ao mundo, mas aberto,
que
amando vê, dos outros, a verdade.
E
se existe algo é porque
também
existe o absoluto Ser.
Heidegger
O
“mais universal e evidente”,
o
“ser”, carece ainda de sentido,
e
é questão caída no olvido,
que
há de ser buscada, assim, no ente
humano,
que, no ser, se orienta;
que
não é um objeto simplesmente,
mas
“Ser-Aí”, a quem estão presentes
as coisas, e que escolhe sua senda.
O
homem é projeto, é “ser-no-mundo”,
aberto,
ele não é algo “solto”,
vê
sempre os demais, “ser-com-os-outros”,
cuidando,
escolhendo... Lá no fundo
de
todas as escolhas, late a morte,
mostrando-nos
o nada como norte...
Sartre
É
sempre de outro algo, a consciência,
do
“ser-em-si” que nela não habita.
E
ela nada é, pura existência,
um
“para-si” que se possibilita.
Por
tudo o que faz, é responsável,
não
há necessidade inevitável
–má-fé
seria agir como se houvesse–,
mas
liberdade sem alguma espécie.
O
outro, a consciência, me invade,
presença
que a objeto me reduz,
que
leva a negar-lhe a liberdade:
“o
inferno são os outros”, dizes. Mas
a
minha liberdade se conduz
com
outras e nas condições reais.
Gadamer
O
intérprete ao objeto deve estar
submisso,
superando confusões
que
brotam de si, quais limitações,
que
o texto podem obstaculizar.
O
texto e a pré-compreensão
se
encontram e se esboça um sentido,
que
poderá ser, pois, substituído:
constante
é a reelaboração.
Do
texto, a história dos efeitos
importa
para seu significado:
difícil
ler o que não tem passado!
A
tradição também tem seus direitos,
não
é incompatível com a razão,
também
é livre a conservação.
Adorno e
Horkheimer
Não
pode o pensamento apreender
o
todo do real. Desmascarar
a
falsa identidade do pensar
e
do real, e assim poder trazer
à
tona o diferente e reprimido.
Lutar
contra a razão instrumental,
que
do sistema é mera serviçal,
e
esmaga e aliena o indivíduo.
A
indústria cultural, seu instrumento,
impõe
os seus valores e modelos,
e
assim nos aprisiona em seus elos,
mediocrizando
o comportamento,
com
seu divertimento desprezível,
tornando
cada um substituível.
Zubiri
Filósofo
pujante do presente,
na
solidão sonora e profunda,
de
teses realistas tão rotundas,
com
tua inteligência senciente.
O
nous e os sentidos vão unidos,
imersos
no real todos estamos.
Se
ideias concebemos e buscamos
razões,
é porque somos compelidos
por
força do real que nos religa,
e
apoia nossa liberdade “em”,
que
move a buscar, do visto, além,
aquele
Fundamento que abriga,
que
é doador de possibilidades,
fundante,
radical ultimidade.
"Escola de Atenas" (1509), de Rafael Sanzio

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