1.3.16

Sonetos filosóficos


Escola de Mileto (Tales, Anaximandro e Anaxímenes)

O mundo é, desde sempre, “natureza”,
“princípio” de onde emerge o real,
o qual, permanecendo sempre igual,
produz as coisas, múltipla riqueza.

A “água”, fonte última da vida,
em Tales é o princípio procurado;
e, para Anaximandro, o “ilimitado”,
produz o ser, repara a injustiça:

o mundo nasce de uma divisão,
e predomina o individual,
mas volta-se à justiça original.

O “ar”, que é, da alma, a condição,
segundo Anaxímenes, também
abarca o universo e o mantém.


Pitagóricos

Não é na solidão, mas como escola
fraterna, que o saber se alimenta;
contrário a uma vida barulhenta,
imerso no segredo, ele consola.

O número é o princípio do real,
em tudo há uma regularidade
de cunho matemático: a verdade
do ser não se limita ao corporal.

A culpa original é expiada,
liberta a alma por metempsicose,
purificada a vida pela gnose

e pela vida reta e consagrada
à divindade. Não comprar, correr,
mas contemplar é o vosso viver.


Parmênides

Não é um elemento o que se busca,
mas o caráter próprio do real,
não “este” ou “aquele”, afinal,
e sim o “ser” que o múltiplo ofusca.

A via opinativa vê o vário
e via impraticável é a do não-ser.
Somente é verdadeiro o entender
que apenas há o Ente, sem contrário.

Contrária aos sentidos é a Mente,
pois vê, além das coisas, a Unidade,
e, do devir, a Imobilidade,

a Eterna Macicez própria do Ente.
Dois mundos são então constituídos,
a mente e os sentidos são cindidos...


Heráclito

Se para o homem grego é o movimento
que é, do pensamento, o horizonte
–que é que permanece, quem responde?–
tu foste quem fizeste dele o centro,

de forma oracular e enigmática.
No mundo, tudo muda o tempo todo,
devir que é governado pelo “fogo”.
Se “tudo é um”, porém, seria estática

a verdadeira face deste mundo?
Se este é “comum” para os “despertos”,
se a “coisa sábia” é “uma só”, decerto,

será que o sentido mais profundo
que teu pensar obscuro nos relata
de fato se opõe ao do Eleata?


Físicos pluralistas (Empédocles, Anaxágoras e Demócrito)

A terra, a água, o fogo e o ar:
raízes são os quatro elementos;
Empédocles, poeta de Agrigento,
o ente, veio, então, multiplicar;

o ódio a separar e o amor
unindo entre si os diferentes.
Divide, Anaxágoras, o ente,
em infinitas partes a compor

as coisas: eis as “homeomerias”,
que são,em várias“formas”, agrupadas,
e pela “Inteligência”, ordenadas.

Demócrito foi, na filosofia,
o pai do atomismo sensualista,
fundando a visão materialista.


Sócrates        

Virtude, para ti, é a ciência,
e o vício, ignorância, significa.
Não há culpa moral, pois não se aplica
a tese, que é cristã, da incoerência.

Feliz é quem a alma se dirige
à ordem da virtude. Nele o mal
não pode ter lugar. Tens um sinal,
o dáimon que te impede o que inflige.

Tu sabes que não sabes, pois divina,
só ela, é a ciência verdadeira.
Dialogar com a alma, eis a primeira

missão que o filósofo ensina.
Irônico, nos levas à humildade,
e eduzes de nossa alma a verdade.


Platão

O uno e o múltiplo esclareces,                      
descortinando um mundo de essências,
o verdadeiro ser das aparências,
que a alma, neste mundo aquém, esquece.

Ao perceber as coisas perecíveis,
o homem se recorda das Ideias,
e assim desemaranha-se da teia
dos entes rumo às Formas invisíveis.

À alma consideras tripartida:
razão, afeto, impulsos corporais,
regidos por virtudes cardeais,

que trazem harmonia à própria vida.
Justiça no indivíduo, sem a qual
não há aquela dita social.


Aristóteles

Filósofo tu és, por excelência,
amigo do saber da Divindade.
Em quatro causas buscas a verdade,
e encontras, entre as coisas, as essências.

O ser que existe em si é a ousia,
substantia, foi vertida em latim,
matéria e forma unidas com um fim,
do ser, a campeã da analogia.

O homem, animal que tem razão,
por ela encontrará felicidade:
saber, a principal atividade,

que não despreza a vida em comunhão.
Caminho rumo a tal é a virtude,
mediania para a plenitude.


Helenismo (Estoicismo e Epicurismo)

Num mundo em que o cosmopolitismo
ruiu a base cômoda da pólis,
buscar uma moral que nos console
explica o labor do Helenismo.

A lógica, a física, a moral,
o novo esquema do filosofar:
que é o mundo? Como bem pensar?,
a fim de ser feliz, fugir ao mal.

No Pórtico, viver sob a Razão
que rege o universo é autarquia,
por nada abalada: apatia;

e para o Jardim, sem sensação
na morte, não há nada a temer,
e é feliz quem vive o bom prazer.


Plotino

Do Uno, o mundo, por “emanação”,
saiu em graus diversos refletindo
a origem do seu próprio ser divino
– bem próximo chegaste à “criação”.

Primeiro o Noûs, o mundo das ideias,
depois a “Alma”, que é o seu reflexo,
por fim, vem a matéria, o ser complexo,
que é de nossas almas a cadeia,

da qual nós precisamos nos livrar
voltando ao Uno, nossa identidade,
eliminando em nós a alteridade,

na mística união a contemplar.
O exitus-reditus que ensinas
seria, logo após, cristã doutrina.

  
Agostinho

Confessas teu pecado e teu louvor
a Deus, que, a inquietude, nos acalma,
o íntimo habitante de nossa alma;
filósofo é quem tem por Ele amor!

O Deus, em que as ideias de Platão
habitam; sendo elas nossa luz,
mostrando a verdade que conduz
ao Criador das coisas, à Razão.

Memória, inteligência e vontade,
imagem que há em nós das Três Pessoas:
o Pai, o Verbo, o Amor. Em nós ressoa,

qual voz que nos convida à caridade,
motor que, oculto, faz a humana história,
na luta pelo bem até a glória.


Anselmo

Não partes do conceito, mas do dado
do Deus que é revelado na Escritura:
mais alto ser da mais sublime altura,
que pelo néscio ateu é bem pensado.

Se o Deus que para o néscio é negativo,
se encontra, ao ser pensado, em sua mente,
forçoso é que exista realmente,
pois é maior que a ideia o efetivo!

Assim, se Deus é o maior pensável,
sem dúvida existe, é necessário,
nem mesmo é razoável o contrário!

Se alguém, porém, não crê, é escusável,
contudo, os bens sensíveis são cimento
do qual se chega ao Bem do argumento.

  
Árabes (Avicena e Averróis)

Tu, médico tão sábio, nos informas
aquilo que primeiro é cognoscível:
o ser: ser necessário e ser possível;
a este conhecemos como norma,

mas é acidental sua existência,
com isso o Necessário se infere,
que necessariamente cria a série
do mundo, através de Inteligências.

A última é o Intelecto dito Agente,
o qual seria o mesmo em todos nós.
Da mesma opinião é Averróis,

o qual diz que há modos diferentes
de ler o Alcorão, mas Maomé
teria unido a razão e a fé.


Judeus (IbnGabirol e Maimônides)

Seria universal o hilemorfismo?
Avicebron assim o defendia.
Um corpo de outro se distinguiria
porque nas formas há um pluralismo.  

Princípio criador é a Vontade,
à qual de forma em forma, nós subimos.
Se na ciência já nos instruímos,
e a ela vemos longe da verdade

contida na Escritura, então Moisés
virá nos socorrer e nos mostrar
que aquilo que parece, pois, negar

artigos que expressam nossa fé,
não tem senão provável a razão,
a certa estando na Revelação.

  
Tomás de Aquino

Formosa catedral tu edificas
com pedras dos saberes dos antigos;
em ti toda verdade encontra abrigo,
e com o teu labor fica mais rica.

A fé e a razão em ti unidas,
predicam a que é uma só Verdade;
com pés fincados na realidade,
percorres cinco vias rumo à Vida.

Descobres, mais profundo que a essência,
o ser, ato mais íntimo do ente,
que além de algo preciso é existente.

Do Incriado Ser, maior ciência,
que a tua, ó Angélico, não temos,
perene inspiração, Doutor supremo!


Boaventura

Se o mundo, para Deus, é uma estrada,
pecar é o que à terra nos remete.
A graça para o Alto nos converte,
faz ver a criação assemelhada

ao Criador: o mundo é seu vestígio,
a sua imagem n’alma está presente,
e é prova de que Ele é existente!
Se o Ato Puro ocupa o fastígio,

os outros entes todos têm matéria
– possível que recebe o seu ato–,
e mesmo o espírito criado!

Princípio do indivíduo, então, seria,
da forma e da matéria, a união;
seria a morte, já, ressurreição.
  

Duns Escoto

Diferes o objeto filosófico
daquele próprio à Teologia:
a Deus enquanto tal esta vigia,
e a outra vê o problema ontológico.

O “ser” abstrato, indeterminado,
– e não o ipsum esse– é na verdade,
conceito que, por univocidade,
a tudo “o que é” é aplicado.

Não é forma vazia, mas riqueza
real. Divide-se em modalidades:
finito e infinito (a Divindade).

Deus livre realiza sua empresa:
essências feitas de “formalidades”,
determinadas pela “hecceidade”.


Ockham

Real e verdadeiro garantidos
só há na intuição que é sensível,
que o fato evidencia. Deduzível
só é aquele agente percebido.

O único real é o indivíduo,
que não é determinação da essência
–confusa concepção da existência,
não algo que, por Deus, foi concebido.

De Deus, a unicidade, é só provável,
a alma imortal não conhecemos.
Nem mesmo a lei moral apreendemos:

se Deus mandasse o ora condenável,
seria meritório o cumprimento.
Ser livre é mais que ter conhecimento...


Eckhart

Na sarça, ao dizer “eu sou quem sou”,
Deus brinca como se Se escondesse;
a Ele não compete, pois, o esse,
além do ser, Se encontra Quem criou.

Mas alto que o Ser é o Inteligir,
e nele é que repousa a Unidade;
se Deus, porém, é ser, é nulidade
a criatura, que é nada por si.

Na alma, além de suas faculdades,
habita uma centelha, que é divina.
Se o homem para ela se inclina,

com Deus se faz a mística unidade.
Além dos seres e do que a limita,
encontra, a alma, Deus, que a habita.


Nicolau de Cusa

Se Deus é infinito,são finitos
o homem e o mundo. O Redentor
uniu o que estava a se opor.
Conhecem por primeiro os sentidos,

imagens, fornecendo; a razão,
a estas, compreende em abstrato;
por fim o intelecto é levado,
com a graça, a uma nova dimensão:

a Deus, o infinito que ignoro.
Feliz é quem percebe tal distância,
e compartilha a douta ignorância!

É Deus a coincidentia oppositorum!
O Deus em que residem exemplares
das coisas, que em nós são similares.


Renascimento e Política (Maquiavel e Tomás More)

Não mais pela moral será guiada
a prática política real.
Se o homem tende a ser, de fato, mau,
“virtude” é a astúcia planejada.

Não mais o bem comum, mas conservar
poder se torna o fim do governante
–que agora não tem mais o freio de antes–,
Maquiavel a Polis vem turvar.

Tomás, por outro lado, na Utopia,
buscava o Estado ideal:
ausente a propriedade, ausente o mal,

assim, o corajoso mártir via.
De fato, a sociedade desejada,
no Céu será, enfim, realizada.


Descartes

Na época em que impera o ceticismo,
envolto, tu estás, por incertezas;
encontras, em tua mente, a firmeza
buscada, inaugurando o idealismo.

Sentidos não se prestam a mostrar
a verdadeira face do real,
e, poderia mesmo, um “Gênio Mau”,
usar boas razões para enganar.

De uma coisa só não se duvida:
que o ser duvidador, pois, pensa, existe!
O cético inimigo não resiste!

Do mundo, agora, a mens está cindida,
mas nela encontra a ideia do Perfeito,
de Deus, que não engana, pois, efeito.


Espinosa

Buscando a racional necessidade,
no mundo dos conceitos, instalado,
defines o ainda não achado,
e fazes, das noções, realidade.

“Substância” é o conceito que se basta,
e tal só cabe à totalidade:
o Deus, “Causa de Si”, que é, na verdade,
a própria natureza. Iconoclasta,

eriges teu sistema panteísta,
no qual as várias coisas são os modos
da Única Substância. Move o todo,

a necessária lei determinista;
ser livre é sabê-lo, e assim te invade
o amor do intelecto à Divindade!


Leibniz

Atento às lições do Estagirita,
no mundo, encontras a pluralidade:
as mônadas, substâncias, unidades,
com todas as mudanças já inscritas.

As mônadas, fechadas, sem janelas,
por Deus são previamente harmonizadas.
Verdades de razão são as fundadas
na não-contradição e há aquelas

de fato, onde importa a experiência
(as últimas, nas mônadas, contidas,
no fundo, às de razão, são reduzidas).

O Deus, cuja bondade e onipotência
defendes firmemente, é o Criador
do mundo que entre os mundos é o melhor!


Empirismo I (Bacon, Hobbes)

Estão no mesmo plano a mão e a mente,
na lógica que Bacon inaugura;
na nova via, que é mais segura,
o pensador agora faz e entende.

Dos ídolos que dão falsas certezas,
devemos desfazer-nos. E passar
ao método indutivo que nos dá
a chave para abrir a natureza.

Se o homem é um lobo para o homem,
e a natureza, estado é de guerra,
a paz só pôde vir a esta terra

por meio de um Estado que consome
a tudo em seu furor absolutista.
Vê bem, Hobbes, se isso é uma conquista...


Empirismo II (Locke, Berkeley, Hume)

Não é, pois, a razão, que evidencia
aquilo que se pode conhecer,
mas só as sensações e o perceber
interno, que as primeiras, associa.

Na mente, então vazia, são efeitos,
ideias. E são duas qualidades
sentidas: as que têm sua verdade
nos corpos e as que surgem no sujeito.

Assim, em Locke o mundo externo existe;
o Bispo diz “ser é ser percebido”,
real é só o eu que é intuído;

e em Hume o próprio eu já não resiste,
mas é somente palco de impressões:
sujeitos são, de ideias, coleções.


Adam Smith

Qual é a natureza da riqueza?
Que causa, nas nações, prosperidade?
A busca egoísta da vantagem,
gerando uma social grandeza

de modo indireto; a economia,
guiada pela “mão que não se vê”,
assim termina por abastecer
a todos, dando ensejo à harmonia.

Riqueza é o produto do trabalho
que, bens materiais, pode criar;
mas dela, pois, quem usufruirá?

O que produz? Aqui há algo falho...
Terminarei agora o meu soneto:
ó capital, devora$ meu ter...  >o)


Kant

“Desperta, pois, do sonho que pretende,
das coisas, vislumbrar o próprio ser,
pois é somente o seu aparecer
que o conhecer humano vê, entende!”

A alma humana e Deus, seu fundamento,
não sendo intuídos, estão fora
daquilo que é Ciência, muito embora,
na prática razão têm seu assento.

O proceder correto é respeitar
o mandamento incondicional:
do teu agir, faz lei universal.

O belo agrada sem interessar,
de modo universal e sem conceito.
Ó céu, ó Lei, ó drama do Sujeito!


Fichte

Incondicionalmente, a pessoa
moral ou o “eu puro” se assenta:
tal kantiano achado fundamenta,
de Fichte, o pensamento, o qual incoa

no Eu que a si se põe e ao fazê-lo
também põe o “não-eu” com que se enfrenta.
Assim, tudo resulta e se sustenta
no ato que é do Eu. Novo modelo

idealista agora se inaugura.
O que é o “não-eu”, o Eu, limita,
e este contra aquele se afirma,

fazendo-se: atividade pura.
E o que envolve a ambos, a Unidade,
é o Absoluto, “luz”, Razão, Deidade.


Schelling

De ti, quatro sistemas eu escuto:
a natureza vês, primeiramente,
qual lento despertar do inteligente,
e, na base de ambos, o Absoluto.

Após vem teu esquema panteísta,
no qual se expressa a identidade
de natureza e espiritualidade,
que apenas a intuição conquista.

Depois, à identidade renuncias,
e evolução vês na realidade,
até chegar à nossa liberdade.

Por fim, bem perto da ortodoxia
religiosa, torna-te teísta,
contrário ao panteísmo idealista.


Hegel

Não pode intuir, a mente humana,
imediatamente o Absoluto,
mas o trabalho deste gênio arguto
revela como tudo dele emana.

Do Espírito, a Fenomenologia,
desvela o caminho ascensional,
por qual a Consciência, afinal,
regressa a si: eis a Sabedoria!

Conhece a si primeiro pela Arte,
intuição sensível da verdade;
e na Religião, a intimidade,

no Espírito agora toma parte;
mas a Filosofia, o conceito,
faz Um do objeto e do sujeito.


Feuerbach

Proclamas, contra Hegel, o sensismo:
real é o intuído nos sentidos,
não há que ir além do percebido.
És prógono audaz do ateísmo,

buscando revelar do Cristianismo
o que seria sua interna essência:
do homem, a infinita consciência,
se faz divina: antropomorfismo.

O Deus religioso é o próprio ser
do homem sem, do indivíduo, as raias,        
um ser que se aliena e assim se espraia!

Cristãos mistérios querem nos dizer
verdades de profunda humanidade:
o amor, a comunhão, a piedade...


Marx

Define-se o homem no ativismo,
mas seu trabalho, no capitalismo,
perdeu todo afã, todo lirismo,
somente a luta vence tal abismo.
Histórico é teu materialismo,
e é, ele, puro economicismo.
Inverso, pois, está o hegelianismo:
a história, ideias, gera. Imanentismo.
Revelas o real antagonismo:
o proletário vence o burguesismo:
é revolucionário o socialismo,
e ruma em direção ao comunismo
–o homem se dilui, coletivismo–;
o meio: a treva!, o totalitarismo.


Schopenhauer

O mundo é minha representação,
só é em dependência do sujeito
– assumes, do Vedanta, o preceito–,
existe só na sua percepção.

Tal mundo é o que aparece e não essência,
mas não estamos presos à ilusão:
o corpo e seu desejo, pois, nos dão
a irracional vontade na latência.

Essência é a vontade insaciável,
que quando satisfeita traz o tédio,
até novo tender. Qual o remédio?

Na arte, há liberdade, mas instável;
justiça e compaixão, via que passa;
só mesmo a ascese encontra a graça.

  
Kierkegaard

Real é o indivíduo existente,
que vence o imanentismo e o panteísmo;
que a Deus encontra, pois, no cristianismo:
a vida só é grave para o crente.

Ninguém me substitui perante Cristo,
mas muitos “como os outros” querem ser,
alheios a Jesus buscam viver,
mas nEle é que, autêntico, existo.

Sou livre e a vida é possibilidade,
e a angústia é o sentimento que domina,
angústia que assim é minha sina.

Reconhecer que na profundidade
estou nas mãos de Deus, contra o assédio
do desespero, assim, é o remédio.


Comte

Percorre a Humanidade três estágios:
primeiro, o teológico: o real
se explica pelo sobrenatural;
depois, do metafísico o apanágio

é explicar por meio de essências;
por fim, vem o estágio positivo,
ficando, então, de lado, os motivos,
em prol dos raciocínios da Ciência.

Só ela é capaz de nos trazer
controle sobre o que é natural,
domínio sobre a vida social,

enfim, nossos problemas resolver.
Transcende o indivíduo, a Humanidade,
e é ela a verdadeira divindade.

  
Nietzsche

De um lado Dionísio, de outro, Apolo,
instintos e razão em harmonia,
a vida plena, sem dicotomia,
o mundo “aquém”, só ele, é nosso solo.

Num tempo infindo as forças limitadas
combinam-se em seu retorno eterno.
Vontade irracional, em teu governo,
ao super-homem, toda devotada!

Os débeis ressentidos contra os nobres
teriam transmutado o que é o bem:
não mais a altivez do que é “alguém”;

virtude é nada ser, o bom é o pobre...
Mais grave erro, nunca antes visto
é tua concepção de quem é Cristo...


Wittgenstein

Exprimes, da Linguagem, duas vias:
há uma ontologia no Tratactus:
divide-se o real em vários fatos,
compostos do que não se dissocia.

Aos fatos damos voz, representamos:
proposições complexas são partidas
em outras que já não são divididas.
Conjunto do saber é o que falamos.

Filosofar: elucidar o dito,
mas há, mais que o empírico, o inefável:
o místico, o que não é sondável.

Nas Investigações um desmentido:
Linguagem não é só denominar,
sentido é o uso. A jogar!

  
Husserl

O homem não conhece tão somente
as regras do seu próprio pensamento,
mas, nele, se opera o atingimento
do objeto e de leis independentes.

Estuda a fenomenologia
vivências que são, pois, “intencionais”,
voltadas a objetos ideais,
essências que a mente intuiria. 

Forçoso é suspender a conjectura
acerca do existir do que é mentado,
bem como do autor do vivenciado,

restando a consciência dita pura;
só falta elevar-se, da vivência,
à pura intuição de sua essência.


Scheler

É norma a priori, universal,
que move nosso ético agir;
valores são matéria a descobrir,
a prática não vem da lei formal.

Captamos os valores ordenados,
por uma intuição emocional,
–a qual também é espiritual–,
em tipos ou modelos encarnados.

É centro de intencionalidade,
o homem, indivíduo concreto;
não é atado ao mundo, mas aberto,

que amando vê, dos outros, a verdade.
E se existe algo é porque
também existe o absoluto Ser.

  
Heidegger

O “mais universal e evidente”,
o “ser”, carece ainda de sentido,
e é questão caída no olvido,
que há de ser buscada, assim, no ente

humano, que, no ser, se orienta;
que não é um objeto simplesmente,
mas “Ser-Aí”, a quem estão presentes
as coisas, e que escolhe sua senda.

O homem é projeto, é “ser-no-mundo”,
aberto, ele não é algo “solto”,
vê sempre os demais, “ser-com-os-outros”,

cuidando, escolhendo... Lá no fundo
de todas as escolhas, late a morte,
mostrando-nos o nada como norte...


Sartre

É sempre de outro algo, a consciência,
do “ser-em-si” que nela não habita.
E ela nada é, pura existência,
um “para-si” que se possibilita.

Por tudo o que faz, é responsável,
não há necessidade inevitável
–má-fé seria agir como se houvesse–,
mas liberdade sem alguma espécie.

O outro, a consciência, me invade,
presença que a objeto me reduz,
que leva a negar-lhe a liberdade:

“o inferno são os outros”, dizes. Mas
a minha liberdade se conduz
com outras e nas condições reais.

  
Gadamer

O intérprete ao objeto deve estar
submisso, superando confusões
que brotam de si, quais limitações,
que o texto podem obstaculizar.

O texto e a pré-compreensão
se encontram e se esboça um sentido,
que poderá ser, pois, substituído:
constante é a reelaboração.

Do texto, a história dos efeitos
importa para seu significado:
difícil ler o que não tem passado!

A tradição também tem seus direitos,
não é incompatível com a razão,
também é livre a conservação.


Adorno e Horkheimer

Não pode o pensamento apreender
o todo do real. Desmascarar
a falsa identidade do pensar
e do real, e assim poder trazer

à tona o diferente e reprimido.
Lutar contra a razão instrumental,
que do sistema é mera serviçal,
e esmaga e aliena o indivíduo.

A indústria cultural, seu instrumento,
impõe os seus valores e modelos,
e assim nos  aprisiona em seus elos,

mediocrizando o comportamento,
com seu divertimento desprezível,
tornando cada um substituível.


Zubiri

Filósofo pujante do presente,
na solidão sonora e profunda,
de teses realistas tão rotundas,
com tua inteligência senciente.

O nous e os sentidos vão unidos,
imersos no real todos estamos.
Se ideias concebemos e buscamos
razões, é porque somos compelidos

por força do real que nos religa,
e apoia nossa liberdade “em”,
que move a buscar, do visto, além,

aquele Fundamento que abriga,
que é doador de possibilidades,
fundante, radical ultimidade.



"Escola de Atenas" (1509), de Rafael Sanzio

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