28.2.16

Dietrich von Hildebrand sobre a misericórdia

“A misericórdia constitui uma virtude particularmente divina [...]

[...] A compaixão deriva da solidariedade de todos os homens na dor [...]

A misericórdia, pelo contrário, só é possível essencialmente a partir de Deus; originariamente, é um sentimento exclusivamente divino. Constitui, portanto, uma virtude especificamente sobrenatural, só realizável dentro do ethos cristão. Todo o esforço para a realizar num plano puramente natural –no sentido de uma compaixão que desce do alto– produz apenas resultados negativos [...]

Repare-se, porém, que a misericórdia não constitui nenhuma antítese da justiça em si, isto é, não significa carência de justiça. Contém esse valor per emminentiam, por superação [...]

A misericórdia só se encontra nos que contemplam tudo in conspectu Dei, nos que, com ânimo desperto, consideram tudo com medidas sobrenaturais. Pressupõe sempre uma íntima liberdade, uma efusão do coração. Cada cicatriz, cada endurecimento produzido por um acontecimento que não ordenamos diante de Deus, refreia a livre corrente de misericórdia [...] Só pode participar desta virtude especificamente divina quem alcançar o domínio sobrenatural que deriva da verdadeira liberdade, a superioridade característica de quem busca, primeiro que tudo, o reino de Deus e a sua justiça, de quem não espera nada das suas forças, mas tudo de Deus.

Só aquele que quebrar os estreitos limites da sua própria vida, só esse poderá penetrar na ‘miséria’ alheia e, transpondo toda a compaixão, realizar o gesto de amor bondoso que se inclina sobre o miserável e lhe permite sentir um hálito do amor de Deus que o eleve acima de suas fraquezas [...]

A misericórdia é uma virtude especificamente sobrenatural que só pode florescer em quem vive em Cristo e que, como nenhuma outra virtude, representa certíssimo sinal de uma vida em Cristo [...]”


[HILDEBRAND, Dietrich von. A nossa transformação em Cristo. Lisboa: Editorial Aster, 1960, pp. 260-268]





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