“A misericórdia constitui uma virtude
particularmente divina [...]
[...] A compaixão deriva da solidariedade
de todos os homens na dor [...]
A misericórdia, pelo contrário, só é
possível essencialmente a partir de Deus; originariamente, é um sentimento
exclusivamente divino. Constitui, portanto, uma virtude especificamente
sobrenatural, só realizável dentro do ethos
cristão. Todo o esforço para a realizar num plano puramente natural –no sentido
de uma compaixão que desce do alto– produz apenas resultados negativos [...]
Repare-se, porém, que a misericórdia não
constitui nenhuma antítese da justiça em si, isto é, não significa carência de
justiça. Contém esse valor per emminentiam,
por superação [...]
A misericórdia só se encontra nos que
contemplam tudo in conspectu Dei, nos
que, com ânimo desperto, consideram tudo com medidas sobrenaturais. Pressupõe
sempre uma íntima liberdade, uma efusão do coração. Cada cicatriz, cada
endurecimento produzido por um acontecimento que não ordenamos diante de Deus,
refreia a livre corrente de misericórdia [...] Só pode participar desta virtude
especificamente divina quem alcançar o domínio sobrenatural que deriva da
verdadeira liberdade, a superioridade característica de quem busca, primeiro
que tudo, o reino de Deus e a sua justiça, de quem não espera nada das suas
forças, mas tudo de Deus.
Só aquele que quebrar os estreitos
limites da sua própria vida, só esse poderá penetrar na ‘miséria’ alheia e,
transpondo toda a compaixão, realizar o gesto de amor bondoso que se inclina
sobre o miserável e lhe permite sentir um hálito do amor de Deus que o eleve
acima de suas fraquezas [...]
A misericórdia é uma virtude
especificamente sobrenatural que só pode florescer em quem vive em Cristo e
que, como nenhuma outra virtude, representa certíssimo sinal de uma vida em Cristo [...]”

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