17.1.17

A religação do homem a Deus em Xavier Zubiri e Tomás de Aquino

Texto originalmente publicado em: Coletânea: Revista de Filosofia e Teologia da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. Ano XII - Fascículo 24 (Julho/Dezembro 2013), pp. 234-252.

Este texto deve ser lido tendo em conta os reparos que fiz em Realidade, Religação, Criação.


Introdução

O tema da “religação” é uma das contribuições mais importantes do filósofo espanhol Xavier Zubiri (1898-1983): a mera análise dos fatos mostraria que vivemos religados ao fundamento de nossa existência, e a razão o demonstraria como sendo Deus[1]. Em Tomás de Aquino (1225-1274), penso que a realidade da religação se expressa na noção de “relação criatural”, que fala de um laço inquebrantável entre a criatura e o Criador[2]. A religação ou a relação criatural perpassam todos os seres, mas só na pessoa humana o vínculo com Deus pode chegar a ser consciente, sendo, pois, raiz da religiosidade.



Detalhe de "A criação de Adão" (1510), de Michelangelo


Para Zubiri a criação é um dado da fé cristã, não da pura razão, e aqui se apresenta o primeiro problema para o presente artigo: pode a relação criatural da qual fala Tomás corresponder à religação? Sabendo, ademais, que a religação é um exemplo do que Zubiri chama “respectividade”, conexão que as realidades têm por ser reais, cuja noção seria, segundo o autor basco, distinta da noção clássica de relação, seja categorial, seja transcendental, a questão se retrotrai a esta outra: podem ser correlatas as noções de respectividade e relação?[3] Assim, pois, o trabalho terá a seguinte estrutura: numa primeira parte, tratarei das noções de respectividade e relação, e numa segunda parte, tratarei das noções de religação e relação criatural. Antes, contudo, farei algumas considerações prévias sobre a religação, a fim de esclarecer a relação que existe entre a mesma e a religião.

A palavra “religação” não tem, na filosofia de Zubiri, conotação de “religião”. É certo que vem de religare, “religar”, donde também provém “religião”, que diz respeito à reconciliação entre o homem e Deus após uma queda, uma falta, um pecado, enfim, mas “religação” é utilizada por Zubiri para indicar o vínculo originário que existe entre Deus e o homem, formalmente anterior ao vínculo religioso e raiz da possibilidade deste último. O homem é religado a Deus e, em virtude desta religação, pode assumir em sua vida uma postura religiosa, entregando-se a Deus por meio da fé; a religião, assim, é uma concreção da religação. Certamente, portanto, Zubiri pensou na ressonância religiosa do termo “religação” para expressar este vínculo entre Deus e o homem. A religação não é só um vínculo originário, como é inquebrantável; a experiência do pecado ou da ofensa a Deus, embora de um ponto de vista religioso, rompa a comunhão e a amizade com Deus, não é capaz de desfazer o laço religacional, que diz respeito à fundamentação que Deus exerce na vida do homem. Esta religação pode, deste modo, ser vivida conversiva ou aversivamente: eu continuo religado a Deus, isto é, fundamentado por Ele, ainda que não mais goze do favor especial de sua amizade –da experiência da graça santificante, em termos cristãos. Estas características da religação, aqui brevemente enunciadas, conduziram-me à noção de “relação criatural”, que em Santo Tomás é o vínculo, fundado na criação, de dependência da criatura para com Deus, anterior, portanto, ao pecado e à experiência religiosa.


1. Respectividade e relação

a) Respectividade

Para entender a questão da respectividade[4], é necessário partir dos temas “respectivos” da intelecção e da realidade[5]. Para Zubiri, nossa inteligência é senciente, isto é, intelige no próprio sentir, de modo que também podemos falar que temos um sentir intelectivo, o qual apreende as coisas, nos seus diversos sentidos, não só como possuindo tais ou quais qualidades sensíveis, mas como “reais”, isto é, como algo que é de suyo, “de si próprio”, e não da intelecção[6]. Realidade é a “formalidade” do de suyo, o modo que o conteúdo percebido fica na apreensão humana.

Toda realidade é, ao mesmo tempo, algo aberto a respeito do próprio conteúdo e a respeito de toda outra coisa real. Essa “abertura respectiva”, nos dois níveis, é constitutiva da coisa real, e não algo consecutivo à realidade; a coisa real é de suyo respectivamente aberta. Isso é evidente no caso da abertura ao próprio conteúdo, sem o qual a coisa não seria real, mas a abertura às demais coisas reais também é constitutiva, pois ser “real” é sê-lo dentro da “realidade” simplesmente, em conexão com todo o real. Para o filósofo basco, a respectividade não é relação, porque esta pressuporia os correlatos, isto é, as realidades relacionadas existiriam antes da relação. De modo complementar, podemos entender que a respectividade das realidades no que se refere a seu conteúdo real é o que Zubiri denomina “cosmos”, e que a respectividade, mais radical, que as coisas reais têm entre si não em virtude de seu conteúdo real, mas por causa de seu caráter real, é o que se chama “mundo”; poderia haver muitos cosmos, mas haveria apenas um único mundo.

No artigo “Respectividad de lo real”, encontramos alguns elementos importantes para compreender uma possível relação entre a respectividade zubiriana e a categoria clássica da “relação”. Nele, Zubiri diz que a coisa real é mais radical que a remissão de sua realidade a outras realidades; que antes de remeter-nos a outras formas de realidade, a coisa real começa por ser “sua” realidade. Nesse texto, Zubiri chama a coisa real, sob este aspecto, de “suidade”; esse termo seria reservado, mais tarde, à pessoa humana, que é formalmente uma realidade “sua”, ao inteligir-se como real. Assim, por exemplo, Zubiri nos diz:

Antes de ser remetente a “outra” forma e modo de realidade, e justamente para poder sê-lo, a realidade começa por ser já “sua” forma e modo de realidade. Ou seja, a dimensão remetente está fundada em uma dimensão mais radical, na dimensão constituinte. (...) por ser “sua” é que [a suidade] pode remeter a “outra” [7].

Uma “forma de realidade” é uma realidade determinada por seu conteúdo, e um “modo de realidade” é a maneira segundo a qual o conteúdo real pertence à realidade, como, por exemplo, o modo “pessoal”, no qual o conteúdo é formalmente “seu”. A dimensão remetente é aquela pela qual a realidade é aberta a todas as outras realidades; ela se funda naquela outra dimensão, “suificante” e “constituinte”, segundo a qual a realidade está aberta a seu próprio conteúdo, é sua própria forma de realidade: “a respectividade remetente está fundada essencialmente na respectividade constituinte” [8].

A respectividade seria, em qualquer caso, um elemento constitutivo da coisa real, mas sua inseparável respectividade “mundificante” (remissão às outras coisas reais) estaria apoiada na prévia –não cronologicamente, mas formalmente– respectividade suificante (abertura ao próprio conteúdo).

Em Sobre la esencia, Zubiri falava de uma “respectividade externa” e de uma “respectividade interna”[9]. A primeira refere-se ao mundo, já a segunda, à conexão que têm entre si as notas reais de uma “substantividade”, que é como Zubiri chama a coisa real, sua versão para a substância clássica, e que se caracteriza por ser um sistema de notas coerentes entre si, e suficientes para ser algo de suyo[10].

b) Relação

Na tradição clássica, a partir de Aristóteles, o próprio ou constitutivo de toda “relação” é ser “para algo”[11]. Os medievais indicaram que os elementos integrantes da relação são três: o “sujeito” ou o que é referido a outro, o “termo”, que é aquilo ao que é referido o sujeito, e o “fundamento” ou o que causa e especifica a relação. Assim, por exemplo, a relação de paternidade funda-se na geração; antes da mesma, o sujeito não era pai. A relação é uma das dez categorias aristotélicas, segundo a enumeração de Categ 4 (1b 25-27) e Top I, 9 (103b 20-23). A relação é algo real, mas sua realidade se apoia na coisa real já constituída. Este apoiar-se é o que Aristóteles denominou “acidente”, algo que não tem realidade mais que em uma coisa previamente real. Assim, a relação é algo consecutivo à realidade de cada um dos correlatos.

Pode-se pensar também num tipo de relação que se identifica com a realidade mesma do sujeito; tal é a “relação transcendental”. Assim, por exemplo, a potência é constitutivamente ordenada ao ato; esta ordenação não é adventícia ou consecutiva à realidade própria da potência, pois ela só é potência por referir-se ao ato. O mesmo se pode dizer da ordenação da matéria à forma, que constitui o ser da matéria. Alguns autores consideram que a relação transcendental não pode ser defendida a partir da filosofia do Aquinate[12]; entre aqueles que a aceitam, alguns consideram que ela é o tipo de relação existente entre os entes criados e o Criador, sendo real por parte da criatura, e ideal por parte de Deus[13].

A mencionada relação ideal, ou de razão, existe quando faltam um ou vários dos elementos que requer a relação real, seja porque os dois extremos, ou um deles, não são reais, ou não são realmente distintos entre si; seja porque não existe no sujeito um fundamento real da relação. Assim, por exemplo, as relações conceituais da lógica, como a que existe entre espécie e gênero, ou entre a espécie e seus indivíduos.

c) É possível alinhar respectividade e relação?

Aparentemente, temos de dizer não à pergunta deste tópico, se considerarmos, sem a devida atenção, o parecer do próprio Zubiri, que nos diz que a respectividade não requer a presença de uma alteridade; inclusive, se houvesse uma única coisa real, ela seria respectiva em e por si mesma (aludindo a toda outra possível realidade)[14]. Já a relação, categorial ou transcendental, implicaria a existência de uma outra realidade. Ocorre que Zubiri está se referindo à respectividade remetente ou mundificante. Não haveria muito sentido em falar, acerca da respectividade constituinte ou suificante, que ela prescinde da presença de outra realidade, pois ela não é uma respectividade entre uma coisa real e outra(s) realidade(s) existente(s) ou meramente possível(is), mas sim entre a formalidade de realidade e seu conteúdo. Por outro lado, a chamada relação transcendental tampouco é uma relação entre duas coisas reais ou entes, mas entre princípios constitutivos inseparáveis, porém distinguíveis, da realidade. Da mesma forma que não há formalidade real sem conteúdo (respectividade constituinte), não há matéria sem forma, potência sem ato, acidente sem substância, ou essência sem ato de ser (relação transcendental). A respectividade constituinte é uma relação transcendental, ou, a relação transcendental é relação constituinte, ampliando o significado desta, no sentido de constituir não apenas a coisa real ou o ente (composto de formalidade de realidade e conteúdo, ou ato de ser e essência), mas toda e qualquer estrutura real respectiva em que a realidade de um termo consiste em sua ordenação a outro (como aquelas de matéria e forma, potência e ato, acidente e substância).

Da respectividade remetente ou mundificante é que se poderia falar, com propriedade, que prescinde da presença de uma alteridade real. Ao mesmo tempo, porém, poderíamos compará-la a uma relação categorial, na medida em que radica na respectividade constituinte, ou seja, na coisa real já constituída; tratar-se-ia, portanto, de um acidente, ainda que seja um acidente necessário e inseparável da coisa real. O sujeito desta relação é a coisa real, e seu término são as demais coisas reais existentes ou possíveis, mas qual é seu fundamento? Não pode ser a coisa real considerada concretamente, como tal realidade, o que Zubiri chama de “talidade”, pois esta é o sujeito da relação; no entanto, podemos considerar algo real como uma “forma de realidade”, que é a mesma coisa real, já não vista em sua especificidade, mas como transcendendo o seu próprio conteúdo, como um “mais” que se estende, comunicando-se a toda e qualquer outra coisa real. A realidade, neste sentido, é comunicação[15], que se expande, desde cada coisa real, em direção à alteridade real, existente ou possível. Poder-se-ia falar, em termos tomasianos, de uma comunicação do ser? Sim, se considerarmos o transcendental bem, convertível ao ente, e o adágio medieval bonum est diffusivum sui, assumido por Tomás; assim se manifesta o Aquinate, na Suma Contra os Gentios:

Além disso, a comunicação do ser e da bondade procede da bondade. Isto é manifesto pela própria natureza do bem e pelo seu conceito. De fato, por natureza, o bem de cada coisa é o seu ato e a sua perfeição. Ora, cada coisa opera por estar em ato; e operando, difunde o ser e a bondade nas outras coisas. (...) Por isso diz-se: O bem é difusivo de si e do ser [Dionísio, Os Nomes Divinos] [16].

O bem equivale ao ente, enquanto a bondade equivale ao ato de ser. A bondade ou o ser de cada coisa se comunica, se propaga; ela é irradiada como é irradiada a luz do sol, símbolo da Ideia platônica do Bem. O bem, na tradição cristã, que Tomás defende, não é um fim “estático”, senão “extático”, como diria Dionísio Areopagita; ele move, atrai, doando-se, comunicando-se. O ser é essencialmente dinâmico; como diz Zubiri, realidade é um “dar de si”, é “doação”[17].


2. Religação e relação criatural

a) O fato da religação

O homem, para Zubiri, ao possuir a “habitude”, ou modo de enfrentar-se com as coisas, da inteligência, é um “animal de realidades”[18]. Ademais, ele se apreende como sua própria realidade, e isso constitui seu caráter pessoal: o homem é pessoa porque é “suidade”, uma realidade formalmente sua. Ao ser assim, o homem é de certo modo “absoluto”, mas não absolutamente, pois o homem se realiza “frente a” todas as demais pessoas e coisas reais: o homem é uma realidade relativamente absoluta. Esta realidade relativamente absoluta se realiza vivendo através de suas ações “com” as coisas reais. Com as coisas reais, onde estamos é “na” realidade. A realidade é algo “último” em nossa existência. O homem também vive “desde” a realidade, que é a possibilidade de todas as possibilidades de sua realização. Finalmente, a pessoa humana também vive “pela” realidade, que constitui um apoio impelente para sua vida. A realidade, assim, como apoio último, possibilitante e impelente, exerce uma fundamentalidade na vida humana, ela me determina a estar “frente a” ela, e essa determinação é uma “dominação”. Esta dominação é o que caracteriza a realidade como um “poder”, o “poder do real”: não se trata de algo distinto da formalidade do de suyo, mas é como este de suyo aparece na fundamentalidade[19]. Realidade é algo “mais” em cada coisa real, é o poder do real, que me domina para fazer-me ser relativamente absoluto. Assim, cada coisa real é um veículo do poder do real, o qual se apodera da pessoa humana naquilo que Zubiri chama “religação”. Religados ao poder do real nos apoiamos nele para ser relativamente absolutos: “a religação é a raiz mesma desta realidade pessoal minha”[20]. Esta religação às coisas reais, ou mais precisamente ao poder do real presente nelas, é uma “estrutura respectiva constitutiva de minha ação mesma”[21].

A religação é uma ligadura entre todas as coisas, mas só no homem ela é consciente, só ele a vive formalmente:

Por si a religação afeta o homem não separadamente das coisas, senão que de alguma forma afeta a tudo. Mas só no homem é formalmente religação, só nele é o acontecer formal da fundamentalidade. A pessoa não está simplesmente vinculada às coisas ou dependente delas, senão que está constitutiva e formalmente religada ao poder do real[22].

Trata-se, portanto, de uma conexão na linha da respectividade remetente, que “acrescenta” a essa o fato da fundamentalidade, isto é, a pessoa humana não só está inseparavelmente vinculada às outras coisas reais e pessoas, senão que estas são um apoio inexorável para que o homem se realize, na medida em que comunicam o poder do real.

O estar religados a este poder do real aponta que há o que religa[23], mas não o manifesta claramente: o poder do real é algo “enigmático”, e nos lança a inquirir qual é o seu fundamento.
             
b) A religação como via: a existência de Deus

O poder do real é algo que têm as coisas enquanto reais. Mas o momento de realidade excede de certo modo o que as coisas são concretamente. Ser real é “mais” do que ser isto ou aquilo outro. Este “mais”, dado em impressão de realidade, é que determina meu ser pessoal relativamente absoluto. Este poder do real, ainda que não esteja fora das coisas reais concretas, é um poder da realidade qual realidade; é algo mais que o poder das realidades concretas –estas são o que Zubiri chama “poderosidades” [24]–, pois em cada coisa concreta o homem se determina ante “a” realidade como tal. 

A realidade, cada realidade, é ambivalente: é imersão em si mesma e, ao mesmo tempo, expansão em mais que si mesma; é sua realidade e presença da realidade simplesmente. Esta ambivalência faz que a realidade seja estruturalmente enigmática. E porque a realidade é enigmática estamos problematicamente religados ao poder do real. A vida é constitutivamente enigmática porque o poder do real no qual esta se funda é enigmático. Por isso o homem vive inquieto, sua inquietude é pelo ser relativamente absoluto. Nossa inteligência se encontra lançada pela realidade mesma para seu enigma; somos conduzidos para o fundamento radical de cada coisa real. Como se resolve este enigma?

O poder do real se funda na realidade enquanto realidade. Esta realidade não é a desta folha de papel, porque com esta folha aquilo em que estou é na realidade simplesmente. Todas as coisas são reais, mas nenhuma é “a” realidade. Mas “a” realidade é real porque me domina fazendo-me ser relativamente absoluto. Assim, existe outra realidade em que se funda “a” realidade, e esta não é uma coisa específica mais; se assim fosse, seria só mais uma coisa real com a qual me encontro na realidade. Não se trata, pois, de “uma” realidade, mas do “fundamento” da realidade. E uma vez que este é fundamento de um poder que determina meu ser relativamente absoluto, deve ser uma Realidade Absolutamente Absoluta: Deus[25], Realidade Última, Possibilitante e Impelente[26], fundamento desses caracteres na realidade. Em virtude da existência desta Realidade Divina é que há um poder do real que me faz ser relativamente absoluto. Se este poder se encontra na realidade concreta de cada coisa, isto quer dizer que Deus está presente formalmente nas coisas, constituindo-as como reais. Sem Deus na coisa, esta não seria real, e esta unidade entre Deus e cada coisa real é a resolução do enigma do poder do real. As coisas reais, ao dar-me sua realidade, me dão a Deus nela mesma.

c) A essência da religação: a relação criatural

Deus se revela, na religação, como uma realidade fundante, presente formal e constitutivamente nas coisas. Esta fundamentalidade é um momento consecutivo da realidade divina, porque Deus é real em e por si mesmo, e não por ser fundamento das coisas reais[27]. A fundamentalidade é a ratio cognoscendi de Deus. Para Zubiri, são três os caracteres que precisam a índole desta fundamentalidade: a transcendência de Deus “na” realidade, sua “mundanidade” e sua “fontanalidade”.

A fundamentalidade é presença de Deus nas coisas[28]. Entre Deus e as coisas há distinção real, mas não há separação. Esta presença de Deus é o que Zubiri chama transcendência “na” realidade: transcender não é estar “mais além” das coisas, mas um modo de estar nelas, “aquele modo segundo o qual estas não seriam reais em nenhum sentido senão, por assim dizer, incluindo formalmente em sua realidade a realidade de Deus, sem que por isso Deus seja idêntico à realidade das coisas” [29]. Para ir a Deus não é necessário sair da coisa real, mas submergir-se mais nela. Esta concepção evita dois erros: o panteísmo e o agnosticismo. O primeiro pensa que a presença formal de Deus nas coisas faz das mesmas momentos da única realidade divina, o que é impossível, porque Deus está nas coisas fazendo que não sejam Deus. O segundo pensa que por ser radicalmente distinto das coisas, Deus é o grande ausente, o que é igualmente impossível, porque se Deus estivesse afastado das coisas, elas não seriam reais. A transcendência não é nem identidade nem distância, mas transcendência “nas” coisas.

Deus é transcendente nas coisas reais enquanto reais. Como toda realidade é respectiva, e a unidade de respectividade é o que Zubiri chama mundo, a presença formal e transcendente de Deus nas coisas é uma presença no mundo inteiro. Temos a mundanidade de Deus.

A presença de Deus nas coisas reais é constituinte. Deus está nas coisas fazendo que sejam reais, que sejam de suyo e atuem desde o que são de suyo. A isto Zubiri chama fontanalidade da Realidade Absolutamente Absoluta. No caso do homem, esta fontanalidade corresponde à “tensão teologal”, que Zubiri considera a essência da religação[30]. A transcendência fontanal de Deus é a essência da fundamentalidade divina.

Zubiri afirma que a fundamentalidade ou a fontanalidade de Deus não significam, formalmente, o ato criador: “Dizer que Deus é o fundamento da realidade das coisas não inclui formalmente que Deus ‘faça’ as coisas, que seja causa eficiente delas, menos ainda, que seja seu criador"[31]. A criação, segundo a teologia de Zubiri, é “a vida mesma de Deus projetada livremente ad extra, portanto em forma finita”[32]; ele nos diz, ainda, que a criação é “uma ação que constitui uma alteridade sem alteração”[33]. Para o filósofo basco, a criação é um dado de fé, e não de razão, embora, no seu artigo “El problema teologal del hombre” (recolhido como conclusão do livro El hombre y Dios), diga que na religação, a realidade das coisas reais é “Deus ad extra[34]. O que o autor parece querer dizer é que aquilo que para a razão filosófica pode ser conhecido como fundamentalidade, para a fé religiosa é reconhecido como criação. Zubiri diz seguir o pensamento de Duns Escoto, mas, na realidade o Doutor Sutil não nega o fato da criação; o que ele afirma é que a criação livre e imediata de todas as coisas no tempo é um dado de fé, fundado na revelação da onipotência de Deus. Pode-se mostrar sua possibilidade lógica e conveniência, mas não realizar uma demonstração apodítica; sem a revelação, as hipóteses de um universo necessário e eterno, ou contingente e temporal, ou ainda um universo contingente e eterno, teriam o mesmo direito de cidadania filosófica, para Escoto[35]. O próprio Santo Tomás defende, no opúsculo Acerca da eternidade do mundo, a possibilidade lógica de um universo eterno, o qual não seria, no entanto, incriado (Tomás associa essa tese a Aristóteles, para o qual o universo era eterno ao lado do Motor Imóvel): a criação não depende de um princípio de duração, mas sim de um princípio ontológico. Mesmo que o mundo não tivesse iniciado, ainda assim ele dependeria, no seu ser, do Ser Divino. Seja porque Zubiri pensava nessa possibilidade de um universo eterno, seja porque pensava numa criação realizada por um demiurgo intermediário entre Deus e o universo, a realidade deste universo e desta criação demiúrgica depende inteiramente da Realidade Divina; no primeiro caso, teríamos uma criação sem princípio de duração, no segundo, uma criação mediada, mas em ambos os casos teríamos uma criação divina! Em suma: penso que afirmar a criação é uma consequência inevitável da fundamentalidade ou fontanalidade de Deus; como a essa fontanalidade divina corresponde a religação ou tensão teologal do homem para com Deus, pode-se dizer, na medida em que a ação fontanal corresponde à criação, que a religação é a relação criatural.

A relação criatural se fundamenta na criatura de modo real, mas em Deus só de modo ideal[36]. Tomás fala da criação como uma “emanação” de todas as criaturas produzida por Deus[37], o que nos remete à ideia zubiriana da fontanalidade divina. A criação não é uma mudança, nem pertence à categoria de ação. Toda mutação supõe um sujeito no qual sucedem as formas, ou supõe um ponto de partida que passa ao termo final. Na emanação tudo se faz do nada, e o termo final é o ser enquanto ser. Considerada enquanto ação criadora divina, a criação não é algo diferente do próprio Deus. Considerando o termo da criação, isto é, a coisa produzida pelo Criador, a criação é uma relação, concriada, pela qual a criatura se refere a Deus:

A criação afirma alguma coisa na criatura somente sob o aspecto de relação, porque o que é criado não é feito por movimento ou por mudança. O que é por movimento ou por mudança se faz a partir de algo preexistente. É o que acontece na produção particular de certos entes. Mas isso não pode acontecer na produção de todo ser pela causa universal de tudo, que é Deus. Portanto, Deus, ao criar, produz as coisas sem movimento. Retirado o movimento de uma ação e paixão, só resta a relação, como já se disse. Daí resulta que a criação não é na criatura senão uma relação ao Criador, como ao princípio de seu ser; como na paixão que se dá com movimento está implícita uma relação ao princípio do movimento[38]


Trata-se de um acidente categorial, de acordo com Santo Tomás: “Mas enquanto é verdadeiramente uma relação, [a criação] tem como sujeito a criatura que a precede no ser, como o sujeito precede o acidente”[39]. Como explica Juan Cruz Cruz:


Só do término da criação surge uma relação; esse término é a própria coisa feita e produzida pelo criador; e a relação é um acidente categorial. Não é formalmente uma relação transcendental, pois esta se identifica com a própria substância. Não obstante, a relação criatural é inseparável da própria criatura, a não ser que se destruísse seu próprio sujeito. Mas não por ser inseparável é transcendental. E é este um ponto que nem todos chegaram a ver com clareza[40].



Nesta relação, o sujeito é a criatura, o termo é Deus, e o fundamento é a própria derivação e produção que vem de Deus. Trata-se, portanto, de uma respectividade remetente, no sentido determinado acima.

Uma última coisa a considerar, antes de concluir este trabalho, é a relação entre fundamentalidade e “conservação no ser”. O modo como Zubiri coloca o problema da religação deixa evidente que as realidades não estão “prontas” de uma vez por todas, isto é, que a fundamentalidade ou fontanalidade de Deus se exerce ao longo do tempo. Isto nos remete ao tema da conservação no ser: Deus não apenas criou “no princípio”, como mantém no ser suas criaturas; sem esta manutenção ou conservação, as coisas reais voltariam ao nada, como afirma Tomás[41]. Essa ação conservadora, que não é uma ação diferente da criadora[42], e pela qual Deus conserva as coisas através de outras coisas, das quais as primeiras dependem[43] –como ocorre na religação–, é o que permite a continuidade da relação criatural.


Considerações finais

A intuição que moveu o presente trabalho foi a de que, acerca da relação de dependência do homem para com Deus, Zubiri e Tomás têm, fundamentalmente, o mesmo pensamento, embora divirjam no modo como o expressam. A novidade do pensamento zubiriano fez com que muitas vezes seu autor acentuasse marcadamente a diferença entre a sua perspectiva e a do realismo clássico, do qual o Aquinate é um representante. Embora essa postura dificulte a constatação das continuidades entre as obras de Zubiri e de Tomás, penso que ela não nos deve levar a uma afirmação de ruptura. O presente artigo não teve outra intenção que esta: mostrar, a partir do tema da religação, que o pensamento zubiriano não se fez em contraposição ao realismo clássico, mas, antes, frequentemente o enriqueceu. Mas não se tratou, simplesmente, de iluminar o antigo a partir do novo, mas também de revisitar o novo a partir do antigo; ou seja, Zubiri e Tomás se iluminaram reciprocamente, e o resultado são as conclusões desse trabalho, que eu passo a enumerar.

O trabalho buscou responder a duas perguntas: a principal, se as noções zubiriana de religação e tomasiana de relação criatural são convertíveis; e a outra, subordinada a esta, se as noções de respectividade e relação podem ser consideradas correlatas. O problema da comparação está, em primeiro lugar, no fato de Zubiri considerar a criação um dado de fé, e, em segundo lugar, no fato dele considerar a religação uma estrutura respectiva, e a respectividade como uma vinculação real mais radical que a relação, seja ela categorial ou transcendental.

A respectividade se divide em respectividade suificante ou constituinte e respectividade mundificante ou remetente. A primeira é aquela que constitui a coisa real, é a abertura respectiva da formalidade de realidade a “seu” conteúdo. A segunda é aquela pela qual a coisa real, já constituída, se remete a toda outra coisa real, existente ou possível, abertura respectiva que conforma o mundo. A relação, quando real, pode ser relação categorial ou relação transcendental. A primeira é aquele acidente pelo qual um ente se refere a outro ente. A segunda é aquela pela qual o ser de um elemento real consiste em sua ordenação a outro elemento. Concluímos que a respectividade constituinte está na linha da relação transcendental, enquanto ambas não se referem a realidades já constituídas que se ordenam a outras realidades já constituídas, mas estão na raiz da própria constituição de uma coisa real ou ente. Já a respectividade remetente está na linha da relação categorial, pois como Zubiri deixou entrever, ela se funda na respectividade constituinte, isto é, na realidade já constituída, assim como a relação categorial se apoia na substância. A respectividade remetente é inseparável da coisa real, de modo que ela corresponde a um tipo de relação categorial também inseparável do ente (ou seja, poderia haver, e há, relações categoriais que não estão no âmbito da respectividade remetente, isto é, que não são necessárias).

A religação é uma estrutura respectiva entre a pessoa humana e as coisas reais, pela qual o homem se encontra fundado na realidade para realizar sua vida; esta realidade lhe aparece como um “poder”, o poder do real, que é veiculado pelas coisas, mas é “mais” do que elas. Esta ambivalência nos lança a buscar o fundamento do poder do real, já que “a” realidade não existe fora das coisas reais e, no entanto, é mais do que elas; assim chegamos a Deus, Fundamento Absolutamente Absoluto de nossa realidade relativamente absoluta. Na religação, Deus exerce sua fundamentalidade, fazendo com que as coisas sejam reais, e isso constitui a sua fontanalidade. Zubiri não identifica, no âmbito de sua filosofia teologal, essa fontanalidade com a criação, mas vimos que não há razão para postergar essa identificação para a teologia: mesmo que Zubiri pensasse num mundo eterno, ou numa criação mediata, em qualquer caso seria preciso falar de uma criação divina, pois no caso de um mundo eterno, ele ainda assim requereria um princípio metafísico, e no caso de um demiurgo, ele ainda assim receberia de Deus seu poder para criar, com o qual, em última instância, Deus é que seria o Criador.

Assim, concluímos que podemos falar de uma identidade entre a religação e a relação criatural. Que esta realidade é uma relação categorial, inseparável do homem –e de toda coisa real–, e que ela perdura enquanto durar a existência da pessoa humana –e de toda criatura–, à medida que a criação de Deus perdura através da conservação do ser. Deus nos religa a Ele através das criaturas das quais nossas vidas dependem, e comunica-nos, assim, o poder da realidade que nos sustém no ser, e que nos remete problematicamente ao Fundamento. O âmbito da relação criatural é o âmbito de toda possível entrega a Deus, de toda possível fé, pela qual construímos formalmente nosso ser em Deus, voltando-nos para Aquele do qual saímos, e consagrando todo o cosmos criado a seu Autor. A religação é fonte de nossa liberdade, pois ela nos retém à realidade, ao mesmo tempo que nos mantém relativamente “soltos” para assumir formalmente essa religação como a fonte de nossa realização pessoal em Deus, em quem “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28).




[1] Zubiri tratou o tema da religação em diversas ocasiões, como, por exemplo, nos artigos “Em torno do problema de Deus” e “Introdução ao problema de Deus”, recolhidos em Natureza, História, Deus (já publicado no Brasil: ZUBIRI, Xavier. Natureza, História, Deus. São Paulo: É Realizações, 2010), e no livro póstumo El hombre y Dios, onde oferece sua visão final sobre o assunto (ZUBIRI, Xavier. El hombre y Dios, 6ª ed. Madrid: Alianza Editorial, 1998) . Minha tese doutoral, El hombre religado a Dios en Xavier Zubiri, trata com detalhe o problema da religação, enquanto “problema teologal do homem” (BELLO, Joathas. El hombre religado a Dios en Xavier Zubiri. Tese Doutoral. Pamplona: Universidad de Navarra, 2009).
[2] Tomás fala da relação criatural na Suma Teológica I, q.45, a.3 (AQUINO, Sto. Tomás de. Suma Teológica, vol. II: I Parte – Questões 44-119. São Paulo: Edições Loyola, 2002), e também no De potentia, q.3, a.3 (Id., De Potentia Dei, Cuestión 3. Pamplona: Servicio de Publicaciones de la Universidad de Navarra S.A., 2001). Já as “cinco vias” (cf. S.Th. I, q.2, a.3) manifestam uma relação de dependência existencial do mundo a respeito de uma realidade fundamental.
[3]No fundo, o presente trabalho é sobre a possibilidade de diálogo entre a metafísica do ser tomasiana e a metafísica da realidade (do de suyo) zubiriana.
[4] Uma análise exaustiva, histórica e sistemática, do tema da respectividade em Zubiri, pode ser vista em: LACILLA RAMAS, Maria Fernanda. La respectividad em Zubiri. Tese doutoral. Madrid: Universidad Complutense de Madrid, 1990.
[5] Zubiri expõe sua metafísica no tratado Sobre la esencia, e sua gnosiologia, chamada por ele “noologia”, estudo da intelecção, na trilogia Inteligência senciente (Inteligência e realidade, Inteligência e logos e Inteligência e razão). No prólogo da primeira parte da trilogia nos diz que inteligência e realidade são congêneres, pois todo estudo da inteligência revela seu objeto, a realidade, e todo estudo da realidade pressupõe um conceito de inteligência (cf. ZUBIRI, Xavier. Inteligencia y realidad. 5ª ed. Madrid: Alianza Editorial, 1998, p. 10). Inteligência e realidade traz, ainda, uma atualização sumária da doutrina metafísica zubiriana, além de situar o tema da respectividade no contexto da intelecção.
[6] Para Santo Tomás “o corpo é exigido para a operação do intelecto, não como um órgão pelo qual essa operação é exercida, mas em razão do objeto, pois as representações imaginárias estão para o intelecto como a cor para a vista” (S.Th. I, q.75, a.2, ad3). Para Zubiri, a potência de inteligir é distinta da potência de sentir, mas ambas conformam a única faculdade da inteligência senciente ou do sentir intelectivo. A apreensão de algo como de suyo é a raíz da possibilidade de toda conceituação, juízo ou raciocinio, pois o que é de suyo, ao não pertencer à sensação particular, é apreendido como algo que pode reaparecer, sendo assim universalizável.
[7] ZUBIRI, Xavier. “Respectividad de lo real”. Realitas III-IV, 1976-79, 1979, p. 31.
[8] Ibid., p. 41.
[9] Cf. ZUBIRI, Xavier. Sobre la esencia. 5ª ed. de 1985. Madrid: Alianza Editorial, 1998 (1ª reimpresión), p. 288.
[10] Zubiri contrapõe sua substantividade à “substância” aristotélica, que seria formada pela inerência de notas a um sujeito. No entanto, ao falar do subsistema essencial da substantividade, o filósofo basco nos diz que as notas constitucionais da substantividade, aquelas que não são últimas, mas são necessárias ao sistema, são “aderentes” à essência com suas notas constitutivas, últimas e raiz das demais. Assim, não estamos tão distantes da ideia de Aristóteles, seguida por Santo Tomás.
[11] Um profundo estudo sobre o tema da relação, sua essência e tipologia, de acordo com a perspectiva tomasiana, pode ser encontrado em: CRUZ CRUZ, Juan. Creación, signo y verdad: Metafísica de la relación em Tomás de Aquino. Pamplona: EUNSA, 2006. Também podem ser vistos: FERRER ARELLANO, Joaquín. Filosofía de las relaciones jurídicas. Madrid: Ediciones Rialp, 1963; Id., Metafísica de la relación y de la alteridad: Persona y relación. Pamplona: EUNSA, 1998. Ferrer Arellano interpreta a relação criatural e a respectividade em geral como relações transcendentais.
[12] É o caso de A. Krempel, no seu livro La doctrine de la relation chez S. Thomas.
[13] Zubiri, precisamente, posiciona-se nesse sentido em “Respectividad de lo real”: ZUBIRI. “Respectividad de lo real”. Realitas III-IV, 1976-79, 1979, pp. 21-22. Esta também é a opinião de Karl Rahner: cf. RAHNER, Karl. Curso Fundamental da Fé. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 1989, pp. 96-103.
[14] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 25; Id., Inteligencia y realidad, p. 122.
[15] Cf. ZUBIRI, Inteligencia y realidad, p. 118.
[16] SCG, I, cap. XXXVII, 4 (AQUINO, Sto. Tomás de. Suma contra os gentios. Vol. I: Livros I e II.  Trad. de D. Odilão Moura, O.S.B. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes: Sulina; Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul; Porto Alegre: Livraria Sulina Editora, 1990).
[17] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 192. Como afirma Zubiri, o de suyo é um “em si que dá de si”.
[18] Zubiri não chama o homem de “animal racional” porque a “razão”, para ele, é uma modulação da inteligência senciente: a inteligência modula-se como apreensão primordial de realidade (apreensão do caráter real das coisas), logos (simples apreensão e juízo) e razão (verificação da realidade profunda das coisas). Só a razão apreende a essência real propriamente dita, enquanto o logos é um discurso sobre a realidade como aparece na apreensão, e a apreensão primordial tem um caráter inefável.
[19] Em seus primeiros escritos sobre a religação, Zubiri chamava “deidade” a este poder do real; posteriormente, para não antecipar a solução teísta ao problema teologal do homem, mudou a nomenclatura.
[20] ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 93.
[21] Ibid., p. 129 (o grifo é do original).
[22] ZUBIRI, El hombre y Dios, pp. 92-93.
[23] Cf. Id., Natureza, História, Deus, p. 418.
[24] E é nessa direção que deve ser entendido o mana ou “poder”, do qual se fala na fenomenologia da religião. Trata-se, já, de uma interpretação do poder do real zubiriano, e não do mesmo em sua pureza.
[25] Zubiri fala de uma “analogia do absoluto” (cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, pp. 171-172). O raciocínio pelo qual chega a Deus deixa entrever a realidade que Tomás chama “participação”: partimos das coisas reais, constatando que nenhuma delas é “a” realidade, e chegamos à Realidade Absolutamente Absoluta, da qual as demais realidades recebem o caráter real. Santo Tomás assim expressa a necessidade de afirmar a Deus a partir dos entes por participação: “Se algo se encontra em outro por participação, é necessário que seja causado nele por aquele ao qual convém essencialmente. (…) tudo o que é distinto de Deus não é seu ser, mas participa do ser. É necessário, por isso, que todas as coisas que se diversificam conforme participam diversamente do ser, sendo mais ou menos perfeitas, sejam causadas por um ente primeiro, absolutamente perfeito” (S.Th. I, q.44, a.1). Cornelio Fabro assim formula essa realidade: “O ser por participação depende e tem por causa o ser por essência. (...) O ser chamado ‘por participação’ é o ser que não é ‘todo ser’ ou ‘todo o ser’. (...) O ser por participação não se compreende, ou seja, não se entende como ser, não é, senão em dependência do ser por essência” (FABRO, Cornelio. Drama del hombre y mistério de Dios. Madrid: Ediciones Rialp, 1977, pp. 346.348; grifo do original).  
[26] Zubiri considera que o Deus a que se chega através das cinco vias tomistas não é uma Realidade Última, Possibilitante e Impelente, e, portanto, não seria Deus enquanto Deus. Este artigo não é uma comparação entre a religação como via e as vias tomistas, mas creio ser necessário mencionar que Zubiri provavelmente esteja sendo injusto. Assim, por exemplo, o Motor Imóvel, ao qual se chega na primeira via, é certamente uma Realidade Última, como o próprio Zubiri reconhece; mas como Ato Puro, também é a fonte última da atualização de todas as potências reais, incluindo as possibilidades vitais humanas, sendo assim Possibilitante; e, em virtude de sua imutabilidade, o Primeiro Motor é uma realidade na qual o homem pode encontrar um refúgio seguro, uma fortaleza inamovível e inexpugnável, ou seja, uma Realidade Impelente, como Zubiri a conceitua. 
[27] Em seu livro teológico, Zubiri esclarece que “Deus não tem uma essencial respectividade ao mundo que real e efetivamente criou” (ZUBIRI, Xavier. El problema teologal del hombre: Cristianismo. Madrid: Alianza Editorial, 1997, p. 192), e que sua respectividade “não é constitutiva da realidade divina, senão meramente consecutiva a ela” (Ibid., p. 193). 
[28] Sobre a presença de Deus nas coisas em S. Tomás: cf. S.Th. I, q.8 (AQUINO, Sto. Tomás de. Suma Teológica, vol. I: I Parte – Questões 1-43. São Paulo: Edições Loyola, 2001)
[29] ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 175.
[30] Cf. Ibid., p. 363.
[31] Ibid., pp. 152-153. 
[32] Ibid., p. 313. 
[33] ZUBIRI, El problema teologal del hombre: Cristianismo, p. 153. 
[34] Id., El hombre y Dios, p. 377. 
[35] Sobre o problema da criação em Escoto, pode-se ver: GILSON, Étienne. Juan Duns Escoto: Introducción a sus posiciones fundamentales, Pamplona: EUNSA, 2007, pp. 328-341. 
[36] Cf. S.Th. I, q.6, a.2, ad1; S.Th. I, q.45, a.3, ad1; De potentia, q.3, a.3.
[37] Cf. S.Th. I, q.45, a.1.
[38] S.Th. I, q.45, a.3.
[39] S.Th. I, q.45, a.3, ad3.
[40] CRUZ CRUZ, Creación, signo y verdade, p. 154 (itálicos do original). Cf. Id., “Sentido original de la creación” (Prefácio). In: AQUINO, S. Tomás de. Comentario a las Sentencias de Pedro Lombardo, vol. II/1 (La creación: Ángeles, seres corpóreos, hombre). Pamplona: EUNSA, 2005. Tomas Alvira, Luis Clavell e Tomas Melendo sustentam a mesma posição: “Alguns autores afirmavam, por exemplo, que a relação das criaturas a Deus deveria incluir-se dentro deste gênero [relação transcendental] e não entre os acidentes. Santo Tomás sustenta, entretanto, que se trata de um acidente que as criaturas têm por haver recebido o ser de Deus” (ALVIRA; CLAVELL; MELENDO. Metafísica. Pamplona: EUNSA, 2001, p. 75). 
[41] Cf. S.Th. I, q.104, a.1. 
[42] Cf. S.Th. I, q.104, a.1, ad4. 
[43] Cf. S.Th. I, q.104, a.2.  

10.12.16

Uma breve reflexão sobre os comics (HQ) de super-heróis

Eu aprendi a ler com as "Histórias Ilustradas da Bíblia" e com os quadrinhos da Marvel e da DC, que colecionei dos 6 aos 14 anos (desfazendo-me de praticamente toda a coleção quando fui morar sozinho, mais tarde).

Não penso que a "arte pop" deva ser considerada irrelevante. De fato, as HQ de super-heróis ajudaram tanto a fecundar minha imaginação quanto, depois das Escrituras, na minha formação moral: o bem e o mal eram realmente distintos (no sentido cristão), o bem sempre prevalecia, mesmo que custasse sacrifícios, e isto representava um convite ao heroísmo. Pode ser que o formato não seja apto a desenvolvimentos muito profundos, mas nem só de profundidades vive o ser humano. De algum modo, tais histórias são versões modernas e simplificadas das mitologias clássicas.

Atualmente, só leio eventualmente algum encadernado com boas histórias do passado, ou assisto algum episódio das séries cotadas (só vi integralmente Smallville, que desencadeou as séries recentes, e mesmo assim só por ser fã, porque boas realmente só foram as 3 primeiras temporadas), além de ver algumas das adaptações cinematográficas (gosto bastante dos já velhos Superman I e II com o Cristopher Reeve, do Homem-Aranha II com o Tobey Maguire, da recente trilogia do Batman do Nolan -considero o segundo episódio uma grande história e um grande filme-, e dos dois últimos do Capitão América, especialmente "Guerra Civil", sobre o qual escrevi uma resenha crítica neste blog: A morte do pai como morte da fraternidade).
.

* * *


Nas últimas décadas, a Marvel criou um Universo paralelo, "Ultimate", com versões hodiernas dos heróis clássicos. Recentemente, resolveu acabar com a confusão, unificando os universos (uma estratégia para alavancar as vendas). Para isso concebeu umas novas "Guerras Secretas", alusão às primeiras, da década de 80, história muito fraca e com desenhos horrorosos, que só serviu para vender bonecos e estabelecer o formato "mini-série" (sendo bastante inferior à "Crise nas infinitas terras" da concorrente DC). Resolvi dar uma olhada, para conhecer as concepções atuais da "Casa das Ideias" (como é conhecida a Marvel).

Depois de uma crise que provocou o fim do multiverso, o vilão Dr. Destino tornou-se o "deus" tirano de um novo mundo que é uma colcha de retalhos dos antigos. Os heróis dos velhos mundos resolvem enfrentar o falso deus, liderados pelo Senhor Fantástico (Reed Richards). Paralelamente ao arco principal, saíram outras revistas contando as agruras das versões dos heróis neste mundo novo (das poucas que vi, são histórias muito fracas).

Ao fim, Reed Richards vence seu arqui-inimigo (que entre outras coisas, desposou a Mulher Invisível), com a sua principal habilidade, que é a inteligência, mostrando assim a relevância e primazia do Quarteto Fantástico no Universo Marvel (não por acaso, eles representam os "4 elementos", fundamentos materiais do Universo para a cosmologia clássica).

Para um cristão ou um realista, é verdadeiramente decepcionante o final: a noção de transcendência está completamente ausente, o homem aparece como seu próprio salvador, e o mundo é apresentado como o lar permanente do ser humano, o qual pode ser recriado e progredir infinitamente.

Nos últimos quadrinhos da história final, Richards fala a Sue Storm de sua "conversão" da crença na contração universal e na entropia à crença na "expansão", e isso é ilustrado por umas imagens do Dr. Destino tirando sua máscara e vendo seu rosto curado, sendo "Tudo vive" a última frase do Sr. Fantástico. Há, nisso, uma ratificação da heresia da "apocatástase" (redenção do demônio), que vem coroar o relativismo moral presente desde meados dos 80 nas HQ de heróis. Uma lástima, pois a mensagem de fundo é que não vale a pena lutar pelo bem, já que mesmo o mais nefasto vilão será feliz, ainda que não se arrependa de seus crimes.



6.12.16

C. S. Lewis sobre a Lei Natural

Excertos de LEWIS, C.S. A abolição do homem. Tradução de Remo Mannarino Filho. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012:


"Até bem recentemente, todos os professores, e os homens em geral, acreditavam que o universo tinha uma natureza tal que nossas reações emocionais poderiam tanto ser congruentes como incongruentes em relação a ele -acreditavam, na verdade, que os objetos não são meros receptores, mas podem merecer nossa aprovação ou desaprovação, nossa reverência ou nosso desprezo [...].

Santo Agostinho define a virtude como ordo amoris - a disposição ordenada das afeiçoes, na qual cada objeto corresponde ao grau de amor que lhe é apropriado. Aristóteles diz que o objetivo da educação é fazer com que o aluno goste e desgoste do que é certo gostar e desgostar. Quando a idade do pensamento reflexivo chegar, o aluno assim treinado nas 'afeições ordenadas' ou nos 'justos sentimentos' facilmente encontrará os primeiros princípios da Ética; mas o homem corrupto não poderá enxergá-los e não fará nenhum progresso nessa ciência. Platão, antes dele, já havia dito o mesmo. O animalzinho humano não terá logo de cara as reações certas. Ele deve ser treinado para sentir prazer, agrado, repulsa e ódio em relação às coisas que realmente são prazerosas, agradáveis, repulsivas e odiáveis. Na República, o jovem bem-educado é 'aquele que veria com maior clareza o que há de errado em obras humanas imperfeitas ou em obras incompletas da natureza, e com uma justa aversão censuraria e odiaria o feio mesmo em sua juventude. e elevaria aprazíveis louvores à beleza, recebendo-a em sua alma e sendo nutrido por ela, de modo que se torne um homem de coração gentil. Tudo isso antes que ele alcance a idade da razão; de modo que, quando a Razão por fim lhe chegar, então, com a criação que recebeu, ele abrirá seus braços para lhe dar as boas-vindas e a reconhecerá por causa da afinidade que tem por ela'. No hinduísmo primitivo, a conduta dos homens que podem ser chamados bons consiste na conformidade à -ou quase na participação na- Rta, o grande rito ou modelo do natural e do sobrenatural que se revela do mesmo modo na ordem do cosmos, nas virtudes morais e nas cerimônias do templo. A retidão, a correção, a ordem, a Rta são constantemente identificadas com satya ou a verdade, correspondência com a realidade. [...]

Os chineses também falam de um grande ente (o maior dos entes) chamado Tao. [...] Ele é a Via pela qual o universo prossegue [...] É também a Via que todos os homens deveriam trilhar [...] Os antigos judeus igualmente louvavam a Lei como 'verdadeira'.

[...] É a doutrina do valor objetivo, a convicção de que certas posturas são realmente verdadeiras, e outras realmente falsas, a respeito do que é o universo e do que somos nós. Aqueles que conhecem o Tao podem afirmar que chamar uma criança de graciosa e um ancião de venerável não é simplesmente registrar um fato psicológico sobre nossas momentâneas emoções paternas ou filiais, mas reconhecer uma qualidade que exige de nós uma certa resposta, quer a demos, quer não. De minha parte, não aprecio a companhia de crianças pequenas, mas, uma vez que falo de dentro do Tao, reconheço nisso um defeito meu -da mesma forma como um homem pode reconhecer-se daltônico ou desprovido de ouvido musical. E, uma vez que nossas aprovações e desaprovações são assim reconhecimentos do valor objetivo ou respostas a uma ordem objetiva, os estados emocionais podem portanto estar em harmonia com a razão (quando sentimos afeição por aquilo que merece aprovação) ou em desarmonia com ela (quando percebemos que a afeição é merecida mas não conseguimos senti-la). Nenhuma emoção é, em si mesma, um julgamento; nesse sentido, todas as emoções e sentimentos são alógicos. Mas eles podem ser razoáveis ou irrazoáveis na medida em que se conformam à Razão ou não conseguem conformar-se. O coração nunca toma o lugar da cabeça, mas ele pode, e deve, obedecer-lhe" (pp. 13-18)

[...] Isso a que tenho chamado por conveniência de Tao, e que outros poderiam chamar Lei Natural, Moral Tradicional, Primeiros Princípios da Razão Prática ou Primeiros Lugares-comuns, não é um entre uma série de sistemas de valores possíveis. É a única fonte possível de todos os juízos de valor. Casa seja rejeitado, todos os valores serão também rejeitados. Se qualquer valor for preservado, também ele será preservado. [...] Tudo aquilo que pretende ser um novo sistema ou (como se diz agora) uma 'ideologia' consiste em fragmentos do próprio Tao, arbitrariamente arrancados de seu contexto e então hipertrofiados até a loucura em seu isolamento, mas devendo ainda ao Tao, e somente a ele, a validade que possuem. Se o meu dever para com meus pais não passa de superstição, então o mesmo vale para meus deveres em relação à posteridade. Se a justiça é uma superstição, então também o é o meu dever para com o meu país ou para com a minha raça. Se a busca do conhecimento científico é um valor verdadeiro, então também o é a fidelidade conjugal. A rebeldia das novas ideologias contra o Tao é a rebeldia dos galhos contra a árvore: se os rebeldes pudessem vencer, descobririam que destruíam a si próprios. A capacidade da mente humana para inventar novos valores não é maior do que a de imaginar uma nova cor primária, ou, na verdade, a de criar um novo sol e um novo céu no qual ele se mova.

[...] o Tao comporta um desenvolvimento que vem de dentro. Existe uma diferença entre um autêntico avanço moral e uma simples inovação. Existe um avanço autêntico da máxima confuciana 'Não faças com os outros o que não gostarias que fizessem contigo' para a cristã 'Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam'. Já a moral de Nietzsche é um exemplo de simples inovação. O primeiro caso é um avanço porque ninguém que não reconhecesse a validade da antiga máxima poderia ver uma razão para aceitar a mais recente, e qualquer um que aceitasse a antiga iria imediatamente reconhecer a mais recente como sendo uma ampliação do mesmo princípio. [...] Mas a ética nitzschiana só poderia ser aceita se estivéssemos dispostos a descartar a moral tradicional como um simples erro, se nos puséssemos em uma posição de onde não pudéssemos encontrar nenhum fundamento para os juízos de valor. Essa é a diferença entre um homem que nos diz: 'Já que você gosta de comer legumes frescos, por que não os planta no quintal para comê-los ainda mais frescos?' e um que nos diz: 'Jogue fora esse pedaço de pão e experimente comer tijolos ou centopeias em vez disso" (pp. 42-45).