1.5.19

Visões sobre a origem e a queda (Comentários a Gênesis 2 e 3)

Visão teológica de um sonho (visão noturna)


No tempo em que o Senhor Deus fez a terra e o céu, não havia ainda nenhum arbusto dos campos sobre a terra e nenhuma erva dos campos tinha ainda crescido, porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra e não havia homem para cultivar o solo.

As “ervas” e os “arbustos” do campo devem ser entendidos em função das “árvores” do versículo 9: as “formosas de ver” e as “boas de comer”, a “árvore da vida no meio do jardim” e a “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Há uma graduação (do menos para o mais): ervas, arbustos, árvores.

A “árvore da vida” é o Cristo  (Jo 15,1) que habita no íntimo da criatura humana (e a faz "semelhante" a Deus); é “uma árvore que tinha a eficácia de causar a vida, isto é, para os dignos da vida. É comestível só para os que não estão sob a morte” (S. João Damasceno, Exposição da Fé, II, 11), e  é a “participação de Deus, por meio da qual também os anjos se nutrem” (Ibid., loc. cit.). Por isto, a Eucaristia, que é o Cristo, não pode ser tomada em pecado (cf. 1Cor 11,27ss), e é o “pão dos anjos” (Sequência de Corpus Christi). A “árvore do conhecimento do bem e do mal” é a “sindérese” ou a consciência moral, a “centelha do amor divino albergado em nós" (S. Basílio apud Ratzinger, Verdad, valores, poder), que é a ressonância da Voz de Deus em nossa alma (a "imagem"), pela qual a criatura tem "a capacidade e a disposição para cumprir todos os mandamentos divinos" (idem). Temos, então, Deus e o homem santificado ou em contato puro com a Voz da Transcendência.

As “árvores formosas de ver” e “boas de comer” são as formas das realidades sensíveis (frutos da enformação da matéria pelas Ideias) enquanto elas são “cognoscíveis” e “apetecíveis”, “verdadeiras” e “boas”, adequadas às faculdades da intelecção (“visão”) e da volição (“apetite”) humanas.

Se a criação é um “jardim” (Gn 2,8), as duas “árvores” mais importantes remetem ao Fundamento Divino e os demais “vegetais” representam as formas das coisas sensíveis. As “ervas” e os “arbustos” representam as formas inferiores ao homem: as mais frágeis, pelo “caule macio”, e que necessitam de maiores cuidados, e as firmes, pelo “caule lenhoso”, cuja “madeira” representa que a criação também é “apoio” e “matéria-prima” para a obra ou trabalho artístico e técnico transformador.

Assim, não havia ainda as criaturas sensíveis (no mundo sublunar) porque Deus ainda não havia enformado a matéria-prima (deste mundo) e não havia o ser humano para zelar pela criação visível.

Entretanto, um manancial subia da terra e regava toda a superfície do solo. Então o Senhor Deus modelou o homem com argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente.

O “manancial” é o Espírito Santo que “sobe” do “íntimo” desde o qual conserva a matéria “elevando-a” à forma de “vida corpórea”, o qual é representado pelo processo de (h)umidificação. A argila é o solo regado, forma da corporeidade viva e distinta da mera matéria, e apta a ser tocada pelo hálito divino e tornar-se pessoa humana.

O Senhor Deus plantou um jardim em Éden, no oriente, e aí colocou o homem que modelara. O Senhor Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal.

O jardim edênico ou de “delícias” é forma da Terra (o planeta), posta no “oriente”, isto é, junto ao Sol Nascente que representa o Verbo que ilumina todo homem e toda realidade. Sobre as “árvores”, já discorri.

Um rio saía de Éden para regar o jardim e de lá se dividida formando quatro braços. O primeiro chama-se Fison; rodeia toda a terra de Hévila, onde há ouro; é puro o ouro dessa terra na qual se encontram o bdélio e a pedra de ônix. O segundo rio chama-se Geon; rodeia toda a terra de Cuch. O terceiro rio se chama Tigre: corre pelo oriente da Assíria [ou de Assur]. O quarto rio é o Eufrates.

Hévila é descendente de Sem (cf. Gn 10,29), do ramo predileto de Noé e de Deus (cf. Gn 9,26). A “terra de Hévila” é a “tenda de Sem”, na qual também habitará a descendência de Jafé ou os gentios (cf. Gn 9,27); ela é a “tenda de Deus com os homens” (Ap 21,3), onde irá morar o “homem como Deus o pensou eternamente, redimido por Cristo” (cf. S. João Paulo II, Redemptor Hominis, n. 13). O “ouro puro” significa tanto o esplendor (cf. Ap 21,9-26) quanto a santidade (cf. Ap 21,27) deste Reino Eterno. O “bdélio” tem uma significação medicinal que remete ao caráter curativo do Reino (cf. Ap 21,4; 22,2); e a “pedra ônix verde simboliza a vida eterna, devido ao vigor que jamais perde”, como diz S. Agostinho (cf. Comentário ao Gênesis, Livro II, Cap. XI, n. 14). O Fison, que, segundo o santo Bispo de Hipona, “dizem ser o Ganges” (cf. Comentário ao Gênesis, Livro II, Cap. X, n. 13), representa, assim, o verdadeiro rio “sagrado”, o “rio de água viva” que é o Espírito de Cristo (cf. Jo 7,37-38; Ap 22,1). Para o Doutor da Graça, o primeiro rio representa a virtude cardeal da prudência, “que significa a contemplação da verdade” e que “rodeia a terra que encerra ouro, diamantes e pedras ônix, ou seja, a doutrina que ensina a viver” (cf. Comentário ao Gênesis, Livro II, Cap. X, n. 13).

Cuch é descendente de Cam (cf. Gn 10,6) e também um antigo reino (Etiópia) que abrangia o sul do Egito. O Geon é associado por Sirácida ao rio Nilo (cf. Eclo 24,27). No Egito encontraram abrigo os descendentes de Jacó e a Sagrada Família; na matemática dos egípcios os gregos (descendentes de Jafé) encontraram inspiração para a Filosofia. O Geon assim representa a abundância da criação visível, e a sabedoria humana, que devem servir aos filhos de Deus. Mas Cam é aquele que viola o segredo do pai (Gn 9,22), e no Egito foi escravizado o Povo de Deus. Aqui estão representados, de antemão, os riscos da imoralidade do “conhecimento esotérico” (próprio dos egípcios e de seus continuadores, os gnósticos de todos os tempos), e do apego à “riqueza”: ambos escravizam, e devem ser vencidos com Moisés e com Cristo, que foram chamados do Egito. Para Santo Agostinho, o segundo rio representa a virtude cardeal da fortaleza, “ágil e diligente pelo calor da ação”, pois o “rio cerca a Etiópia, terra sobremaneira quente e ardente” (cf. Comentário ao Gênesis, Livro II, Cap. X, n. 13); trata-se da coragem requerida para viver na liberdade dos filhos de Deus, longe do Egito e do pecado.

O Tigre e o Eufrates limitam a Mesopotâmia, berço da civilização, da escrita, da lei positiva, da ciência da natureza, do poder político terreno (que derivam de Nemrod, filho de Cush: cf. Gn 10,8-12). A Assíria representa o poder político temporal, cuja capital é Nínive, convertida na pregação do profeta Jonas (cf. Jn 3,1-10). Estes rios representam o valor relativo da cultura e da civilização, a possibilidade de que estejam convertidos a Deus e sirvam aos filhos. Mas também advertem de antemão os riscos de Babel ou da insensatez da construção da “cidade dos homens” como substituta da Cidade de Deus (cf. Gn 11,1-9), e do cativeiro da Babilônia ou do “mundo” como exílio dos filhos de Deus, do qual é preciso sair para reinarmos com Cristo (cf. Ap 18,4). Para Agostinho, o rio Tigre, que corre para a Assíria, representa a virtude cardeal da temperança, “que resiste à concupiscência”, pois as Escrituras tomam os assírios como “adversários”; e o Eufrates, que não se diz que terra percorre, representa a virtude cardeal da justiça, a qual “diz respeito a todas as partes da alma” (cf. Comentário ao Gênesis, Livro II, Cap. X, n. 13). Se pensarmos na necessidade destas duas virtudes para vencer as ofertas prazerosas da “Babilônia” e a tirania do poder mundano, nossa interpretação não está distante da inspiração do grande Padre da Igreja.

O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar. E o Senhor Deus deu ao homem este mandamento: ‘Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer.

O homem administra a criação. “Não poder comer da árvore do conhecimento do bem e do mal” é reconhecer a própria criaturalidade. O homem pode “comer” ou usufruir de toda a criação, como seu zelador, mas não pode “se apropriar” da realidade; nem mesmo da “sua”: ele é “relativamente absoluto” (Zubiri). Esta “usurpação” ocorre a partir do momento em que deixa de ouvir a Voz da consciência ou a Voz de Deus que leva dentro de si e que, no “estado de justiça”, fala-lhe claramente. Isto acontece quando o homem deixa de oboedire, de “obedecer” ou “ouvir com atenção” a seu Senhor que lhe falava no íntimo. Não se tratava nem se trata (no homem justificado e reto ) de um “ditado exterior” de uma “ética heterônoma”, mas de um “ingrediente” da própria realidade humana: o homem é a criatura que ouve o Criador, e que assim pode viver o diálogo e a comunhão como um amigo do próprio Deus.



"Criação de Adão e Eva" (1425-52), de Lorenzo Ghiberti


O Senhor Deus disse: ‘Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda’. O Senhor Deus modelou então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu e as conduziu ao homem para ver como ele as chamaria: cada qual devia levar o nome que o homem lhe desse. O homem deu nomes a todos os animais, às aves do céu e a todas as feras selvagens, mas, para o homem, não encontrou a auxiliar que lhe correspondesse. Então o Senhor Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou uma de suas costelas e fez crescer carne em seu lugar. Depois, da costela que tirara do homem, o Senhor Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem.

Então o homem exclamou:
‘Esta, sim, é osso de meus ossos
E carne de minha carne!
Ela será chamada ‘mulher’,
Porque foi tirada do homem!’

Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne.

Ora, os dois estavam nus, o homem e a mulher, e não se envergonhavam.





Deus é comunhão de Amor (1Jo 4,8), e o homem, sua “imagem” (Gn 1,26), não é feito para a solidão. Deus elabora as formas lógicas dos “animais” que acompanharão o homem na criação (formas derivadas das Ideias e da matéria-prima ou possibilidade pura) na matéria-inteligível que é a razão humana e o homem é apto a “nomeá-las”, isto é, a conhecê-las em seu ser ou como reflexos do Verbo de Deus, com o intelecto agente divinamente iluminado. Estas formas ou “animais” são as das “aves dos céus”, isto é, Adão conhece em sua natureza as almas de todos os homens (o psiquismo sensitivo próprio da natureza humana, que se transmite por geração e é apto a receber o espírito e tornar-se um indivíduo racional, que, por vocação divina e Graça, é apto a receber o Espírito para poder tornar-se santo), e as “feras”, os animais cujas formas não serão inteligências.

O homem foi criado com um corpo análogo ao “glorioso” (sic), numa situação superior à atual, mas inferior à dos bem-aventurados; ele não via a essência de Deus (cf. Sto. Tomás, De Veritate, q.18, a.1), mas o conhecia através das criaturas (cf. De Veritate, q.18, a.2; Sb 13,1; Rm 1,19-20), e tinha fé (cf. De Veritate, q.18, a.3). Os chamados “dons preternaturais”, por exemplo, se entendem melhor e fogem a toda imaginação mitológica se estabelecida uma existência estritamente superior à atual (ainda que inferior à Glória dos salvos). Entretanto, isto não significa, como dizem os gnósticos, que o corpo e a existência atuais são algo não querido absolutamente por Deus ou que sejam simples frutos da queda: desde o início o homem tem a vocação a “multiplicar-se” (cf. Gn 1,28). Adão, o “homem”, portava em si toda a natureza humana e se “encarnaria” (sic) repartindo seu ser e seus dons (naturais e preternaturais) entre todos os seus filhos. Após o Juízo, a ressurreição da carne na criação transfigurada e feita “céu” revelará o que deveria ter sido a herança adâmica, mas num estado de Glória imperecível, definitivo, cessado o regime do tempo e da procriação, pelo cumprimento do número dos eleitos.

Deste corpo como que “glorioso”, e não do “solo” ou matéria-prima comum é que é extraída a “matéria” da Mulher, sua esposa. A “costela” recobre e protege, no organismo (“carne”) humano, os órgãos do coração e do pulmão, de modo que a “mulher” é a “vontade”, o impulso dócil e firme, no casal primordial que é “uma só carne”. A mulher ou a vontade participa da razão do homem (que participa da Inteligência Divina) e assim também é inteligente.

O casal primordial vivia sinceramente, presentes a si mesmos por estarem presentes a Deus, e toda sua riqueza vinha de Deus e da mútua companhia.


A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que o Senhor Deus tinha feito.

Ela disse à mulher: ‘Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?’ A mulher respondeu à serpente: ‘Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte.’ A serpente disse então à mulher: ‘Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal.’ A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o também a seu marido, que com ela estava e ele comeu. Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus; entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram.


Aqui há um salto, e entra em cena a Serpente, o Tentador, que curiosamente pode se fazer presente à realidade onde Adão e Eva se encontravam. É um enigma que Satanás esteja presente no Paraíso, pois se supõe que o Diabo e seus anjos já haviam caído antes da criação do mundo visível e do homem [como se pode depreender de Gn 1,2-3, e eu mesmo havia escrito aqui: Comentário ao relato da criação (Gn 1,1--2,4)]. Pode-se especular que Deus quisesse provar a fé e o amor de Adão, mas certamente não colocou o Diabo ali para a queda do ser humano. Satanás aparece como inferior ao Homem e à Mulher; se podia aceder a eles, não tinha acesso às “árvores” principais. 

Se, no Paraíso, o Homem é a razão, e a Mulher, a vontade, o lugar ao que a Serpente pode comparecer ou desde onde pode tentar é a “sensualidade”, que é, como diz Santo Tomás, “aquela parte pela qual o animal se move para algo desejando-o ou fugindo” (In II Sententiarum, d. 24, q. 2, a.1, co.), ou seja, o desejo sensível que constitui a dimensão inferior da vontade, ao estar ligada à corporeidade. Este “movimento” da sensualidade, em princípio integrado à vontade e à razão, pode inclusive ser indicado pelo serpentear, assim como a circunspecção serpentina é o sinal do caráter positivo, criado, da astúcia, donde Cristo dirá “Sede prudentes como as serpentes” (Mt 10,16). A “sensualidade”, em sua origem, nada tinha de indigno ou negativo, na medida em que recebia o comando de movimento da vontade e da inteligência. Porém, pôde se desviar a partir do movimento hostil e enganador de Satanás, com sua astúcia maliciosa, daí que Cristo complemente “e [sede] sem malícia como as pombas” (idem). A Serpente, em seu estado caído, não é mais “inteligente”, e sim mais ardilosa [a astúcia, só, é razão meramente lógico-empírica, arte dos estratagemas e sabedoria dos negócios, isto é, é como a razão moderna], como se vê na pergunta ambígua que inicia a tentação a Eva (Gn 2,1). “O modo com que o demônio procedeu na tentação foi obra de grande astúcia, pois agiu experimentando, impelindo e aliciando. Experimentou com a pergunta, impeliu com a afirmação e atraiu com a promessa” (S. Boaventura, Brevilóquio). Como diz o Livro da Sabedoria, “foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo” (Sb 2,24). Não inveja de Deus, mas inveja do ser humano, que, apesar da natureza inferior à angélica, tinha acesso metafísico à “árvore da vida”, o que levou o Diabo a querer destroná-lo, incitando-o à transgressão do mandamento divino.

O mito platônico do “auriga” presente em Fedro parece indicar a realidade da quebra de harmonia entre a razão, a vontade e a sensualidade: o cocheiro ou auriga é o homem, o corcel dócil, a mulher, e  a o desejo sensível é o corcel indócil [ao menos assim ele se tornou com o obscurecimento da faculdade desejante a partir da tentação], que faz o carro cair com as “almas” [as psiques potenciais contidas na natureza humana, que são elevadas à espiritualidade no nascimento, por criação, e à sobrenaturalidade no batismo, por Graça]. Até a queda, razão, vontade e desejo estavam em harmonia e o Homem e a Mulher contemplavam as verdades eternas [mas não diretamente o Eterno]. Na atual existência, cada ser humano, inteligente, livre e sensual, e já nascido com as concupiscências ou a desordem dos apetites sensíveis (irascível e concupiscível) precisa harmonizar tais faculdades com as virtudes cardeais da prudência, justiça, fortaleza e temperança [sobre isto é o que Platão discorre em A República], com o auxílio indispensável da Graça, que as justifica e santifica.

Ao dialogar com o Tentador, a mulher cai em sua lábia, a vontade cede à sensualidade já desordenada e “toma o fruto e o come”, isto é, apropria-se do papel do Legislador Divino. Trata-se, não de uma transgressão de um (1) mandamento positivo, mas da transgressão ou desobediência moral radical, pela qual a mulher ou a vontade racional se convence de que o “bem” (“boa ao apetite”) e a “verdade” (“formosa à vista”) são propriedades da humanidade (“desejável para adquirir discernimento”), como se sua existência e santidade lhes pertencessem por direito e não por Graça: “lhes foi persuadido a não quererem estar sob o domínio de Deus e a ficarem antes sem o Senhor, sob seu próprio poder, de modo a não observarem sua lei” (S. Agostinho, Comentário ao Gênesis, Livro II, Cap. XV, n. 22).  O Tentador incita à malícia da soberba [o Diabo já era um ser caído e exerce sua malignidade]: ele dobrou a sensualidade, que dobrou a vontade, que dobrou a inteligência, que também “comeu”, isto é, pôs-se a serviço da vontade que estava desorientada pela concupiscência da  sensualidade, que veio a se tornar “carne” corrompida e corruptora. A criatura humana estava “destinada a agir na dependência de Deus, segundo Deus e para Deus [...] Mas como era uma criatura tirada do nada e deficiente [isto é, insuficiente ou limitada por não ser o autor do próprio ser], podia rebelar-se contra a determinação de agir para Deus” (S. Boaventura, Brevilóquio).

A percepção da “nudez” é agora o entendimento de que se encontram, pela decisão tomada, desprovidos da audição perfeita que tinham da Voz de Deus e da riqueza da Graça; estão certos da mentira que contaram para si mesmos, viram-se em seu “nada” próprio de criaturas [eles já eram “deuses” por “participação” e o seriam definitivamente se confirmados na Graça], por terem dado crédito à Serpente e desconfiarem de Deus. O pecado original "é, portanto, essencialmente uma recusa em reconhecer sua radical dependência, e em aceitar de Deus a sua salvação como um dom gratuito" (Jean Danielou, No Princípio: Gênesis 1-11. 3a ed. Petrópolis: Vozes, 1970,  p.67).

Sobre a “vestimenta” de folhas de figueira: a presença ou a ausência dos frutos desta árvore eram símbolo de abundância ou de indigência espiritual para o Povo de Deus, como indicam os profetas (cf. Mq 4,4; Os 9,10; Jer 8,13; Hab 3,17) e o Cristo (na parábola da “figueira estéril” de Lc 13,6-9); em sua “nudez” espiritual, o homem e a mulher “não têm figos”, isto é, suas obras não podem mais ser obras do Amor Divino, restou-lhes apenas a “folhagem” (como a “figueira amaldiçoada” de Mc 11,12-14), ou seja, a vida natural sem a Caridade. "É isso o pecado original, onde uma criação que, em lugar de se abrir à graca, fechou-se e se desdobrou sobre si mesma" (Danielou, No Princípio, p. 70).

Eles ouviram o passo do Senhor Deus que passeava no jardim à brisa do dia e o homem e sua mulher se esconderam da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. O Senhor Deus chamou o homem: ‘Onde estás?’, disse ele. ‘Ouvi teu passo no jardim’, respondeu o homem; tive medo porque estou nu, e me escondi’. Ele retomou: ‘E quem te fez saber que estavas nu? Comeste, então, da árvore que te proibi de comer!’ O homem respondeu: ‘A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!’ O Senhor Deus disse à mulher: ‘Que fizeste?’ E a mulher respondeu: ‘A serpente me seduziu e eu comi.’

Então o Senhor Deus disse à serpente:
‘Porque fizeste isso
És maldita entre todos os animais domésticos
E todas as feras selvagens.
Caminharás sobre teu ventre
E comerás poeira
Todos os dias de tua vida.
Porei hostilidade entre ti e a mulher,
Entre tua linhagem e a linhagem dela.
Ela te esmagará a cabeça
E tu lhe ferirás o calcanhar.’

À mulher ele disse:
‘Multiplicarei as dores de tuas gravidezes,
Na dor darás à luz filhos.
Teu desejo te impelirá ao teu marido
E ele te dominará.’

Ao homem, ele disse:
‘Porque escutaste a voz de tua mulher
E comeste da árvore que eu te proibira comer,
Maldito é o solo por causa de ti!
Com sofrimentos dele te nutrirás
Todos os dias de tua vida.
Ele produzirá para ti espinhos e cardos,
E comerás a erva dos campos.
Com o suor de teu rosto
Comerás teu pão
Até que retornes ao solo,
Pois dele foste tirado.
Pois tu és pó
e ao pó tornarás.’

O homem chamou sua mulher ‘Eva’, por ser a mãe de todos os viventes. O Senhor Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu. Depois disse o Senhor Deus: ‘Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre!’ E o Senhor Deus o expulso do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora tirado. Ele baniu o homem e colocou, diante do jardim de Éden, os querubins e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da árvore da vida.


Se Deus se dirige aos recém pecadores “à brisa do dia”, e não “na tempestade noturna”, isto significa tanto a brandura do Pai, que não queria condená-los, quanto ainda um resquício de luz na consciência dos primeiros pais – Santo Agostinho utiliza uma tradução que diz “tarde”, e indica que “o sol já se ia ocultando, ou seja [...] era-lhes retirada a luz interior da verdade” (S. Agostinho, Comentário ao Gênesis, Livro II, Cap. XVI, n. 24). No entanto, eles “se escondem entre as árvores do jardim”, isto é, fecham-se ao Amor e como que se rebaixam à condição das criaturas irracionais inferiores: “Assim, os dois, elevando-se desordenadamente acima de si, caíram miseravelmente abaixo de si mesmos, tombando do estado de inocência e de graça no de culpa e de miséria” (S. Boaventura, Brevilóquio). Deus se faz presente a eles, é no ser humano que se dá a mudança, é Adão que não mais está presente a Deus: seu medo é expressão da ausência de Caridade (cf. 1Jo 4,18), percebe-se a Deus como um acusador, como um inimigo, e não como um Pai à procura do filho; a consciência fala lá no fundo que foi feito algo muito errado, há a presença do sentimento de culpa, mas não há o sincero arrependimento, e sim a acusação do outro, a transferência da responsabilidade pelo pecado. “Quem se esconde do olhar de Deus senão aquele que, tendo-o abandonado, passa a amar o que lhe é próprio?” (cf. S. Agostinho, Comentário ao Gênesis, Livro II, Cap. XVI, n. 24). "Deus chamou o homem a viver com ele numa familiaridade confiante. [...] A perda dessa confiança, o aparecimento da vergonha e do medo, sao pois a manifestação concreta da perda da graça, isto e, a morte espiritual" (Danielou, No Princípio, pp. 72-73).

Deus, que conhece absolutamente o grau de culpabilidade ou malícia de cada qual, proferirá o justo juízo respectivo (como bem sabido):

a) A maldição definitiva para o Tentador, ratificando que sua queda é perpétua: rastejará no solo por toda a vida, jamais recuperará a possibilidade de levantar-se à vida espiritual sobrenatural, que já havia sido para sempre perdida; sua vontade se empenhou totalmente na ação maligna ou tentadora. O “proto-Evangelho” anuncia a Salvação futura, e a inimizade entre os filhos da Serpente, os anjos que caíram com ele e os homens que seguirão seu caminho, e os filhos da “Mulher”, especialmente “o” Filho, o Verbo que se encarnará através do Fiat da Nova Eva e vencerá o Diabo.

b) As dores das gravidezes femininas, e a condição de submissão ao homem – o que é uma quebra da harmonia original –, na futura existência temporal.

c) A dureza e o significado penitencial do trabalho para o homem (o trabalho haveria, mas foi revestido deste caráter árduo), mais a morte física (para ele e a mulher, obviamente), consequência de seu afastamento de Deus (como havia sido advertido pelo Senhor), na futura existência temporal. No entanto, não é o homem que é amaldiçoado, senão o “solo”. A criação se tornou um lugar inóspito, porque o seu Zelador afastou-se de Deus, e ele era o mediador (provisório) entre o Criador e o mundo. Mesmo com a redenção de Cristo, a criação seguirá “sofrendo as dores do parto” até o fim do mundo, quando se manifestarão em plenitude os filhos de Deus (cf. Rm 8,18-25).

Incitado por Satanás, o ser humano, administrador da criação, vê o mundo transformado num caos e maculado, mas recebe, da misericórdia de Deus, a “túnica de pele” da animalidade racional deste organismo perecível que partilhamos, porém, não mais, até a vinda de Cristo, o acesso à “árvore da Vida” ou à Graça sobrenatural. Após esta “involução” tão drástica da queda, seria preciso um longo processo de desenvolvimento da vida humana e de preparação do espírito humano, até a vocação de Abraão e a formação do Povo de Israel e a plenitude dos tempos, a fim de que o homem voltasse à potência natural adequada para poder recuperar a Vida divina pela redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, que venceu "o mundo" e seu "príncipe".


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