"Não há nenhuma dúvida quanto a isso: o ethos cristão
é indissolúvel do ponto de vista religioso dos cristãos com relação ao mundo e
a Deus. Sem este ponto de vista, o ethos cristão
fica sem sentido, e todas as tentativas bem intencionadas de lhe entregar um
sentido laico [...] são [...] carentes de fundamentação [Nota: esta é
precisamente a falha de certo "conservadorismo", que considera,
equivocadamente, que a "civilização" ou os "valores" cristãos podem subsistir
"culturalmente" sem estarem arraigados numa fé explícita, na graça, na presença viva da Igreja na sociedade]. O
cerne da moral cristã, no qual a religião está ligada com a moral, vigora no
acolhimento de um reino espiritual [...] O mandamento do amor está ligado aos
homens, enquanto estes são membros do reino de Deus, que é em si solidário.
[...]
As formas comunistas de vida conjunta, representadas pelas
comunidades cristãs primitivas, não indicam deste modo nenhuma conexão de
sentido entre moral cristã e comunismo dos bens [...] Aqui o comunismo foi
apenas uma expressão exterior para aquela 'unidade dos corações e das almas',
da qual nos falam os atos dos apóstolos. Era facultado a cada um vender o seu
terreno e colocar um preço aos pés dos apóstolos. Esta comunidade originária
nada tem a ver com uma expropriação artificial conduzida através da coação do
Estado, com o plano consciente de assegurar o bem-estar universal; ainda menos
domina aí a representação de que a constituição ética dos homens pudesse ser
alterada por uma nova ordenação da propriedade. Ananias não é censurado por
Pedro, porque ele não deu o fruto pleno do bem vendido ao apóstolo; mas
tão-somente por sua insinceridade. Ananias diz ser a soma que traz a totalidade
da soma vendida. Seu direito de propriedade é expressamente reconhecido: 'Esta
não permaneceria tua mesmo que não a tivesse vendido? E agora que a
vendeste não a tens em teu poder?' Não existe nada neste comunismo que não se
estabeleça sobre uma doação voluntária, de cujo valor
religiosamente ético está no ato de sacrificar e 'doar'. [...] eles nunca [...]
tentaram com a sua forma de vida desdobrar uma agitação, que conduzisse ao
comunismo. À sua forma de comunismo nunca correspondeu nenhuma modalidade
comunista de produção. Assim, do mesmo modo, a inclinação social da ideia do
amor cristão, posteriormente chamada de Caritas, também pressupõe o
regime da propriedade privada individual.
[...] a 'humanidade', ser natural, inteiramente presente,
visível, finita e terrestre, substitui a noção cristã de uma sociedade de anjos e de almas,
que abarca também aos mortos e que é composta pela totalidade da humanidade espiritualmente vivente [Nota: isto conecta com
uma ideia cara ao pensamento "conservador"] [...]
[...] O novo amor ao homem não é de um mais
primordialmente ato e
movimento, e mesmo ato e movimento de um tipo espiritual [...]; Este novo
amor é sentimento, e
sentimento em consonância para com certas disposições semelhantes àquelas que
provocam em nós a percepção sensível da expressão de dor e alegria [...] não é
por acaso que os teóricos da filosofia e da psicologia dos sécs. XVII e XVIII,
que vão formulando paulatinamente o novo ethos de
maneira teórica, pretenderam compreender a essência do amor a partir de
manifestações de simpatia, de compaixão e compartilhamento na alegria;
reduzindo-as, porém, a uma indução psíquica. Assim se portaram especialmente os
grandes teóricos ingleses, desde Hutheson, Adam Smith, D; Hume até Baim. O
mesmo se dá com Rousseau. A afecção própria ao moderno amor ao homem, seu grito
súbito por uma humanidade sensivelmente bem-aventurada, seu sofrimento
profundamente ardente, seu empertigar-se revolucionário contra tudo, que ele vê
como um obstáculo para a elevação desta bem-aventurança sensível, contra as
instituições, a tradição, o hábito; o 'coração rebelde' que pulsa em seu peito;
tudo isto se encontra em uma franca contraposição ao entusiasmo espiritual luminoso e quase frio do amor
cristão. [...] o amor é conduzido a não ser mais que um produto, mais e mais
refinado e, em virtude da inteligência, mais e mais complicado, de um instinto
animal de origem sexual que se estende a objetos os mais numerosos, e cada vez
mais complexos, em razão do desenvolvimento racional e social. [...]

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