1.7.16

Max Scheler sobre o secularismo, o comunismo e o humanitarismo

"Não há nenhuma dúvida quanto a isso: o ethos cristão é indissolúvel do ponto de vista religioso dos cristãos com relação ao mundo e a Deus. Sem este ponto de vista, o ethos cristão fica sem sentido, e todas as tentativas bem intencionadas de lhe entregar um sentido laico [...] são [...] carentes de fundamentação [Nota: esta é precisamente a falha de certo "conservadorismo", que considera, equivocadamente, que a "civilização" ou os "valores" cristãos podem subsistir "culturalmente" sem estarem arraigados numa fé explícita, na graça, na presença viva da Igreja na sociedade]. O cerne da moral cristã, no qual a religião está ligada com a moral, vigora no acolhimento de um reino espiritual [...] O mandamento do amor está ligado aos homens, enquanto estes são membros do reino de Deus, que é em si solidário. [...]

As formas comunistas de vida conjunta, representadas pelas comunidades cristãs primitivas, não indicam deste modo nenhuma conexão de sentido entre moral cristã e comunismo dos bens [...] Aqui o comunismo foi apenas uma expressão exterior para aquela 'unidade dos corações e das almas', da qual nos falam os atos dos apóstolos. Era facultado a cada um vender o seu terreno e colocar um preço aos pés dos apóstolos. Esta comunidade originária nada tem a ver com uma expropriação artificial conduzida através da coação do Estado, com o plano consciente de assegurar o bem-estar universal; ainda menos domina aí a representação de que a constituição ética dos homens pudesse ser alterada por uma nova ordenação da propriedade. Ananias não é censurado por Pedro, porque ele não deu o fruto pleno do bem vendido ao apóstolo; mas tão-somente por sua insinceridade. Ananias diz ser a soma que traz a totalidade da soma vendida. Seu direito de propriedade é expressamente reconhecido: 'Esta não  permaneceria tua mesmo que não a tivesse vendido? E agora que a vendeste não a tens em teu poder?' Não existe nada neste comunismo que não se estabeleça sobre uma doação voluntária, de cujo valor religiosamente ético está no ato de sacrificar e 'doar'. [...] eles nunca [...] tentaram com a sua forma de vida desdobrar uma agitação, que conduzisse ao comunismo. À sua forma de comunismo nunca correspondeu nenhuma modalidade comunista de produção. Assim, do mesmo modo, a inclinação social da ideia do amor cristão, posteriormente chamada de Caritas, também pressupõe o regime da propriedade privada individual.

[...] a 'humanidade', ser natural, inteiramente presente, visível, finita e terrestre, substitui a noção cristã de uma sociedade de anjos e de almas, que abarca também aos mortos e que é composta pela totalidade da humanidade espiritualmente vivente [Nota: isto conecta com uma ideia cara ao pensamento "conservador"] [...]

[...] O novo amor ao homem não é de um  mais primordialmente ato e movimento, e mesmo ato e movimento de um tipo espiritual [...]; Este novo amor é sentimento, e sentimento em consonância para com certas disposições semelhantes àquelas que provocam em nós a percepção sensível da expressão de dor e alegria [...] não é por acaso que os teóricos da filosofia e da psicologia dos sécs. XVII e XVIII, que vão formulando paulatinamente o novo ethos de maneira teórica, pretenderam compreender a essência do amor a partir de manifestações de simpatia, de compaixão e compartilhamento na alegria; reduzindo-as, porém, a uma indução psíquica. Assim se portaram especialmente os grandes teóricos ingleses, desde Hutheson, Adam Smith, D; Hume até Baim. O mesmo se dá com Rousseau. A afecção própria ao moderno amor ao homem, seu grito súbito por uma humanidade sensivelmente bem-aventurada, seu sofrimento profundamente ardente, seu empertigar-se revolucionário contra tudo, que ele vê como um obstáculo para a elevação desta bem-aventurança sensível, contra as instituições, a tradição, o hábito; o 'coração rebelde' que pulsa em seu peito; tudo isto se encontra em uma franca contraposição ao entusiasmo espiritual luminoso e quase frio do amor cristão. [...] o amor é conduzido a não ser mais que um produto, mais e mais refinado e, em virtude da inteligência, mais e mais complicado, de um instinto animal de origem sexual que se estende a objetos os mais numerosos, e cada vez mais complexos, em razão do desenvolvimento racional e social. [...]



[SCHELER, Max. Da reviravolta dos valores: Ensaios e artigos. Trad. Marco Antônio Casa Nova. Petrópolis: 1994, Vozes, pp. 113-125; os grifos são do autor]



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