Extrato de: ZUBIRI, Xavier.
Sobre el sentimiento y la volición. Madrid: Alianza & Fundación
Xavier Zubiri, 1992, pp. 315-320.
O texto em questão faz
parte do curso “El problema del mal” (1964). A tradução e os negritos são meus.
* * *
É inegável que há
pessoas que morreram em pecado; ou seja, com a figura irrevogável de ser a
antítese do bem transcendente, de ser de certo modo a antítese da divindade. Estes
são os que estão em situação que se chama de condenação. Pode-se dizer, então,
que Deus não é o autor do mal se produz a pena eterna do condenado? Não por
considerações místicas, mas por este problema é pelo que me vi obrigado a falar
do cristianismo.
Deus não é o autor da
pena do condenado. Se assim fosse, isto seria metafisicamente atentatório à
entidade mesma de Deus. Isto é absurdo. A pena do condenado não é uma pena
imposta por Deus, senão uma pena querida pelo próprio condenado, e não somente
consequência de seu ato. Não se pode imaginar que o condenado está naquela
situação em que caiu, e que realmente se aguente e a suporte só porque quis
neste mundo uma coisa à que segue uma pena. Não se trata disso. É que o
condenado no ínfero quer real, efetiva e positivamente a situação de pena em
que se acha. A condenação não consiste em sofrer as consequências de um pecado,
senão em permanecer obstinadamente, irrevogavelmente querendo o que se quis no
pecado. Se o condenado quisesse dizer, vista sua pena: “me arrependo”, no ato
ficaria salvo. O que acontece é que não pode e não quer arrepender-se. A
obstinação formal na volição própria, essa é a intrínseca situação e pena do
condenado.
O condenado quer sua
própria pena. Quer sua própria pena, porque quer sua própria malícia. E como
sua malícia é antinômica, é o contrasser de seu próprio bem, querido formal e
positivamente em um ato de vontade, resulta que o condenado se encontra em uma
espécie de soberba desesperação. Algo parecido ao que em certas situações
humanas acontece a algumas pessoas vítimas de grandes desgraças, que em lugar
de superá-las parece que cada vez se afundam mais, comprazendo-se em sua
própria desgraça. Por isto, diziam não sem razão alguns teólogos que a tristeza
como vício é a luxúria da alma. A situação do condenado é metafisicamente esta.
Quer real e efetivamente a situação e a pena em que se encontra, e a quer
desesperadamente. Com o qual, o único que quer é sua própria vontade por cima
do bem e do mal, e apesar do mal, e até por cima de si mesmo. Não é Deus o que
impõe essa condição; é a condição intrínseca da própria vontade do condenado. O
inferno não é uma espécie de termo da justiça vindicativa; isto seria monstruoso.
É pura e simplesmente o acatamento divino da situação em que o homem ficou
fixado por sua própria vontade, e na que continua fixado, obstinada e
pertinazmente, depois da morte.
Outra é a condição do
que se salva. Naturalmente, isto não deixa de colocar seu problema. Se
salvar-se consistisse unicamente em haver merecido o outro mundo, a coisa
terminaria aí. Mas não é esta, entretanto, a realidade. Ninguém pode
merecer com estrito rigor, de condigno, como dizem os teólogos, a
salvação eterna na hora de sua morte. Isto o mereceu somente Cristo; mas nenhum
homem na terra pode merecer com estrito rigor e de condigno sua salvação.
Dir-se-á então que, pelo menos, fazendo o que estava de sua parte, mereceram
moralmente o morrer em estado de graça e ir ao céu. Pois tampouco isto é
verdade. Nem tão sequer há um mérito moral para poder entrar no céu. Nem o
maio9r santo merece moralmente ir ao céu. Isto é impossível.
Agora, deduz-se daqui
então que não há nenhuma congruência, que seja o mesmo viver bem que mal, ser
um santo que um pecador, se na última hora o santo não vai merecer, nem tão
sequer por congruência moral, o céu? Não, não significa isto. Porque quando se
diz que não se merece de côngruo, o que se quer afirmar é que a
congruência não é merecida, não que seja inexistente. A congruência existe. Não
é uma congruência moralmente merecida pelo homem, mas sim é uma congruência
livremente querida e determinada por Deus.
Há muitos que não estão
incorporados nas filas do cristianismo. Nenhum teólogo, casa não seja um
exagerado – e os houve inclusive entre os “manda-chuvas” da teologia – pensaria
que a humanidade é uma masa damnata, como disse Santo Agostinho, e que
por conseguinte Deus não tem por que tirar todo o mundo dessa massa de dano, e
que nesse sentido fora da Igreja não há salvação. Não creio que houvesse hoje
algum teólogo que se atrevesse a sustentar essa interpretação. O que se costuma
dizer é que Deus, que veicula a graça pela Igreja em forma de sacramentos, não
limitou seu poder para justificar os homens pela via dos sacramentos da Igreja,
e que por conseguinte, ao que está de boa fé fora da Igreja lhe concede a graça
de sua santificação. O qual é absolutamente verdade. Penso, entretanto, que a
verdade é mais complexa.
Pareceria nessa
interpretação que sempre há duas fontes de graça: uma, a graça de Cristo
veiculada pelos sacramentos no seio da Igreja; outra, a graça de Cristo tirada
pela potência absoluta de Deus, que justifica todo o que tem boa fé, ainda que
esteja no erro; iria salvá-lo gratia Christi. Eu creio, entretanto, que
esse não é um dualismo exato. Toda graça tem sua fonte no sacrifício redentor
de Cristo. E esse sacrifício, em sua integridade, está depositado no seio da
Igreja. Quando Deus justifica o que está de boa fé e não pertence à Igreja, lhe
dá uma graça não fora da Igreja, senão fora da via sacramental; mas lhe dá
uma graça que está contida no seio da Igreja. De sorte que este homem, sem o
saber, efetiva e realmente morre em uma graça saída da Igreja e veiculada por
ela; ou seja, morre no seio da Igreja. Se salva gratia Ecclesiae. Dizer
que fora da Igreja não há salvação, não significa dizer que o que não é
católico não se salva, senão que todo o que se salva, se salva por alguma graça
que está depositada e que arranca do seio da Igreja.
Isto, pelo que se
refere à significação do mal como pecado dentro da biografia humana.
Naturalmente, fica a
outra dimensão, a dimensão histórica dentro do cristianismo. A ela se aplica
integralmente também a frase de Cristo: “O Príncipe deste mundo já está julgado”
(Jo 16, 11). Que significa isto?
Não significa de maneira
alguma que o cristianismo seja em sua integridade o princípio do mundo. Isto
não ocorreu por completo jamais. Se isto fosse assim, a vida seria muito
simples. Mas isto não é verdade. Não somente cada indivíduo, senão o mundo
inteiro em sua estrutura objetiva, tem suas oscilações de onda a respeito do
cristianismo, com suas subidas e suas quedas. Mas o que sim é certo é que o
vetor de propagação, esse sim, aponta diretamente à pessoa de Cristo.
Entretanto, tampouco nos
façamos falsas representações sobre o que é esse vetor de propagação e esse
apontar ao termo de Cristo. Uma coisa é que o vetor aponte ao termo de Cristo,
e outra que consideremos que a existência histórica do cristianismo na terra
será uma cristianização progressiva do mundo. Não somente isto não é forçoso,
senão que, ademais, está ensinado tematicamente o contrário. Em meio de toda
sua alegoria simbólica e cósmica, própria do gênero apocalíptico, o Apocalipse
de São João tem um ensinamento formal e moral que não é simplesmente
alegórico. É que, efetivamente, nessas guinadas e ondulações, alguma vez a
história terminará; e não terminará na fase crescente da onda, senão na fase
decrescente: precisamente quando o cristianismo não seja um poder no mundo. Certamente,
isto não quer dizer que não haverá cristãos. Haverá cristãos, mas será na
contramão do mundo, cristãos em sua própria vida interior. Alguém se pergunta
então, qual é a forma do triunfo histórico do cristianismo?
Uma resposta indireta
seria dizer que, definitivamente, com que haja um só homem em graça de Deus
sobre a terra, este mundo tem mais bens que toda a malícia e maldade que a
espécie humana depositou no curso inteiro da história. O qual é absolutamente
verdadeiro, mas não é toda a verdade. Porque se bem é certo que essa onda final
está justamente em sua fase descendente, aponta, entretanto, à pessoa de
Cristo. Porque não esquecemos que essa fase descendente é a última, e
precisamente por sê-lo, o que será é precisamente a fonte de que real e
efetivamente ao homem seja feita a revelação do que foi o desígnio da história.
Isto é o que se chama o Juízo Final. O juízo das faltas de cada qual é levado consigo
mesmo na hora da morte. Em contrapartida, o chamado Juízo Final é justamente a
revelação do desígnio inteiro da história; uma revelação feita por Cristo, e
que assenta incomovivelmente o poder de Cristo sobre os espíritos. Por isso,
esse vetor de propagação, ainda em sua fase negativa, em sua negatividade
anticristã, que será justamente a dominadora do mundo, aponta direta e irremissivelmente
a esse princípio árquico com que Cristo venceu o Príncipe deste mundo.
Definitivamente, pois,
por onde quer que se tome a questão: pela estrutura puramente metafísica, ou
bem pela recheio que essa estrutura metafísica recebe por parte da revelação
que se nos fez à fé, o mundo nos aparece constitutivamente como bom. Como tal,
Deus não é causa do mal, nem o quer nem o aceita. Não somente não o quer e não
o aceita, senão que unicamente o permite, e por uma ordenação a um bem
superior, como vontade de personalidade moral biográfica e como vontade de
experiência moral histórica. E precisamente daí deriva a única atitude que o
homem pode e tem que tomar ante o problema do mal. Intelectualmente,
compreendê-lo com toda a sua dificuldade. E desde o ponto de vista da prática,
fazer o que Deus faz com o mal: Deus o permite em vista de bens maiores. Pois
bem, para nós é mister vencer o mal, primeiro dentro de nós mesmos, e em
segundo lugar, ao nosso redor; vencer o mal, como diz São Paulo, simplesmente
de uma maneira: por abundância de bem (cf. Rm 12, 21).

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