9.8.24

Zubiri sobre o inferno, a salvação na Igreja e o Juízo Final

Extrato de: ZUBIRI, Xavier. Sobre el sentimiento y la volición. Madrid: Alianza & Fundación Xavier Zubiri, 1992, pp. 315-320.

 

O texto em questão faz parte do curso “El problema del mal” (1964). A tradução e os negritos são meus.

 

* * *

 

É inegável que há pessoas que morreram em pecado; ou seja, com a figura irrevogável de ser a antítese do bem transcendente, de ser de certo modo a antítese da divindade. Estes são os que estão em situação que se chama de condenação. Pode-se dizer, então, que Deus não é o autor do mal se produz a pena eterna do condenado? Não por considerações místicas, mas por este problema é pelo que me vi obrigado a falar do cristianismo.

 

Deus não é o autor da pena do condenado. Se assim fosse, isto seria metafisicamente atentatório à entidade mesma de Deus. Isto é absurdo. A pena do condenado não é uma pena imposta por Deus, senão uma pena querida pelo próprio condenado, e não somente consequência de seu ato. Não se pode imaginar que o condenado está naquela situação em que caiu, e que realmente se aguente e a suporte só porque quis neste mundo uma coisa à que segue uma pena. Não se trata disso. É que o condenado no ínfero quer real, efetiva e positivamente a situação de pena em que se acha. A condenação não consiste em sofrer as consequências de um pecado, senão em permanecer obstinadamente, irrevogavelmente querendo o que se quis no pecado. Se o condenado quisesse dizer, vista sua pena: “me arrependo”, no ato ficaria salvo. O que acontece é que não pode e não quer arrepender-se. A obstinação formal na volição própria, essa é a intrínseca situação e pena do condenado.

 

O condenado quer sua própria pena. Quer sua própria pena, porque quer sua própria malícia. E como sua malícia é antinômica, é o contrasser de seu próprio bem, querido formal e positivamente em um ato de vontade, resulta que o condenado se encontra em uma espécie de soberba desesperação. Algo parecido ao que em certas situações humanas acontece a algumas pessoas vítimas de grandes desgraças, que em lugar de superá-las parece que cada vez se afundam mais, comprazendo-se em sua própria desgraça. Por isto, diziam não sem razão alguns teólogos que a tristeza como vício é a luxúria da alma. A situação do condenado é metafisicamente esta. Quer real e efetivamente a situação e a pena em que se encontra, e a quer desesperadamente. Com o qual, o único que quer é sua própria vontade por cima do bem e do mal, e apesar do mal, e até por cima de si mesmo. Não é Deus o que impõe essa condição; é a condição intrínseca da própria vontade do condenado. O inferno não é uma espécie de termo da justiça vindicativa; isto seria monstruoso. É pura e simplesmente o acatamento divino da situação em que o homem ficou fixado por sua própria vontade, e na que continua fixado, obstinada e pertinazmente, depois da morte.

 

Outra é a condição do que se salva. Naturalmente, isto não deixa de colocar seu problema. Se salvar-se consistisse unicamente em haver merecido o outro mundo, a coisa terminaria aí. Mas não é esta, entretanto, a realidade. Ninguém pode merecer com estrito rigor, de condigno, como dizem os teólogos, a salvação eterna na hora de sua morte. Isto o mereceu somente Cristo; mas nenhum homem na terra pode merecer com estrito rigor e de condigno sua salvação. Dir-se-á então que, pelo menos, fazendo o que estava de sua parte, mereceram moralmente o morrer em estado de graça e ir ao céu. Pois tampouco isto é verdade. Nem tão sequer há um mérito moral para poder entrar no céu. Nem o maio9r santo merece moralmente ir ao céu. Isto é impossível.

 

Agora, deduz-se daqui então que não há nenhuma congruência, que seja o mesmo viver bem que mal, ser um santo que um pecador, se na última hora o santo não vai merecer, nem tão sequer por congruência moral, o céu? Não, não significa isto. Porque quando se diz que não se merece de côngruo, o que se quer afirmar é que a congruência não é merecida, não que seja inexistente. A congruência existe. Não é uma congruência moralmente merecida pelo homem, mas sim é uma congruência livremente querida e determinada por Deus.

 

Há muitos que não estão incorporados nas filas do cristianismo. Nenhum teólogo, casa não seja um exagerado – e os houve inclusive entre os “manda-chuvas” da teologia – pensaria que a humanidade é uma masa damnata, como disse Santo Agostinho, e que por conseguinte Deus não tem por que tirar todo o mundo dessa massa de dano, e que nesse sentido fora da Igreja não há salvação. Não creio que houvesse hoje algum teólogo que se atrevesse a sustentar essa interpretação. O que se costuma dizer é que Deus, que veicula a graça pela Igreja em forma de sacramentos, não limitou seu poder para justificar os homens pela via dos sacramentos da Igreja, e que por conseguinte, ao que está de boa fé fora da Igreja lhe concede a graça de sua santificação. O qual é absolutamente verdade. Penso, entretanto, que a verdade é mais complexa.

 

Pareceria nessa interpretação que sempre há duas fontes de graça: uma, a graça de Cristo veiculada pelos sacramentos no seio da Igreja; outra, a graça de Cristo tirada pela potência absoluta de Deus, que justifica todo o que tem boa fé, ainda que esteja no erro; iria salvá-lo gratia Christi. Eu creio, entretanto, que esse não é um dualismo exato. Toda graça tem sua fonte no sacrifício redentor de Cristo. E esse sacrifício, em sua integridade, está depositado no seio da Igreja. Quando Deus justifica o que está de boa fé e não pertence à Igreja, lhe dá uma graça não fora da Igreja, senão fora da via sacramental; mas lhe dá uma graça que está contida no seio da Igreja. De sorte que este homem, sem o saber, efetiva e realmente morre em uma graça saída da Igreja e veiculada por ela; ou seja, morre no seio da Igreja. Se salva gratia Ecclesiae. Dizer que fora da Igreja não há salvação, não significa dizer que o que não é católico não se salva, senão que todo o que se salva, se salva por alguma graça que está depositada e que arranca do seio da Igreja.

 

Isto, pelo que se refere à significação do mal como pecado dentro da biografia humana.

 

Naturalmente, fica a outra dimensão, a dimensão histórica dentro do cristianismo. A ela se aplica integralmente também a frase de Cristo: “O Príncipe deste mundo já está julgado” (Jo 16, 11). Que significa isto?

 

Não significa de maneira alguma que o cristianismo seja em sua integridade o princípio do mundo. Isto não ocorreu por completo jamais. Se isto fosse assim, a vida seria muito simples. Mas isto não é verdade. Não somente cada indivíduo, senão o mundo inteiro em sua estrutura objetiva, tem suas oscilações de onda a respeito do cristianismo, com suas subidas e suas quedas. Mas o que sim é certo é que o vetor de propagação, esse sim, aponta diretamente à pessoa de Cristo.

 

Entretanto, tampouco nos façamos falsas representações sobre o que é esse vetor de propagação e esse apontar ao termo de Cristo. Uma coisa é que o vetor aponte ao termo de Cristo, e outra que consideremos que a existência histórica do cristianismo na terra será uma cristianização progressiva do mundo. Não somente isto não é forçoso, senão que, ademais, está ensinado tematicamente o contrário. Em meio de toda sua alegoria simbólica e cósmica, própria do gênero apocalíptico, o Apocalipse de São João tem um ensinamento formal e moral que não é simplesmente alegórico. É que, efetivamente, nessas guinadas e ondulações, alguma vez a história terminará; e não terminará na fase crescente da onda, senão na fase decrescente: precisamente quando o cristianismo não seja um poder no mundo. Certamente, isto não quer dizer que não haverá cristãos. Haverá cristãos, mas será na contramão do mundo, cristãos em sua própria vida interior. Alguém se pergunta então, qual é a forma do triunfo histórico do cristianismo?

 

Uma resposta indireta seria dizer que, definitivamente, com que haja um só homem em graça de Deus sobre a terra, este mundo tem mais bens que toda a malícia e maldade que a espécie humana depositou no curso inteiro da história. O qual é absolutamente verdadeiro, mas não é toda a verdade. Porque se bem é certo que essa onda final está justamente em sua fase descendente, aponta, entretanto, à pessoa de Cristo. Porque não esquecemos que essa fase descendente é a última, e precisamente por sê-lo, o que será é precisamente a fonte de que real e efetivamente ao homem seja feita a revelação do que foi o desígnio da história. Isto é o que se chama o Juízo Final. O juízo das faltas de cada qual é levado consigo mesmo na hora da morte. Em contrapartida, o chamado Juízo Final é justamente a revelação do desígnio inteiro da história; uma revelação feita por Cristo, e que assenta incomovivelmente o poder de Cristo sobre os espíritos. Por isso, esse vetor de propagação, ainda em sua fase negativa, em sua negatividade anticristã, que será justamente a dominadora do mundo, aponta direta e irremissivelmente a esse princípio árquico com que Cristo venceu o Príncipe deste mundo.

 

Definitivamente, pois, por onde quer que se tome a questão: pela estrutura puramente metafísica, ou bem pela recheio que essa estrutura metafísica recebe por parte da revelação que se nos fez à fé, o mundo nos aparece constitutivamente como bom. Como tal, Deus não é causa do mal, nem o quer nem o aceita. Não somente não o quer e não o aceita, senão que unicamente o permite, e por uma ordenação a um bem superior, como vontade de personalidade moral biográfica e como vontade de experiência moral histórica. E precisamente daí deriva a única atitude que o homem pode e tem que tomar ante o problema do mal. Intelectualmente, compreendê-lo com toda a sua dificuldade. E desde o ponto de vista da prática, fazer o que Deus faz com o mal: Deus o permite em vista de bens maiores. Pois bem, para nós é mister vencer o mal, primeiro dentro de nós mesmos, e em segundo lugar, ao nosso redor; vencer o mal, como diz São Paulo, simplesmente de uma maneira: por abundância de bem (cf. Rm 12, 21).



"Cristo, o Juiz" (1447), de Fra Angelico






Nenhum comentário: