Desejoso de
compreender melhor, para viver melhor, a importância da contemplação
na vida cristã, bem como a articulação entre a vida contemplativa e a vida
ativa, preparei este texto sistematizando brevemente a relação entre
ambas as dimensões da vida de fé de todo aquele que deseja cumprir a
Vontade de Deus, configurando-se amorosamente ao Senhor Jesus.
Vida contemplativa
e vida ativa
Não devemos
entender a vida contemplativa apenas como uma vocação dos religiosos chamados a
esse estilo de vida, e nem tão somente como a união mística
–que S. Tomás chama de “rapto” (cf. S.Th. II-II
q175)–, cume da vida contemplativa, e que é um carisma com o qual alguns são
agraciados, como S. Paulo (cf. 2Cor 12,2) e os grandes místicos como S. João da
Cruz e S. Tereza D’Ávila, por exemplo.
Nossa vida é
constituída por essas duas dimensões: a da ação, ou das atividades externas que
se ordenam às necessidades da vida presente; e a da contemplação, que se ordena
ao conhecimento da verdade (as verdades sobre a realidade e a Verdade, que é
Deus). De um lado, estão nossas atividades transitivas (orientadas para o
exterior); de outro, as atividades imanentes de nosso espírito.
Vida ativa e vida
contemplativa dividem adequadamente a vida humana (cf. S.Th. II-II
q179), como nos sugere a passagem de Marta e Maria (cf. Lc 10,38-42).
Das duas, a contemplação “é a melhor parte”, tem a primazia (cf. S.Th. II-II
q182), pois a “razão mais alta da dignidade humana consiste na vocação do
homem à união com Deus” (Gaudium et spes,
19); mas isso não significa que devamos dedicar mais tempo a ela que à
ação –exceção feita, evidentemente, aos chamados à vida
contemplativa–, e sim, considerá-la como valor mais elevado. Em nossa condição
de viadores, não podemos ocupar-nos unicamente com
a contemplação –mesmo nas ordens contemplativas, nas quais seus
membros também necessitam viver a dimensão da ação, como sugere o próprio
lema beneditino (“ora et labora”) –, pois faz parte do desígnio de Deus
que nos dediquemos à ação transformadora sobre o mundo (cf. Gn 1,28),
como criadores de cultura, como co-criadores (cf. João Paulo
II, Laborem exercens, 25),
de modo que a vida ativa também possui uma grande dignidade. Nossa própria
santificação pessoal implica um trabalho, um esforço e uma tensão, seja
desenvolvendo o amor ao próximo, seja trabalhando por nossa própria conversão.
Essa tensão, presente em nosso trabalho, em nosso apostolado, em nosso serviço
caritativo, e em nosso combate espiritual –e que faz
da “vida do homem sobre a terra uma milícia” (cf. Jó 7,1, versão
da Nova Vulgata)–, não corresponde exatamente às disposições de que
necessitamos para a contemplação, mas prepara o terreno para a mesma
(cf. S.Th. II-II, q182, a3): vida ativa e vida contemplativa se
complementam.
A atitude
contemplativa
A atitude
contemplativa é oposta àquela que adotamos diante dos meios, pelos quais só nos
interessamos à medida que servem para alcançar nossos objetivos. Pela
contemplação, nos aplicamos a um objeto como tal, penetramos em sua essência. O
objeto tem um valor intrínseco, e atrai nosso coração com seu conteúdo. Não
vivemos aquela tensão para o futuro típica da ação, mas nos demoramos no
presente. Somos receptivos ao objeto e nos aplicamos a ele plenamente sem
divisão; repousamos no objeto. Receptividade não significa passividade, mas
abertura, atenção plena: a contemplação é “um estado de atividade no mais
elevado sentido da palavra, que traz consigo a autêntica atualização da pessoa,
a verdadeira vida espiritual na sua forma mais
intensa” (Dietrich von Hildebrand, A nossa transformação em Cristo. Lisboa: Aster,
1960, p.83).
Nada que tenha
caráter puramente instrumental pode ser objeto de contemplação, porque não tem
capacidade para captar nossa atenção. Uma verdade universal, a beleza de uma
obra de arte, uma pessoa querida… são exemplos de objetos passíveis
de serem contemplados. Eles nos põem em contato não somente com eles mesmos,
mas nos levam a transcender nossa vida atual, nos elevam ao mundo dos valores,
ou seja, ao reino no qual as coisas terrenas são vistas com seu devido valor,
no seu devido lugar: o Reino de Deus. Para que seja verdadeira contemplação, a
contemplação de uma criatura deve nos levar a Deus, como, de fato, pode fazer,
porque o Senhor “tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através
das criaturas” (Rm 1,20). Assim, “a contemplação dos efeitos
divinos também pertence, de modo secundário, à vida contemplativa,
enquanto que, através deles, o homem é levado ao conhecimento de
Deus” (S.Th. II-II, q180, a4): a contemplação das verdades nos leva a
contemplar a própria Verdade Subsistente.
Contemplação e
oração
A contemplação
especificamente religiosa é aquela que se dá em nossa vida de oração. Toda ela
deve ser considerada vida contemplativa – e não apenas
a “oração de contemplação” em sentido estrito (que o Catecismo da Igreja Católica trata
nos nn. 2709-2719)–, mesmo a oração vocal. Ao pronunciarmos as fórmulas
das orações, devemos fazê-lo unindo nosso coração à voz, e assim “a oração
vocal se converte em uma primeira forma de oração contemplativa”, como nos
recorda o Catecismo (n. 2704).
Com maior razão,
ainda, pode-se chamar “contemplativa” à oração mental
ou “meditação”, que se debruça sobre os mistérios de Cristo,
principalmente através da leitura orante da Sagrada Escritura (lectio divina), ou por intermédio
do santo rosário (cf. Catecismo, n. 2708). Sobre este
último, São João Paulo II, em sua belíssima carta apostólica Rosarium Virginis Mariae (n.14),
afirma claramente que se trata de “uma oração marcadamente contemplativa”,
em que juntos com a Virgem, e guiados por suas mãos maternais, vamos aprendendo
a Cristo: “A contemplação de Cristo tem em Maria o seu modelo
insuperável. O rosto do Filho pertence-lhe sob um título especial. Foi no seu
ventre que Se plasmou, recebendo d’Ela também uma semelhança humana que evoca
uma intimidade espiritual certamente ainda maior. À contemplação do rosto de
Cristo, ninguém se dedicou com a mesma assiduidade de Maria” (n. 10).
A oração
contemplativa propriamente dita é “um simples olhar sobre Deus no silêncio
e no amor. É um dom de Deus, um momento de fé pura durante o qual
o orante procura Cristo, se entrega à vontade amorosa do Pai e
concentra o seu ser sob a ação do Espírito” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 571). Trata-se do
cumprimento das expressões anteriores da vida de oração, a meta para qual se
dirigem. Isso pode ser visto com clareza no mais antigo método conhecido
da “lectio divina”, do
monge cartuxo Guigo II, em suas quatro etapas: a lectio (leitura), onde verbalizamos a
Palavra de Deus, fonte de nossa vida de oração, buscando uma primeira
compreensão com a imaginação; a meditatio (meditação),
onde, como Nossa Senhora, penetramos com o coração e a mente no sentido da
Escritura (cf. Lc 2,19.51), aplicando-nos totalmente ao texto (ao que
diz “em si”, com a ajuda de passagens do Magistério, comentários dos
santos, dos mestres espirituais), e aplicando-o totalmente a nós (traduzindo-o
para nossa vida: “em si-em mim”); a oratio (oração), onde dirigimos nossas súplicas ao Senhor,
movidos pelos afetos que a Sua Palavra fez brotar em nosso coração –não é
tão importante que haja uma ressonância sensível desses afetos, nem devemos
buscar intencionalmente sentimentos agradáveis, apenas dialogar com o Senhor a
partir das disposições que sua Palavra de Verdade gera em nós, elevando-Lhe
devotamente, conforme o caso, nossa bênção, nossa petição, nossa intercessão, nossa
ação de graças, nosso louvor (cf. Catecismo, nn. 2626-2643)–; e a contemplatio (contemplação), onde
entregamos todo o nosso ser nas mãos do Senhor (cf. Sl 31,6) –Tibi se
cor meum totum subjicit, quia te contemplans totum déficit (Adoro Te Devote)–, adorando-O, isto é,
amando-O “de todo o coração, de toda a alma, com toda a força e de todo o
entendimento” (cf. Lc 10,27), repousando em Deus. O Esposo pode
ainda, em sua liberalidade, proporcionar que “saboreemos as alegrias da
eterna doçura” (Guigo II), num místico desposório entre
nossa alma e o Amado, naquela experiência própria da contemplação mística (a
contemplação no seu sentido estritíssimo) – obviamente, não devemos
presumi-la, nem nos entristecermos se não chegarmos nunca a ter essa
experiência, que é dom de Deus e não é caminho ordinário de nossa
santificação. Cumpre acrescentar o momento da actio (ação), pois como narra a leitura da Transfiguração do
Senhor, é preciso “descer do Tabor”, tomar resoluções concretas para a
vida diária, inspiradas pelo Espírito Santo: “a lectio divina não está concluída, na sua dinâmica, enquanto não
chegar à ação (actio) , que impele a
existência do fiel a doar-se aos outros na caridade” (BENTO XVI, Exortação apostólica
Verbum Domini, n. 87).
Na oração cristã,
não se trata de contemplar o Deus impessoal do panteísmo,
ou “fundir” nossa realidade humana na realidade divina: unidos a Deus
conservamos nossa identidade pessoal, uma vez que a alteridade é um bem e
existe em Deus mesmo, Uno e Trino (cf. Carta
aos Bispos da Igreja católica sobre alguns aspectos da meditação cristã,
14). E a contemplação cristã se fundamenta na Revelação (como bem o demonstra
a lectio divina); nela,
dirigimos o olhar para o rosto de Deus manifestado em Cristo Jesus e, através dEle,
no Espírito, voltamo-nos para o Pai. Ao anseio do salmista, “É o teu
rosto, Senhor, que eu procuro” (Sl 27,8), Deus respondeu com a
Encarnação de Seu Filho, através de quem “seu rosto resplandeceu sobre
nós” (cf. Sl 67,2), e que também revela a nós nosso próprio
rosto (cf. Gaudium et spes,
22). A contemplação do rosto do Senhor Jesus “não pode inspirar-se
senão àquilo que se diz d’Ele na Sagrada Escritura, que está, do
princípio ao fim, permeada pelo seu mistério” (S. João Paulo
II, Novo Millennio Ineunte,
17); “ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo” (S.
Jerônimo). Devemos ler a Bíblia e meditá-la à luz da Tradição e do Magistério
da Igreja, pois a experiência de encontro pessoal dos Apóstolos com Cristo é
que nos possibilita participar da mesma comunhão e alegria (cf.
1Jo 1,1-4).
Contemplação e
ação
A ação se nutre da
contemplação; sem essa, nossas atividades periféricas nos arrastam para a
superfície. Inclusive, para que o fruto da contemplação seja mais perdurável em
nossas vidas, é muito conveniente o momento das resoluções (actio), indicado acima, para que a
Palavra se faça “carne” também em nossa ação, tendo em vista
que “toda oração contemplativa cristã remete constantemente ao amor do
próximo, à ação e à paixão, e, precisamente dessa maneira, aproxima mais a
Deus”, como nos diz a Carta sobre a
meditação cristã (n. 13), comentando a passagem da Transfiguração.
Devemos ter em consideração, no entanto, que a contemplação não é formalmente
um “meio” para agirmos melhor, mas encontro pessoal com
Deus (fim último da vida cristã), que transfigura nossa vida,
permitindo-nos viver uma liturgia diária, encontrando a Deus em todas as
circunstâncias, também nas pessoas a quem dirigimos nossa amizade, ação
apostólica e serviço fraterno.
A contemplação nos
ajuda a ver o rosto do Senhor naqueles que sofrem, aprendendo a servir-Lhe
nestes: “se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos
saber vê-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se
quis identificar: ‘Porque tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me
de beber; era peregrino e recolhestes-Me; estava nu e destes-Me de vestir;
adoeci e visitastes-Me; estive na prisão e fostes ter Comigo’
(Mt 25,35-36)” (Novo Millennio Ineunte,
49). O amor incondicional ao próximo, como vivido por Jesus, se torna
possível em virtude da contemplação, na qual aprendemos a ver os demais com os
olhos de Deus, como nos ensina Bento XVI: “Revela-se, assim, como possível, o
amor ao próximo no sentido enunciado por Jesus na Bíblia. Consiste,
precisamente, no fato de que eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me
agrada ou que nem conheço sequer. Isso só é possível realizar-se a partir do
encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade,
chegando mesmo a tocar o sentimento. Então, aprendo a ver aquela pessoa já
não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus
Cristo” (Bento XVI, Deus Caritas est,
n. 18).
Importante também é
ressaltar a necessidade, já aludida ao início, de romper com o pecado através
da conversão, pois “Quem subirá ao monte do Senhor, quem estará no seu
lugar santo?”, senão aquele que “tiver as mãos limpas de culpa e o coração
puro” (Sl 24,3-4); são os “puros de coração que veem a Deus” (cf. Mt 5,8).
A via “purgativa” da mortificação, do combate espiritual (que é nossa
preparação remota para a vida de oração), antecede a
via “iluminativa” da meditação e a
via “unitiva” da contemplação –este clássico esquema
pode ser visualizado na Santa Missa, onde tomamos consciência e pedimos perdão
dos nossos pecados no Ato Penitencial, somos iluminados pela Liturgia da
Palavra, e nos unimos a Cristo pela Eucaristia, que, no momento da
transubstanciação, nos convida a uma atitude eminentemente contemplativa
(cf. Jo 12,32;19,37). Devemos, entretanto, cuidar-nos de entender
essas três vias como blocos separados e sucessivos na vida do cristão, o que
corresponderia a uma artificial separação entre ascese e mística, análoga à
equivocada disjunção entre vida ativa e vida contemplativa. Precisamos ter
sempre em conta a perspectiva da cooperação com a graça (cf. Cl 1,29),
realizando nossa parte, sem, entretanto, esquecer-nos de que nossa amorosa
entrega é impulsionada pelo próprio Deus, que está ao início e ao término de
nossa oração: “à plena contemplação do rosto do Senhor, não chegamos pelas
nossas simples forças, mas deixando a graça conduzir-nos pela sua mão” (Novo Millennio Ineunte, 20).
A modo de
conclusão
Reiteramos a
unidade entre vida contemplativa e vida ativa, e como ambas se sustentam e
apoiam mutuamente: nosso trabalho, nosso apostolado, nossa caridade, nosso
combate… tudo isso deve ser vivido permeado pelo espírito da oração e
da contemplação, que é o mesmo Espírito do Senhor; e ao mesmo tempo, a vida
vivida sob o impulso desse Espírito torna o fiel cada vez mais apto para a
íntima comunhão com o Senhor.
Para atingir a
contemplação é necessário primeiro o recolhimento, a unidade pessoal frente à
dispersão; ambos conformam a vida contemplativa: “a verdadeira
contemplação é recolhimento, e o verdadeiro recolhimento necessita de se
submergir na contemplação” (Hildebrand, A nossa transformação em Cristo, p. 94). Mas o recolhimento
não se limita aos momentos de contemplação, pode perdurar na ação, e através de
sua vivência, se pode viver o espírito de contemplação sempre, o
qual também é ajudado por pequenos exercícios da presença de Deus, como as
jaculatórias, e orações simples, como as bênçãos das refeições e o Angelus.
De outra parte, só
pode ser recolhida a pessoa que dá à contemplação seu devido lugar no
dia-a-dia. Como cristão, devo dedicar, todos os dias, algum tempo à oração
interior, ter “momentos fortes” de oração; necessito da solidão,
para perceber a companhia dAquele que está “no segredo” (cf. Mt 6,6).
E assim, gozando, desde agora, da intimidade do Senhor da Vida, nos preparamos
para a eternidade, onde só haverá contemplação, como nos recorda S. Agostinho: “ali
festejaremos e contemplaremos, contemplaremos e amaremos, amaremos e
louvaremos. Eis o que será no fim sem fim” (Cidade
de Deus, XXII, 30).
Apêndice
Para quem quiser
aprofundar no assunto, recomendo vivamente, de São João Paulo II, as
cartas apostólicas Novo Millennio Ineunte e Rosarium Virginis Mariae, e
também a Carta aos Bispos da Igreja
católica sobre alguns aspectos da meditação cristã:

Um comentário:
Maravilhoso, obrigado!
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