10.5.19

Sobre o "perenialismo" e questões correlatas

 

1) Sobre o "perenialismo"

 

Alguns amigos e alunos me perguntam o que eu acho da tese “perenialista” ou da “unidade transcendente/metafísica das religiões”. Pois é uma ideia falsa, tanto do ponto de vista religioso quanto do filosófico, por algumas razões:

 

1) Não existe uma “revelação adâmica” preservada “esotericamente” nas diversas religiões positivas. Isso é projeção da ideia da gnose hinduísta nas outras religiões (hindus acreditam nisso). Não há “esoterismo” no catolicismo; há uma experiência mística extraordinária (que não tem a ver com algum tipo de gnose da ciência simbólica ou coisa parecida), a que poucos fiéis são chamados, mas que em nada contradiz a doutrina “exotérica” (sic): “O que vos digo às escondidas, proclamai sobre os telhados”. O místico cristão não se depara com uma “deidade ou essência divina impessoal inefável superior à Trindade de Pessoas” (se alguém o diz, é falso místico; não é assim). A Trindade e a Encarnação são os conhecimentos religiosos mais sublimes, dos quais todo batizado participa na medida do seu dom. Certamente, a Comunhão Trinitária de Amor é um Mistério inesgotável para a inteligência humana finita, e o será por toda a eternidade, mas isto não significa que o que Jesus nos disse sobre a vida íntima de Deus seja uma verdade “penúltima”, um “símbolo” de algo “mais profundo” – os cristãos verdadeiros “não conhecem as profundidades de Satanás” (cf. Ap 2,24).

 

2) No mesmo sentido, não há uma mesma experiência “metafísica” entre os místicos das diversas religiões. O que o místico cristão vê não é o que o suposto místico de outra religião vê. Se este último visse o que o cristão vê, então ele faria como os reis magos, iria a Israel e à Igreja, e não fundaria uma religião (ou se fundasse, ela seria parecida com a de Israel), nem permaneceria na sua religião.

 

3) O que existe é uma unidade “fenomenológica” da experiência religiosa, que é a base de toda religião positiva: é o fato de experimentar-nos religados à realidade, como ensina Zubiri. A busca do fundamento da “religação” irá delinear os vários caminhos religiosos, profundamente – e não só “exotericamente” – distintos e irreconciliáveis quanto à visão metafísica (cosmovisão), ainda que com muitos pontos de convergência, sobretudo na moral, porque os princípios da Lei Natural (o dever de buscar e honrar a Divindade ou a Verdade, honrar a vida, honrar a família, honrar a convivência pacífica) se revelam naturalmente à consciência de modo universal (havendo maiores dificuldades para o discernimento das conclusões destes princípios, em virtude do pecado original).

 

4) Nem, desde outra perspectiva, há “revelações” (sobrenaturais) à parte da Revelação judaico-cristã. Deus só falou aos homens em Israel e na Igreja. Nem mesmo há a noção de “sobrenatural” fora do âmbito bíblico, ou de que Deus possa dirigir-Se a nós. Nenhum hinduísta, budista, taoísta, etc., espera um Céu ou Beatitude em que encontrarão um Deus pessoal e manterão suas personalidades individuais, ainda que deificadas. Nenhum cristão, místico ou não, espera dissolver sua alma num oceano impessoal e nem mesmo no Deus pessoal, mas viver pela eternidade inseparavelmente em face de Deus (da Trindade) e dos santos (mesmo que algumas metáforas dos místicos cristãos levem a entender o contrário, o próprio dogma da ressurreição dos corpos já os desmentiria).

 

5) Eu li há muitos anos o “Unidade Transcendente das Religiões” do F. Schuon, e lá se manifesta um erro básico: ele diz que a realidade se constitui como “uma única Essência (divina) e duas substâncias (a divina e a cósmica)”. Se a tradução era boa, o mais adequado para expressar o que ele quereria dizer é que “há uma Substância (subsistência, suposto, ser) e duas essências (naturezas)”. Em qualquer caso, o católico sabe que isto é um erro condenado pelo Magistério, e a filosofia clássica prova racionalmente o contrário, pois Deus não é a Substância ou Forma do mundo. O mundo não está para Deus como a natureza humana de Jesus está para a Segunda Pessoa da Trindade.

* * *

O que há de comum entre as chamadas "grandes tradições religiosas" não é, como diz o "perenialismo", uma superior "unidade metafisica", mas uma "unidade moral" fundamental.

 

Não uma experiência mística "esotérica" supostamente unitária que se refrataria em diversas expressões "exotéricas", mas uma experiência comum inicial da Lei Natural, que se diferencia na medida da grandeza da resposta dos indivíduos e das sociedades aos valores morais que se manifestam ao coração.

 

As experiências religiosas mais sofisticadas se erguem sobre (ou despencam desde) esta base moral, de modo a serem o resultado mais ou menos elevado (ou mais ou menos amputado) da resposta do coração à Lei. Nunca se trata de "descer do mesmo ápice", mas de "subir (ou descer...) a degraus diferentes".

 

A "tradição religiosa" que, neste processo, contar com o apoio da Graça e da Revelação sobrenaturais, será apta a responder com fidelidade, gratidão e justiça à Lei do coração, como também ao conhecimento e participação amorosa do Mistério de Deus. E esta é unicamente a Tradição de Abraão que culmina em Cristo e Sua Igreja; nenhuma outra conhece a Vontade salvífica de Deus.

 

* * *

 

Se um "perenialista" fala sinceramente que há uma "unidade das religiões", então ele não entendeu o monoteísmo cristão.

 

Se ele entendeu a essência do cristianismo e segue afirmando a tal unidade, então ou ele discorda e insere o cristianismo por conveniência (por "piedade" dos cristãos "ingênuos" ou "pretensiosos"), ou ele descrê e insere o cristianismo por maldade (para desviar o cristão).

 

Em nenhum caso, portanto, ele poderá ajudar um cristão a seguir a Cristo, porque ele é ou ignorante, ou incrédulo ou apóstata.

 

2) A Santíssima Trindade

 

O Pai, "que ninguém viu", é a Divindade (que era) "desconhecida" e "inefável".

 

O Filho, que sai do seio da Divindade como Verbo Encarnado, O manifesta ("Mostra-nos o Pai"); e comunica-nos o Espírito recebido de Deus, para que sejamos inseridos na intimidade da Comunhão trinitária.

 

Julgar que, acerca de Deus, há algo mais profundo a ser dito que "Pai" termina sendo um impedimento para esta participação, principalmente porque, no fundo, é ignorar ou negar a Natureza divina, que é Amor que Gera sem se diminuir nAquele que é Gerado; é pôr a "Paternidade" abaixo da "Deidade inefável" (distinguir Ser e Essência lá onde não há essa distinção), ou colocar o "Bem" abaixo da "Unidade", e, assim, negar a Deidade tal qual é, porque o que Cristo revela é "O que É Aquele que É" ("Aprouve a Deus revelar seu Mistério"); e o Ser além de toda essência delimitada é o Amor Infinito, de Absoluta concreção, Pessoal ou Inteligente e Livre.

 

Depois, é considerar-se numa condição "melhor" que a de Cristo, transformando sua Revelação num "símbolo mais", e não na Palavra definitiva e única de Deus sobre Si; e isto é não ter o Espírito, e, assim, não poder estar diante de Deus (Ele nos faz reconhecer que "Cristo é o Senhor" e dizer "Abba, Paizinho").

 

* * *

 

A denominação "Ato Puro", de Deus, cuja existência Aristóteles descobre, nada mais é que a definição nominal de Deus (e não o conceito mais preciso de sua Essência acessível à inteligência humana, o qual nos foi revelada paulatinamente por Moisés e por Cristo e seus apóstolos): o "Ato Puro" é o "Espírito Santo", a "Energeia Separada", da qual, antes e fora da Revelação cristã, aquele que foi considerado "o Filósofo" só tinha vaga "notícia" (superior, porém, a de qualquer religião "tradicional"; seu uso teológico não é casual).

 

O Espírito Santo, ademais de ser a Terceira Pessoa, define a Essência mesma de Deus, comunicada do Pai ao Filho e pelo Filho à Pessoa-Amor; é tanto a Essência que há de comum ao Pai e ao Filho, quanto a Relação Amorosa Subsistente entre Ambos.

 

O que Cristo nos revela, então, é o "rosto" e o "amor" desse Ato Puro, que se doa eternamente como Pai gerando o Filho e espirando o Espírito; que se doa criando o mundo, na Encarnação do Verbo, e na nossa santificação pelo Espírito, o qual passa a habitar em nosso espírito, e já não está mais distante, no "céu das estrelas fixas".

 

Aquilo que Aristóteles apenas vislumbrou, e aquele "Bem" a que Platão aspirava, o Doador da Vida, o Espírito Santo de Deus e o Espírito Santo que é Deus, veio a nós por Cristo.

 

Veni, Creator Spiritus!

 

* * *

 

Tudo está revelado no Mistério Pascal:

 

A Deidade imperscrutável da mística especulativa, na Cruz e no silêncio do sábado.

 

E o Amor inimaginável da Energeia Pura ou o Espírito Santo do Pai e do Filho, na manhã da Páscoa e em Pentecostes!

 

3) Panenteísmo, criação, espírito, imutabilidade de Deus, natureza humana, o problema do mal

 

O panenteísmo é a metafísica da gnose não dualista [diversa do docetismo, dos gnosticismos heréticos do séc. II, do maniqueísmo, e própria do taoísmo, do bramanismo, do idealismo alemão, e, ao que parece, da umbanda]. É mais sofisticada que um panteísmo tosco, que identifica sem mais a essência do mundo e a de Deus [e que, de fato, é ateísmo]. Mas não está isento de problemas filosoficos enormes.

 

O primeiro deles é que ele é uma crença. É impossível uma ascensão dialética das coisas que nos rodeiam ou de nosso interior a uma identidade com o "princípio divino". Tal é uma afirmação que ultrapassa qualquer verificabilidade metafisica [racional-filosófica]. Um suposto "místico" panenteísta pode jurar que teve uma experiência de "divinização", mas tal asserção só pode receber uma adesão religiosa.

 

Todo sistema panenteísta parte da instalação na "divindade", tomando-a como a única realidade [não há uma "prova" disto; digo, no sentido filosófico], da qual as outras são "manifestações", "emanações" ou coisas do gênero.

 

O "retorno" dialético-religioso é o reverso de uma "queda" analítica que, em sua lógica interna [trata-se de uma ficção ou mito, por mais conceitualmente elaborado que seja], tem sentido, mas que não encontra apoio na experiência metafisica/transcendental real ao nosso alcance [mas sim em determinadas estruturas psíquicas/empíricas propensas].

 

Do ponto de vista teológico, este esquema esfuma toda diferença entre:

 

a) Transcendência e imanência, não podendo ser pensada com radicalidade a criação estrita (ex nihilo);

b) Bem e mal/pecado, não sendo possível separar nenhuma possibilidade "criada" ou "manifesta" do ser divino;

c) Graça (sobrenatural) e danação, ao não se poder pensar uma Transcendência doadora de uma Natureza elevante, ou uma "criatura" que efetivamente não seja um "modo" divino e requeira ser elevada ou necessite de uma salvação estrita.

Tais termos ou similares poderão ser encontrados nos escritos panenteístas, mas eles não poderão significar o que significam na metafisica clássica da criação e na teologia cristã [pelas razões sumariamente elencadas].

 

* * *

 

As Escrituras, ainda que tenham a respeito de Deus uma imagem bastante superior à da filosofia antiga (incluindo os 3 maiores), também utilizam uma linguagem antropomórfica, porque elas se dirigem não só a filósofos e teólogos, mas a todas as pessoas, chamadas à salvação.

 

Aquele para o qual tal linguagem não for suficiente, certamente encontrará na própria Revelação, interpretada pela teologia e ensinada pelo Magistério, o suporte para suas questões.

 

Uma Inteligência e uma Vontade Absolutas sabe e faz imediatamente tudo, não calcula nada, mas o mero conhecimento metafísico e abstrato disto não se presta à nossa relação com Deus.

 

Ele efetivamente nos ouve e responde. Sempre nos ouviu e sempre nos respondeu ou sempre nos deixou sem resposta se isso foi o melhor para nós. Mas a nossa experiência religiosa acessa o Eterno desde o tempo.

 

Para saber o que Deus sempre pensa e faz, é preciso ler as Escrituras e ver a vida de Jesus e dos santos. Eles, sobretudo Nosso Senhor, desdobram aos nossos olhares a Vida e a Ação única e eterna de Deus.

 

Assim, quando Jesus é duro com os fariseus ou bate nos vendilhões do Templo, podemos ter certeza: é boníssimo, veríssimo e belíssimo fazer tais coisas e Deus, se existisse temporalmente as faria; e precisamente as fez em Jesus! E faz nos santos.

 

* * *

 

O eleatismo

 

A negação do "movimento" por Zenão de Eleia não é simplesmente a negação do "devir", mas é a negação do "dinamismo", da potência ativa do ser ou a negação do ato real.

 

O argumento não é o de que Aquiles não alcança a tartaruga (ou a flecha, o alvo) "porque nunca chegaria", isto é, "porque sempre o espaço a percorrer ainda seria divisível infinitamente".

 

Não é que o alvo "seja inalcançável": uma distância infinitamente percorrível não negaria o movimento, apenas o tornaria desesperançador, seria a negação da teleologia ou um niilismo positivamente afirmado, como o nietzcheano; seria a filosofia do "puro devir", precisamente, a aceitação do "absurdo" ou sem-sentido.

 

Não se trata de evitar uma expansão infinita que "desagregaria o ser 'finito'", mas de afirmar uma "contração" ou um "ensimesmamento" de um ser incapaz de sair de si.

 

Isto é posterior à filosofia do devir, é o niilismo consumado e a instalação no cinismo: "o devir é irreal" ou "o mundo é ilusório" significa um disfarce para a própria negação do dinamismo amoroso da realidade.

 

A filosofia parmenídica é a filosofia do antisser.

 

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Como muitas pessoas (alunos, ex-alunos, amigos, conhecidos) me perguntaram, alguma vez, o que eu achava do Olavo de Carvalho, e eu invariavelmente respondia: "é um homem inteligente, erudito, excelente domínio da linguagem, que tem muitos pontos que eu considero brilhantes [se procurarem, encontrarão uns comentários elogiosos meus a sua tese dos discursos aristotélicos], mas que defendia uma ideia erradíssima em religião e metafísica (o perenialismo gnóstico), mas não o acompanho mais", vejo-me obrigado a dizer o seguinte agora:

 

O Olavo volta e meia solta umas pérolas equivocadas sobre temas teológicos. Tendo em vista que são postagens de Facebook, que ele mesmo reconhece que não é expert em Teologia, e que, forçando a barra, dá para encontrar algum sentido aceitável, tudo bem.

 

Há pouco tempo atrás, contudo, um amigo me mostrou, ao comentar uma postagem minha, uma do Olavo do ano passado, em que ele defendida ideias muito estranhas mescladas a algumas inequivocamente erradas em termos metafísicos, onde ainda se vê a influência do perenialismo pela temática panenteísta.

 

Parece ser que o Olavo mantém a metafísica que ele defendia em textos como http://www.olavodecarvalho.org/ser-e-conhecer, onde ele diz (depois de uma boa exposição sobre a fenomenologia e sobre Kant):

 

"Logo, é claro que o Universo se conhece. A parte dele que se conhece mas que não está realizada ainda, e que talvez não se realize nunca, nós chamamos de aspectos transcendentes de Deus. Para ser transcendente, não é preciso ser transcendente a tudo".

 

Esta formulação não é equivocada, ela é simplesmente errada [o contexto não a salva, podem conferir]. Deus não é algo transcendente às partes realizadas do Universo, ele é Transcendente a toda a extensão do tempo-espaço realizada e por realizar [no primeiro comentário abaixo há algo sobre isto]. Em sua Eternidade Ele "já" (sic) está no final dos tempos; está no início, aqui, no final. Não é algo "do" universo, nem algo que será do universo, embora seja Alguém presente "no" Universo, o seu Fundamento "imanente" enquanto Conservador ("Nele somos, nos movemos e existimos"), mas cuja Subsistência não é o próprio ser ou subsistência participada e criada do universo. Se se quer, pode-se dizer, com Zubiri, que é Transcendente "no" universo (fórmula que concilia a transcendência com a onipresença conservadora).

 

Ele diz "aspectos transcendentes de Deus", como se o universo realizado fosse o "aspecto imanente"; ora, a imanência divina é, repito, aquela pela qual ele conserva como "íntimo habitante" (Agostinho), "causa eficiente" (Tomás) ou "fundamento fontanal" (Zubiri), não se trata do que OdC diz.

 

Estas coisas não são sutilezas ou "picuinhas" terminológicas, como ouvi de um olavete há um tempinho. Não reconhecer a Transcendência de Deus nos termos em que ela se apresenta na Revelação e na filosofia cristã é ainda estar preso aos esquemas mentais do perenialismo gnóstico, cuja metafísica é a panenteísta, em que Deus é o Ser ou a subsistência unívoca de tudo, sua transcendência sendo apenas um aspecto do "si divino total" (sic). E estes esquemas têm consequências práticas e na vida espiritual.

 

* * *

 

Comentário a uma postagem do OdC de 4/06/17, que segue:

 

“Se vocês acompanharam os raciocínios finais do filme "O Jardim das Aflições", não terão dificuldade de entender o que vou explicar em seguida. Se enfatizo tanto a importância do perdão, não é só porque ele é o centro e o topo da revelação cristã, mas porque meditei personalizadamente o assunto desde um ponto de vista não religioso ou teológico, mas metafísico, e adotei como tese formal da minha filosofia a convicção de que ele é uma das chaves essenciais da estrutura mesma da realidade como um todo. No filme -- assim como em muitas aulas --, expliquei que não há um intermediário entre o ser e o nada: o que quer que tenha entrado na esfera do ser por uma fração infinitesimal de segundo não pode nunca mais retornar ao nada, porque nunca esteve nele e, ao contrário, pertenceu sempre à esfera do ser. Se tentamos conceber o transcurso do tempo como estrutura total da possibilidade, entendemos o que é a eternidade, no sentido de Boécio: a posse atual e simultânea de todos os momentos. Logo, o que quer que aconteça na esfera temporal está contido na eternidade de uma vez para sempre. Isso é a irrevogabilidade absoluta do acontecer. Ao nada, nada retorna, porque do nada, nada proveio. Ora, em toda a esfera do acontecer universal, desde as partículas subatômicas até a totalidade das galáxias, e atravessando mesmo todos os mundos supracorpóreos e espirituais que possam existir, só há UM tipo de fato que, uma vez ocorrido no tempo, pode ser suprimido da eternidade. São os nossos pecados. O perdão sacramental apaga o pecado do registro do ser. O perdão divino não é somente um castigo suspenso, mas uma anulação do fato, um DESACONTECER total e definitivo. Correlato da criação "ex nihilo", o perdão devolve ao nada o que nunca esteve no nada. O perdão é obra da liberdade divina e, nesse sentido, transcende a estrutura inteira da possibilidade universal. Quem quer que tenha a oportunidade de participar desse milagre, sob qualquer maneira que seja, deve aproveitá-la ao máximo, porque nada, nada, nada deste mundo lhe dará, na medida das forças humanas, compreensão mais luminosa do mistério da existência” (postagem do Facebook, de 14/06/17).

 

Esta tese me parece sumamente problemática: "o que quer que tenha entrado na esfera do ser por uma fração infinitesimal de segundo não pode nunca mais retornar ao nada, porque nunca esteve nele e, ao contrário, pertenceu sempre à esfera do ser". De que "ser" fala: do Ser Divino ou do "ser criado"? No Ser Divino "nada entra", porque Ele É plenamente. Mas o "ser criado" (e os entes que nele existiram, existem e virão a existir) "nunca esteve no nada"?! O que acontece no âmbito do ser criado é uma possibilidade deste ser participado, estava em "sua esfera", em suas potências. Mas este mesmo ser participado veio "do nada", ao ter sido criado.

 

Esta interpretação de Boécio é claramente equivocada: "Se tentamos conceber o transcurso do tempo como estrutura total da possibilidade, entendemos o que é a eternidade, no sentido de Boécio: a posse atual e simultânea de todos os momentos. Logo, o que quer que aconteça na esfera temporal está contido na eternidade de uma vez para sempre". A Eternidade é possuída imediatamente pelo "Ser" que é Deus; Ele mesmo é o Eterno, Se possui de golpe, vive "simultaneamente", e não alternativa ou sucessivamente, todas as possibilidades reais ou "momentos" (ontológicos) da Plenitude do que É, sendo, assim "Ato Puro". O tempo é, como diz Platão, uma "imagem móvel da eternidade" (Timeu), e seu transcurso não é a "estrutura total da possibilidade", mas a estrutura das possibilidades do ser participado no modo concreto ou com as limitações concretas em que foi criado por Deus. O que acontece na temporalidade está conhecido por Deus eternamente – Zubiri diz "eternalmente", para distinguir esse conhecimento de Deus que abarca todos os momentos temporais instantaneamente da Eternidade própria do Ato Divino –, mas não "contido" na eternidade, se por "eternidade" estamos a falar da Eternidade Divina, à parte da criação contingente, criada livremente por amor.

 

O que segue só é aceitável na medida em que signifique o acontecer efetivo do mundo criado, com suas possibilidades ínsitas, considerando-se que o próprio veio do nada, como dito acima: "Isso é a irrevogabilidade absoluta do acontecer. Ao nada, nada retorna, porque do nada, nada proveio".

 

Também aqui há ambiguidade: "só há UM tipo de fato que, uma vez ocorrido no tempo, pode ser suprimido da eternidade. São os nossos pecados. O perdão sacramental apaga o pecado do registro do ser. O perdão divino não é somente um castigo suspenso, mas uma anulação do fato, um DESACONTECER total e definitivo". De que eternidade fala? Do Ser Eterno que é Deus o pecado nunca participou. Da Eternidade Bem Aventurada dos eleitos em Deus o pecado será totalmente excluído: suas culpas serão apagadas e já sua pena terá sido purgada. Mas se a "eternidade" é o conjunto do tempo e da Eternidade, então o pecado não "desacontece" (sic) exatamente: ele permanece como "arrependido/perdoado" e "purgado" nos eleitos (inclusive as chagas de Cristo são um "sinal" disto; digo, não de pecados do Senhor, mas dos redimidos por Ele pelo sacrifício de seu Santo Corpo na Cruz), e como "julgado/condenado" e "eternamente penalizado" nos réprobos.

 

Correlato da criação "ex nihilo", o perdão devolve ao nada o que nunca esteve no nada". O perdão é correlato na medida em que a justificação do pecador é uma "nova criação", isto é, recria-se a "justiça original" do nada, isto é, pelo Poder de Deus, sem intervenção de mérito. Ele refaz o que havia sido feito do nada, a integridade de nossa natureza, a ordem de nossa vontade. Não é um "desfazimento" de algo que participa do ser, mas a recuperação do ser em sua integridade, pela cura do que lhe é estranho, fruto da desordem da vontade.

 

Se ele quis dizer que uma "possibilidade" do "ser criado", que é o pecado, "é desfeita", considere-se o dito no penúltimo comentário. Mas o que o perdão faz, teologicamente, é muito mais "recriar" o ser íntegro que "aniquilar" algo.

 

Cancela-se a culpa, cumpre-se a penitência.

 

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Se a natureza humana tivesse sido destruída e assim recebida de Adão, não poderia haver salvação e tampouco condenação! Não é só que não haveria "quem" se salvasse, mas também não haveria "quem" pudesse se perder. A linguagem da "condenação" perderia todo e qualquer sentido. Teria havido uma absoluta bestialização do homem e ele já não seria mais um ser responsável.

 

Se a alma espiritual criada por Deus é boa, como tudo o que sai diretamente das mãos do Criador, e ela é a responsável pelas potências mais essenciais do homem, a inteligência e a vontade (a sensualidade é devida ao corpo), então não faz sentido dizer que a natureza humana foi destruída. Isto corresponderia a dizer ou que Deus fazia almas más (uma blasfêmia!) ou que Deus simplesmente não criou almas espirituais antes da redenção, e aí voltamos ao ponto anterior: os homens já nasciam bestializados e não podiam ser condenados.

 

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Um amigo me enviou, num comentário em outra postagem, um vídeo do Gugu (Luiz Gonzaga de Carvalho) sobre a "individualidade" no Céu. A resposta, por um lado seria muito grande para um comentário, e, por outro, pode ser útil a vários. Segue:

 

Temos mais uma explicação que "parece" cristã, mas não é.

 

Começa fazendo uma distinção em princípio acertada (ainda que imprecisa) entre a "identidade metafisica" e a "realização empírica", e não nega que esta reflui sobre a primeira e coloca em jogo o destino metafisico do homem.

 

Mas já erra feio quando diz que "as inúmeras possibilidades existenciais" (ele chega a dizer os "vários eus"), não podem entrar todas no Céu, mas estão inscritas na totalidade metafisica.

 

Ora, que nem todas as possibilidades morais podem ingressar no Céu é evidente para a Fé, mas que o conjunto delas pertença às possibilidades da pessoa humana enquanto tal (enquanto pensada por Deus no Filho, e enquanto criada individualmente com uma natureza individual que é uma participação mais ou menos limitada da "Palavra" que é o Verbo Encarnado), é um erro crasso para a Fé e para a metafísica cristã iluminada pela Revelação.

 

As possibilidades que conduzem ao inferno estão absolutamente excluídas da realidade metafisica da pessoa humana! No Modelo Eterno isto deve ser óbvio (mas também aqui erra o Gugu, como direi adiante), mas na natureza concreta tal como se encontra após a queda, estas possibilidades são contrárias à nossa natureza! O germe de uma possível corruptibilidade está nela, mas não como algo metafísicamente intrínseco, e sim como realidade factual. Nós não somos simultaneamente "bons e maus", somos uma "bondade ferida de morte", porém sanável pela Graça.

 

Ele encara a "personalidade atual" como um pequeno conjunto das possibilidades todas; e que este (pequeno conjunto) pode ser infernal. Estaria certo se o sentido da "totalidade" das possibilidades não coincidisse com o conjunto das possibilidades metafísicas, e sim com o conjunto das possibilidades morais, que incluem a possibilidade do pecado, que é antinatural e, portanto, antimetafisico.

 

Ele até diz que as possibilidades existenciais "não são necessárias", mas com isto ele alude às probabilidades de efetuação física, não à interposição de elementos estranhos à natureza humana.

 

Não há uma "parte metafisica salvável" inserida num "todo metafísico" com possibilidades de danação (um "todo bipolar"). A possibilidade de danação é antinatural, é um desvio não originário, porém sanável. Isto não são sutilezas; aqui se joga a reta compreensão do ser e do destino humanos.

 

No mín 13 revela-se o erro de fundo mais grave: ele diz que o "assassino" reproduz o aspecto "destruidor" da Divindade. E que isto é ruim para o homem porque o homem "não pode (re)criar a vida"; ou seja, a potência assassina (inscrita no todo metafisico, de acordo com a tese dele) é ruim porque, no homem, no deus finito, ela é "incompossível" (ele não usa o termo leibniziano, mas é a ideia) com a possibilidade de ser simultaneamente misericordioso. Aqui há um erro teológico gravíssimo. O curioso é que chega a dizer "que o santo pode matar e morrer e ser misericordioso nos dois casos, mas não pode ser assassino e misericordioso".

 

Bom, pelo já visto, assassinar é mau por não ser compossivel com a natureza humana, e não por não o ser com uma "individualidade melhor" (reitero que isso não é sutileza, mas algo essencial). Mas o erro tremendo é considerar a "destruição" como atributo divino.

 

É a Justiça divina que permite tanto a corrupção física do que é finito por si, e que decreta a destruição do bem eterno do maligno (buscada e alcançada pelo próprio maligno). Esta Justiça do juízo escatológico NÃO é misericórdia para com os malignos, eles se ausentaram da misericórdia pelo não arrependimento.

 

O santo juiz humano pode exercer o julgamento e a ira de Deus contra os malignos, e isto nem é assassinato nem é misericórdia para com os mesmos.

 

O "Deus" que é "destruidor" e recria dos escombros não é o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

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O paradoxo de Epicuro e o mal

 

"Enquanto onisciente e onipotente, Deus tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.

 

Enquanto omnipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é omnisciente.

 

Enquanto omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente".

 

Resposta:

 

Primeiramente, Deus está racionalmente (metafisicamente) justificado (com independência da teodiceia ou da ponerologia): pela mutabilidade, pela ordem da causalidade, pela contingência, pela ordem da participação e pela teleologia cósmica. Mas respondamos ao paradoxo:

 

Deus conhece os futuros contingentes (se vou vestir azul ou verde, quem ganhará a Copa da Rússia, como responderemos concretamente à sua Graça, ou se iremos pecar) eternalmente, porém porque eles se dão no seu devido tempo; em outras palavras, Deus conhece simultaneamente tudo que decorre no tempo, mas não é a Causa direta de todas as ocorrências: o livre-arbítrio é real, e Ele não é "adivinho", mas Onisciente.

 

Ele não conhece os pecados e sofrimentos concretos diretamente na sua Essência (como se nEla estivessem presentes), mas como privação do bem: cf. S.Th. I, q.14, a.10.

 

Daqui só se sai com a seguinte interpretação da Revelação (que é uma autêntica e razoável saída, superior a toda racionalidade meramente lógico-empírica do horizonte mental naturalista): por um lado, Ele decretou sempre que assumiria a humanidade para elevá-la e redimi-la de sua pena, “se preciso” (sic); por outro lado, Ele também decretou tanto que julgaria todo aquele que não se arrependesse do mal, quanto que salvaria e enxugaria as lágrimas de todas as vítimas dos malignos.

 

O mal já está julgado, o sofredor já está salvo, a criação será definitivamente curada.

 

O problema do mal morre na sexta-feira santa, e será enterrado no Juízo Final da História.

 

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Sobre astrologia

 

Quando o astrólogo acerta, isto pode significar 2 coisas:

 

1) Que ele previu "atos do homem" banais (ações naturais), que seguem uma tendência neutra da influência natural dos astros (ele não pode prever atos estritamente livres ou intelectuais, ou seja, os bens morais a serem realizados a partir de uma tendência afetiva e de outras considerações de índole racional que intervêm);

 

2) ou que ele previu um "ato humano" mau, "livre" apenas no sentido de que dispõe do livre-arbítrio (faculdade de meios da vontade), mas "escravo" no sentido de que não atingiu a liberdade/o bem moral (fim da vontade além de qualquer tendência natural); este ato segue uma tendência distorcida, a qual NÃO PODE PROVIR DOS ASTROS, se estes devem ser entendidos como meios da Providência Divina; ora, neste segundo caso, NECESSARIAMENTE houve intercurso demoníaco, para manifestar pecados e uma certa direção dos acontecimentos dependentes destes pecados (com a permissão de Deus, para o astrólogo tropeçar no seu orgulho e cair na soberba de pensar que "domina a sequência dos acontecimentos").

 

Um astrólogo nunca pode prever ou entender os atos de um homem justo em graça ou de um santo (ele só pode conhecer a "intimidade" de quem está em comunhão com os demônios): ele será ou um ato natural aparentemente banal, porém revestido de caridade (cujos benefícios são imperscrutáveis), ou um ato extraordinário inaudito, que fará o inferno tremer.

 

 

4) O “próprio” do Cristianismo

 

Quando Bento XVI salienta que o Cristianismo é essencialmente um "encontro com Cristo", não está dizendo que "não é uma doutrina".

 

É que a Doutrina (de fé e de costumes), a Liturgia (culto e sacramentos), a Caridade (a prática amorosa dos Mandamentos) e a Oração [as 4 partes do Catecismo] são momentos analíticos deste "encontro".

 

Encontra-se a Cristo pela Palavra Viva anunciada na e pela Tradição da Igreja, a Graça dos sacramentos que encarna esta Palavra no coração, a vida no Espírito que é Vida de Cristo em nós, e o diálogo orante em que Cristo segue falando ao Pai através de nós.

 

A doutrina, portanto, é o primeiro passo da Vida cristã integral. Ninguém se salva só por ter a informação lógico-proposicional do que Cristo ensina através da Igreja, mas tampouco alguém se salva sem ouvir este ensinamento, para a ele aderir com a mente, o coração e a ação.

 

* * *


A maior riqueza do Cristianismo não é a Moral, mas a Graça, o Amor de Deus encarnado em Jesus de Nazaré e, através, dele, numa multidão de santos e pessoas simples que foram tocados pela Caridade de Deus.

 

A Lei já era conhecida pelos judeus e pelos pagãos. Estes últimos, de modo geral, podiam não ser virtuosos, mas tinham alguma ideia de que há um certo e um errado, uma "lei não escrita", como dizem Antígona (Sófocles) ou Aristóteles, e está patente em todas as grandes tradições religiosas antigas.

 

Às vezes, damos, os cristãos, a impressão de que nossa Fé é um sistema teórico de dogmas e mandamentos. Sabemos que não é isso, mas é menos difícil falar de Deus que falar como Ele, enfim...

 

De qualquer modo, a Moral é de uma importância fundamental para a existência da sociedade humana, e os mandamentos ou a Lei Natural não são obrigações extrínsecas ao ser humano, mas expressão de sua própria e profunda realidade pessoal, modos de concretizar o amor, que só podem ser conhecidos em toda sua extensão, e vividos em toda sua profundidade, através da Graça (os justos do Antigo Testamento ou do paganismo o eram em virtude dela também).

 

Compreende-se que o não cristão, após a rejeição da modernidade à religião de Cristo, não queira saber da "moral cristã". Na realidade, este rechaço, ao ser posterior à redenção, coloca o homem contemporâneo numa situação bem pior que a dos pagãos: a nescidade em que ele se encontra é mais grave, porque ao rejeitar formalmente a Graça, sua compreensão do sentido da vida foi profundamente embrutecida.

 

A grande questão é: só a graça pode restituir a inteligência prática ao homem. Mas como o homem pode se abrir a esta graça sem se arrepender? E como pode se arrepender se não recebe o anúncio? E como pode receber o anúncio se não há quem o faça? E como o anúncio pode ser eficaz, se o apóstolo não é coerente?

 

Em conclusão: não podemos deixar de falar de Deus, mas sem nos convertermos, sem lutarmos pela santidade, o anúncio não será eficaz (porque a eficácia não vem de nossa eloquência, mas de nossa comunhão com Deus). Assim, falando a Deus na oração, falaremos com Ele ao próximo. E toda "ovelha ouvirá a sua voz".

 

* * *

 

É sempre a Graça que converte.

 

Mas não no vazio, e sim no concreto da vida.

 

Se a pessoa tem mentalidade teorética, e estuda a realidade buscando a Verdade, encontrá-la-á na ciência cristã: seja teológica, seja filosófica, seja espiritual.

 

Se a pessoa tem mentalidade prática, e age realmente visando o Bem, encontrá-lo-á na caridade cristã: seja no testemunho de um amigo, de um parente, de um padre ou religioso, seja na hagiografia.

 

Se a pessoa tem mentalidade poética, e se atempera ao real admirando a Beleza, encontrá-la-á na arquitetura divina da criação, e na arte inspirada: numa paisagem natural fascinante, no encanto das crianças e do amor humano entre homem e mulher, na Arte Sacra e na boa arte em geral, na Sagrada Liturgia retamente celebrada (onde, aliás, ouvimos a Verdade, alimentamo-nos do Amor, e vislumbramos a Glória de Deus, nos símbolos sagrados e na Música Sacra).

 

É sempre o Verum, o Bonum e o Pulchrum que toma a iniciativa, mas Ele conta conosco, com a nossa natureza, nossos talentos e as nossas retas disposições.

 

Ele nos oferece distintos meios para encontrá-lO, inscritos nestas três vias do Caminho que é Cristo.

 

Que vejamos a sua Verdade, atuemos com seu Amor, e no fim descansaremos na sua Glória.

 

* * *

 

Liturgia e beleza

 

Dois equívocos: o esteticismo de quem confunde a Missa (liturgia) com a forma musical “missa”, e o legalismo conceitualista e minimalista de quem diz "o que importa é que haja as palavras da consagração e, assim, o sacrifício de Cristo".

 

O cristão vai à missa para adorar o Pai junto com Cristo, oferecendo-se com Ele no seu sacrifício perfeito (eucarístico, laudatório, impetratório e expiatório), em comunhão com os irmãos. Ok.

 

Mas a arte sacra tem um papel pedagógico insubstituível. A beleza é, como ensina S. Tomás, "a visibilidade do bem", ou, como diz Platão, "o que é feito à imagem da verdade".

 

A inteligência humana é "senciente", como ensina Zubiri -que é um esclarecimento da doutrina aristotélico-tomista da "abstração"-, ou seja, o homem não pode, ordinariamente, conhecer a realidade sem a mediação da sensibilidade.

 

A exceção é a experiência do conhecimento místico, que apreende diretamente as realidades espirituais (e não meros conceitos lógicos, atenção!). Quem conhece o "significado" de algo que nunca viu, pode acreditar/confiar em outrem e, assim, comungando com a experiência dos que viram, conhecer a realidade crida (é a fé, presente em toda forma de conhecimento, e não só na religiosa).

 

A arte sacra [como a vida do santo] é o que possibilita ao fiel cristão o "ver" antecipadamente as realidades espirituais nas quais crê, e isto permite um melhor entendimento da fé e uma maior confiança.

 

Imaginar que a simples compreensão do significado é algo "mais inteligente" do que ver este significado realizado, concretizado (na música ou na escultura sacra, por exemplo), é ignorar o que é "abstrair" ou entender simplesmente.

 

A beleza (artística ou moral, das "belas ações", como fala Platão) é o que -retomando as referências acima- torna visível a Verdade e o Bem. O que supõe que o artista sacro deve ter uma profunda experiência espiritual, que intui algo das verdades eternas, e que é capaz de plasmá-las na sua música, na sua pintura, etc., permitindo que os fiéis, participando desta experiência através da contemplação e da audição, entenda melhor a doutrina e comungue mais profundamente do amor.

 

Isso é que os esteticistas e os legalistas ignoram: a beleza na liturgia está a serviço da santificação dos fiéis, e não de um deleite sensível ou de uma alegria legítima, porém acessória.

 

Em uma missa barulhenta, mal celebrada, etc., Cristo estará igualmente presente, porém de maneira mais velada. E isso não significa alguma vantagem! Pois isso é supor uma capacidade ascética e mística que a média dos fiéis não tem, e esconder um tesouro que deveria ser distribuído com mais abundância.

 

* * *

 

Sobre a arte sacra

 

A arte sacra – que é a arte "originária" (como diz, por exemplo, o Walter Benjamin) –, tem um sentido "cultual": ela não é um "adorno" do templo, ela é uma "parte" do culto vivenciado no templo (não só o canto sacro se define assim).

 

Seu objetivo não é deleitar a vista ou a audição do fiel, como se o templo fosse uma "reprodução" do céu sobrenatural, mas "movê-lo" ao céu espiritual além do canto, além da estatuária, além das pinturas...

 

Ela deve gerar um tipo de afetividade espiritual que não é exatamente aquela afetividade mais ordinária; para que "aprendamos" estes afetos e possamos vivê-los na escala correspondente em nossa oração cotidiana, e no estilo de fundo de todas as nossas atividades, as quais, nas suas dimensões menos profundas, seguirão permeadas pelas emoções mais costumeiras, que não são "más", porém, não são as "mais espirituais", e, portanto, não devem ser levadas ou vividas no templo, sob o risco de não conseguirmos viver (n)a dimensão mais profunda da vida espiritual.

 

Muito antes, contudo, das trágicas música e arquitetura "sacras" atuais, a arte sacra vem sofrendo uma deturpação em seu sentido: a arte plástica renascentista, por exemplo, não é muito servível para o culto sacro (já a polifonia renascentista foi feita com o propósito explícito de se adequar ao espírito do canto gregoriano, aproveitando a nascente harmonização das vozes).

 

Não só pelos motivos pagãos que permeiam as pinturas ou as estátuas, mas porque o próprio "espírito" (e não só os assuntos) não corresponde ao da arte sacra: a composição é marcada por um naturalismo perfeccionista e, no fundo, imanentista.

 

Vejamos dois exemplos: "A criação de Adão" e a "Pietá", ambas obras tecnicamente belas (eu inclusive tenho uma reprodução de "A criação de Adão" em minha casa, e costumo usar a cena para simbolizar a "religação" ou "relação criatural", mas não posso me enganar a respeito de seu caráter "pouco religioso"):

 

- O primeiro traz Júpiter fazendo as vezes de Deus Pai e realizando um esforço enorme (carregado pelos anjos) para se aproximar do homem : o homem é o "centro" da tela. Às vezes a tela me transmite a ideia hegeliana (panenteísta) de um Deus "que se faz ao se fazer homem" (o que é bem distinto da realidade da Encarnação). Como diz o Olavo de Carvalho (comentando "O silêncio dos inocentes" e citando esta tela), a imagem do toque dos dedos é a de uma "iniciação"...

 

- A Pietá não transmite a dor de Maria, mas a frieza do material da escultura: a Virgem não representa ali a "terra" em cujo ventre a semente do alto floresceu (e que remete à terra onde o grão de trigo cai para ressuscitar), mas uma sepultura de mármore, o jazigo perpétuo de um cadáver. O poeta niilista brasileiro Dante Milano expressou muito bem esta realidade, em dois poemas dedicados à escultura (cito o segundo; o primeiro está na página imediatamente anterior):

 

"A mãe com o filho morto / Entre os braços. / É uma escultura./ Parado o gesto, o olhar de cega, / a mãe marmórea / Parece morta vendo o filho morto / Tão lívida como ele. / Mãe e filho / Feitos da mesma pedra, ambos talhados / Na mesma matéria dura, / O mesmo mármore, a mesma carne de cadáver" (MILANO, Dante. Melhores Poemas. Seleção de Ivan Junqueira. 1a reimpressão. São Paulo: Global, 1998, p. 145).




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