1) Sobre o
"perenialismo"
Alguns amigos e
alunos me perguntam o que eu acho da tese “perenialista” ou da “unidade
transcendente/metafísica das religiões”. Pois é uma ideia falsa, tanto do ponto
de vista religioso quanto do filosófico, por algumas razões:
1) Não existe
uma “revelação adâmica” preservada “esotericamente” nas diversas religiões
positivas. Isso é projeção da ideia da gnose hinduísta nas outras religiões
(hindus acreditam nisso). Não há “esoterismo” no catolicismo; há uma
experiência mística extraordinária (que não tem a ver com algum tipo de gnose
da ciência simbólica ou coisa parecida), a que poucos fiéis são chamados, mas
que em nada contradiz a doutrina “exotérica” (sic): “O que vos digo às
escondidas, proclamai sobre os telhados”. O místico cristão não se depara com
uma “deidade ou essência divina impessoal inefável superior à Trindade de
Pessoas” (se alguém o diz, é falso místico; não é assim). A Trindade e a
Encarnação são os conhecimentos religiosos mais sublimes, dos quais todo batizado
participa na medida do seu dom. Certamente, a Comunhão Trinitária de Amor é um
Mistério inesgotável para a inteligência humana finita, e o será por toda a
eternidade, mas isto não significa que o que Jesus nos disse sobre a vida
íntima de Deus seja uma verdade “penúltima”, um “símbolo” de algo “mais
profundo” – os cristãos verdadeiros “não conhecem as profundidades de Satanás”
(cf. Ap 2,24).
2) No mesmo
sentido, não há uma mesma experiência “metafísica” entre os místicos das
diversas religiões. O que o místico cristão vê não é o que o suposto místico de
outra religião vê. Se este último visse o que o cristão vê, então ele faria
como os reis magos, iria a Israel e à Igreja, e não fundaria uma religião (ou
se fundasse, ela seria parecida com a de Israel), nem permaneceria na sua
religião.
3) O que existe
é uma unidade “fenomenológica” da experiência religiosa, que é a base de toda
religião positiva: é o fato de experimentar-nos religados à realidade, como
ensina Zubiri. A busca do fundamento da “religação” irá delinear os vários
caminhos religiosos, profundamente – e não só “exotericamente” – distintos e
irreconciliáveis quanto à visão metafísica (cosmovisão), ainda que com muitos
pontos de convergência, sobretudo na moral, porque os princípios da Lei Natural
(o dever de buscar e honrar a Divindade ou a Verdade, honrar a vida, honrar a
família, honrar a convivência pacífica) se revelam naturalmente à consciência
de modo universal (havendo maiores dificuldades para o discernimento das
conclusões destes princípios, em virtude do pecado original).
4) Nem, desde
outra perspectiva, há “revelações” (sobrenaturais) à parte da Revelação
judaico-cristã. Deus só falou aos homens em Israel e na Igreja. Nem mesmo há a
noção de “sobrenatural” fora do âmbito bíblico, ou de que Deus possa dirigir-Se
a nós. Nenhum hinduísta, budista, taoísta, etc., espera um Céu ou Beatitude em
que encontrarão um Deus pessoal e manterão suas personalidades individuais,
ainda que deificadas. Nenhum cristão, místico ou não, espera dissolver sua alma
num oceano impessoal e nem mesmo no Deus pessoal, mas viver pela eternidade
inseparavelmente em face de Deus (da Trindade) e dos santos (mesmo que algumas
metáforas dos místicos cristãos levem a entender o contrário, o próprio dogma
da ressurreição dos corpos já os desmentiria).
5) Eu li há
muitos anos o “Unidade Transcendente das Religiões” do F. Schuon, e lá se
manifesta um erro básico: ele diz que a realidade se constitui como “uma única
Essência (divina) e duas substâncias (a divina e a cósmica)”. Se a tradução era
boa, o mais adequado para expressar o que ele quereria dizer é que “há uma
Substância (subsistência, suposto, ser) e duas essências (naturezas)”. Em
qualquer caso, o católico sabe que isto é um erro condenado pelo Magistério, e a
filosofia clássica prova racionalmente o contrário, pois Deus não é a
Substância ou Forma do mundo. O mundo não está para Deus como a natureza humana
de Jesus está para a Segunda Pessoa da Trindade.
* * *
O que há de
comum entre as chamadas "grandes tradições religiosas" não é, como
diz o "perenialismo", uma superior "unidade metafisica",
mas uma "unidade moral" fundamental.
Não uma
experiência mística "esotérica" supostamente unitária que se
refrataria em diversas expressões "exotéricas", mas uma experiência
comum inicial da Lei Natural, que se diferencia na medida da grandeza da
resposta dos indivíduos e das sociedades aos valores morais que se manifestam
ao coração.
As experiências
religiosas mais sofisticadas se erguem sobre (ou despencam desde) esta base
moral, de modo a serem o resultado mais ou menos elevado (ou mais ou menos
amputado) da resposta do coração à Lei. Nunca se trata de "descer do mesmo
ápice", mas de "subir (ou descer...) a degraus diferentes".
A "tradição
religiosa" que, neste processo, contar com o apoio da Graça e da Revelação
sobrenaturais, será apta a responder com fidelidade, gratidão e justiça à Lei
do coração, como também ao conhecimento e participação amorosa do Mistério de
Deus. E esta é unicamente a Tradição de Abraão que culmina em Cristo e Sua
Igreja; nenhuma outra conhece a Vontade salvífica de Deus.
* * *
Se um
"perenialista" fala sinceramente que há uma "unidade das
religiões", então ele não entendeu o monoteísmo cristão.
Se ele entendeu
a essência do cristianismo e segue afirmando a tal unidade, então ou ele
discorda e insere o cristianismo por conveniência (por "piedade" dos
cristãos "ingênuos" ou "pretensiosos"), ou ele descrê e
insere o cristianismo por maldade (para desviar o cristão).
Em nenhum caso, portanto,
ele poderá ajudar um cristão a seguir a Cristo, porque ele é ou ignorante, ou
incrédulo ou apóstata.
2) A Santíssima
Trindade
O Pai, "que
ninguém viu", é a Divindade (que era) "desconhecida" e
"inefável".
O Filho, que sai
do seio da Divindade como Verbo Encarnado, O manifesta ("Mostra-nos o
Pai"); e comunica-nos o Espírito recebido de Deus, para que sejamos
inseridos na intimidade da Comunhão trinitária.
Julgar que,
acerca de Deus, há algo mais profundo a ser dito que "Pai" termina sendo
um impedimento para esta participação, principalmente porque, no fundo, é
ignorar ou negar a Natureza divina, que é Amor que Gera sem se diminuir nAquele
que é Gerado; é pôr a "Paternidade" abaixo da "Deidade
inefável" (distinguir Ser e Essência lá onde não há essa distinção), ou
colocar o "Bem" abaixo da "Unidade", e, assim, negar a
Deidade tal qual é, porque o que Cristo revela é "O que É Aquele que
É" ("Aprouve a Deus revelar seu Mistério"); e o Ser além de toda
essência delimitada é o Amor Infinito, de Absoluta concreção, Pessoal ou
Inteligente e Livre.
Depois, é
considerar-se numa condição "melhor" que a de Cristo, transformando
sua Revelação num "símbolo mais", e não na Palavra definitiva e única
de Deus sobre Si; e isto é não ter o Espírito, e, assim, não poder estar diante
de Deus (Ele nos faz reconhecer que "Cristo é o Senhor" e dizer
"Abba, Paizinho").
* * *
A denominação
"Ato Puro", de Deus, cuja existência Aristóteles descobre, nada mais
é que a definição nominal de Deus (e não o conceito mais preciso de sua
Essência acessível à inteligência humana, o qual nos foi revelada
paulatinamente por Moisés e por Cristo e seus apóstolos): o "Ato
Puro" é o "Espírito Santo", a "Energeia Separada", da
qual, antes e fora da Revelação cristã, aquele que foi considerado "o
Filósofo" só tinha vaga "notícia" (superior, porém, a de
qualquer religião "tradicional"; seu uso teológico não é casual).
O Espírito
Santo, ademais de ser a Terceira Pessoa, define a Essência mesma de Deus,
comunicada do Pai ao Filho e pelo Filho à Pessoa-Amor; é tanto a Essência que
há de comum ao Pai e ao Filho, quanto a Relação Amorosa Subsistente entre
Ambos.
O que Cristo nos
revela, então, é o "rosto" e o "amor" desse Ato Puro, que
se doa eternamente como Pai gerando o Filho e espirando o Espírito; que se doa
criando o mundo, na Encarnação do Verbo, e na nossa santificação pelo Espírito,
o qual passa a habitar em nosso espírito, e já não está mais distante, no
"céu das estrelas fixas".
Aquilo que
Aristóteles apenas vislumbrou, e aquele "Bem" a que Platão aspirava,
o Doador da Vida, o Espírito Santo de Deus e o Espírito Santo que é Deus, veio
a nós por Cristo.
Veni, Creator
Spiritus!
* * *
Tudo está
revelado no Mistério Pascal:
A Deidade
imperscrutável da mística especulativa, na Cruz e no silêncio do sábado.
E o Amor
inimaginável da Energeia Pura ou o Espírito Santo do Pai e do Filho, na manhã
da Páscoa e em Pentecostes!
3) Panenteísmo,
criação, espírito, imutabilidade de Deus, natureza humana, o problema do mal
O panenteísmo é
a metafísica da gnose não dualista [diversa do docetismo, dos gnosticismos
heréticos do séc. II, do maniqueísmo, e própria do taoísmo, do bramanismo, do
idealismo alemão, e, ao que parece, da umbanda]. É mais sofisticada que um
panteísmo tosco, que identifica sem mais a essência do mundo e a de Deus [e
que, de fato, é ateísmo]. Mas não está isento de problemas filosoficos enormes.
O primeiro deles
é que ele é uma crença. É impossível uma ascensão dialética das coisas que nos
rodeiam ou de nosso interior a uma identidade com o "princípio
divino". Tal é uma afirmação que ultrapassa qualquer verificabilidade
metafisica [racional-filosófica]. Um suposto "místico" panenteísta
pode jurar que teve uma experiência de "divinização", mas tal
asserção só pode receber uma adesão religiosa.
Todo sistema
panenteísta parte da instalação na "divindade", tomando-a como a
única realidade [não há uma "prova" disto; digo, no sentido
filosófico], da qual as outras são "manifestações", "emanações"
ou coisas do gênero.
O
"retorno" dialético-religioso é o reverso de uma "queda"
analítica que, em sua lógica interna [trata-se de uma ficção ou mito, por mais
conceitualmente elaborado que seja], tem sentido, mas que não encontra apoio na
experiência metafisica/transcendental real ao nosso alcance [mas sim em
determinadas estruturas psíquicas/empíricas propensas].
Do ponto de
vista teológico, este esquema esfuma toda diferença entre:
a)
Transcendência e imanência, não podendo ser pensada com radicalidade a criação
estrita (ex nihilo);
b) Bem e
mal/pecado, não sendo possível separar nenhuma possibilidade "criada"
ou "manifesta" do ser divino;
c) Graça
(sobrenatural) e danação, ao não se poder pensar uma Transcendência doadora de
uma Natureza elevante, ou uma "criatura" que efetivamente não seja um
"modo" divino e requeira ser elevada ou necessite de uma salvação
estrita.
Tais termos ou
similares poderão ser encontrados nos escritos panenteístas, mas eles não
poderão significar o que significam na metafisica clássica da criação e na
teologia cristã [pelas razões sumariamente elencadas].
* * *
As Escrituras,
ainda que tenham a respeito de Deus uma imagem bastante superior à da filosofia
antiga (incluindo os 3 maiores), também utilizam uma linguagem antropomórfica,
porque elas se dirigem não só a filósofos e teólogos, mas a todas as pessoas,
chamadas à salvação.
Aquele para o
qual tal linguagem não for suficiente, certamente encontrará na própria
Revelação, interpretada pela teologia e ensinada pelo Magistério, o suporte
para suas questões.
Uma Inteligência
e uma Vontade Absolutas sabe e faz imediatamente tudo, não calcula nada, mas o
mero conhecimento metafísico e abstrato disto não se presta à nossa relação com
Deus.
Ele efetivamente
nos ouve e responde. Sempre nos ouviu e sempre nos respondeu ou sempre nos
deixou sem resposta se isso foi o melhor para nós. Mas a nossa experiência
religiosa acessa o Eterno desde o tempo.
Para saber o que
Deus sempre pensa e faz, é preciso ler as Escrituras e ver a vida de Jesus e
dos santos. Eles, sobretudo Nosso Senhor, desdobram aos nossos olhares a Vida e
a Ação única e eterna de Deus.
Assim, quando
Jesus é duro com os fariseus ou bate nos vendilhões do Templo, podemos ter
certeza: é boníssimo, veríssimo e belíssimo fazer tais coisas e Deus, se
existisse temporalmente as faria; e precisamente as fez em Jesus! E faz nos
santos.
* * *
O eleatismo
A negação do
"movimento" por Zenão de Eleia não é simplesmente a negação do
"devir", mas é a negação do "dinamismo", da potência ativa
do ser ou a negação do ato real.
O argumento não
é o de que Aquiles não alcança a tartaruga (ou a flecha, o alvo) "porque
nunca chegaria", isto é, "porque sempre o espaço a percorrer ainda
seria divisível infinitamente".
Não é que o alvo
"seja inalcançável": uma distância infinitamente percorrível não
negaria o movimento, apenas o tornaria desesperançador, seria a negação da
teleologia ou um niilismo positivamente afirmado, como o nietzcheano; seria a
filosofia do "puro devir", precisamente, a aceitação do
"absurdo" ou sem-sentido.
Não se trata de
evitar uma expansão infinita que "desagregaria o ser 'finito'", mas
de afirmar uma "contração" ou um "ensimesmamento" de um ser
incapaz de sair de si.
Isto é posterior
à filosofia do devir, é o niilismo consumado e a instalação no cinismo: "o
devir é irreal" ou "o mundo é ilusório" significa um disfarce
para a própria negação do dinamismo amoroso da realidade.
A filosofia
parmenídica é a filosofia do antisser.
* * *
Como muitas pessoas
(alunos, ex-alunos, amigos, conhecidos) me perguntaram, alguma vez, o que eu
achava do Olavo de Carvalho, e eu invariavelmente respondia: "é um homem
inteligente, erudito, excelente domínio da linguagem, que tem muitos pontos que
eu considero brilhantes [se procurarem, encontrarão uns comentários elogiosos
meus a sua tese dos discursos aristotélicos], mas que defendia uma ideia
erradíssima em religião e metafísica (o perenialismo gnóstico), mas não o
acompanho mais", vejo-me obrigado a dizer o seguinte agora:
O Olavo volta e
meia solta umas pérolas equivocadas sobre temas teológicos. Tendo em vista que
são postagens de Facebook, que ele mesmo reconhece que não é expert em
Teologia, e que, forçando a barra, dá para encontrar algum sentido aceitável, tudo
bem.
Há pouco tempo
atrás, contudo, um amigo me mostrou, ao comentar uma postagem minha, uma do
Olavo do ano passado, em que ele defendida ideias muito estranhas mescladas a
algumas inequivocamente erradas em termos metafísicos, onde ainda se vê a influência
do perenialismo pela temática panenteísta.
Parece ser que o
Olavo mantém a metafísica que ele defendia em textos como http://www.olavodecarvalho.org/ser-e-conhecer, onde ele diz (depois de uma boa exposição sobre a
fenomenologia e sobre Kant):
"Logo, é
claro que o Universo se conhece. A parte dele que se conhece mas que não está
realizada ainda, e que talvez não se realize nunca, nós chamamos de aspectos
transcendentes de Deus. Para ser transcendente, não é preciso ser transcendente
a tudo".
Esta formulação
não é equivocada, ela é simplesmente errada [o contexto não a salva, podem
conferir]. Deus não é algo transcendente às partes realizadas do Universo, ele
é Transcendente a toda a extensão do tempo-espaço realizada e por realizar [no
primeiro comentário abaixo há algo sobre isto]. Em sua Eternidade Ele
"já" (sic) está no final dos tempos; está no início, aqui, no final.
Não é algo "do" universo, nem algo que será do universo, embora seja
Alguém presente "no" Universo, o seu Fundamento "imanente"
enquanto Conservador ("Nele somos, nos movemos e existimos"), mas
cuja Subsistência não é o próprio ser ou subsistência participada e criada do
universo. Se se quer, pode-se dizer, com Zubiri, que é Transcendente
"no" universo (fórmula que concilia a transcendência com a
onipresença conservadora).
Ele diz
"aspectos transcendentes de Deus", como se o universo realizado fosse
o "aspecto imanente"; ora, a imanência divina é, repito, aquela pela
qual ele conserva como "íntimo habitante" (Agostinho), "causa
eficiente" (Tomás) ou "fundamento fontanal" (Zubiri), não se
trata do que OdC diz.
Estas coisas não
são sutilezas ou "picuinhas" terminológicas, como ouvi de um olavete
há um tempinho. Não reconhecer a Transcendência de Deus nos termos em que ela
se apresenta na Revelação e na filosofia cristã é ainda estar preso aos
esquemas mentais do perenialismo gnóstico, cuja metafísica é a panenteísta, em
que Deus é o Ser ou a subsistência unívoca de tudo, sua transcendência sendo
apenas um aspecto do "si divino total" (sic). E estes esquemas têm
consequências práticas e na vida espiritual.
* * *
Comentário a uma
postagem do OdC de 4/06/17, que segue:
“Se vocês
acompanharam os raciocínios finais do filme "O Jardim das Aflições",
não terão dificuldade de entender o que vou explicar em seguida. Se enfatizo
tanto a importância do perdão, não é só porque ele é o centro e o topo da
revelação cristã, mas porque meditei personalizadamente o assunto desde um
ponto de vista não religioso ou teológico, mas metafísico, e adotei como tese
formal da minha filosofia a convicção de que ele é uma das chaves essenciais da
estrutura mesma da realidade como um todo. No filme -- assim como em muitas
aulas --, expliquei que não há um intermediário entre o ser e o nada: o que
quer que tenha entrado na esfera do ser por uma fração infinitesimal de segundo
não pode nunca mais retornar ao nada, porque nunca esteve nele e, ao contrário,
pertenceu sempre à esfera do ser. Se tentamos conceber o transcurso do tempo
como estrutura total da possibilidade, entendemos o que é a eternidade, no
sentido de Boécio: a posse atual e simultânea de todos os momentos. Logo, o que
quer que aconteça na esfera temporal está contido na eternidade de uma vez para
sempre. Isso é a irrevogabilidade absoluta do acontecer. Ao nada, nada retorna,
porque do nada, nada proveio. Ora, em toda a esfera do acontecer universal,
desde as partículas subatômicas até a totalidade das galáxias, e atravessando
mesmo todos os mundos supracorpóreos e espirituais que possam existir, só há UM
tipo de fato que, uma vez ocorrido no tempo, pode ser suprimido da eternidade.
São os nossos pecados. O perdão sacramental apaga o pecado do registro do ser.
O perdão divino não é somente um castigo suspenso, mas uma anulação do fato, um
DESACONTECER total e definitivo. Correlato da criação "ex nihilo", o
perdão devolve ao nada o que nunca esteve no nada. O perdão é obra da liberdade
divina e, nesse sentido, transcende a estrutura inteira da possibilidade
universal. Quem quer que tenha a oportunidade de participar desse milagre, sob
qualquer maneira que seja, deve aproveitá-la ao máximo, porque nada, nada, nada
deste mundo lhe dará, na medida das forças humanas, compreensão mais luminosa
do mistério da existência” (postagem do Facebook, de 14/06/17).
Esta tese me
parece sumamente problemática: "o que quer que tenha entrado na esfera do
ser por uma fração infinitesimal de segundo não pode nunca mais retornar ao
nada, porque nunca esteve nele e, ao contrário, pertenceu sempre à esfera do
ser". De que "ser" fala: do Ser Divino ou do "ser
criado"? No Ser Divino "nada entra", porque Ele É plenamente.
Mas o "ser criado" (e os entes que nele existiram, existem e virão a
existir) "nunca esteve no nada"?! O que acontece no âmbito do ser
criado é uma possibilidade deste ser participado, estava em "sua
esfera", em suas potências. Mas este mesmo ser participado veio "do
nada", ao ter sido criado.
Esta interpretação
de Boécio é claramente equivocada: "Se tentamos conceber o transcurso do
tempo como estrutura total da possibilidade, entendemos o que é a eternidade,
no sentido de Boécio: a posse atual e simultânea de todos os momentos. Logo, o
que quer que aconteça na esfera temporal está contido na eternidade de uma vez
para sempre". A Eternidade é possuída imediatamente pelo "Ser"
que é Deus; Ele mesmo é o Eterno, Se possui de golpe, vive
"simultaneamente", e não alternativa ou sucessivamente, todas as possibilidades
reais ou "momentos" (ontológicos) da Plenitude do que É, sendo, assim
"Ato Puro". O tempo é, como diz Platão, uma "imagem móvel da
eternidade" (Timeu), e seu transcurso não é a "estrutura total da
possibilidade", mas a estrutura das possibilidades do ser participado no
modo concreto ou com as limitações concretas em que foi criado por Deus. O que
acontece na temporalidade está conhecido por Deus eternamente – Zubiri diz
"eternalmente", para distinguir esse conhecimento de Deus que abarca
todos os momentos temporais instantaneamente da Eternidade própria do Ato
Divino –, mas não "contido" na eternidade, se por
"eternidade" estamos a falar da Eternidade Divina, à parte da criação
contingente, criada livremente por amor.
O que segue só é
aceitável na medida em que signifique o acontecer efetivo do mundo criado, com
suas possibilidades ínsitas, considerando-se que o próprio veio do nada, como
dito acima: "Isso é a irrevogabilidade absoluta do acontecer. Ao nada,
nada retorna, porque do nada, nada proveio".
Também aqui há
ambiguidade: "só há UM tipo de fato que, uma vez ocorrido no tempo, pode
ser suprimido da eternidade. São os nossos pecados. O perdão sacramental apaga
o pecado do registro do ser. O perdão divino não é somente um castigo suspenso,
mas uma anulação do fato, um DESACONTECER total e definitivo". De que
eternidade fala? Do Ser Eterno que é Deus o pecado nunca participou. Da
Eternidade Bem Aventurada dos eleitos em Deus o pecado será totalmente
excluído: suas culpas serão apagadas e já sua pena terá sido purgada. Mas se a
"eternidade" é o conjunto do tempo e da Eternidade, então o pecado
não "desacontece" (sic) exatamente: ele permanece como
"arrependido/perdoado" e "purgado" nos eleitos (inclusive
as chagas de Cristo são um "sinal" disto; digo, não de pecados do
Senhor, mas dos redimidos por Ele pelo sacrifício de seu Santo Corpo na Cruz),
e como "julgado/condenado" e "eternamente penalizado" nos
réprobos.
Correlato da
criação "ex nihilo", o perdão devolve ao nada o que nunca esteve no nada".
O perdão é correlato na medida em que a justificação do pecador é uma
"nova criação", isto é, recria-se a "justiça original" do
nada, isto é, pelo Poder de Deus, sem intervenção de mérito. Ele refaz o que
havia sido feito do nada, a integridade de nossa natureza, a ordem de nossa
vontade. Não é um "desfazimento" de algo que participa do ser, mas a
recuperação do ser em sua integridade, pela cura do que lhe é estranho, fruto
da desordem da vontade.
Se ele quis
dizer que uma "possibilidade" do "ser criado", que é o
pecado, "é desfeita", considere-se o dito no penúltimo comentário.
Mas o que o perdão faz, teologicamente, é muito mais "recriar" o ser
íntegro que "aniquilar" algo.
Cancela-se a
culpa, cumpre-se a penitência.
* * *
Se a natureza
humana tivesse sido destruída e assim recebida de Adão, não poderia haver
salvação e tampouco condenação! Não é só que não haveria "quem" se
salvasse, mas também não haveria "quem" pudesse se perder. A
linguagem da "condenação" perderia todo e qualquer sentido. Teria
havido uma absoluta bestialização do homem e ele já não seria mais um ser
responsável.
Se a alma
espiritual criada por Deus é boa, como tudo o que sai diretamente das mãos do
Criador, e ela é a responsável pelas potências mais essenciais do homem, a
inteligência e a vontade (a sensualidade é devida ao corpo), então não faz
sentido dizer que a natureza humana foi destruída. Isto corresponderia a dizer
ou que Deus fazia almas más (uma blasfêmia!) ou que Deus simplesmente não criou
almas espirituais antes da redenção, e aí voltamos ao ponto anterior: os homens
já nasciam bestializados e não podiam ser condenados.
* * *
Um amigo me
enviou, num comentário em outra postagem, um vídeo do Gugu (Luiz Gonzaga de
Carvalho) sobre a "individualidade" no Céu. A resposta, por um lado
seria muito grande para um comentário, e, por outro, pode ser útil a vários.
Segue:
Temos mais uma
explicação que "parece" cristã, mas não é.
Começa fazendo
uma distinção em princípio acertada (ainda que imprecisa) entre a
"identidade metafisica" e a "realização empírica", e não
nega que esta reflui sobre a primeira e coloca em jogo o destino metafisico do
homem.
Mas já erra feio
quando diz que "as inúmeras possibilidades existenciais" (ele chega a
dizer os "vários eus"), não podem entrar todas no Céu, mas estão
inscritas na totalidade metafisica.
Ora, que nem
todas as possibilidades morais podem ingressar no Céu é evidente para a Fé, mas
que o conjunto delas pertença às possibilidades da pessoa humana enquanto tal
(enquanto pensada por Deus no Filho, e enquanto criada individualmente com uma
natureza individual que é uma participação mais ou menos limitada da
"Palavra" que é o Verbo Encarnado), é um erro crasso para a Fé e para
a metafísica cristã iluminada pela Revelação.
As
possibilidades que conduzem ao inferno estão absolutamente excluídas da
realidade metafisica da pessoa humana! No Modelo Eterno isto deve ser óbvio
(mas também aqui erra o Gugu, como direi adiante), mas na natureza concreta tal
como se encontra após a queda, estas possibilidades são contrárias à nossa
natureza! O germe de uma possível corruptibilidade está nela, mas não como algo
metafísicamente intrínseco, e sim como realidade factual. Nós não somos
simultaneamente "bons e maus", somos uma "bondade ferida de
morte", porém sanável pela Graça.
Ele encara a
"personalidade atual" como um pequeno conjunto das possibilidades
todas; e que este (pequeno conjunto) pode ser infernal. Estaria certo se o
sentido da "totalidade" das possibilidades não coincidisse com o
conjunto das possibilidades metafísicas, e sim com o conjunto das
possibilidades morais, que incluem a possibilidade do pecado, que é antinatural
e, portanto, antimetafisico.
Ele até diz que
as possibilidades existenciais "não são necessárias", mas com isto
ele alude às probabilidades de efetuação física, não à interposição de
elementos estranhos à natureza humana.
Não há uma
"parte metafisica salvável" inserida num "todo metafísico"
com possibilidades de danação (um "todo bipolar"). A possibilidade de
danação é antinatural, é um desvio não originário, porém sanável. Isto não são
sutilezas; aqui se joga a reta compreensão do ser e do destino humanos.
No mín 13
revela-se o erro de fundo mais grave: ele diz que o "assassino"
reproduz o aspecto "destruidor" da Divindade. E que isto é ruim para
o homem porque o homem "não pode (re)criar a vida"; ou seja, a
potência assassina (inscrita no todo metafisico, de acordo com a tese dele) é
ruim porque, no homem, no deus finito, ela é "incompossível" (ele não
usa o termo leibniziano, mas é a ideia) com a possibilidade de ser
simultaneamente misericordioso. Aqui há um erro teológico gravíssimo. O curioso
é que chega a dizer "que o santo pode matar e morrer e ser misericordioso
nos dois casos, mas não pode ser assassino e misericordioso".
Bom, pelo já
visto, assassinar é mau por não ser compossivel com a natureza humana, e não
por não o ser com uma "individualidade melhor" (reitero que isso não
é sutileza, mas algo essencial). Mas o erro tremendo é considerar a
"destruição" como atributo divino.
É a Justiça
divina que permite tanto a corrupção física do que é finito por si, e que
decreta a destruição do bem eterno do maligno (buscada e alcançada pelo próprio
maligno). Esta Justiça do juízo escatológico NÃO é misericórdia para com os
malignos, eles se ausentaram da misericórdia pelo não arrependimento.
O santo juiz
humano pode exercer o julgamento e a ira de Deus contra os malignos, e isto nem
é assassinato nem é misericórdia para com os mesmos.
O
"Deus" que é "destruidor" e recria dos escombros não é o
Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.
* * *
O paradoxo de
Epicuro e o mal
"Enquanto
onisciente e onipotente, Deus tem conhecimento de todo o mal e poder para
acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.
Enquanto
omnipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer
fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o
mal está. Então ele não é omnisciente.
Enquanto
omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer
mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente".
Resposta:
Primeiramente,
Deus está racionalmente (metafisicamente) justificado (com independência da
teodiceia ou da ponerologia): pela mutabilidade, pela ordem da causalidade,
pela contingência, pela ordem da participação e pela teleologia cósmica. Mas
respondamos ao paradoxo:
Deus conhece os
futuros contingentes (se vou vestir azul ou verde, quem ganhará a Copa da
Rússia, como responderemos concretamente à sua Graça, ou se iremos pecar) eternalmente,
porém porque eles se dão no seu devido tempo; em outras palavras, Deus conhece
simultaneamente tudo que decorre no tempo, mas não é a Causa direta de todas as
ocorrências: o livre-arbítrio é real, e Ele não é "adivinho", mas
Onisciente.
Ele não conhece os
pecados e sofrimentos concretos diretamente na sua Essência (como se nEla
estivessem presentes), mas como privação do bem: cf. S.Th. I,
q.14, a.10.
Daqui só se sai
com a seguinte interpretação da Revelação (que é uma autêntica e razoável
saída, superior a toda racionalidade meramente lógico-empírica do horizonte
mental naturalista): por um lado, Ele decretou sempre que assumiria a
humanidade para elevá-la e redimi-la de sua pena, “se preciso” (sic); por outro
lado, Ele também decretou tanto que julgaria todo aquele que não se
arrependesse do mal, quanto que salvaria e enxugaria as lágrimas de todas as
vítimas dos malignos.
O mal já está
julgado, o sofredor já está salvo, a criação será definitivamente curada.
O problema do
mal morre na sexta-feira santa, e será enterrado no Juízo Final da História.
* * *
Sobre astrologia
Quando o
astrólogo acerta, isto pode significar 2 coisas:
1) Que ele
previu "atos do homem" banais (ações naturais), que seguem uma tendência
neutra da influência natural dos astros (ele não pode prever atos estritamente
livres ou intelectuais, ou seja, os bens morais a serem realizados a partir de
uma tendência afetiva e de outras considerações de índole racional que
intervêm);
2) ou que ele
previu um "ato humano" mau, "livre" apenas no sentido de
que dispõe do livre-arbítrio (faculdade de meios da vontade), mas
"escravo" no sentido de que não atingiu a liberdade/o bem moral (fim
da vontade além de qualquer tendência natural); este ato segue uma tendência
distorcida, a qual NÃO PODE PROVIR DOS ASTROS, se estes devem ser entendidos
como meios da Providência Divina; ora, neste segundo caso, NECESSARIAMENTE
houve intercurso demoníaco, para manifestar pecados e uma certa direção dos
acontecimentos dependentes destes pecados (com a permissão de Deus, para o
astrólogo tropeçar no seu orgulho e cair na soberba de pensar que "domina
a sequência dos acontecimentos").
Um astrólogo
nunca pode prever ou entender os atos de um homem justo em graça ou de um santo
(ele só pode conhecer a "intimidade" de quem está em comunhão com os
demônios): ele será ou um ato natural aparentemente banal, porém revestido de
caridade (cujos benefícios são imperscrutáveis), ou um ato extraordinário
inaudito, que fará o inferno tremer.
4) O “próprio”
do Cristianismo
Quando Bento XVI
salienta que o Cristianismo é essencialmente um "encontro com
Cristo", não está dizendo que "não é uma doutrina".
É que a Doutrina
(de fé e de costumes), a Liturgia (culto e sacramentos), a Caridade (a prática
amorosa dos Mandamentos) e a Oração [as 4 partes do Catecismo] são momentos
analíticos deste "encontro".
Encontra-se a
Cristo pela Palavra Viva anunciada na e pela Tradição da Igreja, a Graça dos
sacramentos que encarna esta Palavra no coração, a vida no Espírito que é Vida
de Cristo em nós, e o diálogo orante em que Cristo segue falando ao Pai através
de nós.
A doutrina,
portanto, é o primeiro passo da Vida cristã integral. Ninguém se salva só por
ter a informação lógico-proposicional do que Cristo ensina através da Igreja,
mas tampouco alguém se salva sem ouvir este ensinamento, para a ele aderir com
a mente, o coração e a ação.
* * *
A maior riqueza do Cristianismo não é a Moral, mas a Graça, o Amor de Deus encarnado em Jesus de Nazaré e, através, dele, numa multidão de santos e pessoas simples que foram tocados pela Caridade de Deus.
A Lei já era
conhecida pelos judeus e pelos pagãos. Estes últimos, de modo geral, podiam não
ser virtuosos, mas tinham alguma ideia de que há um certo e um errado, uma
"lei não escrita", como dizem Antígona (Sófocles) ou Aristóteles, e
está patente em todas as grandes tradições religiosas antigas.
Às vezes, damos,
os cristãos, a impressão de que nossa Fé é um sistema teórico de dogmas e
mandamentos. Sabemos que não é isso, mas é menos difícil falar de Deus que
falar como Ele, enfim...
De qualquer
modo, a Moral é de uma importância fundamental para a existência da sociedade
humana, e os mandamentos ou a Lei Natural não são obrigações extrínsecas ao ser
humano, mas expressão de sua própria e profunda realidade pessoal, modos de
concretizar o amor, que só podem ser conhecidos em toda sua extensão, e vividos
em toda sua profundidade, através da Graça (os justos do Antigo Testamento ou
do paganismo o eram em virtude dela também).
Compreende-se
que o não cristão, após a rejeição da modernidade à religião de Cristo, não
queira saber da "moral cristã". Na realidade, este rechaço, ao ser
posterior à redenção, coloca o homem contemporâneo numa situação bem pior que a
dos pagãos: a nescidade em que ele se encontra é mais grave, porque ao rejeitar
formalmente a Graça, sua compreensão do sentido da vida foi profundamente
embrutecida.
A grande questão
é: só a graça pode restituir a inteligência prática ao homem. Mas como o homem
pode se abrir a esta graça sem se arrepender? E como pode se arrepender se não
recebe o anúncio? E como pode receber o anúncio se não há quem o faça? E como o
anúncio pode ser eficaz, se o apóstolo não é coerente?
Em conclusão:
não podemos deixar de falar de Deus, mas sem nos convertermos, sem lutarmos
pela santidade, o anúncio não será eficaz (porque a eficácia não vem de nossa
eloquência, mas de nossa comunhão com Deus). Assim, falando a Deus na oração,
falaremos com Ele ao próximo. E toda "ovelha ouvirá a sua voz".
* * *
É sempre a Graça
que converte.
Mas não no
vazio, e sim no concreto da vida.
Se a pessoa tem
mentalidade teorética, e estuda a realidade buscando a Verdade, encontrá-la-á
na ciência cristã: seja teológica, seja filosófica, seja espiritual.
Se a pessoa tem
mentalidade prática, e age realmente visando o Bem, encontrá-lo-á na caridade
cristã: seja no testemunho de um amigo, de um parente, de um padre ou
religioso, seja na hagiografia.
Se a pessoa tem
mentalidade poética, e se atempera ao real admirando a Beleza, encontrá-la-á na
arquitetura divina da criação, e na arte inspirada: numa paisagem natural
fascinante, no encanto das crianças e do amor humano entre homem e mulher, na
Arte Sacra e na boa arte em geral, na Sagrada Liturgia retamente celebrada (onde,
aliás, ouvimos a Verdade, alimentamo-nos do Amor, e vislumbramos a Glória de
Deus, nos símbolos sagrados e na Música Sacra).
É sempre o
Verum, o Bonum e o Pulchrum que toma a iniciativa, mas Ele conta conosco, com a
nossa natureza, nossos talentos e as nossas retas disposições.
Ele nos oferece
distintos meios para encontrá-lO, inscritos nestas três vias do Caminho que é
Cristo.
Que vejamos a
sua Verdade, atuemos com seu Amor, e no fim descansaremos na sua Glória.
* * *
Liturgia e
beleza
Dois equívocos:
o esteticismo de quem confunde a Missa (liturgia) com a forma musical “missa”,
e o legalismo conceitualista e minimalista de quem diz "o que importa é
que haja as palavras da consagração e, assim, o sacrifício de Cristo".
O cristão vai à
missa para adorar o Pai junto com Cristo, oferecendo-se com Ele no seu
sacrifício perfeito (eucarístico, laudatório, impetratório e expiatório), em
comunhão com os irmãos. Ok.
Mas a arte sacra
tem um papel pedagógico insubstituível. A beleza é, como ensina S. Tomás,
"a visibilidade do bem", ou, como diz Platão, "o que é feito à
imagem da verdade".
A inteligência
humana é "senciente", como ensina Zubiri -que é um esclarecimento da
doutrina aristotélico-tomista da "abstração"-, ou seja, o homem não
pode, ordinariamente, conhecer a realidade sem a mediação da sensibilidade.
A exceção é a
experiência do conhecimento místico, que apreende diretamente as realidades
espirituais (e não meros conceitos lógicos, atenção!). Quem conhece o
"significado" de algo que nunca viu, pode acreditar/confiar em outrem
e, assim, comungando com a experiência dos que viram, conhecer a realidade
crida (é a fé, presente em toda forma de conhecimento, e não só na religiosa).
A arte sacra
[como a vida do santo] é o que possibilita ao fiel cristão o "ver"
antecipadamente as realidades espirituais nas quais crê, e isto permite um
melhor entendimento da fé e uma maior confiança.
Imaginar que a
simples compreensão do significado é algo "mais inteligente" do que
ver este significado realizado, concretizado (na música ou na escultura sacra,
por exemplo), é ignorar o que é "abstrair" ou entender simplesmente.
A beleza
(artística ou moral, das "belas ações", como fala Platão) é o que
-retomando as referências acima- torna visível a Verdade e o Bem. O que supõe
que o artista sacro deve ter uma profunda experiência espiritual, que intui
algo das verdades eternas, e que é capaz de plasmá-las na sua música, na sua
pintura, etc., permitindo que os fiéis, participando desta experiência através
da contemplação e da audição, entenda melhor a doutrina e comungue mais
profundamente do amor.
Isso é que os
esteticistas e os legalistas ignoram: a beleza na liturgia está a serviço da
santificação dos fiéis, e não de um deleite sensível ou de uma alegria legítima,
porém acessória.
Em uma missa
barulhenta, mal celebrada, etc., Cristo estará igualmente presente, porém de
maneira mais velada. E isso não significa alguma vantagem! Pois isso é supor
uma capacidade ascética e mística que a média dos fiéis não tem, e esconder um
tesouro que deveria ser distribuído com mais abundância.
* * *
Sobre a arte
sacra
A arte sacra –
que é a arte "originária" (como diz, por exemplo, o Walter Benjamin)
–, tem um sentido "cultual": ela não é um "adorno" do
templo, ela é uma "parte" do culto vivenciado no templo (não só o
canto sacro se define assim).
Seu objetivo não
é deleitar a vista ou a audição do fiel, como se o templo fosse uma
"reprodução" do céu sobrenatural, mas "movê-lo" ao céu
espiritual além do canto, além da estatuária, além das pinturas...
Ela deve gerar
um tipo de afetividade espiritual que não é exatamente aquela afetividade mais
ordinária; para que "aprendamos" estes afetos e possamos vivê-los na
escala correspondente em nossa oração cotidiana, e no estilo de fundo de todas
as nossas atividades, as quais, nas suas dimensões menos profundas, seguirão
permeadas pelas emoções mais costumeiras, que não são "más", porém,
não são as "mais espirituais", e, portanto, não devem ser levadas ou
vividas no templo, sob o risco de não conseguirmos viver (n)a dimensão mais
profunda da vida espiritual.
Muito antes,
contudo, das trágicas música e arquitetura "sacras" atuais, a arte
sacra vem sofrendo uma deturpação em seu sentido: a arte plástica
renascentista, por exemplo, não é muito servível para o culto sacro (já a
polifonia renascentista foi feita com o propósito explícito de se adequar ao
espírito do canto gregoriano, aproveitando a nascente harmonização das vozes).
Não só pelos
motivos pagãos que permeiam as pinturas ou as estátuas, mas porque o próprio
"espírito" (e não só os assuntos) não corresponde ao da arte sacra: a
composição é marcada por um naturalismo perfeccionista e, no fundo,
imanentista.
Vejamos dois
exemplos: "A criação de Adão" e a "Pietá", ambas obras
tecnicamente belas (eu inclusive tenho uma reprodução de "A criação de
Adão" em minha casa, e costumo usar a cena para simbolizar a
"religação" ou "relação criatural", mas não posso me enganar
a respeito de seu caráter "pouco religioso"):
- O primeiro
traz Júpiter fazendo as vezes de Deus Pai e realizando um esforço enorme
(carregado pelos anjos) para se aproximar do homem : o homem é o
"centro" da tela. Às vezes a tela me transmite a ideia hegeliana
(panenteísta) de um Deus "que se faz ao se fazer homem" (o que é bem
distinto da realidade da Encarnação). Como diz o Olavo de Carvalho (comentando
"O silêncio dos inocentes" e citando esta tela), a imagem do toque
dos dedos é a de uma "iniciação"...
- A Pietá não
transmite a dor de Maria, mas a frieza do material da escultura: a Virgem não
representa ali a "terra" em cujo ventre a semente do alto floresceu
(e que remete à terra onde o grão de trigo cai para ressuscitar), mas uma
sepultura de mármore, o jazigo perpétuo de um cadáver. O poeta niilista
brasileiro Dante Milano expressou muito bem esta realidade, em dois poemas
dedicados à escultura (cito o segundo; o primeiro está na página imediatamente
anterior):
"A mãe com
o filho morto / Entre os braços. / É uma escultura./ Parado o gesto, o olhar de
cega, / a mãe marmórea / Parece morta vendo o filho morto / Tão lívida como
ele. / Mãe e filho / Feitos da mesma pedra, ambos talhados / Na mesma matéria
dura, / O mesmo mármore, a mesma carne de cadáver" (MILANO, Dante.
Melhores Poemas. Seleção de Ivan Junqueira. 1a reimpressão. São Paulo: Global,
1998, p. 145).

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