8.12.18

A Imaculada Conceição, Primícias da criação

Ainda não  se louvou, exaltou, honrou, amou e serviu suficientemente a Maria, pois muito mais louvor, respeito, amor e serviço ela merece. 
(S. Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem)

Mas de Sião será dito: "Todo homem ali nasceu". (Sl 87,5)


Sempre que eu lia, no Antigo Testamento, acerca da "Sabedoria", eu pensava que esta realidade não deveria ser confundida com o Verbo de Deus ou a "Sabedoria Incriada" (apesar desta apropriação constar da Liturgia da Santíssima Trindade do ciclo A do Lecionário reformado, e de que esta identificação é comum na teologia). E o pensava sobretudo por duas razões: apesar da tradução que S. Jerônimo fez de Pr 8,22 ("O Senhor 'possuiu-me'..."), para opor-se aos erros de Ário, o verbo hebraico qânânî significa "criou-me" (cf. Bíblia de Jerusalém), e isto é mais consonante com outras passagens paralelas (cf. Eclo 1,4.9; 24,8-9); e Salomão toma a Sabedoria como "esposa" (cf. Sb 8,2) e ela é a "mãe de tudo" (cf. Sb 7,12), ou seja, ela é figura feminina, e não masculina, como é o Filho de Deus, sendo esta designação incompatível com o simbolismo místico, em que o Verbo é o Esposo e a alma, a esposa. O Verbo é, antes, o "Sábio", que criou a Sabedoria (cf. Eclo 1,8-9).

Tampouco, por outro lado, parecia-me certa a identificação, sem mais, entre o "ser" da filosofia e o Ser Divino (cf. Ex 3,14) -como disse Platão, o Bem (Deus) é o "além do ser"-, havendo nesta, e em certa interpretação da ideia de "participação", uma visão equivocada e filo-panteísta.

Então, na Festa da Natividade de Nossa Senhora (08 de setembro) do ano de 2013, ao contemplar uma imagem da Virgem, veio-me a presente Ideia, que, depois de bastante tempo de oração, meditação e estudo, consegui formalizar teologicamente (o presente texto tem muitas referências filosóficas, porque o tema se encontra numa interface entre filosofia e teologia, e a razão e a Revelação se iluminam reciprocamente).

Se a "Sabedoria" é a primeira criatura de Deus, isto nos remete à famosa definição filosófica do Liber de causis sobre o "ser": prima rerum creaturarum est esse, isto é, "a primeira das coisas criadas é o ser". Embora Santo Tomás interprete esta definição afirmando o (ato de) "ser" como "o primeiro em cada ente" (o "ato da essência"), as considerações zubirianas sobre a "formalidade de realidade" ou o "poder do real" nos ajudam a compreender melhor a questão: cada coisa real "é real" pela (formalidade de) "realidade" que envolve o conteúdo reificando-a (cf. Sobre la esenciaEl hombre y Dios), ou, projetando esta visão em Tomás, cada ente "é" pelo (ato de) "ser" que atualiza a essência entificando-a. Como explica Zubiri, a realidade ou o "poder do real" excede cada coisa real, comunicando-se de uma coisa real às demais; assim, paralelamente, o "ser" se difunde de um ente a outro. Isto ajuda a entender tanto o adágio do Pseudo-Dionísio, de que "o ser é difusivo de si", quanto, por exemplo, a "primeira via" tomasiana sobre a existência de Deus, em que a "atualização" que um "motor" efetua num "movido" é menos uma ação empírica (na interpretação errada que Escoto faz das vias tomasianas como vias "físicas", que só poderiam chegar a um "Motor Primeiro" imanente), que a comunicação metafísica de ser ou realidade. Por isso se diz que a Sabedoria está "difundida em todas as criaturas" (cf. Eclo 1,9), "tudo abrangendo" (Sb 7,23).

Nem mesmo é impossível que a Sabedoria tenha sido criada desde sempre (cf. Pv 8,23; Eclo 1,1b.4b; Eclo 24,9), pois, como Santo Tomás explica, a criação não depende de um princípio cronológico, mas de um Princípio ontológico (cf. Acerca da eternidade do mundo): a Sabedoria criada poderia existir desde a eternidade, e as coisas reais que participam de sua realidade -e, por meio desta, da Realidade Divina- poderiam ter sido criadas no tempo. Aliás, depois da explicação de Tomás -que Jerônimo desconhecia- é mais razoável esta interpretação de uma criação eterna da Sabedoria do que a tradução não literal do verbo "criar".

Por outra parte, a Sabedoria dos livros sapienciais (e proféticos) também é a "Lei": cf. Sb 6,17-19; Eclo 24,1-23; Br 3,12--4,1. Ela "governa o universo retamente" (Sb 8,1), "domina sobre as criaturas e governa com justiça e santidade" (Sb 9,2-3). Esta Sabedoria, criada, é "um reflexo da luz eterna", "um espelho nítido da atividade de Deus" e uma "imagem de sua bondade" (cf. Sb 7,26). Tais atributos remetem precisamente à definição tomasiana da Lei Natural, que é “a impressão da luz divina em nós” e "a participação da lei eterna na criatura racional” (S.Th. I-II, q91 a2). A Lei Eterna nada mais é do que a Sabedoria Divina ou o próprio Deus (Cf. S.Th. I-II, q91 a1; q93 a1); ela é participada à criatura racional através da Lei Natural, que assim pode ser vista como a Sabedoria (criada) dos livros sapienciais.  

Aquilo que o Esse é no âmbito metafísico, ou seja o Princípio (ontológico, e não apenas lógico), a Lei Natural é no campo ético ou moral (assim como nosso intelecto especulativo apreende os princípios da realidade, nossso intelecto prático apreende os princípios da Lei Natural). "Ser" e "Lei Natural" são duas faces da mesma realidade: a Sabedoria criada, objeto da philosophia, que é tanto a Sapiência quanto a Prudência/Sagacidade (cf. Pr 8,12). Vê-se, assim, que o "ser" dos filósofos não é o Ser Divino, mas que a filosofia, bem exercitada, é meio para aceder às verdades da teologia, que tem por objeto o 
Ipsum Esse. A correlação entre o Esse e a Lei Natural também tem seu paralelo em Zubiri, uma vez que o filósofo espanhol relacionou a dimensão moral do homem, pela qual nos encontramos “ligados” à felicidade e “obrigados” (ob-ligados) aos deveres daí decorrentes (cf. Sobre el hombre) à dimensão teologal, pela qual estamos “religados” ao poder do real (cf. El hombre y Dios).

Ao ler, em Santo Afonso de Maria de Ligório (cf. Glórias de Maria, Parte II, Tratado I "Sobre as Festas de Nossa Senhora", I, cap. 1, ponto 1o), que "Maria é a filha primogênita do Pai Eterno", e que o santo doutor lhe aplicava tanto a passagem de Eclo 24,5, cujo capítulo é acerca da Sabedoria, que diz "Eu saí da boca do Altíssimo, a primogênita antes de todas as criaturas" (a segunda oração parece ser uma glosa), quanto a já mencionada Pr 8,22 (mesmo traduzindo como S. Jerônimo), e ao ver que Santo Tomás (cf. Sermão sobre a Ave Maria, n. 9) aplicava à Virgem a glosa de Eclo 24,25 ("Em mim está a esperança da vida e da virtude"), então eu não mais temi afirmar minha intuição: a Sabedoria criada, a Primeira criatura de Deus, é a Virgem Maria! 

Como disse o então arcebispo Joseph Ratzinger [com alegria li este texto na reta final do Advento de 2017, que confirma minha inspiração e seus desdobramentos]:

“A ‘Sabedoria’ aparece como intermediária da Criação e da história da salvação, como a primeira criatura de Deus, onde se manifesta a pura forma original da sua vontade criadora, e igualmente a pura resposta, que ele encontra [...] 
[...] A liturgia da Igreja amplia essa teologia veterotestamentária da mulher do Novo Testamento, [...] na medida em que faz as leituras sobre a sabedoria referindo-se a Maria. Isso foi bastante criticado pelo movimento litúrgico e pela teologia de orientação cristocêntrica do século XX; afirmava-se que esses textos só poderiam e deveriam ser lidos cristologicamente. Após anos de uma adesão resoluta a essa visão, torna-se cada vez mais claro para mim que ela não soube compreender, na realidade, o elemento específico dos textos sobre a sabedoria [...] Sobra aqui um resto que não se deixa integrar completamente na cristologia: ‘sabedoria’ é um termo feminino, tanto no hebraico quanto no grego, e na consciência linguística dos antigos esse não é um mero e vazio fenômeno gramatical. ‘Sophia’, enquanto feminino, permanece naquela esfera da realidade que é representada pela mulher, o feminino por excelência. Ela significa a resposta ao chamado divino da criação e da eleição. Ela expressa justamente o fato de que existe a pura resposta, e de que nela o amor de Deus encontra a sua morada irrevogável. [...] A partir de uma perspectiva neotestamentária, a sabedoria se refere, por um lado, ao Filho enquanto a Palavra na qual Deus cria, mas por outro lado também à criatura, ao Israel verdadeiro, que é personificado na serva humilde, cujo ser, por completo, está no gesto do ‘Fiat mihi secundum verbum tuum’. A Sophia se refere ao Logos, a Palavra [Wort] que funda a sabedoria, mas também à resposta [Antwort] da mulher, que recebe a sabedoria e lhe traz fruto. A eliminação do elemento mariano da sofiologia anula, no fim, toda uma dimensão do fato bíblico, do fato cristão” (RATZINGER, Joseph. A Filha de Sião: a devoção mariana na Igreja. Trad. Ney Vasconcelos. São Paulo: Paulus, 2013, pp. 19-21).

A primazia de Nossa Senhora depois de Deus não é um "capricho" católico, ela corresponde à primazia também cronológica da Sabedoria, da qual a Virgem de Nazaré é a encarnação. O ser criado/poder do real "veicula" o poder de Deus, mas não é formalmente o Poder de Deus, senão "sede" de Deus como Poder, como diz Zubiri (cf. El hombre y Dios), da mesma forma que Maria é "sede da Sabedoria" (ladainha lauretana). Maria não se identifica com os entes, não é "um só ente com eles", mas não está "fora" deles, e sim "acima", como o "Poder do Real" zubiriano que domina e vela sobre as coisas reais desde o próprio âmago das criaturas, ditando a Lei do Amor aos corações dos entes pessoais -ela é a "Rainha dos corações" (S. Luís Maria Grignion de Montfort)-, como amiga dos seres humanos (cf. Sb 7,23), que intercede por nós junto a seu Filho até o momento de nossa morte (Ave Maria). Nos termos zubirianos, a realidade, nas coisas, é algo "último", "possibilitante" e "impelente" (cf. El hombre y Dios), e nos conduz a Deus, que possui eminentemente estas características; por isso, Maria é, como rezamos na ladainha lauretana, nosso "refúgio", nosso "auxílio" e "Mãe do bom conselho".

Da mesma forma que o Poder do Real "domina" sobre as coisas reais, Maria tem "direito e domínio sobre as almas, por graça de Deus" (S. Luís, Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, cap. I, art. II, n.37); também por isto ela é celebrada liturgicamente como "Nossa Senhora Rainha". Da mesma forma que a Lei Natural é reflexo da Lei Eterna que é Deus, a ladainha lauretana invoca Maria como "Espelho de Justiça". Em outras palavras, a verdadeira filosofia é a devoção mariana

Fica assim mais clara a ideia de "participação do ser": Deus participa o seu Ser primeiramente à Virgem, a "Graça Criada" e, através dela, aos anjos e aos homens, os quais participam do ser criado (de Maria) e, mediante esta participação, participam do Ser Incriado. Ficando também mais claro o porquê do culto de hiperdulia a Nossa Senhora, e o porquê dela ser a "Rainha dos Anjos" (ladainha lauretana). Não se trata, nunca se tratou, de "devocionismo" dos católicos, mas de objetiva devoção que respeita a ordem do real. Não há nenhum inconveniente em afirmar a encarnação da Sabedoria criada (que não deve ser considerada, pelos motivos expostos, o Verbo, nem uma qualidade divina hipostasiada), já que a Sabedoria Incriada (o Verbo) se encarnou. Nem é algum inconveniente que a Virgem tenha sido assunta num corpo glorioso, pois seu Filho, que é Deus, também possui um no céu. Os corpos gloriosos não são "limitadores" da atividade do Verbo e da Sabedoria, sua Mãe no tempo, mas apenas pontos focais de suas ações sobre o mundo e as pessoas.

A Virgem, segunda personagem mais importante da História da Salvação, integra a própria estrutura do real, ela é precisamente, como venho dizendo, "a" realidade, "o" ser (criado), Imaculada desde o princípio (cf. Sb 7,22). Se a Primeira Criatura não fosse criada Imaculada e predestinada a não pecar, o pecado poderia chegar a ferir o próprio núcleo da realidade, e tudo seria posto a perder. Parece razoável supor, a partir do conhecimento (racional e revelado) da Bondade de Deus e da fé em seu desígnio salvífico (cf. Ef 1,3-14), que não poderia mesmo ser diferente, isto é, que a Primeira Criatura deveria ser preservada de toda possibilidade de mácula, em virtude da Graça e dos méritos de Cristo, e com vistas à salvação dos eleitos, seus filhos; e isto vai ao encontro do argumento de Duns Escoto: "ele introduziu na teologia o conceito de redenção preservadora, segundo a qual Maria foi redimida de modo ainda mais admirável: não mediante a libertação do pecado, mas através da preservação do pecado" (S. João Paulo II, Catequese sobre a Virgem Maria publicada no L'Osservatore Romano, ed. portuguesa, 23, 08/06/1996, p.12). Não se trata de alguma necessidade lógica que se impõe ao Ser Divino, mas da necessária coerência com a qual Deus, que é Amor, criou a realidade para salvá-la, uma "necessidade chamada hipotética, devido à vontade divina", pela qual "Maria é necessária aos homens para chegarem a seu último fim" (S. Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, cap. I, art. II, n.39).


Maria é também "tipo" da Igreja, sua realização exemplar (cf. Constituição dogmática Lumen Gentium, n. 63, do Concílio Vaticano II), "membro supereminente e absolutamente único da Igreja" (LG 53), e por isso a ela se aplica a passagem de Ap 12,1-6. Se a Igreja é a humanidade reconciliada, a "nova criação", Maria é sua expressão acabada. Como Maria é Virgem e Mãe, assim também o é a Igreja. Se pudermos aplicar, à eclesiologia, a antropológica visão tripartite do Apóstolo (cf. 1Tes 5,23), diríamos que o Paráclito é o Espírito e a Virgem é a "alma" da Igreja, na qual os fiéis conformam os membros ou corpo; Maria seria assim a "alma do mundo" (cf. Platão, Timeu). Ainda sobre a relação entre a Virgem e a Igreja, que é "Esposa de Cristo", o Doutor da Graça explica que a encarnação de Cristo no ventre de sua Mãe é "a união do Verbo-Esposo com a carne-Esposa" (cf. Santo Agostinho, Comentário da Primeira Epístola de João I,2), isto é, que

o Verbo é o Esposo e a Esposa é a carne humana. E o Verbo humanado é o único Filho de Deus, o qual é, ao mesmo tempo, o filho do homem. O seio da Virgem Maria é a câmara nupcial. É aí que Ele se tornou a Cabeça da Igreja, é aí que se adiantou, como Esposo, saindo de seu tálamo, conforme a profecia das Escrituras (Sl 18,6): "E ele sai, qual esposo da alcova, como alegre herói percorrendo o caminho". Dessa alcova ele saiu, como um Esposo e convidado veio às bodas (Id., Comentário do Evangelho de João, VII, 4)

Se Deus é o Criador e Maria, a Sabedoria criada,  é "a" realidade, entende-se melhor as passagens de Sb 13,1 e Rm 1,20: o mundo eleva a Deus através da apreensão metafísica (de modo formal no filósofo, de modo ingênuo nas demais pessoas) da "realidade", que envolve todas as criaturas (a expressão zubiriana para o "caráter metafísico" de tudo que há é mais feliz que o clássico "ser", precisamente por ser termo feminino), e que é meio para se chegar à Realidade Absoluta. A tese de que Maria é a "Medianeira de todas as graças" se torna ainda mais plausível, já que, efetivamente, não se pode chegar a Deus à parte do "mundo" ou da realidade. E também porque Deus chega a nós através do mundo, seja através dos profetas, seja através da carne que tomou de Maria, seja através da Igreja, de seus sacramentos e seus santos, que continuam a obra da encarnação e da redenção. Trata-se, em todo caso, de uma "mediação subordinada à mediação de Cristo" (cf. São João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris Mater, n. 39), único mediador da salvação humana, uma "mediação especial e excepcional, fundada na sua 'plenitude de graça'" (Ibid., loc. cit.). Assim como Cristo é o Salvador dos homens nascidos antes dEle, a Virgem, aqui definida como a Sabedoria e a Lei, já realizava o papel de medianeira antes do Novo Testamento, desde o primeiro homem (cf. Sb 10,1ss). Como diz S. Luís de Montfort, "ela é o canal misterioso, o aqueduto, pelo qual passam abundante e docemente suas [de Deus] miserircórdias", "dispensadora de tudo que Ele possui" (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, cap. I, art. I, nn. 24-25); também o afirma Santo Afonso de Ligório, ao dizer que "Deus quer que pelas mãos de Maria nos cheguem todas as graças" (Glórias de Maria); e, por último, mas não menos importante, o Magistério, na voz do Papa Leão XIII:


pode-se com toda verdade e rigor afirmar que, por divina disposição, nada nos pode ser comunicado, do imenso tesouro da graça de Cristo - sabe-se que "a glória e a verdade vieram de Jesus Cristo" (Jo 1, 17), - senão por meio de Maria. De modo que, assim como ninguém pode achegar-se ao Pai Supremo senão por meio do Filho, assim também, ordinariamente, ninguém pode achegar-se a Cristo senão por meio de sua Mãe (Carta Encíclica Octobri mense, n. 12).

Finalmente, como ensina o Doutor Angélico:

a Bem-aventurada Virgem é cheia de graça, a ponto de espalhar sua plenitude de graça sobre todos os homens. Que cada santo possua graça suficiente para a salvação de muitos homens é coisa considerável. Mas se um santo fosse dotado de uma graça capaz de salvar toda a humanidade, ele gozaria de uma abundância de graça insuperável. Ora, essa plenitude de graça existe no Cristo e na Bem-aventurada Virgem (Santo Tomás, Sermão sobre a Ave Maria, n. 9).

Assim, não cansemos de aclamar, com Santa Isabel, Benedicta tu in mulieribus, e de suplicar, com os cristãos de todos os tempos: Sancta MariaMater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen.

* * * 

Apêndice: 

Santo Agostinho, no XII Livro das Confissões, nos fala da Sabedoria criada, natureza intelectual e primeira criatura. Os grifos são meus, para destacar a maternidade e criaturalidade de tal Sabedoria.


"E então? Negais talvez a existência de uma criatura sublime, de tal modo unida em casto amor ao Deus verdadeiro e eterno, embora não coeterna com ele, mas que nunca se separa dele para entregar-se às vicissitudes mutáveis do tempo, mas repousa sempre e unicamente na contemplação dele? Com efeito, ó Deus, voltando tua face para a criatura que te ama conforme a tua vontade, tu a sacias, e deste modo tal criatura não se afasta de ti para recolher-se em si mesma.

Ela é a casa de Deus, que não é terrena nem formada do nosso céu material, mas espiritual e participante da tua eternidade, porque permanece eternamente imaculada. Fundaste-a “pelos séculos dos séculos” e a colocaste “sob uma lei que não passará”. Todavia, essa habitação não é coeterna contigo, porque teve princípio. Foi criada. Não encontramos o tempo antes dessa criatura. De fato, a sabedoria foi criada antes de todas as coisas.

É claro, não se trata da Sabedoria coeterna e perfeitamente igual a ti, seu Pai e nosso Deus, por meio da qual tudo foi criado e que é o princípio no qual criaste o céu e a terra. Trata-se daquela sabedoria que é criatura, isto é, a natureza intelectual, que é luz para contemplar a luz. Também esta é chamada sabedoria, embora criada. Entre a sabedoria que cria e a sabedoria criada, e entre a justiça que justifica e a justiça que vem da justificação, existe a mesma diferença que há entre a luz que ilumina e a luz refletida. Nós mesmos fomos denominados tua justiça. Diz um servo teu: “...a fim de que nele nos tornemos justiça de Deus”. Portanto, antes de tudo criaste uma sabedoria, espírito racional e intelectual, cidadão de tua cidade santa, nossa mãe que está no alto, livre e eterna nos céus, “aqueles céus dos céus que te louvam”, isto é, aquele “céu que pertence ao Senhor”.

Portanto, achamos que não existe um tempo antes dessa sabedoria, pois ela foi criada antes de tudo e precede também a criação do tempo. Antes dela existe a eternidade do Criador, de quem recebeu a origem, mas não no tempo, que ainda não existia, e sim na sua própria condição de criatura.

Desse modo, ela procede de ti, meu Deus, mas permanecendo completamente diferente de ti. Não encontramos nenhum tempo, não só antes dela, mas nem sequer nela, porque ela é capaz de contemplar sempre a tua face, sem jamais dela se afastar. Por isso, não sofre variações. Contudo, nela existe a possibilidade de mudar, e tornar-se-ia tenebrosa e gélida se não continuasse a permanecer unida a ti por um grande amor, brilhando perenemente como a luz do meio-dia. Ó morada luminosa e fascinante, amei a tua beleza e o lugar onde habita a glória do meu Senhor, teu Criador e Senhor. Por ti suspiro no meu exílio, pedindo ao teu Criador que também me possua em ti, porque criou também a mim. “Errei como ovelha desgarrada”, mas espero ser reconduzido a ti sobre os ombros do meu pastor, teu Criador."



"A Imaculada Conceição" (1719), de Martino Altomonte

Um comentário:

Anônimo disse...

Joathas as suas postagens é a que mais confio, junto com as do Padre Paulo Ricardo. Sou um futuro seminarista, se Deus quiser. Continue fazendo postagens, pois aprendo muito com você e e com suas postagens tento ter uma boa visão do CVII, obrigado. Deus abençoe você e sua família.