Trecho traduzido de: JOÃO DAMASCENO. Exposición de la fe. Madrid: Ciudad
Nueva, 2003, pp. 273-276.
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“Uma vez que alguns nos reprovam que veneramos
e honramos a imagem de nosso Salvador e de nossa Senhora, e além disto as dos
restantes santos e companheiros de Cristo, haverão de ouvir como Deus desde o
princípio criou o homem conforme a sua própria imagem. Assim pois, por causa de
que nos veneramos uns aos outros se não é enquanto fomos feitos conforme a
imagem de Deus? Pois como afirmou Basílio, que fala e sabe muito das coisas
divinas, “a honra das imagens passa ao modelo”. Mas o protótipo é o que se
representou, aquilo de onde sai o derivado. Por causa de que o povo de Moisés
se prostrava ante a tenda e seu entorno e não antes diante de toda a criação?
Sem dúvida, porque esta remete a uma imagem e a um modelo das coisas do céu.
Certamente Deus disse a Moisés: Olha! Farás
tudo conforme ao modelo que te foi mostrado na visão. Também os Querubins
que cobriam o propiciatório, não eram obra de mãos humanas? E a respeito do que
estava no famoso Templo de Jerusalém? Não foi manufaturado e construído pela
arte dos homens?
A Sagrada Escritura fala contra dos que se
prosternam ante as esculturas, mas também contra os que sacrificam aos
demônios. Tanto sacrificavam [entenda-se, em geral] os gregos, como
sacrificavam os judeus. Mas os gregos sacrificavam aos demônios, em
contrapartida, os judeus, a Deus. A oferenda dos gregos era desprezável e
condenada, em contrapartida, a dos justos era agradável a Deus. Com efeito, sacrificou Noé e Deus sentiu uma fragrância de
bom odor. Deus recebe o perfume de sua boa vontade e do afeto para Ele. Portanto,
as esculturas dos gregos, a o ser representações de demônios, eram justamente
desprezáveis e proibidas.
Ademais, quem pode fazer uma imitação do
Deus invisível, incorpóreo, não circunscrito e sem figura? Com efeito, é o
extremo da loucura e da impiedade o representar a Deus. Em consequência, no
Antigo Testamento o emprego das imagens não era costume. Mas Deus, por causa de
suas entranhas de misericórdia, em verdade se fez homem para nossa salvação. E não
como foi visto por Abraão em figura de homem, nem tampouco pelos profetas,
senão que se fez verdadeiramente homem em essência [isto é, em natureza]. Entreteve-se
na terra e tratou com os homens, fez
milagres, padeceu, foi crucificado, ressuscitou e ascendeu aos céus. Toda estas
coisas em verdade ocorreram -foram vistas pelos homens- e foram escritas para
recordação nossa e para ensinamento dos que não estavam então, para que os que
não o vimos, ao escutar e crer, alcancemos a bem-aventurança do Senhor.
Mas posto que nem todos sabem letras, nem
têm tempo para a leitura, os Padres compreenderam que algumas proezas, para sua
recordação concisa, fossem pintadas em imagens. Por negligência muitas vezes
não temos na mente a Paixão do Senhor, mas quando vemos a imagem de Cristo
crucificado voltamos à recordação da paixão salvadora, e caindo por terra
adoramos, não a matéria, senão a quem é representado. Como tampouco adoramos a
matéria do Evangelho, nem a da Cruz, senão ao modelo. Com efeito, em que difere
uma cruz que não tem a efígie do Senhor de outra que a tem? E igualmente
dizemos sobre a Mãe de Deus, porque a honra dada a ela sobe para aquele que
dela se encarnou. De modo semelhante as ações viris dos santos varões nos
incitam à virilidade, ao fervor, à imitação de suas virtudes e à glória de
Deus, porque, como dissemos, a honra aos mais nobres companheiros de servidão é
uma prova de afeto para o Soberano comum, e a honra dada à imagem passa ao
protótipo. Mas esta tradição não está escrita, como que adoremos em direção ao
oriente, que adoremos a Cruz e outras muitas coisas semelhantes.
Reporta-se esta história. Abgar, que
reinava na cidade de Edesa, enviou um pintor para que pintasse a imagem do
Senhor. Ao não ser capaz o pintor de plasmá-lo por causa da magnificência
resplandecente de seu rosto, o mesmo Senhor pôs seu rosto divino e vivificante
sobre um pano. Foi impressa sua imagem no pano, e assim o envio a Abgar, quem o
havia requerido.
Ademais, existem muitas coisas que os Apóstolos
transmitiram não por escrito, porque escreve Paulo, o Apóstolo dos gentios: Portanto, irmãos, ficai firmes; guardai as
tradições que vos ensinamos oralmente ou por escrito. E aos coríntios: Eu vos louvo por vos recordardes de mim em
todas as ocasiões e por conservardes as tradições tais como vo-las transmiti.
Recordamos que Lucas, apóstolo e
evangelista, pintou ao Senhor e a sua Mãe. Corre o rumo que as imagens deles se
conservam na cidade dos romanos”
S. João Damasceno (c. 676-749)

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