Tuesday, June 12, 2018

O zelo amoroso da piedade e a criatividade terapêutica


Mais um belo texto do amigo Lincoln Haas Hein, que eu compartilho com alegria.

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Dar de si uma participação de seu espírito numa atividade criativa é algo que exige do homem um impulso. O bem a que podemos chegar pela atividade criativa é um bem que chamamos árduo, um bem que exige de nós que superemos o imediatismo da sensualidade que se deleita com o bem sensível. Para criar um bem, para comunicar uma forma a uma matéria, é necessário um amor por algo ainda não tangível que deve nascer desse amor. E para que o amor perdure até a realização completa da obra é necessário que esse amor se desenvolva num zelo. Um zelo que afasta aquilo que impede a realização da obra do amor. Esse zelo quando fruto de um amor mais próximo da sensibilidade se manifesta por vezes na ira mas a ira também pode ser ordenada por um amor mais elevado quando necessário. 

O impulso vital que se desenvolve no zelo amoroso criativo precisa "de espaço" para se desenvolver. A criatividade é uma necessidade humana assim como a defesa daquilo que amamos. O homem ao configurar e formar bens pela criatividade dirigida realiza ao mesmo tempo uma reflexão, uma formação e configuração de si mesmo. Ao interagir com aquilo que lhe serve de matéria o homem serve-se de possibilidades inscritas na matéria e traz à matéria novas possibilidades que vem de seu ser. O trabalho criativo é um jogo lúdico em que a luz própria, a verdade de quem cria, se interpenetra com a luz que se irradia dos elementos que entram na composição. E quando isso acontece, quando nas palavras de Alfonso Lopez Quintás há um encontro entre âmbitos que se entreveram, há um acréscimo de luz, há um aumento de realização no ser, o "poder do real" (conforme a metafísica do Zubiri) se manifesta de um modo distinto e potências inscritas no ser são assumidas num ato, numa forma. A forma criada pelo homem recebe em si uma participação do espírito humano, ela é vivificada pelo impulso vital amoroso e se torna expressão da vida interior de seu criador.

Essa vitalidade expressiva que exige uma realização está relacionada com a difusividade própria do bem (conforme foi meditada na meditação sobre o Espírito Vivente) mas pode ser corrompida em sua realização seja por um excesso seja por uma falta. Pelo excesso um ser humano pode se fixar numa meta absurda ou se fixar de modo desordenado a uma meta razoável e assim o zelo se transforma numa força destrutiva inflexível que destrói a matéria que lhe serviria e as formas realizadas já existentes que merecem respeito e amor. Pela falta um ser humano pode se tornar acidioso e enfraquecido paralisar-se e cair numa indiferença ao bem que pode ser realizado.

Como a atividade criativa humana impulsionada pelo zelo amoroso necessita de uma matéria a ser informada  é  necessário um respeito pela matéria e pelas formas que estão já nela presentes. O excesso de vigor e de rigor pode destruir as possibilidades de criação inscritas em uma dada matéria ao invés de impulsiona-las para uma plenitude de realidade.  E a matéria com a qual o homem interage é uma multiplicidade de realidades que tem mescla de potência e ato; o homem informa suas emoções, sentimentos e afetos, informa pensamentos, informa movimentos e ações corporais, interfere na formação e desenvolvimento de seu corpo e das potências de sua alma ao mesmo tempo em que informa coisas que a princípio nele não estão presentes incluindo potencialidades de outros seres humanos.

Como a realidade que o homem pode criar é sempre realidade transformada (nunca criada "ex nihilo" pelo homem) há na ação criativa do homem não apenas um doar ser que vem da ação humana mas tambem um poder do real misterioso, uma vitalidade do bem (a "viriditas" verdor percebida por Santa Hildegarda como um dom do Espírito Santo) que já está presente na matéria a ser trabalhada pelo homem e que com frequência pode trazer resultados não previstos ou imaginados.

Há em toda criação humana um jogo lúdico e encontro, há uma co-criação, uma colaboração entre o âmbito de realidade do ser humano que cria e o âmbito de realidade que com ele interage para dar à luz uma forma encarnada numa matéria. Em última análise há a presença da ação transcendente divina sustentando a vitalidade humana que se move no zelo e a vitalidade do ser que é reconfigurado. Para que cada criatura passe da potência ao ato, da possibilidade para a realidade mais plena de si é necessária a moção divina do Ato puro. Há em toda reconfiguração e transformação uma participação no poder divino tanto por parte da causa eficiente e formal quanto por parte da causa material. Mesmo a matéria-prima como indiferenciado puro e potência para todas as formas materiais tem um mínimo de ser em ato na medida em que não é um puro nada, e esse ser da matéria-prima que permanece humildemente e constantemente apto a receber formas é um vestígio da imutabilidade divina.

Para que o homem possa atingir sua plenitude ele necessita do zelo amoroso, necessita do exercício desse zelo que em última instância nasce do "nous", da fonte íntima da vida interior humana, a capacidade espiritual ilimitada para a contemplação e fruição da verdade, do bem e da beleza. Necessita da fortaleza, da estabilidade e perseverança do zelo mas também necessita de uma flexibilidade humilde que percebe e respeita o mistério de cada ser e de cada matéria que pode se transformar pela interação. Se essa força do zelo é reprimida ela se vinga na criação ou manutenção de formas precárias que se tornam ídolos. Mas também o contrário, a livre expansão do zelo sem a moderação da mansidão gera ídolos pela destruição e corrupção que ocasiona nas formas que pedem respeito.

"Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra"

O manso de coração é aquele que sabe guiar seu zelo para a criatividade de um modo lúdico. É aquele que sabe ser filho, irmão, e aprendiz; ele tem em si a piedade, o respeito pelo real em suas possibilidades e realizações e também direciona o seu zelo e impulso vital para brincar, para participar da vida da Sabedoria que se mostra artista: "artífice, brincando todo o tempo...achando as minhas delícias junto aos filhos dos homens.". O manso é aquele que tem em si flexibilidade para acolher com alegria os dons que recebe mas ao mesmo tempo também exerce uma gratidão ativa. Ele procura agradecer o dom que recebe respondendo ao chamado que cada dom faz: cada dom que se recebe tem em si uma mescla de potência e ato e pede àquele que o recebe que juntos possam levar o dom à plenitude do ato. Nessa realização de si e do dom recebido, o manso elabora e percebe em si e fora de si ícones, imagens transparentes da eternidade que apontam para algo mais elevado e misterioso que lhes dá sustento.

O contrário do manso é o ímpio. O idólatra. É aquele que manipula o dom levando-o à corrupção de seus possíveis sentidos.

O ídolo é o resultado da tentativa de paralisação da energia psíquica e espiritual, é o resultado da tentativa egocêntrica de permanecer num mesmo ato ao invés de buscar que a potencialidade seja sempre transcendida em sucessivos graus de iconicidade que apontam para o absoluto (tentativa de estabilidade que fracassa: "quem não avança recua", quem se apega a um dom que tem ao invés de criativamente levá-lo à sua plenitude perde o dom, destrói a finalidade do dom). O ídolo é como um complexo de energia psíquica cristalizada e presa numa auto-referencialidade.

Toda criatura sendo mescla de potência e ato e permanecendo sempre mescla de potência e ato deve se dirigir sempre ao máximo grau de ato que puder acolhendo o dom inteligível das hierarquias superiores e o dom da matéria que lhe é concedida das inferiores. A recusa soberba do dom, com frequência unida à acídia, gera o ídolo, uma fixação doentia numa imagem de modo a não transcendê-la para inteligíveis mais elevados. A dureza do coração que gera essa fixação tem dois componentes: um deles é um zelo distorcido, uma atividade interior intensa dirigida para o ídolo; o outro componente é a falta de flexibilidade, a ausência de mansidão para acolher plenamente o dom que é sempre vocação para a criatividade participada. O ímpio em sua ira é como fogo concentrado e preso na escuridão, sem mescla de umidade e doçura.

A matéria-prima não é causa eficiente de corrupção, só pode ser causa material. A corrupção do ser material de modo a tornar-se um ídolo é o resultado da desordem provocada por uma forma criada que se fixa em sua potencialidade ao invés de se direcionar sempre mais até a plenitude do ato. A desordem formal provocada pelo espírito maligno em si mesmo e no homem é que ocasiona a corrupção por deficiência de ato.

No processo de atingir a plenitude de seu ato cada criatura não-espiritual precisa de mais matéria-prima para se desenvolver formalmente e assim nas criaturas que não possuem subsistência espiritual a causa da corrupção se dá também pela disputa entre as formas pelas porções de matéria (que num mesmo nível hierárquico não podem ser informadas simultaneamente por mais de uma forma). Porém, essa disputa não é algo de absoluto na medida em que o ato pleno de cada criatura não-espiritual é limitado e também tendo em vista o desígnio da Providência (em especial num sentido escatológico quando vier a plenitude fora do tempo nenhuma corrupção acontecerá).

Há na obra da criação não apenas uma busca de realização que incorpora matéria mas também há na forma de cada ser material uma disposição para a comunicação de dons que se realiza muitas vezes de um modo sacrifical tendo em vista um bem maior ordenado pela Providência. Existe na matéria esse caráter de mansidão relacionado ao deixar-se assumir por uma plenitude formal mais elevada: quando não há corrupção espiritual interferindo, a matéria é como barro nas mãos do oleiro: está unida à umidade e ao calor tornando-se fértil, tornando-se húmus. E isso sem perder a sua capacidade e potência que traz limitação e definição junto ao ato que recebe, sem perder os estáveis e intrínsecos "secura e frio" que tornam a matéria capaz "de receber umidade e calor".

A criatura espiritual (ao contrário da que não possui esse tipo de subsistência) tem em si uma capacidade ilimitada (não infinita, mas ilimitada) para o ato contemplativo que lhe caracteriza. Sempre é possível à criatura espiritual se dirigir mais e mais até a fonte de sua luminosidade em processos de semelhança e simbolização icônica sempre mais perfeita. Mas essa capacidade ilimitada para a contemplação exige uma participação na atividade criativa da Sabedoria e assim, na medida em que é mansa, a criatura espiritual acolhe também o dom da mansa matéria que lhe cabe estruturar pela doação de uma participação de seu espírito (seu "sopro de vida").

A arte quando plena e não idólatra é a disposição para conhecer a matéria em suas possibilidades e para atuar na matéria transfigurando-a com uma doação e participação do espírito humano, tendo em vista a plenitude da contemplação e do amor.

Criar por meio da arte autêntica é aprender, é adquirir pela experiência um convívio com o ser, um convívio com a realidade. Para o ser humano, é possível a doação do amor que o eleva à plenitude do saber somente através de um humilde convívio com o "húmus" da matéria e de um serviço humilde de transfiguração da matéria respeitando seus diversos níveis de assunção formal (matéria que deve ser entendida aqui como qualquer nível de potência que possa ser assumida por um ato, um outro ser humano, por exemplo, pode ser sob alguns aspectos matéria para uma transfiguração efetivada pela doação no amor).

Dado o caráter infinito da fonte que é Deus apenas a doação livre e sobrenatural da mesma vida divina pode saciar de modo definitivo a capacidade ilimitada do ser espiritual criado.

Se Deus quisesse poderia ter criado o homem e os anjos sem a graça sobrenatural e sem nunca receberem a graça sobrenatural seria possível a eles um crescimento de contemplação natural ilimitado através de graças naturais ou preternaturais (desde que nunca caíssem na idolatria).

No homem após a morte, se a graça sobrenatural não estivesse nos planos da Providência, seria apenas através de graças preternaturais que o crescimento seria possível dado o fato da natureza humana estar ligada ao inteligível que se apresenta na matéria. Os anjos na medida mesmo da sua limitação criatural também necessitariam de novas idéias infusas preternaturalmente para crescer na contemplação. Entretanto, mesmo que nunca tendo recebido a vida sobrenatural da graça, se a criação tivesse sido deste modo, ainda sim haveria na capacidade ilimitada do espírito criado uma tensão para a eternidade.

Pela razão natural e observação da realidade podemos perceber um estado de queda e de limitação na nossa capacidade para a contemplação, uma queda que parece apontar para uma plenitude perdida maior que a que seria proporcionada pela natureza não elevada pelo sobrenatural. A revelação cristã aponta para aqueles que nela creem que o desejo e a capacidade ilimitada do homem para a contemplação e o amor podem ser saciados pela doação da própria vida divina mediante Cristo que é o ícone perfeito do Pai e cuja linguagem é o próprio dom do Amor em pessoa, o Espírito Vivificante.

Esse Espírito Vivificante em Cristo nos traz fogo e umidade pelo seu sopro divino e transforma assim a capacidade ilimitada do espírito humano, e também todas as limitações (ídolos) às quais ele de modo tortuoso possa ter se prendido, em húmus: em terra fértil capaz de dar fruto. O manso que se deixa amansar por esse Espírito da Paz se torna ele próprio terra habitável, posse plena e criativa de si mesmo. Cada sentimento e afeto, cada imagem e atividade da imaginação, cada pensamento deixa de ser ídolo e passa a ser ícone e matéria-prima para ícones mais perfeitos. Ainda que a mansidão plena só possa vir pela ação do Espírito divino é possível se exercitar ao máximo na busca da mansidão, na busca de um respeito ativo e afetivo pela realidade, uma piedade que se doa misericordiosamente criando formas no amor.


"A Criação" (1490s), 
de um Pintor Italiano de vitrais góticos

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