Friday, March 23, 2018

O Pe. Juan González Arintero sobre "a morte mística e a vida nova"

Excertos de GONZÁLEZ ARINTERO, Juan. Graus da oração e os principais fenômenos que os acompanham. Campinas: Ecclesiae, 2017, pp. 16-18.


A morte mística e a vida nova. A vida de Jesus Cristo, observa o Pe. Grou (Manual de ames intér.; Sur l avie nouvelle en J.C.), foi um contínuo morrer, isto é, uma morte mística cujo último ato e consumação foi a morte natural. Deste modo, a nova vida que as almas fervorosas devem levar em Jesus Cristo não é outra coisa senão um contínuo morrer a si mesmas; é morrer aos mais leves pecados e mesmo às menores imperfeições; morrer ao mundo e a todas as coisas exteriores; morrer aos sentidos e aos cuidados imoderados do corpo; morrer ao caráter e aos defeitos naturais; morrer à própria vontade, à estima e ao amor de nós mesmos, e até às consolações espirituais; morrer aos apoios e seguranças com respeito ao estado de nossa alma; enfim; é morrer a toda propriedade – ou apego – nas coisas concernentes à santidade. Por estes diversos graus de morte, a vida mística de Jesus Cristo vai se estabelecendo em nós; e quando se tenha dado o último golpe de morte, então Jesus Cristo nos ressuscita, comunicando-nos as qualidades de sua vida gloriosa, enquanto possível neste mundo. Vejamos em poucas palavras esses diversos graus de morte.

Morte aos mais leves pecados e às menores imperfeições; isto é, que a primeira resolução que deve formar uma alma que queira ser toda de Deus é o não cometer jamais advertidamente nem a menor falta...; e não negar a Deus nada que Ele peça, nem dizer: ‘Isso é pouca coisa, Deus me dispensará esta bagatela’. Esta resolução é essencial, e há que manter-se nela com fidelidade inviolável. Isto não quer dizer que não nos escapem faltas nos primeiros movimentos, de inadvertência, de fragilidade; mas estas, pelo mesmo que não são previstas nem advertidas, não bastam para nos deter no caminho da perfeição.

Morte ao mundo e a todas as coisas exteriores; isto é, que não se deve amar mais ao mundo nem o buscar; senão conceder-lhe tão somente aquilo que não se pode negar, e que Deus mesmo quer que lhe conceda; mas com o coração angustiado e sofrendo por ter ainda com ele esse trato indispensável. Não há, pois, que respeitar o mundo, nem ter em conta seus juízos, nem temer seus desprezos, burlas e perseguições, nem se envergonhar diante dele de nossos deveres e práticas evangélicas, nem as suprimir pelo que dirão...


A morte aos sentidos exige que estejamos alerta contra a tibieza, o amor às comodidades e à sensualidade; e não demos ao corpo mais do que o necessário em alimentos, sono e roupas; que o mortifiquemos com privações e ademais, se a saúde o permitir, Deus o inspirar e o confessor o aprovar, com certas penas aflitivas...

A morte ao caráter implica sua difícil reforma, de modo que conserve o que tenha de bom e se corrija o defeituoso... O meio de consegui-lo é velar sobre a guarda do coração e conter seus primeiros movimentos, não agindo nem falando segundo o primeiro impulso, senão mantendo-nos em paz e em posse de nós mesmos...

A morte à própria vontade e ao próprio juízo é um ponto muito amplo e de difícil prática. Antes de tudo, nas coisas ordinárias, há que procurar submeter o próprio gosto e a própria vontade à razão, não se deixando levar por caprichos e fantasias, respeitando o parecer de outros quando for razoável... Em nossa conduta espiritual, recebamos com simplicidade o que Deus nos oferece e estejamos como Ele nos quer, sem desejar outra coisa...; pratiquemos a obediência ao nosso diretor e reprimamos a atividade de nossa mente, mantendo-nos sempre sob a dependência de Deus e sem refletir sobre nós mesmos... Em geral, procuremos ter nossa mente e nosso coração vazios, a fim de que possa Deus pôr ali, a seu gosto, o que bem queira.

A morte à estima e ao amor a nós mesmos deve ser cada vez mais corriqueira, posto que o mais arraigado que temos é o orgulho e o amor próprio, que são nossos grandes inimigos e de Deus. Ele os combate e persegue sem tréguas em uma alma que se entregou. Ela deve deixa-Lo fazer, e mesmo ajuda-Lo, quando for a ocasião.

Morte aos consolos espirituais. Quando Deus os retira, querendo como desmamar a alma, esta não acha gosto em nada: tudo lhe pesa, tudo aborrece e cansa. Já não sente a presença de Deus, e ainda que tenha a paz, não se dá conta dela nem mesmo crê que a tem... É preciso que a alma seja generosa e aceite estas privações, acostumando-se a não buscar-se em nada, amando a Deus com puro amor e servindo-o por Si mesmo e em detrimento próprio. O serviço de Deus custa muito à natureza, que grita e se queixa... e há que deixa-la gritar e ser mais fiel que nunca, arrastando a vítima ao sacrifício, sem fazer caso das suas repugnâncias.

Morte aos apoios espirituais... Enquanto a alma, em meio a suas tentações e provações, tem algum apoio no fundo de sua consciência ou nas palavras de seu diretor..., não lhe é tão difícil suportar as maiores penas. Mas quando se encontra como que suspendida no vazio, vendo o inferno a seus pés, sem nada que a apoie e próxima a cair em cada movimento; em suma: quando se persuade de que Deus a abandonou e que se encontra perdida sem remédio, em vez de ter quem a desengane, tudo concorre para assegurá-la desta persuasão. Então são extremadas as angústias, é preciso uma coragem heroica para perseverar e submeter-se ao que Deus quer dispor para sempre dela.


Morte a toda propriedade concernente à santidade. Como a alma se havia apropriado – de certa maneira – dos dons de Deus, as virtudes com que Ele a havia enriquecido e para qual tinha tido alguma complacência em sua pureza, a despoja Deus de tudo, não enquanto a realidade, senão aparentemente, reduzindo-a a uma completa desnudez; de modo que já não veja em si nem dons, nem virtudes, nem nada sobrenatural. Não sabe ela já o que é, nem o que foi, nem o que virá a ser. Seus pecados, seu nada, sua reprovação: eis aqui o que vê em si, e do que se crê digna. Eis aí o começo da consumação da morte mística. Mas perto está a ressurreição ao estado glorioso”.



Servo de Deus Padre Arintero, O.P.

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