29.4.17

Julián Marías sobre o "problema de Deus" no Padre Gratry

Tradução de excerto de MARÍAS, Julián. A filosofia do Padre Gratry. In: MARÍAS. Obras IV. Madrid: Revista de Occidente, 1969, pp. 311-317.

O Pe. Gratry é um profundo e pouco conhecido filósofo do século XIX (mesmo no interior da Igreja; talvez em virtude da sua oposição à proclamação do dogma da Infalibilidade Pontifícia, pelo qual se desculpou posteriormente), e que foi divulgado por Julián Marías.

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"O PROBLEMA DE DEUS


1. A RELAÇÃO RADICAL DO HOMEM COM DEUS

Os supostos da demonstração de Deus.-[...] Se é possível uma prova da existência de Deus, diz [Gratry], esta terá que estar ao alcance de todos os homens, porque a luz divina ilumina a todo homem que vem a este mundo. Que quer dizer isto?

Naturalmente, não que todos os homens chegue à demonstração de Deus, senão que em todos eles se encontram seus supostos. Se há um conhecimento de Deus, esta possibilidade responde a uma dimensão essencial do homem, do mesmo modo que o conhecimento das coisas se funda em que no homem há algo que lhe faz estar com elas, ter contato com sua realidade. O conhecimento de Deus, como, em geral, todo conhecimento, é algo derivado de outra dimensão ontológica primária, na que funda sua possibilidade. É mister, pois, buscar no homem aquilo que faz possível o conhecimento e a demonstração de Deus e seus atributos. Portanto, este problema, que é o da teodiceia, não se reduz a Deus, senão que envolve o homem. Buscar os supostos da teodiceia é investigar a estrutura ontológica do ente humano; e como este aparece como dotado de um corpo -e não, adverte Gratry, de um modo acidental, senão essencialmente-, e existente em um mundo visível e corporal, a ontologia do homem nos retrotrai, por sua vez, inexoravelmente à do mundo em que se encontra. No problema da teodiceia, tomado em sua radicalidade, ou seja, desde seus supostos reais, cifra-se toda a metafísica. O conhecimento de Deus supõe, em suma, uma prévia relação do homem com Ele, não intelectual, mas anterior à inteligência e constitutiva do ente humano.

A oração.- A operação vulgar e cotidiana do espírito humano em que este se refere explicitamente a Deus é a oração. A oração é um ato integral do homem: não só, nem primariamente, intelectual, mas ao mesmo tempo da vontade, do amor, do fundo mesmo da pessoa; e, por outra parte, inclusive do corpo, como assinalou sempre a Igreja católica, ainda que Gratry não aluda a isto. Mas a oração não é tampouco o primário; é já uma referência explícita a Deus, e tem, por sua vez, supostos mais fundos: só é possível desde uma situação prévia. Gratry entende por oração, em sentido filosófico, o que diz Descartes quando afirma: 'Je sens que je sui un être borné, qui tends et qui aspire sans cesse à quelque chose de meilleur et de plus grand que je ne suis'. Isto é, movimento da alma que se eleva do finito ao infinito, e que arranca de um duplo sentido. É mister, pois, que o homem se sinta imperfeito e necessitado, em um ato de humildade. [...] Mas não basta com o mero sentir a miséria e a limitação próprias; é preciso a aspiração a aspiração a algo melhor, como diz Descartes. A raiz da oração, para Santo Agostinho, é a caridade: Caritas ipsa gemit, ipsa orat. [...] É  necessário, portanto, para que haja oração sensu stricto, um sentido de finitude e perfeição e um desejo do infinito e perfeito. Sem este duplo elemento não é possível a elevação da alma humana a Deus no ato cotidiano da oração, nem, portanto, nenhum conhecimento nem demonstração da Divindade. Já dizia Santo Agostinho: Non intratur in veritatem nisi per caritatem; ainda aqui aparece, junto ao mero desejar e tender ao melhor, uma referência à ordem sobrenatural.

A radicação do homem em Deus.- Isto é possível porque no homem se encontra um senso divino [grifo meu]. É o que define a relação primária do homem com Deus, relação que chamei radical num sentido rigoroso, porque, com efeito, consiste, como vimos, em que o ente humano tem seu fundamento e sua raiz em Deus. A alma encontra em seu mesmo fundo um contato divino, e ali reside sua força, o que a faz ser. Gratry tinha de mostrar que sempre que o homem se conheceu em seu fundo encontrou esta presença íntima de Deus [Nota minha: trata-se, acrescento eu, da presença de Deus "na última morada" (Teresa), como nossa Causa conservadora (Tomás), Fundamento religante (Zubiri), como o "mais íntimo que nós" (Agostinho), e não ainda da presença da graça, que é, como ensina Tomás, esta mesma presença descoberta e amada]. Isto é o que define, como vimos em detalhe, o ser do ente humano. Gratry resume apertadamente esta doutrina em umas linhas de La connaissance de Dieu, que importa transcrever: 'Tous les philosephes ont parlé de ce sanctuaire de l'âme, oú est Dieu, et où il la fait vivre en la tenant. Qui ne sait pas cela est en deçà de toute philosophie. Le monde nous touche par la surface. Dieu par le centre, et nous, nous sommes entre les dex, et trois mondes vivent en nous: Dieu, la nature et nous' (sublinhados de J. Marías.) [Nota ou interpretação minha: este "santuário da alma" é precisamente a "consciência moral" -e não a psicológica- como fala a Gaudium et Spes, ou a "sindéresis" clássica, e talvez se possa dizer que o senso divino é a capacidade de atender à sua voz e perceber que ela, como indica Viktor Frankl em A presença ignorada de Deus, remente à Transcendência Divina].

Deus é a raiz do homem, e este pende dele; assim aparece Deus como causa do ser, e de um modo mais preciso, como causa da vida; mas não se creia que se trata simplesmente da criação, no sentido em que Deus seria causa do ente vivo, senão de que Deus faz viver o homem, de que Deus é o princípio desde onde o homem recebe o impulso e a força para viver. Não é só que Deus tenha feito o homem -já vimos que o homem nunca está, segundo Gratry, feito em sentido rigoroso-, senão que o faz -no presente, portanto, atualmente- viver. Mas viver não é meramente ser, mas algo ativo, que faz o homem mesmo, em virtude da força que recebe do contato de Deus. Porque o modo concreto como Deus faz viver o homem é sustentando-o. Deus é, portanto, o ponto de apoio, o fundamento da vida humana. O homem é e vive desde seu centro ou raiz, que é o senso divino, apoiando-se em Deus. E esta fundamental radicação é a situação efetiva do homem, em relação com Deus, e o suposto necessário de todo ulterior conhecimento, quanto mais demonstração, da Divindade; do mesmo modo que o contato do mundo em nossa superfície, mediante o sentido externo, faz possível o saber acerca das coisas, e o sentido íntimo nos permite conhecer nossa própria pessoa e a de nosso próximo. Nesta estrutura ontológica do ente humano se funda toda possível teodiceia.


2. O ATEÍSMO

A existência do ateu.- Há um fato fundamental com o que é preciso contar: nem todos os homens possuem a crença em Deus; há os que negam a existência da Divindade, e estes são os ateus. Como é isto possível? Se a raiz mesma do homem está apoiada em Deus, se o homem é e vive por ele, como pode haver homens que neguem este fato capital e digam em seu coração: "não há Deus"? Gratry diz que a razão do ateísmo é que o homem é livre e que há homens maus. Vejamos isto.

Em primeiro lugar, que é propriamente ser ateu? Antes de tudo, carecer de senso divino, ou melhor dito, estar privado dele, porque o senso divino não é algo de que possa simplesmente carecer-se, senão que se tem ou falta, posto que é o fundo mesmo da pessoa, a raiz da alma. Agora, o que está privado do senso fundamental é um in-sensato, é um homem que não está em possessão de sua mente, senão que está doente de demência; não está em si mesmo, senão alienado. A entrada em si mesmo nos põe no fundo da alma; em contrapartida, a alienação nos afasta dele; com palavras de Santo Agostinho, intima projicere, id est longe a se facere Deum.

Ao homem privado do senso divino, diz Gratry, falta-lhe o ponto de apoio real para o conhecimento e a prova de Deus. Nem sequer pode compreender esta se lhe é exposta. Sua inteligência não pode chegar a conhecer a Deus, ainda que ela funcione normalmente, porque lhe falta o recurso que a põe em movimento para se elevar ao ente divino. O que carece do senso divino não conhece a significação do nome Deus e não compreende que é o que necessariamente é; por isto, como vimos anteriormente, o argumento de Santo Anselmo, fundado no insensato, consiste principalmente em apoiar-se no dizer sem sentido do ateu e mostrar que não se pode negar a existência de Deus se se tem a verdadeira ideia deste; em outros termos, se se está falando, com efeito, dele.

A alma desarraigada.- Mas como se chega a esta situação de insensatez? Como pode o homem negar a Deus? Para elevar-se à Divindade, a via, como vimos muitas vezes, são as coisas finitas e criadas: as perfeições de Deus se veem per ea quae facta sunt, segundo a palavra de São Paulo (Rm 1,20). Agora, o ente finito nos mostra, ao mesmo tempo, a realidade e a limitação; o ser, a vida, a bondade e também a finitude. A alma se eleva a Deus afirmando até o infinito e o ser e negando os limites; este é o procedimento dialético que nos é familiar. Mas os homens, diz Gratry, separam-se ao chegar a este ponto, e enquanto uns vão a Deus, outros se afastam dele. Uns, pelo contato de Deus com o fundo da alma, afirmam, com efeito, o infinito; os outros, tendo em vista a desordem e o mal, e sobretudo a morte, abandonam o ideal a que se tende por contraste e elegem a negação. Estas são, diz Gratry, as duas raças morais e intelectuais que se repartem no mundo. 'Il y a des esprits et des coeurs qui affirment; il y en a qui nient. Là est toute la question: Dieu ou non, oui ou non'.

Mas a causa desta eleição no fundo da pessoa é de índole moral. A raiz do ateísmo é, segundo São Paulo, a iniquidade, pela qual se tem cativa a verdade. E, como já sabia Platão e diz São João, as causas do afastamento de Deus são a sensualidade e a soberba, a dupla concupiscência da carne e dos olhos. Pela sensualidade, o homem põe o centro nas coisas externas e se afasta de Deus; é uma aversio Dei, uma inversão da verdade; mas, sobretudo, a soberba faz que se ponha o fundamento no homem mesmo, e então se extingue o senso divino e se obscurece o coração, ao mesmo tempo em que a mente se faz vã, segundo as esplêndidas expressões de São Paulo (Rm 1,20): Evanuerunt in cogitationibus suis, et obscuratum est insipiens cor eorum. Dicentes enim se esse sapientes, stulti facti sunt.

Estas almas, endeusadas -aqui está, diz Gratry, a raiz do panteísmo, em que o homem se faz Deus-, estão separadas duplamente, da fé universal e da razão comum. Apagaram o senso divino e, como este é a raiz, se convertem em almas mortas e desarraigadas, como diz Gratry, citando a São Judas: Eradicatae, bis mortuae (Jd 12). E a epístola de São Judas acrescenta outras expressões, que Gratry não recolhe, mas que deixam ainda mais claro o sentido do ateismo: Nubes sine aqua, quae a ventis circumferentur, sidera errantia... E diz por último: Et os illorum loquitur superbiam. O ateísmo, portanto, é uma essencial possibilidade humana, e um risco que ameaça sempre o homem. A alma, por ter uma raiz em Deus, pode desarraigar-se, e então se faz vã e vazia, converte-se em um astro errante, em uma nuvem arrastada pelo vento, sem substância alguma. Por isso diz Gratry que o espírito humano só escapa à vaidade apoiando-se em Deus.

Os dois modos de ateísmo.- Mas cabem duas formas muito distintas de ser ateu. Gratry usa para explicá-lo uma comparação feliz: a dos dois modos da fé, a fé viva e a fé morta. Há, igualmente, diz, um ateísmo vivo e um ateísmo morto; um ateísmo como doutrina, como convicção intelectual, e um ateísmo como princípio real da vida. Naturalmente, este é o mais grave, como a fé viva é a que verdadeiramente importa.

O ateísmo como doutrina resulta de uma enfermidade moral ou intelectual, diz Gratry; ou também, acrescenta agudamente, o ateu é às vezes um espírito perdido por 'um fragmento de ciência subitamente endurecida e que se converte em obstáculo para toda nova luz'. E agrega Gratry estas palavras, de dramática profundidade, que distinguem o ateísmo superficial do intelecto, esse ateísmo que não passa de ser stultitia, ainda que esta seja peccatum, commo diz Santo Tomás (S.Th. II-II, q.46, a.2), do outro ateísmo profundo e radical, o que reside no coração do insensato, não só em sua palavra ou suas ideias: 'Mais ce n'este pas encore l'athée dans l'âme. Celui-ci dit dans son coeur: 'Il n'y a point de Dieu.' Tout homme qui maintient la morale, lors même qu'il se déclare athée, n'est pas athée dans l'âme. Il est inconséquent, il est absurde, c'est éviden; mais ce n'est pas un monstre. L'athée dans l'âme est celui qui nie, no pas de bouche seulement, mais de coeur et de fait, la distinction du juste et de l'injuste, et qui en vient au plein mépris de l'homme, vivange image de Dieu. Celui-là est un monstre; il en existe, mais Dieu seul les connaît' (La morale et la loi de l'histoire, I, cap. XV) [Nota minha: o ateísmo doutrinal nem sempre sendo acompanhado da impiedade, poderia ser simplesmente uma atitude não arraigada no espírito, é o que pensa Gratry].


Pe. Auguste Joseph Alphonse Gratry

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