Excertos de CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em nova perspectiva:
Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996, pp. 27-49
(grifos do autor e comentários meus).
“Há embutida nas obras de Aristóteles uma
ideia medular, que escapou à percepção de quase todos os seus leitores e
comentaristas, da Antiguidade até hoje [...] [de] importância decisiva para a
compreensão da filosofia de Aristóteles. No entanto, ela é a chave mesma dessa
compreensão, se por compreensão se entende o ato de captar a unidade do
pensamento de um homem desde suas próprias intenções e valores, em vez de
julgá-lo de fora; ato que implica respeitar cuidadosamente o inexpressão e o
subentendido, em vez de sufoca-lo na idolatria do ‘texto’ coisificado, túmulo
do pensamento.
A essa ideia denomino Teoria dos Quatro Discursos. Pode ser resumida em uma frase: o
discurso humano é uma potência única, que se atualiza de quatro maneiras
diversas: a poética, a retórica, a dialética e a analítica (lógica).
[...] a Poética, a Retórica, a Dialética e
a Lógica, estudando modalidades de uma potência única, constituem também variantes de uma ciência única. A diversificação
mesma em quatro ciências subordinadas tem de assentar-se na razão da unidade do
objeto que enfocam, sob pena de falharem à regra aristotélica das divisões. E
isto significa que os princípios de cada uma delas pressupõem a existência de
princípios comuns que as subordinem, isto é, que se apliquem por igual a campos
tão diferentes entre si como a demonstração científica e a construção do enredo
trágico nas peças teatrais. Então a ideia que acabo de atribuir a Aristóteles já
começa a nos parecer estranha, surpreendente, extravagante. E as duas perguntas
que ela nos sugere de imediato são: Terá Aristóteles realmente pensado assim?
E, se pensou, pensou com razão? A questão biparte-se portanto numa investigação
histórico-filológica e numa crítica filosófica. [...]
O espanto que a ideia dos Quatro Discursos
provoca a um primeiro contato advém de um costume arraigado da nossa cultura,
de encarar a linguagem poética e a linguagem lógica ou científica como
universos separados e distantes, regidos por conjuntos de leis incomensuráveis
entre si. Desde que um decreto de Luís XIV separou em edifícios diversos as
‘Letras’ e as ‘Ciências’, o fosso entre a imaginação poética e a razão
matemática não cessou de alargar-se, até se consagrar como uma espécie de lei
constitutiva do espírito humano. [...]
[...]
Aristóteles escreveu uma Poética, uma Retórica, um livro de Dialética (os Tópicos) e dois tratados de Lógica (Analíticas I e II), além de duas obras introdutórias sobre a
linguagem e o pensamento em geral (Categorias
e Da Interpretação). [...]
Como todo editor póstumo, Andrônico [de
Rodes] teve de colocar alguma ordem nos manuscritos. Decidiu tomar como
fundamento dessa ordem o critério da divisão das ciências em introdutórias (ou lógicas), teoréticas, práticas e técnicas (ou poiêticas, como dizem alguns). Esta
divisão tinha o mérito de ser do próprio Aristóteles. [...] Faltando outras
obras que pudessem entrar sob o rótulo técnicas,
teve de meter lá a Retórica e a Poética, desligando-as das demais obras
sobre a teoria do discurso, que foram compor a unidade aparentemente fechada do
Organon, conjunto das obras lógicas
ou introdutórias.
Somada a outras circunstâncias, essa
casualidade editorial foi pródiga em consequências, que se multiplicam até
hoje. Em primeiro lugar, a Retórica – nome de uma ciência abominada pelos
filósofos, que nela viam o emblema mesmo de seus principais adversários, os
sofistas – não suscitou, desde sua primeira edição por Andrônico, o menor
interesse filosófico. Foi lida apenas nas escolas de retórica [...] Logo em
seguida, a Poética, por sua vez,
sumiu de circulação, para só reaparecer no século XVI. [...] Todo o
aristotelismo ocidental [...] ignorou por completo a Retórica e a Poética.
[...] Nossa visão da teoria aristotélica do pensamento discursivo é baseada
exclusivamente na analítica e na tópica, isto é, na lógica e na dialética,
amputadas da base que Aristóteles tinha construído para elas na poética e na
retórica.
[...] Não demorou a que o terceiro andar
fosse também suprimido: a dialética, considerada ciência menor, já que lidava
somente com a demonstração provável, foi preterida em benefício da lógica analítica,
consagrada desde a Idade Média como a chave mesma do pensamento de Aristóteles.
A imagem de um Aristóteles constituído de ‘lógica formal + sensualismo
cognitivo + teologia do Primeiro Motor Imóvel’ consolidou-se como verdade
histórica jamais contestada.
[...]
Mas essa visão é contestada por alguns
fatos. O primeiro, ressaltado por Éric Weil, é que o inventor da lógica
analítica jamais se utiliza dela em seus tratados, preferindo sempre argumentar
dialeticamente. Em segundo lugar, o próprio Aristóteles insiste em que a lógica
não traz conhecimento, mas serve apenas para facilitar a verificação dos
conhecimentos já adquiridos, confrontando-os com os princípios que os
fundamentam, para ver se não os contradizem. Quando não possuímos os
princípios, a única maneira de busca-los é a investigação dialética que, pelo
confronto das hipóteses contraditórias, leva a uma espécie de iluminação
intuitiva que põe em evidência esses princípios. A dialética em Aristóteles é,
portanto, segundo Weil, uma logica
inventionis, ou lógica da descoberta: o verdadeiro método científico, do
qual a lógica formal é apenas um complemento e um meio de verificação.
[...] Como ciências do discurso, a Poética
e a Retórica fazem parte do Organon,
conjunto das obras lógicas ou introdutórias, e não são portanto nem teoréticas
nem práticas nem técnicas. Este é o núcleo da interpretação que defendo. [...]
Reclassificar as obras de um grande filósofo pode parecer um inocente
empreendimento de eruditos, mas é como mudar de lugar os pilares de um
edifício. Pode exigir a demolição de muitas construções em torno.
As razões que alego para justificar essa
mudança são as seguintes:
1.As quatro ciências do discurso tratam de
quatro maneiras pelas quais o homem pode, pela palavra, influenciar a mente de
outro homem (ou a sua própria). As quatro modalidades de discurso
caracterizam-se por seus respectivos níveis
de credibilidade:
(a)O discurso poético versa sobre o possível (dínatos) , dirigindo-se sobretudo à imaginação, que capta aquilo
que ela mesma presume (eikástilos,
‘presumível’; eikasia, ‘imagem’,
‘representação’).
(b) O discurso retórico tem por objeto o verossímil (pithános) e por meta a produção de uma crença firme (pístis) que
supõe, para além da mera presunção imaginativa, a anuência da vontade; e o homem influencia a vontade
de um outro homem por meio da persuasão (peitho),
que é uma ação psicológica fundada nas crenças comuns. Se a poesia tinha como
resultado uma impressão, o discurso
retórico deve produzir uma decisão,
mostrando que ela é a mais adequada ou conveniente dentro de um determinado
quadro de crenças admitidas.
(c) O discurso dialético já não se limita
a sugerir ou impor uma crença, mas submete as crenças à prova, mediante ensaios
e tentativas de traspassá-las por objeções. É o pensamento que vai e vem, por
vias transversas, buscando a verdade entre os erros e o erro entre as verdades
(diá = ‘através de’ e indica também
duplicidade, divisão). Por isto a dialética é também chamada peirástica, da raiz peirá (‘prova’, ‘experiência’, de onde vêm peirasmos, ‘tentação’, e as nossas palavras empiria, empirismo, experiência, etc., mas também, através
de peirates, ‘pirata’: o símbolo
mesmo da vida aventureira, da viagem sem rumo predeterminado). O discurso
dialético mede enfim, por ensaios e erros, a probabilidade maior ou menor de uma crença ou tese, não segundo sua
mera concordância com as crenças comuns, mas segundo as exigências superiores
da racionalidade e da informação acurada.
(d) O discurso lógico ou analítico,
finalmente, partindo sempre de premissas admitidas como indiscutivelmente
certas, chega, pelo encadeamento silogístico, à demonstração certa (apodêixis,
‘prova indestrutível’) da veracidade das conclusões.
[Comentário:
cada discurso corresponde a uma “modulação” da “inteligência senciente”
zubiriana: a) a “apreensão primordial de realidade”, que capta a “verdade real”
da coisa sensível, isto é, seu caráter real embebido nas qualidades sensíveis –
que para Zubiri representam “modos de apresentação da realidade”, por exemplo,
a “forma” visual ou a “notícia” auditiva, entre outras –, como fonte de possibilidades para a vida humana, a
serem apropriadas intelectual e volitivamente; b) o “logos senciente” –Zubiri distingue logos e ratio–, que
realiza as “simples apreensões” dos “perceptos, fictos e conceitos”, ou seja,
dos “istos, comos e quês” para afirmar o que a coisa real “seria” no “campo de
realidade”, isto é, “entre as demais coisas reais apreendidas”, tratando-se,
portanto, de definições ou “essências” provisórias, para o uso linguístico
pragmático (“crenças” verossímeis); d) a “razão senciente”, que é “metódica”,
ou seja, “dialética”, formando a partir e através dos conceitos ou definições
nominais comumente aceitos um “sistema de referência” a partir do qual se cria
um “esboço” teórico a ser testado numa “experiência” ou “provação da realidade”;
esta vai muito além do “experimento científico”, incluindo, por exemplo, a
“comprovação” matemática, a “compenetração” interpessoal – da amizade, da
atividade do psicólogo ou da vida religiosa, por exemplo –, ou a “conformação”
consigo mesmo do autoconhecimento – do discernimento vocacional, por exemplo;
d) o “entendimento”, ponto terminal da “razão” que atinge a verdade racional,
em que a inteligência senciente modulada como “entendimento” pode então “compreender”
a verdade real, apreendida e enriquecida pelo processo discursivo da mente, em
sua posição no sistema real – e não meramente conceitual ou lógico – do mundo.
Perceba-se a ressonância, nestas modulações da inteligência, e mesmo nos termos
e conceitos zubirianos – mais adiante ficará mais claro o paralelismo do
entendimento compreensivo e da analítica –, dos discursos aristotélicos segundo
a interpretação do Olavo de Carvalho.]
É visível que há aí uma escala de credibilidade crescente: do
possível subimos ao verossímil, deste para o provável e finalmente para o certo
ou verdadeiro. [...]
Possibilidade,
verossimilhança, probabilidade razoável e certeza
apodíctica são, pois, os conceitos-chave sobre os quais se erguem as quatro
ciências respectivas: a Poética estuda os meios pelos quais o discurso poético
abre à imaginação o reino do possível; a Retórica, os meios pelos quais o
discurso retórico induz a vontade do ouvinte a admitir uma crença; a Dialética,
aqueles pelos quais o discurso dialético averigua a razoabilidade das crenças
admitidas, e, finalmente, a Lógica ou Analítica estuda os meios de demonstração
apodíctica, ou certeza científica. [...] O homem discursa para abrir a
imaginação à imensidade do possível, para tomar alguma resolução prática, para
examinar criticamente a base das crenças que fundamentam suas resoluções, ou
para explorar as consequências e prolongamentos de juízos já admitidos como
absolutamente verdadeiros, construindo com eles o edifício do saber científico.
[...]
2. Mas Aristóteles vai mais longe: ele
assinala a diferente disposição psicológica correspondente ao ouvinte de cada
um dos quatro discursos, e as quatro disposições formam também, da maneira mais
patente, uma gradação:
(a)Ao ouvinte do discurso poético cabe
afrouxar sua exigência de verossimilhança, admitindo que ‘não é verossímil que
tudo sempre aconteça de maneira verossímil’, para captar a verdade universal
que pode estar sugerida mesmo por uma narrativa aparentemente inverossímil. [...]
Admitindo um critério de verossimilhança mais flexível, o leitor (ou
espectador) admite que as desventuras do herói trágico poderiam ter acontecido
a ele mesmo ou a qualquer outro homem, ou seja, são possibilidades humanas
permanentes.
[Comentário:
na apreensão primordial de realidade captamos o que Zubiri chama a
“formalidade de realidade” – ou o próprio “ato de ser”, em termos tomasianos –
das coisas sensíveis; mas esta apreensão é geralmente elidida em nossa prática
intelectual e discursiva ordinária, tão acostumados estamos aos conceitos à mão;
ou seja, já não nos “admiramos” – a “admiração” inicia o filosofar, segundo o
Estagirita – do ser ou do real, mas apenas lidamos pragmaticamente com coisas
empíricas e conceitos linguísticos; o discurso poético como que nos “obriga” a
essa atitude admirativa ou contemplativa, forçando-nos à abertura às diversas
possibilidades da realidade e da vida humana, como bem salienta o Olavo; a
poesia impõe-nos a “impressão da realidade” que constitui a essência da inteligência,
no dizer de Zubiri; ela nos tira do palavrório e nos reconduz à admiração e ao
sentir intelectivo.]
(b) Na retórica antiga, o ouvinte é
chamado juiz, porque dele se espera
uma decisão, um voto, uma sentença. [...] Ele é, portanto, consultado como
autoridade: tem o poder de decidir. Se no ouvinte do discurso poético era
importante que a imaginação tomasse as rédeas da mente, para levá-la ao mundo
do possível num voo do qual não se esperava que decorresse consequência prática
imediata, aqui é a vontade que ouve e
julga o discurso, para, decidindo, criar uma situação no reino dos fatos.
[Comentário:
o logos senciente é a modulação
da inteligência que, como diz Zubiri, forma e afirma, com certa liberdade e
criatividade – daí o papel da vontade –
os conceitos do real; é o âmbito dos juízos
acerca da realidade. Descartes dizia unilateralmente que o juízo era “ato da
vontade”; na realidade, é um ato intelectual no qual cabe à vontade um papel
que ela não tem na apreensão primordial de realidade ou no discurso poético
correspondente, em que a realidade nos “chama à atenção” para ser admirada ou
contemplada em sua novidade e irrupção na vida – na vida da inteligência e na
inteira vida humana, também volitiva e sentimental –, enquanto fonte de
possibilidades; este papel da vontade é exercido tanto na formação de conceitos
e afirmações, como salienta Zubiri, como na aceitação dos conceitos e
afirmações alheios como verdadeiros – é o enfoque correlato de Aristóteles,
segundo o Olavo –, ao menos num nível pragmático da ação humana mais imediata
ou cotidiana, aquém de qualquer investigação de índole estritamente científica
ou racional, isto é, aquém do estudo dos fundamentos, porquês, razões ou causas
do que já passou da possibilidade à verossimilhança.]
(c) Já o ouvinte do discurso dialético é,
interiormente ao menos, um participante do processo dialético. Este não visa a
uma decisão imediata, mas a uma aproximação da verdade, aproximação que pode
ser lenta, progressiva, difícil, tortuosa, e nem sempre chega a resultados
satisfatórios. Neste ouvinte, o impulso de decidir deve ser adiado
indefinidamente, reprimido mesmo: o dialético não deseja persuadir, como o
retórico, mas chegar a uma conclusão que idealmente deva ser admitida como
razoável por ambas as partes contendoras. Para tanto, ele tem de refrear o
desejo de vencer, dispondo-se humildemente a mudar de opinião se os argumentos
do adversário forem mais razoáveis. O dialético não defende um partido, mas
investiga uma hipótese. Ora, esta investigação só é possível quando ambos os
participantes do diálogo conhecem e admitem os princípios básicos com
fundamento nos quais a questão será julgada, e quando ambos concordam em
ater-se honestamente às regras da demonstração dialética. A atitude, aqui, é de
isenção e, se preciso, de resignação autocrítica. Aristóteles adverte
expressamente os discípulos de que não se aventurem a terçar argumentos
dialéticos com quem desconheça os princípios da ciência: seria expor-se a
objeções de mera retórica, prostituindo a filosofia.
[Comentário:
segundo Zubiri, o conhecimento humano é um processo de adequação; nossas
razões nunca atingem as razões últimas da realidade; isto não significa
ausência de verdade, mas a impossibilidade de nos certificarmos de que nossas
razões são as últimas e absolutas, porque a intelecção do que a realidade
profunda “poderia ser” é sempre aberta a ulteriores aprofundamentos e
correções. O discurso dialético é efetivamente o verdadeiro método científico,
que está conformado, segundo Zubiri, pelo momento da transformação dos
conceitos campais em “sistema de referência”, pelo “esboço” e pela
“experiência/prova” da hipótese. Aqui a liberdade se expressa, como enfatiza
Olavo, também na aceitação do erro e do fracasso de uma hipótese, na humildade
de se deixar corrigir pelos fatos e por hipóteses alheias melhores, isto é,
mais explicativas dos fatos do “campo de realidade” que são comumente aceitos
como verdadeiros pelos contendedores.]
(d) Finalmente, no plano da lógica
analítica, não há mais discussão: há apenas a demonstração linear de uma
conclusão que, partindo de premissas admitidas como absolutamente verídicas e
procedendo rigorosamente pela dedução silogística, não tem como deixar de ser
certa. O discurso analítico é o monólogo do mestre: ao discípulo cabe apenas
receber e admitir a verdade. Caso falhe a demonstração, o assunto volta à
discussão dialética.
[Comentário:
o “entendimento” – em Santo Agostinho seria o intelecto ou a inteligência propriamente
dita – apenas verifica como a verdade racional atingida dá conta do fato
fenomenológico ou verdade real da qual se partiu, isto é, como ela compreende
os fatos observáveis em princípio por todos em suas razões profundas, bem como antecipa
novos fatos compreendidos nos fundamentos ou princípios alcançados.]
[...] Da ilimitada abertura do mundo das
possibilidades passamos à esfera mais restrita das crenças realmente aceitas na
práxis coletiva; porém, da massa das
crenças subscritas pelo senso comum, só umas poucas sobrevivem aos rigores da
triagem dialética; e, destas, menos ainda são as que podem ser admitidas pela
ciência como absolutamente certas e funcionar, no fim, como premissas de
raciocínios cientificamente válidos. A esfera própria de cada uma das quatro
ciências é portanto delimitada pela contiguidade da antecedente e da
subsequente. Dispostas em círculos concêntricos, elas formam o mapeamento
completo das comunicações entre os homens civilizados, a esfera do saber
racional possível.
3. [...] Para Aristóteles, o conhecimento
começa pelos dados dos sentidos. Estes são transferidos à memória, imaginação
ou fantasia, que os agrupa em imagens (eikoi,
em latim species, speciei), segundo suas semelhanças. É
sobre estas imagens retidas e organizadas na fantasia, e não diretamente sobre
os dados dos sentidos, que a inteligência exerce a triagem e reorganização com
base nas quais criará os esquemas eidéticos ou conceitos abstratos das
espécies, com os quais poderá enfim construir os juízos e raciocínios. Dos
sentidos ao raciocínio abstrato, há uma dupla ponte a ser atravessada: a
fantasia e a chamada simples apreensão,
que capta as noções isoladas. Não existe salto: sem a intermediação da fantasia
e da simples apreensão, não se chega ao estrato superior da racionalidade
científica. Há uma perfeita homologia estrutural entre esta descrição
aristotélica do processo cognitivo e a Teoria dos Quatro Discursos. [...]
[...] Nessa filosofia, a razão científica
surge como o fruto supremo de uma árvore que tem como raiz a imaginação
poética, plantada no solo da natureza sensível. E como a natureza sensível não
é para Aristóteles apenas uma ‘exterioridade’ irracional e hostil, mas a
expressão materializada do Logos divino,
a cultura, elevando-se do solo mitopoético até os cumes do conhecimento
científico, surge aí como a tradução humanizada dessa Razão divina, espelhada
em miniatura na autoconsciência do filósofo. [...] O cume da reflexão
filosófica, que coroa o edifício da cultura, é, com efeito, gnosis gnoseos, o conhecimento do
conhecimento. Ora, este se perfaz tão somente no instante em que a reflexão
abarca recapitulativamente a sua trajetória completa, isto é, no momento em
que, tendo alcançado a esfera da razão científica, ela compreende a unidade dos
quatro discursos através dos quais se elevou progressivamente até esse ponto.
Aí ela está preparada para passar da ciência ou filosofia à sabedoria, para
ingressar na Metafísica, que Aristóteles, como bem frisou Pierre Aubenque,
prepara mas não realiza por completo, já que o reino dela não é deste mundo. A
Teoria dos Quatro Discursos é, nesse
sentido, o começo e o término da filosofia de Aristóteles. Para além dela,
não há mais saber propriamente dito: há somente a ‘ciência que se busca’, a
aspiração do conhecimento supremo, da sophia
cuja posse assinalaria ao mesmo tempo a realização e o fim da filosofia”.
[Comentário:
quero chamar a atenção apenas para duas coisas: primeiro, finalmente
aparece a palavra “compreende”, para ilustrar melhor o paralelismo entre a
analítica aristotélica – segundo a interpretação do Olavo – e o “entendimento”
ou “compreensão” zubiriana; depois, a unidade dos quatro discursos é a unidade
da inteligência senciente, que percorre na e pela realidade apreendida e
afirmada o caminho dialético que chegará à realidade compreendida profunda ou
cientificamente. Em síntese: a tese do Olavo é efetivamente brilhante. Por fim, tanto para Aristóteles como
para Zubiri, a Razão de todas as razões ou o Fundamento de todos os fundamentos
é o Ser Divino – “Motor Imóvel” ou “Realidade Absolutamente Absoluta” –, que só
podemos conhecer por espelho nesta terra, à espera da glória em que o Logos
divino santificará definitivamente todos os esforços por compreender e viver a
Verdade.]

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