Não é bom que o homem esteja só (Gn 2,18). Homem e mulher ele os criou (Gn 1,27)
Traduzo aqui alguns excertos do capítulo "La condición sexuada" de MARÍAS, Julián. Antropología metafísica. Madrid: Alianza Editorial, 2000 (1a edição de 1970), pp. 120-127 (provavelmente o melhor livro de antropologia filosófica já escrito):
"Quando nasce um novo humano, o pai, a vizinha, a comadre ou o obstetra olham para ele e dizem: 'Um menino' ou 'Uma menina'. Mas antes, a mãe, as tias ou as avós haviam estado preparando roupa, azul ou rosa, segundo se esperasse -ou se desejasse- um varão ou uma mulher [...]. O que examina o recém nascido, proclama sua condição de menino ou menina depois de haver olhado seu corpo, concretamente seus órgãos genitais; mas esse recém nascido é esperado por uma determinação social: vai ser vestido de azul ou de rosa, vai ser 'interpretado', desenvolvido, educado segundo essa condição que parecia meramente corporal e biológica. Aí está, se não me engano, a chave de todo o problema.
A evidente significação corpórea do sexo, a existência do que se chama um 'aparato genital', a presença do sexo no mundo animal e inclusive no vegetal, sua associação com o mecanismo da reprodução, tudo isto polarizou em uma direção enormemente importante, mas particular, essa dimensão que chamamos, não sem ambiguidade, sexo. Há outra, revelada nesse mínimo detalhe social, que podemos chamar sua interpretação pessoal e projetiva. [...]
Há muitos anos venho utilizando uma distinção linguística do espanhol [também presente no português], que me parece preciosa: os dois adjetivos 'sexual' e 'sexuado'. A atividade sexual é uma reduzida província de nossa vida, muito importante mas limitada, que não começa com nosso nascimento e sói terminar antes de nossa morte, fundada na condição sexuada da vida humana em geral, que afeta à integridade dela, em todo tempo e em todas as suas dimensões.
Tão logo como se pensa um instante se adverte que isso que se chama 'o homem' não existe. A vida humana aparece realizada em duas formas profundamente distintas, mas desde logo duas realidades somáticas e psicofísicas bem diferentes: varões e mulheres [...]
O homem se realiza disjuntivamente: varão ou mulher. Não se trata, de modo algum, de uma divisão, senão de uma disjunção. Eu posso dividir bolas brancas e bolas negras em dois montões diferentes; esta divisão separa as bolas, fá-las independentes umas das outras: de um lado há bolas brancas, do outro bolas negras e nada mais: nas brancas não há negrura nem referência à negrura, nas negras nada de brancura. Agora, a disjunção não divide nem separa, mas ao contrário, vincula: nos termos da disjunção está presente a disjunção mesma, quero dizer em cada um deles; ou seja, que a disjunção constitui os dois termos disjuntivos.
[...] A condição sexuada, longe de ser uma divisão ou separação em duas metades, que cindisse meia humanidade da outra metade, refere uma à outra, faz que a vida consista em situar-se cada fração da humanidade diante da outra (e digo fração porque a sexualidade 'rompe' a totalidade humana em duas partes que se reclamam, cada uma das quais apresenta sua linha de fratura ou, o que é igual, sua intrínseca insuficiência).
A condição sexuada introduz algo assim como um 'campo magnético' na convivência [...]; a vida humana em plural não é já 'coexistência' inerte, senão convivência dinâmica, com uma configuração ativa; é intrinsecamente, por sua própria condição, projeto, empresa, já pelo fato de estar cada sexo orientado para o outro.
O homem e a mulher, instalados cada qual em seu sexo respectivo -literalmente respectivo, porque cada um o é a respeito do outro, cada um consiste em 'mirar' (respicere) o outro-, vivem a realidade inteira desde o mesmo. Esta instalação é prévia a todo comportamento sexual. É a forma de sensibilidade ou 'transparência' que afeta a essa forma de realidade que é a disjunção ou tensão sexuada, suposto de toda atividade sexual, como o sens ou sensibilidade em geral é o suposto de todo conhecimento. É o âmbito em que se originam comportamentos sexuais ou assexuais, mas, nunca 'assexuados', porque estes não existem. A condição sexuada, por ser uma instalação, penetra, impregna e abarca a vida íntegra, que é vivida sem exceção desde a disjunção em varão e mulher [...].
Quase toda a interpretação filosófica e ainda psicológica do homem, até há coisa de um século, havia omitido quase inteiramente esse fato fundamental da condição sexuada, provavelmente por falta de conceitos adequados para ver qual é seu lugar na realidade e, portanto, seu lugar teórico; enquanto a sexualidade é um fenômeno claro no âmbito da anatomia e a fisiologia, ou seja, biologicamente, na media em que o homem é um animal -ou redutível ao animal-, biograficamente se escapava. [...] Quando, a fins do século XIX, e por obra principal de Freud, o sexo adquiriu carta de cidadania na compreensão do homem, o naturalismo da filosofia que servia de suposto à interpretação freudiana do homem e da teoria da psicanálise turvou o descomunal acerto, absolutamente genial, de por o sexo no centro da antropologia. O erro concomitante foi o que poderíamos chamar a interpretação 'sexual' (e não sexuada) do sexo, o tomar a parte pelo todo, o reduzir a dados a realidade dramática e e vindoura da pessoa [...] Quando se fala de 'sexualidade infantil' sentimos um impulso de repugnância, e se se faz demasiado seriamente, parece-nos bastante cômico; mas nada disto ocorreria se se falasse da condição sexuada da criança, porque esta é evidente desde os primeiros meses, praticamente desde o nascimento, e toda a vida infantil está determinada por ela: o menino e a menina, ainda na medida, muito grande, em que são todavia assexuais, são já inequivocamente sexuados.
Talvez se objete contra esta doutrina da disjunção sexuada a existência do que se chama 'estados intersexuais'; ainda à parte deles, observa-se que ninguém é íntegra e exclusivamente varão, advertem-se componentes de cada sexo no oposto, ao menos em certas fases da trajetória vital. Creio que precisamente isto confirma a interpretação do sexo como instalação na realidade; por sê-lo, não é só um fato biológico, senão psíquico e social, e com uma significação biográfica. O meramente biológico são simplesmente os recursos ou condicionantes da vida sexuada; suas anormalidades podem afetar a condição sexuada, a instalação como varão ou mulher, mas isto depende de seu conteúdo concreto, de sua data e de como são vividas, ou seja, interpretadas pela pessoa afetada; ou seja, de sua significação biográfica. Ao revés, sem anormalidade biológica, a instalação biográfica pode ser 'anormal' -isto seria só um caso particular da 'anormalidade biográfica' em geral, que não é forçosamente mental ou psíquica ou psicossomática.
[...] Ser varão não quer dizer outra coisa que estar referido à mulher, e ser mulher estar referida ao varão [...]".
A condição sexuada introduz algo assim como um 'campo magnético' na convivência [...]; a vida humana em plural não é já 'coexistência' inerte, senão convivência dinâmica, com uma configuração ativa; é intrinsecamente, por sua própria condição, projeto, empresa, já pelo fato de estar cada sexo orientado para o outro.
O homem e a mulher, instalados cada qual em seu sexo respectivo -literalmente respectivo, porque cada um o é a respeito do outro, cada um consiste em 'mirar' (respicere) o outro-, vivem a realidade inteira desde o mesmo. Esta instalação é prévia a todo comportamento sexual. É a forma de sensibilidade ou 'transparência' que afeta a essa forma de realidade que é a disjunção ou tensão sexuada, suposto de toda atividade sexual, como o sens ou sensibilidade em geral é o suposto de todo conhecimento. É o âmbito em que se originam comportamentos sexuais ou assexuais, mas, nunca 'assexuados', porque estes não existem. A condição sexuada, por ser uma instalação, penetra, impregna e abarca a vida íntegra, que é vivida sem exceção desde a disjunção em varão e mulher [...].
Quase toda a interpretação filosófica e ainda psicológica do homem, até há coisa de um século, havia omitido quase inteiramente esse fato fundamental da condição sexuada, provavelmente por falta de conceitos adequados para ver qual é seu lugar na realidade e, portanto, seu lugar teórico; enquanto a sexualidade é um fenômeno claro no âmbito da anatomia e a fisiologia, ou seja, biologicamente, na media em que o homem é um animal -ou redutível ao animal-, biograficamente se escapava. [...] Quando, a fins do século XIX, e por obra principal de Freud, o sexo adquiriu carta de cidadania na compreensão do homem, o naturalismo da filosofia que servia de suposto à interpretação freudiana do homem e da teoria da psicanálise turvou o descomunal acerto, absolutamente genial, de por o sexo no centro da antropologia. O erro concomitante foi o que poderíamos chamar a interpretação 'sexual' (e não sexuada) do sexo, o tomar a parte pelo todo, o reduzir a dados a realidade dramática e e vindoura da pessoa [...] Quando se fala de 'sexualidade infantil' sentimos um impulso de repugnância, e se se faz demasiado seriamente, parece-nos bastante cômico; mas nada disto ocorreria se se falasse da condição sexuada da criança, porque esta é evidente desde os primeiros meses, praticamente desde o nascimento, e toda a vida infantil está determinada por ela: o menino e a menina, ainda na medida, muito grande, em que são todavia assexuais, são já inequivocamente sexuados.
Talvez se objete contra esta doutrina da disjunção sexuada a existência do que se chama 'estados intersexuais'; ainda à parte deles, observa-se que ninguém é íntegra e exclusivamente varão, advertem-se componentes de cada sexo no oposto, ao menos em certas fases da trajetória vital. Creio que precisamente isto confirma a interpretação do sexo como instalação na realidade; por sê-lo, não é só um fato biológico, senão psíquico e social, e com uma significação biográfica. O meramente biológico são simplesmente os recursos ou condicionantes da vida sexuada; suas anormalidades podem afetar a condição sexuada, a instalação como varão ou mulher, mas isto depende de seu conteúdo concreto, de sua data e de como são vividas, ou seja, interpretadas pela pessoa afetada; ou seja, de sua significação biográfica. Ao revés, sem anormalidade biológica, a instalação biográfica pode ser 'anormal' -isto seria só um caso particular da 'anormalidade biográfica' em geral, que não é forçosamente mental ou psíquica ou psicossomática.
[...] Ser varão não quer dizer outra coisa que estar referido à mulher, e ser mulher estar referida ao varão [...]".
"Criação de Eva" (1509-10), de Michelangelo Buonarroti

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