Friday, October 14, 2016

A última entrevista do papa

Muitas pessoas não católicas e inclusive católicas têm uma ideia errada da infalibilidade papal, como se tudo o que um papa dissesse, em quaisquer contextos, fosse uma revelação divina. 

Não é assim. No caso da infalibilidade, o Concílio Vaticano I, ao proclamar o dogma, elencou os critérios necessários para que as declarações papais sejam infalíveis, isto é, reflitam a fé apostólica da Igreja, e não apenas a opinião teológica pessoal do indivíduo que ocupa a Sé de Pedro (o papa não é infalível em nome próprio, ou por causa de uma suposta maior participação no dom da sabedoria; quando necessário, o Espírito o dirige e ilumina para que ele recolha e defina o autêntico ensinamento eclesial presente nas doutrinas dos Padres, doutores, santos, sucessores dos apóstolos, teólogos).

No caso do ensinamento não extraordinário, é de se esperar que as intervenções papais reflitam, de modo geral, a sabedoria bimilenar da Igreja. Mas não é impossível que ocorram equívocos, quando o papa inova e não repete, desdobra ou explicita o ensinado constantemente. Neste caso, a autoridade dirimente residirá em fundadas razões teológicas (iluminadas pela fé), independentemente de onde venham, e não no recurso ao status eclesiástico. Como já indicava João Escoto Eriúgena em seu tempo, a autoridade dos Padres da Igreja estava menos na sua antiguidade que na consistência de suas razões (não o cito, contraditoriamente, por causa de sua autoridade filosófico-teológica, mas por causa da auto-evidência do princípio que ele enuncia).

Na última entrevista de Francisco (cf. Entrevista do papa no regresso da Geórgia e do Azerbaijão), ele insinuou a salvação de Judas e relativizou a questão moral da transexualidade (e também a da "opção sexual", como se esta e a mudança de sexo estivessem no mesmo nível da mera "tendência" homossexual na doutrina moral católica). Seguem os trechos, e breves comentários:
A mí me gusta contar  –  no sé si lo he dicho, ¿eh?, porque lo repito mucho – que en la Iglesia de Santa María Magdalena en Vézelay –  ¿lo he dicho o no? –   hay un capitel hermoso, del 1200 más o menos.

Los medievales hacían la catequesis con las esculturas de las catedrales. En una parte del capitel está Judas, ahorcado, con la lengua afuera, los ojos afuera, y en la otra parte del capitel está Jesús, el Buen Pastor que lo toma y se lo lleva con él. Y si vemos bien la cara de Jesús, los labios de Jesús por una parte están tristes, pero por otra tienen una pequeña sonrisa de complicidad. ¡Ellos habían entendido qué cosa es la Misericordia! Con Judas ¡eh!
É certo que existem teólogos famosos e importantes, como Hans Urs von Balthasar, que expressaram o desejo de que o inferno estivesse vazio, ou outros, como Andrés Torres Queiruga, que fazem uma peculiar interpretação do significado da "perdição" (para o teólogo galego, "ninguém se perde, mas tão somente as possibilidades reais que não chegaram a se concretizar por causa dos pecados são condenadas no inferno"...). Ainda que isto seja falso, sempre se poderia dizer, num caso concreto em que não se pode afirmar a salvação de alguém, por exemplo, no caso do apóstolo traidor, que "Ou Judas está no inferno ou se salvou". Esta disjunção seria sempre logicamente verdadeira, mas a insinuação de sua salvação, a partir do momento em que a Sagrada Escritura e a Tradição não deixam margem para se pensar no arrependimento, não favorece a fé, uma vez que leva a imaginar que a misericórdia virá em qualquer caso, de modo que a luta pela santidade não pareceria um mister. 

“El año pasado recibí una carta de un español que me contaba su historia de niño y de joven. Era una niña, una niña que había sufrido mucho, porque él se sentía chico, pero físicamente era una chica. Se lo contó a su mamá -ya de 22 años- le dijo que quería hacer una operación quirúrgica y todas estas cosas. Y la mamá le pidió que no lo hiciera mientras ella estuviera viva. Era anciana, y murió poco después. Se hizo la operación, es empleado en un ministerio de una ciudad de España”.
 “Fue a ver al Obispo: el Obispo lo ha acompañado tanto. Un buen Obispo: “perdía” tiempo - perdía entre comillas - para acompañar a este hombre. Y después se casó; cambió su identidad civil, se casó y me escribió una carta que para él habría sido un consuelo venir con su esposa: él, que era ella, pero es él. Y los recibí. Estaban contentos. [...]
La vida es la vida, y hay que tomar las cosas como vienen. El pecado es el pecado. Las tendencias o los desequilibrios hormonales dan muchos problemas y debemos estar muy atentos a no decir: “Todo es lo mismo, hagamos fiesta”. No, esto no”.
 Cada caso hay que acogerlo, acompañarlo, estudiarlo, discernir e integrarlo. Esto es lo que haría Jesús hoy. Por favor, no digan: “¡El Papa santificará a los trans!”. Por favor ¿eh? Porque ya estoy viendo las primeras páginas de los diarios. No, no. ¿Hay alguna duda en lo que he dicho? Quiero ser claro. Es un problema moral. Es un problema. Es un problema humano. Y se debe resolver como se puede, siempre con la misericordia de Dios, con la verdad, como hemos hablando en el caso del matrimonio, leyendo toda la [Exhortación apostólica] Amoris Laetitia, pero siempre así, pero siempre con el corazón abierto. Y no olviden ese capitel de Vézelay: es muy lindo. Muy lindo”. 

Mesmo com o desejo de clareza manifesto pelo Santo Padre, sua opinião sobre a transexualidade não é clara, e talvez seja simplesmente errada. Qual é o problema moral? Qual é o problema humano?  Qual a verdade sobre a transexualidade, do ponto de vista cristão? A "ciência" esclarece a questão ?! O que Jesus efetivamente diria e faria?

Evidentemente, ninguém, a não ser outro papa, pode julgar um papa do ponto de vista canônico (assim como não pode julgar moralmente as intenções de qualquer pessoa, e não só do bispo de Roma), mas a inteligência da fé não é um privilégio do pontífice e nem sequer apenas dos pastores ou dos teólogos profissionais, pois a doutrina não é uma sorte de gnose fora do alcance do fiel leigo estudioso.


PS: haveria outras questões, como, por exemplo, o entendimento de que um pontífice deveria dizer que a "paz" se alcança pelos tribunais internacionais e não por Aquele que é "nossa Paz" (Ef 2,14), mas essa diplomacia é mais compreensível neste tema, ao passo que as perspectivas mencionadas acima são evidentemente (muito) problemáticas e merecedoras de uma crítica respeitosa.

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