Excertos de REALE, Giovanni. “Prefácio” de História da Filosofia Grega e Romana I: Pré-Socráticos e orfismo. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2012, pp. 1-3 (grifos do original).
“Vivemos num momento em que se inseriu na crise da filosofia uma espécie de filosofia da crise da filosofia, vale dizer, uma filosofia que teoriza o fim da filosofia. E à crise da filosofia junto-se a crise da teologia, esta também agora, em algumas de suas frentes mais avançadas, tão persuadida da crise dos valores filosóficos, que chega a não considerar como válido tudo quanto o pensamento cristão, ao se estruturar, extraiu da filosofia, particularmente, da filosofia antiga. Assim compreende-se que dessas correntes se proclame em alta voz a necessidade da des-helenização do cristianismo, como se o cristianismo, ao subsumir determinadas categorias especulativas da filosofia clássica, tenha-se tornado seu prisioneiro, a ponto de desnaturar, vindo a se tornar, de algum modo, ele mesmo helênico.
“Vivemos num momento em que se inseriu na crise da filosofia uma espécie de filosofia da crise da filosofia, vale dizer, uma filosofia que teoriza o fim da filosofia. E à crise da filosofia junto-se a crise da teologia, esta também agora, em algumas de suas frentes mais avançadas, tão persuadida da crise dos valores filosóficos, que chega a não considerar como válido tudo quanto o pensamento cristão, ao se estruturar, extraiu da filosofia, particularmente, da filosofia antiga. Assim compreende-se que dessas correntes se proclame em alta voz a necessidade da des-helenização do cristianismo, como se o cristianismo, ao subsumir determinadas categorias especulativas da filosofia clássica, tenha-se tornado seu prisioneiro, a ponto de desnaturar, vindo a se tornar, de algum modo, ele mesmo helênico.
Pois bem, em todas essas tendências se esconde, na realidade, um autêntico
enfraquecimento do sentido e do alcance da dimensão especulativa, isto é, da
dimensão mais propriamente filosófica: teoriza-se o fim da filosofia porque se
está perdendo o sentido da filosofia. A mentalidade técnico-científica
habituou-nos a crer que só é válido o que é verificável, acertável, controlável
pela experiência e pelo cálculo e o que é fecundo de resultados tangíveis. Ao
mesmo tempo, a nova mentalidade política nos habituou a crer que só tem
relevância aquilo que faz mudar as coisas: não a teoria, mas a práxis –diz-se–
é o que conta; de nada adianta contemplar a realidade, mas nela mergulhar
ativamente. E, assim, de um lado, à filosofia se quer impor um método extraído
das ciências, que a faz cair inexoravelmente no cientismo; de outro, quer-se impor à filosofia um
condicionamento de tipo ativista que a faz degenerar no praxismo. Tanto num
como noutro caso, pretende-se absurdamente fazer filosofia, matando a
filosofia.
Esclareçamos melhor este ponto, a nosso ver determinante. Veremos
amplamente no curso da nossa exposição que o problema filosófico nasceu e se
desenvolveu como tentativa de apreender e explicar o todo, ou seja, a
totalidade das coisas ou, pelo menos, como problemática
da totalidade. E a filosofia só permanece tal se e enquanto tenta medir-se
com o todo e busca projetar para si mesma o sentido da totalidade. Ao
contrário, as ciências nasceram como consideração racional restrita a partes ou
a setores do real e elaboraram metodologias e técnicas de pesquisa que,
moduladas em função das estruturas dessas partes, só podem valer para elas, e
não podem, de modo algum, valer para o todo.
A precisão dos métodos científicos supõe necessariamente restrições de
âmbitos e simplificações estruturais. Consequentemente, a aplicação ou a
pretensão de aplicar os métodos das ciências à filosofia (isto é, ao todo, pois
a filosofia é sempre e somente, como dissemos, consideração do todo) produz o
monstrum que chamamos de cientismo.
E assim, quando a filosofia renuncia a contemplar para agir, renuncia,
mais uma vez, a si mesma. Com efeito, o empenho prático leva-a a ser,
fatalmente, mais que desinteressada visão e consideração do verdadeiro,
elaboração interessada de ideias submetidas a escopos pragmáticos e, por
conseqüência, de filosofia, ela se transforma em ideologia.
Quanto às novas correntes da vanguarda teológica, deve-se salientar que
o seu erro é, em certo sentido, mais dramático. Elas arriscam-se, querendo
renunciar indiscriminadamente ao logos grego, a renunciar ao logos como tal. É
verdade que, em parte, o pensamento cristão subsumiu conceitos estreitamente
ligados à cultura helênica e, portanto, historicamente condicionados; mas é
também verdade que, junto com eles, subsumiu outros que, além de serem
helênicos, são conceitos racionais universalmente válidos, fruto da razão
enquanto razão e não enquanto razão grega. E sob o processo de des-helenização
da teologia se esconde um neoirracionalismo...
[...] hoje, muitos filósofos ou cultores da filosofia, ou os que se
dizem tais, apresentam-se, para dizer com uma imagem da moda, em larga medida
como personagens mascarados, isto é, inautênticos, incapazes de assumir a fundo
a própria responsabilidade; personagens que não se decidem por renunciar nem à
ambição filosófica nem às vantagens empiricamente mais apreciáveis e concretas
da ciência e da política...”

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