4.7.25

Verdadeira e falsa mística

 Palestra dada no Centro Dom Bosco, no Rio de Janeiro.


Verdadeira e falsa mística

 

Parece haver um certo silêncio ou ignorância sobre a “mística”, na Igreja. Como se a mística ou a vida contemplativa, a vida de união com Deus, fosse apanágio dos religiosos; ou como se a vida ativa devesse absorver todas as energias da caridade cristã. A liturgia corrente há muito não é vivenciada com o devido caráter “mistagógico”, isto é, de introdução ao Mistério de Cristo. Urge recuperar o senso da verdadeira mística dentro da Igreja, recuper a santidade da Liturgia; a vida mística é imprescindível para que a vida cristã seja fecunda, para que o apostolado seja frutuoso, para que possamos alcançar a santidade.

A união com Deus, a Vida Eterna, a santificação ou a “deificação” (como a chamam os orientais), é a meta da vida cristã, e esta união começa com o sacramento do Batismo, e deve se estreitar ao longo de nossa peregrinação, na cooperação com a Graça de Deus, até a Bem-Aventurança celeste.

            Neste sentido, toda a vida de cada cristão é um contínuo processo “mistagógico” ou de “iniciação nos mistérios cristãos”. Todo cristão é chamado à santificação, cada qual segundo seu estado de vida. O Pe. Antonio Royo Marín nos apresenta as seguintes definições para esta santidade à qual somos chamados (todas elas são, no fundo, modulações desta ideia da “união com Deus”, segundo distintas perspectivas):

 

A Sagrada Escritura, os Santos Padres, os teólogos e os grandes místicos experimentais propuseram diversas fórmulas, embora todas coincidam substancialmente. As principais são as seguintes:

 

a) Consiste em nossa plena configuração com Cristo, em nossa plena cristificação. É a fórmula sublime de São Paulo, na qual insiste reiterada e incansavelmente em todas as suas epístolas.

 

b) Consiste na perfeição da caridade, ou seja, na perfeita união com Deus pelo amor. É a fórmula do Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, no plano estritamente teológico.

 

c) Consiste em viver de uma maneira cada vez mais plena e experimental o mistério inefável da inabitação trinitária em nossas almas. É o pensamento fundamental de São João da Cruz e de todos os grandes místicos experimentais.

 

d) Consiste na perfeita identificação e conformidade de nossa vontade humana à vontade de Deus. Assim fala insistentemente Santa Teresa de Jesus.

 

[...] Todas [as fórmulas] são verdadeiras e expressam a mesma realidade, embora contempladas desde pontos de vista diferentes...

 

(ROYO MARÍN, Antonio. Ser ou não ser santo... eis a questão: Compêndio da obra: Teología de la perfección Cristiana. Trad. Ricardo Harada. Campinas: Ecclesiae, 2016, pp. 21-22).

 

            No caminho desta busca da união com Deus, muitas vezes nos deparamos com vias falsas, com falsos misticismos, que se caracterizam como três espécies de “falsa gnose”: a gnose “intelectualista”, a “sentimentalista” e a “voluntarista”. Primeiramente falaremos da mística verdadeira, depois destes perigos mencionados que estão à espreita, e terminaremos recordando a articulação entre a contemplação e a ação, a oração e a vida apostólica.

 

 

1. A vida mística

 

a) Vida ativa e vida contemplativa

 

Nossa vida e nossa busca da santidade são constituídas por essas duas dimensões: a da ação, ou das atividades externas que se ordenam às necessidades da vida presente; e a da contemplação, que se ordena ao conhecimento da verdade. De um lado, estão nossas atividades transitivas (orientadas para o exterior); de outro, as atividades imanentes de nosso espírito.

Vida ativa e vida contemplativa dividem adequadamente a vida humana (cf. S.Th. II-II q179), como nos sugere a passagem de Marta e Maria (cf. Lc 10,38-42). Das duas, a contemplação “é a melhor parte”, tem a primazia (cf. S.Th. II-II q182); mas isso não significa que devamos dedicar mais tempo a ela que à ação – exceção feita, evidentemente, aos chamados à vida contemplativa –, e sim, considerá-la como valor mais elevado.

Em nossa condição de viadores, não podemos ocupar-nos unicamente com a contemplação – mesmo nas ordens contemplativas, nas quais seus membros também necessitam viver a dimensão da ação, como sugere o próprio lema beneditino (“ora et labora”) –, pois faz parte do desígnio de Deus que nos dediquemos à ação sobre o mundo (cf. Gn 1,28), como criadores de cultura, de modo que a vida ativa também possui uma grande dignidade.

Nossa própria santificação pessoal ou nosso itinerário místico implica um trabalho ascético, um “tomar a própria cruz”, um esforço e uma tensão, seja desenvolvendo o amor ao próximo, seja trabalhando por nossa própria conversão. Essa tensão, presente em nosso trabalho, em nosso apostolado, em nosso serviço caritativo, e em nosso combate espiritual, não corresponde exatamente às disposições de que necessitamos para a contemplação, mas prepara o terreno para a mesma (cf. S.Th. II-II, q182, a3): vida ativa e vida contemplativa se complementam.

A atitude contemplativa prepara a contemplação orante. Esta atitude é oposta àquela que adotamos diante dos meios, pelos quais só nos interessamos à medida que servem para alcançar nossos objetivos. Pela contemplação, nos aplicamos a um objeto como tal, penetramos em sua forma inteligível. Para atingir a contemplação é necessário primeiramente o recolhimento, a unidade pessoal frente à dispersão; ambos conformam a vida contemplativa: “a verdadeira contemplação é recolhimento, e o verdadeiro recolhimento necessita de se submergir na contemplação” (Dietrich von Hildebrand, A nossa transformação em Cristo).

O objeto contemplado tem um valor intrínseco, e atrai nosso coração com seu conteúdo. Não vivemos aquela tensão para o futuro típica da ação, mas nos demoramos no presente. Somos receptivos ao objeto e nos aplicamos a ele plenamente sem divisão; repousamos no objeto. Receptividade não significa passividade, mas abertura, atenção plena: a contemplação é “um estado de atividade no mais elevado sentido da palavra, que traz consigo a autêntica atualização da pessoa, a verdadeira vida espiritual na sua forma mais intensa” (A nossa transformação em Cristo).

Nada que tenha caráter puramente instrumental pode ser objeto de contemplação, porque não tem capacidade para captar nossa atenção. Uma verdade universal, a beleza de uma obra de arte, uma pessoa querida… são exemplos de objetos passíveis de serem contemplados (neste sentido mais amplo). Eles nos põem em contato não somente com eles mesmos, mas nos levam a transcender nossa vida atual, nos elevam ao mundo dos valores, ou seja, ao reino no qual as coisas terrenas são vistas com seu devido valor, no seu devido lugar: o Reino de Deus. Para que seja verdadeira contemplação, a contemplação de uma criatura deve nos levar a Deus, como, de fato, pode fazer, porque o Senhor “tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas” (Rm 1,20). Assim, “a contemplação dos efeitos divinos também pertence, de modo secundário, à vida contemplativa, enquanto que, através deles, o homem é levado ao conhecimento de Deus” (S.Th. II-II, q180, a4): a contemplação das verdades nos leva a contemplar a própria Verdade Subsistente.

 

 

b) Contemplação e oração

 

A oração é o meio de graça mais acessível para todo católico. Para rezar, basta dirigir nossa mente a Deus, o que só pode ser feito desde algum impulso da Graça. E toda a vida de oração pode ser considerada vida contemplativa – e não apenas a “oração de contemplação” em sentido estrito –, até mesmo a oração vocal. Ao pronunciarmos as fórmulas das orações, devemos fazê-lo unindo nosso coração à voz, e assim “a oração vocal se converte em uma primeira forma de oração contemplativa” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2704). Basta lembrar a reza do Santo Rosário ou a famosa “Oração de Jesus”, dos cristãos orientais.

Com maior razão, ainda, pode-se chamar “contemplativa” à oração mental ou “meditação”, que se debruça sobre os mistérios de Cristo, principalmente através da leitura orante da Sagrada Escritura (lectio divina), ou por intermédio do santo rosário (cf. Catecismo, n. 2708).

A oração contemplativa propriamente dita é “um simples olhar sobre Deus no silêncio e no amor. É um dom de Deus, um momento de fé pura durante o qual o orante procura Cristo, se entrega à vontade amorosa do Pai e concentra o seu ser sob a ação do Espírito” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 571).

Não explicarei aqui os “métodos de oração meditativa”, nem mencionarei a contemplação no sentido estrito dos cristãos “avançados” (contemplação adquirida) e dos “perfeitos” (contemplação infusa), mas direi apenas que a meditação, que pode ser feita com uma passagem da Sagrada Escritura ou um trecho de um escrito espiritual dos santos, pode sempre terminar no chamado “colóquio afetivo” com Nosso Senhor, como o chama Santa Teresa, o qual pode ser considerado um germe de oração contemplativa, que todo católico principiante empenhado já poderia buscar: trata-se de se concentrar no mistério que foi compreendido através da meditação, de um rezar com o coração. Sobretudo a Liturgia da Missa é o espaço de contemplação por excelência para todos os católicos: espaço de silêncio, de audição das melodias gregorianas angélicas, de contemplação espiritual do Sacrifício da Cruz e da Entrega Eterna do Verbo Divino ao Pai.

Importante dizer que, na oração cristã, não se trata de contemplar o Deus impessoal do panteísmo, ou “fundir” nossa realidade humana na realidade divina: unidos a Deus conservamos nossa identidade pessoal, uma vez que a alteridade é um bem e existe em Deus mesmo, Uno e Trino (cf. Carta aos Bispos da Igreja católica sobre alguns aspectos da meditação cristã, 14).

c) As três vias do itinerário místico

 

O Pe. Tanquerey, em seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística, infere das palavras de Cristo “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lc 9,23), as três vias, graus ou etapas da vida cristã: o primeiro grau é a abnegação ou renúncia da “via purgativa”; levar a cruz já supõe o exercício das virtudes ou o segundo grau, a “via iluminativa”; finalmente, o sequatur me é a união íntima com Jesus, a união com Deus, e, portanto, a “via unitiva” (cf. AD. TANQUEREY, Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1961, p. 296).

S. João Clímaco assim descreve, na sua Escada Santa, a peregrinação do cristão:

 

Peregrinação é pôr de lado, desamparar, com toda a constância, tudo quanto nos impede o propósito e exercício de piedade, que é louvar e buscar a Deus. Peregrinação é um coração vazio de toda a vã confiança, sabedoria não conhecida, prudência secreta, fugida do mundo, vida invisível, propósito não revelado, amor do desprezo, apetite de angústias, desejo do divino amor, abundância de caridade, aborrecimento de passar como sábio ou como santo, e um profundo silêncio da alma. [...]

 

[...] A peregrinação verdadeira é uma perfeita separação de todas as coisas, com intento de jamais, tanto quanto seja possível, separar de Deus o nosso pensamento. Peregrino é amador de perpétuo pranto, arraigado nas entranhas pela memória de seu Criador [...]

 

O Pe. Garrigou-Lagrange, ao falar das três vias e das três conversões, evoca a analogia com as idades do homem natural: a infância, a adolescência e a vida adulta, como fizera o próprio S. Tomás (II-II, q. 24, a.9), relacionando ainda com a noite dos sentidos e a noite do espírito de S. João da Cruz:

 

[...] Não há como evitar: é preciso que a pessoa saia da infância desenvolvendo-se normalmente; caso contrário, ou toma direção má ou então se torna um atrasado mental, um anormal instável ou talvez um anão espiritual. 'Quem não progride, regride'.

 

Aqui fica claríssima a analogia com a vida espiritual: veremos que o iniciante que não progride como deveria vira-se para o mal ou então permanece como uma alma retardada, amortecida, como um anão espiritual. Aqui também, 'quem não progride, regride', como frequentemente disseram os Padres da Igreja (p. 37).

 

[...] O jovem, que fisicamente está completamente formado, deve começar a tomar o seu lugar na vida social [...] Muitos atravessam mal esta crise da primeira liberdade e, como o filho pródigo, afastam-se da casa paterna [...] Também aqui é imperativo sair da adolescência normalmente; caso contrário, entra-se por um caminho errado, permanecendo um atrasado, daqueles dos quais se diz que ficam a vida toda como crianças.

 

O verdadeiro adulto [...] tem uma mentalidade nova, preocupa-se com questões mais gerais, pelas quais o adolescente ainda não se interessa; compreende a idade anterior mas não é compreendido por ela; conversar sobre certos assuntos não lhe é mais possível, ou então será uma conversa muito superficial.

 

Na vida espiritual há algo de semelhante, entre aquele que progride e o perfeito. O perfeito deve compreender as fases que ele mesmo atravessou, mas não pode esperar que seja plenamente compreendido por aqueles que ainda não as atravessaram (p. 38).


[...] assim como há uma crise mais ou menos manifesta e mais ou menos bem suportada, quando alguém passa da infância à adolescência, a chamada crise da puberdade, ao mesmo tempo física e psicológica, há também uma crise análoga para passar da vida purgativa dos principiantes à via iluminativa dos avançados. Esta crise foi descrita por muitos grandes espirituais, notadamente por Tauler, mas principalmente por São João  [...] sob o nome de purificação passiva dos sentidos, pelo padre Lallemant S.J., e muitos outros sob o nome de segunda conversão" (p. 38).


"Como o adolescente, para chegar adequadamente à idade adulta, precisa atravessar bem a crise anterior da primeira liberdade e não abusar dela quando está longe dos olhos paternos, assim também, para passar da via iluminativa dos avançados à verdadeira via unitiva dos perfeitos, há outra crise espiritual, mencionada por Tauler, descrita por São João Cruz sob o nome de purificação passiva do espírito, e que merece ser chamada de terceira conversão ou melhor, uma transformação da alma" (p. 39).

 

(GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. As 3 vias e as três conversões. 4a ed. Rio de Janeiro: Permanência, 2011)

 

Guilherme de St-Thierry, em sua Carta de Ouro fala, desde outra perspectiva, dos três gêneros de vida cristã: o dos iniciantes ou “animal”, o dos que progridem ou “racional”, e dos perfeitos ou “espiritual":

 

São “animais” aqueles que, por natureza, não agem segundo a razão nem são conduzidos pelo affectus [trata-se, no autor, de um afeto espiritual, de um amor espiritual, que é produzido em nós pela união com Deus]. Mas que, movidos pela autoridade, ou admoestados pela doutrina ou instigados por algum exemplo, aprovam o bem, onde o encontram, e, à semelhança dos cegos, levados pela mão, seguem, isto é, imitam. São “racionais” os que, pelo juízo da razão e o discernimento da ciência natural, possuem o conhecimento e o desejo do bem, mas que todavia lhes falta o affectus. São “perfeitos” aqueles que agem segundo o espírito [o próprio espírito criado, a dimensão humana mais sublime] e que pelo Espírito Santo são mais plenamente iluminados. E por degustarem do bem, cujo affectus os atrai, são chamados de “sábios”. E porque o Espírito Santo os revestiu – como outrora a Gedeão, como que com as vestes do Espírito Santo – são chamados de “espirituais”.

 

O primeiro estado se ocupa do corpo, o segundo da alma, o terceiro só encontra repouso em Deus. Cada um deles possui tanto um modo bem definido de progresso quanto uma medida bem definida de perfeição, conforme o seu estado.

O início do bem, no modo de vida animal, é a perfeita obediência; o progresso é submeter o corpo e reduzi-lo à servidão; a perfeição é quando o hábito do bem se transforma de “costume” em prazer. O início para o racional é a compreensão daquilo que lhe é apresentado na doutrina da fé; o progresso é a preparação, segundo aquilo que lhe é apresentado; a perfeição é quando o juízo da razão para o affectus da mente. A perfeição do racional é o início do espiritual; o seu progresso é contemplar a glória de Deus com o rosto descoberto; sua perfeição é ser transformado nessa mesma imagem, de claridade em claridade, como pelo Espírito do Senhor (cf. 2Cor 3,18).

 

(GUILHERME DE ST-THIERRY, Carta de Ouro. Tradução de Pe. Gabriel Augusto Vecchi. Campinas: Ecclesiae, 2016, pp. 79-81).

 

Não são etapas estanques, como se, no processo, a purificação, a iluminação e a união não se compenetrassem. Como diz o meu amigo Lincoln Hein, cantor sacro, arteterapeuta e estudioso da mística, as três estão sempre unidas:

 

a purificação ilumina e une; a iluminação purifica e eu; a união purifica e ilumina [...] o processo mistagógico de união com o mistério num primeiro momento é mais purificativo afastando do pecado, num segundo momento é mais iluminativo e num terceiro momento é mais unitivo [...]

 

Fica esclarecida a tríplice ação mistagógica da graça pela oração purificativa dirigida a o Pai no coração, pela bem-aventurança da conformidade com a Luz do Verbo nos pensamentos e pelo dom unificante do Espírito Santo na vontade que ama (Coração Orante, pp. 18-19).

 

As três vias podem ser visualizadas na Santa Missa, onde tomamos consciência e pedimos perdão dos nossos pecados ao início, somos iluminados pela Palavra de Deus, e nos unimos a Cristo pela Eucaristia, que, no momento da transubstanciação, nos convida a uma atitude eminentemente contemplativa (cf. Jo 12,32;19,37).

O Pe. González Arintero ensina que a vida mística do cristão é participação da morte e ressurreição de Cristo:

 

A vida de Jesus Cristo [...] foi um contínuo morrer, isto é, uma morte mística cujo último ato e consumação foi a morte natural. Deste modo, a nova vida que as almas fervorosas devem levar em Jesus Cristo não é outra coisa senão um contínuo morrer a si mesmas; é morrer aos mais leves pecados e mesmo às menores imperfeições; morrer ao mundo e a todas as coisas exteriores; morrer aos sentidos e aos cuidados imoderados do corpo; morrer ao caráter e aos defeitos naturais; morrer à própria vontade, à estima e ao amor de nós mesmos, e até às consolações espirituais; morrer aos apoios e seguranças com respeito ao estado de nossa alma; enfim; é morrer a toda propriedade – ou apego – nas coisas concernentes à santidade. Por estes diversos graus de morte, a vida mística de Jesus Cristo vai se estabelecendo em nós; e quando se tenha dado o último golpe de morte, então Jesus Cristo nos ressuscita, comunicando-nos as qualidades de sua vida gloriosa, enquanto possível neste mundo.

 

(GONZÁLEZ ARINTERO, Juan. Graus da oração e os principais fenômenos que os acompanham. Campinas: Ecclesiae, 2017, p. 16).

 

2. O falso “misticismo”

 

            Na purificação ou via purgativa, há uma primazia da vontade; na iluminação ou via iluminativa, uma primazia da inteligência; e na união ou via unitiva, há uma unidade da inteligência e da vontade, e uma primazia da memória de Deus ou do coração, enquanto afetividade ou amor espiritual do fundo da alma, em sentido bíblico. Os falsos misticismos ou falsas gnoses – que se opõem à verdadeira gnose ou conhecimento de Cristo – se apoiam na distorção da ação voluntária, da especulação racional e dos afetos. 

 

a) Falsa mística intelectualista

 

            Aqui, o maior perigo no presente é o chamado “perenialismo”. Sobre este já falei em 2 ou 3 aulas há 2 anos. Também já escrevi um par de artigos substanciais. Remeto-os a estas coisas, e vou sintetizar aqui. O perenialismo é a ideia de que existe um idêntico núcleo “esotérico” ou “metafísico” ou “místico” nas chamadas “grandes religiões” do Ocidente e do Oriente. Esta ideia é falsa, porque tal núcleo corresponde fundamentalmente à metafísica do panenteísmo, que se opõe à metafísica cristã da criação, sendo um panteísmo e uma gnose muito sofisticados: não proclama uma identidade entre o mundo e Deus nem um dualismo entre Deus e o mundo, mas sua identidade pelo fundo subsistente: assim, o fundo da alma humana ou o “intelecto” seria coincidente com a essência divina “manifesta” (seja o “atman” do bramanismo, seja o “nous” neoplatônico, da cabala, do sufismo ou de certas fórmulas heterodoxas de místicos especulativos cristãos, como Escoto Eriúgena ou Mestre Eckhart). Para o católico que não domina as devidas distinções metafísicas, não é difícil confundir a ordinária Presença Divina no seio do mundo e do espírito, como Causa criadora e conservadora – Presença distinta daquela pela Graça, em que Deus é formalmente conhecido e amado como Senhor e Redentor –, tal como ensinam as Escrituras, os santos e o magistério, e este tipo de presença essencial propalada pelos perenialistas.

            O perenialismo será uma tentação maior para católicos estudiosos e “intelectuais”. Como disse à época, as principais consequências práticas são: 1) o aderente ao perenialismo adere à heresia do panenteísmo (condenada no Concílio Vaticano I); 2) adere ao indiferentismo religioso e nega o dogma da exclusividade da Religião Católica; 3) o perenialismo conduz a um intelectualismo vazio, sem substância espiritual, pois o sujeito crê que o conhecimento informativo ou erudito sobre as religiões e suas metafísicas e símbolos já é suficiente; 4) o perenialista cai facilmente na soberba tipicamente gnóstica, crendo que é um sujeito “superior” aos “profanos”, e até ao magistério infalível da Igreja, por conhecer esse esquema “metafísico” (falso); 5) o perenialista pode ser conduzido à dissolução moral, em consequência da soberba, achando-se acima das exigências da lei natural moral (não pelo cumprimento pleno do amor, mas pela anomia); 6) o perenialismo leva à ignorância da Fé católica, pois a verdadeira teologia mística é substituída pela “metafísica” ou “esoterismo” perenialista, a mistagogia litúrgica é substituída pelo “simbolismo e cosmologia tradicionais” (sic), e a formação catequética básica é muitas vezes preterida pela “formação literária do imaginário” (e a literatura moderna está infestada de romantismo e de sua ontologia... panenteísta!); 7) o perenialismo pode instrumentalizar a política conservadora para suas finalidades.

 

b) Falsa mística voluntarista

 

Não há maior distorção da mística no presente (ou em si mesma) que a mistificação da política. O século XX presenciou a mais profunda perversão espiritual da história: captação da mística pela política. A mística é a experiência espiritual de Deus, o Absoluto. A política é o âmbito mais importante da vida temporal enquanto temporal: trata-se da pessoa humana partilhando a vida de uma comunidade constituída pelo consenso racional em torno de leis. São patamares distintos: por um lado, a transcendência e o mundo do Espírito, por outro, a relatividade do mundo histórico, que não pode absolutizar seus objetivos e práticas; que a política deva estar ordenada ao fim sobrenatural, orientada aqui e agora pela realeza social de Cristo, é uma coisa, mas que ela passe a considerar o fim divino como um objetivo formalmente seu, e os meios políticos como os instrumentos adequados para atingir este fim, é outra bastante diferente. Religião e Política são os 2 pólos ordenadores do universo da experiência humana: a ordem espiritual e a ordem temporal. A perturbação mais grave da ordem natural é a violência espiritual da política que absolutiza a relatividade, de modo extremo na experiência dos totalitarismos comunista e nazista, mas de modo mais sutil (sem violência ostensiva) e quiçá mais perigoso para o espírito – “não temais os que matam o corpo, mas a alma” –, a agressividade moral do liberalismo com sua democracia laicista e relativista, e sua estrutura econômica injusta que permite que a violência do estatismo permaneça à espreita. Obviamente, a tentação aqui é sobretudo a famigerada “teologia da libertação”.

Seguindo aqui a reflexão do Pe. Lima Vaz, trata-se de uma transfusão de antigos motivos gnósticos no projeto titânico de inversão radical do anúncio cristão da Encarnação do Verbo: projeto de autodeificação do ser humano na imanência da sua história. A teologia e a mística deveriam se submeter ao que Hegel denomina “a grandeza do ponto de vista do mundo moderno, esse aprofundamento do sujeito em si, vem a ser, que o finito sabe-se como infinito e está, portanto, enredeado com a oposição que é impelido a dissolver”. O alvo da unio mystica deixa de ser a profundidade insondável do Deus transcendente e é posto na História ou, mais exatamente, na práxis histórica do ser humano, absolutizada como práxis demiúrgica de um mundo onde impera a total autárkeia do ator histórico.

A teoria e prática da modernidade são assim um imenso processo da gênese do homem novo a partir do espírito invertido da mística, num humanismo ateu. O séc. XIX assistiu às mais espetaculares inversões da mística especulativa: o prometeísmo marxiano e o dionisismo nietzcheano. Em termos eclesiásticos, essa transformação ronda o “humanismo integral” maritainiano, está à espreita da “fraternidade universal” montiniana, e se concretiza na TL. Temos que nos cuidar também para que nosso apostolado não nos converta em ativistas ou voluntaristas que se esquecem da vida de oração e do primado do Senhor: “Sem Cristo, nada podemos fazer”; sem oração, tornamo-nos ateus práticos ruins como os piores teólogos libertadores.

 

c) Falsa mística sentimentalista

 

            Não há engano místico mais fácil que as falsas revelações e os falsos dons carismáticos. Porque apelam imediatamente ao emocionalismo muito comum nas pessoas, e porque há uma confusão imensa entre a profundidade da Fé e a intensidade dos afetos sensíveis. A vida espiritual iniciante tem sua ascese (sua penitência e sua mortificação) agraciada com consolos sensíveis e afetivos, mas estes jamais são o motor principal da vida cristã, senão efeitos colaterais do crescimento na Fé, que animam o princípio do compromisso cristão, e que logo são retirados para o avanço espiritual que se fundamenta na confiança em Deus.

O que é um “carisma” autêntico? É um dom extraordinário do Espírito Santo geralmente dado para o bem comum da Igreja:

 

4. [...] Los carismas son reconocidos como una manifestación de «la multiforme gracia de Dios» (1Pe 4, 10). No son, por lo tanto, simples capacidades humanas. Su origen divino se expresa de diferentes maneras: según algunos textos provienen de Dios (cf. Rm 12, 3; 1Co 12, 28; 2Ti 1, 6; 1Pe 4, 10); según Ef 4, 7, provienen de Cristo; según 1Co12, 4-11, del Espíritu. Dado que este pasaje es el más insistente (nombra siete veces al Espíritu), los carismas se presentan generalmente como una «manifestación del Espíritu» (1 Co12, 7)

 

5. En1 Co12, 7 Pablo declara que «en cada uno, el Espíritu se manifiesta para el bien común», porque la mayoría de los dones mencionados por el Apóstol, aunque no todos, tienen directamente una utilidad común. Esta destinación a la edificación de todos ha sido bien entendida, por ejemplo, por San Basilio el Grande, cuando dice: «Y estos dones cada uno los recibe más para los demás que para sí mismo [...]. En la vida ordinaria, es necesario que la fuerza del Espíritu Santo dada a uno se transmita a todos. Quien vive por su cuenta, tal vez puede tener un carisma, pero lo hace inútil conservándolo inactivo, porque lo ha enterrado dentro de sí»[15]. Pablo, sin embargo, no excluye que un carisma pueda ser útil sólo para la persona que lo ha recibido. Tal es el caso de hablar en lenguas, diferente bajo este aspecto, al don de la profecía[16]. Los carismas que tienen utilidad común, sean de palabra («palabra de sabiduría», «palabra de conocimiento», «profecía», «palabra de exhortación») o de acción («ejecución de potencias», «dones del ministerio, de gobierno»), también tienen una utilidad personal, porque su servicio al bien común favorece, en aquellos que los poseen, el progreso en la caridad. Pablo recuerda, a este respecto, que, si falta la caridad, incluso los carismas superiores no ayudan a la persona que los recibe (cf.1 Co13, 1-3). Un pasaje severo del Evangelio de Mateo (Mt7, 22-23) expresa la misma realidad: el ejercicio de los carismas vistosos (profecías, exorcismos, milagros), por desgracia, puede coexistir con la ausencia de una auténtica relación con el Salvador. Como resultado, tanto Pedro como Pablo insisten en la necesidad de orientar todos los carismas a la caridad. Pedro da una regla general: «pongan al servicio de los demás los dones que han recibido, como buenos administradores de la multiforme gracia de Dios» (1 Pe4, 10). Pablo se refiere, en particular, al uso de los carismas en las manifestaciones de la comunidad cristiana y dice, «todo sirva para la edificación común» (1Co14, 26).

 

(Carta Iuvenescit Ecclesia sobre os dons carismáticos e hierárquicos da CDF)

 

            Os carismas não são necessariamente um signo de santidade. Eles são um dom para a santidade: do portador do carisma e dos seus destinatários. Supostos carismas extraordinários não indicam por si que o sujeito carismático está unido a Deus. Fenômenos místicos extraordinários, como revelações ou levitação, que realmente podem ocorrer com grandes santos, tampouco são condições ou manifestações necessárias de uma grande santidade. Os santos místicos nos ensinam a não desejar este tipo de manifestações, que não são meios necessários para chegar à união divina. O desejo de revelações tira a pureza da fé, desenvolve uma curiosidade perigosa, é fonte de ilusões, como diz S. João da Cruz citado por Tanquerey. O grande dom que pode ser aspirado por todos sem risco de soberba é a Caridade.

             A confusão “carismatista” ocorre hoje precisamente no meio da Renovação Carismática Católica (RCC), surgida a partir de um encontro entre católicos e protestantes pentecostais na década de 60 do século passado, e que tem seu foco na ideia do “batismo no Espírito Santo” e no “dom de línguas”. Se o Papa Leão XIII, em sua encíclica Divinum Illud Munus, sobre o Espírito Santo, mencionou que talvez haja cristãos que desconhecem o Divino Paráclito ou que têm do Consolador um conhecimento parco (cf. n. 21), o modo ordinário com o qual a Igreja nos exorta a conhecer melhor o Espírito Santo, contudo, não é através do pedido e recepção de “carismas” especiais, mas sim do reconhecimento de sua inabitação pela Graça santificante em nossas almas, com todas as consequências que isto tem para a nossa vida espiritual (ascética e mística). É na atenção às secretas inspirações e moções do Divino Dom que consiste o conhecimento do Espírito de Amor (cf. Divinum Illud Munus, n. 17), e não no estardalhaço. A propósito, o espetacular e mal-chamado “batismo no Espírito Santo” (sic) dos Apóstolos (cf. At 2, 1-4) e, posteriormente, dos samaritanos (cf. At 8, 5-25), dos gentios (cf. At 10, 44-48) e dos discípulos de João (cf. At 8, 5-25), mais o “dom das línguas”, tinham um peculiar caráter fundacional: era a manifestação do nascimento da Igreja Católica ou universal, primeiramente entre os discípulos diretos e primeiros de Cristo, depois entre os judeus heréticos marginalizados, entre os incircuncisos marginalizado, e entre os judeus fiéis que seguiam a João Batista. O “dom das línguas” reportado – ele não é mencionado no episódio da conversão dos samaritanos – se refere ao falar línguas estrangeiras: é o sinal de que a Igreja existe para recompor o que foi fragmentado em Babel. Como diz Santo Agostinho:

 

Quem em nossos dias, espera que aqueles a quem são impostas as mãos para que recebam o Espírito Santo, devem, portanto, falar em línguas, saiba que esses sinais foram necessários para aquele tempo. Pois eles foram dados com o significado de que o Espírito seria derramado sobre os homens de todas as línguas, para demonstrar que o Evangelho de Deus seria proclamado em todas as línguas existentes sobre a Terra. Portanto o que aconteceu, aconteceu com esse significado e passou" (apud LIMA, Alessandro, O Dom das línguas).

 

            Tal derramamento visível do Espírito Santo é, repito, um evento fundacional, que como o dom das línguas, significa a universalidade da Igreja, a qual abarca potencialmente todos os homens, quer as vertentes do antigo povo de Deus, quer os demais povos da terra representados nos gentios. Também é um signo visível ostensivo do que acontece pelo Batismo sacramental: quando S. Pedro cita as palavras de Nosso Senhor (“João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo”), ele não está distinguindo o Batismo sacramental cristão instituído por Cristo do suposto “batismo no Espírito Santo” (sic), pois isto faria equivaler o Batismo cristão e o de João, mas está distinguindo o batismo de João com água do Batismo cristão com água: apenas o segundo significa o derramamento interior do Espírito Santo, que naquela circunstância fundacional foi excepcionalmente exterior também, para patentear visivelmente o acontecimento sobrenatural espiritual do arrependimento e do dom da Fé (cf. At 11, 15-18). Também o fato de que os apóstolos principais, Pedro, o chefe da Igreja, e João, dirijam-se à Samaria para confirmar o Batismo do diácono Felipe, é um signo tanto da autoridade apostólica quanto de uma solene acolhida oficial dos antigos hereges pela Igreja. Em seu momento fundacional, a Igreja abre as portas do Céu para todos os homens através do Batismo sacramental, e esta realidade espiritual é sinalizado com o portento visível do derramamento do Espírito sobre a estas 4 categorias de homens, que representam a totalidade da humanidade chamada à converter-se a Cristo: os discípulos de Nosso Senhor, os judeus que eram fiéis e também os que não eram, e os gentios que eram pagãos.

Para além do uso indevido da expressão “batismo no Espírito Santo” (sic), qualquer intento de reprodução do derramamento do Espírito daquela circunstância fundacional é um equívoco teológico: o de que a Igreja necessitaria uma sorte de “refundação” (sic). Como diz o Papa Leão XIII:

 

não é absolutamente admissível excogitar-se ou guardar uma segunda, mais ampla e fecunda “aparição ou revelação do Espírito Divino”; a que atualmente se efetua na Igreja é deveras perfeita, e nela permanecerá incessantemente até que a Igreja militante, após o percurso do seu período de lutas, seja transplantada para as alegrias da Igreja triunfante no céu (cf. Divinum Illud Munus, n. 10).

 

E no caso do “dom das línguas” mencionado ao longo do capítulo 14 da Primeira Epístola aos Coríntios? Haveria uma diferença entre “xenolália” (o já mencionado falar em línguas estrangeiras) e “glossolália”, que seria o falar em sons estranhos pelos quais somente o espírito ora, mas não a inteligência (a não ser que haja quem interprete)?

Como meu amigo Alessandro Lima demonstra, na sua obra breve, mas substancial, sobre O Dom de Línguas, o consenso dos Padres interpretou tal dom como xenolália. Santo Tomás mencionou duas possibilidades sobre o dom de 1Cor 14: a xenolália ou ainda a pregação sobre visões ou símbolos. Ele também mostrou que, na história da Igreja, grandes santos pregadores, como Santo Antônio de Pádua, S. Vicente Ferrer, S. Francisco Xavier e S. Francisco Solano, apresentaram o dom de línguas como xenolália.

O bíblico e tradicional dom de línguas não corresponde, portanto, à emissão de sons sem sentido: trata-se de línguas estrangeiras ininteligíveis para quem fala ou ora e para quem escuta sem que haja intérpretes; ou então de visões simbólicas também ininteligíveis à parte do dom da interpretação.

            É preciso reconhecer que, no meio desta crise eclesial, onde há muita confusão e desorientação, a RCC tem seus méritos, de evangelização e de compromisso cristão de seus membros. Isto é evidente. Mas também é preciso dizer que os tem apesar da autocompreensão sobre tais supostos “carismas”, e não por causa deles.

 

 

3. A modo de conclusão: Contemplação e ação 

 

A ação se nutre da contemplação; sem essa, nossas atividades periféricas nos arrastam para a superfície. Mas a contemplação, nesta vida, regressa à ação; inclusive, para que o fruto da contemplação seja mais perdurável em nossas vidas, é muito conveniente que nossa oração tenha sempre resoluções, para que a Palavra se faça “carne” também em nossa ação, tendo em vista que “toda oração contemplativa cristã remete constantemente ao amor do próximo, à ação e à paixão, e, precisamente dessa maneira, aproxima mais a Deus”, como nos diz a Carta sobre a meditação cristã (n. 13), comentando a passagem da Transfiguração.

Devemos ter em consideração, no entanto, que a contemplação não é formalmente um “meio” para agirmos melhor, mas encontro pessoal com Deus (fim último da vida cristã), que transfigura nossa vida, permitindo-nos viver uma liturgia diária, encontrando a Deus em todas as circunstâncias, também nas pessoas a quem dirigimos nossa amizade, ação apostólica e serviço fraterno.

A contemplação nos ajuda a ver o rosto do Senhor naqueles que sofrem, aprendendo a servir-Lhe nestes. O amor incondicional ao próximo, como vivido por Jesus, se torna possível em virtude da contemplação, na qual aprendemos a ver os demais com os olhos de Deus.

A ação se impõe como companheira inseparável da contemplação nesta vida também através da necessidade de romper com o pecado através da conversão, da luta ascética, pois “Quem subirá ao monte do Senhor, quem estará no seu lugar santo?”, senão aquele que “tiver as mãos limpas de culpa e o coração puro” (Sl 24,3-4); são os “puros de coração que veem a Deus” (cf. Mt 5,8). Por isso a via “purgativa” da mortificação, do combate espiritual (que é nossa preparação remota para a vida de oração), é necessária à via “iluminativa” da meditação cheia de afeto e à via “unitiva” da contemplação. 

Precisamos ter sempre em conta a perspectiva da cooperação com a graça (cf. Cl 1,29), realizando nossa parte, sem, entretanto, esquecer-nos de que nossa amorosa entrega é impulsionada pelo próprio Deus, que está ao início e ao término de nossa oração. Reiteramos a unidade entre vida contemplativa e vida ativa, ambas se apoiam mutuamente: nosso trabalho, nosso apostolado, nossa caridade, nosso combate… tudo isso deve ser vivido permeado pelo espírito da oração e da contemplação, que é o mesmo Espírito do Senhor; e ao mesmo tempo, a vida vivida sob o impulso desse Espírito torna o fiel cada vez mais apto para a íntima comunhão com o Senhor.

O recolhimento necessário à contemplação não se limita aos momentos  contemplativos, mas pode perdurar na ação, e através de sua vivência, se pode viver o espírito de contemplação sempre, o qual também é ajudado por pequenos exercícios da presença de Deus, como as jaculatórias, as bênçãos das refeições ou o Angelus.

De outra parte, só pode ser recolhida a pessoa que dá à contemplação seu devido lugar no dia-a-dia. Preciso dedicar, todos os dias, algum tempo à oração interior: necessitamos da solidão, para percebermos a companhia d’Aquele que está “no segredo” (cf. Mt 6,6). E assim, gozando, desde agora, da intimidade do Senhor da Vida, nos preparamos para a eternidade, onde só haverá contemplação, como nos recorda S. Agostinho: “ali festejaremos e contemplaremos, contemplaremos e amaremos, amaremos e louvaremos. Eis o que será no fim sem fim” (A Cidade de Deus, XXII, 30).




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